Conheci-a tarde demais e, ainda assim, não foi logo que reconheci o seu valor. A primeira vez que soube da sua existência foi através das extraordinárias fotografias de Robert Mapplethorpe de quem sempre fui devota. Na altura, nem sabia que ela era a Patti Smith.
Pensava apenas que era uma criatura um bocado atípica, meio andrógina, algo alternativa, que encaixava bem no mundo meio louco do excelente e controverso miúdo.
Reconheço em mim, não sei se fruto de uma diferente disponibilidade ou de uma maior maturidade, uma evolução do meu gosto. Agora gosto muito de Patti Smith e não apenas a nível musical. Por exemplo, gostei bastante de ler o seu autobiográfico 'Apenas miúdos'. E gosto de ouvir e ver as suas entrevistas, parece que há nela não apenas uma grande sinceridade como uma grande candura.
A caminho dos 80, o rosto vivido de quem já atravessou muitas vidas, tendo também já pisado todos os palcos do mundo, tendo sido entrevistada por tutti quanti, eis que continua a expor-se como a mulher simples que aparentemente sempre foi.
Patti Smith faz uma descoberta pessoal enquanto escreva um novo livro de memórias
Patti Smith está em digressão para celebrar os 50 anos do seu álbum de estreia, "Horses". Ela fala sobre a sua carreira e a descoberta surpreendente que fez enquanto escrevia o seu novo livro de memórias.
Para mim, durante algum tempo, Patti Smith era apenas a amiga especial de Robert Mapplethorpe. Sendo ele homossexual, não era claro para mim se alguma vez tinham sido friends with benefits ou se eram almas que se completavam sobretudo por partilharem aquele registo alternativo, chique, decadente, com agudo sentido estético.
Dela pouco sabia, pois. Era (e sou) grande apreciadora da obra dele e não senti curiosidade em conhecê-la. Era a amiga, o suporte e a musa dele e isso chegava-me. De aspecto andrógino, com feições ambíguas, com um corpo que não segue os cânones da feminilidade, Patti Smith tornava-se interessante sob a lente de Robert Mapplethorpe.
Depois foi envelhecendo e o seu carisma foi-se acentuando. Não sei se não se preocupa com a imagem ou se o que parece quase negligência é um produto trabalhado para ser assim.
Seja como for, é uma pessoa interessante. E, estranhamente, já tem 75 anos. Estas pessoas quando envelhecem surpreendem-me. Patti Smith bem podia ter ficado para sempre naquela idade indefinida em que já tinha um passado bem desfrutado e ainda muita vida para viver. E olho para ela e é assim que a vejo. Não consigo pensar nela como uma idosa ou a caminho disso. Os seus cabelos caídos e compridos são um pouco estranhos, dir-se-ia que não a favorecem, dir-se-ia também que as suas feições são cada vez mais toscas. E, no entanto, olho para ela e não reparo nisso. Reparo, sim, na forma como sorri ao falar, na ternura e na serenidade da sua maneira de conversar. Creio que até a acho bela. É certo que é uma beleza não convencional, não óbvia. É uma beleza intemporal. E é uma simpatia. Gosta de arte, vive para a arte. E isso dá a quem assim vive aquela leveza e luz que abre os corações de quem a ouve.
Como cantora não a acho extraordinária. Mas acho-a uma intérprete especial. Gosto do grão da sua voz e das pausas e da densidade com que desfia as canções.
Gosto de ouvi-la porque transporta a diferença. E transporta também a indiferença perante a banalidade. Não procura a perfeição e toda ela parece assumir orgulho, em toda a linha, na sua magnífica imperfeição. Faz o que quer e isso é do melhor que há.
Salve Patti.
O vídeo abaixo mostra uma entrevista muito interessante e penso que dá uma boa ideia de quem é Patti Smith.
Patti Smith On Losing Her Voice & Mainstream Recognition | Explains It All | Harper's BAZAAR
Patti Smith's life changed when she stepped foot into an art museum as a little girl- and from that moment on, she committed her life to creation. Watch as Patti recalls her experiences with mainstream recognition, using Instagram for the first time, and what it was like losing her voice as a vocalist.