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sexta-feira, agosto 21, 2026

Dia de cão com ovos

 

Não sei porque escrevi aquilo ali em cima. Não faz sentido. Geralmente começo a escrever sem saber bem para onde os dedos me vão puxar e, só no fim, quando percebo o que saiu, tento resumir, dando à prosa um título. Hoje a coisa virou-se de pernas para o ar e comecei pelo fim. Se calhar tem a ver com um pensamento que me assolou esta tarde. Estava num sítio, parada. Estava uma aragem e as árvores ondulavam ao de leve. Tudo o resto parecia imóvel. Pensei: o tempo está em suspenso. Depois pensei que deveria corrigir: talvez não seja o tempo pois, a ser, a terra teria interrompido o seu incessante movimento em volta de si própria e do sol. Depois pensei que, se um dia disparar o gatilho da gravidade e esta desaparecer ou for neutralizada, deixaremos de estar todos atraídos para o centro da terra e passaremos a flutuar por aí, talvez nos percamos pelos vastos mares do infinito, ideia que tem o seu quê de tétrico e de maravilhoso.

E começando assim o texto de hoje até se poderá pensar que o dia foi tão flauteado que até me está a dar para a poesia. Pois não foi. Foi mesmo um dia de cão -- no mau sentido, claro.

Para começar tinha vários assuntos críticos e urgentes para tratar e tudo a requerer computador. Com o meu avariado, há mais de quarenta e oito horas sem tugir nem mugir apesar de mil manobras de eanimação, tive que tentar ultrapassar a terrível condicionante com o telemóvel e com o anquilosado computador cujo techado cobre parte do écran, nomeadamente o que deve estar a descoberto, e onde só se consegue escrever, e mal, uma tecla a seguir à outra, com minutos de intervalo entre cada. Um desespero que me deixa agoniada. 

Várias coisas desagradáveis mas, porque existem, incontornáveis. E sem carro, ainda por cima.

Mas, no meio das chatices que queria ter resolvido rapidamente e que, para mal dos meus pecados, não consegui resolver, aconteceu que, ao fim do dia, ligaram a dizer que já se poderia ir levantar o carro. Tinham resolvido o problema, espero que de vez (e já bati três vezes na madeira não vá o dizer isto dar azar e amanhã já não pega novamente). Portanto, já montada nele, fui logo com o computador à loja das reparações. E lá, começou por não me deixar ficar mal e não arrancou mas, ao fim de uns minutos, arrancou. Se eu estivesse dentro de uma série humorística, naquela altura teria pegado nele e tê-lo-ia atirado ao chão e saltado em cima dele. Caraças. 

Mas o rapaz, sem se rir, disse:'Talvez esteja alguma coisa a bloqueá-lo'. Pensei que só me faltava mesmo era aquele toque de ironiazinha, a falar como se o computador também precisasse de fazer terapia para se livrar de bloqueios. Mas depois percebi que estava a falar num registo puramente técnico. Andou a ver, vasculhou tudo, e, no fim, ambora deveras céptico, disse que talvez um determinado software estivesse a bloqueá-lo e eu disse que não me fazia falta e ele desactivou-o. Portanto, trouxe-o de volta e ele aqui está, nas minhas mãos, lampeiro, ladino. (Refiro-me obviamente ao computador, não ao jovem da loja). 

Os meus dados saltitam de tecla em tecla e quase nem sei por onde eles andam, já conhecem os cantos à casa.

Com as voltas que ainda demos, e demo-las graças a termos a voiture, só chegámos a casa perto das dez. Pelo caminho apanhámos uma pizza que nos soube maravilhosamente, tamanha a fome que trazíamos.

E agora aqui estou, a adormecer entre cada palavra, quase derrotada pelo sono. Para além do dia ter sido arraçado de coisa ruim, também estava eu a dormir, de manhã, ouço a campainha, uma e outra vez. Vesti-me à pressa, pensei que o meu marido estava no seu passeio matinal com o dog, mas depois ouvi a voz dele. Dele, do meu marido. Aliás, dos dois, pois o cão (está melhor, obrigada, Maria Martins. mas ainda lhe dói quando se limpam algumas das feridinhas) ladrava furibundamente como sempre faz quando alguém assoma ao portão, mesmo que do lado de fora. Tinham vindo trazer os ninhos para chapins. Devem ter começado a entrega por nós pois aquilo não eram horas para fazer levantar uma pessoa da cama. O pior é que obviamente já não dormi, tanto mais que o meu marido veio dar-me a boa nova: 'Já chegaram os ninhos para chapins'. Vai pendurar nos pinheiros, aqui e in heaven, pois, ao que consta, os chapins comem as lagartas-do-pinheiro. A ver vamos.

Obviamente não consegui, nem consigo agora, responder aos vossos comentários. E não consigo já falar das coisas mirabolantes que um dos meus netos nos contou na quarta-feira, ao almoço. Coisas verdadeiramente estapafúrdias. Estávamos todos perplexizados. Fica para outro dia. Hoje vou para vale de lençóis. Aliás, não: durmo destapada.

domingo, agosto 16, 2026

Mais um dia sem carro, sem computador e com um cão-fera que tem que ser tratado

 

Continuo naquela marezinha. O computador, que levou séculos a arranjar, veio de lá entre o deficiente e o telhudo. Eternidades para despertar. Da oficina, a quem já reportei, disseram que o levasse lá. Expliquei: em onda de azarinhos, não podia faltar o carro empanado (nota: continua à espera que lhe peguem). Como acabava por se ligar, eu dava o desconto e ia aguentando. Mas este sábado deu bote: não arrancou. Estou outra vez no telemóvel o que me desmoraliza: coisinha pequenina não é para conversa longa. Depois, quando concluir o que estou a escrever, vou ao outro computador, o esclorosado e idoso, o do teclado virtual, e formato minimamente o texto. Aliás estou a ser injusta, o idoso estava nos trinques até que apanhou água. E da oficina dizem que, dada a idade, se calhar não vale a pena. Mas, na volta, um dia destes avanço mesmo para um pedido de orçamento. Quem sabe não é o drama que pintam.

Sem carro, sem o meu computador, sinto-me limitada. Tínhamos pensado que se não nos dessem o carro na sexta-feira, requesitaríamos um de substituição. Mas vacilámos. Receamos seriamente que o animal dê cabo do carro. A maior necessidade era irmos com ele aos tratamentos. 

Mas hoje resolvemos que haveríamos de dar conta do recado. As feridas estão mais secas. Apenas uma está ainda num estado um bocado estranho. Achamos mesmo que ele arrancou um bocado. Depois há umas duas ainda assim-assim. Mas as outras estão no bom caminho. Portanto, suportaria melhor a desinfecção. 

Se não estivesse aqui a escrever numa coisinha na palma da mão, contaria o festival que foi até que, já quase a entregar os pontos, lhe fiz mil festinhas. Estava mesmo com pena dele, mais do que mau feitio, o que ele tem é medo de ser magoado. Aí acalmou-se. Nessa altura o meu marido deu-lhe um apertão sem hipótese, agarrou-o sem margem para se virar e deu-me um grito a mim: 'Pega-lhe no rabo e trata-o!' e eu obedeci e, nem sei como, o canito, fofo, nem estrebuchou. É que, na volta, eu sou parte do problema. Tenho medo de magoar, não consigo, nem quero pensar que vou fazer doer e, por isso, deixo passar todas as oportunidades e ele, que é esperto, mete a cauda toda entre as pernas, senta-se em cima e eu fico sem acesso. Já para não falar que rosna, salta, tenta virar-se, mostra os dentes. E, ao mesmo tempo, o meu marido quase faz o mesmo em direcção a mim porque está a agarrá-lo e a arriscar-se e eu ali feita maricas, sem me mexer. Mas, pronto, acabou por correr bem. Desinfectei, limpei com gaze, devagarinho, e ele deixou, sem estrebuchar. No fim quisemos recompensá-lo com um biscoitinho mas fechou a boca, virou a cara, disse que o comessemos nós.

De qualquer maneira, agora está a pôr o sono em dia. Dorme, dorme. E, ao vê-lo já a deitar-se, tranquilizo-me, significa que o incómodo que o impedia de ter sossego já está a passar. Coitadinho do meu bichinho.


Mas o dia foi bom. Jardinagens, regas, limpezas, leituras, passeios a pé. Gosto dos dias assim. Não sei porquê mas até me parece que estou ainda mais de férias. Só me faz falta o computador para escrever umas coisas mas, enfim, há coisas piores. 

Continuo a ver pouquíssima televisão. Não me dá jeito ver televisão de dia. Só enquanto almoçamos é que a ligamos, mas saltamos crimes, choradinhos, catástrofes, doenças, conversas religiosas ou pseudo-intelectuais. Por isso, com bastante frequência desligamos de seguida. Depois, só volta a ser ligada depois do passeio nocturno. Mas, ainda assim, nessa altura, aproveito para dar uma espreitadela nas redes sociais. 

De vez em quando há coisas que não se entendem. Ontem publiquei no instagram uma fotografia do cãopeludinho a passear à trela levado pelo meu marido. Hoje apareceu-me uma mensagem a dizer para eu tirar um pouquinho para festejar porque aquela publicação já tinha sido vista mais de 3.600 vezes. Fui verificar e era mesmo verdade. Agora já passou as 4.100. Para a maioria das pessoas se calhar não é nada, se calhar tudo o que seja menos de 100.000 é pouco. Mas para minzinha, desconhecida, sem vender nada, sem patrocínios nem conversas de influencer, publicar uma fotografia simples com meia dúzia de palavras e isso ser visto mais de 4.000 vezes é uma coisa que me espanta.

É como aqui no blog. Apesar de já por aqui andar há tanto tempo, ainda me surpreendo quando constato que agora há sempre cerca de 5 ou 6.000 visualizações todos os dias, quando não mais. Sinto-me agradecida, muito, mas deveras surpreendida. Tantas pessoas aí desse lado a ler o que aqui eu e o meu marido vamos escrevendo...

Bem. Fico-me por aqui. Agora vou para o pico-pico, sarapico, no tecladozinho virtual do computador -- que geralmente teima em pôr-se em cima do que estou a escrever -- para formatar isto.

Às vezes penso que tenho ali o tablet da minha mãe, nestas alturas era capaz de dar jeito. Mas ainda não consigo vencer a barreira, também ela virtual, de usar uma coisa que ela tanto usou. Enfim, lá chegarei. 

Desejo-vos um bom domingo.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Notícias do cãovalescente

 

Estou menos preocupada mas estou cansada. O bichinho ontem só adormeceu depois das duas e tal da manhã. Na prática, deixou-se cair -- e ali ficou. Tenho que confessar que até fui fazer aquilo que, à socapa, pela calada da noite, fazia com os meus filhos e que ainda faço com os meus netos: fui confirmar que estava a respirar. 

Já contei várias vezes: na minha vida profissional e mesmo na vida normal há quem me ache destituída de medos. Na verdade sou muito de me atirar, sem medo. Quando quero uma coisa, vou, e acredito que acabarei por conseguir. Até por vezes me arreliava, intimamente, por ser tão destemida. À minha volta ficavam passados, achavam que eu não avaliava os riscos, que parece que não via as confusões em que me ia meter, os obstáculos que iria enfrentar. Mas eu avaliava, simplesmente tinha confiança em que eu e os que eu arrastava nas minhas empreitadas haveríamos de conseguir. E conseguíamos. E mesmo a outros níveis: não tenho medo de ir ao dentista, quase adormeço, nos exames médicos mais longos também quase adormeço de tão descontraída que estou, fui fazer artroscopia aos dois joelhos ao mesmo tempo sem consultar segunda opinião e sem medir consequências e, na véspera, estive aqui até às tantas a escrever como se nada se fosse passar. Sou assim. Mas quando a coisa tem a ver com filhos ou netos sou a mais maricas de que há memória. Chicken mais chicken não pode haver. Também me preocupo com o meu marido, claro que sim, mas não é aquela coisa absolutamente visceral que é com a descendência. Com os meus pais também havia aflição, por vezes bem grande, mas acho que era uma aflição misturada com ansiedade, com um temor de outra ordem --  não exactamente a mesma coisa que medo. 

E com o meu cão-bichinho há uma coisa que também não é fácil: quando o vejo aflito. é a sensação de preocupação misturada com responsabilidade e, também, aflição. Ele não sabe explicar-se, eu tenho que adivinhar, e, se interpreto mal e tomo a decisão errada, ele não pode defender-se. Claro que nisto há uma responsabilidade partilhada com o meu marido. 

Dito desta maneira parece que com os demais não há essa responsabilidade partilhada. Talvez haja mas de maneira diferente. Ele confia, ele desliga. Eu não. Quando os meus filhos eram adolescentes e saíam à noite, ele adormecia na boa. Eu não. No caso da minha filha, por vezes ele levantava-se às três ou quatro para ir buscá-la. Mas, antes disso, dormia. Eu não. Mesmo com o meu filho, já adulto, enquanto vivia lá em casa, eu não dormia, via as horas a passarem, numa inquietação, num sobressalto. Tinha que me conter porque se o meu marido se apercebia disto dizia que eu era maluca (e virava-se para o outro lado, a dormir). No entanto, muitas vezes em certos aspectos, era pior que eu. Eu sabia que eles não queriam que eu ligasse e, por isso, continha-me. O meu marido se acordava e via que era mais tarde e que eu estava numa inquietação, queria que eu ligasse. Eu não queria e ele inistia tanto que eu acabava por ligar. O pior era se eles não atendiam. Aí a coisa virava pânico. E, então, voltava a ligar. Quantas vezes eles depois se aborreciam por verem que eu já tinha ligado carradas de vezes... Enfim. Lembro-me do meu filho me dizer que eu tinha que aprender a controlar-me. Aí o meu marido fazia-se de santinho, todo sonso, como se não fosse ele também a picar-me para eu lhes ligar.

Pois bem. O meu cãobeludinho fofo ontem, tarde e más horas, depois de longas horas de calvário, a andar de um lado para o outro todo o santo dia, sem se deitar e, muito menos dormir, acabou por capotar. 

Pus o despertador para ligar para a clínica logo na abertura. A veterinária do outro dia não tinha chegado e ainda bem. Marquei para uma outra que, felizmente, estava de tarde e que é muito mais soft, mais open mind, menos quero-posso-e-mando. De seguida liguei para a jovem que vinha buscá-lo para ele ser tratado. Relembro: continuamos sem carro. 

A oficina ainda não conseguiu pegar nele. Escassez de mão-de-obra por todo o lado. E ainda há gente estúpida que não percebe que mais mão de obra houvesse e mais a economia cresceria.

Felizmente o meu filho conseguiu abrir alas nos seus compromissos da tarde para vir cá buscar-nos, levar-nos lá e depois trazer-nos. E, pelo meio, abusei como já tinha feito com a minha filha: pedi se, enquanto estávamos lá dentro, podia ir ao supermercado. A minha filha está habituada a fazer compras, ir com uma lista de compras não é transcendente. Mas ele não, lá em casa dele só encomendas online. Por isso, vi o sobressalto que se lhe estampou no rosto quando eu lhe pedi isso. Talvez não ponha o pé num supermercado há anos. Mas, pronto, lá foi... De resto, em qualquer dos casos, a minha ideia original era pedir que parassem por uns minutos que eu ia. Mas, no caso dela, ofereceu-se para ir durante a consulta. No caso dele, disse que tinha que ir abastecer de combustível e, portanto, aproveitei essa brecha que ele abriu.

Esta veterinária da tarde esteve a ver no sistema e, quando o observou, até achou que não estava tão mal como esperaria vendo o descritivo que a colega tinha escrito. O bichinho hoje estava mais tranquilo pois resolvemos seguir o conselho da primeira: que antes de ele lá ir, três horas antes, lhe dessemos um ansiolítico. E demos. Por isso, estava menos reactivo, menos apavorado. Quando a vet desinfectou as múltiplas feridas ganiu, saltou, tentou fugir e, se apanhasse alguém, ter-se-ia vingado, mas nada que se parecesse com o pesadelo de quando a outra médica o torturou no primeiro dia. Ou porque estava mais calmo, ou porque esta o desinfectou de forma mais gentil ou porque as feridas já estão melhor, a verdade é que a coisa foi controlada. A veterinária deu-lhe uma injecção de anti-inflamatório pois a inflamação nitidamente estava a incomodá-lo bastante. E usou um produto mais neutro na limpeza das feridas.

Explicou-me que o exsudado, em especial, o purulento, cria uma crosta que, se não for retirada, os tecidos debaixo ficam necrosados e a pele pode não regenerar. Mas que não tem que ser esfregado ou esfolado. E o líquido a usar não vai ser o betadine ou o outro de que não sei o nome mas que também lhe deve arder para caraças mas sim um que lhe vai dar uma sensação de frescura sem ardor.

Vamos ver. Espero que tudo, a partir de agora, corra melhor. 

No entanto, chegou a casa e pôs-se outra vez às voltas pela casa, de vez em quando parado a olhar fixamente para nós. Agora veio pôr-se aqui encostado a nós, de pé, para lhe fazermos festas. Estávamos a ver que ia ser a mesma coisa. Mas não. Por volta talvez da meia noite e tal, perto da uma, creio, eu disse-lhe: 'vá, agora vai beber aguïnha e vai fazer ó-ó'. Se estivesse aqui o meu filho repreender-me-ia: 'não é um bebé... falas com ele como se fosse...'. Mas sai-me assim, que hei de fazer?. Eu disse-lhe aquilo e ele ficou um bom bocado parado a olhar para mim. Depois saiu da sala, ouvimo-lo a beber água e já não voltou, está a dormir. Felizmente. Também já vai no terceiro dia de antibiótico, há de ir melhorando. 

Entretanto, vai abrir um novo espaço veterinário não muito longe daqui e estou tentada a mudar. Estas agora onde vamos são experientes, a clínica está bem equipada, etc. Mas a veterinária chefe, a dona, é linha dura, para ela os animais não são gente. E para mim são. Como no outro dia citei: cão como nós. E acrescentei: e nós somos gente como ele. 

Tenho que agradecer os comentários tão simpáticos que me deixaram e os mails identicamente queridos, com conselhos e dicas. Não respondo individualmente porque estou muito exausta, a modos que esgotada. Muita contrariedade em simultâneo. E o facto de ter andado, há alguns dias, a dormir muito menos do que necessito, retira-me, ainda mais, a energia.

Esta coisa de estarmos sem carro é uma delas: faz-me sentir dependente e isso deixa-me doente. Amanhã o meu marido vai fazer um ponto de situação com a oficina e provavelmente vamos activar o carro de substituição. Mas não sabemos por quanto tempo. Receamos fortemente que ele, o crazy dog --que, quando vai no carro, quer atirar-se aos motoristas, em especial aos de uber ou glovo, e, como não consegue, se desforra mordendo o estofado das portas ou dos bancos --  dê cabo do carro de substituição e nos vejamos metidos em sarilhos. Irei atrás agarrada a ele. Poder-se-ia pensar que, por ter o colar isabelino, não consegue fazer estrago. Mas a verdade é que ele consegue tudo, já aprendeu os ângulos em que consegue chegar onde quer. Felizmente, até ver, não consegue chegar ao próprio corpo e isso é a principal prioridade neste momento porque, se apanha a cauda, nem imagino o estrago que fará.

Mas, portanto, muito obrigada, do fundo do coração, pelas vossas mensagens amigas. Perceber que aí desse lado estão pessoas com um coração grande dá-me muito conforto.

E vou esperar que nos próximos dias as coisas se vão endireitando. O meu optimismo deve ser a última coisa a morrer. Se calhar, quando estiver com os pés para a cova, ainda vou estar a dizer que o mundo é maravilhoso, as flores um encantamento, e que, vão ver, vai tudo correr bem. 

Tenham um dia muito bom, ok?

segunda-feira, agosto 10, 2026

Um dia com cantorias, bela comida e milagres e experiências novas. E, agora à noite, em descaminho, comento um comentário do outro dia.

 

Os Leitores que comentam são sempre bem vindos mesmo quando comentam parvoíces e me forçam a esconder o que escrevem. Foi o caso de ontem. Estavam danadinhos para a brincadeira. Esticaram-se cá de uma maneira. Tive que os deixar de castigo, claro. 

Outras vezes escrevem coisas que me parecem surreais, tão surreais que nem sei o que responder.

Acresce que tenho andado com o problema do computador. Uns fanicos que não se entendem. Este domingo, quando o liguei, nada. Nada. Não estava falecido que eu bem via uma little luzinha bruxuleante a circundar o botão (Mr. Jorge de Sena, chapeau). Mas nada. Escuridão absoluta. Com a ajuda do Gemini, fui tentando fazer manobras de reanimação. Reset energético, nada. Acordar a placa gráfica, nada. Reactivar a partir do botão de arranque de reserva, nada. Sei lá que mais. Nada. Nada. Sugestão: levá-lo de novo ao lugar de onde veio (mal) reparado.

Agora imaginem. Sem carro. 

E estamos na época dos leões. Uma das hipóteses era fazer os festejos cá em casa. Mas sem mantimentos para tanta gente e sem carro para ir ao supermercado, como? Compras online, dir-me-ão. Mas não é de um momento para o outro, certo? Portanto, fomos nós os convidados. Ou seja: programa de festas -- Ir a umjantar de aniversário e antes ir levar o computador de volta à oficina.

Uber. Pela segunda vez na vida, uber. Tudo bem. 

Chegámos à oficina dos computadores. Tiro o desfalecido paciente do saco, ponho-o no balcão, descrevo a situação: veio ontem de cá, tenho aqui a guia da reparação, e hoje não arranca nem por mais uma. Nada

"Vamos lá ver", diz o rapaz. Abre a tampa e... o computador normal, a funcionar. Juro: a funcionar!

Estão a ver a minha cara? 

Estão a ver a cara de gozo do meu marido? No caminho veio a gozar e a dizer que eu tinha carregado no botão errado. Como errado? Não há erro possível: só tem um botão. E, aliás, nem é preciso carregar em botão nenhum, liga-se mal se levanta a tampa.

Explicação? Não tenho. O rapaz diz que é como quando é para ir ao dentista, passa logo a dor de dentes.

Depois era para ir para casa do aniversariante. Pensámos: Uber? Ou a pé? 

Resolvemos: a pé. Coisa para uma meia hora. Faz-se bem, pensámos.

O pior foi para sair de lá a pé. Pela primeira vez na vida estavamos ali a pé. Sempre para lá fomos de carro. 

Parecíamos, certamente, uns saloios. A olhar para todo o lado sem saber para onde ir, muito menos como apanhar a estrada por onde era suposto irmos (a pé). Tudo vedado. Um trânsito do caraças em volta. Canteiros, bancos de jardim, e junto às estradas tudo vedado. Para mais acima, tudo vedado. Em direcção à outra rotunda: tudo vedado. Resolvemos, então, ir à papo-seco. E, atravessando aqui e ali, lá demos connosco do outro lado e lá iniciámos o caminho. De saco ao ombro, com o computador lá dentro.

'Porque não pediram boleia? Porque não chamaram um uber?', perguntaram-nos quando lá chegámos Mas não, uma bela caminhada. Experiências novas.

O jantar estava óptimo, a companhia o melhor possível, a cantoria uma animação, a divertida toilette do aniversariante um espectáculo (dentro do género, claro). Sempre uma festa.

De volta a casa, de novo uber. O preço muito mais alto. É a lei da procura e da oferta, disseram. Claro, pois então. Queixei-me: um balúrdio, isto. Encolheram os ombros, acham que é o que faz viver afastada da realidade.

Correu bem com o insignificante senão de não conseguirmos abrir a porta, quando o carro lá foi ter connosco para nos apanhar. Nunca tínhamos andado num carro daqueles, o fecho invisível, a forma de funcionar do puxador deveras atípica. O meu filho estava à varanda, perdido de riso. Mas entrámos. E viemos cá dar. É o que interessa.

Há pouco, liguei o computador. Vinha com o credo na boca, receosa de que estivesse outra vez em greve. Mas não. Em contrapartida sem rede, sem acesso às redes, a qualquer rede. Praguejei mentalmente. Not again, filho da mãe. Reiniciei-o. Aleluia. Funcionou.

Amanhã será a saga do carro. Pelouro do meu marido. Todos nos dizem: comprem outro. Não concordo. Estou cada vez menos consumista. Quando trabalhava, de três em três ou quatro em quatro anos, andava com carro novo em folha. Zerinho. Se havia problema, arranjavam-me carro de substtuição, se era preciso garagem, um motorista levava. Nunca me preocupava com tal coisa. Com o meu marido era o mesmo. Agora é toda uma outra cena, transtornos e obrigações por nossa conta.

Por mim, usava o mesmo carro durante mais vinte anos. Quando digo isto, o meu marido, alerta: 'Não te esqueças da idade que tens'. Mais uma razão. 

Ao passo que os meus colegas vibravam com os carros, escolhiam e reescolhiam, avaliavam, faziam testes, discutiam e analisavam entre eles, viam os acessórios e sei lá que mais, eu era assim: 'o que é que há para entrega?'. Ou 'o que é que há em escuro, de preferência preto?'. Depois, quando vieram as modernices, o requisito era outro: 'o que é que há que ainda tenha mudanças?'. Um castigo, já era tudo automático, e automático eu não queria, fazia-me confusão conduzir sem os 3 pedais e sem as mudanças. Portanto, estão a ver, não quero cá saber de carros xpto nem de carros novos. Tenho esperança que a avaria deste seja simples e que o carro dure pelo menos mais os ditos 20 anos. Mas, de preferência, mais que isso.

Mas, voltando ao tema dos comentários. 

No outro dia, alguém escreveu isto: 

"Por aí...até acho que o que Costa fez com a imigração em massa foi um crime. Em quatro ou cinco anos fez entrar nesta terra cerca de um décimo de população. O dobro dos retornados em 1975. Pior ainda, imigração que na larga maioria não serve para nada em tempos de revolução no trabalho com a automação e a IA. Os empresários agrícolas alentejanos precisam de gente para apanhar fruta? Vejam o youtube e a maquinaria inteligente que já por aí há. Precisamos sim de mão de obra qualificada. Mas essa ou não vem para cá ou está na sala de partidas do aeroporto de Lisboa." 

E eu li e pensei que devia ir buscar os óculos, não devia estar a ler bem. Então esta pessoa ainda não viu quem é que está a manter os hotéis e os restaurantes a trabalhar? Acha que poderia prescindir destas pessoas, em favor de malta das IAs? Ou não sabe quem é que lava e desinfecta os hospitais e quem é que dá banho e muda as fraldas a doentes e idosos em hospitais e lares? Acha que é malta das IAs? Ou já viu quem é que trabalha nas obras? É a malta das IAs?

Mais: este comentador não sabe quais os empregos mais sacrificados com a IA? Não sabe que é a malta formada, engenheiros, arquitectos, advogados, informáticos, gestores, financeiros, etc? Não sabe que a malta do trabalho braçal é a malta que se vai safar?

Se não sabe, então faça o favor de se informar. Ora veja.

Em que mundo vive esta pessoa e todas as que condenam a imigração? Não conseguem perceber que grande parte dos sectores económicos assentam em mão de obra que já é, na maioria, imigrante, e que, se deixar de existir, lá vai a economia para o galheiro? Qual IA qual carapuça nas actividades em que a mão de obra imigrante hoje trabalha... E se não forem eles quem é? Temos cá gente em número suficiente para se ocupar destes trabalhos? Claro que não. 

A minha filha costuma passar uma semana num turismo de habitação que este ano não conseguiu manter-se aberto no regime habitual porque não tem quem faça o trabalho, os pequenos almoços, etc. Não arranjou ninguém.

Eu, no meu latifúndio campestre, em que caíram carradas de árvores e pernadas, ainda não consegui tirar de lá grande parte daquilo porque não arranjamos quem o faça. Há lugares em que a imigração ainda não chegou e em que não se arranja ninguém para fazer este género de trabalhos pesados e debilmente remunerados. Dirão os mais simples de espírito: pague-se mais. Não resolve. As pessoas que há são pessoas de idade, que já não são capazes de trabalhos mais difíceis, ou pessoas que estão a trabalhar, sem tempo livre para uma segunda ocupação.

Tudo isto me parece óbvio. Mas, então, porque é que ainda há tanta gente com medo dos imigrantes? Em vez de estrem agradecidos (eu estou), falam mal deles, querem vê-los pelas costas. Estupidez? Deficiente informação? Espírito caguincha, medo de tudo?

Ainda não leram sobre a preocupação que vai nos Estados Unidos com os industriais a queixarem-se do abrandamento económico por falta de mão de obra, nomeadamente imigrante?

Há gente que tem uma mente tão fechada e tão deformada que nem consegue raciocinar, vivem alimentados pelo medo, medo dos imigrantes. Como se nós, portugueses, não fossemos imigrantes em todos os países por onde nos espalhámos. 

Caraças. Coisas tão simples de perceber.

Bem.

Fico-me por aqui. O dia foi longo (bom! -- mas longo).

Tenham uma bela semana, ok?

domingo, agosto 09, 2026

Explicação sobre a indigência deste pobre post

 

A minha maltinha regressou toda de férias, todos de volta a casa depois de uns belos dias a banhos e em viagens. Sabê-los de regresso, sãos e salvos, por muito palerma que possa parecer, é para mim um alívio. Eles bem me dizem que a segurança deles não depende de mim. Concordo. Sei disso. Os meus filhos há muito tempo que não são adolescentes a meu cargo e os meus netos têm os respectivos pais para se responsabilizarem por eles. Mas o que é que posso fazer? Mãe é mãe e o meu instinto maternal que sempre foi agudo, extremo, indomável, mantém-se igual ao que sempre foi. Não descanso enquanto não sei que estão bem. É ridículo? Pois, na volta é. Mas tenho que me render às evidências: face à minha provecta idade e face a não ter detectado melhoras ao longo dos anos, acho que é matéria em que não é expectável que haja cura. É saber viver com isto, tentar controlar os meus receios, disfarçar para não parecer atrasada mental.

Enfim. 

Mas para nós dois o dia foi do piorio. Nada de grave e dramático mas, tudo junto, deu-me vontade de dar meia volta, fazer reset. O computador já está reparado mas veio desconfigurado e, para não ter que lá voltar, estive para aqui a fazer coisas que detesto fazer. A meias com o Gemini, lá consegui dar conta do recado. Mas detesto ele lado das informáticas, configurações, testes, coisas que não resultam. Sei que não devo mexer à maluca pois posso estragar ainda mais mas a perspectiva de o mandar de volta à oficina e esperar séculos pelo orçamento e depois pela reparação já estavam a stressar-me. Lá consegui resolver. 

Acresce que comprei um carregador pois o que tinha estava com a ponteira murcha e, logo, potencialmente danificadora da porta de entrada. Venderam-me um universal que supostamente dava para o computador. Depois de horas para ser atendida, sem que algum funcionário aparecesse, acreditei que sim, não exigi comprovação, e trouxe-o. Cheguei a casa e, claro, não dava. Furiosa, contrariada, voltámos lá. O dia nestas porcarias. Um mal nunca vem só: na ida o carro vacilou, mensagens más. À vinda, vacilou ainda mais. Depois -- felizmente, já aqui em casa -- pifou de vez, já não arranca. Podia ter sido na autoestrada, e isso seria pior. Mas não é bom. Não dá sinal. Vai ter que ir para a oficina, vamos ver quando e por quanto tempo. Em tempos, tinha cada um seu carro. Agora, como nos tornámos siameses, só temos um. Portanto, agora estamos apeados. Um lindo serviço.

Para as coisas não se ficarem por aqui, o cão não faz outra coisa senão lamber a cauda, uma coisa por demais. Frenético. E, estuporzinho como é, não deixa mexer. Queria ver o que se passa, mas não deixa. Rosna, mostra os dentes e, se nos atravessarmos, não se ensairá em fazer valer o seu aviso. Como isto costuma levar a feridas, a antibiótico e a um sarilho do caraças para o tratar, pusemos-lhe já o colar isabelino. Se tivermos que ir ao veterinário, só se sairmos de véspera para irmos a pé. Sem carro, ir a algum lugar transforma-se numa odisseia. Metermo-nos num tvde com ele, só se quisermos correr riscos de que coma o condutor e destrua o carro. Quem ele não conhece e está por perto, é inimigo a abater. Para ele, cão-pastor, nós somos ovelhas e qualquer pessoa que não lhe seja familiar, é lobo. E, caraças, não se fica. Não há lobo que se arrisque a aproximar-se. Por isso, metermo-nos num carro em que o pescoço do condutor esteja ao alcance dos seus dentinhos, está fora de questão. Nem com açaime: salta, ladra e tenta por todos os meios arrancar o açaime. E às vezes consegue. Portanto, estão a ver.

E ainda houve mais um ou outro contratempo mas já nem vou aqui falar disso, já estou cansada de tanta chatice. 

Dir-me-ão: há males maiores. Claro que há. Sei muito bem disso. Mas nós, nós todos, funcionamos por planos. E no plano das coisas domésticas, da vidinha do dia a dia, ou as coisas funcionam normalmente, ou há um cúmulo de atentados à rotina que nos estraga completamente as actividades banais e os gestos que fazemos sem sequer pensar neles. E isso corrói a tranquilidade básica sobre a qual é suposto assentar tudo o resto.

Enfim. São dias. Ou fases.

Quanto aos comentadores, bem os tenho topado -- uns animadamente admiradores do Neves e das suas chico-espertices (e ai de quem não aprecie as chico-espertices do Neves, é logo conotado com o Ventura), outros animadamente a favor do Montenegro (ui... tão melhor que o Costa... ui, ui...) , outros ainda dramaticamente fixados em Sócrates (o que será que o Freud diria de tamanha fixação? Gente ainda na fase anal, perdão, na fase anual? Gente que em pequenino não se sentia suficientemente amado pela mamã? What?) -e a sério que gostaria de responder. Mas, depois de tanta chaticezeca, estou mesmo um bocado exausta. Mas podem continuar a dizer de vossa justiça pois os vossos argumentos têm graça, alguns têm mesmo muita piada. A sério que sim. Alguns comentadores mostram-se picados com outros e eu poderia não publicar para não causar arrelias, mas hoje não estou para usar o lápis azul. Só digo uma coisa: piquem-se à vontade que o vosso picanço também tem graça. Mas não se levem demasiado a sério, não vale a pena.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, agosto 05, 2026

Tenho provas de que Trump está a afundar-se no fracasso

 

Continuo sem o meu computador habitual. Já recebi o orçamento -- upa, upa, é caso até para pensar duas e três e quatro vezes --, mas acabei por respirar fundo, dar o ok e pagar, e agora é esperar que fique pronto.

Mas, portanto, continuo limitada. Estou a escrever no telemóvel e isso, para mim, é completamente dissuasor.

Hoje, enquanto varria e andava com um ancinho a raspar os musgos velhos e a terra, andava a pensar em mil assuntos para deles aqui dar conta. Depois lembrava-me do meu severo handicap e, mentalmente, retrocedia.

De tarde tive que escrever um mail que tinha que invocar outros mails enviados antes (há serviços públicos que são um buraco negro, kafkianos, levam o mais resistente ao desespero, dão vontade de desistir, consubstanciam um total desprezo por nós, cidadãos, contribuintes, utentes). O que eu penei para o fazer... No telemóvel seria uma dor de cabeça e no computador deficiente que agora me serve de bóia de salvação e que só funciona, e mal, com um teclado virtual (que se sobrepõe ao texto a menos que o ponha minúsculo) foi um sufoco. O meu marido, quando me vê indisposta com estas provações, decreta: "compra um computador e acaba com isso!". Não compro. Outra vez configurar tudo, passar coisas de um lado para o outro, habituar-me a novas manhas. Não quero.

Espero que sejam mais uns dias. Só mais uns dias.

Por isso, até lá mantenho a minha verve refreada. Por exemplo, apetecer--me-ia comentar as últimas parvoíces do Trump e o mal que ele espalha à sua volta. Está maluco, em decomposição, mas a verdade é que a sua ordinarice, incompetência, falta de vergonha e pulsão para aldrabice compulsiva e descarada continuam a servir de exemplo a estupores e mentecaptos em todo o mundo.

A conversa abaixo entre David Rothkopf e Joanna Coles é, como sempre, muito elucidativa e interessante. Aconselho.

I Have The Proof that Trump is Drowning in Failure | The Daily Beast Podcast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para analisar mais uma semana extraordinária no mundo de Trump, desde as crescentes dúvidas sobre a gestão do presidente em relação ao Irão e o aprofundamento da crise de política externa até às alegações de corrupção, disfunção política e o impressionante colapso da confiança pública reflectido em novas sondagens. Abordam a combativa aparição de RFK Jr. na CNN, as consequências em torno do congressista Max Miller, o mistério da longa ausência de Mitch McConnell, as últimas reviravoltas na batalha pela confirmação de Todd Blanche e as crescentes fissuras dentro do movimento MAGA, com Tucker Carlson, Laura Loomer e JD Vance em conflito. Além disso, examinam o mais recente espetáculo do Truth Social de Trump, o seu autoproclamado triunfo no golfe e porque é que os apresentadores argumentam que o caos em torno da sua administração só se está a intensificar à medida que se aproximam as eleições intercalares.


Um bom dia!

terça-feira, agosto 04, 2026

Ah, a difícil vida no campo...

 

De manhã, o tempo estava fosco, fresco, e chegou a chuviscar. Da terra molhada subiu aquele perfume bom que faz sempre lembrar-me a longínqua e tão presente emoção do regresso às aulas.

Depois abriu, o tempo aqueceu. 

Há folhas secas por todo o lado. A caruma parece que atrai toda a espécie de folhagem. Estávamos a contar que o rapaz conseguisse cá vir soprar e aspirar o espaço em volta da casa e alguns caminhos. Afinal, mais uma vez, não conseguiu. Por aqui é muito difícil encontrar quem faça estes trabalhos. Por isso, mais uma vez tive que voltar à minha vassoura. É daquelas volumosas, pesadas, com as franjas em aço. As mais leves não têm força para isto. Ao fim da tarde já tinha a feridinha do costume na mão. O meu marido continuou a sua árdua tarefa de transportar os troncos cortados para junto da lenha e as ramagens que estão espalhados por todo o lado para junto dos montes imensos que, quando puder ser, serão queimados.

Pelo meio, frágil pecadora, fui-me enchendo de figos. Estão dulcíssimos, gordos, suculentos, irresistíveis. Não sei quantos quilos a mais já coleccionei. Depois, há um fenômeno que penso que deveria ser seriamente investigado: se eu comer meio quilo de figos, engordo um quilo. Se, no dia seguinte, comer mais meio quilo engordo mais quilo e meio, que se soma ao quilo da véspera. Uma coisa exponencial, muito dif´cil de controlar. 

Acresce que fomos almoçar a uma tasquinha numa aldeia vizinha. Puseram na mesa uma cesta de pão e broa e uma tigelinha de azeitonas bem temperadas. Marchou tudo. É certo que a dividir por dois mas, ainda assim, um estrago adicional. De entrada, não resistimos a ovos com farinheira. Pior um pouco. O prato nem digo o que foi, muito menos falo das deliciosas batatas fritas e da saborosa maionese caseira. No fim, deveria ter-me feito rogada a uma tarte de amêndoa com uma bola de gelada. E fiz-me. Só comi metade. Mas de certeza que aumentei mais dez quilos. 

Portanto, não sei como, mas vou ter que arranjar forças para me embrenhar num jejum. Mas não é daqueles a fingir, tem mesmo que ser a doer. Vai é que ter que ser como o voto de castidade do Santo Agostinho: mas ainda não, mas ainda não...

Já agora, a propósito dos figos diabólicos, vou aqui reincidir num texto maravilhoso do D. H. Lawrence sobre como comer um figo. Os apertadinhos tapem os ouvidos. Avisei.

Cena de Mulheres Apaixonadas

Dias felizes

sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

segunda-feira, julho 06, 2026

Sirenes, moscas e moscardos, aspersores e mangueiras

 

Não sei se já alguma vez falei nisto mas o meu marido, que é zeloso, de noite costuma activar um dos alarmes parciais que o nosso sistema de segurança tem, para cobrir algumas partes da casa que não estão propriamente à vista, como, por exemplo, a garagem, o sótão e outros pontos que o técnico de segurança identificou. Tudo bem, não tem qualquer problema.

O que acontece é que ontem esteve todo o mundo a ver futebol, a França - Paraguai, até às tantas. A seguir foi aquela dinâmica do vai tu, já vou, vai tu primeiro, etc. Depois é a cena das lavagens de dentes e ida à casa de banho. Finalmente, o mais pequeno disse-me que só me dava um beijinho se eu lhe contasse uma história a preceito. Conclusão, a operação 'cama' não acabou cedo e só depois peguei nisto. Ou seja, deitei-me tarde. E já sabia que a alvorada seria cedo. Mas não tão cedo. É que às sete, ou se calhar antes, desata a sirene do alarme a tocar. E, quando isso acontece, todos os cães das redondezas desatam a uivar. Um sobressalto. Acto contínuo, o telefone da central de segurança. Tinha sido qualquer coisa no piso de cima. O meu marido foi ver. E não era nada. Quando os quartos, que são cá em baixo, estão todos ocupados, o cão é isolado para não ir chatear ninguém, e geralmente vai para o piso de cima. Deve ter dado um salto do sítio onde dorme para o chão ou coisa do género, o que, em condições normais, não acontece. Resultado: com o susto, espertei. Portanto, passei o dia todo perdida de sono. À tarde, já só nós os dois, mal me encostei adormeci. Mas, como é certo e sabido que, se durmo de tarde, tenho insónio de noite, o meu marido não teve cuidado para não fazer barulho perto de mim e acabei por apenas dar uma cochilada.

Há bocado fomos fazer o nosso passeio nocturno e, quando saímos, o alarme fica sempre ligado. Mal tínhamos andado um bocado, outra vez aquele chinfrim que se ouve em todo o lado e arredores. Desta vez assinalou que era na sala. Voltámos atrás. Mais uma vez nada. Aliás, as imagens mostravam que nada. Mas, mal entrei, ouvi um zzzz. Provalmente, uma mosca ou moscardo a passar em frente ao vídeo-sensor.  Felizmente estamos cá, deu para validar no local. 

Mas já apanhámos, uma vez, um susto às três da manhã, quando estávamos no campo, com uma chamada da central de segurança. Os vídeos não mostravam presença humana, mas não ficámos descansados. A polícia que lá foi também confirmou que não havia problema. Mas apanhamos sustos. E tenho ideia que nesta época de calor é pior, deve haver insectos nocturnos que se passeiam onde não devem. São os chamados falsos-positivos. 

E estou a falar nisto pois estou a escrever e a ouvir um zumbido. E é enervante. Zzzzzzz.... Não tarda estou toda picada. Acho que temos mesmo que tratar das redes mosquiteiras. Ontem, perdida de sono quando cheguei à cama, também a ouvir zzzzz e a pensar que deveríamos acender a luz e ir à caça. Mas com o sono com que estávamos. Tanto mosquito ou melga ou lá o que é.... O meu filho falou numas fitas para pendurar no exterior, acho que também temos que tratar disso. Que castigo que está ser este ano...

Também aconteceu outra contrariedade. Habitualmente a rega funciona de noite. Mas agoras temos painéis solares para autoconsumo e, portanto, regulámos a rega para a parte da manhã. E vimos que, num ponto, um aspersor está fora e, portanto, sai a água toda e não rega nada, fazendo com que nos aspersosres seguintes a água saia com menos força. Fomos tentar encaixar e não encaixa nem por mai suma, não enrosca, não se percebe. E, numa das partes principais do jardim, pura e simplesmente não há rega. Andámos à procura e vimos que há uma rotura por detrás de umas treliças. O espaço é apertado e tem trepadeiras. Por isso não foi fácil lá chegar. E vi uma imensa poça de água e não percebi de onde vinha a água. O que sei é que não chega depois aos aspersores que se seguem. E agora arranjar alguém que se ocupe disto...?

É certo que são males menores, coisas de nada, irrelevâncias. Mas eu prezo muito o meu jardim. Andei de mangueira a regar à mão mas não dá, é complicado. E a mangueira que ali temos é fraca, retorce-se, engalfinha-se nela própria, trinca, e a água não sai. Tenho que estar sempre a voltar atrás, uma perda de tempo.

Nestas coisas o meu marido chuta para canto, se não regar, não regou, não quer saber. Anda sempre de maquinaria em punho, a desbastar a sebe, a desbastar as buganvílias, a cortar as glicínias que trepam para o telhado. Somos o oposto: preocupo-me é com a rega e, de resto, gosto é que tudo cresça à vontade e à vontadinha.

E é isto. Por uns motivos ou por outros há sempre coisas e coisecas. Se, quando eu estava a trabalhar, me viessem com estas conversas eu fartava-me de rir: frioleiras, preocupações de gente desocupada. E não considerava que fossem problemas. Eram simples ocorrências que se resolveriam, se calhar até por si. Mas é o que é. Mudam as circunstâncias, mudam as perspectivas. 

E mais não digo. Vou pirar-me daqui que já não aguento o estupor da mosca só a zumbir e a vir pousar-me ora na perna ora no braço, já estou cheia de comichões só de a ouvir. Caneco.

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Só mais uma coisa antes de ir: já viram a cor da buganvília lá em cima? Não é tão linda? É a tender para o alaranjado, acho-a mesmo alegre e bonita.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira 

domingo, junho 28, 2026

Quem é a loura que deixa bilhetinhos de amor a Trump e que é conhecida por 'impressora humana'?
E outras coisas minhas, sem relevância nacional... :)

 

O meu dia foi complicado, com um contratempo muito grande, um transtorno inesperado, implicando total mudança de planos. Mas, se é verdade que fiquei bastante aborrecida, a verdade é que, no meio das chatices, me ocorreram, várias vezes, pensamentos do tipo: 'ainda foi sorte ter acontecido ali', ou 'poderia ter sido pior'. Provavelmente isto confirma mesmo que sou uma pessoa optimista. Tenho ideia que, perante uma chatice das grandes, dantes havia quem dissesse: 'se tivesses partido uma perna teria sido pior'. Se calhar sou dessas. 

E apesar de ainda não conseguir ter o panorama completo das consequências, o que me apraz dizer é que, apesar de tudo, ou melhor, descontando o que de chato aconteceu, o dia acabou bem, estive bem acompanhada, o saldo foi positivo. E, no fim de contas, não é isso que interessa?

Posso ainda contar que, quando estava, em carro alheio, de volta a casa, ouvi que estavam a chegar várias mensagens. Espreitei o telemóvel e era o mais velho a enviar um vídeo para a família, mostrando que tinha cumprido a promessa resultante da aposta. Quando foi a Taça e o Sporting ia jogar com o Torreense (acho que foi o Torreense, não foi?), um dos primos benfiquistas lançou o desafio aos primos sportinguistas: se confiavam que o Sporting ia ganhar, podiam apostar rapar o cabelo, caso perdesse. E apostaram. Têm ambos belos caracóis que, segundo eles, as meninas adoram. E eles, que fizeram cortes elaborados com nomes fantásticos (cortes creio que inspirados nos jogadores de futebol), têm também grande orgulho no efeito que causam no sector feminino. Pois bem, no vídeo, mostrava-se rapado, rapado, rapado. Lindo. Parece outro. Um homem.

Noutro vídeo o primo benfiquista elogiava-o, dizia-lhe que ele tinha sido um homem, tinha cumprido a promessa. Num outro vídeo, já dizia que também ele raparia o seu. E a tia e a mãe diziam que o garboso 'rapado' estava muito bonito.  E está. 

Vamos ver se o mano mais novo também rapa o seu. Fez quinze anos e faz um sucesso entre as meninas que nos surpreende e dá vontade de rir. A minha filha conta peripécias que nos deixam divertidas e desconcertadas. E eu já testemunhei. Estávamos com ele numa loja e vimos uns rapazes e raparigas a olharem para ele, as miúdas com ar embevecido. Diziam o nome dele e falavam que ele jogava no clube onde joga. O meu marido até disse que pareciam que lhe iam pedir autógrafo. A semana passada, ao ver uma fotografia de grupo, os rapazes de fato e gravata, as meninas de vestido comprido, e ao perguntar qual o par dele no baile de finalistas (do 9º ano...), fartei-me de rir com as observações dele. Fiquei a perceber que há várias que gostam dele. Meio desconjuntado, de poucas palavras, todo mais para a acção do que para a conversa, parece, no entanto, que tem mel. No outro dia vi-o a ensinar o primo como é que se fazia para proporcionar a ocasião para beijar uma rapariga. Fartei-me de rir. De facto, leva jeito. Tem o seu quê de descarado. Como é bem educado e muito divertido, fica ali um mix interessante, cai no goto delas. Mas, no que se refere à aposta, diz que elas gostam de lhe mexer nos caracóis e, portanto, não os quer cortar.

Enfim.

Adiante que se faz tarde. 

Enquanto escrevo, Portugal ainda não conseguiu marcar nenhum golo e isso deve deixar decepcionados os milhares de adeptos que se juntaram um pouco por todo o lado. Não consigo prestar atenção, distraio-me. Mais para a frente, aqui estarei a torcer. Agora é apenas música de fundo.

E, entretanto, estive a ver o vídeo que abaixo partilho que é todo ele um desfiar de tesourinhos deprimentes. O mundo de Trump é um mundo doido, tresloucado, distópico, habitado por personagens que nem sei se são sinistras, se são de comédia, se é tudo um ninho de malucos, se é isso tudo ao mesmo tempo.

Os casos, as peripécias, as contradições, os disparates, os escândalos -- tudo se sucede a um ritmo desvairado. 

Desta vez, no meio de mil maluquices, fiquei a saber exactamente porque se fala tanto de uma tal Natalie Harp. E é do além. Nem sei que diga, nem sei que pense. É de loucos. 

Uma fulana, ex apresentadora da Fox, uma loura quase igual a todas as outras louras que por ali andam, com um poder incrível, que lhe leva notícias (só as boas), que lhe prepara informação (favorável), que lhe imprime as coisas porque ele gosta de ler em papel (o pouco que lê, claro, porque, na verdade, não lê nada), que lhe deixa bilhetinhos de amor, que mostra uma adoração patológica por ele, que frequenta os seus espaços mais privados, que tem acesso a informação confidencial, que vai com ele para todo o lado. Diz Michael Wolff que tudo o que ela lhe deixa escrito é para lhe mostrar que quer ir com ele para a cama. E isto diz muito da saúde mental dela. 

Ah, é verdade, suspeita-se que terá sido Natalie Harp que fez o vídeo dos Obamas como macacos ou o de Trump como Jesus. E, volto a dizer, se foi, o que dizer da sua saúde mental...?

Poderia ser uma série televisiva, cheia de personagens exageradas demais, destrambelhadas demais. Mas é a realidade. A que ponto o mundo chegou. Não dá para acreditar.

No outro dia vi um vídeo em que a neta de Trump, uma adolescente, andava pela Casa Branca com uma amiga, a filmar as salas, a sentar-se na cadeira do avô, a mostrar os telefones e os botões encarnados, a rir, toda eufórica de por ali andar, como se andasse na sua própria casa.

Tudo doido.

Mas nada como Joanna Coles e Michael Wolff para passarem a pente fino as mais recentes maluquices de Trump.

Porque é que o círculo íntimo de Trump teme a sua companheira loira de 34 anos | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles analisam mais uma semana extraordinária na presidência de Donald Trump, desde uma importante vitória no Supremo Tribunal que pode expandir drasticamente o poder presidencial até à linha cada vez mais ténue entre a Igreja e o Estado, as consequências políticas do frágil cessar-fogo com o Irão e porque é que Trump pode, mais uma vez, escapar às consequências de um revés na política externa. Investigam também o mistério em torno de Natalie Harp, a dedicada "impressora humana" de Trump, à medida que novas reportagens corroboram as revelações inicialmente exploradas por Wolff; examinam por que razão o New York Times só agora está a aceitar a ideia de que Trump governa por obsessão em vez de estratégia; debatem a mais recente fixação de Trump com o espelho de água do Lincoln Memorial; e revelam os estranhos cálculos políticos por detrás das comparações de J.D. Vance com Nixon.

Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, junho 27, 2026

Casas com livros

 

Hoje, por cá, foi dia de ponta. E, ao dizer isto, de novo, só me apetece gozar comigo. A mesma pessoa que tinha reuniões de manhã à noite, que tomava decisões com impacto na vida de muita gente ou relativas a negócios de milhões, agora chama dia de ponta a uma vulgar sexta-feita em que as tarefas se reduzem a ir às compras, arrumá-las, pôr a roupa a lavar e estendê-la, trocar parte da terra de alguns vasos e adubá-la, regar, cozinhar para hoje e para amanhã, ir ao ginásio, passear o cão, rever umas prosas -- tudo coisas deste simples calibre. Mas a verdade é que foi o dia todo a fazer isto, fazer aquilo, ir aqui, ir acolá, sem tempo para me sentar ao sol a ler nem por um bocadinho.

Continuo sem um pingo de saudades da minha vida profissional. Gostei muito, sentia-me motivada todos os dias mas, ao fim de décadas, senti que já chegava, que precisava de me libertar das amarras dos horários, das obrigações, do stress de ter que estar permanenetemente a tomar decisões, da prisão que a responsabilidade constituía. E continua feliz, deslumbrada mesmo, com esta minha vida actual.

Mas antes, durante a semana, não almoçávamos em casa, pouco estávamos em casa. Portanto, tinha muito menos compras para fazer, menos refeições para preparar. Agora é uma coisa que me espanta e que, de certa forma, me complica com os nervos: passo a vida a ter que comprar fruta, legumes, iogurte, queijo, peixe, carne. E mil outras coisas. Uma canseira. E, vivendo num apartamento, não havia nada dos trabalhos que hoje temos relacionados com o jardim, e que são permanentes. E não tínhamos cão. Se hoje não o tivéssemos não teríamos os nossos dias tão preenchidos (a todos os níveis) como hoje temos, e adoro, mas o pretexto que nos dá para ir passear com ele é, ao mesmo tempo, um hábito que consome tempo (e, desejavelmente, calorias). 

Resultado: agora ao fim do dia, o meu marido foi buscar o jogo de futebol que só tarde e más horas percebeu que tinha dado.... e, para mim, o som dos jogos de futebol é melodia para adormecer. Dormi profundamente. Só espero que agora não me faça ter insónia na cama.

Mas tinha ideia de ter começado um livro e não consegui. Já tenho várias pilhas de livros espalhadas por vários cantos. Aborrece-me arrumar nas estantes livros que ainda não li, tenho sempre a sensação de que livro arrumado é livro desaparecido, sugado pelos restantes. Mas isso traduz-se em desarrumação.

Estive a ver a casa que aparece no vídeo que aqui partilho e gostei imenso. É o oposto da minha. A minha casa tem cores, é pouco monocromática, e tem alguns pequenso focos de bagunça. Esta que aqui se vê é uma casa tranquila, elegante, muito organizada. A biblioteca é fantástica. Não há nada que dê mais vida a uma casa do que os livros. Uma casa na qual não se veem livros revela que lá dentro há pessoas com a cabeça um bocadinho oca. Acho eu.

Uma bonita casa de campo inglesa repleta de livros e achados vintage | Tour pela casa

Entre numa casa de quinta da década de 1750, maravilhosamente restaurada, na Cornualha, onde a jornalista que se tornou instrutora de Pilates e amante de livros, Christen Pears, criou um lar acolhedor e cheio de personalidade, com design vintage, tesouros colecionados e milhares de livros.

Após anos a viver no estrangeiro, Christen e o marido regressaram ao Reino Unido e transformaram esta histórica quinta de 1750 num refúgio acolhedor e cheio de personalidade, com mobiliário escandinavo de meados do século XX, materiais reciclados, tesouros colecionados e renovações cuidadosas.

Desde a icónica parede com livros de bolso da Penguin e a lareira original do século XVIII à encantadora despensa, ao jardim florido e à deslumbrante biblioteca no celeiro, cada recanto reflete um estilo de vida mais lento e intencional.

Situada na zona rural da Cornualha, a propriedade inclui ainda casas de férias, um estúdio de Pilates, hortas e espaços concebidos para encontros, leitura e para se desligar do ritmo frenético da vida moderna.


Desejo-vos um bom sábado

terça-feira, junho 16, 2026

Luís Osório conversa com Helena Sacadura Cabral

 

Repito-me: gosto de conversar e de ouvir conversar. Mas não de quaisquer conversas. Por exemplo, durante o dia não consigo ver televisão. Já nem a ligo. Esmiuçar desgraças, ouvir falar de paranóias, tudo exacerbado, as pessoas parece que só se acham interessantes se se apresentarem como vítimas de qualquer coisa, parece que não há cão nem gato que não tenha sofrido de bullying na escola, ou que não tenham ficados completamente carentes para o resto da vida por terem perdido o avô ou a avó que eram especiais, e toda a gente faz terapia, e toda a gente anda a encontrar-se a si própria. Tudo um chorrilho de banalidades e parvoíces para as quais não há pachorra. Claro que tem tenha perdido um avô ou uma avó, ou todos, ou pai ou mãe ou ambos, sente um grande desgosto. Mas fazer disso a bandeira com que se anda na rua ou exibir tal facto como se fosse o alfa e o ómega da sua vida...? Achar-se especial ou digna de piedade por isso? Ou achar que os outros são todos maus e que só o próprio ou a própria é que é o bom, a vítima...? Pá, a sério, já não se aguenta. Não há entrevista ou podcast ou o raio em que alguém não acabe a chorar ou, igualmente pífio, a fingir que se faz de valente. 

E a gente, quando ouve isso, percebe que geralmente é gente parva, que não se enxerga, que põe a culpa de tudo nos outros, no cão e no gato, na prima, na mãe, no pai, nos irmãos, nos amigos, nos colegas, no sprofessores, parece que julgam que toda a sociedade conspira para não dar à prima-dona a atenção que ela acha que merece. Um saco. Dantes considerava-se que gente assim é irresponsável, gente que atira as 'culpas' para cima dos outros é gente em quem, de forma geral, não se pode confiar. Era assim. Agora não, agora põe-se uma medalha ao peito. 

E juntam-se em entrevistas e podcasts e para ali estão neste desfiar de palermices, de vacuidades, de parvoíces. Se calhar é gente que padece do mal de precisar de validação, parece que precisam que os outros andem sempre a dizer-lhes que são os maiores, que estão muito bem, que são muito lindos e talentosos, provavelmente contam likes e entretêm-se com essa contabilidade que, na prática, vale zero.

O mundo tem vindo a derrapar para a estupidez e esta vertente da carência, da vitimização e da necessidade de validação é uma das provas da fraqueza crescente da sociedade.

Posso ter esta visão um bocado crua por ser um caso diametralmente oposto disso. Não contabilizo likes, detesto bajulações, incomodam-me as conversetas de elogio e não preciso de validação de ninguém para me sentir confiante em mim mesma. Naquilo em que não me sinto confiante, se for tema que me interessa, preparo-me para adquirir o que me falta para estar na boa, segura de mim mesma. E, se não é tema que me interesse, passo adiante. Nunca, nem quando era criança nem quando era adulta, me interessou saber a opinião deste, daquele ou do outro a meu respeito. E mesmo que me chegassem ecos de discórdia ou desapreço era para o lado em que dormia melhor.

Claro que nem todas as pessoas são iguais e o facto de eu ser assim não faz de mim melhor ou pior. Uma coisa é certa: retira-me angústias, ansiedades, medos, sofrimentos. Gostem ou não gostem, estou sempre na boa. Por isso, posso não ser melhor ou pior mas sei que estou bem, não me queixo. Nunca me queixo. Nunca me queixei.

E gosto de conversar ou ouvir conversar pessoas que afinam por este diapasão. Gosto de ouvir gente desempoeirada, gosto de ouvir falar de boas memórias, de cenas divertidas, de bons projectos para o futuro. Gosto de me rir. 

(Aliás, gosto à brava de me rir. Ainda hoje, estava a ler um livro e desatei a rir-me à gargalhada. A cena do livro era simples. Mas deu-me uma vontade de rir que me fez rir à gargalhada por um bom bocado).

E falei do género dos coitadinhos, das vítimas, mas depois há os outros, igualmente insuportáveis: os que riem muito, os que se acham os mais engraçados, os mais originais, os que dizem disparates em catadupa achando-se divertidos, os que fingem que não se levam a sério mas que contam toda a espécie de frioleiras como se fossem happenings mas, ao mesmo tempo, fingindo que se auto-depreciam, e todos riem, riem muito, riem mostrando que têm a cabecinha mais vazia que um saco de vento. É outra fauna, mas igualmente insuportável. Se calhar, mesmo esses, se forem ao programa da Júlia, acabam na choradeira, mostrando que têm um coração em chaga. 

Não há pachorra.

Talvez porque penso assim estive aqui a ouvir, na maior leveza e boa disposição, a conversa entre o Luís Osório e a Helena Sacadura Cabral. 91 anos de leveza, ela: o que é mau, põe para trás das costas. O que aconteceu, está acontecido. Em alguns casos claro que houve e há dor, mas é uma dor com a qual convive bem. 

[Um àparte*: no meio, fica a saber-se que o Paulo Portas é mais um que tem uma empresa com a mãe na qual mete todo o tipo de despesas... Provavelmente é através dessa empresa que factura à TVI o seu comentário dominical e, com este esquema da empresa, poupa-se a muito IRS-zinho. E falo em esquema como poderia dizer 'conceito', aliás um conceito que atravessa toda a nossa sociedade que cultiva o hábito de driblar, legalmente, o fisco. Posso estar a extrapolar erradademente e, se for o caso, já cá não está quem falou. Mas, como um amigo meu dizia, dando um toque no nariz, tenho um faro que geralmente não me engana.

Mas, enfim, foi uma sinceridade da mãe, e a mãe sabe que está a agir na maior legalidade (porque a lei portuguesa gosta de deixar nesgas de portas abertas para quem quiser fazer interpretações criativas), pelo que não me alongo. Acaba por ser apenas mais um triste déjà-vu.]

De resto diverti-me, foi uma conversa bem disposta. E a boa disposição em vez da lamúria, o assumir das responsabilidades integrais em vez de atirá-las para a mãe, para o pai, para o chefe, para o ex-marido, para o piriquito ou para a vizinha do andar de cima, é sempre uma lufada de ar fresco. 

E continua com boa pele, com bom ar, roupas alegres, belos anéis e adereços, e ri que é um gosto e certamente há de fazer a sua escola para crianças desfavorecidas e há de continuar a levar alegria a todas as suas conversas e a reconhecer a existência dos iões apesar de não os ver. 

Por isso, salve Helena Sacudura Cabral! Vida longa e feliz para si!

"Vencidos" com Helena Sacadura Cabral | RTP Antena 1

No final da entrevista, Helena Sacadura Cabral disse a Luís Osório: uma conversa perfeita, precisamente o que imaginava. A conversa passa agora a ser de todos. Não perca as confissões de uma das mulheres respeitadas do país.


Desejo-vos uma bela terça-feira
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*  Nota

Agradeço a vossa atenção para o comentário que a Caríssima Helena Sacadura Cabral teve a amabilidade de aqui deixar, referindo que não, a empresa não serve para o que eu acima aventava. Aqui fica a ressalva. 

terça-feira, junho 09, 2026

Bons conversadores

 

Agora, de vez em quando, vejo aquilo de haver um outro tipo para além de introvertido e extrovertido: o outrovertido (ou lá como lhe chama, já não sei ao certo, é um nome como qualquer outro) -- as pessoas que gostam de conviver mas só com quem lhes agrada, que se cansam quando são obrigadas a conviver com pessoas que falam muito e não dizem nada, que precisam de se isolar depois de sujeitas a um convívio forçado e cansativo. Rvejo-me nisso. Se há coisa que me cansa muito, me deixa quase de rastos, desidratada, estafada, é quando passo horas a aturar cumprimentos, conversas de circunstância, fotografias forçadas, gente que circula de grupo em grupo a ser simpática e a exigir atenção. Fujo disso a sete pés. Grupos em que, à partida, não vejo ninguém com quem se possa ter uma boa conversa, são grupos que faço de tudo para evitar

Em contrapartida, gosto imenso de uma boa conversa, gosto de ouvir, gosto que me ouçam, em especial gosto imenso que ouçam e compreendam as minhas perguntas, gosto que gostem de falar comigo, gosto de ser surpreendida com argumentos novos, gosto de testemunhar uma maneira de pensar diferente da minha, gosto de aprender, gosto de ouvir falar sobre temas que desconheço, gosto de ser desafiada nas minhas convicções.

Na televisão, se há coisa que ainda aprecio é ver uma boa entrevista ou uma boa tertúlia. Isso é cada vez mais raro. O que há é bandos de comentadores, gente que tanto ouvimos a comentar o Netanyahu, o Bad Bunny ou, se for preciso, o José Mourinho. Ou uns jovens, cada um representando o seu estereótipo partidário, uns burgessos, outras parvas, outros fofinhos e outros a atirar para o intelectualóide. Não tenho pachorra, passo logo adiante.

Contudo, no youtube aparecem-me, de vez em quando, vídeos interessantes com umas boas conversas. Talvez seja a isso que se chama podcast. Não sei. O que sei é que fico, de gosto, a ouvi-los.

Abaixo partilho duas conversas gostosas: gente com ideias, com graça, com originalidade.

SEM TÍTULO - Entrevista com MIGUEL GUILHERME conduzida por Miguel Nabinho

Onde se fala de coisas sérias e coisas divertidas, de tudo, da infância, dos amigos, das representações, das 'cenas' com o Manoel de Oliveira. Etc.


E, para algo diferente (ou talvez não), que entre a sempre boa de ouvir, a grã-duquesa de New York -- digamos assim.

Fran Lebowitz | Andy Warhol, Nova Iorque e a Arte de Falar

Em comemoração do 250º aniversário da independência americana, a Rosebud apresenta uma série de entrevistas gravadas na cidade de Nova Iorque. A primeira é com a mais perspicaz observadora da vida nova-iorquina: a espirituosa, conversadora e escritora Fran Lebowitz. Nesta brilhante entrevista, Fran conta a Gyles sobre a sua família, que se mudou da Rússia e do Leste da Europa para os EUA para escapar aos pogroms contra os judeus. Fala da sua infância feliz, pedalando na sua "máquina da liberdade" pela bela cidade natal em New Jersey, onde o seu pai era dono de uma tapeçaria e a sua mãe ambicionava ser a parceira de dança de Fred Astaire. Conta a Gyles sobre os castigos que recebia por ser tagarela na escola, sobre saber desde cedo que era gay e sobre a sua mudança para Nova Iorque para se tornar escritora. Fala sobre Andy Warhol e sobre ter sido paga para escrever pornografia. Ela fala sobre o tabagismo, a internet e a sua enorme coleção de livros. Por fim, Gyles atribui a Fran uma medalha da Sociedade Oscar Wilde, em reconhecimento da sua brilhante oratória.

Como deve imaginar, esta é uma conversa fantástica. Vale muito a pena dedicar-lhe o seu tempo.

Aproveite.


Desejo-vos uma boa terça-feira

quinta-feira, junho 04, 2026

NotebookLM

 

Estava a falar com o meu filho sobre as minhas experimentações em volta das diferentes ferramentas de Inteligência Artificial e ele falou-me no Notebook LM, uma ferramenta google que cria bases de conhecimentos privadas, analisando a informação que lá metemos, permitindo associar-lhe notas ou o que quisermos.

Fiquei logo altamente curiosa. No outro dia tinha feito uma experiência com o Claude, enfiando-lhe uma série de exames médicos relacionados com um episódio cardíaco e fiquei espantada com os resultados.

Hoje, mal me apanhei aqui no sofá, fui experimentar este NotebookLM. 

O meu ponto fraco, a nível físico, são as articulações, em especial os joelhos. Penso que seja um misto de genética, de anos de vida sedentária, intercalados por grandes esforços físicos. In heaven acartei com toneladas de pedras. A minha mãe ficava aterrada quando me via, dizia que o meu corpo iria dar de si. E, uma vez, falaram-me que não havia nada melhor para o chão de madeira do que a vaselina líquida. Claro que fui experimentar. Estava a aplicá-la, quando desataram a tocar à campainha. Aquilo era para dar e depois secar, pois, quando se dava ficava manteiga, deslizava como sei lá o quê. Mas, para ir ver quem era, levantei-me à pressa e, esquecida de ter cuidado, levantei voo, e de que maneira, e aterrei aparatosamente de joelhos. Tive uma dor monumental e pensei que tinha esfanicado os joelhos, partido todas as pecinhas que os compõem. Mas não, ficaram só muito doridos. Durante bastante tempo, andei aflita. Mas nem me ocorreu ir ao médico, limitei-me a esperar que passasse. E passou. Mas, seja porque é de família (o lado paterno padeceu de dores), ou dos maus tratos, a verdade é que volta e meia tenho alguma inflamação articular ou alguma dor muscular. Como durante anos frequentei o mesmo local de saúde, tenho praticamente todo o meu historial médico lá guardado. Então, agora estive a dar-me ao trabalho de entrar no portal, ver exame a exame, e, se tivesse a ver com o tema ou com análises feitas numa dessas alturas, descarreguei. 

Com tudo descarregadinho, abri o dito NotebookLM e criei o meu primeiro notebook privado. Meti lá para dentro 20 relatórios médicos (incluindo algumas imagens). E pedi uma cronologia e uma análise.

E a vantagem é que agora fica ali tudo guardadinho naquele notebook, não apenas os exames, como as análises 'dele' e, ainda, toda a conversa subsequente -- porque, claro está, desatei a fazer perguntas. E aquilo vai mais longe: sugere perguntas, e algumas pertinentes e de que eu nem me lembraria. Tudo guardado.

E o que 'ele' concluiu, mais uma vez, deixa-me a modos que siderada. E deixa-me assim porque constato que só uma máquina, uma máquina super aditivada, consegue, num abrir e piscar de olhos, ler todos os relatórios, analisar evoluções ao longo de anos, cruzar informação. Claro que ninguém vai para o médico de família carregado de relatórios desde antes de cristo até agora. Não há tempo ou capacidade de análise imediata de tanta informação. Impossível. Só tirando apontamentos e mais apontamentos -- mas quem é que teria tempo para fazer isso?

Perante o que vi, não tenho dúvidas que, para cada utente do SNS, deveria haver uma base de dados que juntasse todo o seu historial clínico, proveniente de onde fosse, incluindo de hospitais privados. E, de cada vez que qualquer médico, estivesse onde estivesse, deveria aceder a esse historial, tendo-lhe a Inteligência Artificial preparado um relatório de síntese, alertando para os pontos críticos, sugerindo questões ou novos exames.

No meu caso concreto, não vou estar agora aqui a entrar em detalhes que só me interessam a mim mas, por exemplo, 'ele' (ele, o notebookLM), assinalou como causa provável para as minhas crises algo de que nunca nenhum médico me falou, provavelmente porque não repararam e porque isso ficou perdido num relatório que nunca mais ninguém viu:  Constatou, num rx de 2016, o seguinte ->  Desequilíbrio Mecânico da Bacia, concretamente um supradesnivelamento de 8 mm à direita. E sugere que este desnivelamento pode ser a causa de grande parte dos problemas. Se for, resolve-se com palmilha. Imagine-se. Se ele, ele com aspas, tiver razão, os problemas que eu poderia ter evitado... Mas é a primeira vez que estou a saber disto.

Depois detectou, ao longo dos anos, uma tendência relativa ao funcionamento da tiroide. Nas últimas análises em que isso aparecia, e já lá vão uns 4 anos, ainda não era crítico mas a tender para o sub-clínico. No entanto, nunca mais ninguém pediu essa análise. Se já estiver mais elevado, também explicaria muita coisa.

A Inteligência Artificial é uma coisa tão extraordinária que, nas mãos erradas, representa riscos existenciais. E disso eu não tenho dúvidas. Mas, bem usada, traz vantagens se calhar também existenciais. Quando se diz que dentro de pouco tempo terá sido descoberta a cura para todas as doenças, isso tem tanto de magnífico como se terrífico. 

Agora, pensando apenas em usos benéficos, há que considerar o tempo de aprendizagem, a adaptação de todos, da sociedade no seu conjunto. Em vez de se andar a querer impingir leis laborais ou a discutir tretas, não seria mais ajuizado se a sociedade se mobilizasse para ver como lidar com a Inteligência Artificial? Como assegurar o seu bom uso? Como potenciar os seus benefícios? E, ao mesmo tempo, como impor linhas vermelhas?

Por exemplo: tendo eu esta informação clínica a meu respeito, compilada, analisada, interpretada, posso eu fazer alguma coisa com isso? Duvido. Para começar tenho que pensar como é que, com muito jeitinho, posso transmitir alguma coisa ao meu médico de família sem que ele fique furioso, a achar que quero saber mais que ele.

É um tema, este. E coloca-se em todas as profissões, ou quase todas.

Neste caso da saúde, se eu estivesse no Ministério da Saúde, encomendava já o projecto de que acima falei: criar um modelo de IA para concentrar toda a informação clínica de todos os utentes num único sistema, criando 'notebooks' para cada um, e gerando os relatórios, alertas e sugestões para que cada médico, ao receber cada doente, tivesse essa informação. 

Enfim. Não tenhamos dúvidas: estamos a entrar num mundo novo que era bom que fosse admirável (no bom sentido).

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Desejo-vos um bom feriado

terça-feira, junho 02, 2026

Cenas da vida de um casal

 

Estive ocupada cá com a minha vidinha, coisas que meto na cabeça fazer e que me ocupam bastante, sabe-se lá se com resultados algum dia atingíveis. Mas sou discípula daqueles que diziam que só são vencidos os que desistem de lutar. 

Como continuo a ser a mesma -- quando meto na cabeça que tenho uma coisa para fazer, não descanso enquanto não a faço --, trabalho no assunto horas a fio sem me cansar, sem me desviar. O meu marido pasma com o meu regime, com a minha capacidade de me manter focada durante tanto tempo, apesar de não ter qualquer perspectiva de vir a ser bem sucedida. Nunca trabalhou no mesmo sítio que eu pelo que não sabe que, no que se refere a trabalho, é assim que sou. Isto agora não se pode dizer que seja um trabalho propriamente dito mas, pelo menos, é um projecto. Pode ser um projecto mais lírico do que pragmático. Mas é um projecto e lutarei para que se concretize.

Com isto, a televisão passa-me praticamente ao lado. Mesmo as notícias me parecem um carrossel que anda em volta sem sair do mesmo lugar. Espreito as novidades do dia, e está feito, fico informada q.b. Os jornais da noite alongam-se, alongam-se, metem reportagens e trapalhadas pelo meio, esticam a duração até mais não. Espreito o que se segue a isso, e ou é o Joker com o Palmeirim sempre com piadas secas, coisa que me deprime, e, portanto, evito, ou são novelas da treta na SIC para as quais não tenho qualquer pachorra, ou a xaropada indigente dos intermináveis big brothers e afins na TVI, o que faz com que, há anos, nunca paremos neste canal, ou são debates sobre tudo o que mexe, gente saída sabe-se lá de debaixo que pedra e para cujo peditório não me peçam para dar. Na Dois às vezes há coisas interessantes mas é preciso estar concentrado pois muitas vezes falam línguas que não domino e, portanto, requerem que esteja só a ver televisão para ler as legendas. Ora gosto é de estar com um olho no burro e outro no cigano e, portanto, se não posso, abdico. O meu marido, por ele, vê ténis, o Roland Garros, ou futebol. Eu desando e vou para a minha vida.

Ele, como todo o dia anda ocupado com desbastes, limpezas de terreno, corte de rebentos ladrões, etc., chega à noite e dá-lhe o sono. Portanto, ao fim de um bocado, a televisão fica a falar para o boneco. 

Claro que nessas suas actividades diárias o que não falta são disparates. Gosta do que faz mas não consegue ser cuidadoso, atento. Por exemplo, a última. Num canteiro, havia um arbusto grande, de nome Ivone, que era preciso aparar. Em volta desse arbusto estava a enlear-se uma coisa que não sei como se chama, uma espécie de hera selvagem, que cresce doidamente e que pica. Então, eu tinha-lhe dito que era preciso arrancar essa hera e desbastar um bocado o arbusto. Ouvi-o andar não sei se com a serra eléctrica, se com a roçadora ou o aparador. Não fui ver senão não faço outra coisa senão andar atrás dele. Confiei. 

Fiz mal. Quando vi, fiquei para morrer. Tive que respirar fundo cinquenta vezes. Noutras alturas, quando eu estava na flor da idade, dispararia em direcção a ele, capaz de engoli-lo vivo. Agora, com a sabedoria que a idade madura me está a trazer, prudentemente afasto-me dele. E espero que a fúria me passe. Só quando o vi, tentando mostrar toda a calma do mundo, lhe disse: 'Há algum motivo para teres dado cabo da Ivone?'. Ficou espantado. Ao fim destes anos todos, ainda não aprendeu que a defunta se chamava Ivone. Expliquei, com a calma possível: 'Cortaste, deste cabo, acabaste com a Ivone. O arbusto verde com nuances douradas. Não sobrou nada.'. E apontei para o espaço vazio. Com aquele ar de sonso que tão bem conheço, respondeu: 'Não disseste que era para arrancar?. Mais uma vez tive que fazer cinquenta respirações, e das profundas. 'Arrancar a erva daninha, a hera, não a legítima. Obviamente não era para assassinares a Ivone'. De novo, tentou a abordagem do costume, desvalorizar: 'Volta a nascer'. 

O pior é que não: não volta a nascer, deu cabo dela. 

Mas depois fico a pensar: o mal está feito. Por muito que eu estrebuche ou estabeleça tácticas de vingança, a Ivone não vai ressuscitar. Poderia pensar: 'Enganos destes não podem passar impunes, senão vai continuar a fazê-los'. Mas sei que, de uma maneira ou de outra, vai. Não distingue espécies, gosta é de cortar a eito. Portanto, tenho é que pôr o coração ao alto.

Enfim. É o que é.

Ao fim da tarde, o tempo tinha mudado, estava vento, a tender para o frio. Fui dar uma volta mas tive que voltar a casa para buscar um agasalho. No caminho, atravessou-se à minha frente, a correr, um pequeno bicho, peludo e quase preto. Dorso arqueado. Fiquei parada, de espanto. Não há coelhos ou esquilos pretos. Então o que foi aquilo? Ainda me enfiei pelo meio das pedras e das ervas a ver se via alguma coisa, mas os bichos são espertos e dissimulados. Por isso, não vi nada. Saí foi toda arranhada nas pernas.

Para o jantar, o meu marido comeu lombinho de porco estufado, acompanhado por legumes, mas eu ando cada vez mais a tender para a simplificação em tudo, até nos jantares. Como tinha um resto de iogurte grego, magro, juntei-lhe um bocado de kéfir, um bocado de queijo cottage, um bocado de uma mistura de sementes, umas cinco amêndoas, cinco ameixas secas, quatro ou cinco morangos e meia banana. Misturei. Soube-me lindamente. E fiquei bem.

E agora fico-me por aqui, a noite já vai avançada.

Desejo-vos uma boa terça-feira.

segunda-feira, junho 01, 2026

Mato cortado, calças cosidas, calças vintage
-- Sobre o que fizeram ao Juiz Ivo Rosa terei que deixar para outro dia --

 

O chamado mato está já praticamente todo cortado e, felizmente, desfeito. Num terreno contíguo, andaram a cortar e o que eram arbustos e ervas verdes são agora montes de folhagem seca, verdadeiro combustível. Há muita pedagogia a fazer pois o que se faz para cumprir a lei é aumentar o risco de incêndios. Também nós já recebemos um aviso e uma coima porque não cortámos alecrim e rosmaninho, verdes, porque a GNR, de longe, vendo a partir da estrada, não viu a terra nua mas sim campo verde e entendeu que não tínhamos cortado o mato. É um problema. Mais do que imposições absurdas deveria haver campanhas informativas, vídeos exemplificativos. 

E temos visto que, nesta preocupação de cortar o mato, muita gente faz avançar tractores ou roçadoras e ficam os campos cheios de mato seco, muito pior do que se estivesse fresco, na terra.

Mas, enfim, cortámos tojo e silvas e, claro, compreendo que não lhes é fácil andar a distinguir pé a pé de flor, e, portanto, em grandes zonas, cortaram tudo o que estava sob as árvores. Mas as máquinas são fantásticas pois, no fim, a terra está fofa, atapetada, tudo desfeito, não fica qualquer vestígio do que foi cortado.

O que ainda não conseguimos resolver, mas temos esperança de que o será durante este mês é a remoção da lenha, mas isso pensamos que cá virá um homem que vende lenha. E o pior são as pilhas de ramagens, sobretudo de cedros, mas também de pinheiros e de aroeiras, que estão um pouco por todo o terreno. Queremos arrastá-las para o espaço a que chamamos campo de futebol para que, quando o tempo estiver de feição e o site das queimas e queimadas o aprovar, possamos queimar. E essa componente está mais complicada pois não é trabalho para os que têm máquinas, é trabalho, segundo eles dizem, para 'ajudantes'. E não os há. Por aqui ainda não há imigrantes. E não se encontram pessoas da terra disponíveis: ou estão velhos ou, se estão novos, têm outros trabalhos. Tentámos nós os dois transportar uma parte, e conseguimos. Uma pequeníssima parte. O que há requer muita mão de obra, muita força, pois é muito; e muitos ramos são enormes e muito pesados.

E ainda há canteiros e muros que se partiram e cuja remoção apenas será possível com bobcat -- e vamos lá ver se é mesmo possível -- mas um senhor que o tem só está disponível daqui por algum tempo. Há muitas limitações. O Governo prolongou até ao fim do mês mas vamos ver o que se consegue. Sem gente, é complicado.

Portanto, ainda há muito trabalhinho pela frente. Mas muito está feito, e o que falta, de uma maneira ou de outra, haverá de se encaminhar.

Tirando isso, estive a coser uns jeans do meu marido. Não sei como, se calhar é das jardinagens, dá cabo dos jeans. Abriram nos joelhos. Ficaram só para trabalhos no campo, mas, ainda assim, aquilo incomoda-o. Com jeitinho, lá consegui cerzir, disfarçar, os rasgões.

No outro dia fomos, uma vez mais, comprar outros. Como sempre, mal põe o pé no centro do comercial já fica farto e a dizer que é para despachar. Hélas. Onde entrámos ou os modelos eram baggy ou slim. Ora ele queria regular. Básicos. Já com vontade de desandar, viu uns que diziam 'vintage'. Disse: 'Vintage, é isto mesmo'. Além do mais também eram 'regular'. Escolheu o número, pegou neles, 'vamos, vou pagar'. Sem provar, sem nada. 

Passados uns dias, quando foi vesti-los, teve uma surpresa: estavam cheios de rasgões. Por isso lhes chamaram 'vintage'. Mais rasgões do que os usados.

Mas, a propósito do meu trabalho de costura, houve um facto a relevar. No outro dia, no Lidl, vi uma caixa de costura muito composta que resolvi comprar: linhas de todas as cores, uma fita métrica, uma tesoura, um conjunto de agulhas e, junto às agulhas, uma pecinha metálica cuja função desconhecia. Admiti que tivesse a ver com as agulhas mas não estava a ver em que medida. Fotografei, coloquei no chatgpt e foi uma descoberta e tanto. 

A dita pecinha, na ponta, tem um filamento, em forma quase de losando que a minha falta de vista não me tinha permitido distinguir. Enfia-se aquele filamento no buraco da agulha, e é muito fácil, e depois a linha nesse dito losango, depois puxa-se e já está. Aquela luta para enfiar a linha no buraco da agulha está ultrapassada.

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Tirando isso quero aqui deixar uma anotação: tenho andado a adiar falar da pulhice que fizeram ao Juiz Ivo Rosa pois tenho que encontrar o registo certo. É um tema que me traz tão revoltada, tão agoniada, tão enojada que só me apetece dizer que gostava de estar na frente de alguns dos pulhas responsáveis por isso para lhes atirar com um copo de água à cara. Mas não faz sentido eu escrever aqui isso. Também me incomoda que o Seguro não fale sobre o assunto, mas fale em público, que peça responsabilidades, que obrigue uns quantos a saírem com um pontapé no rabo, que exija que se criem condições para que canalhices destas não voltem a acontecer. Mas, como disse, tenho que conseguir esfriar a cabeça para conseguir falar do assunto com a gravitas que ele merece.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira