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segunda-feira, maio 27, 2024
segunda-feira, novembro 18, 2019
Num domingo assim, tão chuvoso e tão frio, consegui ter o coração quente
De manhã fomos passear para a beira-rio. Estava frio e soube-me muito bem caminhar rente ao Tejo, sentir a frialdade húmida, ver as aves andando descansadamente nos lodos ou esvoaçando, deslizando pelos ares no maior vagar. Ao contrário de quando está bom tempo, hoje os turistas e caminhantes tinham-se retirado. Menos pessoas. Levei a máquina fotográfica mas, porque são as pessoas que mais me atraem, hoje senti que faltavam os motivos que, geralmente, me fazem sentir aquela adrenalina de as apanhar à socapa, de as apanhar no ângulo em que não podem ser reconhecidas ou, melhor ainda, de antecipar os gestos que vão fazer no instante seguinte, aquele em que vou estar a postos para os 'apanhar'.
Mas não fez mal. Fotografei as belas árvores pintadas com as mais intensas cores outonais, fotografei as esculturas de rua, fotografei os rastos que se desenham nos lodos, fotografei as águas mansas, longe dos azuis exuberantes, que quase se confundiam com o céu também em cores quase neutras.
Depois fomos almoçar. Já era tarde. O meu marido ainda tinha que ir à empresa buscar o computador e eu, chegando a casa, ainda tinha sopa para fazer, comida para o jantar de hoje já a contar com o de amanhã, pôr a máquina a lavar, etc. De manhã, tinha-me levantado com um pouco de dor de cabeça pelo que tinha pensado que, depois da labuta concluída, haveria de deitar-me no sofá, a ler e, tentativamente, dormiria um pouco a ver se aquela moinha nas têmporas desaparecia.
Mas, então, estando nós no início do almoço (e isto já depois das duas da tarde), eis que recebo uma sms da minha filha a dizer que o mais velho gostava que fossemos assistir aos seus jogos de futebol. Com o programa de festas que tínhamos pela frente, não era nada que desse jeito. O meu marido abanou a cabeça, encolheu-se todo. Que não dava tempo, que não dava jeito. Tinha um trabalho para fazer e não lhe dava jeito interrompê-lo para ir ver o jogo, às seis e tal da tarde.
Mas há uma coisa: eu não consigo dizer que não, não consigo desiludir os meninos. Se ele gostava que fossemos e se a minha filha também gostava que fossemos, então iríamos. O outro menino tinha também um jogo, mais cedo, noutro lugar, e aí era o pai a ir com ele. Mas, se acabasse a horas, iriam lá ter.
Fomos. Chovia a potes. Mau tempo, frio, vento, chuva. Ainda pensámos que não haveria jogo. A minha filha até nos ligou, estávamos nós a meio caminho, que, se ainda estivéssemos perto de casa, se calhar não valia a pena irmos, que com o tempo daquela maneira era pouco provável que houvesse jogo. Mas houve. Um gelo. O meu menino lindo encharcado, enregelado, ali debaixo de chuva. Só visto.
Mas um valentão. Jogou muito bem. Tem muito jeito. Está um rapazinho. Vibrei imenso. Enregelada também eu, embora encasacada, mas feliz da vida. O meu marido também gostou de ver o neto a jogar bem. Três jogos, hora e meia a jogar à bola, coitado, ao vento e ao frio, debaixo de água.
Mas um valentão. Jogou muito bem. Tem muito jeito. Está um rapazinho. Vibrei imenso. Enregelada também eu, embora encasacada, mas feliz da vida. O meu marido também gostou de ver o neto a jogar bem. Três jogos, hora e meia a jogar à bola, coitado, ao vento e ao frio, debaixo de água.
Chegámos a casa às oito e tal, ele ainda com trabalho para fazer e eu com coisas para arrumar e tratar. E vínhamos com um frio entranhado no corpo. Diz ele: 'Arranjas-me com cada uma...'. Como se tivesse sido por mim e não pelo neto e pela filha. Mas, se calhar, se não tivesse sido eu a dizer que tínhamos que ir, ele, com o que tinha planeado de trabalho, diria que não. Ou talvez não. No fundo, apesar de não parecer tão 'agarrado' como eu, também não gosta de desiludir as crianças pequenas (nem as grandes).
Sempre assim fomos. Mesmo quando os nossos filhos eram pequenos, mesmo que tivéssemos muito que fazer, nada nos fazia desviar um milímetro quando o que estava em causa era estarmos junto deles. Muita ginástica para conseguirmos conciliar as obrigações com as devoções, muitas corridas para chegarmos a horas, muito stress por vermos o tempo a passar, o trânsito parado sabendo nós que eles estavam à nossa espera.
Lembro-de uma vez em que uma viagem a Itália coincidiu com os anos do meu filho, teria ele uns cinco anos. Fiz de tudo para mudar mas foi impossível. Íamos três e íamos ter reuniões com pessoas de duas outras empresas; e conciliar agendas foi uma complicação, acabando por convergir, desgraçadamente, naqueles dias. Fui com o coração partido. os meus pais vieram para ajudar o meu marido que, naquela altura, tinha trabalhos fora de Lisboa ou reuniões com pessoas que vinham de fora e que queriam optimizar o seu tempo cá, puxando os horários. E havia a festinha de anos com os meninos da escola. Todos disseram que eu fosse descansada, que o menino era pequeno, que nem ia perceber, que eles tratariam de tudo. Mas eu não consegui aceitar o que tinha feito e, ao segundo dia à noite, tomei uma decisão. Arrumei a mala e no dia seguinte de manhã, ao pequeno almoço, apresentei-me junto dos meus colegas dizendo que ia regressar a Lisboa. Ficaram perplexos, sem palavra. Mas eu disse que nem valia a pena dizerem nada. Quase sentia a voz estrangulada na garganta tanto me doía ter estado ausente no dia de anos do meu filho Não me lembro de como fiz para mudar o voo de regresso. Naqueles tempos, sem telemóveis nem internet, não sei como se resolviam coisas destas. Mas eu tê-las-ia resolvido mesmo que estivesse no meio do deserto. Lembro-me de andar meio assustada naquele aeroporto de Milão que é enorme, pejado de gente, eu com pouco tempo, com medo de não dar com a porta de embarque, enervada, angustiada comigo mesmo, desejando chegar a casa mas, ali sozinha, incontactável, com medo de não conseguir embarcar. Mas consegui. Quando, a seguir ao almoço, toquei à porta do apartamento dos meus pais, a minha mãe ficou ainda mais perplexa. Mas o meu alívio por estar de volta, por poder abraçar os meus filhos, por regressar a casa, não tinha tamanho. E tenho para mim que os meus colegas e o meu chefe da altura passaram a respeitar-me mais por ter mostrado tanta determinação e tanto amor pelos meus filhos.
Lembro-de uma vez em que uma viagem a Itália coincidiu com os anos do meu filho, teria ele uns cinco anos. Fiz de tudo para mudar mas foi impossível. Íamos três e íamos ter reuniões com pessoas de duas outras empresas; e conciliar agendas foi uma complicação, acabando por convergir, desgraçadamente, naqueles dias. Fui com o coração partido. os meus pais vieram para ajudar o meu marido que, naquela altura, tinha trabalhos fora de Lisboa ou reuniões com pessoas que vinham de fora e que queriam optimizar o seu tempo cá, puxando os horários. E havia a festinha de anos com os meninos da escola. Todos disseram que eu fosse descansada, que o menino era pequeno, que nem ia perceber, que eles tratariam de tudo. Mas eu não consegui aceitar o que tinha feito e, ao segundo dia à noite, tomei uma decisão. Arrumei a mala e no dia seguinte de manhã, ao pequeno almoço, apresentei-me junto dos meus colegas dizendo que ia regressar a Lisboa. Ficaram perplexos, sem palavra. Mas eu disse que nem valia a pena dizerem nada. Quase sentia a voz estrangulada na garganta tanto me doía ter estado ausente no dia de anos do meu filho Não me lembro de como fiz para mudar o voo de regresso. Naqueles tempos, sem telemóveis nem internet, não sei como se resolviam coisas destas. Mas eu tê-las-ia resolvido mesmo que estivesse no meio do deserto. Lembro-me de andar meio assustada naquele aeroporto de Milão que é enorme, pejado de gente, eu com pouco tempo, com medo de não dar com a porta de embarque, enervada, angustiada comigo mesmo, desejando chegar a casa mas, ali sozinha, incontactável, com medo de não conseguir embarcar. Mas consegui. Quando, a seguir ao almoço, toquei à porta do apartamento dos meus pais, a minha mãe ficou ainda mais perplexa. Mas o meu alívio por estar de volta, por poder abraçar os meus filhos, por regressar a casa, não tinha tamanho. E tenho para mim que os meus colegas e o meu chefe da altura passaram a respeitar-me mais por ter mostrado tanta determinação e tanto amor pelos meus filhos.
Outra vez foi com a minha filha. Estava numa reunião de um grupo de trabalho do qual fazia parte, estávamos a preparar uma apresentação para o dia seguinte. Naquela altura as apresentações eram feitas em acetatos que se projectavam com auxílio do que hoje será obra de museu e que creio que dava pelo nome de retroprojector. Uma trabalheira. E tínhamos que acabar cálculos para passarmos as conclusões para os acetatos. E nisto ligam-me da creche a dizer que a minha filha tinha estado com um pouco de falta de ar e que, por precaução, a tinham levado ao hospital mas que parecia não ser nada de muito grave. Foi como se me tivessem tirado o chão, como se me tivessem tirado também a mim o ar, como se o céu estivesse prestes a cair-me sobre a cabeça. Fiquei aterrorizada, impotente. Na altura, andava de transportes públicos e chegar ao hospital parecia-me uma eternidade. Em tal estado de aflição me devem ter visto, certamente quase sem conseguir falar, que o meu chefe da altura me disse apenas: vai buscar as tuas coisas que eu levo-te lá. E foi a abrir, num ápice, eu em lágrimas, numa ansiedade -- como se o recado tivesse sido o oposto. Para mim era como se ela estivesse em risco de vida. Não encontro explicação para a irracionalidade que se apodera de mim em situações assim. Quando lá chegámos, ele disse que ficava à espera mas eu quis que ele se fosse embora pois sentia que era responsabilidade minha, que não podia dividir com ninguém. Voei dentro do hospital até dar com ela. Estava sentada, bem. Tinham-lhe feito um aerossol ligeiro e tinha ficado bem. Levei-a para casa mas num tal estado de medo que me lembro que passei o resto do dia a encostar o ouvido às costas dela a tentar detectar alguma pieira ou sinal de alarme. Quando penso nisto, ocorre-me que, na altura, ainda nem trinta anos tinha. Ontem ela e a sobrinha estiveram a ver fotografias e eu era tão novinha. Nesse dia, eu tinha vinte e tal anos e, para mim, apesar de ser muito responsável no trabalho, não havia acetatos, apresentações ou o que fosse que me prendessem perante a perspectiva de a minha filha não estar bem e eu não estar junto a ela.
E, mais recentemente -- embora já há uns sete ou oito anos --, o meu genro ligou-me um dia a dizer que o mais velho estava com um bocado de falta de ar e que tinham ido ao hospital e que, por prudência, lá ia ficar. Foi como se tivesse sido atingida por uma bala. Parece que, em momentos assim, se me esvaem as forças, parece que me fica a doer o peito, o ventre, tudo. Voei para o hospital. Uma preocupação imensa por ele, por imaginar o susto da minha filha, por tudo.
E podia dar mais exemplos. Apesar de achar que uma pessoa, em situações normais, não deve abdicar da sua profissão ou da sua ambição por fazer aquilo de que gosta por causa dos filhos, devendo, antes, esforçar-se por conciliar os dois mundos -- até porque os filhos crescem e a nossa disponibilidade passa a ser outra (e até porque não devemos nunca dar motivo para que os filhos fiquem a achar que nos devem alguma coisa, nomeadamente por nos termos sacrificado por eles) -- a verdade é que, para mim, sempre esteve muito claro que os filhos e a família vêm em inquestionável primeiro lugar.
Por isso, hoje, apesar de um certo transtorno e desconforto, foi com o coração quentinho que estive a ver o meu menino crescido, tão lindo, tão querido, a dar pontapés na bola tão fortes, tão certeiros, e tão contente por nos ter lá.
E claro que levei um lanchinho. Quando me despedi dele, no carro, ele, molhado e enregelado, coitado, disse-me: 'Obrigado pelo apoio... e pelo lanche...' e eu só me apeteceu enchê-lo de abraços e beijinhos.
E pronto, uma vez mais não ouvi notícias, não sei do que se passa no mundo a não ser alguns temas que não me dão muita vontade de falar neles -- como, por exemplo, que Bill Gates já ultrapassou o Bezos e que já é outra vez o homem mais rico do mundo mas os números são de tal ordem que me parece haver qualquer coisa de muito indecoroso em tudo isto; ou que Veneza está desgraçadamente submersa há tempo demais, de uma forma quase catastrófica, mas acho tudo tão assustador que mal consigo falar nisso -- e, tirando isso ou coisas pouco inspiradoras relacionadas com o Trump ou com o Boris, não tenho muito assunto. Só mesmo isto. Enquanto, na maior paz, ouço os sons do silêncio e escrevo isto que estão a ler.
E podia dar mais exemplos. Apesar de achar que uma pessoa, em situações normais, não deve abdicar da sua profissão ou da sua ambição por fazer aquilo de que gosta por causa dos filhos, devendo, antes, esforçar-se por conciliar os dois mundos -- até porque os filhos crescem e a nossa disponibilidade passa a ser outra (e até porque não devemos nunca dar motivo para que os filhos fiquem a achar que nos devem alguma coisa, nomeadamente por nos termos sacrificado por eles) -- a verdade é que, para mim, sempre esteve muito claro que os filhos e a família vêm em inquestionável primeiro lugar.
Por isso, hoje, apesar de um certo transtorno e desconforto, foi com o coração quentinho que estive a ver o meu menino crescido, tão lindo, tão querido, a dar pontapés na bola tão fortes, tão certeiros, e tão contente por nos ter lá.
E claro que levei um lanchinho. Quando me despedi dele, no carro, ele, molhado e enregelado, coitado, disse-me: 'Obrigado pelo apoio... e pelo lanche...' e eu só me apeteceu enchê-lo de abraços e beijinhos.
E pronto, uma vez mais não ouvi notícias, não sei do que se passa no mundo a não ser alguns temas que não me dão muita vontade de falar neles -- como, por exemplo, que Bill Gates já ultrapassou o Bezos e que já é outra vez o homem mais rico do mundo mas os números são de tal ordem que me parece haver qualquer coisa de muito indecoroso em tudo isto; ou que Veneza está desgraçadamente submersa há tempo demais, de uma forma quase catastrófica, mas acho tudo tão assustador que mal consigo falar nisso -- e, tirando isso ou coisas pouco inspiradoras relacionadas com o Trump ou com o Boris, não tenho muito assunto. Só mesmo isto. Enquanto, na maior paz, ouço os sons do silêncio e escrevo isto que estão a ler.
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As fotografias foram feitas este domingo rente ao Tejo
Lá em cima, são Simon & Garfunkel a interpretarem The Sound of Silence
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A todos desejo uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
quarta-feira, fevereiro 06, 2019
Muito para além da estatística
Não sei se na estatística das nove mulheres assassinadas desde o início do ano (e ainda estamos no início) já consta a menina de dois anos e a sua avó. Se calhar, não. Se calhar agora já são onze. Não sei a que se deve este número. Os sociólogos ou os psicólogos sociais devem conseguir explicar.
Ouvi hoje que, a seguir ao período de natal, a violência se acentua pois, muitas vezes, o período festivo força encontros indesejados ou, pelo contrário, faz sentir sofridas ausências, reprime sentimentos ou aguça ressentimentos.
Mas, situações sazonais à parte, parece haver muito ódio recalcado, muito desenquadramento, muita banalização do mal. As telenovelas portuguesas em horário nobre estão cheias de gente de pistola em punho, gente a agredir-se, a vigarizar-se, a vingar-se, filhos roubados, mentiras. Os filmes com maiores audiências estão cheios de perseguições, tareias, assassinatos, armas, armas de toda a espécie.
E depois há a pressão das redes sociais, o faz de conta, os amigos, os comentários permanentes, os likes, a exposição como forma de vida. E a raiva contida por debaixo da capa dos sorrisos e das selfies. Lê-se de vidas de 'esquemas' ou fantasias, ilusões, farsas. Ou vidas de 'seguranças' ou ex-seguranças, homens que tomam suplementos, que cultivam o físico, que são contratados para vigiarem o crime. Gente que vive nas margens da violência. Gente cujo corpo mal consegue suster as ondas de agressividade que parecem nascer do mais íntimo de si.
E depois é isto. O mal latente, comezinho, banal. A sociedade vai aceitando a violência gratuita, a pressão inaceitável e prepotente. Por exemplo: a greve dos enfermeiros, suspendendo cirurgias, podendo colocar em risco a vida das pessoas -- sendo que os doentes, indefesos, são as únicas vítimas -- é outro sinal da virulência que grassa nesta sociedade. Choca-me a tolerância com que se aceita que uma classe profissional atente contra a saúde pública da população, em especial da mais desfavorecida. É que estranhamente os enfermeiros não fazem greve nos hospitais privados quando razões de queixa também não lhes devem lá faltar. Tudo obscuro. Violento, incompreensível, inaceitável. Sementes de maldade que vão sendo espalhadas na sociedade.
Por cada mulher que morre vítima de violência doméstica, muitas outras continuam a sofrer sem coragem para denunciar a situação, com medo das consequências se ousar falar, com medo de represálias sobre os filhos. Medo, vergonha. Omissão. Até que um dia a coisa transborda. O dia em que o controlo falta. Onde vale tudo. Onde acontece o passo fatal.
Podia ser amor. Talvez tenha começado por ser amor. E o amor assume muitas formas e nem sempre tudo é bom no amor. Mas, por vezes, tudo se confunde: o real, o virtual, o social, o fatal. E depois há o momento em que o amor deixa de ser amor e passa a ser obsessão, pulsão, possessão.
E depois, por vezes, o sofrimento anónimo, silencioso e continuado, torna-se um número público.
E depois, por vezes, o sofrimento anónimo, silencioso e continuado, torna-se um número público.
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[As pinturas pertencem à colecção A Fortnight of Tears, um trabalho de Tracey Emin].
segunda-feira, outubro 24, 2016
Conversar
Não sei se chove lá fora. Há pouco, estava eu a escolher as fotografias do mar e a ouvir um ribombar surdo, ao longe. Ontem à noite, aconchegada num canto do sofá, a ver na RTP1 um filme francês muito bonito sobre uma prova de vela em solitário, ouvia chover, a chuva a bater com força nas janelas. Soube-me tão bem.
Agora, como habitualmente, a sala está quase às escuras, apenas a televisão com o som baixo e um foco de luz sobre mim para ver o computador. Gosto muito de estar assim.
Hoje acordei com vontade de pegar no tapete de arraiolos que, em tempos, deixei a meio. Antes gostava muito de me sentar num cadeirão pequenino, baixinho, as grandes carpetes sobre os joelhos, eu rodeada de lãs, a tecer, a fazer aparecer figuras, cores. Mas depois troquei esse prazer, bordar noite dentro, pelo de escrever aqui. Já tinha feito tantas carpetes que já não tinha onde as pôr. Hoje olho para todas elas quase abismada, sem compreender como consegui eu fazer tudo isto.
Mas não consegui matar essas saudades. De manhã fui para a praia e almocei por lá, peixe a saber a mar, depois fui às compras, depois fui para casa do meu filho onde a minha filha se nos juntou para lancharmos. Depois foi a costumeira algazarra dos pimentinhas, as jogatanas de futebol entre os rapazes (de todas as idades) e ela, a única menina, a fazer comidinhas na sua cozinha de brincar (parece que agora diz que, quando for grande, quer ser cozinheira em Paris). Já era quase noite quando regressei a casa.
Coloquei a roupa a lavar. Arrumei outras roupas. Deixei de lado a roupa de amanhã.
Como, durante a semana, chego sempre tarde, deixo feita a comida para que seja só aquecer. Por isso, seguiu-se a horinha da culinária.
Estive, então, na minha cozinha. Conto-vos.
Sopa de cenas
Numa panela com água, deito duas cebolas grandes, cinco cenouras de bom tamanho, um chuchu, uma courgette avantajada (tudo descascado e cortado aos bocados) e sal. Ponho ao lume (não é lume porque a placa é electrica -- mas isso é pomenor), espero que ferva e depois baixo a temperatura.
Num tachinho ao lado, deito uma cenoura cortada aos cubinhos e uma courgette mais modesta também cortadinha. Da panela ao lado, depois de levantar fervura, despejo um bocado de água sobre os legumes e ligo o lume. Faço esta manobra do transbordo da água para regular melhor a quantidade total da sopa. Quando ferve, baixo a temperatura. Depois de uns minutos, junto uma embalagem inteira de folhas de espinafres já lavadas. Continua ao lume por mais uns minutos.
Depois de desligar, junto um fio generoso de azeite virgem à panela, e moo até ficar um puré bem macio. Junto-lhe então os legumes e o caldo do tachinho. Com uma colher grande, envolvo tudo bem.
Mão de borrego no forno, com sabor a campo
Ligo o forno à temperatura máxima (calor em cima e em baixo) enquanto preparo o tabuleiro de pirex. No fundo, coloco vinho tinto. Espalho duas cebolas cortadas aos bocados no fundo. Estendo então a mão do borrego (limpa de gorduras, lavada e com uns golpes) sobre essa cama. Ponho algum sal por cima. Ponho ainda uns dentes de alho cortados, 3 ou 4 folhas de louro, alecrim esfarelado e polvilho ainda com orégãos. Rego com azeite. Coloco, então, o tabuleiro no forno e reduzo a temperatura para uns 190º. Passados uns minutos volto a reduzir para os 160º e passado mais um bocado volto a reduzir para os 150º. Na segunda hora baixo para uns 140º. De vez em quanto, viro para que, à vez, uma parte fique mergulhada no molho e a outra exposta ao calor de cima. Não sei bem quanto tempo ao todo, talvez umas três horas. Vejo que está bom quando a carne se afasta do osso e mostra um ar apetitoso.
Quando jantámos ainda o borrego estava no forno. Mas nem eu, depois de lanchar, teria fome para carnes. O meu jantar foi sopa (o meu marido, ao comê-la, disse: a sopa está mesmo boa e eu fiquei toda contente) e depois queijo fresco que comi ao mesmo tempo que uma maçã e uvas. Como sobremesa, comi um figo seco, daqueles que a minha mãe torrou e recheou com amêndoas. Depois, quando estava a sair da cozinha, voltei atrás e fui rapinar outro. Claro que fiz isso à socapa de mim pois os figos engordam que se fartam e eu devia dosear.
Só depois aqui cheguei. Estive a colocar um brilhozinho nas unhas, não ando em maré de unhas gritantes, só um brilhinho transparente. Como estou com uma blusa fininha de verão, deu-me o frio. Ainda pensei ir buscar um casaco mas, por preguiça, deixei-me aqui ficar. Peguei então numa mantinha, que estava sobre um dos braços do sofá, e cobri os ombros. Está a saber-me bem.
Estive também a ler alguns blogues. Há quem escreva muito bem ou sobre assuntos bem interessantes. Leio-os com a surpresa de ter, à minha disposição, palavras tão bem entretecidas, palavras ainda jovens, acabadas de escrever e, tantas vezes, a saberem já a palavras boas, antigas.
Estive também a ler alguns blogues. Há quem escreva muito bem ou sobre assuntos bem interessantes. Leio-os com a surpresa de ter, à minha disposição, palavras tão bem entretecidas, palavras ainda jovens, acabadas de escrever e, tantas vezes, a saberem já a palavras boas, antigas.
Enquanto escrevo, vou vendo a televisão. Agora estou a ver Maria João Seixas com José Pedro Serra. Não o conhecia a ele mas já o googlei, já vi quem é. Falam da mitologia grega. O programa chama-se Afinidades e ele fala com paixão de Cassandra e diz frases muito belas. Ela olha-o com aquele quase sorriso que é todo empatia. Desde que lhe morreu o filho, Maria João está sempre com um ar tão triste, tão em suspenso, como se pairasse num tempo que lhe fugiu. Admiro-a pelo que ela é e também pela coragem. O cenário em que estão -- o fundo negro, umas flores lindas com um toque de carmim que se conjuga com o baton dos lábios dela; sempre tão elegante, ela -- anula qualquer hipótese de distração. Apenas a conversa interessa e a forma como se olham enquanto a conversa flui. Sorri ele, enquanto fala da simbologia grega, daquela cultura que encapsula todas as culturas por vir. Escrevi simbologia sem querer, queria dizer mitologia. Mas simbologia talvez se possa aplicar neste contexto. Fica.
Sorri serenamente Maria João enquanto José Pedro Serra diz poemas e eu olho-os e não sorrio, porque fico quase paralisada quando ouço falar assim. E já vejo Maria João quase emocionada. Ao terminar diz que vai querer voltar a ouvi-lo a falar da Eneida, de Nietzsche. José Pedro Serra sorri agradado e conclui dizendo que as viagens afins é difícil saber com quem as podemos fazer. Maria João sobressalta-se, sorri, quase tímida.
Não sei porque não está a televisão cheia de momentos assim. Em vez de futebóis a toda a hora, reportagens infindáveis sobre crimes e fugas, incêndios, um jovem que foi para Londres e armou confusão no aeroporto, o advogado de outro que foi agredido pelos filhos do embaixador, ininterruptas entrevistas a criaturas descerebradas como ao láparo ou à cristas -- não seria mil vezes mais interessante ouvir pessoas inteligentes a conversarem, aprender com quem sabe mais que nós?
Ah, mil vezes sim, mil vezes.
Ah, mil vezes sim, mil vezes.
O que eu preciso de aprender -- tanto, tanto que não sei -- e o que eu gosto de aprender (mesmo que, logo de seguida, tente esquecer para, numa próxima vez, ser de novo surpreendida).
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Já é tarde. Daqui a poucas horas inicia-se mais uma destas minhas semanas meio loucas, em que um trabalho ciclópico parece abater-se sobre mim de forma quase torrencial. Os dias passam num instante e eu tento introduzir-lhes travões. Tento manter os almoços tranquilos, tento conseguir fazer uma caminhada à noite, mesmo que curta, tento manter-me acordada aqui à noite para descansar a cabeça enquanto converso convosco.
Fico-me, pois, por aqui que o sono já se faz sentir. A conversa já vai longa e só eu é que estou a falar. De vocês nem um ai. Já devem estar fartos de tanta tagaralice, não?
Tenho aqui ao meu lado um livro muito bonito com poemas de Pedro Tamen mas já não vou abusar mais da vossa paciência. Um dia destes logo transcrevo um poema.
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Reparei há pouco que ultrapassei hoje um milhão e setecentas mil visitas. Lembro-me do dia em que, incrédula, cheguei às mil, depois às dez mil. Mais ainda quando atingi as cem mil. Eram números que estavam para além do que alguma vez poderia esperar. Até que passei o milhão. Fiz uma festa, chamei a família. E agora acredito que um dia ainda chego aos dois milhões. É uma sensação inexplicável. Eu aqui sossegadinha na minha sala, a escrever despreocupadamente, e tantas pessoas aí a lerem estas minhas palavras. Afinidades, também? Gostava que sim, que pessoas que não conheço se sentissem estranhamente próximas de mim. Mas, próximas ou não, agradeço-vos do fundo do meu coração. A vossa companhia silenciosa sabe-me bem, é como se me agraciassem com a vossa generosidade.
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As fotografias que coloquei ao longo do texto mostram as paredes grafitadas do Ginjal.
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E, caso queiram ver como estava magnífico o mar neste domingo de alerta laranja, desçam por favor até ao post que se segue.
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sábado, maio 14, 2016
Bater no fundo
Se eu estivesse a escrever um livro, talvez desenvolvesse o assunto. Falaria sobre o período negro que se seguiu, as desconfianças, as suspeitas que desencadeavam brigas familiares, a vergonha, as tentativas de ocultar do exterior o que se passava, as acusações, a culpa, as aflições, as traições. Mas não estou a escrever um livro. Não.
Por isso, omito aquilo que a família pretende manter escondido, omito as consequências sobre centenas de outras vidas. Vou manter-me focada no Pedro e na Clara, essas duas pessoas que se conheciam dos meios virtuais e a quem as afinidades uniram e que, por circunstâncias acidentais, se aproximaram ainda mais depois do dia desafortunado em que se conheceram no mundo real.
Direi apenas que Pedro tinha razão ao preocupar-se. A sua família foi uma das que muito tocada foi pela crise financeira. Depois, por uma sucessão de gestos precipitados ou impensados, por vinganças absurdas e, finalmente, já com a situação fora de controlo, a família de Pedro perdeu praticamente tudo o que tinha. Nada de mais nem de diferente do que aconteceu a várias famílias que por cá, como em muitos outros países, fruto de uma excessiva alavancagem financeira, acumularam dívidas desalicerçadas que, uma vez em situação de desequilíbrio, deixaram a nu a vulnerabilidade do que se pensava ser uma sólida e eterna riqueza familiar. Umas coisas eram garantias de dívidas para adquirir outras que vinham também a ser garantias para outras dívidas. A queda de uma fez inevitavelmente cair tudo. Gravações, denúncias e rivalidades fizeram o resto. O assunto avançou para os tribunais. Entretanto, três dos membros da família -- e aqui leia-se família alargada pois a família, sendo grande, favorecia a família alargada (primos, tios, cunhados, sobrinhos) -- já puseram termo à vida. A vergonha e a impotência, a incapacidade de enfrentar uma vida para a qual não se tem preparação, tornam-se, por vezes, insuportáveis.
A ter que pagar a advogados, sem trabalho e vivendo agora num modesto apartamento, Pedro é uma sombra do que era há pouco tempo atrás.
Trava várias batalhas: a da recuperação de uma honorabilidade que deixou de lhe ser reconhecida, a da justiça, a da tentativa de não perder o respeito dos filhos que, industriados por uma mãe revoltada, o culpam das desgraças que se abateram sobre a família e, de forma muito emotiva, também a da tentativa de recuperação de parte da bela biblioteca da família.
Trava várias batalhas: a da recuperação de uma honorabilidade que deixou de lhe ser reconhecida, a da justiça, a da tentativa de não perder o respeito dos filhos que, industriados por uma mãe revoltada, o culpam das desgraças que se abateram sobre a família e, de forma muito emotiva, também a da tentativa de recuperação de parte da bela biblioteca da família.
Do que sobrou, depois das repartições (vividas sob um clima de ameaças e gritarias), Pedro ficou com algumas mercadorias que escaparam aos arrestos, alguns prédios velhos que não estavam hipotecados e que estão arrendados com rendas baixas, uns quantos terrenos de mato que estavam esquecidos. Alguns, poucos, funcionários ocupam-se ainda de vender o que sobrou. Pedro trabalha com eles. É disso que vive. Conseguiu salvar ferramentas da sua oficina de encadernação e também faz trabalhos para alguns antiquários e isso é também uma ajuda.
Clara tem-se mantido a seu lado. Apoia-o de todas as maneiras possíveis. Tenta segurá-lo quando sente que o seu ânimo se está a esboroar. Acompanha-o quando sente que ele precisa de alguma força para travar lutas mais complicadas ou antes de se ir encontrar com os filhos. Incentiva-o a arranjar-se, a fazer a barba, a recuperar a capacidade de sorrir.
Muitas vezes, quando está à espera dele, mal o reconhece: parece um velho abandonado. Clara repreende-o. Dá-lhe o braço, quer que ele perceba que é por bem que se zanga .
Uma vez ofereceu-lhe um blusão. Quando ele viu o que era, virou o rosto. Ela percebeu que ele chorava. Fingiu que não percebia. brincou, disse que era uma consumista, que já não tinha nada que comprar para ela própria, que tinha visto o blusão tão barato que, só mesmo para não o deixar lá ficar, o tinha trazido. Clara não quer que Pedro se sinta humilhado, vencido. Quer que ele recomece. Mas quem perdeu tanto como ele, sente-se amputado e não sabe se será capaz de voltar a andar. Uma vez disse: Mesmo que quisesse, é com esta idade que vou recomeçar? Como vou ter força para enfrentar recusas ou desinteresses? Vou fazer o quê? Pedir? Humilhar-me? A única coisa que sei fazer é gerir empresas. Mas, depois do que aconteceu e com esta idade, quem é que me vai contratar?
Nessas alturas Clara receia que ele queira desistir de tudo, até de viver.
Para ver se o anima, Clara traz sempre um livro de poemas. Sentam-se num banco de jardim ou numa esplanada e Clara abre o livro e lê poemas. Outras vezes, pede que Pedro os leia. O tempo muda de feição quando estão assim, a ler poesia um para o outro.
Muitas vezes, quando está à espera dele, mal o reconhece: parece um velho abandonado. Clara repreende-o. Dá-lhe o braço, quer que ele perceba que é por bem que se zanga .Uma vez ofereceu-lhe um blusão. Quando ele viu o que era, virou o rosto. Ela percebeu que ele chorava. Fingiu que não percebia. brincou, disse que era uma consumista, que já não tinha nada que comprar para ela própria, que tinha visto o blusão tão barato que, só mesmo para não o deixar lá ficar, o tinha trazido. Clara não quer que Pedro se sinta humilhado, vencido. Quer que ele recomece. Mas quem perdeu tanto como ele, sente-se amputado e não sabe se será capaz de voltar a andar. Uma vez disse: Mesmo que quisesse, é com esta idade que vou recomeçar? Como vou ter força para enfrentar recusas ou desinteresses? Vou fazer o quê? Pedir? Humilhar-me? A única coisa que sei fazer é gerir empresas. Mas, depois do que aconteceu e com esta idade, quem é que me vai contratar?
Nessas alturas Clara receia que ele queira desistir de tudo, até de viver.
Para ver se o anima, Clara traz sempre um livro de poemas. Sentam-se num banco de jardim ou numa esplanada e Clara abre o livro e lê poemas. Outras vezes, pede que Pedro os leia. O tempo muda de feição quando estão assim, a ler poesia um para o outro.
Geralmente, Pedro trata do assunto da recuperação da biblioteca com o advogado da família chinesa que lá vive agora. Mas um dia quis ir lá. Combinou com o advogado, o advogado organizou tudo. Clara acompanhou-o. Ia muito nervoso, pensou voltar para trás. Clara animou-o. Anda há tanto tempo com essa ideia. Não vai descansar enquanto não o fizer. Não adie, vá. Pedro não falava, tanta a ansiedade. Quando chegaram perto da porta, Clara lembrou-se do dia em que o tinha conhecido. Tinha batido à porta sem saber o que ia encontrar. Tanta coisa tinha, entretanto, desmoronado que isso parecia ter acontecido numa outra vida.
Foi ela que, também agora, bateu à porta. Quando a porta se abriu, ele estremeceu. Clara deu-lhe o braço. Sentiu que ele estava a tremer. Encostou-se ao de leve e sentiu tanta, tanta pena, teve tanta vontade de chorar. Pensou: Pobre, pobre Pedro.
Depois apareceu uma empregada. Abraçou-se a Pedro. Chorava, chorava. Clara percebeu que ela dizia: Meu menino, meu menino... Pedro abraçou-a em silêncio. Clara viu que ele continha as lágrimas. Talvez por isso não disse uma palavra, apenas fez uma trémula festa no cabelo branco de Maria de Lurdes.
Clara sentiu que as lágrimas se soltavam mas secou-as rapidamente e disfarçou. Vamos lá, disse.
Foi ela que, também agora, bateu à porta. Quando a porta se abriu, ele estremeceu. Clara deu-lhe o braço. Sentiu que ele estava a tremer. Encostou-se ao de leve e sentiu tanta, tanta pena, teve tanta vontade de chorar. Pensou: Pobre, pobre Pedro.
Depois apareceu uma empregada. Abraçou-se a Pedro. Chorava, chorava. Clara percebeu que ela dizia: Meu menino, meu menino... Pedro abraçou-a em silêncio. Clara viu que ele continha as lágrimas. Talvez por isso não disse uma palavra, apenas fez uma trémula festa no cabelo branco de Maria de Lurdes.
Clara sentiu que as lágrimas se soltavam mas secou-as rapidamente e disfarçou. Vamos lá, disse.
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- Lá em cima, Leonidas Kavakos e Enrico Pace interpretam o Adagio da Sonata Nº 3 para violino de Brahms.
- Já aqui acima Simon and Garfunkel interpretam Bridge Over Troubled Water
- A primeira fotografia, feita no domingo passado, mostra o Jardim da Estrela
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Este capítulo vem no seguimento de 'Desabamento' (de onde poderão passar para os capítulos anteriores) e continua em 'A primeira noite de amor'.
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Já abaixo encontrarão a reportagem de parte da minha sexta-feira, incluindo uma ida até à praia ao anoitecer.
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quarta-feira, julho 23, 2014
O despertar da minha sexualidade, à mistura com história e geografia
No post abaixo já falei dos amigos que começam a cercar-se para ajudar a salvar o BES. Esqueci-me de falar do BESA mas isso é outro filme. Centrei-me nos amigos alemães que aí estão uma vez mais e também no Goldman Sachs, debicando aqui e ali, e ainda nos fundos, e em todos quantos farejam a carniça, a desgraça, o estado de absoluta carência.
Mas isso é a seguir.
Aqui, agora, a conversa é outra.
Como é óbvio não me interessa nada que o Santana Lopes esteja a perfilar-se para Presidente da República ou que o António José Seguro ande numa campanha alegre a ver se consegue realizar o sonho da vida dele ou que o Marques Mendes todos os sábados se arme em comadre boa do cavaquismo ou até mesmo que o Passos Láparo ande a escrever cartinhas ao Aníbal Silva a mandá-lo fazer coisas como se estivesse a dar instruções a um lombinha qualquer. São coisas que não mexem comigo, digamos assim. Tenho mais que fazer. Até lá não me doa a cabeça. Cantam muito mas não me alegram. Rebéubéu, pardais ao ninho.
Poderia, é claro, falar da prepotência de um ministro sinistro como uma cobra venenosa que tudo faz para humilhar os professores que estão a caminho do desemprego ou para destruir toda a comunidade científica portuguesa. Mas isso requereria que eu tivesse um estômago mais resistente do que o meu. Falar do Nuno Crato ou falar da violência com que ele ataca os que sabem mais do que ele ou que querem aprofundar o conhecimento, revolve-me o estômago, revolta-me, repugna-me.
Portanto, adiante.
Agora, pensando nos professores e em quanto marcam a nossa vida, e talvez porque me apetece estar noutra, numa onda revivalista, vintage, coisa assim, deixem-me então retroceder no tempo.
Eu tinha uma professora de geografia que, aos meus olhos, devia ter perto de cem anos. Pensando hoje no assunto, admito que não tivesse tantos mas muitos teria certamente. Pequenina, direitinha, vestida como uma pequena boneca antiga, cabelinho branco pela nuca, vestidinhos com golinhas de renda, chapelinhos com redes ou rendinhas. Toda ela era uma gracinha. Parecia saída de um filme antigo ou de um postal de outros tempos. Falava baixinho, voz de velhinha querida. Na altura, os professores usavam cadernetas onde lançavam as notas, as faltas e outras observações. Ela, boazinha como era, em vez de punir, agraciava: dava estrelinhas aos alunos bem comportados. Era uma doçura.
Mas, claro, era também uma vítima. Para os rapazes, as aulas de geografia eram uma paródia. Faziam toda a espécie de tropelias de que ela, bastante surda, nem se apercebia. Depois, se calhava ela olhar na direcção deles, disfarçavam, sorriam-lhe, diziam coisas queridas e ela presenteava-os com estrelinhas. O rapaz por quem eu estava loucamente apaixonada na altura, um dos piores em comportamento, claro está, era useiro e vezeiro em trocar-lhe as voltas. Tal como eu, ela também o adorava. Acho que ele deve ter ganho o máximo de estrelinhas.
Não me lembro do nome dessa professora e fico aborrecida por isso.
Nunca fui de decorar ou de me pôr a estudar concentradamente. Geralmente, o conhecimento era adquirido a partir do que aprendia nas aulas, do que lia nos livros, do que apanhava do ar. Ora, como daquelas aulas pouco se apanhava já que, com a vozinha baixa que ela tinha, apenas os que estavam junto a ela a conseguiam ouvir e já que a minha atenção era mais estimulada pelas aventuras que se passavam nas costas dela do que pela matéria em si, nunca soube muito de geografia. Mesmo depois, por mim, nunca foi assunto que me despertasse demasiado a atenção. Os países e respectivas fronteiras é assunto demasiado aleatório e mutável para eu querer fixar. Bandeiras, então é mentira. Conheço a de Portugal e pouco mais. Depois a questão orográfica, a fauna, a flora, isso assim, já me interessa um pouco mais mas de forma bastante relativa. Li um livro interessante do Professor Orlando Ribeiro e disso gostava. Mas sou geograficamente ignorante.
Outra pecha no meu conhecimento, e essa também grave, tem a ver com história. As razões são basicamente as mesmas.
A nossa turma era uma turma piloto. Inaugurámos, a título experimental, as turmas mistas. Juntaram os melhores alunos de cada ano anterior independentemente de serem rapazes ou raparigas. Por isso, porque naquela altura, não sei porquê, os rapazes tinham melhores notas, a turma tinha para aí uns 20 rapazes e umas 10 raparigas. Uma alegria para mim. Na turma havia uma predominância de meninos e meninas família o que, em certa medida, era sinónimo de rebeldias e maus comportamentos. Claro que nada que se comparasse com o que vim, anos depois, a encontrar quando fui professora que, aí, já era falta de respeito, falta de educação, baderna, insubordinação. Não, naquela altura, eram maus comportamentos mas com boa educação. Filhos de médicos, de industriais, de comandantes de marinha, de presidente de câmara, de presidentes de institutos, eram em grande número. Muitas vezes os desacatos sobrevinham de encararem e discutirem com os professores de igual para igual, coisa que, na altura, os professores não aceitavam.
Mas havia os casos mais bicudos. Esse meu namoradinho era dos piores. Aí as coisas eram mais graves. Lembro-me que entrava pela janela da chamada sala de ponto, roubava os enunciados dos ‘pontos’, copiava-os, distribuía-os. Ou pregava partidas aos professores ou desafiava-os. Por vezes era ameaçado de ser suspenso e foi várias vezes publicamente repreendido.
Tínhamos uma professora de História que era uma chata insuportável. Obrigava-nos a decorar o livro e assinalava como mal ou incompleta se a resposta não estivesse tal e qual as frases do compêndio escolar. Uma vez, num desses dias de teste, ouvi-a dar um grito: ‘Mas o que é isto?!?’. Não sabia de que se tratava. Então ouvi a voz dele lá atrás (estava sempre na última fila), muito calmo, ‘É o livro’. E ela ‘Que é o livro estou eu a ver. Mas o que é que o livro está a fazer aberto em cima da secretária??. E ele, calmo, desafiador, ‘Estou a copiar que é para não me faltar nenhuma vírgula’. Eu encolhia-me quando coisas destas se passavam, cheia de medo por ele, pelo que se ia passar a seguir. ‘Vais ter 0’. E ele, calmo, com a folha na mão, a levantar-se e a sair. E ela, outro grito, ‘Onde é que pensas que vais?’. E ele, rebelde, atrevido, ‘Vou sair. Se me impede de fazer o ponto, não estou aqui a fazer nada’. E ela, já mais a medo, a voz trémula ‘Senta-te e vê se acabas o ponto mas vou ficar com o livro’. E ele, gingão, malandreco, de novo a caminho do lugar, a dar-lhe o livro ‘Faça favor’. My hero.
Tínhamos uma professora de História que era uma chata insuportável. Obrigava-nos a decorar o livro e assinalava como mal ou incompleta se a resposta não estivesse tal e qual as frases do compêndio escolar. Uma vez, num desses dias de teste, ouvi-a dar um grito: ‘Mas o que é isto?!?’. Não sabia de que se tratava. Então ouvi a voz dele lá atrás (estava sempre na última fila), muito calmo, ‘É o livro’. E ela ‘Que é o livro estou eu a ver. Mas o que é que o livro está a fazer aberto em cima da secretária??. E ele, calmo, desafiador, ‘Estou a copiar que é para não me faltar nenhuma vírgula’. Eu encolhia-me quando coisas destas se passavam, cheia de medo por ele, pelo que se ia passar a seguir. ‘Vais ter 0’. E ele, calmo, com a folha na mão, a levantar-se e a sair. E ela, outro grito, ‘Onde é que pensas que vais?’. E ele, rebelde, atrevido, ‘Vou sair. Se me impede de fazer o ponto, não estou aqui a fazer nada’. E ela, já mais a medo, a voz trémula ‘Senta-te e vê se acabas o ponto mas vou ficar com o livro’. E ele, gingão, malandreco, de novo a caminho do lugar, a dar-lhe o livro ‘Faça favor’. My hero.
A partir daí a professora passou a ser uma vítima. Na altura, usava uns vestidos de malha, justos ao corpo. Sempre que ele se lembrava, antes dela chegar, soprava uma camada de giz na cadeira onde ela se ia sentar. Ela escrevia o sumário no livro de ponto sentada e depois dava a aula a andar entre nós. E era para mim quase insuportável aguentar o riso ao ver que ela andava com duas bolas brancas na parte de trás do vestido, no que correspondia às nádegas. E a coisa ficava ainda mais caricata quanto ela era tudo menos sexy.
Eu ficava ainda mais perdida de amores por ele com estas coisas. Era ainda mais my hero. Apesar de tudo isto, era um dos melhores alunos da turma, uma inteligência fulgurante apesar de negligente. Mas a negligência dele tornava-o ainda mais sedutor.Isso e um dente da frente partido. Uma vez, no verão, estávamos a passar o dia na casa de férias de uma amiga nossa. Para se armar em campeão, ele fazia peões de bicicleta, no ar, descia grandes ladeiras na bicicleta, sem mãos, depois, na areia, fazia travagens malucas que o faziam rodopiar. Era ele e outro a verem quem fazia mais disparates. Eu sempre derretida mas a adivinhar que aquilo ainda ia dar para o torto. Claro que deu mas, menos mal, a coisa ficou-se por um incisivo de cima, ali bem à frente, partido em diagonal. A boca inchada, sangue, e todo esfolado, de alto a baixo, braços, pernas. My hero. O que eu apreciei aquela bravura. Depois curou-se mas aquela falha no dente ficou e dava-lhe um toque de malícia que me deixava ainda mais enfeitiçada.
Tinha uma letra horrível, mal se percebia.
O professor de matemática, um sujeito nervoso, passava-se com ele. Não percebia nada daquela letra. Uma vez, sentado à secretária (e, naquela altura, a secretária dos professores estava num estrado elevado) fazia a chamada e entregava os testes classificados. Quando chegou a vez dele, atirou-lhe o teste e disse ‘Esperteza saloia. Se essa letra ilegível é para ver se eu não percebo nada e marco como certo, estás muito enganado, o que não percebi marquei como estando mal’. Ele não fez esforço para apanhar o teste que tinha sido atirado e o teste foi parar ao chão, no estrado. Nestas alturas eu ficava assustada. Mas o meu amor, com aquela calma desafiadora tão típica nele, sorriu, deu meia volta e foi sentar-se no seu lugar. O professor deu-lhe um grito ‘Volta atrás e apanha o teste’. Ele sorriu e disse, ‘Eu não o apanho. Fico à espera que mo dê à mão’. O professor ficou branco. Fez a entrega dos testes que faltavam e depois ficou em silêncio. Um nervosismo terrível tomou conta do ambiente. De vez em quando o professor dizia ‘Não sai ninguém desta sala enquanto não vieres apanhar o teste’. Ele apenas sorria, calmo, desafiador. Quando tocou, o professor gritou, ‘Não sai ninguém!’.
Lembro-me do professor da aula seguinte assomar à porta. Lembro-me de eu própria querer ir apanhar o teste e do professor não me ter deixado. Mas não me lembro do desfecho. Provavelmente o professor saíu com o teste ainda no chão. Provavelmente o meu namorado recusou-se a pegar nele. Não me lembro.
Jogava muito bem futebol mas era de rastilho de curto. Volta e meia pegava-se à pancada com o arqui-rival, um outro tão betinho quanto ele mas da linha bem comportada. Na verdade, quando ganharam consciência cívica, o meu namorado tornou-se (des)alinhado com a esquerda revolucionária, a tender para o anarca e o outro virou de direita, CDS puro, que, na altura, era até quase heresia ser-se do CDS, tão à direita parecia ser. Pegaram-se muitas vezes por minha causa mas eu, apesar dos problemas em que o meu bem amado se via constantemente metido, sempre o defendi e amei apaixonadamente enquanto sempre desprezei o outro, tão arrogante e que, quando queria parecer mal comportado, não tinha graça nenhuma. Veio a desempenhar um cargo público, claro. O meu bem amado ficou anónimo e presumo que continue a ser mal comportado.
Dos três eu era a que sabia menos geografia e menos história. Sempre foram os meus pontos fracos e uns dos pontos altos deles. Aliás um seguido a área do que hoje se designa por humanidades. Mas o meu bem amado, que também brilhava na física, seguiu o ramo das ciências.
Era irreverente e um caso bicudo de mau comportamento (o apogeu foi ter pernoitado na esquadra) mas a forma meiga e sensual como, com a ponta dos dedos, afastava lentamente o meu longo e pesado cabelo das costas para encostar os seus lábios a ferver ao meu pescoço, ainda hoje está bem presente na minha memória. Com ele percebi que o meu corpo tinha vida própria e no corpo dele senti, pela primeira vez, o efeito que o meu corpo poderia produzir num outro corpo. Eu era uma menina bem disposta e ele um puto rebelde e juntos descobrimos a nossa sexualidade.
Não tem conta as vezes em que, ao som do Bridge over troubled water interpretada pela dupla Simon and Garfunkel, dancei agarrada a ele, bem agarradinha, ele bem abraçado a mim, rosto contra rosto, ou eu com a cabeça encostada ao seu peito ou ele a arrepiar-me, beijando-me o pescoço. Tardes inteiras agarrados, no maior mel, inseparáveis.
Começou aos 12 anos este amor, no dia em que, antes de uma aula ter início, a turma inteira se juntou, surpreendida, em volta da carteira dele. As carteiras eram de madeira e ele estava na última fila. Tão mal se portava que era posto de castigo no fim da sala e ali acabava por ficar. Nesse dia alguém descobriu que ele, com um canivete, tinha escavado o tampo da carteira. De ponta a ponta, em letras de forma de tamanho garrafal, gravou o meu nome e, por baixo, gravou I LOVE YOU. Eu nem queria acreditar. Olhei timidamente para ele, surpreendida. E, instantaneamente, apaixonei-me por ele. Claro que já andava encantada. Durante todas as aulas, lá de trás, ele atirava-me bolinhas de papel através de uma caneta a que tinha tirado a carga e por onde soprava. E fazia coisas como as que descrevi antes e que me faziam admirá-lo para além da conta. Aquela declaração de amor gravada na madeira foi apenas a gota de água.
O nosso amor durou até aos nossos 16 anos, altura em que, por sermos ambos temperamentais e orgulhosos, nos zangámos para nunca mais. Já contei isso. Amanhã, se estiver para aí virada, conto mais coisas.
Relembro: sobre o BES e sobre os abutres que começam a chegar-se falo no post a seguir. E, ao mesmo tempo que escrevo, faço figas para que tudo dê certo. Tomara. Tomara. De caminho, mostro um vídeo de curta duração no qual dá para se perceber de que forma a Goldman Sachs e os mercados em geral mandam no mundo.
Era irreverente e um caso bicudo de mau comportamento (o apogeu foi ter pernoitado na esquadra) mas a forma meiga e sensual como, com a ponta dos dedos, afastava lentamente o meu longo e pesado cabelo das costas para encostar os seus lábios a ferver ao meu pescoço, ainda hoje está bem presente na minha memória. Com ele percebi que o meu corpo tinha vida própria e no corpo dele senti, pela primeira vez, o efeito que o meu corpo poderia produzir num outro corpo. Eu era uma menina bem disposta e ele um puto rebelde e juntos descobrimos a nossa sexualidade.
Não tem conta as vezes em que, ao som do Bridge over troubled water interpretada pela dupla Simon and Garfunkel, dancei agarrada a ele, bem agarradinha, ele bem abraçado a mim, rosto contra rosto, ou eu com a cabeça encostada ao seu peito ou ele a arrepiar-me, beijando-me o pescoço. Tardes inteiras agarrados, no maior mel, inseparáveis.
Ou a conversarmos, cúmplices, amigos, de mãos dadas.
Começou aos 12 anos este amor, no dia em que, antes de uma aula ter início, a turma inteira se juntou, surpreendida, em volta da carteira dele. As carteiras eram de madeira e ele estava na última fila. Tão mal se portava que era posto de castigo no fim da sala e ali acabava por ficar. Nesse dia alguém descobriu que ele, com um canivete, tinha escavado o tampo da carteira. De ponta a ponta, em letras de forma de tamanho garrafal, gravou o meu nome e, por baixo, gravou I LOVE YOU. Eu nem queria acreditar. Olhei timidamente para ele, surpreendida. E, instantaneamente, apaixonei-me por ele. Claro que já andava encantada. Durante todas as aulas, lá de trás, ele atirava-me bolinhas de papel através de uma caneta a que tinha tirado a carga e por onde soprava. E fazia coisas como as que descrevi antes e que me faziam admirá-lo para além da conta. Aquela declaração de amor gravada na madeira foi apenas a gota de água.
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Relembro: sobre o BES e sobre os abutres que começam a chegar-se falo no post a seguir. E, ao mesmo tempo que escrevo, faço figas para que tudo dê certo. Tomara. Tomara. De caminho, mostro um vídeo de curta duração no qual dá para se perceber de que forma a Goldman Sachs e os mercados em geral mandam no mundo.
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Perdida, perdida de sono, e incapaz de passar os olhos pelo que acabei de escrever, despeço-me por agora.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira e, não nos esqueçamos, quarta feira passada, semana dobrada.
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quarta-feira, março 26, 2014
Crónica dos dias desgastantes de uma mulher que não tem diamantes nas solas dos sapatos. E, apesar de não vir a propósito, aqui deixo exercício físico recomendado para machões
Música, por favor, que a esta hora isto já só lá vai com música e da animada.
Diamonds On The Soles Of Her Shoes
*
Vou já dizendo: não é que eu ache elegante ou sexy dizer que ando cansada ou com sono. Não acho. Aliás, para dizer a verdade, não acho isso nem o contrário. Mas é um facto: estou mesmo cansada. Felizmente esta pancada só me dá a esta hora da noite e, portanto, não há testemunhas para além de vós, meus Caros. Melhor: ter testemunhas até tenho, tenho uma, mas essa já não estranha nada em mim (embora bem tente chamar-me à razão, que deixe isto, que vá dormir cedo, que descanse, etc).A questão é que tenho tido uns dias do além. Dias? Semanas! Nem dá para acreditar. Uma canseira permanente, reuniões desgastantes, duras, complicadas, umas atrás de outras, e gente que me aparece pela frente e que não devia aparecer, só me atazanam o juízo, e, parece que é de propósito: as coisas não são no mesmo sítio, e aí ando eu a atravessar Lisboa.
E hoje as operações stop que vi... Nem sei o que era aquilo, se era caça ao excesso de velocidade, se era outra coisa qualquer.
Felizmente não me mandaram parar, nunca atino com os documentos, tiro papéis do tablier, reviro a carteira, nunca me aparece o que é suposto, os polícias já com ar desconfiado e eu a ficar ainda mais enervada, parece que fico com medo que me prendam, nem sei, que me exijam milhares de euros de multa. No fim, lá consigo reunir os documentos mas, ó sorte macaca, quando me afasto até vou a tremer. O que vale é que ao fim de cinco minutos já me passou. Mas não, hoje não me mandaram parar. A 50 km à hora e a ter que estar a horas aqui e ali, é um stress. Quando eu comecei a trabalhar, os directores e administradores tinham motorista. Onde é que isso já vai. Era um disparate mas poupava a vida aos que podiam andar de cuzinho tremido, sem terem que se ralar com o trânsito ou com estacionamento.Para mim o pior de tudo é mesmo a porcaria do estacionamento em parques apertados, em que os sensores do carro apitam para a frente, para trás, para os lados. Tudo à justa e em que qualquer falta de atenção dá cabo do carro. Odeio. Estes edifícios novos, para rentabilizarem o espaço, só não desenham os lugares de estacionamento ainda mais à justa, de preferência para os carros ficarem ao colo uns dos outros, porque não descobriram forma de o fazer sem se esborrachar o de baixo.
Hoje regressei ao escritório já eram seis da tarde e, quando pensava que ia poder responder aos mails, sossegada, e despachar umas coisas, qual quê? Gente a aparecer-me no gabinete, telefonemas, e eu a querer despachar-me; mas como...?
Palavra que isto não está fácil.
E amanhã a cena continua, começo o dia logo com uma que eu, se fosse atilada, estava aqui a pensar como conduzir aquele lindo molho de brócolos (mas não tenho paciência, será de improviso) e até ao final da semana continuo no mesmo ritmo. O que me vale é que a experiência já me leva a que um briefing de poucos minutos me dá para ir para as reuniões como se me tivesse preparado durante um mês. Não consigo tempo para grandes preparativos (e já nem tenho pachorra para isso, diga-se em abono da verdade).
Ai, minha mãezinha.
Bem queria ter tempo para responder aos mails dos meus Leitores... há umas duas semanas que não consigo responder a um único e se tenho alguns que requerem resposta atenta. Há um, então, que me está aqui atravessado, queria ter tido logo tempo para responder. Peço desculpa. A ver se um destes dias consigo tempo. Não gosto de responder à pressa, chapa 4. Não, gosto de o fazer com cuidado e atenção, como se estivesse a tomar um chá com um amigo.
E é isto. Vinha, já tarde, a caminho de casa e a pensar que talvez hoje escolhesse uns trechos de alguns dos livros, que talvez usasse parte da entrevista a Dulce Maria Cardoso ou a Teolinda Gersão (Jornal de Letras); mas não consegui energias para me pôr aqui a fazer cópias, os olhos a quererem fechar-se.
Aliás, o que eu devia ter feito, quando cheguei a casa, era ter enchido a banheira, meter-me lá dentro, ligar a hidromassagem. Mas nunca ligo, aquilo faz barulho como um paquete em alto mar. E não tenho paciência para estar à espera que a banheira encha.
Bem.
A esta hora, cansada como estou, isto já não dá para mais nada.
Tenho estado a ouvir a televisão enquanto escrevo e nada me inspira: as trapalhices habituais do lado do PSD, cortes e contra-cortes e o Montenegro a ver se disfarça, uma gente desqualificada. Não tenho paciência para gente assim. Do Portas nem se ouve falar - por onde andará ele? Que era vice e mais não sei o quê e, afinal, não se dá por ele. O Mário Soares escreveu que ou ele anda sossegadinho ou o Passos dá cabo dele e as cenas dos submarinos e outras vêm para a ribalta. Talvez seja isso. A minha mãe no outro dia saíu-se com uma boa a propósito do vice-Portas- mas não dá para contar aqui, são coisas ditas em família.
Parece que meio mundo anda a passar-se da cabeça, bolas para isto.
Enfim.
Pode ser que amanhã consiga chegar a casa a horas mais decentes e tenha mais cabeça para escrever alguma coisa que se aproveite.
Hoje fico-me por aqui.
Mas antes, para não darem a visita por perdida (e nada de pensamentos ambíguos: isto não vem a propósito de nada do que acima escrevi), aqui vos deixo um vídeo onde alguns dos meus Leitores poderão aprender uma lenga-lenga para dizerem enquanto fazem exercício. Caso achem apropriado, também poderão encaminhar para alguns amigos e conhecidos, deputados, ministros, cabeleireiros, assessores do governo, etc.
Palavra que isto não está fácil.
E amanhã a cena continua, começo o dia logo com uma que eu, se fosse atilada, estava aqui a pensar como conduzir aquele lindo molho de brócolos (mas não tenho paciência, será de improviso) e até ao final da semana continuo no mesmo ritmo. O que me vale é que a experiência já me leva a que um briefing de poucos minutos me dá para ir para as reuniões como se me tivesse preparado durante um mês. Não consigo tempo para grandes preparativos (e já nem tenho pachorra para isso, diga-se em abono da verdade).
Ai, minha mãezinha.
Bem queria ter tempo para responder aos mails dos meus Leitores... há umas duas semanas que não consigo responder a um único e se tenho alguns que requerem resposta atenta. Há um, então, que me está aqui atravessado, queria ter tido logo tempo para responder. Peço desculpa. A ver se um destes dias consigo tempo. Não gosto de responder à pressa, chapa 4. Não, gosto de o fazer com cuidado e atenção, como se estivesse a tomar um chá com um amigo.
E é isto. Vinha, já tarde, a caminho de casa e a pensar que talvez hoje escolhesse uns trechos de alguns dos livros, que talvez usasse parte da entrevista a Dulce Maria Cardoso ou a Teolinda Gersão (Jornal de Letras); mas não consegui energias para me pôr aqui a fazer cópias, os olhos a quererem fechar-se.
Aliás, o que eu devia ter feito, quando cheguei a casa, era ter enchido a banheira, meter-me lá dentro, ligar a hidromassagem. Mas nunca ligo, aquilo faz barulho como um paquete em alto mar. E não tenho paciência para estar à espera que a banheira encha.
Bem.
A esta hora, cansada como estou, isto já não dá para mais nada.
Tenho estado a ouvir a televisão enquanto escrevo e nada me inspira: as trapalhices habituais do lado do PSD, cortes e contra-cortes e o Montenegro a ver se disfarça, uma gente desqualificada. Não tenho paciência para gente assim. Do Portas nem se ouve falar - por onde andará ele? Que era vice e mais não sei o quê e, afinal, não se dá por ele. O Mário Soares escreveu que ou ele anda sossegadinho ou o Passos dá cabo dele e as cenas dos submarinos e outras vêm para a ribalta. Talvez seja isso. A minha mãe no outro dia saíu-se com uma boa a propósito do vice-Portas- mas não dá para contar aqui, são coisas ditas em família.
Também li há pouco que aqueles sacanas do Zoo de Copenhaga, os que tinham abatido a girafa Marius, agora abateram quatro leões saudáveis. Dizem que foi para bem deles. Filhos da mãe.
Parece que meio mundo anda a passar-se da cabeça, bolas para isto.
Enfim.
Pode ser que amanhã consiga chegar a casa a horas mais decentes e tenha mais cabeça para escrever alguma coisa que se aproveite.
Hoje fico-me por aqui.
Mas antes, para não darem a visita por perdida (e nada de pensamentos ambíguos: isto não vem a propósito de nada do que acima escrevi), aqui vos deixo um vídeo onde alguns dos meus Leitores poderão aprender uma lenga-lenga para dizerem enquanto fazem exercício. Caso achem apropriado, também poderão encaminhar para alguns amigos e conhecidos, deputados, ministros, cabeleireiros, assessores do governo, etc.
Exercício na Porta dos Fundos
O que esta gente me faz rir!
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Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje tenho uma conversa sobre bobos que até mete Chagall, imagine-se. É Clarice Lispector no seu melhor. Uma graça.
***
As imagens mostram fotografias de moda para mulheres executivas. A mulher das pernas compridas é Karlie Kloss fotografada para a Vogue UK. A outra, em cuja forma de se vestir me revejo, mostra a moda de Elie Tahari. A última imagem mostra Kate Moss fotografada por Tim Walker no Hôtel Ritz Paris.
Paul Simon interpreta Diamonds On The Soles Of Her Shoes
***
E, assim sendo, por aqui me fico por agora.
Tenham, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira que eu tentarei que a minha também o seja.
terça-feira, outubro 22, 2013
A motivação de quem trabalha e a qualidade de vida das pessoas em 142 países, entre os quais, Portugal.
No post a seguir a este respondo, de forma genérica, aos Leitores que têm escrito comentários ao Um Jeito Manso na sequência da opinião que exprimi sobre a entrevista de José Sócrates ao Expresso e que, pelo calor que lá puseram e pelo trabalho que tiveram a escrevê-los, talvez gostassem de ver a minha reacção.
Por mera questão de tempo, não respondo individualmente a cada um dos Leitores mas, de certa forma, é como se o fizesse. Mas isso é lá mais em baixo. Aqui, agora, a conversa é outra.
*
Saiba, meu Caro Leitor, que 13% dos trabalhadores um pouco por todo o mundo, mais concretamente em 142 países, estão motivados.
Com isto quero eu dizer que 13% dos trabalhadores estão emocionalmente envolvidos com as organizações para as quais trabalham, estão focados em fazer bem, em criar valor.
13%.
Apenas 13%.
Apenas 13%.
Estes dados de que vos falo reportam-se a 2011 e 2012, ou seja, dados muito actuais.
Trabalhadores motivados são a seiva das organizações. Está provado que com a motivação vem a produtividade, a conquista ou a retenção de clientes (ou utentes, consoante a natureza das organizações), menos absentismo, menos acidentes de trabalho. Está provado que as empresas com trabalhadores mais motivados são muito mais lucrativas do que as outras.
A desmotivação activa representa perdas brutais para as economias.
Reportando-me apenas à Alemanha, posso dizer-vos que se calcula que a desmotivação activa custe, naquele país, entre €112 a €138 mil milhões por ano.
Bom, se apenas 13% dos trabalhadores a nível mundial é que estão francamente motivados, o que acontece aos restantes?
Pois bem, digo-vos, é uma desgraça: 63% estão desmotivados (na base do deixa-andar) e 24% activamente desmotivados (ie, contrariados, a fazer contra-vapor).
Claro que não, até intuitivamente éramos capazes de dizer isto. A questão está, sim, em conhecer melhor a realidade tal como ela é, tentar perceber as razões, tentar fazer qualquer coisa de positivo a partir desse conhecimento.
[Eu devia ser capaz de aqui introduzir tabelas, isto é, quadros direitos, com linhas, para se ler melhor o que vou escrever mas o facto é que não sei como se faz. Já tentei fazer no power point ou no excel e copiar para aqui mas não resultou. Paciência, que eu não tenho tempo nem motivação para pesquisas deste tipo. Vai mesmo à antiga portuguesa, de carreirinha. O pior é que isto fica tudo torto, já aqui andei às voltas a tentar alinhar mas, quando estou a editar, vejo direito, quando vejo depois de publicado está uma desgraça, uma vergonha. Só que às 2 da manhã já não tenho capacidade para andar a dar espaços e tirar espaços e isto sempre aos ziguezagues. Fica assim, fazer o quê? Conto com a vossa tolerância, também; por favor, olhem e façam de conta que está tudo direitinho, está bem?]
Claro que não vou poder mostrar as estatísticas para os 142 países mas posso mostrar alguns.
E, vou já adiantando, fiquei surpreendida com os resultados:
E, vou já adiantando, fiquei surpreendida com os resultados:
NÃO ACTIVAMENTE
MOTIVADOS MOTIVADOS DESMOTIVADOS
Israel 5% 73% 22%
China 6% 68% 26%
Japão 7% 69% 24%
Indonésia 8% 77% 15%
Índia 9% 60% 31%
Holanda 9% 80% 11%
França 9% 65% 26%
Palestina 11% 64% 26%
Itália 14% 68% 18%
Alemanha 15% 61% 24%
Espanha 18% 62% 20%
Portugal 19% 65% 16%
Dinamarca 21% 69% 10%
Austrália 24% 60% 16%
Brasil 27% 62% 12%
Estados Unidos 30% 52% 18%
Costa Rica 33% 53% 14%
Surpreendente, não é? Os holandeses, os alemães e, até, os espanhóis menos motivados que os portugueses... Quem diria?
E os últimos desta tabela....? Brasil, os States, a Costa Rica? Que animação aquilo deve ser. Que motivados eles andam, quando comparados com os do princípio da lista.
E os últimos desta tabela....? Brasil, os States, a Costa Rica? Que animação aquilo deve ser. Que motivados eles andam, quando comparados com os do princípio da lista.
Os autores do estudo pensam que os maiores níveis de desmotivação têm a ver com a falta de condições de trabalho, com a exigência de uma carga de trabalho sem respeito pelos direitos humanos, com exigência de resultados sem atender às aspirações individuais de cada um.
No entanto, há países que apresentam níveis de desmotivação para os quais não se encontram explicações óbvias.
No entanto, há países que apresentam níveis de desmotivação para os quais não se encontram explicações óbvias.
Um desses países é a Alemanha, relativamente à qual, face a estes resultados, se espera uma progressiva quebra de produtividade fruto da desmotivação que se tem vindo a instalar.
Uma das causas possíveis prende-se com a quase ausência de ensino de gestão de pessoas nos cursos profissionais de gestão, o que faz com que os gestores das empresas e outras organizações não prestem atenção àquilo a que agora costuma chamar-se gestão de talentos.
Muito gostaria de aqui partilhar convosco mais alguns dados do estudo que tenho vindo a referir, estudo este que envolveu centenas de milhares de inquiridos. Mas é um estudo extenso e eu também não tenho tempo para fazer um resumo como deve ser.
Interrogadas sobre o que mais desejavam na vida de modo a poderem considerar que teriam uma boa vida, a resposta centrou-se geralmente no seguinte: Ter um bom emprego. O que querem dizer com isso? - Simples: um emprego estável, de preferência a tempo inteiro.
Mas o estudo foi mais longe e interrogou as pessoas sobre o seu nível de vida. Poderiam escolher uma das três hipóteses: uma vida próspera, uma vida de luta ou uma vida de sofrimento. As respostas são uma vez mais surpreendentes.
VIDA VIDA VIDA DE
PRÓSPERA DE LUTA SOFRIMENTO
Egipto 9% 70% 20%
Palestina 9% 68% 23%
Índia 15% 59% 25%
China 23% 68% 9%
Japão 24% 61% 15%
Portugal 25% 61% 14%
Nigéria 28% 70% 1%
Espanha 37% 58% 5%
França 44% 53% 3%
Alemanha 47% 48% 5%
Estados Unidos 58% 40% 2%
Brasil 63% 36% 2%
Holanda 68% 32% 0%
Dinamarca 81% 19% 0%
E é este quadro sobre a qualidade de vida que me entristece mais.
Tanta luta e tanto sofrimento na vida dos portugueses.
Que pena que me dá ver isto.
Pior ainda que a Nigéria.
Se eu estivesse à frente dos destinos do meu País, iria debruçar-me sobre estudos deste tipo, tentaria perceber o seu significado e, depois, iria governar de forma a aumentar a qualidade de vida dos meus concidadãos, aumentando simultaneamente a sua motivação e a sua vontade em envolverem-se na condução do seu destino e no destino do seu País, de modo a poderem melhorar a produtividade e competitividade do meu país.
Vivermos num País em que apenas 25% das suas pessoas sente que tem uma vida próspera enquanto os restantes 75% parece não conseguir tirar prazer de viver é uma coisa de que me sinto envergonhada. Se não é para dar uma vida boa às pessoas, então governa-se para quê?
E isto resulta de inquéritos conduzidos entre 2011 e 2012. Se fosse agora, seria bem pior. Que vergonha.
*
NB: O estudo na íntegra pode ser consultado aqui. Chama-se 'State of the global workplace: employee engagemnet insights for business leaders worldwide' e é da responsabilidade da Gallup
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As imagens representam obras de Salvador Dali. A música é Bridge Over Troubled Water, interpretado por Paul Simon (com um senhor de que não consegui descortinar o nome) no Orleans jazzfest.
Como de costume já não consigo rever o texto, estou praticamente a dormir sentada. A ver se amanhã de manhã consigo arranjar maneira de o rever e corrigir. E, já sabem, se quiserem saber o que respondo aos meus prezados Comentadores, é descerem um pouco mais. Para além do mais, há um belo momento de dança. Uma animação. Animemo-nos com(o) eles.
Como de costume já não consigo rever o texto, estou praticamente a dormir sentada. A ver se amanhã de manhã consigo arranjar maneira de o rever e corrigir. E, já sabem, se quiserem saber o que respondo aos meus prezados Comentadores, é descerem um pouco mais. Para além do mais, há um belo momento de dança. Uma animação. Animemo-nos com(o) eles.
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E, por hoje, por aqui me fico. Tenham, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.
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