Mostrar mensagens com a etiqueta Egon Schiele. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Egon Schiele. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, julho 20, 2020

O bairro das prostitutas à pinha e o presidente maluco que reconhece um elefante
[E, com isto, até fico quase sem jeito para dizer que transporto o teu coração dentro de mim]





Durante anos, antes de o conhecer, imaginava que o Red Light District seria um antro de perdição, um lugar com mistérios e malícias, transpirando glamour, com aquela pitada de secretismo e de interdito que supostamente deve apimentar os encontros sexuais.

Até que um dia fui numa viagem de negócios a Amesterdão com um colega que tinha trabalhado na cidade e que se propôs fazer-me uma visita guiada pelos locais mais conhecidos. Sendo ele um conceituado executivo, dir-se-ia que me levaria a ver locais ligados ao conhecimento ou às artes. Mas não. Perguntou se eu gostava de conhecer os lugares da droga e da prostituição. Não me fiz rogada, julgando eu que ia entrar em meandros onde só os entendidos se aventurariam, coisa com o seu quê de bas fond,, de clandestino, ou, pelo menos, coisa reservada apenas a connaisseurs. 

Decepção: na zona da erva, malta encostava-se às paredes, outros estendiam-se pelo chão, outros entravam e saíam das lojas mas tudo sem qualquer elevação. Apenas gente janada, alguns num estado de dar dó.

Chegados ao bairro vermelho, fiquei ainda mais decepcionada. Coisa mais pirosa, pensão de meia tigela à vista de todos, gentinha a ver por ver, turismo pacóvio. 

Regresssei ao hotel de luxo a achar que aquilo não abonava muito a favor dos holandeses.

Mais recentemente voltei lá. Na altura, falei nisso. Pensei: será que na outra vez vi outra coisa? ou estava mal disposta e fiz uma má avaliação do que vi? ou será que, se era mesmo mau, agora está mais decente? Mas não. A mesma colecção de tesourinhos deprimentes. Pequenos compartimentos com uma caminha fajuta, tenho ideia que um bidé a um canto, uma toalhinha. As mulheres na montra. Depois entra o homem, fecham a cortina. Um cubículo triste. As ruas cheias de gente. Até eu, ali no meio, querendo compreender o que não é para compreender. Que género de homem fura a barafunda para entrar numa pequena loja, cumprir o seu propósito, provavelmente lavar-se e sair dali? É apenas uma experiência, coisa ocasional? Irá gabar-se de ter ido às putas no Red Light District? Haverá alguém no seu perfeito juízo que ache que é feito de que possa orgulhar-se? Ou será simplesmente um solitário que, não tendo melhor alternativa, vai ali desovar?

Mas, nisto das coisas estranhas da vida, o melhor mesmo é a gente não se arriscar a dar palpites nem tentar arranjar motivos para situações de que não temos qualquer inside conhecimento. O que para nós é uma coisa triste, desolada, sem futuro, pode ser apenas uma bóia de salvação a que alguém se agarre para se aguentar na sua solidão. 

Mas isto para dizer que foi, pois, sem surpresa que li que, ao reabrir o bairro das meninas em Amesterdão, aquilo se apinhou de tal maneira que as autoridades tiveram que recuar na libertação dos impulsos, mandar fechar ruas. Uma coisa que a minha razão não percebe bem pois aquilo é, a meus olhos, uma coisa decadente, triste, o género de coisas que, por não ter qualquer vestígio de requinte, mistério ou jogo de sedução, deveria era afastar as pessoas que não deveriam querer testemunhar a tristeza alheia. Mas, tal como eu já fui lá ver por duas vezes, ambas por curiosidade absurda, se calhar é isso que todos os papalvos lá vão fazer. Esses e os outros, os que frequentam e mantêm vivo o negócio pois sabemos lá nós que necessidades se escondem por detrás da coragem que, vendo bem as coisas, também é precisa para transpor aquelas portas. 

E, depois, quem diz que, entre uma pinocada a correr e uma lavagem rápida antes de sair porta fora para dar lugar ao próximo, não nasce um dia um grande amor? Não produziu E E Cummings belas cartas de amor a pensar numa prostituta que conheceu em Paris? Já mais do que uma vez aqui tive poemas seus, tanto que gosto deles, pessoa apaixonada, ele. E, com a mesma paixão com que os escreveu, pelos vistos assim escreveu antes palavras de amor e saudade a Marie Louise Lallemand.

Transcrevo do Guardian, e, portanto, não em francês mas em inglês:
In one letter, written from the frontline in France, Cummings told Lallemand: “Darling, Marie Louise, you who are more to me than the scarlet poppies which are mown, more than the yellowing evenings which we see die, more than the silence full of stars, the completely white silence of night, only awaiting dawn, – take the kiss which I give you, that kiss, without value, because it comes from a soul which loves you.”
[Artigo completo: Revealed: how a Parisian sex worker stole the heart of poet EE Cummings.]
Portanto, adiante.

Mais preocupante, mas muito, muito mais, incomensuravelmente mais do que a provocada pelo maralhal amontoado à porta das montras com as prostitutas de Amesterdão, é o que se passa nos Estados Unidos, com uma besta quadrada à sua frente, um psicopata, um inútil e um destituído como são inúteis e destituídos todos os narcisistas, pior aqui por se tratar do supostamente mais importante país do mundo a ser governado por tal cavalgadura. Sempre que o vejo pasmo: como é possível que ainda ninguém tenha arranjado maneira de o mandar de volta para casa dele? Tudo o que diz e faz revela o miolo de batada moída que tem dentro daquela cabeça. Mas não é só as cavaladas que diz: é a forma como diz, é o tom de voz, é tudo. Uma desgraça que não se percebe como alguém consegue aguentar. A mulher, apesar de ser aquela boneca empalhada, nem suporta que ele lhe toque, mal se aproxima dele, creio que nem vivem juntos, e os colaboradores e colaboratrizes rodam a grande velocidade, incapazes de suportar tanto egocentrismo, tanta estupidez e parvoíce (pode parecer que estupidez e parvoíce são sinónimos mas não, há nuances que fazem toda a diferença). Cada entrevista que a alimária dá revela o vazio alucinado que o preenche e, cada uma, só por si, deveria gerar um escândalo nacional e internacional. Mas não. Aceita-se que um atrasado mental que acha que acertar num teste que um elefante é um elefante é prova de sanidade mental continue a governar os Estados Unidos. Algo vai mal no mundo com coisas destas a acontecerem. A existência do Trump como presidente dos States legitima que, um pouco por todo o lado, muitos outros que tais empestem os países, as cidades, as ruas, as casas deste planeta. Uma triste lástima.
É ler Donald Trump v Fox News Sunday: extraordinary moments from a wild interview para se ver mais uma das suas últimas. (Facing a feared interviewer, the president ended up insisting that identifying an elephant proved his mental capacity)
Que burro, senhores. Pior do que um psicopata é um psicopata burro. 

___________________________________________________________________

Já agora, por falar nele: "i carry your heart" de E E Cummings (lido por Tom O'Bedlam)


___________________________________________________________________

Pinturas de Egon Schiele a acompanhar 'Les amants de Paris' na voz de Edith Piaf

________________________________________________________________________

E a todos desejo uma bela semana a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, outubro 25, 2018

Uma revolução na calha




Pois bem. A régua de tomadas que estava atrás da secretária já foi retirada e colocada na ponta da parede que vai ficar livre pois a parede vai levar a meio uma estante e não podíamos ficar sem tomadas à vista. Na parede da frente tem um armário fechado, na do lado tem outra estante e noutra uma porta-janela que dá para a varanda. Agora ainda tenho que tirar os quadros e um espelho que ainda estão nessa parede e arranjar-lhes outro paradeiro. Vai ser outra luta. Vai dizer que não gosta de esburacar as paredes. Mas a mudança das tomadas ficou muito bem, com calha e tudo. Ainda nem estou em mim. Já lhe disse que, se afinal leva jeito, tenho outros trabalhinhos em carteira. Não gostou da sugestão.


Agora estou é desejando que venham trazer as estantes. Não vejo a hora de virar a casa de pantanas, reformulando toda a organização da biblioteca. Ainda não pensei bem como vai ser. Se calhar, nesta alta e estreitinha que vem para encostar à coluna desta sala vou colocar a poesia portuguesa. Acho que esse vai ser o ponto de partida. 

Penso que o critério seguinte será o de, nas prateleiras de baixo das várias estantes, colocar os livros menos interessantes. Não dá jeito nenhum uma pessoa procurar livros em prateleiras ao nível do chão. Tenho que me dobrar toda ou sentar-me no chão. Um desconforto. Não dá para ser frequente. Por isso, para lá... o quê?

Não sei. Por cada ideia que me ocorre, logo a rejeito. Revistas Ler? Colóquios Letras? Não sei. Pouco interessantes não são. Menos susceptíveis de querer ir à procura de algum número? Não sei. Não sei mesmo.

Não é fácil.


Entretanto, estou com outro problema que carecia de resolução antes da revolução. A estante baixa, em cima da qual está a televisão, está a abaular. Tem dois metros e meio de comprido e deveria ter mais apoios do que tem ou, então, ter menos livros. Eu acho que deveria ser esvaziada e analisada para se perceber como desabaulá-la. O meu marido diz que não é marceneiro, que não faz ideia do que lhe fazer. Aliás, fez uma coisa que achei um disparate e que aceitei pacificamente porque achei que era temporária. Tirou os livros da posição normal e fez pilhas nas pontas para retirar peso do meio das prateleiras e para que sustenham as prateleiras de cima. Com isto só vejo as lombadas de baixo. Se quiser procurar um livro é impossível. Mas ele acha isto normal. Por ele ficavam assim. 

Como tenho os livros de literatura estrangeira por ordem alfabética de autores (não os russos, não os latino-americanos, não os brasileiros, não os portugueses e não os de séries completas de autores -- que esses têm espaços próprios noutras estantes) e nesta estante estavam, salvo erro a partir do S, tenho que ter a estante disponível pois, obviamente, entre os que estão agora espalhados há nomes a partir do S. 

Portanto, arranjar esta estante vai ser outra luta. Diz que por saber que uma decisão de ter estantes novas esconde uma série de mil outras decisões e que o trabalho acaba sempre por sobrar para ele é que tenta sempre adiá-las até mais não poder. 


E debato-me, internamente, com um grande dilema. Se não arrumo os livros novos, acabam por se formar montanhas deles, uma coisa ingerível. Mas, se os arrumo, perco-lhes o norte. Tenho a sensação que se perdem de mim. Só os encontro se me lembrar deles. Caso contrário, ali enfiados entre outros, perdem identidade, afastam-se de mim, parece que passam à história. Na última reorganização que fiz, deixei-os à larga para que fosse mais fácil manuseá-los caso quisesse puxá-los para fora. Mas é para esquecer. É como se ficassem arquivados, arquivo morto, esquecido, como se já tivessem sido lidos, como se já tivesse desistido deles. Por isso, prefiro-os por aqui, em pilhas ad-hoc.

Penso que a solução para este dilema passará por uma arranjar uma arrumação inteligente, acessível.


Tenho ainda um outro assunto para resolver. No que era o quarto da minha filha e que, quando ela saíu, açambarquei, há uma estante cheia dos livros, cadernos e sei lá que mais do meu filho. Conservou religiosamente todo o seu material de estudo mas não tinha onde guardar tudo quando se mudou para a sua casa que era pequena. Agora já tem uma casa grande mas nos pisos que estão habitáveis não tem espaço para mais livros e a cave e o sótão ainda não estão arranjados. Mas, logo que ele tenha condições para levar tudo aquilo, fico com mais umas prateleiras livres. Talvez aí pusesse enciclopédias médicas, livros de puericultura, plantas medicinais, coisas assim. E com isso libertava outras estantes.

Enfim.

Tal como aquele meu amigo caçador que vibra com a perspectiva de se levantar de madrugada, de chegar ao campo ainda frio e orvalhado, de sentir os rumores que se começam a levantar com a chegada da madrugada, assim eu com a chegadas das novas estantes, com a perspectiva de ter o chão da sala e corredor pejados de livros, com a emoção de voltar a tocar, um por um, todos os livros, com saber que durante dias esta parte da casa fica intransitável.

Parece loucura e, na volta, é.


E hoje passei por uma rotunda e já estavam a montar umas estruturas para as iluminações de natal e eu fiquei a pensar que passou já um ano desde que, o ano passado, me surpreendi com a mesma coisa. O tempo passa de uma forma um bocado inclemente. O que vale é que os meus livros não passam, não envelhecem, não são de modas.

E hoje é tarde, e eu adormeci em vez de me despachar e daqui a nada tenho que estar a sair de casa e estes tempos não andam fáceis e cai-me trabalho em cima de uma forma estúpida e eu tento lembrar-me que o povo é sereno porque os meus problemas são coceirinha inofensiva aos olhos de quem tem problemas de verdade.


................................................................................................................

Partilho convosco dois vídeos que mostram duas casas extraordinárias. Eu que gosto tanto de decoração, pelo-me a ver casas assim.




--------------------------------------------------

As pinturas que plantei ao longo do texto são de Egon Schiele

---------------------------------------------------------

Uma boa quinta-feira a todos

terça-feira, agosto 21, 2018

Tablóides, arte e coincidências do caneco





Nada se inventa, tudo se recria. Já lá dizia o Lavoisier. Ou seria o La Palice? Ou o caracolinhos da Quercus? Ou as meninas da reciclagem? Ou um daqueles sabichões que não podem ver nem cão nem gato que não digam que isso também na Grécia? Não interessa. O ponto é que ele há coisas.


E há-as de todo o género. Para mim, a pior de todas é haver pessoas iguais a mim. Isso atrapalha-me a existência. Quando penso em tal coisa, claro. Mas, quando penso nisso, eriço-me. Os cães quando se assustam eriçam-se. Eu também. Metaforicamente falando, claro. E ainda por cima dizerem que a minha voz também é igual. Pode lá ser. Clones? E a forma como me rio. E como ando. O cabelo. Tudo. Dizem que tudo igual. Não querem acreditar que eu não seja a outra. Isso faz-me muita espécie. Preferia pensar que sou one of a kind. Eu. Única. Mas não. Pelo menos mais duas iguaizinhas a mim. Se aparecerem ainda mais uma ou duas e viro commodity.


Outra do além é a gente parecer que conhece outra pessoa. Que conhece mesmo, mesmo. Que adivinha o que a outra pensa. Nunca a conheceu na realidade mas sente que a conhece por dentro e por fora como se, noutras vidas, a tivesse conhecido completamente. Ninguém acredita numa coisa destas e a gente também não tem explicação nem quer aprofundar. Mas as coisas são mesmo assim e não interessa tentar perceber o que está para além do nosso entendimento pelo que é melhor nem ir por aí. E, assim sendo, quanto a isto, façam o favor de fazer de conta que não leram.


Outra: adivinhar. Adivinhar simplesmente. Saber antes de saber. Começarem a contar-nos uma história e nem ser preciso continuarem porque se consegue adivinhar tudo. Uma história de verdade, quero eu dizer, uma história cheia de meandros, de mal feito à socapa, de jogadas e mistérios inconfessáveis. E eu adivinhar tudo. Quase pelas exactas palavras em que os factos reais foram proferidos. Deixar os outros transidos, a terem medo de terem sido espiados, sem saberem como explicar que eu reproduza com tal exactidão todos os segredos que traziam tão bem escondidos. De onde me vem esse conhecimento? Não sei. Mas também não me interessa. Bom mesmo era que adivinhasse o número do euromilhões mas isso está quieto. Portanto, está bem, está. Vou ali e já venho.


Mas enfim. Coisas do caneco, é o que é. 

Mas também boas são estas que aqui estou a partilhar convosco. Pinturas de antanho que parecem ter sido inspiradas por actores de Hollywood, pelas socialites que habitam o Instagram ou as revistas de moda e sociedade.  

Descobri-as atarvés do The Guardian, lugar onde encontro sempre alguma coisa que me interessa. Transcrevo alguns excertos do artigo: Beyoncé meets Botticelli: how tabloid photos throw new light on old masters
Tabloid Art History delights in hilarious yet visually convincing collisions of high art and celebrity culture. Melania Trump giving Michelle Obama a gift is compared with a manuscript illumination of Christine de Pizan presenting her book The City of Women to Queen Isabeau and Géricault’s Romantic vision of despair, The Raft of the Medusa, is matched with a pic of The Real Housewives of New York slumped on the floor at an airport.
Is this a lazy reduction of great works of art to the status of memes to snigger at? No, it’s a fresh and insightful way to look at art – and at life. We’re surrounded by great art all the time, these iconographic couplings reveal. Everyone is a statue or a painting, just waiting to be recognised. Harry Styles looks like an Egon Schiele self-portrait in a certain light. 
This game works because great art is universal. The gestures and expressions that artists such as Botticelli and Schiele saw in the world around them and distilled into sombre monumental images amount to a gallery of human possibility, a museum of moods, experiences and fates. All human life is in their masterpieces. So why is it surprising that Beyoncé looks for a moment like a Botticelli? He painted the way he did because he observed the street life around him with insight and truth. It’s no wonder today’s tabloid images and selfies occasionally throw up images of the same human truths.

.......................

E depois deste momento dedicado à arte, queiram, por favor, deslizar até às árvores que dão rolhas, uma reportagem do Great Big Story.

quinta-feira, agosto 18, 2016

O que os homens dizem de si.
Auto-retratos no masculino


Se ontem mostrei auto-retratos no feminino 
-- e, note, Rita, que, se me causa alguma confusão a necessidade quase compulsiva que algumas pessoas têm em fazer selfies, a verdade é que gosto de ver auto-retratos, gosto de ver como é que os artistas se vêem (tal como gosto de ler diários ou corespondências) -- 
hoje, tal como ali tinha referido, volto-me para os masculinos.

Os primeiros de que me lembrei foram Lucien Freud, o corpo orgulhosamente decrépito, ou Francis Bacon, o rosto diluindo-se na vida vivida no limite, ou, até Picasso, o criativo insolente. Mas porque essas escolhas eram, para mim, previsíveis, resolvi partir para outros. Claro que fugi dos muito aprumadinhos, dos que se puseram todos posudos para se retratarem, dos que quiseram dar de si a imagem de compostinhos. Não aprecio o género, é sabido. Andei, andei e, quando dei por mim, tinha aqui arranjado uma bela colecção de cromos.

Há no prazer da auto-desconstrução ou da auto-ironia qualquer coisa que me atrai. Acho que as pessoas interessantes não se levam a sério. As que têm teorias para tudo, que censuram tudo e mais alguma coisa nos outros e que se acham superiores aos demais são, a meu ver, umas chatas de primeira, gente com o seu quê de limitado e maçador.

Por isso, com vossa licença, cá vão alguns auto-retratos masculinos à maneira -- e a ordem é aleatória. O Ducreux vem com marca de água e tudo mas paciência, tinha que o ter aqui. São homens que, de alguma forma, mostraram gostar deles próprios quase como se fossem outros que os divertissem, como se fossem talvez uma mana com quem gostassem de chacotear.
Ou, então, quem sabe, talvez fosse uma forma de se auto-desafiarem ou olharem para o outro que há em si, mesmo que com uma secreta perplexidade. Ou insolência perante os outros que os viam de fora.
[Enfim, estou a generalizar. Munch não parecia estar especialmente divertido no seu hell - mas também tinha que ter aqui algum toque de ansiedade, para contrastar].

Ora bem, que comece o desfile e que Antony se achegue com 'you are my sister' que vai ficar em boa companhia.

Giorgio de Chirico, 1953



George Hendrik Breitner, 1882

Egon Schiele, 1910

Jean Siméon Chardin, 1775

Johan Zoffany, 1756

Joseph Ducreux, 1783

Dae-Won Yang, 2011

Moritz Daniel Oppenheim , 1814-16

Edvard Munch, 1903

Robert Mapplethorpe 1980
_____

Um dia destes tenho que voltar ao tema porque deixei agora alguns para trás que é uma pena.

----

domingo, janeiro 10, 2016

Cada vez mais mulheres americanas declaram a sua bissexualidade (ou sexualidade fluida, como se diz). Só americanas? E isto é tendência recente? --- Olhem que não, olhem que não.



Já aqui há pouco tempo o tema veio à baila, não a propósito do que aqui vou falar, que é de natureza estatística, mas, sim, de natureza psicológica (- ou fisiológica, digamos assim). Na altura, levei quase na brincadeira. Agora, se a coisa mete estatística, mudo de tom e tento aumentar a amostragem.

Um estudo publicado há dias nos Estados Unidos mostra que há três vezes mais mulheres que homens a declararem-se bissexuais. O estudo mostra também que este número cresceu desde a última avaliação, poucos anos antes.

Não é que o número seja elevado (5,5% nas mulheres, 2% nos homens) mas, ainda assim, as proporções e a evolução merecem atenção.

Para além disso, se perguntadas se alguma vez tinham tido um contacto sexual com alguém do mesmo sexo (e isto, de um contacto, pode ser uma coisa esporádica e não uma orientação permanente), também o número de mulheres que responde positivamente é bem maior nas mulheres que nos homens -- 17,4% contra 6,2% -- e é significativo.

Também desde há alguns anos se vem verificando uma tendência crescente na assumpção por parte de figuras públicas da sua condição de bissexuais. Alguns exemplos:

Kristen Stewart e a sua namorada  Alicia Cargile

Depois de viver vários anos com Robert Pattinson,
agora é Alicia que faz vibrar a talentosa Kristen

Angelina Jolie não esconde o caso amoroso que viveu com Jenny Shimizu

Cara Delevingne e St. Vincent
...

Mas, pergunto eu, qual a novidade? E porquê tanto destaque à realidade americana?

Respondo - Nenhuma novidade, desde sempre, em todo o lado.
(Mas às escondidas, claro... O manto do pecado pesava, a clandestinidade impunha-se)

Gravure Galante, XII ou XIII?

La Nymphe Callisto, séduite par Jupiter sous les traits de Diane, François Boucher,  (1759).


Le sommeil de Gustave Courbet, 1866 (também chamado: Les deux amies Paresse et Luxure)


Les deux amies, oil, ca. 1894-5; Henri de Toulouse-Lautrec

Egon Schiele - Two Women, 1915
....

E estava tentada a fazer avançar as mulheres malditas do Baudelaire mas o poema é longo, longo e, portanto, por hoje não. Avanço para o cinema.

_________________

Violette (Violette Leduc)


Carol



Adele



Ou seja, a bissexualidade, tal como a homossexualidade ou a heterossexualidade -- ou whatever -- existem, não dá para as escamotear. Mas são matérias do foro íntimo, pessoal, orientações com as quais ninguém tem nada a ver a não ser os próprios. E eu, pela parte que me toca, di-lo-ei vezes sem conta: não é pelo facto de eu ser hetero que alguma vez poderei sentir-me no direito que censurar quem quer que seja por ser diferente de mim tal como não aceitaria ser censurada ou ser condenada por eu ser hetero, uma vez que é coisa que não é voluntária ou controlável.

.....

E estava para vos mostrar como estava belo, belíssimo, o mar nesta tarde bravia de sábado mas, dado o adiantado da hora, limito-me a sugerir-vos que deslizem até ao post seguinte para saberem esta agora do Marcelo a abafar um palmier ao Nóvoa, dando assim início à sua excêntrica Campanha do Coração.
Se ele se apanhasse ao pé de mim neste momento, estava capaz de jurar que me dava razão, haveria de jurar a pés juntos que isto da bissexualidade é que está a dar e que ele próprio, até, enfim... (e sorriria e pigarrearia, todo malicioso, para ver se me ultrapassava, ora não, quiçá até para ver se ultrapassava em fluidez sexual a Angelina Jolie. Menino para isso é ele).
...

sábado, abril 04, 2015

The cinnamon peeler


No post abaixo partilhei convosco a voz de um magnífico diseur de poesia, dizendo a magnífica poesia de um poeta magnífico sobre o ofício de escrever.

Aqui, agora, continuo com Tom O'Bedlam (que presumo que não seja o seu nome verdadeiro) mas, desta vez, dizendo uma poesia de Michael Ondaatje (autor, entre outros, de O Paciente Inglês). 




Esta voz dizendo poesia tem qualquer coisa de encantatório e eu ouço-a com um prazer imenso, como se a poesia dita ganhasse cheiro, sabor, como se as palavras tivessem pele e calor.






If I were a cinnamon peeler
I would ride your bed
And leave the yellow bark dust
On your pillow.

Your breasts and shoulders would reek
You could never walk through markets
without the profession of my fingers
floating over you. The blind would
stumble certain of whom they approached
though you might bathe
under rain gutters, monsoon.

Here on the upper thigh
at this smooth pasture
neighbour to you hair
or the crease
that cuts your back. This ankle.
You will be known among strangers
as the cinnamon peeler's wife.

I could hardly glance at you
before marriage
never touch you
--your keen nosed mother, your rough brothers.
I buried my hands
in saffron, disguised them
over smoking tar,
helped the honey gatherers...

When we swam once
I touched you in the water
and our bodies remained free,
you could hold me and be blind of smell.
you climbed the bank and said

this is how you touch other women
the grass cutter's wife, the lime burner's daughter.
And you searched your arms
Dorothy Gardner Award,
Ashlyn Fenton - Edmonton "The Cinnamon Peeler" 
for the missing perfume

and knew

what good is it
to be the lime burner's daughter
left with no trace
as if not spoken to in the act of love
as if wounded without the pleasure of a scar.

You touched
your belly to my hands
in the dry air and said
I am the cinnamon
Peeler's wife. Smell me. 




O abraço  -  Egon Schiele



Poderão ouvir a mesma poesia dita pelo autor e é uma maravilha também mas, ainda assim, prefiro a versão Tom O'Bedlam.

-----

Já agora, para quem não se lembre ou não tenha visto O Paciente Inglês, aqui fica um apontamento, e a sugestão de que (re)visitem este belíssimo filme.


The English Patient

"I promise, I'll come back for you. I promise, I'll never leave you."



Realização de Anthony Minghella

com: 
Ralph Fiennes, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Kristin Scott Thomas., etc

.....

Relembro: já a seguir há mais dois poemas ditos, maravilhosos, sobre a escrita e o ser-se escritor.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.


domingo, novembro 11, 2012

Numa noite de chuva, junto a uma salamandra quente, na companhia das mulheres de Schiele e Picasso, in heaven (infelizmente, Jeanne está lá fora, despida, ao frio)





Estou in heaven. A internet hoje está impossível, vagarosa, a pedal, e cai, cai, cai. Vamos ver se tenho a paciência necessária para me aguentar aqui sem desistir. 

Chove, chove muito. Numa casa térrea ouve-se mais a água, ouço-a no telhado, ouço-a a cair dos beirais, imagino-a a escorrer das folhas das árvores. Acabei de ir espevitar o fogo e de pôr mais um tronco na salamandra que aquece esta sala. São boas as noites assim. Um chá quente, o calor orgânico do fogo, a chuva que cai, o som familiar da televisão, almofadas confortáveis.

O dia já vai longo, passa das duas da manhã.

Hoje o dia começou cedo, com um passeio pela beira do rio. Como sempre quando a noite é de mau tempo, as águas levam árvores, arbustos, ramos. 




Gosto de fotografar as águas assim, agora mansas mas carregadas de despojos, raízes à vista, folhas verdes, cheias de vida, mas, de facto, arrancadas à vida. 

Hoje havia mais gatos do que é costume. Muitos. Reproduzem-se muito estes animais livres que vivem aqui na beira do rio, no meio de casas em ruínas, no meio das rochas junto à margem, que entram e saem dos buracos junto aos muros, procurando restos de peixe que os pescadores por ali deixem.




Fotografo-os também, seres misteriosos que me olham sem suspeição, que deixam que me aproxime, que vigie os seus movimentos, seres superiores que não temem as mulheres que deslizam em silêncio fotografando a sua intimidade. Admiro e invejo a sua liberdade.




Aproximo-me, olhos nos olhos e, com desarmante cumplicidade, deixam-se olhar, olham-me também, olham-me com compaixão, sabem que eu queria ser um deles. Gata da beira do rio. Ou gaivota.

Depois, saciada, voltei para cá, para a casa onde a chuva é uma música líquida e suave, envolvente.

A vinha virgem despede-se da folhagem ardente; em breve não restarão senão pequenas garras agarrando a parede.




E as laranjeiras têm cachos de laranjas lustrosas, lavadas pela chuva. Em breve estarão boas, sumarentas e doces.




Mas já há medronhos maduros, uma polpa macia e doca, por fora vermelhos, por dentro cor de carne. Disputo-os aos pássaros. Doces, doces. Coexistem os maduros, os que estão a caminho disso, as pequenas flores que parecem minúsculos balõezinhos brancos. E intercalam-se os ramos do medronheiro com os do cedro, este carregado de bagas.




E, de repente, do chão que parece fértil, atapetado e húmido, nascem cogumelos, muitos, carnudos, com as belas cores deste outono chuvoso. Gostava de saber se são comestíveis mas não sei, não me arrisco. Mas dá vontade mexer-lhes, são pequenos animais carnudos, de aspecto macio. Há-os por todo o lado. À volta dos pinheiros, a caruma e as ervas e as folhas secas envolvem estes belos seres mágicos e eu tenho vontade de inventar histórias que metam bosques aconchegados que abriguem duendes, grutas profundas onde vivam seres que se alimentam de cogumelos dourados.




E, depois, quando olhei para o céu, tive a prova de que o mundo é perfeito, imaginado, belo demais para ser real.




As árvores estavam douradas, o céu escuro abria-se para deixar passar uma luz dourada. E um arco colorido, com as cores da infância, desenhava-se, perfeito, perfeito, belo, muito belo, desenhava-se  sobre mim. Uma imagem efémera, irreal. Se eu pudesse tocá-la com as minhas mãos, sentir que é de verdade... mas não, não posso. Talvez tenha sido apenas uma visão, um sonho. Uma aparição.

A seguir o céu voltou a fechar-se, escureceu, e a chuva voltou a cair, muita chuva.

Abriguei-me, então, junto a Jeanne Hébuterne que, também desabrigada, junto à mesa coberta de folhas murchas e restos de figos apodrecidos, sob a figueira agora de ramos nus, sente o frio e o abandono deste outono frio e chuvoso, saudosa do seu tão dramaticamente amado Amedeo.




Voltei então para casa. Aqui mais duas mulheres me aguardavam. Agora eram as mulheres de Egon Schiele e Pablo Picasso.

São mulheres belas, serenas. A beleza tem estrutura própria. Invade e penetra como uma boa música. E ocupa o momento de forma tão inesperada que você respeita. Emana uma alegria só de ver, é uma força de vida. Um ser muito belo não pode estar trabalhado nem muito preparado. Tem de ser uma surpresa.




E por aqui me fiquei. Aqui estou, pois, a salamandra quente, as chamas aquecendo o ambiente, a chuva tombando com força, companhia fraterna. Aqui estou convosco, trazendo-vos para dentro da minha casa, oferecendo-vos as minhas palavras como quem oferece um chá quente. Aqui estou, ouvindo a chuva, escrevendo-vos como se vos estendesse a minha mão.


*

A música é o Prelúdio de Chopin conhecido por Raindrops.

As palavras em itálico fazem parte da interessante entrevista de Ivo Pitanguy concedida a Ana Soromenho e Bernardo Mendonça, publicada na Revista do Expresso este sábado.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo.