Convoquemo-nos a todos para a reparação do planeta, a bela casa em que nos foi dada a sorte de nascermos.
Na aleatória e improvável sucessão de acasos que nos trouxe até aqui, tudo o que deveríamos fazer era dar graças pela concretização do milagre que foi o nosso nascimento e a nossa sobrevivência: deveríamos respeitar as improbabilidades, deveríamos abençoar o habitat que tornou tal possível, deveríamos preservá-lo para que os milagres possam continuar a acontecer.
Sabemos, contudo, que não tem sido que tem acontecido.
by Justin Hofman
Temos feito tudo ao contrário: temos estragado o planeta, temos desrespeitado todas as formas de vida, incluindo a vida humana, temos olhado para a ponta do dedo em vez de olharmos as estrelas para as quais o dedo aponta. Entretemo-nos com minudências, buscamos defeitos em quem tenta entregar alguma mensagem que difira das banalidades às quais nos habituámos, preferimos ir no diz-que-diz-que e na maledicência ou preferimos virar as costas a causas que nos parecem longínquas. Diremos: de que serve fazermos alguma coisa, se o mundo está nas mãos de gente ignorante, inconsciente, narcisista, se se sucedem os exemplos de estupidez, de um impensável cretinismo?
by Tim Rooke
E então, encontrando um alibi para nos despreocuparmos e deixarmos as lutas para outros, lavamos as mãos do que possa vir a acontecer. Acima de tudo o nosso conforto ou a contemplação do nosso umbigo.
by Noel Guevara
E, no entanto, alguma coisa no nosso comportamento tem que mudar. Do planeta fizemos um mundo e, desde que o fizemos, não temos feito outra coisa que não estragá-lo.
by Nirmal Purja
Se não invertermos essa destrutiva atitude, a coisa não acabará bem. E será uma pena.
Por isso, iniciativas como a que o vídeo abaixo se refere são bem vindas. Poderá ser pouco, poderá ser uma gota num vasto oceano, poderá tudo. Mas é uma iniciativa positiva. E muitas mais serão necessárias. Colocar a ciência, a tecnologia, a criatividade, a boa vontade, e o mais que seja a favor da reparação do planeta é louvável.
by David Lloyd
Transcrevo:
Prince William has announced what was described as “the most prestigious environment prize in history” to encourage new solutions to tackling the climate crisis.
The “Earthshot prize” will be awarded to five people every year over the next decade, the Prince said on Tuesday, and aims to provide at least 50 answers to some of the greatest problems facing the planet by 2030.
They include promoting new ways of addressing issues such as energy, nature and biodiversity, the oceans, air pollution and fresh water.
The prize, inspired by US president John F Kennedy’s ambitious “Moonshot” lunar programme and backed by Sir David Attenborough, promises “a significant financial award”, a statement said. (...)
Do conserto do que está estragado façamos um exercício de superação, encontremos novas formas de beleza, reinventemos o conceito de perfeição. Com o devido crédito ao João Lisboa que iniciou o ano com um post que me encantou, um vídeo que, em meu entender, diz muito do que temos que fazer para consertar o planeta (e as nossas vidas, talvez também).
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Obtive as fotografias no The Guardian, quer na compilação das fotografias mais relevantes de 2019 (a 3ª, a 4ª e a 5ª) quer na das melhores da natureza selvagem (a 1ª, a 2ª e a última). O local e o significado ou a história subjacente poderão ser consultados nos artigos que muito vivamente recomendo.
Estou completamente desconcentrada. A minha filha está sentada ao meu lado no sofá, a conversar, a mostrar-me cenas no computador e eu, apesar de querer escrever, não resisto a ver o que ela está a ver. Coisas fantásticas. Só visto, ninguém o diria.
Os meninos dormem e só espero que não nos acordem muito cedo. Presumo que não pois já são autónomos e, além disso, deixei-lhes uma tigela grande de papas de aveia, um frasco de mel, fruta. Quando me levantar logo preparo um segundo pequeno-almoço. Ou eu ou o avô. Vêm a contar comer torradas com azeite e tomate, ovos mexidos, queijo fresco. Faz parte do package.
Jantaram cá -- e se jantaram... nem percebo como conseguem comer tanto. Depois brincaram, jogaram à bola, levantaram pesos, depois cearam (leite, bolachas) e, finalmente, deu-lhes o sono.
Este sábado junta-se-nos o resto da turma. O pior é o mau tempo. Tanta gente fechada em casa com um bando de crianças cheias de energia e sem ter muito por onde gastá-la dá sempre granel e chinfrim. Pode ser que nos ocorra algum sítio onde ir apesar da Elsa e do Fabien.
Sempre ouvi uma coisa que é assim: 'Ó Elsa! Vais presa?'. 'Não, vou dormir com o Chefe'. E sobre isto da tempestade Elsa era dessa Elsa que eu me lembrava. No entanto, no carro, ouvi que, quando se fala em Elsa, toda a gente se lembra logo do Frozen. Até me senti mal, credo. Nem de tal me lembraria. A menos que a Elsa do Frozen também costume dormir com o Chefe da Polícia. Mas acho que não, a Elsa não me parece moçoila para tais andanças, diz que é de gelo.
Bem.
Já fiz as compras todas e isso deixa-me aliviada. Ou melhor, não. Ainda não comprei o presente da minha filha mas tem que ser comprado com ela. Por isso, amanhã de manhã vamos as duas às compras. Com o meu filho, a coisa fia mais fino. Disse que queria o último do Le Carré e mais nada. E eu sei que não gosta mesmo de receber coisas de que não precisa. E não quer coisas para a casa, sejam enfeites sejam utilidades. Não quer. É frugal e minimalista.
Mas este ano, mesmo para os meninos seguimos à risca o que recomendaram: uma coisa para cada um. Para além disso comprei mais um pijama e um fato de treino para cada um mas isso nem é bem presente. Aliás, os que estão cá a dormir já estão com o pijama vestido, mesmo sem ser lavado. Mas na loja tinham alarme preso, não dava para ter sido provado. Portanto, supostamente sujos não estavam. Quando soube que eu tinha cá os pijamas e que tencionava dá-los antes do dia de Natal, a minha filha aproveitou logo para não vir carregada com pijamas.
Tirando isso o que posso dizer é que antes deles chegarem, fui à pressa buscar luzinhas, o pai natal trepador e mais um para pôr na porta da rua, uma árvore de natal mínima com umas luzinhas pinini, duas árvores de natal alternativas sobre a lareira. E este natal, finalmente, tenho um presépio decente. Para dizer a verdade, acho-o mesmo bonito. Simples mas bonito. Se amanhã me lembrar, fotografo as minhas decorações nataleiras para vos mostrar. Nada que se recomende mas, enfim, quem mostra o que tem a mais não é obrigado.
De resto, não tenho mais nada a acrescentar pois é tarde e sendo o tema o da chuva e dos leitos de cheia e dos leitos dos rios todos a transbordarem, não me arrisco a enfiar-me por tão escorregadio tema não vá o meu pingado blog meter ainda mais água do que é costume e, assim sendo, se não se importam vou mergulhar num outro leito, menos molhado e mais quentinho.
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A música que se ouviu pertence ao que o The Guardian considera o melhor álbum de 2019. Lana Del Rey soma e segue.
E se ela pode invocar o grande Norman Rockwell, eu também posso e, por isso, as ilustrações que aqui se vêem são dele.
E desejo-vos um bom sábado. Tudo de bom para vocês.
[No outro dia recebi um postal de natal digital que dizia: brindemos há vida. Deitei as mãos ao alto mas depois percebi que me precipitei. Um lapsus de nada que só prova a falta que uma vírgula faz. Cá para mim, o cavalheiro quis dizer Brindemos: há vida.]
Há coisas que não percebo, que penso que fui eu que me confundi, que há-de ter uma explicação lógica, eu é que não estou a ver. Por isso, não fico a pensar nelas.
E sei que nem devia aqui falar delas. Mas, se ninguém me conhece, que importância tem se acharem que sou maluca ou com imaginação a mais?
Podia eu ser um mero avatar, alguém-ninguém, uma Lili Marleen, um ser sem materialidade. Podia eu ser um simples aplicativo, um teste de inteligência artificial deixado em roda livre pela blogosfera, um vulto intangível que para aqui se põe a escrever coisas.
Por isso, para quê inibir-me ou preocupar-me com o que pensam do que escrevo, se posso nem ser real?
Conto (e acreditem se quiserem).
De manhã, antes de ir trabalhar, ao reentrar no meu quarto para ir à casa de banho dar um jeito no cabelo, estranhei ter a luz da minha mesa de cabeceira acesa. Não tinha qualquer ideia de a ter acendido. Fiquei um pouco intrigada. Mas admiti que, por algum motivo, o tivesse feito. Ia apagá-la mas pensei que, já agora, ainda não o faria pois ainda voltaria à casa de banho para pôr creme nas mãos antes de sair.
Fui escolher o casaco, vesti-o e, quando voltei a entrar no quarto, para meu grande espanto, a luz já estava apagada. Fiquei pregada ao chão. Ainda pensei que, ao contrário do que pensava, se calhar o meu marido ainda estava em casa. Chamei por ele. Nada. Pensei: será possível que esteja alguém em casa? Assustada, fui dar uma volta por todas as divisões. Conferi que as janelas estavam fechadas, que a porta da rua estava fechada. Apreensiva, tentei tranquilizar-me: mais do que certo, eu é que não estava a ver a explicação. Depois pensei que, na volta, era a lâmpada que estava a fazer mau contacto. Voltei lá para verificar. Não, estava tudo bem e o interruptor até é dos decididamente on/off, nada de contacto ao de levezinho que uma insuspeita aragem tivesse accionado.
Voltei a dar mais uma volta para dar oportunidade a que, de novo, a luz se acendesse. Mas não. O candeeiro mantinha-se desligado. Saí para trabalhar mas com uma certa ansiedade, uma espécie de mau pressentimento, uma inexplicável inquietação. Não é a primeira vez que acontecem coisas assim.
Mas, como tantas vezes refiro, tenho a meu favor o ser irmã de ramo de árvore, filha da terra, bicho: primária, despreocupada. No carro, a ouvir a música, já fui voltando ao meu normal. Fui trabalhar e nem mais de tal me lembrei.
Saí cedo pois tive mais um almoço longe, por sinal, mesmo muito bom -- boa comida, boa companhia, boa conversa. Mas, então, ia no carro. Estava no noticiário do meio-dia. Então ouvi uma voz. Reconheci. O jornalista disse: La hora lobicán. A inquietação voltou. Desassossego fundo. Aquele buraco que se abre no peito. Logo a seguir a notícia. Patxi Andion tinha morrido. Um acidente de carro. Um arrepio percorreu-me o corpo. Percorreu e eu senti-o a percorrer-me: os braços, o peito, o torso, as pernas. Depois as lágrimas. Os olhos molhados, as lágrimas a descerem. Inquietação. Prestei atenção à notícia. Acidente. Depois, a seguir à hora do lobicão, as palavras. Veinte años de estar juntos esta tarde se han cumplido. Tantas vezes as ouvimos. Tantas vezes o meu marido as cantou para mim.
Tristeza. Inquietação.
Depois o pressentimento. E logo a certeza.
Quando agora à noite cheguei a casa, fui logo pesquisar: a que horas morreu. Sem surpresa confirmei: foi de manhã, exactamente quando o candeeiro se acendeu sozinho para, a seguir, se apagar.
Fiz uma pergunta no título mas não tenho resposta para ela. Gosta-se porque se gosta e não me parece que seja fácil explicar porquê. Na arte, como na literatura ou no amor deve seguir-se aquele princípio que o Mr. X nos ensinou: Julio Ramón 'Ribeyro propôs ter em mente que um bom trabalho não tem explicação, um mau trabalho não tem desculpa e um trabalho medíocre não tem qualquer interesse.'. Tal e qual.
Se desde pequena convivi com livros, já o mesmo não posso dizer da arte. Até certa altura tenho ideia de apenas ter conhecimento de pintura 'clássica'. Havia em casa dos meus pais alguns quadros mas daquele género que considero trivial. Nem sei se era bonito ou bem feitinho, se calhar até era. Lembro-me apenas de que nada me diziam. Teria eu uns onze ou doze anos, a sala da televisão foi redecorada e lembro-me de ter ido com a minha mãe escolher um quadro. Provavelmente o meu pai também terá ido até porque o quadro era grande e só pode ter ido de carro para casa. Era um óleo que, do que me lembro, já tendia para o impressionista, senão para o quase abstracto. Era uma tela muito comprida e tinha um barco e todo ele continha cores solares, luminosas. Pela primeira vez eu via uma pintura de que gostava. Uma vez, foi parar lá a casa um livro de pintura e eu descobri um mundo novo. Apaixonei-me de tal forma por um do Paul Klee que convenci a minha mãe a deixar-me arrancar aquela folha e emoldurá-la. O que eu gostava daquela cara colorida, abstracta, circunspecta, o que eu gostava. Lembro-me de as minhas avós terem ficado admiradas com aquele quadrinho no fundo do corredor, não percebendo a graça que eu achava a tal desconformidade.
Nas casas dos meus amigos ou dos amigos dos meus pais eu não via nada que me despertasse atenção. E quando íamos visitar museus, só me lembro de ver arte sacra, arte muito realista, muito naturalista, tudo coisas que nada me diziam. Uma reprodução da realidade, tal e qual o pintor a viu, a mim não me desperta interesse. Não quero saber tal e qual o que ele viu. Porque haveria de me interessar isso? Quanto muito interessa-me a impressão que a coisa lhe causou ou o ângulo diferente e imprevisto que torna a visão especial. Agora anjinhos suspensos em nuvens, cristos escanzelados, camponeses muito factuais, naturezas mortas completamente maçadoras, nada disso me parecia estimulante.
Por isso, quando me vi por minha conta, aos dezassete anos, sozinha em Lisboa, um dos lugares que, desde logo, mais me atraíu foi a Gulbenkian e não tanto o museu que já conhecia razoavelmente mas com as exposições temporárias, artistas modernos que traziam o ilógico, o inexplicável, a graça inocente, as cores e os traços quase infantis, as cores abertas, desprendidas do seu contexto. A partir daí passei a procurar galerias, livros, exposições e quanto maior a abstracção, quanto mais surpreendente e provocador, mais eu queria ver.
Em algumas peças não encontrava 'arte' e não gostava mas, ao longo do tempo, o meu conceito de arte foi adquirindo matizes, foi sofrendo transmutações. Ainda não gosto de muita coisa, coisas que me parecem de mau gosto ou chachada pura, mas há outras que agora me agradam e que antes achava autênticos disparates.
De Lisboa passei para Madrid e para a grande curiosidade de tudo o que era novo, incluindo os pintores de rua. E também para Paris. Não o Louvre que sempre achei fora da minha escala, grande demais, gente a mais, demasiadas obras demasiado clássicas. Nem tanto o Pompidou, muito experimental, muito neutro. Em Paris, sim, o Jeu de Paume e, depois, o maravilhoso museu do Quai d'Orsay, lugar mágico, lugar de eterno retorno, lugar onde, por muitas vezes que o visite, sempre me emocionará, por vezes quase até às lágrimas.
E daí para todos os outros. E a inexplicável sedução que Rothko exerce em mim? Ou Chagall?
E, uma vez a mente bem aberta a todas as diferenças a todas as surpresas, o deslumbramento com as grandes telas de Caravaggio. Deus meu. Que carnalidade, que vida ali condensada, que materialidade. Que tormento não poder estar em silêncio, sozinha, diante daquelas telas, horas, horas a fio.
Ou a luz de Vermeer. Olhar e tentar perceber como é possível uma coisa assim, tentar perceber se foi um homem normal que fez aquilo. Ah, os grandes mistérios.
Um dia, há muitos anos, uma prima minha dada às artes perguntou se eu já tinha ido ver a exposição da Paula Rêgo. Fui taxativa: não, nem iria porque me parecia tudo muito disforme, forçadamente repelente. Ela sorriu, disse: 'Olha que não, olha que não. Vai ver e vai com a mente aberta. Sei que vais gostar'. Hesitei. Ao fim de algum tempo, fui. E rendi-me. De repente nem percebia como tinha sido possível não gostar. De facto, gostava, gostava muito. Olhava para aquela outra que não gostava sem a identificar comigo, como se tivesse sido outra pessoa, uma estranha, uma rude criatura. E Graça Morais. A Graça Morais no casa-musei da Vieira da Silva. Que maravilha. E Pomar. E tantos outros.
Porque gosto de uns e não gosto de outros? Se calhar pela mesma razão que me leva a gostar de uns escritores e não de outros, a gostar de umas pessoas e não de outras.
E ocorreu-me pensar nisto pois, há bocado, ao abrir o YouTube, o meu amigo algoritmo tinha um vídeo que, segundo ele, era recomendado para mim. Marc Jacobs: between collections. Fui ver. E gostei. Caraças, gostei mesmo. Estupor do algoritmo que sabe levar-me na boazinha, que me conhece mesmo, que adivinha os meus gostos. A casa e as obras de arte de Marc Jacobs. Nem comento a graça que é ouvir conversar uma bicha dada às artes. E que não me venham com tretas de preconceitos: não sou homofóbica. Nem pouco mais ou menos. Convivo assiduamente com uma e, lá está, se a minha filha me diz que não percebe como tenho paciência para me dar com a bicha eu nem tento explicar. Sim porque sim. Mas, à parte esse suplemento de graça, as obras que ele ali tem. Que casa bonita a dele. Como eu gostaria de visitá-lo. O que eu gostaria de ser aquela ali, a conversar com ele sobre obras de arte, sobre moda, sobre modelos, sobre fofocas, sobre costura, sobre o seu processo criativo, sobre as cidades onde tem lojas.
E ocorreu-me também o vídeo abaixo (Why is modern art so bad?) que Leitor, a quem agradeço, me enviou e que me levou a dizer-lhe que o que Robert Florczak ali diz são banalidades sobre extremos, sobre caricaturas, obras que não representam o que globalmente se pode designar por arte moderna. E ele já me respondeu dizendo que não tenho razão, que o pintor o professor Robert Florczak é objectivo e que há arte e arte. Seja. Cada um pensa conforme sabe ou pode. Eu gosto de várias obras que Marc Jacobs tem em casa e, se calhar, não gostaria de ter nenhuma das pintadas por Florczak (e digo isto por dizer pois, na verdade, ainda não pesquisei para ver como é a arte que ele produz).
Mas fazer o quê? São os nossos genes, as nossas circunstâncias, o ar que respiramos, a nossa pele, o nosso olhar, afinidades que jamais saberemos explicar. Gosta-se porque se gosta. E é bom gostar.
Mas, então, cá está o anti-vídeo de Florczak, um genuíno anti-Jacobs.
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As fotografias que usei para ilustrar o post foram feitas este domingo no Ginjal e eu olho aquelas paredes como uma galeria de boa arte a céu aberto. Quando falo no Ginjal invariavelmente as pessoas dizem que não se percebe como é que nunca mais aquilo é arranjado, que aquilo é uma decadência de dar dó. E eu penso que tomara que qualquer obra nova ou de reabilitação que ali façam saiba preservar a beleza extrema e fatal daquelas paredes sobre as quais todos os dias alguém escreve ou pinta uma coisa diferente. Mas, lá está, gostos não se discutem.
A primeira fotografia, a dos ramos da árvore, e a última, a da gaivota, levaram um banho de cor -- e ainda bem que vocês não são curiosos e não me perguntam porque as tingi daquela maneira porque não saberia responder. Ou melhor, talvez pudesse tentar mas, tenho a certeza, soar-vos-ia a conversa de maluca.
Desejo-lhe a si, a si em especial, uma boa terça-feira.
De manhã fomos passear para a beira-rio. Estava frio e soube-me muito bem caminhar rente ao Tejo, sentir a frialdade húmida, ver as aves andando descansadamente nos lodos ou esvoaçando, deslizando pelos ares no maior vagar. Ao contrário de quando está bom tempo, hoje os turistas e caminhantes tinham-se retirado. Menos pessoas. Levei a máquina fotográfica mas, porque são as pessoas que mais me atraem, hoje senti que faltavam os motivos que, geralmente, me fazem sentir aquela adrenalina de as apanhar à socapa, de as apanhar no ângulo em que não podem ser reconhecidas ou, melhor ainda, de antecipar os gestos que vão fazer no instante seguinte, aquele em que vou estar a postos para os 'apanhar'.
Mas não fez mal. Fotografei as belas árvores pintadas com as mais intensas cores outonais, fotografei as esculturas de rua, fotografei os rastos que se desenham nos lodos, fotografei as águas mansas, longe dos azuis exuberantes, que quase se confundiam com o céu também em cores quase neutras.
Depois fomos almoçar. Já era tarde. O meu marido ainda tinha que ir à empresa buscar o computador e eu, chegando a casa, ainda tinha sopa para fazer, comida para o jantar de hoje já a contar com o de amanhã, pôr a máquina a lavar, etc. De manhã, tinha-me levantado com um pouco de dor de cabeça pelo que tinha pensado que, depois da labuta concluída, haveria de deitar-me no sofá, a ler e, tentativamente, dormiria um pouco a ver se aquela moinha nas têmporas desaparecia.
Mas, então, estando nós no início do almoço (e isto já depois das duas da tarde), eis que recebo uma sms da minha filha a dizer que o mais velho gostava que fossemos assistir aos seus jogos de futebol. Com o programa de festas que tínhamos pela frente, não era nada que desse jeito. O meu marido abanou a cabeça, encolheu-se todo. Que não dava tempo, que não dava jeito. Tinha um trabalho para fazer e não lhe dava jeito interrompê-lo para ir ver o jogo, às seis e tal da tarde.
Mas há uma coisa: eu não consigo dizer que não, não consigo desiludir os meninos. Se ele gostava que fossemos e se a minha filha também gostava que fossemos, então iríamos. O outro menino tinha também um jogo, mais cedo, noutro lugar, e aí era o pai a ir com ele. Mas, se acabasse a horas, iriam lá ter.
Fomos. Chovia a potes. Mau tempo, frio, vento, chuva. Ainda pensámos que não haveria jogo. A minha filha até nos ligou, estávamos nós a meio caminho, que, se ainda estivéssemos perto de casa, se calhar não valia a pena irmos, que com o tempo daquela maneira era pouco provável que houvesse jogo. Mas houve. Um gelo. O meu menino lindo encharcado, enregelado, ali debaixo de chuva. Só visto.
Mas um valentão. Jogou muito bem. Tem muito jeito. Está um rapazinho. Vibrei imenso. Enregelada também eu, embora encasacada, mas feliz da vida. O meu marido também gostou de ver o neto a jogar bem. Três jogos, hora e meia a jogar à bola, coitado, ao vento e ao frio, debaixo de água.
Chegámos a casa às oito e tal, ele ainda com trabalho para fazer e eu com coisas para arrumar e tratar. E vínhamos com um frio entranhado no corpo. Diz ele: 'Arranjas-me com cada uma...'. Como se tivesse sido por mim e não pelo neto e pela filha. Mas, se calhar, se não tivesse sido eu a dizer que tínhamos que ir, ele, com o que tinha planeado de trabalho, diria que não. Ou talvez não. No fundo, apesar de não parecer tão 'agarrado' como eu, também não gosta de desiludir as crianças pequenas (nem as grandes).
Sempre assim fomos. Mesmo quando os nossos filhos eram pequenos, mesmo que tivéssemos muito que fazer, nada nos fazia desviar um milímetro quando o que estava em causa era estarmos junto deles. Muita ginástica para conseguirmos conciliar as obrigações com as devoções, muitas corridas para chegarmos a horas, muito stress por vermos o tempo a passar, o trânsito parado sabendo nós que eles estavam à nossa espera.
Lembro-de uma vez em que uma viagem a Itália coincidiu com os anos do meu filho, teria ele uns cinco anos. Fiz de tudo para mudar mas foi impossível. Íamos três e íamos ter reuniões com pessoas de duas outras empresas; e conciliar agendas foi uma complicação, acabando por convergir, desgraçadamente, naqueles dias. Fui com o coração partido. os meus pais vieram para ajudar o meu marido que, naquela altura, tinha trabalhos fora de Lisboa ou reuniões com pessoas que vinham de fora e que queriam optimizar o seu tempo cá, puxando os horários. E havia a festinha de anos com os meninos da escola. Todos disseram que eu fosse descansada, que o menino era pequeno, que nem ia perceber, que eles tratariam de tudo. Mas eu não consegui aceitar o que tinha feito e, ao segundo dia à noite, tomei uma decisão. Arrumei a mala e no dia seguinte de manhã, ao pequeno almoço, apresentei-me junto dos meus colegas dizendo que ia regressar a Lisboa. Ficaram perplexos, sem palavra. Mas eu disse que nem valia a pena dizerem nada. Quase sentia a voz estrangulada na garganta tanto me doía ter estado ausente no dia de anos do meu filho Não me lembro de como fiz para mudar o voo de regresso. Naqueles tempos, sem telemóveis nem internet, não sei como se resolviam coisas destas. Mas eu tê-las-ia resolvido mesmo que estivesse no meio do deserto. Lembro-me de andar meio assustada naquele aeroporto de Milão que é enorme, pejado de gente, eu com pouco tempo, com medo de não dar com a porta de embarque, enervada, angustiada comigo mesmo, desejando chegar a casa mas, ali sozinha, incontactável, com medo de não conseguir embarcar. Mas consegui. Quando, a seguir ao almoço, toquei à porta do apartamento dos meus pais, a minha mãe ficou ainda mais perplexa. Mas o meu alívio por estar de volta, por poder abraçar os meus filhos, por regressar a casa, não tinha tamanho. E tenho para mim que os meus colegas e o meu chefe da altura passaram a respeitar-me mais por ter mostrado tanta determinação e tanto amor pelos meus filhos.
Outra vez foi com a minha filha. Estava numa reunião de um grupo de trabalho do qual fazia parte, estávamos a preparar uma apresentação para o dia seguinte. Naquela altura as apresentações eram feitas em acetatos que se projectavam com auxílio do que hoje será obra de museu e que creio que dava pelo nome de retroprojector. Uma trabalheira. E tínhamos que acabar cálculos para passarmos as conclusões para os acetatos. E nisto ligam-me da creche a dizer que a minha filha tinha estado com um pouco de falta de ar e que, por precaução, a tinham levado ao hospital mas que parecia não ser nada de muito grave. Foi como se me tivessem tirado o chão, como se me tivessem tirado também a mim o ar, como se o céu estivesse prestes a cair-me sobre a cabeça. Fiquei aterrorizada, impotente. Na altura, andava de transportes públicos e chegar ao hospital parecia-me uma eternidade. Em tal estado de aflição me devem ter visto, certamente quase sem conseguir falar, que o meu chefe da altura me disse apenas: vai buscar as tuas coisas que eu levo-te lá. E foi a abrir, num ápice, eu em lágrimas, numa ansiedade -- como se o recado tivesse sido o oposto. Para mim era como se ela estivesse em risco de vida. Não encontro explicação para a irracionalidade que se apodera de mim em situações assim. Quando lá chegámos, ele disse que ficava à espera mas eu quis que ele se fosse embora pois sentia que era responsabilidade minha, que não podia dividir com ninguém. Voei dentro do hospital até dar com ela. Estava sentada, bem. Tinham-lhe feito um aerossol ligeiro e tinha ficado bem. Levei-a para casa mas num tal estado de medo que me lembro que passei o resto do dia a encostar o ouvido às costas dela a tentar detectar alguma pieira ou sinal de alarme. Quando penso nisto, ocorre-me que, na altura, ainda nem trinta anos tinha. Ontem ela e a sobrinha estiveram a ver fotografias e eu era tão novinha. Nesse dia, eu tinha vinte e tal anos e, para mim, apesar de ser muito responsável no trabalho, não havia acetatos, apresentações ou o que fosse que me prendessem perante a perspectiva de a minha filha não estar bem e eu não estar junto a ela.
E, mais recentemente -- embora já há uns sete ou oito anos --, o meu genro ligou-me um dia a dizer que o mais velho estava com um bocado de falta de ar e que tinham ido ao hospital e que, por prudência, lá ia ficar. Foi como se tivesse sido atingida por uma bala. Parece que, em momentos assim, se me esvaem as forças, parece que me fica a doer o peito, o ventre, tudo. Voei para o hospital. Uma preocupação imensa por ele, por imaginar o susto da minha filha, por tudo.
E podia dar mais exemplos. Apesar de achar que uma pessoa, em situações normais, não deve abdicar da sua profissão ou da sua ambição por fazer aquilo de que gosta por causa dos filhos, devendo, antes, esforçar-se por conciliar os dois mundos -- até porque os filhos crescem e a nossa disponibilidade passa a ser outra (e até porque não devemos nunca dar motivo para que os filhos fiquem a achar que nos devem alguma coisa, nomeadamente por nos termos sacrificado por eles) -- a verdade é que, para mim, sempre esteve muito claro que os filhos e a família vêm em inquestionável primeiro lugar.
Por isso, hoje, apesar de um certo transtorno e desconforto, foi com o coração quentinho que estive a ver o meu menino crescido, tão lindo, tão querido, a dar pontapés na bola tão fortes, tão certeiros, e tão contente por nos ter lá.
E claro que levei um lanchinho. Quando me despedi dele, no carro, ele, molhado e enregelado, coitado, disse-me: 'Obrigado pelo apoio... e pelo lanche...' e eu só me apeteceu enchê-lo de abraços e beijinhos.
E pronto, uma vez mais não ouvi notícias, não sei do que se passa no mundo a não ser alguns temas que não me dão muita vontade de falar neles -- como, por exemplo, que Bill Gates já ultrapassou o Bezos e que já é outra vez o homem mais rico do mundo mas os números são de tal ordem que me parece haver qualquer coisa de muito indecoroso em tudo isto; ou que Veneza está desgraçadamente submersa há tempo demais, de uma forma quase catastrófica, mas acho tudo tão assustador que mal consigo falar nisso -- e, tirando isso ou coisas pouco inspiradoras relacionadas com o Trump ou com o Boris, não tenho muito assunto. Só mesmo isto. Enquanto, na maior paz, ouço os sons do silêncio e escrevo isto que estão a ler.
No outro dia, estava no gabinete a conversar com um colega quando, nem sei como, se me rebentou o colar e pelo chão rebolaram pérolas e pedras. Andámos ambos não propriamente de gatas mas quase. Recolhemos tudo o que pudemos e hoje fui à ouriversaria onde o tinha comprado para reenfiarem. E, de caminho, levei um relógio do meu marido para pôr uma pilha. E fomos ao supermercado e, já em casa, acelerei não apenas para almoçarmos cedo como para adiantar o jantar.
A minha filha tinha sugerido frango assado, que gosta do que eu faço, mas não dava tempo. Então lembrei-me de fazer de fricassé.
Conto como fiz.
Frango do campo de fricassé
Como somos muitos, tinha comprado várias embalagens de frango do campo (pernas, coxas, miúdos). Numa panela grande pus os bocados de franco, três cebolas cortadas aos bocados, três cenouras grandes também cortadas, um ramo de salsa, sal e tomilho. Juntei água até cobrir o frango. Juntei também uma pinga de vinho branco. Depois de ferver, baixei até à temperatura 3 (na escala e 1 a 9) e ficou ali a cozinhar.
Entretanto, quando vi que a carne já estava a ficar cozinhada (percebe-se quando a carne descola do osso), fui buscar uma frigideira grande e coloquei azeite e duas cebolas grandes daquelas branquinhas, doces, cortadinha. Esperei que ficasse dourada e depois baixei a temperatura e juntei um bocado do caldo da panela e passei os bocados de frango para a frigideira. E, de novo, mais uma pinguinha de vinho branco. E ali ficou a acabar de cozinhar.
(Continua)
Entretanto, eram horas de nos irmos e a coisa ficou por ali. Fomos para casa dos meus pais. Juntámo-nos lá todos. Uma invasão ruidosa. A minha mãe fica radiante embora meio atordoada. O mais crescido está a deitar corpo e não tarda está da altura da bisa. Jogaram todos à bola no jardim. Entretanto, a minha filha tinha lido que abriu uma pastelaria & padaria perto e fomos as quatro mulheres da família (mais o bebé) à descoberta. A minha mãe não fazia ideia onde era. Serviu de passeio e a minha filha ainda trouxe um pão cor-de-rosa, de beterraba, um amarelinho, de milho, e uma bolinha da avó. Chegados de volta a casa, foi tempo de lanche. Os pratos de crepes desapareceram num ápice. O apetite é sempre mais que muito. E havia um bolo de maçã que, segundo a minha mãe, era receita da Helena Sacadura Cabral. E depois a minha mãe disse que estava a precisar de um aspirador e logo, ali, à mesa, o meu filho o comprou para que o entreguem lá em casa. E depois ela indagou das necessidades dos netos, bisnetos e etc para presentes de Natal.
Dois dos meninos quiseram ir ver o bisavô a ser alimentado pela sonda gástrica. Faz-lhes um bocado de impressão mas gostam de perceber e de ver.
Um deles, o mano do meio, ao ver a 'gaiola' que está sobre as pernas do meu pai, sob a roupa, perguntou que elevação era aquela.
Expliquei que era para a roupa não roçar directamente nas pernas para não pesar porque poderia esfolar. Ele olhou para mim, admirado, e perguntou: 'Como sabes tu isso?'. E eu disse: 'Então, houve uma vez que soube e fiquei a saber'. E ele: 'Perguntei porque as pessoas de alguma idade às vezes esquecem-se das coisas.'. Fiquei escandalizada, sem querer acreditar: 'Ah... Então eu sou de alguma idade...? Achas que já estou em idade de poder esquecer-me das coisas...?'. E ele, sorrindo e deixando perceber que sabia que tinha metido água mas sem saber como sair dessa: 'Sim... um bocado... mas... mas... só um bocado...'.
Quer a senhora que lá vai tratar do meu pai, quer eu fartámo-nos de rir. Ela para mim: 'Pronto, já levou roda de velha... O que não achará ele, então, da bisa...'
Há bocado, aqui neste sofá, sentado ao lado da tia, saíu-se com esta dúvida, expressa com alguma hesitação: 'Quando as pessoas ... aa... quando as pessoas vão... aa... morrem... e vão ser enterradas... aa... vão nuas...?'. A tia, espantada: 'Olha, agora esta! Que pergunta... Não, não vão nuas, vão vestidas'. E ele: 'Mas como, com quê?'. E ela: 'Ai, olha esta conversa. Vão com a roupa normal.'
Enfim, temas que naturalmente vêm envoltos em algumas questões. De qualquer forma, isto sem dramas, no meio de brincadeiras, de danças de hip-hop, de cantorias e palhaçadas.
Mas, portanto, voltando atrás: viemos de casa dos meus pais já de noite. Todos cá para casa com excepção do meu filho e da minha nora que aproveitaram para irem jantar sozinhos.
Eu fui directa para a cozinha.
Frango de fricassé
(Continuação)
Tirei a carne da mega-frigideira e desossei-a. Deixei-a ficar de lado. Despejei a cebola que, entretanto, estava translúcida, e o caldo da frigideira para uma panela e juntei uma colher bem cheia de farinha. Com a varinha desfiz a cebola e a farinha e levei ao fogão a engrossar. Sempre mexendo, sempre mexendo em calor baixo (3). Entretanto, espremi meio limão grande e juntei numa tigela a quatro gemas que mexi com um garfo. Depois, despejei devagar no caldo que já estava transformado em creme que estava ao lume e continuei a mexer, cada vez o creme mais grossinho e perfumado. Juntei então a carne desossada. Ficou submersa. Passado um bocado, desliguei. Poderia ter juntado salsa migadinha mas como uns não apreciam, ficou numa tacinha para quem quisesse.
Entretanto, com um garfo, desfiz grosseiramente a cebola e a cenoura no caldo da cozedura. Medi o dobro da quantidade de arroz que ia fazer. Deixei que fervesse. Juntei o arroz basmati. Depois de ferver, baixei até ficar sem caldo.
E, portanto, o frango de fricassé, com o seu molho espesso e bom, acompanhou com o arroz cozido no caldo da cozedura da carne.
Adoraram.
A minha filha levou o que sobrou.
Depois de jantar, as crianças voltaram a ter aquele pico de energia que os faz quase darem connosco em malucos. O meu marido, nestas situações, vira-se contra mim, diz que eu não imponho disciplina. Mas ele também não.
Quanto aos pais, nem tentam pois sabem que à força não se vai lá. Eu ainda tentei que fossem jogar ao jogo do galo ou à batalha naval mas querem lá eles estar sossegados. O segundo menino mais crescido andava com as muletas que estão cá em casa e depois passava-as ao primo, como se andar com aquilo os fizesse sentirem-se uns guerreiros do apocalipse. No meio da maluqueira, a menininha maquilhava e penteava a tia e depois a tia a ela.
Pelo meio, o bebé mostrou a língua branca. Alarido. 'Ah! O que é isso?'. Tinha posto sombra branca na boca. Agarrei nele a correr e fui lavar-lhe a língua. E ele, 'Já chega, já tá, já tá limpa! Já tá boa!'
Depois, a minha filha lembrou-se de pôr os Simpsons e, então, finalmente, houve algum sossego. O bebé pegou na máquina e andou a fotografar toda a gente.
Entretanto, chegaram os pais dos três e depois de terem estado também a ver os Simpsons e a ouvirem algumas das peripécias, resolveram todos que estava na hora.
Saíram relativamente cedo, ao mesmo tempo, creio que antes da onze.
Depois de terem saído e da casa ter entrado do seu usual estado de quase silêncio, ainda nos pusemos a tentar arrumar algumas coisas mas o cansaço tomou conta de nós. Vim para o sofá e, passado um bocado, caí para o lado. Adormeci.
E, agora que acordei, aqui estou. Continuo sem saber de notícias ou de intrigas partidárias. Por isso, não tenho assuntos que possa comentar. Só mesmo isto. O meu dia.
E estou a lembrar-me de outra coisa, que estive outra vez a falar com os dois manos que daqui por algum tempo, talvez uns dois ou três anos, podem vir passear comigo a Londres ou a Berlim. O mais velho fica entusiasmado, diz que o seu sonho é viajar por todo o mundo. O outro não diz que não mas não vai ao rubro. O meu marido não acredita que eu vá passear sozinha com eles. Diz que os miúdos vão tomar conta de mim mas que não sabe se serão capazes. A minha filha diz que o pai não vai ficar sossegado se eu for sozinha com eles, que virá também. Eu sozinha com os cinco não me arriscaria mas com estes dois, quando estiverem mais crescidinhos, acho que deveria ter graça. Com os outros, tão cedo penso que não, ainda estão pequenos, em especial o bebé. Mas, enfim, talvez sejam apenas devaneios meus.
E, por ora, é isto. Passa das duas e meia da manhã, mais do que horas de me ir deitar. Ainda há pouco o meu marido me perguntou, lá da cama, se ainda não seriam horas. São. Claro que são.
É cálida flor E trópica mansamente De leite entreaberta às tuas Mãos Feltro das pétalas que por dentro Tem o felpo das pálpebras Da língua a lentidão Guelra do corpo Pulmão que não respira Dobada em muco Tecida em água Flor carnívora voraz do próprio suco No ventre entorpecida Nas pernas sequestrada. Maria Teresa Horta
de Jacqueline Secor
No seguimento do post de ontem, decidi fazer um post em homenagem a uma das partes mais fantásticas do corpo das mulheres. Já não é a primeira vez que o faço (por exemplo aqui e aqui) e provavelmente não será a última. É uma parte íntima, geralmente escondida, muitas vezes objecto de vergonhas, de tabus, muitas outras vezes transformada em arma de arremesso vernacular. E, no entanto, que delicadeza, que porta de entrada para um mundo de mistérios e prazeres. Felizmente a anatomia colocou-a num lugar em que está ao abrigo de olhares impróprios, protegendo-a de uma banalização que a tornaria menos secreta e menos desejada.
Por motivos que não alcanço, há quem a associe ao pecado e proíba imagens suas. Eu, pelo contrário, acho que a sua existência deveria ser glorificada e só por pensar que os meus filhos existem porque alguém transpôs esta entrada do meu corpo para no mais interior de mim depositar a sua semente e que ambos chegaram a este mundo descendo por mim e atravessando esta porta abençoada, ainda mais penso que pecado uma ova.
E agora chega de conversa. Vou ali buscar o meu chá, quentinho e bom. Aceitam um bolinho?
Não há mulheres, no plural. Há uma e outra e outra e outra. Todas diferentes. Nada que as iguale. Nada.
Posso falar do que conheço de outras mulheres mas não falo por elas. Cada uma tem a sua própria voz.
Conheço-as submissas. Conheço-as desconfiadas. Conheço-as abnegadas. Conheço-as lutadoras. Conheço-as sofredoras. Conheço-as arrogantes. Conheço-as inseguras. Conheço-as ingratas. Conheço-as com os pés e as mãos na terra. Conheço-as com a cabeça na lua. Conheço-as destroçadas. Conheço-as frágeis. Conheço-as guerreiras.
Conheço tantas mulheres.
Posso falar delas. Mas, se não falo de alguma em particular, se falo de mulheres, falo da que desconheço melhor: de mim.
Que as mulheres que me lêem não sintam estranheza por não se reconhecerem porque, se falo de mulheres, em abstracto, é de mim que falo, uso a minha própria voz que é a única que, em toda a verdade, sou capaz de usar.
Dos homens não sei. Há homens que eu acho que não têm qualquer interesse. E, no entanto, há sempre alguém que se interessa por eles. Por isso, sobre homens, também apenas posso falar por mim. E, se falar do que como um homem deve ser para ser interessante, é em mim que penso, no que a mim me parece interessante num homem. Mas também não sei dizer muito porque, se falasse, estaria a falar de um ser abstracto e, a mim, o que me interessa são os homens concretos, de carne e osso, de verdade.
Portanto, se eu me pusesse aqui a falar de homens, sobre homens em abstracto, tudo não passaria de teoria, conversa vaga, coisa de nulo interesse. Não o farei.
E um disclaimer que, se calhar, nem vem a propósito: há homens e mulheres que podem ser muito próximos, muito amigos. A grande amizade entre um homem e uma mulher é possível. Os meus melhores amigos sempre foram homens. Mas o mais interessante, o mais raro, o que dá sentido e fulgor à vida, o que cintila no escuro e no coração é a paixão. E, a seguir à paixão, um grande amor, um grande amor entre um homem e uma mulher.
E, claro, estou a falar da condição que é a minha, a heterossexual. Mas talvez tudo possa extrapolado.
Contudo, justamente, porque quero ser precisa, não posso dizer muita coisa. Não saberia o que dizer.
Sei que teria ainda muito para descobrir sobre mim mas não tenho interesse nisso. Gosto de ser surpreendida e isso aplica-se também a mim. E gosto de ser desafiada pois isso leva-me a aventurar-me por caminhos que desconheço e, mais do que conhecer-me a mim, interessa-me conhecer os caminhos por onde a minha curiosidade me pode ainda levar.
E, tirando isso, nada. Não sei o que dizer.
Dou, pois, a palavra a outras mulheres. Este é um post sobre o que pensam as mulheres. Sobre o que sentem as mulheres. Melhor: sobre o que pensam as mulheres quando pensam em homens. Em certos homens. Naqueles que trazem sal, pimenta e beleza à vida, naqueles que fazem com que tudo cintile.
Os moços tão bonitos me doem, impertinentes como limões novos. Eu pareço uma actriz em decadência, mas, como sei disso, o que sou é uma mulher com um radar poderoso. Por isso, quando eles não me vêem como se me dissessem: acomoda-te no teu galho, eu penso: bonitos como potros. Não me servem. Vou esperar que ganhem indecisão. E espero. Quando cuidam que não, estão todos no meu bolso.
Mas se o corpo é escrita no leito do papel
onde a mão o deita, desnuda e o invade
lhe acaricia os ombros e em seguida
o possui de bruços e mesmo assim não sabe
saciar o corpo no corpo do delírio
com a avidez de uma emoção rapace
Réstia de sol na sombra do calor
fuso do corpo
tecendo o seu orgasmo ....
Penso em ti com apreensivo carinho. Realmente, entre a dor e o sonho, até quando conseguirei manter esta obsessão prática, este quase incesto? O verdadeiro amor é um acto indisponível.
Segundo poema - excerto de 'O esplendor do Corpo' de Maria Teresa Horta in 'Eu sou a minha poesia'
Tisana 285 - de Ana Hatherley in '351 tisanas'
Último poema e poema do título - de Hilda Hilst in 'De amor tenho vivido'
Pinturas respectivamente de Frank Dicksee, Solomon Joseph Solomon, Picasso, Solomon Joseph Solomon, Red Cloth, John William Waterhouse, Rubens e Charles Joseph Frederic
Tudo na companhia de Melody Gardot com Our love is easy