Apesar de possuir um apurado sentido estético e de ter preferido desde sempre as raparigas muito jovens com o seu encanto primaveril, não deixava também de reagir perante o apelo de mulheres menos belas e não tão jovens. Durante os bailes sucedia por vezes deixar-se prender por uma qualquer rapariga desanimada e sem frescura, que ninguém desejava e o conquistava pela via da compaixão, e não só da compaixão, mas devido também à sua eterna curiosidade.
A partir do momento em que se dedicava a uma mulher -- fosse por semanas ou apenas por horas --, ela tornava-se bela aos seus olhos e a sua entrega era completa. A experiência ensinara-lhe que todas as mulheres eram belas e capazes de dar prazer, e que mesmo a de aparência insignificante, desprezada pelos outros homens, podia revelar um ardor e uma entrega inauditos, e que mesmo aquela que perdera já o viço da juventude era capaz de derramar uma doce ternura melancólica e mais que maternal; no fundo, todas possuíam um segredo e um encanto cujo desvendar o fascinava.
Nesse aspecto eram todas elas semelhantes: havia sempre um gesto especial capaz de compensar qualquer falta de juventude ou beleza, embora nem todas o prendessem durante o mesmo tempo. A menos bela não lhe inspirava menos amor e gratidão do que a mais jovem e graciosa, a sua entrega era sempre total.
O meu dia foi bom: caminhada na praia, ida à outra casa buscar coisas, arrumar as coisas que vieram, lavar cortinados, depois pô-los de molho em água e um pouco de lixívia a ver se voltam à alvura inicial (coisa que a minha mãe, ao telefone, já me disse que tire daí o sentido). Coisas simples. Um dia descansado. O meu marido há bocado arreliou-se comigo quando lhe disse que não sabia porque é que ele estava cansado porque o dia tinha sido tão descansado. Lembrou-me que carregou com sacos pesados, pregou coisas nas paredes, um dos quais um armário pesado. Mas isso já me parece coisa ligeira quando comparado com o que foram as semanas da mudança. E eu para além de ter lavado e relavado pesados cortinados, carreguei-os para o estendal. Ah, e passei camisas a ferro.
Há quanto tempo não o fazia? Meses. Gostei. Gosto de passar roupa a ferro. Quando era pequena, lembro-me bem de pedir à minha avó que me deixasse passar alguma roupa a ferro. Na altura os lenços de assoar eram de pano. O irmão mais novo do meu pai ainda vivia em casa dos pais. Não sei para que queria ele os lenços. Não tenho ideia de o ver andar sempre a assoar-se. Se calhar, era costume saírem de casa com um lenço de pano lavado todos os dias. Sei que a minha avó deixava que eu passasse a ferro os lenços do meu tio. Todas as semanas havia um montinho de lenços para o meu avô e outro para ele. Mas eu gostava era de passar os dele. Um algodão macio, fininho. Lembro-me muito bem de ir passear com ele e com a namorada que viria a tornar-se minha tia e de ele lhe mostrar o lenço para que ela visse como estava bem engomado. Ah, que orgulho senti. Como me senti agradecida. Ainda agora, quando o vejo, cada vez mais curvado, a pele cada vez mais enrugada, me lembro da sua gentileza, do seu afecto por mim.
E encontrei o livro que estava a ler, Narciso e Goldmund de Hermann Hesse. Não tive tempo para voltar a ele mas tenho agora tempo para transcrever algumas palavras (incluindo as 'palavras mágicas' que puxei para parte do título deste post).
Naturezas como a tua, dotadas de uma sensibilidade forte e delicada, as pessoas dominadas pelos impulsos da alma, os sonhadores, poetas, amantes, são-nos quase sempre superiores, a nós, intelectuais focados no espírito. A vossa origem é materna. Viveis na plenitude, a vós foi-vos dada a força do amor e da capacidade da vivência. Nós, os intelectuais, embora possa por vezes parecer que quase sempre vos guiamos e governamos, não conhecemos a plenitude, vivemos na carência. A vós pertence-vos a pujança da vida, a seiva dos frutos, o jardim do amor, o belo território da arte. A vossa pátria é a terra, a nossa a ideia. O perigo para vós consiste em afogar-vos no mundo dos sentidos, para nós em sufocarmos no espaço rarefeito de ar. Tu és artista, eu sou pensador. Tu dormes no regaço da mãe, eu mantenho a minha vigília no deserto. Para mim brilha o Sol, para ti a Lua e as estrelas; tu sonhas com raparigas, eu com rapazes...
Mais do que no mundo real, vivia naquele mundo dos sonhos. O mundo real, a sala de aulas, a cerca do convento, a biblioteca, o dormitório e a capela eram só superfície, uma ténue membrana vibrando sobre um mundo de imagens surreais alimentadas pelos sonhos. Um nada bastava para perfurar essa fina membrana: algo sugestivo, intuído na sonoridade de um vocábulo grego no decorrer de uma vulgar lição, uma fragrância saída do herbário do padre Anselm, a visão de uma grinalda de folhas de pedra que brotava do alto de uma coluna que sustentava o arco de uma janela -- pequenos estímulos que bastavam para rasgar a membrana da realidade e desencadear, por detrás daquela amena e árida realidade, a erupção dos abismos fragorosos, das caudalosas torrentes e vias lácteas do mundo imagético da alma.
Tenho esta coisa com lobos. Acho que devem ser bichos inteligentes, cheios de energia e subtileza, escondendo mistérios e silêncios. Bichos cuja natureza há-de ser estranhamente próxima da minha.
Provavelmente estou a navegar. Sou menina sonhadora, da cidade, nunca sofri as durezas da ruralidade ou da fome, não conheci a verdade de umas mãos gretadas, não sei, de facto, o que é o medo paralisante. O que sei é do que leio, do que ouço, do que imagino.
Desde pequena que ouço que os lobos são maus. E na serra vi as armadilhas. Deviam ser maus para terem que ser traiçoeiramente caçados em buracos. Comem ovelhas inocentes, atacam aldeias.
Mas eu sempre me senti tentada a perdoar-lhes. A necessidade, o instinto. Não a vulgar maldade.
Acho que, se visse um lobo, ficava a olhar para ele e ele para mim. E acho que ele viria ter comigo. Devagar, devagar. Haveria de querer que eu lhe fizesse uma festa. E eu far-lhe-ia. Lobo, lobo, lobo mau... E ele ficaria imóvel, deixando que eu tentasse conhecê-lo. Lobo, lobo, lobinho. Eu a adivinhar os seus pensamentos, ele a adivinhar os meus, querendo descobrir afinidades, temendo não as descobrir. Pronto a atacar. Pronta a defender-me, pronta a destruí-lo. Pronto a destruir-me. Animais tentando reconhecer-se. Temendo a adversidade, pressentindo o perigo.
É como com os cães grandes. Dantes tinha tanto medo e depois perdi-o. Qualquer cão grande que se aproxime eu tenho vontade que eles se cheguem para eu lhes fazer uma festa.
O meu marido repreende, que não me afoite -- diz que não os conheço, que não sei como vão reagir. Mas é instintivo, eles aproximam-se, eu aproximo-me.
Por acaso, uma vez, fui com a minha filha e os miúdos visitar um quartel de bombeiros. Os miúdos adoram ver os carros, os tinonis, aqueles mecanismos, escadas, mangueiras, motores, luvas, capacetes. E, às tantas, vejo lá um caozão gigantão. Estava deitado a dormir e, quando nos viu a andar por lá, levantou-se e veio ter connosco. E eu, como sempre, estiquei o braço para lhe fazer uma festa. Ele, que já devia estar mal disposto com a nossa invasão em território à sua guarda, abre-me a sua bocarra, solta um rugido e mostra-me um ar feroz. Apanhei um susto, claro, não fosse ele ainda se atirar a nós, em especial aos miúdos. Recuei, sobressaltada, sem palavras.
A minha filha volta e meia fala disso para ilustrar a minha falta de medo ou de prudência.
Mas, dizia eu, os lobos.
Os lobos são, pelo menos assim os imagino, bichos silenciosos, orgulhosos, delicados. Imagino-os a cruzarem a noite, passos cautelosos, respirando com a delicadeza dos seres superiores. Imagino-os a verem através do escuro, todos eles intuição, adivinhando os vultos, antecipando os perigos, resguardando-se para o desfrute solitário do prazer de existir. Assim os imagino. Hábeis, sábios, clarividentes, elegantes.
Já li livros com lobos. Salvam a vida de quem se deixa amar por eles.
Têm, ou assim os imagino, um pelo forte, à superfície áspero, macio como seda junto à pele, e exalarão um cheiro animal, selvagem, secreto. Terão uma respiração dócil. Outras vezes, bravia, pura sobrevivência, puro prazer de existir.
Se eu estivesse a caminhar à noite numa serra azul, tingida de magia -- as árvores como sombras esguias, talvez uma ténue lua em crescente, o frio cortando-me a pele, e eu cheia de medos, tremendo ao som dos ruídos indefinidos, piares de pássaros longínquos, murmúrios de folhagem rodopiando ao vento -- talvez sentisse, de repente, um arrepio cru na pele, talvez o coração se me acelerasse sentindo uma alteração no fôlego de um ser caminhando na minha direcção, o vapor quase invisível da sua respiração, os seus passos pisando as folhas húmidas, os musgos, as gotas pingando das árvores, eu na direcção dele, ele na minha direcção. Eu cheia de medo. Ele cheio de medo. Desconfiada eu dele. Ele de mim.
Receando-nos, farejando-nos, o coração descompassado, a respiração trémula, a pele sensível, passo após passo, o bafo cada vez mais perto, o dele, o meu, o secreto calor do nosso corpo -- e o silêncio cada vez mais cúmplice.
Depois ele veria o meu olhar húmido, a neblina envolvendo o meu corpo, sentir-me-ia desarmada, pronta para atravessar todos os medos, pronta a atravessar os perigosos labirintos, a cair no mais tentador dos abismos. E eu senti-lo-ia nervoso, fremente, envolto em bruma e solidão, corajoso como um deus do fogo, altivo como um pássaro distante. Caminharíamos ao encontro um do outro.
E não mais nos separaríamos. Um afecto feito de inexplicações, transportando memórias de tempos muito antigos e emoções vindas de uma profundidade onde não existem palavras, apenas lágrimas silenciosas, sangue latejante, olhares enfeitiçados. Para sempre. Para sempre.
Lobo, lobo, lobinho...
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Histórias com lobos
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Eo lobo que não esqueço
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Um dia muito bom a todos quantos aqui estão comigo.