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terça-feira, março 17, 2026

Um estudo muito estúpido

 

Em todas as áreas pode haver burocracia, aquela arte de fazer bem feito uma coisa inútil. Até na área dos estudos, incluindo os so-called científicos. 

Quando se faz um estudo tem que se saber minimamente a realidade sobre a qual se vai investigar, tem que se 'calibrar' o conhecimento conversando com pessoas envolvidas no processo, tem que se ir ao terreno e ver como as coisas funcionam na prática. Sei (mais ou menos) do que falo. Não apenas a nível profissional liderei projectos que envolviam estudos e respectivos planos de implementação e, muitas vezes, acompanhamento da respectiva execução, como orientei, durante alguns anos, vários estágios curriculares de licenciaturas. E quando a universidade pedia que acolhêssemos finalistas e me perguntava que temas poderíamos sugerir, eu atravessava-me com temas muito concretos e complexos demais para serem equacionados internamente sem recurso a apoio de quem tivesse tempo e recursos para fazer análise estatística, para construir modelos, para testar e validar soluções.

E a minha abordagem quando recebia os jovens era sempre a mesma: depois de lhes explicar o que pretendia e de os deixar durante uns dias a consultar informação, atirava-os para o terreno. Queria que fossem perceber qual o problema e porque o queríamos ver resolvido. Deveriam observar, falar com as pessoas, fazer perguntas, ouvir queixas e opiniões. Só depois os queria de volta. E, antes que começassem a fazer estudos, eu queria ouvi-los a falar da realidade concreta, queria ver se já 'sentiam' o problema como se fossem vítimas dele. 

E vem isto a propósito de uma notícia do Expresso. "Doentes só vão ao médico de família privado porque o seguro paga a consulta", Análise de investigadores da Nova SBE indica que a “cobertura por seguro de saúde é o principal fator de recurso a médico de família fora do SNS”. Quase 70% dos doentes que procuraram consultas fora da rede pública têm clínico atribuído no centro de saúde (...)

E eu leio isto e penso: que conclusões mais estúpidas...

É que a questão não é essa. A questão é: porque é que, tendo médico de família, optam por ir ao privado usando para isso o seguro (onde pagam sempre qualquer coisa)?

Bastaria terem entrevistado umas quantas pessoas nessas circunstâncias. E essas pessoas ter-lhes-iam respondido todas a mesma coisa: porque não conseguiram consulta no SNS em tempo útil.

Posso falar por mim e pelo meu marido, e temos ambos seguros de saúde, e posso falar por todas as pessoas que conheço. Apesar de termos seguros, gostaríamos de ser seguidos exclusivamente no SNS.

Só que, muitas vezes, não se consegue.

Se marcarmos consulta de revisão anual para daqui por uns seis meses, talvez consigamos. Mas se tivermos um problema e quisermos uma consulta para a semana já não conseguimos. 

No outro dia o meu marido precisou de ir ao médico. Se fosse uma situação crítica teria ligado para a Saúde 24 e, se eles assim o considerassem, teriam agendado consulta para o Centro de Saúde onde seria atingido por um médico qualquer, não pelo médico de família. Já usei essa prerrogativa duas vezes, uma quando fui picada no pé e o pé desatou a inchar estupidamente e aí a médica que me viu, uma jovem muito jovem, foi chamar uma mais experiente e vim de lá bem medicada, ou seja, correu bem, e outra, quando tive uma dor e inflamação num pulso. O médico de família tinha combinado comigo que, na próxima vez em que eu tivesse uma destas crises, eu deveria lá ir em plena crise para investigarem bem a sua origem. Liguei para a Saúde 24 e expliquei. Marcaram-me consulta. Dei com uma médica jovem, inexperiente, medrosa e pouco inteligente. Não conseguiu perceber o motivo da consulta, estava atrapalhada. Ir ou não ir foi a mesma coisa. Vim de lá desconcertada. Quando, meses depois, numa daquelas consultas anuais, falei nisso ao médico de família, sorriu, encolheu os ombros como se não se admirasse muito, mas nada pudesse fazer. 

Mas, portanto, o meu marido ligou para lá e disse que gostava de ter consulta com o médico de família. Disseram que ou daí por meses ou, se era para já, que fosse lá no dia seguinte de manhã. Foi, creio que talvez por volta das oito e tal da manhã. Já não tinha vaga, só havia duas e já estavam tomadas. Desistiu. Obviamente não faria sentido estar a ir para lá todos os dias, de madrugada, sem certeza de obter vaga.

Porque é que as pessoas vão ao privado? É simples: porque não arranjam vaga no público. 

E quando se quer consulta de oftalmologia, ginecologia ou o que for? Ou se está com problema sério que o médico de família referencie para o hospital e aí espera-se que o hospital chame (ao fim de muitos meses, se não mesmo um ano ou mais ) ou que remédio senão ir ao privado. Porque é que se vai ao privado? É porque se tem seguro? Não. É porque não se consegue no SNS.

E tudo isto é tão óbvio que não consigo compreender que raio de estudo mais estúpido foi este que a Nova SBE desenvolveu.

Transcrevo mais um pouco: "Investigadores da Nova SBE vêm contradizer a perceção de que os doentes recorrem a um médico de família privado porque não têm resposta no Serviço Nacional de Saúde (SNS). A análise que fizeram, e divulgaram esta segunda-feira, afirma que a procura de um clínico fora da rede pública é motivada pelo facto de a consulta ser paga pelos seguros privados e a prova é que a maioria dos doentes que recorreram à rede particular para medicina familiar em 2025 têm médico assistente no centro de saúde."

Isto só mostra que é gente que não põe o pé no terreno, que não faz a mínima do que é a realidade. 

“Os dados analisados permitem aferir que, em 2025, 14,1% dos adultos recorreram a médico de família no privado e, destes, aproximadamente 70% têm médico de família atribuído pelo SNS”, escrevem os autores Pedro Pita Barros e Carolina Santos. E, acrescentam, “apenas 4,2% da população total recorre ao privado por não ter médico de família no SNS e cerca de 10% da população tem dupla cobertura (médico de família no SNS e no setor privado)”.

Isto é um estudo burocrático: certamente muito bem feitinho mas desnecessário, absurdo, dispensável. 

Não conseguiram perceber nada do assunto.

E o Expresso, em vez de fazer uma leitura crítica das conclusões e questionar os autores, Pedro Pita Barros e Carolina Santos, não senhor, limita-se a divulgá-las como se acrescentassem alguma coisa, como se servissem para tirar alguma conclusão.

Quando se falta na falta de produtividade portuguesa é nisto que se fala: muita gente ocupada a fazer coisas que não valem uma casca de caracol.

terça-feira, outubro 14, 2025

Estou de punho esquerdo ao alto e não é pelos melhores motivos.
-- A minha experiência de hoje com o SNS e com a linha Saúde 24 --

 

Recapitulando: levámos as vacinas na 3ª feira. Na 4ª comecei a ficar constipada, na 5ª estava perdida, desidratada e exausta, só espirros e pingo. Tomei um anti-histamínico. Na 6ª feira nem pingo nem espirros mas completamente KO. De sexta para sábado praticamente não dormi, tosse, tosse e mais tosse. E ainda não estou completamente recuperada. Entretanto, na 6ª e no sábado ficou o meu marido na mesma. Ou seja, provavelmente não é reação às vacinas, mas alguma bicheza da época. Não é gripe (das que constam do teste) nem covid pois testei negativo a tudo. Mas, seja o que for, deixou-nos afanados.

Ora acontece que, por vezes, quando tenho destes estados inflamatórios, a coisa descamba e parece que vai alojar-se, exacerbadamente, numa articulação. Ainda nenhum médico me deu uma explicação cabal para este fenómeno. 

Desta vez, um pulso. Começou ontem. Doía-me, senti que estava a começar a inchar. Apliquei pomada, pus gelo. A noite passada quase não dormi, cheia de dores no estupor do pulso. Percebi logo que já só lá ia com a porcaria do anti-inflamatório que os médicos me dizem que tenho que evitar e que este ano está a ser um bocado recorrente.

Lembro-me do meu pai, já acamado e com um pulso e a mão super inchados, encarnados, e ele aflito de dores, ninguém podia lá tocar, nem o lençol ele suportava. Como o percebo... Não é ácido úrico. É só isto: do nada, uma articulação inflama. Só que são dores incapacitantes, o inchaço a progredir. 

Portanto, gelo e anti-inflamatório, mão ao peito, dores terríveis, quase sem conseguir fazer nada sozinha.

Uma vez falei nisto ao médico de família e ele disse: para a próxima, quando acontecer, venha logo cá. Respondi-lhe que não se conseguem marcar consultas com essa facilidade e aconselhou a ligar para a Saúde 24.

Portanto, contrariada (e contrariada pois estava a sentir-me suficientemente incomodada e receava que dali não viesse boa coisa), lá liguei. Fiz a chamada com a mão direita pois a mão esquerda está incapacitada. Mas tive que marcar números para responder às opções que a gravação ia pedindo. Estava mesmo à nora. Quando pediram que digitasse o nº de utente, o meu marido entrou e ajudou-me. Começou, então, a música. Não cronometrei mas foi seguramente mais de meia hora a ouvir música. Quando estava a desesperar e a pensar que se fosse alguma situação urgente, estava bem tramada, apareceu-me uma voz masculina.

Começou por dizer que ia fazer-me perguntas para ver se era uma situação de emergência. Disse-lhe que não mas ele insistiu em perguntar-me se tinha caído, se estava com uma hemorragia, se tinha um membro dormente, a boca ao lado, etc. Disse que não, só querendo passar ao que me levava a ligar. Uma pessoa quando está aflita com dores, limitada nos seus movimentos, fica impaciente. Além disso, com as dores muito fortes, baixa-me a pressão arterial. Tive que me deitar para não desmaiar. Imagine-se. A voz masculina começou, então, a perguntar o que eu tinha. E escrevia, escrevia, escrevia. Uma pergunta, eu tentava atalhar, mas ele queria detalhes, e escrevia, escrevia. Finalmente, eu à beira da exaustão, diz-me: 'Não desligue, vou passar a uma pessoa sénior'. Mais música. 

Passado um bocado, alguém que se apresentou como enfermeira qualquer coisa. Novo interrogatório, novas respostas. Depois lá veio a conclusão: 'É um caso agudo. Vamos marcar uma consulta no centro de saúde. Não desligue'.

Mais música. Um jovem apareceu a marcar a consulta. Antes de desligar pediu-me para me fazer mais uma pergunta: 'Se na Saúde 24 não tivéssemos atendido, o que faria?'. Respondi: 'Talvez fosse a um hospital privado'. O jovem tomou nota da resposta.

47 minutos ao telefone. Quase uma hora. Uma pessoa a sentir-se cheia de dores e com a tensão nos mínimos, e isto. Exausta. Se estivesse mesmo aflita, não aguentaria.

Ao comentar com a minha filha, ela disse: 'Num caso de emergência, é de ligar logo para o 112'. Espero que sim, que não obriguem a passar antes pela Saúde 24. 

À tarde fui então à dita consulta. Não era o meu médico, era uma médica que me pareceu jovem e inexperiente (estava de máscara, não consegui ver bem). Estava um bocado agarrada a uma particularidade, não conseguiu perceber o que se passava, pareceu-me que estava literalmente a apanhar bonés. Não prescreveu análises para despistar os motivos do estado inflamatório que eu pensava que era o objectivo. Pelo contrário, mandou fazer RX ao punho, com urgência. Não creio que um RX apanhe a inflamação na articulação e despiste a origem da inflamação que, cá para mim, não está ali. Disse-me ainda que depois, com o resultado, marque uma consulta com o médico de família pois ele é que dará seguimento ao que houver a fazer.

Saí da consulta a pensar que mais valia que tivesse ficado em casa, com gelo e de braço no ar. Mas, pronto, tentei marcar a dita consulta. Só há vagas para o fim de Janeiro. 

Depois, pus-me ao telefone para tentar marcar o RX através do SNS. Só encontrei duas clínicas com acordo com o SNS para RX mas só teriam vaga para muito depois, ou seja, quando esta inflamação tiver passado (pelo menos assim o espero).

Marquei para uma clínica privada, claro.

Depois, se vou estar 4 meses para ir mostrar o rx ao médico de família ou se antes me viro para o lado privado, logo vejo.

Com isto tudo, ainda estou na mesma, a escrever só com a direita, a esquerda inchada, dolorosa, ao alto.

Conclusão: isto que tenho, apesar de me estragar o bem-estar, não é nada de vida ou de morte. Mas, bolas, e se fosse? É assim que estas coisas estão a funcionar no SNS? Se é, só posso recomendar que ninguém se acidente ou adoeça. Caraças.