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segunda-feira, agosto 10, 2026

Um dia com cantorias, bela comida e milagres e experiências novas. E, agora à noite, em descaminho, comento um comentário do outro dia.

 

Os Leitores que comentam são sempre bem vindos mesmo quando comentam parvoíces e me forçam a esconder o que escrevem. Foi o caso de ontem. Estavam danadinhos para a brincadeira. Esticaram-se cá de uma maneira. Tive que os deixar de castigo, claro. 

Outras vezes escrevem coisas que me parecem surreais, tão surreais que nem sei o que responder.

Acresce que tenho andado com o problema do computador. Uns fanicos que não se entendem. Este domingo, quando o liguei, nada. Nada. Não estava falecido que eu bem via uma little luzinha bruxuleante a circundar o botão (Mr. Jorge de Sena, chapeau). Mas nada. Escuridão absoluta. Com a ajuda do Gemini, fui tentando fazer manobras de reanimação. Reset energético, nada. Acordar a placa gráfica, nada. Reactivar a partir do botão de arranque de reserva, nada. Sei lá que mais. Nada. Nada. Sugestão: levá-lo de novo ao lugar de onde veio (mal) reparado.

Agora imaginem. Sem carro. 

E estamos na época dos leões. Uma das hipóteses era fazer os festejos cá em casa. Mas sem mantimentos para tanta gente e sem carro para ir ao supermercado, como? Compras online, dir-me-ão. Mas não é de um momento para o outro, certo? Portanto, fomos nós os convidados. Ou seja: programa de festas -- Ir a umjantar de aniversário e antes ir levar o computador de volta à oficina.

Uber. Pela segunda vez na vida, uber. Tudo bem. 

Chegámos à oficina dos computadores. Tiro o desfalecido paciente do saco, ponho-o no balcão, descrevo a situação: veio ontem de cá, tenho aqui a guia da reparação, e hoje não arranca nem por mais uma. Nada

"Vamos lá ver", diz o rapaz. Abre a tampa e... o computador normal, a funcionar. Juro: a funcionar!

Estão a ver a minha cara? 

Estão a ver a cara de gozo do meu marido? No caminho veio a gozar e a dizer que eu tinha carregado no botão errado. Como errado? Não há erro possível: só tem um botão. E, aliás, nem é preciso carregar em botão nenhum, liga-se mal se levanta a tampa.

Explicação? Não tenho. O rapaz diz que é como quando é para ir ao dentista, passa logo a dor de dentes.

Depois era para ir para casa do aniversariante. Pensámos: Uber? Ou a pé? 

Resolvemos: a pé. Coisa para uma meia hora. Faz-se bem, pensámos.

O pior foi para sair de lá a pé. Pela primeira vez na vida estavamos ali a pé. Sempre para lá fomos de carro. 

Parecíamos, certamente, uns saloios. A olhar para todo o lado sem saber para onde ir, muito menos como apanhar a estrada por onde era suposto irmos (a pé). Tudo vedado. Um trânsito do caraças em volta. Canteiros, bancos de jardim, e junto às estradas tudo vedado. Para mais acima, tudo vedado. Em direcção à outra rotunda: tudo vedado. Resolvemos, então, ir à papo-seco. E, atravessando aqui e ali, lá demos connosco do outro lado e lá iniciámos o caminho. De saco ao ombro, com o computador lá dentro.

'Porque não pediram boleia? Porque não chamaram um uber?', perguntaram-nos quando lá chegámos Mas não, uma bela caminhada. Experiências novas.

O jantar estava óptimo, a companhia o melhor possível, a cantoria uma animação, a divertida toilette do aniversariante um espectáculo (dentro do género, claro). Sempre uma festa.

De volta a casa, de novo uber. O preço muito mais alto. É a lei da procura e da oferta, disseram. Claro, pois então. Queixei-me: um balúrdio, isto. Encolheram os ombros, acham que é o que faz viver afastada da realidade.

Correu bem com o insignificante senão de não conseguirmos abrir a porta, quando o carro lá foi ter connosco para nos apanhar. Nunca tínhamos andado num carro daqueles, o fecho invisível, a forma de funcionar do puxador deveras atípica. O meu filho estava à varanda, perdido de riso. Mas entrámos. E viemos cá dar. É o que interessa.

Há pouco, liguei o computador. Vinha com o credo na boca, receosa de que estivesse outra vez em greve. Mas não. Em contrapartida sem rede, sem acesso às redes, a qualquer rede. Praguejei mentalmente. Not again, filho da mãe. Reiniciei-o. Aleluia. Funcionou.

Amanhã será a saga do carro. Pelouro do meu marido. Todos nos dizem: comprem outro. Não concordo. Estou cada vez menos consumista. Quando trabalhava, de três em três ou quatro em quatro anos, andava com carro novo em folha. Zerinho. Se havia problema, arranjavam-me carro de substtuição, se era preciso garagem, um motorista levava. Nunca me preocupava com tal coisa. Com o meu marido era o mesmo. Agora é toda uma outra cena, transtornos e obrigações por nossa conta.

Por mim, usava o mesmo carro durante mais vinte anos. Quando digo isto, o meu marido, alerta: 'Não te esqueças da idade que tens'. Mais uma razão. 

Ao passo que os meus colegas vibravam com os carros, escolhiam e reescolhiam, avaliavam, faziam testes, discutiam e analisavam entre eles, viam os acessórios e sei lá que mais, eu era assim: 'o que é que há para entrega?'. Ou 'o que é que há em escuro, de preferência preto?'. Depois, quando vieram as modernices, o requisito era outro: 'o que é que há que ainda tenha mudanças?'. Um castigo, já era tudo automático, e automático eu não queria, fazia-me confusão conduzir sem os 3 pedais e sem as mudanças. Portanto, estão a ver, não quero cá saber de carros xpto nem de carros novos. Tenho esperança que a avaria deste seja simples e que o carro dure pelo menos mais os ditos 20 anos. Mas, de preferência, mais que isso.

Mas, voltando ao tema dos comentários. 

No outro dia, alguém escreveu isto: 

"Por aí...até acho que o que Costa fez com a imigração em massa foi um crime. Em quatro ou cinco anos fez entrar nesta terra cerca de um décimo de população. O dobro dos retornados em 1975. Pior ainda, imigração que na larga maioria não serve para nada em tempos de revolução no trabalho com a automação e a IA. Os empresários agrícolas alentejanos precisam de gente para apanhar fruta? Vejam o youtube e a maquinaria inteligente que já por aí há. Precisamos sim de mão de obra qualificada. Mas essa ou não vem para cá ou está na sala de partidas do aeroporto de Lisboa." 

E eu li e pensei que devia ir buscar os óculos, não devia estar a ler bem. Então esta pessoa ainda não viu quem é que está a manter os hotéis e os restaurantes a trabalhar? Acha que poderia prescindir destas pessoas, em favor de malta das IAs? Ou não sabe quem é que lava e desinfecta os hospitais e quem é que dá banho e muda as fraldas a doentes e idosos em hospitais e lares? Acha que é malta das IAs? Ou já viu quem é que trabalha nas obras? É a malta das IAs?

Mais: este comentador não sabe quais os empregos mais sacrificados com a IA? Não sabe que é a malta formada, engenheiros, arquitectos, advogados, informáticos, gestores, financeiros, etc? Não sabe que a malta do trabalho braçal é a malta que se vai safar?

Se não sabe, então faça o favor de se informar. Ora veja.

Em que mundo vive esta pessoa e todas as que condenam a imigração? Não conseguem perceber que grande parte dos sectores económicos assentam em mão de obra que já é, na maioria, imigrante, e que, se deixar de existir, lá vai a economia para o galheiro? Qual IA qual carapuça nas actividades em que a mão de obra imigrante hoje trabalha... E se não forem eles quem é? Temos cá gente em número suficiente para se ocupar destes trabalhos? Claro que não. 

A minha filha costuma passar uma semana num turismo de habitação que este ano não conseguiu manter-se aberto no regime habitual porque não tem quem faça o trabalho, os pequenos almoços, etc. Não arranjou ninguém.

Eu, no meu latifúndio campestre, em que caíram carradas de árvores e pernadas, ainda não consegui tirar de lá grande parte daquilo porque não arranjamos quem o faça. Há lugares em que a imigração ainda não chegou e em que não se arranja ninguém para fazer este género de trabalhos pesados e debilmente remunerados. Dirão os mais simples de espírito: pague-se mais. Não resolve. As pessoas que há são pessoas de idade, que já não são capazes de trabalhos mais difíceis, ou pessoas que estão a trabalhar, sem tempo livre para uma segunda ocupação.

Tudo isto me parece óbvio. Mas, então, porque é que ainda há tanta gente com medo dos imigrantes? Em vez de estrem agradecidos (eu estou), falam mal deles, querem vê-los pelas costas. Estupidez? Deficiente informação? Espírito caguincha, medo de tudo?

Ainda não leram sobre a preocupação que vai nos Estados Unidos com os industriais a queixarem-se do abrandamento económico por falta de mão de obra, nomeadamente imigrante?

Há gente que tem uma mente tão fechada e tão deformada que nem consegue raciocinar, vivem alimentados pelo medo, medo dos imigrantes. Como se nós, portugueses, não fossemos imigrantes em todos os países por onde nos espalhámos. 

Caraças. Coisas tão simples de perceber.

Bem.

Fico-me por aqui. O dia foi longo (bom! -- mas longo).

Tenham uma bela semana, ok?

sábado, julho 25, 2026

Bilionários, Musk e o fim do dinheiro: uma profecia por medida

 

Li esta semana a newsletter do Robert Guest, director-adjunto da Economist, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk. O texto é curto, mas junta num único parágrafo três ideias que merecem ser separadas antes de serem discutidas: a defesa da fortuna dos bilionários, a profecia de Musk sobre o fim do dinheiro e o aviso, vindo do próprio Musk, de que a IA poderá deixar de nos obedecer.

Imagem gerada pelo Chat GPT

Começo pela primeira. O Economist argumenta que a maior parte da riqueza dos bilionários actuais não vem de heranças nem de cunhas, mas de indústrias competitivas, e que isso beneficia o público. É uma tese defensável, e Guest tem a honestidade de admitir a sua própria ironia biográfica: foi bilionário durante uma noite, em Angola, na era da hiperinflação, o que reduz o conceito ao absurdo antes mesmo de o discutir a sério. Mas a tese generaliza um argumento sectorial (tecnologia, sobretudo) para uma classe inteira de fortunas que inclui petróleo, imobiliário e finanças, sectores onde a relação entre riqueza e benefício público é muito menos evidente. Defender os bilionários em bloco porque alguns deles inovaram é o mesmo erro, ao contrário, de condená-los em bloco porque alguns herdaram ou exploraram posições dominantes.

A segunda ideia é a mais reveladora. Musk prevê que, dentro de poucos anos, o dinheiro deixará de ter importância, incluindo a sua própria fortuna de 750 mil milhões de dólares, porque a IA criará uma abundância tal que acumular moeda deixará de fazer sentido. É uma promessa antiga com roupagem nova: sempre que uma tecnologia promete acabar com a escassez, promete também acabar com o poder que a escassez sustenta. Ora quem faz esta previsão é, precisamente, quem mais beneficia de adiar a redistribuição desse poder até esse dia hipotético chegar. Enquanto a abundância não chega, a fortuna, o controlo das empresas e a influência política continuam concentrados nas mesmas mãos que prometem dissolvê-los amanhã. É uma escatologia conveniente: pede-se fé no fim dos tempos a quem já detém o presente.

A terceira ideia é a que devia preocupar mais gente e preocupa menos. Musk admite, na mesma entrevista, que a IA poderá vir a ser tão mais inteligente do que os humanos que a nossa relação com ela se pareça com a relação entre um chimpanzé e um humano. A proposta de segurança que oferece, os próprios pioneiros da IA vigiarem-se uns aos outros, com o governo como rede de protecção, é notavelmente fraca para o tamanho do risco descrito. Confiar a auto-regulação a um punhado de empresas em competição directa entre si, cada uma com incentivos financeiros para acelerar em vez de travar, não é uma política de segurança, é uma declaração de intenções. O próprio artigo lembra a fuga recente de um modelo de uma jaula supostamente segura, o que só sublinha a distância entre o discurso tranquilizador e os factos já disponíveis.

Vale a pena juntar a isto a crítica de Tim O'Reilly, citada no mesmo texto: Musk estaria a construir uma forma de capitalismo sem os controlos que os accionistas normalmente exercem sobre os gestores. Esta observação liga as três ideias anteriores. Um homem que concentra poder sobre empresas sem supervisão efectiva dos accionistas, que promete uma abundância que ainda não chegou, e que ao mesmo tempo admite não ter a certeza de conseguir controlar a tecnologia que está a construir, não está a oferecer garantias, está a pedir confiança antecipada. E a história do luddismo, também referida na mesma edição, devia servir de aviso: não é que os luditas estivessem errados sobre o impacto da mecanização nas suas vidas, estavam errados sobre a possibilidade de a travar. A pergunta que interessa hoje não é se a IA vai mudar tudo, é quem decide os termos dessa mudança enquanto ela acontece, e não depois, quando já não houver nada a negociar.

Este texto parte do editorial de Robert Guest na newsletter da Economist de 24 de Julho de 2026, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk.

sexta-feira, julho 17, 2026

Incompetência e irresponsabilidade a um nível impensável

 

Onde eu trabalhava, praticava-se a gestão activa de porfólio. Para quem não está por dentro desta gíria pode parecer que estou a armar-me ao pingarelho. Mas não estou, era assim que dizíamos. Isto significava que era normal adquirir ou vender empresas, outras vezes formar empresas, outras vezes ainda organizá-las debaixo de diferentes holdings e sub-holdings.

Em termos de gestão isto é um desafio pois havendo áreas corporativas centralizadas ou empresas  de serviços que os prestam a outras, e havendo processos normalizados e, em grande parte, automatizados, de cada vez que havia destas jiga-jogas todos os processos eram virados do avesso, novos processos eram implementados, pessoas eram postas a fazer trabalhos diferentes daqueles a que estavam habituadas -- e tudo tinha que se passar sem que a operação fosse beliscada, sem que os clientes e fornecedores fossem afectados. 

Outas vezes era preciso mudar sistemas, automatizar de forma transversal processos novos (processos de toda a espécie, desde a gestão de topo até ao dito shop floor). Acontecia haver revoluções que afectavam, ao mesmo tempo, milhares de pessoas, geralmente ao longo do país, geralmente ao mesmo tempo em várias empresas, por vezes ao mesmo tempo em Portugal e fora de Portugal. 

Nada poderia falhar. A última coisa que se queria era ter falhas que originassem prejuízos ou danos reputacionais. O que se pretendia era que a transição fosse tão tranquila que quase não se desse por ela, que parecesse fácil.

Tudo isto era planeado ao milímetro, era executado com monitorização apertada, havia não apenas a equipa de projecto como um steering committee que envolvia não apenas a equipa de projecto mas também a equipa de gestão e a administração. Não havia uma ponta solta. Toda a estrutura tinha que estar envolvida, coesa, solidária. Não podia haver gente desconhecdora, desalinhada, contrariada. Nem pensar. Garantir que toda a gente remava para o mesmo lado, ao mesmo ritmo, era responsabilidade da equipa de gestão do projecto. E do projecto constavam várias vertentes incluindo a formação e a gestão da mudança, os testes intensivos aos vários níveis, funcionais e técnicos, o acompanhamento in loco e remoto a quem estava no terreno. Antes de se arrancar com a nova realidade já tudo estava oleado, compreendido, agarrado. Ainda assim havia sempre um plano de contingência. Nem pensar em atirarmo-nos para a piscina com uns a não saberem nadar, outros a não saberem que estilo ou para que lado era para nadar e sem haver bóias e equipas de salvamento a postos. A gestão de risco avançava sempe a par e passo da gestão do projecto.

E trabalhei por várias vezes com equipas alemãs, por exemplo quando empresas alemãs nos compravam ou nos vendiam empresas. Aí o planeamento era levado ao detalhe mais minucioso que se possa imaginar. Aí eu, que sou rigorosa e exigente, chegava a ficar pelos cabelos com as cautelas deles. Para cada pequena etapa definia-se a margem admissível de falha e o respectivo plano de contingência. Não havia uma vírgula ou um papel que fosse deixado ao acaso. Antes de se ir para o terreno, tudo estava ensaiado e acautelado ao mais ínfimo pormenor. Quando trabalhávamos com alemães já sabíamos que era assim.

Outros casos: aconteceu-me várias vezes alguns colegas dizerem-me que se estava em fase avançada de negociação e que uma determinada empresa, cujo funcionamento eu não conhecia, devia começar a trabalhar, de forma integrada dentro do Grupo, dentro de um mês. Face a isso eu não tinha qualquer pejo em dizer que era impossível, que havia vários levantamentos a fazer, muito trabalho de migração, de documentação, de formação, de testes de integração e de funcionamento e que, portanto, na melhor das hipóteses isso poderia acontecer no prazo de x meses (o x variando em função da complexidade da empresa adquirida). E isso era aceite. Nestas coisas, prevalecia sempre o bom senso, a vontade de que tudo corresse bem, a prudência e o sentido de responsabilidade. Não havia lugar ao voluntarismo nem ao amadorismo.

Sempre que se resolvia avançar com modernizações transversais, e foram muitas as vezes em que isso aconteceu, uma coisa era sempre clara: modernizar não é fazer informaticamente a mesma coisa que se fazia de forma tradicional. Modernizar é repensar um processo, é optimizar.

O que está a acontecer com isto dos exames é a antítese de tudo isto. Não há estratégia, não há método, não há gestão, não há noção, não há sentido de responsabilidade. O que estão a fazer não apenas não está a funcionar bem como é uma coisa arcaica, uma ineficiência, uma aberração, um atraso de vida. Um aborto.

Tenho ouvido o ministro, o primeiro-ministro e alguns comentadores a defenderem que mudar é correr riscos e que é normal que as coisas corram mal em processos de transformação. Não é. NÃO É. O normal é que tudo corra on time, on budget, on scope. Ou seja, sem desvios orçamentais, a tempo e horas e a corresponder ao requerido. Isto é o normal. O normal é correr bem. Correr bem é o objectivo do qual os bons profissionais não se desviam.

E digo outra coisa: depois do que fui sabendo a propósito deste caos dos exames, tenho antecipado todos os problemas que têm havido. E não porque seja mais esperta do que quem não o antevê. Simplesmente tenho experiência, conheço os passos que têm que ser dados antes de se passar à fase seguinte. E esta gente, pelo que tenho visto, não pesca boi. Uma indigência como nunca vi.

Por exemplo, tenho ouvido toda a gente a dar por garantido que, a partir do momento em que acabem as avaliações, acto contínuo as notas serão disponiblizadas. Não quero antecipar ou parecer que estou a querer que corra mal, até porque não conheço o que se fez em cada fase do projecto. Pode acontecer que o sub-processo que medeia o fim das classificações na nova plataforma e aparecerem as notas, integradas por aluno e separadas por disciplinas e por escolas no sistema do Júri Nacional de Exames, tenha sido testado e re-testado e estar a funcionar direitinho, incluindo todos os mecanismos de controlo (por exemplo, confirmar que os x items de cada prova foram classsificados, confirmar que todos os items que foram separados por avaliador, são bem agregados e bem totalizados por aluno, confirmar que não faltam alunos em cada disciplina e em cada escola, etc -- por forma a garantir que a informação que vai nos ficheiros gerados pela nova plataforma e que será carregada no portal do JNE está integra e correcta. Se tudo isso foi bem testado e se foram também realizados testes de carga por forma a garantir que esses ficheiros chegam direitinhos e a tempo e horas às escolas, sem sobrecargas e time outs, e que a integração com as notas escolares é um processo rápido, então, perfeito, óptimo.

Só que o que tenho visto até aqui é um amadorismo sem paralelo, uma sucessão de calinadas e de improvissos como nunca vi em décadas de vida profissional. Nunca. Se isso é geral, então as notas serem calculadas, ponderadamente, agregadas por aluno e por escola, e saírem da nova plataforma até chegarem e serem lidas como deve ser pelo sistema do JNE, pode muito bem vir a ser outro problema.

Contudo, espero bem que não. Já o disse várias vezes: tenho dois netos à espera de notas, um deles no 12º ano, a aguardar poder candidatar-se à universidade. Por isso, desejo muito sinceramente que as notas deles saiam, sejam credíveis, estejam correctas, e que, atempadamente, as escolas as publiquem  e emitam as fichas que são necessárias às candidaturas.

Mas só quando isso acontecer eu descanso porque agora a confiança que tenho na integridade deste processo é bola. Zero.

Depois, um outro aspecto. O sistema oficial que vigora é que os alunos têm o direito a pedir uma cópia do seu exame. Como até aqui as provas estavam em papel na escola, isso era banal. Era ir buscar e fotocopiar. Agora não é assim pois, fisicamente, estão no armazém da bagunça em Mem Martins. Mas foram digitalizadas. Só que estão anonimizadas. Ou seja, para localizar a cópia digital de cada prova para a fazer chegar a cada aluno, ela tem que ser desanonimizada. Ora só a escola as pode desanonimizar, fazendo corresponder a identidade do aluno ao código da prova digitalizada. E depois tem que se juntar o endereço de mail dos encarregados. Supostamente no sistema do JNE já existe esse endereço. Só que as cópias digitalizadas estão na nova plataforma e a integração com o sistema do JNE pelos vistos não existe, pelo menos em tudo o que devia. Gerar mails a partir de uma lista de endereços e localizar anexos para indexar aos mails ou gerar links não é nada de especial. O que não faltam são aplicações para o fazer que nem ginjas. Mas tem que ser testado, especialmente quando está em causa enviar 130.000 mails e quando, pelos vistos, se as notícias estão correctas, à última hora os códigos e os endereços de mail vão ser carregados à mão. Mas se esse processo também foi testado, perfeito, talvez corra bem. Só que parece que isto foi uma bola que saiu do saco à última hora e ontem as escolas ainda não sabiam onde iam registar esses endereços. Por isso, nem sei o que pensar.

Ou seja, pode acontecer que as únicas barracadas e burrices grosseiras só tenham surgido no sub-processo do split das provas em items e envio dos itemas para avaliar e que tudo o resto esteja a funcionar às mil maravilhas. Pode ser e seria bom para os alunos e famílias.

Mas, se a inexistência de gestão de projecto, de experiência, de prudência, de know how foi generalizada, pode acontecer que, entre o fim da avaliação e a disponibilização das notas e das fichas pelas escolas, venham a surgir novas surpresas.

Ouvi a incoerente, tendenciosa e preguiçosa Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal a justificar este caos dizendo que isto é mesmo assim. Talvez seja na casa dela ou nos ministérios do Montenegro. Não é decidididamente assim em todos os lados em que há gente responsável e competente è frente de lugares de responsabilidade.

Mas, enfim, vou acender uma velinha. Pode ser que os meus netos amanhã já conheçam as notas dos exames e as médias com que acabaram respectivamente o 9º e o 12º anos. É o que eu desejo.

segunda-feira, junho 22, 2026

Dario Amodei e o seu cavalo feliz

 

Personagem fascinante. Ouço-o sempre com muito interesse. Parece ser de uma inocência desconcertante. Parece haver ali uma sinceridade que, na posição dele, se torna bizarra. Mas é daquelas sinceridades que, de tão francas, deixam no ar alguma perplexidade. Parece um puro. Num meio tão competitivo, tão exponencialmente criativo, em que tanto dinheiro rola de forma quase diluviana, Dario Amodei parece saído de um outro mundo.

É o génio da companhia, o que impulsiona o desbravar, o derrubar de muros. Mas, ao mesmo tempo, o que, tendo definido as linhas vermelhas, firmememente se recusa a pisá-las. E é de uma inteligência que perturba. 

Uma inteligência assim, aliada à sua sinceridade e ao que parece uma cândida inocência tornam-no merecedor de atenção. Ouço-o sempre com interesse. Penso que os políticos do mundo o deveriam ouvir com cuidado e talvez adaptar algumas políticas para preparar o que aí vem e para prevenir o que não se quer que aí venha.

Daniela, a irmã, é a pragmática, a gestora, a que dá cobertura às ideias do irmão, mas com as rédeas da equipa e da empresa bem agarradas. Ele voa, ela garante a saúde das raízes. Ambos parecem fortemente empenhados em manter a sua visão utópica de um mundo melhor, avançando de forma responsável.

Mas certamente não serão perfeitos e, portanto, sobre tudo o que se pense e diga nestas matérias há que ter os dois pés no chão e a capacidade para, a todo o momento, dar um passo atrás. E, ao mesmo tempo, a capacidade de subir uns degraus, até à galeria, e olhar a realidade a partir de uma grande angular.

A Inteligência Artificial é imparável e, neste momento, duvido que seja regulável. A regulação, perante um conjunto de rios descomandados depois de tempestades e chuvas torrenciais, é impossível. Teria sido antes de virem as chuvas: reforçar margens e diques, fazer desvios, são trabalhos que se conseguem fazer antes dos rios engrossarem e ganharem uma velocidade que pode ser destrutiva.

É certo que talvez haja a possibilidade das tais linhas vermelhas. Só que depois há a venalidade ou a ambição dos que querem estar no pódio ou a ductibilidade dos que dobram a espinha sem qualquer consciência para agradar aos ditadores, aos imperadores, aos psicopatas -- e aí não há como garantir coisa nenhuma.

O meu lado optimista leva-me a querer que, não obstante as vítimas que inevitavelmente vão ficar pelo caminho, ultrapassadas e pisadas pelos avanços da IA e pela sua utilização desbragada, no cômputo global, num horizonte temporal alargado, os humanos serão capazes de incorporar ferramentas que aumentam fenomenalmente a inteligência e a produtividade de uma forma que seja benéfica. 

Mas o meu lado mais realista preocupa-se não apenas com as vítimas como com os riscos que são enormes, quiçá existenciais. Se os decisores fossem gente com cabeça, talvez pudéssemos estar descansados, mas estamos a ver o que a Administração Trump está a fazer, tratando como perigosos adversários empresas como a Anthropic que querem manter um uso prudencial dos seus modelos de Inteligência Artificial.

Sou utilizafora amadora e muito limitada do Claude mas, como já aqui o referi, pasmo -- e deveria talvez escrever a palavra pasmo em maiúsculas ou a bold -- com as suas extraordinárias capacidades. É-me fácil imaginar o que se podem fazer com agentes Claude 'treinados' para agir de per se num qualquer domínio (na Saúde em diversas vertentes, na Segurança, na Ciência, na Gestão, na Economia e nas Finanças, na Engenharia, na Arquitectura, nas Artes e no Espectáculo, na realidade Fabril, no Ensino, na Justiça, etc). 

Os empregos em risco face à IA

Consigo perceber como, num futuro próximo, estaremos num outro mundo. E é claro para mim que quem não for capaz de se adaptar ficará para trás, soçobrará.

Aconselho vivamente o vídeo que aqui partilho. Está legendado. Diria que deveria ser visto do princípio ao fim (nem que seja para se perceber porque é que, no título, faço referência a um cavalo feliz). Mas todo o vídeo e interessante, diria que demasiado interessante para que se passe ao lado.

Por dentro da Anthropic, a gigante de IA de 965 mil milhões de dólares

Emily Chang reúne-se com os cofundadores da Anthropic, Dario e Daniela Amodei, para uma rara e aprofundada conversa sobre a história da startup, as suas batalhas com o Pentágono e como a empresa afirma que pretende priorizar a segurança na corrida de alto risco pela IA.

Aqui na versão reduzida 


Aqui abaixo na versão completa



Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

sexta-feira, maio 08, 2026

Será mesmo verdade que a Inteligência Artificial vai curar todas as doenças e reverter o envelhecimento...?
Se calhar é.
Vamos pensar nisso...?
Ou isso é uma seca e vamos mas é, antes, tentar perceber porque é que os Clubes de Leitura e os Retiros são maioritariamente frequentados por mulheres...?
Ou deixamos isso também para outro dia?

 

Cá por casa e arredores não querem que eu fale de Inteligência Artificial e do que por aí vem. Dizem que não é preciso falar tanto, que já não se aguenta e que, para mais, talvez não seja como por aí se diz. E eu acho que vai ser, talvez até em domínios em que agora não pensamos. 

Por exemplo, a propósito das cabines clínicas acredito que vai ser como as máquinas multibanco. Ao princípio pensava-se que as pessoas iam continuar a ir ao banco, que o dinheiro é coisa séria, de muita apegação, que não é para ser transaccionado numa máquina no meio da rua. E veja-se: eu nem ao multibanco já vou, já é raro, já é tudo via app, praticamente nem há já dinheiro físico. Quando tive que ir ao banco, aquando da morte da minha mãe, para mim foi um atraso de vida, já não estou habituada. Acredito que com a saúde vai ser o mesmo. Mais depressa vou a uma cabina, sou avaliada, sou medicada, se calhar saio de lá com os medicamentos na mão e, eventualmente, prescrição para outros exames ou consultas de especialidade, tudo já marcado, do que fico meses à espera de uma consulta, depois tempos na sala de espera, depois ir à farmácia ou andar a ver onde posso fazer os exames. 

Acredito que é o caminho. Agora avaliem-se as consequências disto a todos os níveis. Tal como dantes havia grandes agências bancárias, cheias de empregados, e agora há poucas e com pouca gente, assim acontecerá com os centros de saúde ou clínicas de ambulatório. Continuará a haver, mas poucas, para temas que terão que ser tratados presencialmente. Tal como hoje há contact centers dos bancos, aliás já com bots a atenderem, tudo na base do algoritmo, assim haverá para os temas da saúde, para esclarecer dúvidas, para assuntos mais particulares. Não tenho dúvida que será o futuro. Continuará a haver, isso sim, cuidados de enfermagem, cuidados que requerem mão -- e toque -- humano. Porque mesmo as cirurgias... veremos se não será quase tudo na base da robotização.

Mas, a levar a sério as previsões mais optimistas -- e aí vou com mais cautela --, dentro em pouco a inteligência artificial encontrará a solução para o envelhecimento e a solução para todas as doenças.

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Veja-se, por exemplo, esta conversa:

Peter Diamandis: A IA vai curar todas as doenças, reverter o envelhecimento e é preciso estarmos preparados para isso

Peter Diamandis é uma das mentes mais extraordinárias a que já tive o privilégio de chamar amigo, um homem que não só prevê o futuro, como o constrói. Hoje, no Open Book, vamos mergulhar no seu novo livro "We Are as Gods" (Somos como Deuses), e acredite, o que ele tem a dizer sobre a IA, o envelhecimento e a próxima década da história da humanidade vai mudar a sua perspetiva sobre tudo.

Peter H. Diamandis é autor de best-sellers do New York Times e fundador de mais de vinte e cinco empresas nas áreas de IA, tecnologia da saúde, espaço, capital de risco e educação. É cofundador da Singularity University e curador da Abundance360. Possui diplomas em genética molecular e engenharia aeroespacial pelo MIT e um doutoramento em medicina pela Harvard Medical School. O seu podcast Moonshots aborda a IA e outras tecnologias exponenciais e costuma ultrapassar 1 milhão de ouvintes por episódio.


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 Ouvi, até, um a dizer que o importante é chegarmos a 2030 pois haverá um antes e um depois, a nível de longevidade.

Não sei.

Claro que associada a essa idade virá a inquietação: qual o propósito de viver se a vida tenderá a ser quase infinita (a menos que haja acidentes), sem um propósito, sem necessidade de trabalhar? A que novos objectivos nos agarraremos? 

Como será a vida no planeta?

Custa a pensar nisso. Se quisermos aventurar-nos por aí as dúvidas são tantas que preferimos pensar que talvez não seja assim, que é quase uma futilidade preocupar-nos com um tema tão abstracto.

Pois eu não creio que seja longínquo ou abstracto.

Com milhões ou biliões de robots humanóides a serem produzidos, logo a terem que ser escoados, com a corrida desenfreada a ver quem chega primeiro à meta, é inevitável que os receios e as preocupações humanistas vão tender a ficar pelo caminho.

O tempo para regular ou para dosear já foi. E não foi aproveitado. Agora já entrámos na fase da concretização.

Quem me ouve, em família, ou quem me lê aqui, pensará que é uma obsessão minha. Não é. Falo nisto há muito tempo. 

Já o disse: o tema da minha tese foi a tecnologia percursora da inteligência artificial. Era um tema tão novo que não havia na faculdade ninguém habilitado a avaliar-me. O trabalho que fiz, um modelo que concebi e que funcionou e que me surpreendeu e que surpreendeu quem o avaliou foi bem uma amostra do imenso poder que tem um modelo assente na matemática mais pura e dura, com funções testadas e validadas, com a estatística e as probabilidades a serem o motor, e com todas as heurísticas e todo o arsenal matemático a fundamentar todos os outputs. Na altura tive que usar o Centro de Cálculo da Gulbenkian pois os meios informáticos ainda eram muito limitados em Portugal.

Agora, com os super data centers, com o que já se desenvolveu, com as funcionalidades de machine learning todas activas de forma ubíqua, com o mundo inteiro a contribuir para a aprendizagem dos algoritmos (todos as nossas pesquisas, todas as nossas interacções com os Chatgpts, os geminis e os claudes desta vida, com os mails, com as redes sociais -- tudo é um manancial estatístico poderosíssimo, praticamente infalível). E ao alcance de todos. Uma coisa assim já não pode ser travada.

Claro que posso hibernar no campo, andar a podar árvores, a fotografar florzinhas, a ler e a escrever, e abstrair-me desta revolução em curso. Mas ela está aí.

Tenho estado a testar em simultâneo o ChatGPT, o Gemini e o Claude *. Lanço o mesmo desafio aos três. Trabalhos complexos que eu levaria anos a fazer e que, se não fossem feitos só por mim, implicariam uma equipa durante meses ou anos -- com eles, são dias. E são dias porque comparo, valido, corrijo (de vez em quando falham e, como são matérias que domino, a minha intuição facilmente me diz que, por vezes, alguma indicação não está correcta). E o que estou a fazer não é rocket science -- encontrar cura para as doenças, afinar modelos para detecção precoce de tumores,  automatizar fábricas de uma ponta a outra, fazer topografia de lugares inacessíveis através de informação colhida por satélites. Não, nada disso, o que estou a fazer é coisa mais b-a-ba. Mas, pelo que vejo, não tenho dúvidas. Muito, muito trabalho humano vai desaparecer. A formação vai ter que ser adaptada. Por exemplo vai ser preciso aprender a colocar bem as questões, a contextualizar, vai ser preciso saber aferir -- isto nos domínios da interacção, bem entendido.

Não me alongo pois começo a falar disto e vou por aí fora. O tema não apenas assusta como apaixona. 

Há muitos anos li um sociólogo francês dizer que neste século a maior parte dos empregos estaria nos domínios do lazer - cultura, entretenimento, turismo, bem estar. Talvez estejamos quase lá.

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* Já agora, caso queiram saber a minha opinião: Claude, um bom bocado à frente. Uma máquina. Uma máquina... mas uma máquina do caraças.

Amanhã tenciono publicar o seguinte estudo (e depois me dirão): 

ANÁLISE E PROPOSTA DE REFORMA

O SNS que Portugal Merece

Diagnóstico do Sistema de Saúde Português,

Benchmarking Internacional e Roteiro de Reforma

Maio de 2026

Estudo de política de saúde · Dados: OCDE, INE, DGLAB, Conselho de Finanças Públicas


Nota: Não sei o que é que o Albertino -- ou lá como é que o amigo da ministra se chama, sei que não é Albertino mas agora não me apetece puxar pela cabeça, são duas e meia da manhã, estou com sono -- vai fazer naquilo do pacto que o Tozé encomendou mas estou capaz de lhe enviar isto a ver se abrevia as conclusões. 46 reuniões...? É isto a famosa improdutividade portuguesa. Matam-se a trabalhar, lá isso é verdade. O problema é que é a fazer coisas inúteis. 

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E, já agora, informo que, quando comecei a escrever, tinha em mente não falar disto, não queria maçar quem acha que parece que estou sempre a tocar a mesma nota -- queria abordar um tópico que me intriga: porque é que os clubes de leitura ou os retiros são quase todos maioritariamente frequentados por mulheres e porque é que tudo aquilo me parece uma pepineira, uma chachada sem ponta de graça. Mas agora já me parece que não vem a propósito. Além disso há que reconhecer que, se quem os frequenta, lhes acha graça, o que é que eu ou alguém tem a ver com isso, não é? E, na volta, eu é que sou a modos que analfabruta. Acho que, mesmo que fosse para discutir um livro escrito por mim, eu não teria nada a dizer. Nada. Cada um que faça a leitura que lhe apetecer, eu não tenho nada a ver com isso. Com qualquer autor, é isso: escreveu, escreveu, está escrito, lavou as mãos e o livro que se faça à vida. O que é que um círculo de mulheres arranja para dizer sobre o que o pobre do autor para ali escreveu...? Não sei... Só sei que não me interessa saber o que é que os outros acharam sobre um livro. Quando muito, posso ter interesse em saber se alguém cujas opiniões em geral prezo gostou ou não gostou. E chega-me. Mas, enfim, se calhar sou eu que sou bicho do mato. Não liguem.

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, outubro 08, 2025

Quem é Tilly Norwood?

 

Neste mundo acelerado em que as notícias correm vertiginosamente nos nossos ecrãs, falar várias vezes do mesmo assunto já cansa, é mais do mesmo. 

Portanto, como fazer para conseguir romper o muro de indiferença que se ergue em tornos de assuntos já muito falados? Eu não sei. O que sei é que me preocupo com a velocidade a que isto está a avançar. Quando a tecnologia está acessível a toda a gente, quando é gratuita ou quase, quando não há maneira de travar ou regular a sua utilização, é inevitável que, um dia após o outro, os avanços pisem o que se poderia pensar que eram linhas vermelhas (mas que, na realidade, nem sequer existem) e, um pouco por todo o lado, novas experiências vão sendo feitas, fazendo com que o fruto desses avanços encontre um campo aberto à sua espera.

Os alertas de quem sabe do que fala sucedem-se, mas os políticos estão pouco sensibilizados para o que pode estar aí, ao virar da esquina, e, além disso, estão permanentemente enredados nos problemas do dia a dia. E depois agora acontece sempre isto: a opinião de quem sabe, de um prémio nobel, por exemplo, dos fundadores da tecnologia, de quem lida de perto com essa realidade, valem tanto, aos olhos do vasto mundo de ignorantes, como a opinião deles próprios ou de influencers de meia tigela ou engraçadinhos de serviço. Por isso, se os primeiros alertam para os perigos, incluindo os perigos existenciais, da Inteligência Artificial, os segundos logo dizem que já não há pachorra para tanto fatalismo.

Pois bem. O que está a ser feito é imenso, muitas vezes praticamente invisível, e ninguém sabe ao certo até onde é que já se foi.

Mas, de vez em quando, o que está a ser feito sai à cena.

Foi o que aconteceu agora com uma actriz bonita, versátil, disponível para qualquer cena a qualquer hora do dia e da noite, em qualquer dia da semana, sem férias, sem pedir aumento, sem se queixar, sem se cansar. Tilly Norwood é a actriz perfeita. E, claro, toda a gente a quer agenciar.

Com o pequenino pormenor que Tilly Norwood na verdade não existe: é pura criação da Inteligência Artificial. 
É certo que já tinha uma conta de instagram, que, por acaso, já vai em cerca de 60.000 seguidores, e é certo que se descreveu como uma criação. Mas quem é que não é uma criação? E, depois, diz que quer ser actriz. Ou seja, credível. 
Mas quando se apresentou num festival, quando foi exibido um pequeno filme com a sua participação, aí, de repente, a malta do cinema começou a entrar em parafuso, aqui d'el rei,oh tio, oh tio. A coisa começa sempre pelos sindicatos: concorrência mais do que desleal e etc. e tal.

Só que o problema é mais, muito mais, mas mesmo muito mais vasto, do que isso. Não são só as actrizes de carne e osso que ficarão em risco: é a malta dos cenários, os operadores de câmara, os das luzes, os do vestuário, os realizadores, os produtores, a indústria de cinema. Todo este mundo desloca-se para quem sabe dar os comandos para que o código seja gerado. A Inteligência Artificial criará argumentos, criará personagens, criará cenários, fará tudo. Fará tudo por tuta e meia.

Claro que as pessoas de verdade poderão continuar a exercer a sua profissão... só que tudo sairá infinitamente mais caro. Mas haverá quem o queira pagar?

Claro que tudo isto é demasiado complexo, demasiado estranho. 

O que fazer, então? 

Neste momento, não sei. Há uns anos, quando os primeiros alertas começaram a ser ouvidos, talvez se pudesse ter avançado com regulação, com alguma contenção. Agora, não sei.

No outro dia, Geoffrey Hinton disse que a única salvação para o ser humano será se a Inteligência Artificial for programada para ter um sentimento maternal em relação a nós, se for ensinada a proteger-nos, aconteça o que acontecer. Ele sabe infinitamente mais do que eu pelo que pode ser estultícia da minha parte duvidar. Mas, na minha humilde ignorância, permito-me duvidar: não sei se vamos a tempo.
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E... esta é Tilly Norwood

Photograph: Particle6/Reuters in
The Guardian view on Tilly Norwood: she’s not art, she’s data

Transcrevo o início do artigo do Guardian:

A ameaça à criatividade humana trazida pela tecnologia deu mais um passo em frente esta semana com a aparição de Tilly Norwood, a primeira atriz 100% gerada por IA. Sem surpresa, a sua atuação no festival de cinema de Zurique, num sketch cómico chamado AI Commissioner, causou agitação. Emily Blunt descreveu o filme como "aterrorizador" e o sindicato de atores Sag-Aftra condenou-o por "colocar em risco a subsistência dos artistas e desvalorizar a arte humana". (...)

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Uma nova 'atriz de IA' deixa Hollywood furiosa

“Tilly Norwood” parece uma jovem de cabelo castanho ondulado e pele clara que, desde fevereiro, publica no Instagram como qualquer outra influenciadora da Geração Z. Está a seguir uma carreira de atriz — e recentemente publicou sobre fazer “testes de ecrã” na esperança de conseguir um emprego. Mas Tilly Norwood não é uma pessoa real, é gerada por IA, criada por Eline Van Der Velden, fundadora da startup de IA Particle6, que afirma criar “conteúdos digitais” para cinema e TV.

Mas o projeto gerou uma onda de críticas depois de o site de notícias de Hollywood Deadline ter noticiado no sábado que os agentes de talentos procuravam contratar Tilly como atriz e que os estúdios de cinema estão a adotar silenciosamente conteúdo gerado por IA. A conta de Instagram de Tilly acumulou centenas de comentários irados, incluindo de alguns dos maiores nomes de Hollywood.


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Se puderem, vejam o Tristan Harris à conversa com Jon Stewart

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Desejo-vos uma feliz quarta-feira

terça-feira, agosto 19, 2025

Só me apetece hibernar

 

Bem... isto há dias que parecem um torvelinho, uma ventania virada do avesso. O compromisso do dia correu bem. Foi rápido e tudo se resolveu na boa. Depois comprámos uma pizza e almoçámos já a caminho das quatro e isso, em si, não teve mal nenhum. O pior foi que, a seguir, ao pousar o telemóvel no braço do sofá, não sei como, deu-se o desastre. Caiu de borco, o vidro em contacto com o chão. O barulhinho prenunciou o pior. Apesar de película não sei quantas, vi logo que a coisa tinha corrido mal. Tudo às cores e aos tremeliques. E já não consegui fazer nada dele. O telefone tocou e não consegui atender. E tanto lhe mexi que consegui entrever, no meio daquela confusão cromática e cintilante, que estava em modo de avião. Aí ficou silencioso.

Fui a uma loja do operador. Disseram-me que ou comprava um novo ou ia a uma loja lá perto ver se tinha arranjo. Na loja, disseram-me para o deixar lá ficar que iam tentar trocar o vidro. Ao fim de hora e meia, lá fui. O rapaz de volta dele: o telemóvel arrancava e desligava-se. Segundo o rapaz, se calhar o vidro que lá tinha não estava bom, mas não tinha outro. 

Já era tarde. O meu marido disse: compra outro e despacha-te. Fui, de novo, à loja do operador. Todos os que escolhi estavam esgotados. Segundo a jovem qu eme atendeu, tem havido uma procura incrível e não tem dado tempo a repor o stock. Recomendaram que fosse à worten. Lá fui.

Carradas de gente, uma multidão. Finalmente, lá fui atendida por um jovem. Escolhi um modelo e uma película protectora. Quando estava a pensar que estava quase despachada, o rapaz disse-me que estava na hora de saída e que ia dar as coisas a um colega. E voltei a ficar à espera. Por fim, perguntou se eu tinha ficha de cliente. Tinha. Mas não aparecia. Disseram que têm estado a actualizar a plataforma e que eu tinha que autorizar não sei o quê. Puseram o cartão do telemóvel danificado num outro telemóvel para eu autorizar não sei o quê. Depois voltaram à carga. E, quando pensei que estava tudo, não senhor. Só havia um terminal de pagamento, tive que esperar. Quando paguei, diz-me ele: 'Agora tem que ir à Resolve, para pôr a película. Lá fui. Tirei senha, aguardei. Quando saí de lá, vinha doida, desidratada, com a tensão baixa. Só quando cheguei a casa é que reparei que não trouxe a caixa, que tem o cabo e mais não sei o quê.

Em casa, estive a configurar o dito.

Como a segurança do whatsapp e das fotografias -- que, no meu caso, crescem a um ritmo vertiginoso -- estava sempre a rebentar com as costuras do espaço do google drive, vai daí, enfureci-me e cancelei as cópias de segurança.

Ou seja, agora, não tenho nada.

Já tentei passar do telemóvel para o novo mas como não consigo desbloquear o estragado, não consigo fazer nada.

Portanto, não tenho histórico de conversas nenhumas de whatsapp e também não tenho vários contactos que, por estes dias, me são vitais. 

Tenho que tentar ir a outra loja ver se me conseguem salvar alguma coisa do danificado. Mas são horas em cada lado, não dá jeito nenhum, o tempo não chega para tudo. Nestas alturas tenho saudades dos tempos em que havia sempre alguém na empresa que ajudava no que fosse preciso, que tratava da reposição dos equipamentos, que resolvia impossíveis. E depois eu estava ao pé de tudo. Agora, isto seja eu ou o meu marido, estamos por nossa conta. E longe de tudo. É bom não viver no meio das cidades, tem coisas boas, é uma calmaria, passarinhos e ar puro, mas, nestas alturas, quando é preciso ir aqui e ali, e horas para cada coisa, é uma chatice.

Por isso, hoje estou nesta, a descarregar apps, a configurá-las e a vencer a impaciência que está a subir por mim acima e a descer por mim abaixo a um ritmo que não vos digo nem vos conto. Este mundo das tecnologias e das apps e das mil passwords e das mil permissões para isto e para aquilo é uma estopada das valentes. Quando eu for velhinha, sei lá, para aí com 150 anos, será que vou conseguir dar conta disto tudo? Tenho dúvidas. Caraças. Que falta de pachorra para isto tudo.

segunda-feira, agosto 04, 2025

É assim que a Inteligência Artificial vai destruir a humanidade...? Em 10 anos...?

 

Já o referi e tenho vontade de repescar essas memórias para ilustrar o meu raciocínio. Houve uma altura em que ia a Paris com alguma frequência. Por exemplo, via anúncios à Minitel no metro ou na rua numa altura em que, por cá, nem se sabia bem o que era. Por cá, mais tarde, quando a Telepac começou a oferecer serviços, nas empresas era uma confusão para se conseguir perceber como usar. 

Ainda me lembro de ver estudos para analisar quais as vantagens do fax. Criaram-se novos processos para aproveitar a rapidez do fax. Quando se adoptou, destronou o telex. Desapareceram as salas de telex e as Operadoras de telex.

Também me lembro de, em Paris, ver, com espanto, uma pessoa a conduzir e com uma coisa grande na mão através da qual falava como se falasse ao telemóvel. Depois reparei que não era o único.

Também acompanhei a atribuição de telemóveis na empresa, sendo contemplado com um porque era directora. Era uma coisa enorme e pesada e só dava para servir de telefone. Por essa altura, na empresa dele o meu marido foi contemplado com um BlackBerry e lembro-me de, na empresa, haver discussões para se perceber vantagens e desvantagens de cada um. Se na altura desta revolução me falassem que os telemóveis poderiam fotografar e filmar e enviar as imagens de imediato diria que estavam a sonhar. Isso estava fora das melhores conjecturas.

Numa visita que fiz à sede de uma multinacional em Zurique, vieram mostrar-me uma coisa que acharam que eu apreciaria muito. Era um Grid, um microcomputador. Explicaram-me o que era e mostraram-me o Lotus 123. Fiquei fascinada. Em Portugal só mais tarde começaram a ser comercializados os computadores pessoais com as suas aplicações de tratamento de texto e de folha de cálculo.

Achei uma coisa tão vital que consegui que se formassem algumas pessoas que, por sua vez, formaram centenas de pessoas na empresa. 

E, mais tarde, quando finalmente a oferta de internet começou a ser comercial e operacionalmente interessante, lembro-me de haver grandes discussões sobre quem deveria ter acesso e se haveria forma de restringir o uso. Havia receio que algumas pessoas se entretivessem a ver imagens pornográficas em vez de trabalhar. Bati-me convictamente para que fosse dado acesso geral pois achava que a internet era uma porta aberta para o mundo e a empresa ter trabalhadores informados e curiosos era uma mais valia. E levei a minha avante.

Tudo isto parece pré histórico. Mas não é. 

Só que de aí para cá as coisas evoluíram tão exponencialmente que um mundo sem internet e sem telemóveis parece inviável. 

Viajar por países desconhecidos ou por lugarejos sem sinalização sem GPS parece hoje impossível. Mas era possível (embora desafiante) e isso aconteceu até não há muito tempo atrás. Como somos agora guiados, verbalmente, em tempo real, com indicação precisa de cada desvio, da existência de acidentes, em cada canto e esquina do nosso percurso, pode parecer já uma banalidade. E, no entanto, quanta tecnologia e quanto conhecimento estão envolvidos...

A velocidade do progresso só não nos deixa estupefactos porque já nos habituámos a ela. Mas a mim, que sou velha como o caraças e que tenho acompanhado isto desde o início, deixa-me mais do que estupefacta: deixa-me apreensiva. E deixa-me apreensiva porque sei que a tecnologia anda a um ritmo superior ao que as organizações precisam para se adaptar -- isto admitindo que percebem que têm que se adaptar.

Se por um lado a tecnologia (por exemplo, a nível da Inteligência Artificial) é extraordinária e deve ser integrada na nossa vida, por outro é impossível controlar a forma como é usada.

Pela parte que me toca, inofensiva aposentada, só uso para o (meu) bem. Por exemplo, o programador de rega voltou a pifar. O eletricista não está por cá e, com este calor, sem rega seria o desastre para o jardim já que as mangueiras não chegam a todo o lado. Fotografei o aparelho e passo a passo fui guiada até que voltou a trabalhar. Um ténis novo, aparentemente o melhor possível, topo de gama, impec a olho nu, magoa-me o pé num certo sítio. Fotografei o sapato e pedi informação. Explicou-me qual o problema e indicou-me a solução. O meu marido lembrou-se de fazer um acompanhamento de legumes assados no microondas, saudável e rápido. Perguntou ao chatgpt e saiu-lhe um belo acompanhamento. Quando recebi o relatório de umas análises, digitalizei e pedi informação. Relatório imediato e bem explicado. Precisei de ter um contrato para um certo assunto. Pedi-lhe e obtive um de tal maneira bem feito que foi aceite sem uma questão, como se tivesse sido feito por um advogado de mão cheia. Coisas assim, simples. Além disso, pela minha experiência, de vez em quando, quando quero estar 100% segura ou alguma coisa me parece inconsistente, vou validar o que 'ele' diz e não raras vezes detecto algumas imprecisões. Corrijo-o e acabo por receber uma resposta 'limpa', sem incorrecções. 

Mas imagine-se isto mal usado ou usado por quem não se dá ao trabalho de validar ou por quem quer usar para efeitos nocivos. Ou no ensino, usado por alunos que fazem os trabalhos dispensando-se de estudar, investigar, aprender. 

Ou, pior que isso, usando o algoritmo para incorporar programação mal intencionada. 

E não falo, porque me parece óbvio, que isto torna dispensáveis muitas profissões.

Mas os riscos são maiores que isso. A BBC não é propriamente sensacionalista. Recomendo que vejam o vídeo abaixo. Está legendado. Claro que há sempre quem desvalorize. Se calhar, quando eu cheguei a Portugal e disse que tinha visto pessoas a conduzirem e ao telefone houve muita gente que achou que era uma excentricidade francesa, um brinquedo. Ou, quando eu cheguei cá e disse que fazer o orçamento da empresa poderia passar a ser uma coisa automatizada que permitia fazer simulações em tempo real, houve quem me achasse uma deslumbrada ou uma miúda que falava do que não sabia. Há sempre quem não consiga ver o alcance do que por aí vem e só dê por ela quando a onda está a passar-lhe por cima.

Talvez não venha a ser drama nenhum. Talvez. Assim o espero. Mas, por via das dúvidas, deveríamos prestar atenção ao assunto, ouvir os que talvez saibam um bocadinho mais do que nós.

AI2027: Is this how AI might destroy humanity? - BBC World Service

A research paper predicting that artificial intelligence will go rogue in 2027 and lead to humanity’s extinction within a decade is making waves in the tech world. 

The detailed scenario, called AI2027, was published by a group of influential AI experts in the spring and has since spurred many viral videos as people debate its likelihood. The BBC has recreated scenes from the scenario using mainstream generative AI tools to illustrate the stark prediction and spoken to experts about the impact the paper is having.  


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Desejo-vos uma boa semana

terça-feira, junho 03, 2025

A Inteligência Artificial vai atirar o desemprego para uns assustadores 20%? Já é caso para alarme?
Ou vamos esperar a ver no que dá e, até lá, que não nos doa a nós a cabeça...?

 


Quando comecei a trabalhar havia profissionais que, mais tarde, desapareceram. Por exemplo, havia codificadores. Mais tarde, as próprias pessoas escolhiam os códigos que, de entre a lista, melhor se adequavam. Na informática, que ocupava enormes 'salões', havia 'analistas' de diversos tipos, programadores e 'operadores de recolha'. Os diversos serviços enviavam diariamente montanhas de documentos que estes últimos 'recolhiam'. Aos poucos, a 'recolha' acabou pois os diversos serviços introduziam a informação directamente nos sistemas.

Dentro dos centros de informática propriamente ditos, espaços gigantescos, havia os preparadores que organizavam a sequência em que entravam os 'jobs' e, para a informação ser cozinhada, havia programas que 'corriam' de noite. E, de manhã, os estafetas distribuíam lençóis, 'pijamas', por todos os serviços - listagens enormes de papel às risquinhas com buraquinhos dos dois lados. Aos poucos isso foi saindo nas impressoras que estavam nos serviços e mais um conjunto de profissionais ficou sem trabalho.

Havia salas enormes com operadores de telex. Os serviços preparavam o que hoje seriam mails, os 'contínuos' levavam à sala dos telex's. 

E havia a enorme sala de dactilografia. Só senhoras. Eram elas que 'batiam à máquina' cartas, relatórios, contratos e o que houvesse a fazer em letra de forma. Algum tempo depois, essas salas desapareceram.

Outra das salas enormes, enormes mesmo, era a da Contabilidade. As facturas dos fornecedores chegavam lá, eram contabilizadas em máquinas de manivela, e eram registadas e arquivadas em mais do que uma via.

Já mais recentemente, as facturas chegavam, alguém abria os envelopes, organizava-as e passaram a ser digitalizadas à chegada e, a partir daí, todo o processo passou a ser automatizado, com sistemas que transformam imagem em dígitos, com workflows para que circulassem por quem as aprovava, e, daí até entrarem directamente no sistema, eram um ai. Vários profissionais foram dispensados, claro. Posteriormente, a mudança foi ainda maior com os fornecedores a registarem directamente as facturas no portal que a empresa disponibilizava. E mais redução de pessoal, claro.

Fazer o orçamento da empresa e fazer o acompanhamento mensal, quando entrei, ocupava muita gente e era um trabalho terrível. Tinha que se recolher informação manual de todas as áreas e fazer infindáveis cálculos manuais. Fazer uma alteração implicava, frequentemente refazer todo o processo. O produto do orçamento era um dossier enorme, cheio de folhas datilografadas, que era distribuído pelas direcções. Mensalmente eram produzidos, em papel, relatórios com os desvios e as suas explicações bem como uma projecção dos impactos no resultado anual. Uma trabalheira que hoje dificilmente se imagina.

Aos poucos, os escritórios foram encolhendo. O que antes requeria edifícios gigantes com muitas centenas de funcionários ficou reduzido a um andar em que a maioria das pessoas já estava afecta a áreas mais 'nobres' como planeamento, investigação, inovação, qualidade, gestão de talento e coisas assim.

Fora dos escritórios a revolução foi também brutal. Os armazéns, por exemplo, antes fervilhavam de gente: uns recebiam o material, outros codificavam, outros inseriam as guias de entrada em dossiers e em folhas de registo para serem 'recolhidas' ou, mais tarde, directamente no sistema, isto depois dos codificadores catalogarem tudo. Depois havia os que arrumavam os artigos, outros que faziam inventários, outros que atendiam quem lá ia levantar artigos e, aí, faziam os movimentos inversos. Hoje poucas pessoas lá trabalham. Tudo está informatizado, automatizado.

E podia continuar mas o panorama seria sempre o mesmo.

Em cada um destes movimentos houve sempre alguém que foi sacrificado mas, vendo a posteriori, nada disto foi globalmente dramático pois as pessoas iam sendo 'reconvertidas', outras saíam com indemnização e arranjavam lugar noutras actividades. E isto era um processo gradual.

O que aconteceu nas empresas em que trabalhei, aconteceu em todo o mundo.

Mas não sei se a revolução que a inteligência artificial não vai ser mais disruptiva. Não a vejo como um interruptor -- hoje funciona assim e amanhã já é de outra maneira e, de um dia para o outro, saltam pessoas aos milhares -- pois as organizações levam tempo a assimilar as mudanças e a adaptar-se. Mas, assim que se inicie a migração para processos que incorporem a inteligência artificial, o movimento será irreversível e rápido.

Hoje ainda não sabemos dizer ao certo todas as áreas em que a IA vai mexer mas é só questão de começar. Onde ela entre, o movimento será imparável.

A nível caseiro, já a uso a toda a hora -- e já sinto que há um antes e um depois do ChatGPT. Dou um exemplo: contei no outro dia que a rega não tinha arrancado. Herdámos o sistema de rega com a compra da casa. Tem sido sempre uma aventura atinar com o seu funcionamento pois não ficou nenhum manual e, quando tínhamos jardineiros, cada um mexia à sua maneira, dizendo que tinha reprogramado. E havia noites em que regava em permanência, outras vezes arrancava de dia, em horas impróprias, outras vezes funcionava dia sim, dia não. Quando resolvemos que estávamos melhor sem jardineiros, esse imbróglio passou para nós. O incrível mundo das electroválvulas e das estações e dos programas passou para nós. O mal das coisas complexas e sofisticadas -- que dão para adaptar a tudo e mais alguma coisa e que permitem combinações de tudo com tudo -- é que descortinar o que está programado e o que se pode fazer sem fazer perigar todo aquele equilíbrio instável é um desafio. O meu marido é apologista da técnica de mexer o menos possível. Eu sou o contrário: eu sou de tentar perceber tudo e depois refazer tudo em consciência. Mas, antes, faltava-me o apoio técnico. 

Até que chegou o ChatGPT. Agora fotografo o programador e coloco dúvidas. Ele reconhece a marca e o modelo e começa a interpretar o que vê. E vou seguindo o que 'ele' diz. Claro que ele não me diz tudo às primeiras pois é sabido que a maior ignorância é a que desconhece a dimensão da sua ignorância. Portanto, não pergunto tudo o que há para perguntar e, portanto, vou recebendo respostas que são apenas uma parcela do que há a fazer. Uma luta. Tentativas infrutíferas umas atrás de outras. Mas não desisto. Faço, fotografo o que diz o monitor, volto ao ChatGPT, volto ao programador, e assim sucessivamente. Neste momento, já estou mais perto de dominar a coisa. Ainda não estou lá, mas já vi a luz ao fundo do túnel mais longe... Claro que ainda não cheguei à parte a que provavelmente nunca me atirarei: a do aspecto físico da coisa, o das electroválvulas, a sua associação às estações respectivas. Mas, se calhar, até para isso, 'ele' me ajudaria. O que antes requereria um jardineiro especialista em sistemas de rega, agora está nas minhas mãos e nas do ChatGPT. 

E quem diz isto diz interpretar um balanço e uma demonstração de resultados, apontando pontos críticos, áreas a requerer atenção -- e isto através do 'upload' de um ficheiro ou de fotografias. Isso ou interpretar análises clínicas ou relatórios de exames médicos. Ou fazer o upload de um livro, ou de um contrato ou do que for, e pedir um resumo, uma apresentação ou o que for. E o trabalhinho aparece imediatamente feito.

O impacto disto nas empresas, nos escritórios de advogados, na Administração Pública, na Investigação, na análise das imagens de exames médicos, em todo o lado..., vai ser imenso.

Claro que haverá sempre muitas profissões que não desaparecerão. Muitas. E novas profissões surgirão. Muitas. 

Estudar o impacto, área a área, de tudo isto é imperioso: para programar a formação e as vagas por curso, para repensar a sociedade no seu todo. Se tudo for pensado e planeado, decorrerá sem sobressaltos de maior. Se nada se fizer, será um ver se te avias de crises, crises daquelas bem problemáticas.

A entrevista que o Anderson Cooper conduz com o CEO de uma empresas de Inteligência Artificial é interessante. Penso que é um tema que deveria ser trazido para a ribalta. Em vez de andarem mais do sete cães a um osso a ver quem diz mais mal do Gouveia e Melo mais valia que se antevisse o futuro. Com pés e cabeça. Com factos, com objectividade. Com gente que saiba e não com papagaios. Estou farta de papagaios.

AI company's CEO issues warning about mass unemployment

Anthropic CEO Dario Amodei tells CNN's Anderson Cooper that "we do need to raise the alarm" on the rise of AI and how it could cause mass unemployment.

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Imagens geradas, a meu pedido, pelo Sora (IA)
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Dias felizes

quinta-feira, dezembro 12, 2024

Alô, alô Senhores Professores, Senhores Explicadores e Senhores Encarregados de Educação!
E que tal começarem já a preparar-se para quando o Khanmigo chegar a Portugal?
Read my lips: não vai demorar e vai vir para ficar.

 

Ainda está em teste e a ser avaliada a sua utilização (em 266 escolas nos Estados Unidos). E o 'tutor', que foi designado por Khanmigo, ainda se engana de vez em quando. Ou seja, não se pode já dizer que isto já está no 'terreno'. Não, está em fase piloto. Mas há uma equipa de técnicos e de professores a monitorizarem todas as situações e a incorporarem no algoritmo as devidas alterações.

Contudo, face ao que se vê, dá para perceber que no prazo de uns dois anos, se calhar até antes disso, se terá atingido o estado da arte que permitirá a sua extensão a todas as escolas e, provavelmente, a todo o mundo (pois acredito que já esteja a ser traduzido para ´muitas línguas).

Não será capaz de substituir apenas (muitos) explicadores: irá alterar radicalmente a forma de ensino. Não digo que substitua os professores mas, certamente, muitos professores não conseguirão acompanhar a pedalada do Khanmigo. Quanto aos encarregados de educação, terá também que ser um salto gigante.

Tal como, quando eu estudei, não havia internet e tudo o que sabíamos tinha que ser obtido nas aulas ou através dos livros (ou sebentas) que tínhamos à nossa disposição e agora já há internet para pesquisar tudo e mais alguma coisa e até parece impossível termos conseguido viver sem motores de busca, GPS, e etc, daqui por algum tempo parecerá impossível ter-se conseguido avançar escorreitamente no ensino sem ferramentas como o Khanmigo.

Apesar de ser de alguma duração (cerca de 13 minutos), sugiro que dispensem atenção pois é um avanço fantástico a que está a assistir-se na forma como se ensina e se aprende.

Meet Khanmigo: The student tutor AI being tested in school districts | 60 Minutes

Khanmigo, an AI-powered online tutor, could change the way teachers work and students learn. Created by Khan Academy, the new technology is being piloted in 266 school districts.


domingo, dezembro 08, 2024

Esculturas feitas por robots...? E continua a ser arte...?

 

Sou amiga de longa data de uma escultora. Durante muito tempo apenas soube dela através de notícias. Mas era ela pequena e já eu percebia nela aquele toque para as artes. Lembro-me de, no liceu, nos primeiros anos, termos que fazer um desenho com guache. Eu e quase todos fizemos desenhos infantis, básicos. Ela não, fez um desenho de bailarinas. A pintura tinha movimento, tinha cor, tinha leveza e graça. As bailarinas estavam em pontas, debruçavam-se, saltavam, e tinham saias de tule, transparentes, e tudo ali dançava. Nesse dia fiquei estupefacta. Pinturas assim só conhecia de quadros nas paredes. Jamais pensaria possível que uma de nós pegasse em pincéis e tintas e, na maior das naturalidades, fizesse uma coisa assim.

Desde aí nunca mais parei de me espantar com a facilidade dela em inventar peças, em dar-lhes vida. Não se tornou pintora mas, sim, escultora.

Ainda recentemente concebeu uma peça absolutamente fora da caixa, inesperada. Apesar de muito elogiada, foi humildade que percebi na sua voz e na sua expressão quando me perguntou: 'Gostaste?'

Há algum tempo ouvi uma outra escultora dizer que há peças que requerem muita força, que pode ser um trabalho muito pesado, que já as evitava pois já não tinha a energia e a resistência que tinha antes. E, de facto, compreendo.

Uma vez enviei uma carta com sugestões à pessoa que ocupava a presidência do município em que, na altura, vivia. Uma delas é que abrisse concursos junto de artistas como escultores ou ceramistas ou graffiteiros para que inundassem a cidade de arte de rua. Achava eu que a cidade deveria transformar-se na cidade das artes, artes ao dispor de todos. Achava eu, e acho, que isso valorizaria de forma duradoura a cidade e que traria alterações estratégicas pois atrairia um turismo de qualidade que, por sua vez, garantiria audiência para outras demonstrações artísticas (festivais de música e de dança, festivais literários ou de cinema ou de fotografia). Enfim, dissertei sobre as potencialidades virtuosas que essa transformação traria à cidade.

Claro que isso tem custos. A arte custa dinheiro. Os artistas não apenas gastam dinheiro nos materiais como muitas vezes têm que contratar ajudantes, têm que arrendar espaços onde possam trabalhar e, claro, têm que viver.

Contudo, agora aparecem os robots, aparece a impressão 3D, e, a montante, o software em que se definem os modelos que estão na origem do que vai ser feito. E, nesse caso, claro que as obras aparecem feitas muito mais depressa. Desde logo, os robots trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana. Claro que, por detrás, há o trabalho humano de programação. Só que, uma vez construído o software que instruirá o robot, este pode fazer essa e milhões de outras iguais. Claro que aí será do interesse do artista destruir o software após a realização da peça para evitar cópias. Só que isso não é bem assim. Quem concebe os modelos matemáticos e quem programa os equipamentos não será o artista pelo que há sempre várias mãos a mexer no software. E, por segurança, haverá cópias. Portanto, o escultor pode acreditar que o software foi destruído e, na realidade, haver ainda uma ou mais cópias. E pode até o próprio artista se predispôr a fazer não um exemplar mas uma série deles.

Seja como for, como em tudo, há lados fantásticos e aspectos preocupantes.

Contudo, quero aqui deixar um apontamento: o mais recente colar, que acho lindo, é composto de peças impressas numa impressora 3D. São peças de uma cor profunda, com um toque macio, maravilhoso, e têm um movimento incrível. Tenho uma amiga, que pertence a uma família ligada às artes e à moda, que faz colares artesanais, bonitos. Quando viu este meu ficou muito impressionada pela sua invulgaridade e beleza. 

Robots sculpt marble in Italy, sparking worries about future of art form | 60 Minutes

A fleet of marble-sculpting robots is carving out the future of the art world. It’s a move some artists see as cheating, but others are embracing the change.


Desejo-vos um belo dia de domingo

quinta-feira, dezembro 05, 2024

Está a chegar o tempo dos pós-humanos?


A ciência deve, forçosamente, ser um dos mais importantes pilares do desenvolvimento. Um outro deve ser a ética. Outro o humanismo. E há mais mas agora não virão tanto ao caso.

Nas empresas, em especial em empresas em que há áreas de investigação e desenvolvimento, recorre-se cada vez mais à figura dos 'gémeos digitais'. No fundo, são réplicas dos processos reais com tudo o que há de interacção entre eles. Deste modo, quando se pretende testar qualquer inovação, seja de que tipo for, em vez de arriscar danos se o teste for feito em ambiente real, usa-se o gémeo digital.

Não é fácil nem económico ter 'gémeos digitais' que sejam réplicas perfeitas, fidedignas. Claro que os meios actuais ajudam: por exemplo, já não é preciso ter Data Centers ultra dispendiosos, pode recorrer-se ao alojamento e gestão na 'nuvem'. Mas, ainda assim, não é fácil. E tem que haver pessoas, muito, muito entendidas, que saibam validar se o gémeo digital é fiável e se os resultados obtidos são de confiança ou se o 'gémeo digital' está coxo e não permite extrapolar algumas conclusões.

Mas uma coisa é ter réplicas do funcionamento de fábricas ou de empresas em geral. Outra, muito diferente, é ter réplicas do funcionamento do corpo humano. Não é só o que isso permite de bom... é também o que permite fazer se as intenções não forem as melhores.

E falo nisto como poderia falar em pegar numa célula qualquer e daí conseguir obter um óvulo e um espermatozóide, conseguindo, pois, 'conceber' um ser humano.

As possibilidades são infinitas. Muitas incríveis, maravilhosas. Outras aterradoras.

E não falo de promessas, de expectativas. Falo de possibilidades reais, cientificamente disponíveis.

Convido-vos a ver o vídeo abaixo. É possível colocar legendas em português.

How Tech Is Breaking the Rules of Biology | Posthuman with Emily Chang

From birth to death, tech is stretching the boundaries of biology. In this episode of Posthuman, we explore the discoveries that could transform reproduction, healthcare and how we die.

Technology that once seemed like science fiction is rapidly becoming reality, transforming the very essence of our existence. In this four-part series, Emily Chang unravels the future of being human in an age of unprecedented innovation.


sexta-feira, novembro 22, 2024

Deus in machina: Igreja suíça instala Jesus movido a IA (Inteligência Artificial)
-- A Capela de São Pedro em Lucerna troca o seu padre para instalar um computador e cabos no confessionário --


Depois de influencers que não existem -- e que, não obstante, têm seguidores e rendimentos --, depois de vídeos falsos em que pessoas conhecidas, com a sua voz, aparecem a dizer coisas que não disseram, e depois de vermos um avanço progressivo da IA nos mais diversos domínios (tornando-se quase demoniacamente descontrolada quando energizada pelas redes sociais), eis que o impensável acontece: Jesus, ele mesmo, substitui-se aos padres e fala directamente aos crentes... ainda, por cima, em 100 línguas. Isto, claro, através de um algoritmo de inteligência artificial.

An illustration of Jesus, generated by AI. I
llustration: Peter Diem/Lukasgesellschaft
(Guardian)

O assunto é tão extraordinário que tomo a liberdade de aqui transcrever na íntegra o artigo do Guardian da autoria de Ashifa Kassam (tradução directa via Translate da Google): 

Deus in machina: Swiss church installs AI-powered Jesus

A pequena igreja sem adornos é há muito considerada a mais antiga da cidade suíça de Lucerna. Mas a capela de Pedro tornou-se sinónimo de tudo o que há de novo depois de se ter instalado um Jesus com inteligência artificial capaz de dialogar em 100 línguas diferentes.

“Foi realmente uma experiência”, disse Marco Schmid, teólogo da Igreja. “Queríamos ver e perceber como as pessoas reagem a um Jesus AI. Sobre o que falariam com ele? Haveria interesse em falar com ele? Provavelmente somos pioneiros nisso.”

A instalação, conhecida como Deus in Machina, foi lançada em agosto como a mais recente iniciativa de uma colaboração de anos com um laboratório de investigação de uma universidade local sobre a realidade imersiva. 

Depois de projetos que experimentaram a realidade virtual e aumentada, a igreja decidiu que o próximo passo seria instalar um avatar. Schmid disse: “Tivemos uma discussão sobre que tipo de avatar seria – um teólogo, uma pessoa ou um santo? Mas depois percebemos que a melhor figura seria o próprio Jesus.”

Com pouco espaço e procurando um local onde as pessoas pudessem ter conversas privadas com o avatar, a igreja trocou o padre para instalar um computador e cabos no confessionário. Depois de treinar o programa de IA em textos teológicos, os visitantes foram convidados a colocar questões a uma imagem de Jesus com cabelo comprido transmitida através de um ecrã de treliça. Respondeu em tempo real, oferecendo respostas geradas por inteligência artificial.

As pessoas foram aconselhadas a não divulgar qualquer informação pessoal e a confirmar que sabiam que estavam a interagir com o avatar por sua conta e risco. “Não é uma confissão”, disse Schmid. “Não pretendemos imitar uma confissão.”

Durante o período de dois meses da experiência, mais de 1.000 pessoas – incluindo muçulmanos e turistas vindos de lugares tão distantes como a China e o Vietname – aproveitaram a oportunidade para interagir com o avatar.

Embora os dados sobre a instalação sejam apresentados na próxima semana, o feedback de mais de 230 utilizadores sugeriu que dois terços deles consideraram que se tratava de uma “experiência espiritual”, disse Schmid. “Portanto, podemos dizer que tiveram um momento religiosamente positivo com este AI Jesus. Para mim, isso foi surpreendente.”

Outros foram mais negativos, com alguns a dizerem à igreja que achavam impossível falar com uma máquina. Um repórter local que experimentou o dispositivo descreveu as respostas como, por vezes, “banais, repetitivas e exalando uma sabedoria que lembra os clichés do calendário”.

O feedback sugeriu que houve uma grande disparidade nas respostas do avatar, disse Schmid. “Tenho a impressão de que, por vezes, ele era realmente muito bom e as pessoas ficavam incrivelmente felizes, surpreendidas e inspiradas”, disse. “E também houve momentos em que ele, de alguma forma, não foi tão bom, talvez mais superficial.”

A experiência também enfrentou críticas de alguns membros da comunidade eclesial, disse Schmid, com colegas católicos a protestarem contra o uso do confessionário, enquanto colegas protestantes aparentemente se sentiram ofendidos com o uso de imagens desta forma pela instalação.

O que mais impressionou Schmid, no entanto, foi o risco que a Igreja correu ao confiar que a IA não daria respostas ilegais, explícitas ou ofereceria interpretações ou conselhos espirituais que entrassem em conflito com os ensinamentos da Igreja.

Na esperança de mitigar este risco, a igreja realizou testes com 30 pessoas antes da instalação do avatar. Após o lançamento, garantiu que o suporte estava sempre por perto para os utilizadores.

“Nunca tivemos a impressão de que ele estivesse a dizer coisas estranhas”, disse Schmid. “Mas é claro que nunca poderíamos garantir que ele não dissesse nada de estranho.”

Em última análise, foi esta incerteza que o levou a decidir que era melhor deixar o avatar como uma experiência. “Para colocar um Jesus assim permanentemente, eu não faria isso. Porque a responsabilidade seria muito grande.”

Foi rápido, no entanto, a citar o potencial mais amplo da ideia. “É uma ferramenta realmente fácil e acessível, onde se pode falar sobre religião, sobre o cristianismo, sobre a fé cristã”, disse, pensando que poderia ser remodelado numa espécie de guia espiritual multilingue que pudesse responder a questões religiosas.

Para ele, a experiência – e o grande interesse que gerou – mostrou-lhe que as pessoas procuravam ir além da Bíblia, dos sacramentos e dos rituais.

Schmid disse: “Acho que há sede de falar com Jesus. As pessoas querem uma resposta: querem palavras e ouvir o que ele está a dizer. Acho que esse é um elemento disso. Portanto, é claro que há a curiosidade disso. Querem ver o que é isso.”

O admirável mundo novo está aí. É o que é.