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domingo, junho 28, 2026

Quem é a loura que deixa bilhetinhos de amor a Trump e que é conhecida por 'impressora humana'?
E outras coisas minhas, sem relevância nacional... :)

 

O meu dia foi complicado, com um contratempo muito grande, um transtorno inesperado, implicando total mudança de planos. Mas, se é verdade que fiquei bastante aborrecida, a verdade é que, no meio das chatices, me ocorreram, várias vezes, pensamentos do tipo: 'ainda foi sorte ter acontecido ali', ou 'poderia ter sido pior'. Provavelmente isto confirma mesmo que sou uma pessoa optimista. Tenho ideia que, perante uma chatice das grandes, dantes havia quem dissesse: 'se tivesses partido uma perna teria sido pior'. Se calhar sou dessas. 

E apesar de ainda não conseguir ter o panorama completo das consequências, o que me apraz dizer é que, apesar de tudo, ou melhor, descontando o que de chato aconteceu, o dia acabou bem, estive bem acompanhada, o saldo foi positivo. E, no fim de contas, não é isso que interessa?

Posso ainda contar que, quando estava, em carro alheio, de volta a casa, ouvi que estavam a chegar várias mensagens. Espreitei o telemóvel e era o mais velho a enviar um vídeo para a família, mostrando que tinha cumprido a promessa resultante da aposta. Quando foi a Taça e o Sporting ia jogar com o Torreense (acho que foi o Torreense, não foi?), um dos primos benfiquistas lançou o desafio aos primos sportinguistas: se confiavam que o Sporting ia ganhar, podiam apostar rapar o cabelo, caso perdesse. E apostaram. Têm ambos belos caracóis que, segundo eles, as meninas adoram. E eles, que fizeram cortes elaborados com nomes fantásticos (cortes creio que inspirados nos jogadores de futebol), têm também grande orgulho no efeito que causam no sector feminino. Pois bem, no vídeo, mostrava-se rapado, rapado, rapado. Lindo. Parece outro. Um homem.

Noutro vídeo o primo benfiquista elogiava-o, dizia-lhe que ele tinha sido um homem, tinha cumprido a promessa. Num outro vídeo, já dizia que também ele raparia o seu. E a tia e a mãe diziam que o garboso 'rapado' estava muito bonito.  E está. 

Vamos ver se o mano mais novo também rapa o seu. Fez quinze anos e faz um sucesso entre as meninas que nos surpreende e dá vontade de rir. A minha filha conta peripécias que nos deixam divertidas e desconcertadas. E eu já testemunhei. Estávamos com ele numa loja e vimos uns rapazes e raparigas a olharem para ele, as miúdas com ar embevecido. Diziam o nome dele e falavam que ele jogava no clube onde joga. O meu marido até disse que pareciam que lhe iam pedir autógrafo. A semana passada, ao ver uma fotografia de grupo, os rapazes de fato e gravata, as meninas de vestido comprido, e ao perguntar qual o par dele no baile de finalistas (do 9º ano...), fartei-me de rir com as observações dele. Fiquei a perceber que há várias que gostam dele. Meio desconjuntado, de poucas palavras, todo mais para a acção do que para a conversa, parece, no entanto, que tem mel. No outro dia vi-o a ensinar o primo como é que se fazia para proporcionar a ocasião para beijar uma rapariga. Fartei-me de rir. De facto, leva jeito. Tem o seu quê de descarado. Como é bem educado e muito divertido, fica ali um mix interessante, cai no goto delas. Mas, no que se refere à aposta, diz que elas gostam de lhe mexer nos caracóis e, portanto, não os quer cortar.

Enfim.

Adiante que se faz tarde. 

Enquanto escrevo, Portugal ainda não conseguiu marcar nenhum golo e isso deve deixar decepcionados os milhares de adeptos que se juntaram um pouco por todo o lado. Não consigo prestar atenção, distraio-me. Mais para a frente, aqui estarei a torcer. Agora é apenas música de fundo.

E, entretanto, estive a ver o vídeo que abaixo partilho que é todo ele um desfiar de tesourinhos deprimentes. O mundo de Trump é um mundo doido, tresloucado, distópico, habitado por personagens que nem sei se são sinistras, se são de comédia, se é tudo um ninho de malucos, se é isso tudo ao mesmo tempo.

Os casos, as peripécias, as contradições, os disparates, os escândalos -- tudo se sucede a um ritmo desvairado. 

Desta vez, no meio de mil maluquices, fiquei a saber exactamente porque se fala tanto de uma tal Natalie Harp. E é do além. Nem sei que diga, nem sei que pense. É de loucos. 

Uma fulana, ex apresentadora da Fox, uma loura quase igual a todas as outras louras que por ali andam, com um poder incrível, que lhe leva notícias (só as boas), que lhe prepara informação (favorável), que lhe imprime as coisas porque ele gosta de ler em papel (o pouco que lê, claro, porque, na verdade, não lê nada), que lhe deixa bilhetinhos de amor, que mostra uma adoração patológica por ele, que frequenta os seus espaços mais privados, que tem acesso a informação confidencial, que vai com ele para todo o lado. Diz Michael Wolff que tudo o que ela lhe deixa escrito é para lhe mostrar que quer ir com ele para a cama. E isto diz muito da saúde mental dela. 

Ah, é verdade, suspeita-se que terá sido Natalie Harp que fez o vídeo dos Obamas como macacos ou o de Trump como Jesus. E, volto a dizer, se foi, o que dizer da sua saúde mental...?

Poderia ser uma série televisiva, cheia de personagens exageradas demais, destrambelhadas demais. Mas é a realidade. A que ponto o mundo chegou. Não dá para acreditar.

No outro dia vi um vídeo em que a neta de Trump, uma adolescente, andava pela Casa Branca com uma amiga, a filmar as salas, a sentar-se na cadeira do avô, a mostrar os telefones e os botões encarnados, a rir, toda eufórica de por ali andar, como se andasse na sua própria casa.

Tudo doido.

Mas nada como Joanna Coles e Michael Wolff para passarem a pente fino as mais recentes maluquices de Trump.

Porque é que o círculo íntimo de Trump teme a sua companheira loira de 34 anos | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff e Joanna Coles analisam mais uma semana extraordinária na presidência de Donald Trump, desde uma importante vitória no Supremo Tribunal que pode expandir drasticamente o poder presidencial até à linha cada vez mais ténue entre a Igreja e o Estado, as consequências políticas do frágil cessar-fogo com o Irão e porque é que Trump pode, mais uma vez, escapar às consequências de um revés na política externa. Investigam também o mistério em torno de Natalie Harp, a dedicada "impressora humana" de Trump, à medida que novas reportagens corroboram as revelações inicialmente exploradas por Wolff; examinam por que razão o New York Times só agora está a aceitar a ideia de que Trump governa por obsessão em vez de estratégia; debatem a mais recente fixação de Trump com o espelho de água do Lincoln Memorial; e revelam os estranhos cálculos políticos por detrás das comparações de J.D. Vance com Nixon.

Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Para fechar um dia de festejo aquariano, Jen conversa com Joanna e é um gosto ouvi-las a comentar a petite histoire que se esconde por detrás da História
(no caso, a História em tempo real)

 

Cheguei aqui com vontade de falar da canção incrível que um dos meninos compôs para surpreender o avô, e que até me comoveu. O destinatário, que não é de grandes arroubos, também ficou sensibilizado, Claro que quando digo que o menino compôs é uma forma de expressão. Uma forma de expressão um pouco assustadora, confesso. Ele fez a letra, uma letra certeira, divertida, amorosa. Mas, depois, recorreu à Inteligência Artificial para a música e a para a interpretação. A minha filha sugeriu que apelasse ao género Zeca Afonso. Ficou perfeito. Se não tivessem dito, julgaríamos que alguém tinha composto a música e alguém, pessoas de verdade, tinham tocado a música e cantado. Incrível.

[Qual o impacto que isto terá no futuro nem sei avaliar. Quando alguém quiser uma banda sonora para um filme ou para uma novela ou para o que for, imagine-se a diferença, a nível de orçamento...]

O restaurante tinha uma televisão gigante que os meninos pediram para pôr creio que na Sport TV. Por superstição (tema, aliás, abordado na letra da canção), o avô não viu. Mas sofreu, quando a ala benfiquista festejou, e animou-se quando a ala sportinguista festejou, em especial, no final do jogo em que um deles, justamente o autor da canção, soltou um grito digno de um verdadeiro leão.

Escuso de dizer que o jantar foi a animação e a festa de sempre. 

Depois de chegarmos a casa, recebemos uma outra canção, um dos outros meninos enviou uma outra canção, um verdadeiro hino benfiquista sobre o jogo do outro dia e sobre o golo do Turbin. E francamente é a mesma sensação: está incrível, parece que uma banda interpreta a sério uma canção feita de propósito para festejar o jogo do outro dia, jogo que ele e o pai viram, ao vivo, no Estádio da Luz. Claro que a letra é obra do inspirado menino mas o resto é obra da AI. Se ouvissem, podem crer que ficariam admirados.

Mas, se vinha para aqui conversar sobre isto, a verdade é que ao ligar o computador, a realidade impôs-se. E nem falo das consequências da Kristin e do que se teme com a subida das águas e com a chuva que não para. Falo agora das trumpalhadas que têm andado a infernizar a vida a meio mundo.

...   ...   ...   ...   ...

Não tenho dúvida que estamos a viver tempos que ficarão para a História. Tal como Mark Carney frisou no seu memorável discurso de Davos, este não é um momento de transição mas sim um momento de ruptura. Como uma falha tectónica que se acentua, de dia para dia, levando ao afastamento de umas placas e à aproximação de outras, assim as fissuras políticas que afastam os que antes eram aliados e que agora se comportam como adversários levando a inesperadas aproximações. E o que tomávamos por adquirido revela-se, de súbito, inexplicavelmente frágil. Os paradigmas caem ao mesmo ritmo a que se assiste a insólitas ameaças, a perigosos atentados à liberdade e à integridade dos cidadãos.

Se tudo isto se deve a uma demencial avalancha de decisões aleatórias, destinadas a desviar as atenções de crimes ainda mais graves, ou se isto tem por origem um caso extremo de narcisismo maligno e cruel ou se é apenas o caso de um velho demente que está a ser manipulado por forças 'poderosas', umas ideológicas outras meramente corruptas, não sei. Talvez seja uma mistura de tudo. Mas tudo vem em catadupa, uma permanente avalanche difícil de acompanhar. As televisões, os jornais, os podcasts chamam analistas políticos, historiadoras, comentadores de economia, finanças, geo-estratégia, psicólogos, médicos -- de tudo um pouco. As justificações dividem-se, multiplicam-se... mas conclusão que a todos convença isso nem pensar.

Se Joanna Coles é uma daquelas conversadoras que dá gosto acompanhar pois ri com espontaneidade, tem apartes oportunos ou divertidos, mostra uma curiosidade muito pessoal, não deixa escapar uma deixa, Jennifer Welch é uma das podcasters a quem meio mundo presta cada vez mais atenção. Sabe escolher os convidados, tem um sentido crítico apurado e uma acutilância que, em minha opinião, condiz com o seu fácies.

Nesta conversa (relembro que poderão escolher a opção da legendagem e, aí, na autotradução, escolher a língua portuguesa), elas conversam sobre grande parte dos temas da actualidade mas fazem-no de forma livre, com observações que não é por serem engraçadas que são menos relevantes.

Why Thin-Skinned Trump Is Just Like a Teenage Girl: Welch | The Daily Beast Podcast

Trump, tão sensível, é como uma adolescente

Jennifer Welch, do podcast de sucesso "I've Had It", junta-se a Joanna Coles enquanto as notícias se descontrolam completamente — da detenção de Don Lemon e do que Welch chama um caso de teste assustador para silenciar jornalistas independentes, à súbita enxurrada de arquivos de Epstein, às manobras jurídicas do Departamento de Justiça e à profunda vingança de Trump contra a imprensa, que dura há décadas. Welch disseca o mito da masculinidade no cerne do movimento MAGA, a adoração submissa ao homem forte que o sustenta e a cultura evangélica que ignora o abuso enquanto prega a autoridade moral. Ao longo do caminho, Welch liga a exploração, o ressentimento e a repressão num único sistema operativo que alimenta o trumpismo — e levanta a questão que paira sobre tudo isto: se esta é a fase de teste autoritário de Trump, o que virá a seguir quando as proteções finalmente cederem?


Desejo-vos uma boa semana

domingo, agosto 24, 2025

A graça dos inocentes

 

Não quero parecer tonta e insensível como o Montenegro, a banhos ou todo contente no Pontal enquanto o país arde e as populações gritam, entregues à sua sorte com o fogo a lamber-lhes e a devorar-lhes as terras. Mas, em minha defesa tenho o facto de que, ao contrário de Montenegro, eu não sou responsável por tomar medidas que previnam estas desgraças ou que, na presença delas, as ataquem. Ele é. E parece que anda às aranhas, sem saber o que fazer. Depois de tanto ter pregado contra António Costa e ter prometido resolver tudo e mais alguma coisa em três tempos, agora não apenas está tudo pior como não conseguimos ter confiança nos artolas que nos aparecem da parte do Governo. Maria Lúcia Amaral pode ser uma boa pessoa, uma boa professora e ter algumas coisas razoáveis no cv mas, caraças, não salta a olho nu que jamais poderia ser pessoa capaz para este ministério? Que experiência tem a senhora para lidar com catástrofes, que experiência tem em coordenar equipas distintas, para lidar com problemas complexos, no terreno? Não sei mas presumo que zero. Estamos entregues a isto. 

Por isso, enquanto as televisões mostram Pedrógão de novo debaixo de fogo e outros céus rubros das labaredas e do fumo ardente, eu aqui estou a pensar nos meus amores e amorzinhos, tão queridos, tão alegres, todos boas pessoas. Cá estiveram e, como sempre, é aquela animação e aquele bom apetite que dá gosto. Os caranguejos gostam de alimentar os outros. Eu sou assim, o meu filho é assim, o meu pai era assim. 

Entre parêntesis, confesso uma coisa de que não me orgulho, uma coisa que talvez indicie que a minha cabeça começa a desandar... Fiz uma empada de galinha, uma empada grande, familiar. Deu-me algum trabalho, claro. Quando pronta, não a retirei do forno para se manter quentinha. Depois preparei o resto, o meu filho veio para a cozinha e assumiu o comando, cozinhou escalopes e febras, preparou bifanas, e pitas, tudo saborosíssimo, juntei a isso, na mesa, o cheese naan, chamuças, etc, e é sempre aquele reboliço de se ajeitarem na mesa, de se servirem, de conversarem e rirem. E depois veio a fruta e o bolo e tudo certo, cantoria, fotografias. De repente lembrei-me: a empada! Ainda morninha, no forno... caraças... 

No fim, quando saíram, lá a dividimos entre famílias, sempre a provam em casa, mas, bolas, como fui esquecer-me de uma coisa destas? Que absurdo... Enfim. Cabeça de alho cada vez mais chocho...

Mas, enfim, todos os males fossem esses. O que importa é que a convivência é sempre leve, bem disposta. E eu fico feliz por eles, por serem amigos, por gostarem uns dos outros, e por gostarem de estar cá em casa.

Ainda não contei mas no outro dia, estávamos in heaven, pergunta o mais novo, e já nem me lembro bem das exatas palavras mas foi qualquer coisa do género: 'Para quem fica isto quando vocês já não puderem tomar conta?' e depois, mais palavra menos palavra, disse que podia ficar para ele. Achei um piadão. Disse-lhe que já era o terceiro a candidatar-se. O mano dele depois dissertou dizendo que se calhar daqui por uns vinte anos eu e o avô já não poderíamos tomar conta, que ele poderia ocupar-se disso. São inteligentes, percebem que uma coisa assim tem que ter quem se ocupe dela, dá muito trabalho, e, de facto, eu e o avô já não vamos para novos, chegará a altura em que não daremos conta do recado. Fico contente por sentir neles este amor a este bocado de terra, enche-me de felicidade, talvez continue a ser um lugar no coração deles e de vindouros que nem conhecerei mas que, de alguma forma, ainda transportarão algum do meu sangue, um lugar de paz que os animais também procuram, em que nasce tudo em todo o lado, em que o ar transporta a liberdade dos grandes espaços. 

Felizmente não somos eternos e, quando chegar a minha vez de sair da passadeira rolante que é a vida, já cá não estarei no day after para lamentar isto ou aquilo. Mas, apesar disso, alegra-me pensar que talvez entre eles se organizem para continuarem a usufruir de um espaço tão rural, tão selvagem mas, ao mesmo tempo, tão acolhedor.

E estava eu aqui a ver as fotografias de hoje, a pensar nisto, a pensar nos meus cinco pimentinhas, agora já tão grandes e sempre tão queridos, resolvi espreitar o youtube.

E pimbas, apareceu-me este vídeo que aqui partilho. Uma delícia, uma fofura, a graça da descoberta, a graça da inocência.

O elefante bebé Chaba pela primeira vez numa banheira


Desejo-vos um feliz dia de domingo!

sexta-feira, agosto 01, 2025

Na ressaca de uma ida às compras, com o corpo habituado ao descanso e ao silêncio

 

Quando estamos no campo, o tempo flui de uma outra maneira. Durmo mais, levanto-me tarde e isso não atrapalha o resto do dia porque tudo corre tranquilamente, quase como se o tempo deslizasse com todo o vagar.

Com o calor que tem estado, só se consegue estar bem dentro de água ou dentro de casa. Só ao fim do dia se consegue andar na rua. E, ao fim do dia, com a doçura do entardecer, tudo é serenidade. O tempo em tardança.

Sou eu e é ele: zen, zen, zen
Ainda hoje, no campo, à sombra, a dormir descansadamente

Portanto, com este ritmo pausado, o meu corpo parece desabituar-se da agitação, do movimento.

Aconteceu-me hoje um banho de imersão num bem animado shopping. Já no outro dia, quando um dos meninos fez anos, fomos às compras com ele (e com o mano). Mas a transição do campo para a cidade não foi como hoje, foi mais rápido e só um dos rapazes estava comprador. 

Hoje, com dois leõzinhos em vias de fazerem anos, de presente quiseram também ir às compras. Só ao fim da tarde porque antes estiveram na praia. 

Ele despachado, muito pragmático. E impaciente. No capítulo das compras, igual ao pai. Antes tinha-nos avisado qual a hora limite pois tinha que estar em casa a tempo de tomar banho e jantar para, quando começasse o jogo, queria estar a postos em frente da televisão.

Ela é outro comprimento de onda. Disponível para avaliar todas as opções, com gosto em experimentar tudo, sem pressa. Neste capítulo, igual à tia. Disse o irmão que, só por saber que ele se queria despachar para não perder pitada do jogo, já ela fazia tudo mais devagar. Ela disse que não mas não sei se, lá no fundinho, ela não se importou nada de não corresponder às pressas dela. Contudo, penso que, nela, é, sobretudo, o prazer de ir às compras e de experimentar toilettes. Compreendo-a. Não posso esconder que sou também assim. Talvez não agora, em que me forço a não ceder ao consumismo, mas, antes, o prazer que sentia em adquirir farpelas novas era grande e sempre renovado.

Portanto, gerir estas duas personalidades e motivações, foi uma coisa um pouco complexa: ele desesperado, farto, irritado, ela nas calmas, nas sete quintas. 

Entretanto, o meu marido resolveu levar o cão, mas, logicamente, ficou lá fora a passeá-lo. Não sei se imaginou que seria rápido mas, se imaginou, imaginou mal. Por isso, também desesperava, telefonando-me volta e meia a pedir-me um ponto de situação, dizendo que já não conseguia andar mais tempo às voltas. Pelo meio, ligou-me também o meu filho a querer saber onde andávamos pois daí a nada começava o jogo, e, perante o ponto de situação, disse-me que eu não estava a gerir bem as prioridades. Talvez, mas perante abordagens contrárias, até conflituantes, que poderia eu fazer?

Segundo ela, foi o irmão que ligou aos pais a queixar-se dela e a mostrar o seu desespero. Não vi mas ele não negou. 

No final, ela já estava bem abastecida, embora ainda com um item em falta, ele ainda quase sem nada.  Vi o caso mal parado. Ele já não queria nada para ele nem queria que a irmã fosse comprar o que lhe faltava. Tive que convencê-lo, iríamos a correr, tudo muito rápido. Não podia ser ficar praticamente sem presentes. Respondeu-me que logo comprava, noutra altura, e depois logo dizia quanto tinha custado. Disse-lhe que isso não tinha jeito nenhum. Uma negociação difícil. Com a promessa de que despacharíamos o assunto em poucos minutos, lá acabei por convencê-lo e lá se resolveu tudo. Mas disse que não volta a ir às compras ao mesmo tempo que a irmã. E, de facto, mais vale tratar do assunto em duas expedições distintas, uma para cada um.

Mas, enfim, entregámo-los em casa resvés campo de ourique, presumo que ainda conseguiu ver o futebol todo (não sei se teve tempo para o banho e se não teve que jantar em frente da televisão...). Os primos, em contrapartida, gentileza do tio que lhes arranjou bilhetes, viram-no ao vivo, no Algarve.

Agora o que acontece é que, desabituada de estar no meio de muita gente, desabituada de algum stress (por irrelevante que seja), desabituada de pressas, chegada a casa, quando acabei de jantar, sentei-me aqui no sofá e foi como se estivesse anestesiada: caí num sono profundo. Não imaginam. Não conseguia acordar. Ferrada, ferrada, ferrada, como se tivesse vindo de correr a maratona.

Não sei se é desábito, se é deste calor ou se é de outra coisa: no outro dia o meu marido disse-me que eu passo meses sem ver a tensão arterial. Muito instada por ele, acabei por ir ver e estava baixíssima: a máxima parece que estava em 10 e picos e a mínima nem chegava aos 5. Na volta, também é isso.

Com esta situação, como poderão imaginar, nem faço ideia do que se passa no mundo nem consigo agradecer e responder os comentários. Vou retirar-me para os meus aposentos.

segunda-feira, julho 28, 2025

Um domingo feliz

 

Festejámos, em família, o último aniversário de Julho, o terceiro. Daqui por poucos dias iniciam-se os de Agosto, mais três. Bem quero manter-me na linha, mas as tentações são sempre mais que muitas. Claro que eu poderia manter-me de boca fechada, em especial quando chega a hora dos bolos. Mas com a falta de açúcar que entra na minha dieta rotineira, quando me apanho com um doce à frente nem tento controlar-me. Pelo contrário, sobe em mim uma insana vontade de me desforrar, vontade essa que não contrario.

De cada vez que nos encontramos pasmo com o que está a acontecer-me. Estou, de dia para dia, relativamente mais pequena. Uma coisa que me deixa diminuída, digamos assim. E, contudo, fora deste contexto há quem me ache alta. Alta eu sei que não sou mas, caraças, também não sou uma anãzinha. Mas é assim que me sinto quando estou ao pé dos mais altos. E repare-se que a meio da semana almoçámos com dois dos meninos e no domingo anterior tinha estado com todos. Portanto, não passou um mês desde que os tinha visto. E, no entanto, juraria que este domingo estavam todos mais altos. Já ao fim do dia, fiz questão de me fazer fotografar entre os dois rapazes mais altos. Grandões, peludos, cabeludos, com o braço sobre os meus ombros, tenho que virar a cabeça para cima para lhes ver a cara. A impressão que me faz o ritmo a que isto se processa. 

A minha menina também já está uma mulher. No outro dia, andando em passeio, estava a apanhar banhos de sol sobre uma rocha e a fotografia que o meu filho enviou tinha sido tirada de um ângulo em que eu não via muito bem a cara. Parecia-me ela mas achei que pelo corpo não podia ser, devia ser a mãe dela. Virei o telemóvel para ver se a via de frente mas o telemóvel rodava a imagem. Só então reparei na minha nora, de pé, na água, junto à rocha. Só visto. Também já me ultrapassou. Com os seus olhos claros, toda ela grande, faz-me lembrar as jovens do norte da Europa. O mano seguinte também está mais alto, claro, quase a apanhar-me. Mas ainda não entrou naquela fase da adolescência em que, quais feijões mágicos, deitam corpo diariamente. O mais novo, ainda na primária, evidentemente ainda se mantém um menino (apesar de um espertalhão e de um reguila de primeira, o que não é de admirar face à 'escola' que tem de todos os lados - para além dos dois irmãos, pelo lado do pai tem dois primos e, pelo lado da mãe, tem mais quatro; isto já para não falar dos primos em segundo grau e dos inúmeros filhos dos amigos dos pais).

Enfim, é a vida a florescer, uma primavera radiosa.

Os telemóveis têm vida própria e o meu volta e meia, geralmente à noite, dá um toque que me parece o de uma mensagem a chegar. Vou ver e é para me dizer e mostrar que tem uma nova história. . Há dois dias era uma história de há 3 anos. Por sua alta recriação, junta fotografias, passa-as de carreirinha como um vídeo e junta-lhe uma música. Quando fui ver até estremeci. A primeira era da minha mãe, toda sorridente, jovem, bem encarada, elegante. Estávamos no Algarve. Um dos meninos já estava espigado mas o que hoje está já da altura do mais alto ainda era um menininho, bem mais pequeno, nem se compara, carinha de menino. O que eles cresceram nestes três anos nem dá para acreditar.

Fiquei a pensar que a minha mãe, naquela altura em que respirava saúde, em que andava pela praia sem se cansar, sempre na boa, em que, a caminho dos noventa, nos deixava pasmados com a sua vitalidade, mais do que certamente já tinha o mal a crescer dentro dela. Aliás, creio que foi pouco depois disso que fez um exame que alertava para a probabilidade de haver ali um problema, recomendando exames complementares, exame esse que ela escondeu de toda a gente bem como escondeu o facto de a médica lhe ter telefonado duas ou três vezes a insistir para ir fazer o exame e a informá-la do que poderia vir por aí. Mas, na altura das fotografias no Algarve, por tudo o que me recordo e pelo seu ar tranquilo e bem disposto das fotografias, tenho quase a certeza de que ela pensava que estava tudo bem. E como não, se não tinha qualquer sintoma? Sabia, isso sim, que tinha insuficiência cardíaca, mas não era nada de especial e os médicos diziam que, na idade dela, era normalíssimo. Estava medicada e eu estava descansada. Nunca a vi a tomar um único comprimido que fosse, mas, se eu lhe perguntava, dizia que já tinha tomado e que depois voltava a tomar à noite, antes de se deitar. Porque haveria eu de desconfiar? No entanto, poucos meses depois vim a descobrir que a insuficiência cardíaca se tinha agravado e que, se eu sabia que um dos comprimidos ela se recusava a tomar por achar descabido e com muitos possíveis efeitos colaterais (julgando eu que a médica estava ao corrente dessa sua decisão e a relevava), muito provavelmente também não tomava o outro que eu julgava que, para ela, era pacífico. Mas, naquela altura, ela estava tão bem que eu não tinha razão para duvidar de coisa alguma. Isto há três anos. E ela já morreu há ano e meio. Ou seja, tudo o que se passou, passou-se muito rapidamente e de uma forma muito incompreensível para mim pois a gestão que a minha mãe fez do seu quadro clínico deixava-me muito confusa. Com o que vim a descobrir aos poucos, estou em crer que o que a arrasou mais e motivou as suas decisões foi o seu pânico em tomar medicamentos e, com certeza, muito mais, em fazer quimio ou radioterapia. Preferiu fazer de conta que tomava os medicamentos e, sobretudo, preferiu fazer de conta que não sabia o mal que tinha.

Mas, enfim, não vale a pena estar a pensar nisto. Tenho que pensar que, com a idade que tinha, provavelmente não poderia mesmo fazer tratamentos agressivos e viveríamos todos na angústia de saber que não viveria muito. Assim, pensávamos que não tinha nada e ela não se viu forçada a ser tratada como uma doente terminal. E, se calhar, acreditou naquilo que em que falávamos muitas vezes: nestes casos, a idade joga a favor, as células já não se multiplicam rapidamente. Aparentemente tinha esperança de viver muitos mais anos e isso também foi bom.

Hoje os meninos lembraram-se dos belos crepes que ela fazia. O mais novo disse que nunca mais tinham comido daqueles crepes. Não sei quem disse que, sim, já tinham comido, sim. Ele esclareceu: 'Feitos pela avó não'. Apeteceu-me comentar que ficava contente por se lembrarem dela. Mas não quis parecer que estava a querer puxar ao sentimento, pensei que isso poderia deixar os miúdos constrangidos, poderiam pensar que me estavam a entristecer ao falarem nela. As coisas devem ser naturais. É bom que percebam que a vida continua, que a alegria deve viver entre nós, juntamente com as memórias que cada um guarde.

Quando chego ao fim do post, penso como hei-de resumir tudo num título. Agora vacilo. Ia escrever 'Um domingo feliz com saudades dentro' mas vou deixar ficar só o 'um domingo feliz' porque as memórias e as saudades não têm que macular a felicidade. Não maculam. Integram-na.

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E ia escrever sobre mais uns vídeos que, agora à noite, vi com declarações de várias mulheres que foram vítimas de assédio e abuso por parte do Trump, mas, vejam só, derivei para esta conversa. Acontece, não é?

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

terça-feira, julho 08, 2025

Quando formos para melhor

 

No fim de semana, parte da família esteve a banhos no sudoeste e, da outra parte, um dos meninos esteve numa festa de anos, numa destas festas que também são happenings, desta vez incluindo equitação. Fui recebendo fotografias de uns e de outros, uns a mergulharem, outras a cantarem, um a andar a cavalo. 

Portanto, a casa não esteve tão cheia como quando estão todos, mas foi igualmente bom. Se sei que estão todos bem também estou bem. 

O bem estar e a felicidade são estados de geometria variável.

No outro dia recebi uma fotografia de uma das minhas primas com o seu neto mais novo, o que conheci no dia do velório e que voltei a ver no dia da cremação da minha tia. Na fotografia estava também o meu tio que, como sempre, estava impecável. Por tanto que tem passado e mantém-se inalterável, sempre muito bem arranjado, sempre com boa cara, mesmo muito bem. Está quase igual ao meu avô, seu pai.

O tempo passa a correr, é o que é. Penso que o nome deste meu tio, o petit nom pelo qual era chamado, foi a segunda palavra que disse (a primeira foi cão). Embora pouco efusivo -- nada a ver com o meu outro dia que falava alto, que ria, que conversava e contava histórias --, sempre admirei a contenção e os modos reservados deste meu tio. Levava-me a andar na sua bela mota, com cromados reluzentes. Os meus pais não queriam, mas ele transgredia. Eu sentia o cabelo ao vento em especial quando ele curvava. Ninguém usava capacete. Depois arranjou uma namorada bonita, com uns grandes olhos verdes e uma voz com um timbre distinto. Levou-me algumas vezes com ele quando ia namorar. Aquela namorada despertava-me curiosidade. Devia ter uns quatro anos, eu, e achava que ela parecia uma artista de cinema. Algum tempo depois fui a menina das alianças e levei um vestido todo feito de renda branca e o cabelo apanhado em cima, com uma fita de rendas em volta.

Agora ele já tem uma bisneta que é igual, igualzinha, à minha prima. Até na forma como se riem, gargalhando de forma franca, aberta. Agora a minha prima já não ri assim, está muito parecida com o pai, nos modos contidos. Mas, quando era pequenina, a minha prima ria muito. Eu também. Por vezes tínhamos ataques de riso e partíamo-nos a rir. A minha mãe diz que ficava com vontade de rir só de ver como nos ríamos. 

E, para além da bisneta que é igual à filha, quando era pequenina, o meu tio agora tem este bisneto bebé, também muito fofo.

É aquilo que digo. A nossa vida humana dura enquanto nos aguentamos na passadeira rolante. De vez em quando há um que sai. Um ano depois da minha mãe, foi a minha tia que saiu. Mas, entretanto, pouco antes tinha entrado um novo bebé.

As famílias recompõem-se. É um fenómeno fractal. Também os nosso corpos vão libertando células velhas e novas vão aparecendo. Pouco somos daquilo que um dia fomos.

Contei, num vídeo que publiquei agora no Instagram, como, no outro dia, um dos meus meninos me perguntou para quem ficaria este espaço a que, entre nós, damos um outro nome mas a que aqui, no blog, chamo heaven: 'Olha lá, quando tu e o avô forem para melhor, o 'heaven' fica para mim ou para o pai?'. Num primeiro momento não percebi. Depois percebi que ele queria dizer 'quando forem desta para melhor'. Não me fez impressão a pergunta. Pelo contrário, fico contente que gostem tanto deste lugar. Já há uns anos, um outro menino, com mais hesitação, me tinha perguntado o que aconteceria a isto quando nós morrêssemos. 

O que me preocupa e o que me custa, isso sim, é pensar como pode ser difícil a sua vida quando forem adultos, quando tiverem os seus próprios filhos. Gostava que se mantivessem juntos, amigos uns dos outros, que vivessem numa terra verdejante, amena, pacífica, em que todos se estimassem e amparassem, em que o futuro fosse promissor e aguardado com optimismo e alegria. Isso era mesmo o que eu queria. 

Mas receio tanto... Hoje esteve outro dia de calor difícil de suportar. As temperaturas sobem, sobem. E, muito sinceramente, não vejo que em Portugal estejam a ser tomadas medidas estratégicas, de longo prazo, para combater, na medida das nossas possibilidades, as alterações climáticas. E devia haver um toque a rebate, medidas globais, que tocassem a toda a gente.

Vejo que na Suíça o Estado está a financiar o arranque do betão dos pavimentos para o substituir por jardins. Junto às casas, nos parques públicos, em todo o lado em que tal faça sentido, é um movimento que está a começar. Pretende-se que os solos consigam absorver as águas para que os rios não transbordem, pretende-se devolver à natureza o que à natureza nunca deveria ter sido retirado.

Vejo que na Dinamarca há incentivos estatais para que, a nível geral, a alimentação usual comece a ser substituída por alimentação sobretudo baseada em vegetais. A poluição resultante das explorações intensivas, nomeadamente de animais, é muito relevante. Tudo o que se possa fazer para a reduzir, sem prejuízo para a saúde humana, é de louvar.

Seria interessante que houvesse, por cá, uma chamada de atenção para a necessidade de se fazer alguma coisa -- e um plano de acções para fazer o que há a fazer.

Partilho os vídeos. Dá para activar a auto-tradução que, já se sabe, não é famosa mas que pode ser uma ajuda para quem não esteja à vontade com a língua inglesa.

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"Recuperar o espaço do betão: Como as cidades suíças estão a ficar mais verdes" - Focus on Europe

O betão está a abrir caminho para o solo, enquanto os ativistas suíços trabalham para recuperar o espaço urbano para a natureza. Como o solo absorve muito melhor a chuva, a iniciativa promete reduzir a carga sobre os sistemas de esgotos urbanos.

O ambicioso plano da Dinamarca para impulsionar os alimentos de origem vegetal | FT Rethink

Os alimentos de origem vegetal são essenciais para a transição verde da Dinamarca e deverão proporcionar benefícios económicos e de saúde significativos. A pequena nação escandinava é agora líder mundial neste sector. Então, como é que a Dinamarca fez isso? Será que esta estratégia poderia funcionar noutros locais?

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Dias felizes

quarta-feira, junho 18, 2025

Uma aventura no IKEA


No fim de semana, estávamos aqui à mesa, diz um dos meninos: 'O que eu gostava era de ir ao Ikea comer almôndegas.'. Ficámos estupefactos. Ao Ikea?! Almôndegas do Ikea?!?!?!

Toda a gente o contestou. Quem é que quer ir ao Ikea? E quem é que, ainda por cima, quer ir comer almôndegas? Dahhhh....

Mas o menino dizia que gostava mesmo de ir. Perguntei à minha filha porque é que não satisfazia o filho, se era coisa que ele queria assim tanto. Respondeu que pagava para não ir ao Ikea. E muito menos iria lá comer almôndegas.

E a conversa ficou por ali.

No dia seguinte, intrigada, perguntei à minha filha de onde conhecia ele as almôndegas do Ikea. Disse que, dantes, a sogra costumava ter em casa almôndegas congeladas e, quando apareciam os netos para almoçar, descongelava-as. Se calhar não era sempre, se calhar aconteceu algumas vezes. Mas as suficientes para o menino sentir saudades.

Acresce que está de férias e, tirando os treinos de futebol, pouco tem que fazer. Um dos primos do menino também está de férias.

Então, ocorreu-me o seguinte: 'E se fossemos buscar um e outro e fossemos com os dois  ao Ikea comer almôndegas?'

O meu marido foi categórico: não, não e não. Nem Ikea nem almôndegas. Segundo ele, um disparate sem sentido. Nem pensar em ir enfiar-se no Ikea, nem pensar ir para o restaurante do Ikea, nem pensar em almôndegas. Não e não e não. Assunto encerrado.

Fui ver o menu do restaurante e vi que há outras iguarias. Li-lhe.

E falei-lhe no prazer que daríamos ao menino que estava com saudades das almôndegas. E o primo, certamente, ficaria feliz por ir também.

Auscultei os respectivos pais. Por eles, sim. 

Mas o mano do primeiro também quis ir. E a menina, que eu pensava que estava com aulas, afinal esta terça-feira não as tinha, pelo que também estava livre e também quis ir. 

(O mais novo se calhar nem chegou a saber desta aventura... Está ainda na escola.)

Pôs-se, pois, o tema logístico. O carro só dá para cinco... 

Então fomos buscar dois, depois eu e a menina ficámos no Ikea e o meu marido e o outro menino foram buscar os primos.

Foi, pois, dia de festa. A alegria de estarem juntos num programa tão fora da caixa...

Todos contentes, com carrinhos, lá fomos buscar a comida. Comeram wraps de salmão para entrada, os rapazes comeram almôndegas, dose maxi, 12 almôndegas cada, com puré de batata, bolo, água (o mais crescido bebeu coca-cola, já se sente um rapaz crescido...). Quis que levassem salada mas disseram que não, que a alface do wrap era suficiente... Dois dos meninos levaram uma peça de fruta, os outros não quiseram. Ficaram a deitar por fora, todos contentes com o pitéu... Eu comi lombo de salmão, o meu marido e a menina comeram pernil estufado. 

Depois, surpreendentemente, na saída, entusiasmaram-se com os peluches. 

Já crescidos... mas parece que lhes deu a nostalgia dos peluches. Ela trouxe um alien, o mais crescido um pinguim que diz que é para oferecer à namorada pois estão quase a fazer 6 meses de namoro, outro trouxe um macaco e disse que era para o irmão e o menino que teve a ideia inicial das almôndegas trouxe uma bola de futebol mas ficou com pena de não ter trazido também um macaco (ficou prometido para a próxima). 

Os pais, quando viram as fotografias que lhes tirei a andarem com os peluches nem queriam acreditar. Mas eles estavam radiante. Um dos meninos disse que aquilo deveria passar a ser uma tradição, nas férias irmos todos almoçar ao Ikea (não sei se sempre almôndegas ou se a tradição admitirá variantes).

Depois um dos meninos pediu para ficar em casa dos primos, os três sozinhos em casa. Obtidas as devidas autorizações, assim foi, lá ficou. A menina ficou um pouco tristonha mas tem exames, tem que estudar, e logicamente não tinha levado os livros, tinha mesmo que ir para casa. 

Para o lanche, ainda lhes comprámos lá, ao lado do snack, umas panquecas congeladas e bolachas. Os anfitriões não queriam, que há muita comida em casa, que não, que não. Mas depois, na perspectiva das panquecas e daquelas belas bolachas, aceitaram. Disseram que poriam as panquecas no microondas e as comeriam com mel.

Soube depois que, enquanto o mais crescido estava a estudar para o exame, o menino que está de férias foi com o primo, os dois sozinhos, ao supermercado comprar nutela com o seu próprio dinheiro.

Claro que o pior foi o trânsito que depois apanhámos, uma seca das valentes. Fomos pôr a menina a casa que, imagino eu, não deveria estar com grande vontade de ir estudar... Os exames deveriam acontecer no outono ou no inverno ou no início da primavera. Agora exames no verão é um sacrifício para os jovens...

E ainda fomos comprar tinta para pintar o resto do muro e mais ácido muriático e mais uma série de coisas. Um calor dos diabos. 

Mas foi um dia muito bom. Gostei muito. E o meu marido também estava contente. Não é preciso muito para as pessoas se sentirem felizes.

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Uma boa quarta-feira

Be happy

quarta-feira, março 01, 2023

Coisas mais fofas

 

Durante quase treze anos tivemos na nossa família uma cãzinha muito meiga, uma santa que, a esta hora, deve estar a olhar por nós a partir do céu dos cães. Nunca desobedecia, nunca rosnava, era uma ternura, uma brincalhona. Os meus filhos adoravam-na e nós também.

Quando o meu filho começou a trabalhar (a minha filha já trabalhava há mais tempo pois é mais velha), deixando de poder levá-la à rua a meio do dia (morávamos num apartamento), passei a ir levá-la a casa dos meus pais à segunda de manhã, indo buscá-la à sexta à tarde. Custou-nos. Mas era melhor para ela.

Nessa altura foram os meus pais que se afeiçoaram fortemente a ela. O meu pai levava-a a passear à praia ou ao campo e a minha mãe dançava sob o seu olhar atento. Contavam-me as suas proezas e meiguices quase como se falassem de um neta mais nova.

Daqui
Depois foi o meu pai que teve o AVC e, com a revolução que isso representou lá em casa, era totalmente impossível ela lá continuar.

Foi uma época complicada para toda a família. 

E para a nossa cãzinha mais fofa também: passou a ficar todo o dia sozinha em casa. Não me lembro se o meu marido de vez em quando dava um salto a casa à hora de almoço. Só que, nessa altura, já ela estava com os problemas de saúde que advinham da sua idade avançada.

Sofri com os seus desmaios, sofri com a sua falta de força resultante de uma anemia, sofri quando tinha que ser internada ficando a olhar-me com tristeza, sofri, sofri muito, mesmo muito, quando aceitámos o que a veterinária nos vinha dizendo, que já não fazia sentido continuar a prolongar-lhe o sofrimento. Chorei como se chorasse a morte de um ente muito querido. 

Durante anos não consegui falar dela, tantas as saudades que tinha e tanto que a nossa decisão me tinha pesado.

Por isso, nem queria pensar em voltar a passar por tal situação, achava que não suportaria outro idêntico sofrimento.

A nossa fera derretida com o mimo de um dos meninos

Até que há um ano e meio, depois de filhos e netos muito insistirem na alegria que seria voltarmos a ter um cãozinho na nossa família, o meu coração abriu espaço para um outro amigo.

Depois de algumas tentativas falhadas, fomos ver um peludinho cuja mãe era pastora num monte alentejano. Quando ligámos ao dono, um pastor, mal o ouvíamos, só se ouviam badalos. Apareceu-nos depois, vindo directamente do monte, e tinha um tufo de pelo no banco do carro. Peguei-o imediatamente ao colo e ele logo se aninhou em mim. Amor à primeira vista.

Um Serra de Aires, um puro cão pastor, não tem nada a ver com uma Boxer. É teimoso, irrequieto, tem uma vontade muito própria, é refilão, de vez em quando mostra os dentes (embora cada vez menos), de vez em quando rosna (embora cada vez menos, cada vez mais baixinho, ficando depois a olhar de lado a ver se ficámos zangados) e tem um energia infindável. Mas é uma companhia alegre, é inteligentíssimo e de uma doçura que talvez supere a da nossa querida cãzinha. É-nos de uma total dedicação e tem manifestações de uma tocante ternura. E adora toda a família.

Sei que um afecto assim dificilmente se compreende por quem não tem ou nunca teve um cão. Mas quem já conheceu o amor verdadeiro e incondicional de um cão certamente compreende.

O nosso urso mais fofo agora com o pêlo em vias de ficar igual ao que era antes da tosquia

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Este vídeo aqui abaixo mostra como são afectuosos estes queridos amigos.

Beije o seu cão e registe a sua reacção


Um dia bom
Saúde. Amor. Paz.

domingo, julho 24, 2022

Dia de festa

 

As opiniões dividem-se: creio que é quase unânime que hoje festejámos com o primeiro leão mas também já vi dizer que são os últimos caranguejos. Mas inclino-me fortemente para que seja leão. A personalidade parece-me claramente de leão. E se a tem já a querer vincar-se... Assertivo, persistente, focado, entusiasmado, por vezes insistente até à centésima casa, com um sentido de humor fantástico. 

(E com um apetite que não dá tréguas).



Foi o primeiro menino, aquele que nasceu ontem deixando-me em lágrimas de tanta emoção, aquele que me baptizou como Tá, aquele a quem primeiro estamos a ver a dar aquele salto mágico em que as crianças começam a deixar a infância para trás e, de repente, aparecem perante nós já a parecerem gente grande. É que, afinal, imagine-se, já fez catorze anos. Não dá para acreditar. Já está grande, maior que eu, claro, também já a ultrapassar a mãe, daqui a nada da altura do pai. E já com voz grossa. E já a encantar-se, de paixões intensas e súbitas, com meninas que conhece na praia. 

Já a combinar encontrar-se com um amigo que conheceu no hotel, ambos malucos por futebol, cheios de programas -- jogos de futebol, conversas sobre futebol, mergulho e polo quase aquático na piscina, depois a conhecerem as meninas na praia, a trocarem instagrams. Todo um programa. Até há pouco era uma criança e, de repente, tem modos de rapaz e porta-se como um rapaz. 

O irmão, de quem até há pouco não fazia grande diferença, está agora bem mais baixo, ainda uma criança. 

Mas, portanto, foi mais uma tarde de alegria e animação. 

Houve quem se posicionasse na bateria (e até eu, confesso, me pus a tocar, uma coisa boa para deitar cá para fora não apenas calorias acumuladas como raivas não consumadas). E houve quem se ficasse pela guitarra e quem se atirasse ao piano. Afinal parece que quase toda a gente sabe tocar qualquer coisa ao piano menos eu. Ainda me lembro do suplício de quando, em miúda, andei a aprender. Não aprendi nada. Nada. Zero. Tenho pena mas é daquelas coisas para as quais a minha intuição e habilidade falham em toda a linha.

Até o mais novo dança com os seus dedinhos pequeninos sobre o teclado. Um ternurinha. Aplicado, explorando os sons. Foi ele que acompanhou ao piano (à sua maneira, claro), o momento dos Parabéns a Você.

Mas quem, uma vez mais, nos surpreendeu, mas surpresa a ponto de nos deixar de boca aberta, foi o primo do meio.  Não estarei a ser rigorosa nesta designação pois o menino dos anos tem doze primos e este de que falo não se situa a meio da escala. Refiro-me ao do meio do meu filho, que tem três filhos, o menino que, a par de outros talentos, tem um instinto natural para a música. Canta de improviso, toca, dança. As letras rimam, fazem sentido. E canta afinado e com um vozeirão. E expressivo. Quer ele quer o primo que o acompanhou são uns sentimentais, fazem expressões de drama, fecham os olhos com sofrimento. Ele ao piano e o primo à guitarra, só visto. 

Eu e a minha filha, filmámo-los, ambas estupefactas (tal como estupefactos estavam todos os que assistiam). Sempre o soubemos com veia artística mas vem ganhando novas valências e a voz está um espanto.

Ao ver os vídeos farto-me de rir com o sentido de amor e a graça deles (mesmo quando as canções que ele inventa são de fazer chorar as pedras da calçada). Maltinha mais danada para a brincadeira, mais animada.

Como bolo dos anos, o jovem aniversariante pediu para não ser um bolo artístico ou avant-garde: gostava de ter um bolo de anos tradicional, por dentro pão-de-ló e doce de ovo e, por cima, cobertura de açúcar. Então, saiu à cena um bolo do Sporting, coisa que quase causou algum desconforto ao lado benfiquista da família. 


No fim, todos os que se aventuraram a comer o revestimento sportinguista apresentavam-se com a língua devidamente tingida de verde. 

Mesmo os benfiquistas a tinham verde!


Como não comi a cobertura, apesar do meu coração se inclinar para os verdes de Portugal, a minha língua não ficou relvada. 

Quanto à pequena fera cabeluda, deu uma certa luta. Primeiro, o animal está cansado, esta ideia de o pormos a fazer férias connosco não resulta. Vemos pessoas com cãezinhos pequenos, alguns ao colo, sossegadinhos, caladinhos, pequenos e amorosos peluches. Ora este é um brutamontes bom para guardar rebanhos e afugentar riscos verdadeiros ou potenciais. Não é, nem nunca será, um lulu.

Claro que, de tanto ladrar, de tanto saltar, de tanto querer correr, de tanto ser contrariado, de tanto calor, de tanto andar na areia ou a passear, já só quer estar à sombra a descansar. Mas, coitado, não tem conseguido. 

Claro que estar rodeado por tanta gente é para ele uma festa e, ao mesmo tempo, um desafio. 

Por exemplo, hoje, na festa de anos, a sua curiosidade natural leva-o a querer mexer em tudo... mas ninguém quer que ele mexa em nada. 

Toda a gente se acerca da mesa e ele também quer ver o que lá há. E toda a gente pode servir-se e só ele é admoestado. Parece que só está bem quando fica sentado a olhar, infeliz, sem poder tocar.

Mas houve uma menina que deixou um pratinho esquecido com côdeas de piza... e foi o que ele quis. Não me perguntem como, mas mesmo com os olhos cobertos por uma espessa franja cabeluda e no meio da maior confusão, ele descobre sempre, de imediato, o que pode abaratar. Chamou-lhes um figo.

Agora vamos ter uma semana de tréguas mas logo a seguir os leões continuam a atacar e em grande força.

(Escuso de dizer que, tal como acontece com o urso cabeludo, também eu estou capaz é de me deitar no chão, à fresca, sem me mexer.)

Tirando isso, tá-se. A vida passa a correr e, por isso, temos que saber aproveitá-la e que gostar de agarrá-la bem agarrada para a vivermos em estado de encantamento. (Será que era a isto que o Valtinho se referia quando dizia que é urgente viver encantado? Bolas. Vou já rever a frase.). 

Temos que saber viver a vida e gostar de agarrá-la bem agarrada para a vivermos numa boa. E longa vida ao meu menino crescido e a todos os meus meninos e a todos os meninos deste mundo. 

E, a propósito, vai daqui um beijinho especial para a linda Maria cuja fotografia a Lurdes me enviou.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Boa disposição. Paz

segunda-feira, abril 25, 2022

25 de Abril.
Nome do meio: Liberdade

 


Estes meus dias, o sábado e o domingo, foram dias muito bons. Estive com a família, com os meus meninos. O meu coração abre-se num abraço quando estou com eles. 

Sinto-me feliz e agradecida e gosto de ver que eles também se sentem bem. 

Os primeiros que chegam perguntam sempre pelos outros. Neste domingo não estiveram ao mesmo tempo. Os que vieram na parte da manhã tinham, logo a seguir ao almoço, um programa de festas apertado e que começava cedo. Por isso, quando os segundos chegaram já os primeiros tinham saído. Ficaram com pena. Mas, apesar disso, quer os da manhã quer os da tarde estiveram felizes da vida. Gostam de cá estar. 

Agora, para além dos primos e tios e avós há também este ser felpudo, amalucado e meigo, que fica doido de alegria quando os vê.

Brinca, brinca, deita-se para receber mimo, anda no meio de nós recebendo carinho de uns e de outros. 

Este domingo, o menino mais crescido -- que vai ter teste de português esta semana --, para treinar a composição, escreveu um texto (por sinal muito bem escrito e imaginativo). Eu li o texto, elogiei embora tivesse ressalvado um erro ortográfico e umas vírgulas fora do sítio, e a mãe leu-o também e também fez os seus comentários. Às tantas, vimos a pequena fera de composição na boca. Com tantos comentários, deve ter querido saber se também aprovava. Então, o menino dizia: 'Senta' e ele parava de correr e sentava-se. O menino dizia: 'Fica' e a fera ficava. Então o menino aproximava-se e dizia: 'Larga'. E a fera desatava a correr como se não houvesse amanhã, a composição na boca.

O mano dizia que o seu amigo felpudo era terrível, se calhar saía ao padrasto. 'Ao padrasto...?!'. A mãe perguntou: 'Ao padrinho?'. Sim, era isso, confirmou ele, o padrinho da fera.

De manhã, ao abraçar e beijar o mais novo, disse-lhe: 'Meu menino mais lindo'. E ele disse: 'Os meus pais nem sempre estão de acordo'. Assim, de repente, não percebi. 'Não estão de acordo com quê?'. Ele encolheu os ombros e disse: 'Que eu seja um menino lindo. Eu às vezes sou maroto...'. Abracei-o ainda mais, 'Meu marotinho mais lindo'.

Enquanto isso, a menininha ajudava-me na cozinha e confessava que adora cozinhar mas coisas complicadas, dizia. O irmão do meio, também a ajudar, refutava: 'Mas, mana, se tivermos que fazer o jantar, temos que saber fazer o básico, arroz, mexer um ovo'. E ela, na base do dahhhh...: Ó mano, claro que sei fazer isso tudo...

Todos eles me surpreendem, encantam e divertem, cada um à sua maneira. 

Apontamentos de momentos de maravilhamento e boa disposição. Tomara que sempre os retenha na minha memória e eles na deles.

Mas não me sinto apenas feliz por vivê-los: sinto-me também agradecida. 

Vivo num país lindíssimo, acolhedor. O clima é aprazível. O ambiente é luminoso e descontraído, as pessoas são afáveis e bem dispostas.

Antes espantava-me quando, nos outros países, via as pessoas deitadas ao sol, na relva, em jardins públicos, algumas em fato de banho. Ou pessoas cantando na rua, outras fazendo acrobacias. Pessoas andando de barquinho a pedais em lagos, as esplanadas cheias, gente cantando ou rindo em voz alta. Em contrapartida, por cá, as praças estavam vazias, ninguém se deitava na relva em parques públicos, quase não havia esplanadas e, nos restaurantes, falava-se sempre à boca pequena. Talvez fosse ainda o lastro do regime anterior, soturno, ensimesmado. As pessoas viviam viradas para dentro de casa e para dentro de si próprias. Havia ainda a psicose do que os outros pensavam ou deixavam de pensar. As pessoas tinham medo de se expor pois temiam a censura alheia.

Felizmente a nossa democracia foi amadurecendo. Desinibimo-nos, aprendemos a divertir-nos. E ninguém leva a mal.

Agora somos um país aberto aos outros e à diferença, as ruas estão cheias de vida e de diversidade, há alegria e vontade de partilhar e de conviver com a natureza e com os outros.

Vivermos num lugar assim -- um lugar tranquilo, luminoso, pacífico, cheio de sol e de mar e de jardins e serras e em que se vêem pessoas de todas as cores falando todas as línguas, vestidas das maneiras mais inesperadas, fazendo as coisas mais bizarras -- é uma felicidade.

E, se me sinto feliz por poder viver e testemunhar esta sorte, a verdade é que sei bem o quanto tudo isto é frágil.

Desejo que seja perene e que deixe boas memórias em quem vive estes momentos bons mas não me iludo: de um momento para o outro tudo pode mudar, tudo se pode perder.

Há cerca de dois anos fomos todos mandados para casa porque um vírus ameaçava a nossa vida normal, obrigando-nos a uma adaptação repentina a outros hábitos, longe uns dos outros, sem contacto físico, receando contagiar-nos uns aos outros.

Pelo meio o meu pai morreu e não apenas não pudemos velar o seu corpo (o que não me custou muito pois penso que me teria custado mais estar numa capela rodeada de gente sabendo que o seu corpo frio estava ali, ausente, destituído daquilo que ele tinha sido) como foi muito triste ver chegar a carrinha com o caixão envolto em película aderente e estarmos cá fora, poucos, todos meio abandonados. Pensar que o meu pai estava ali e nós a despedirmo-nos dele tão pouco condignamente causou-me muita tristeza. Mas tudo é relativo. Na morte e nas despedidas há sempre tristeza, de uma forma ou de outra.

Ao fim de dois anos, agora que a pandemia está a dar mostras de acalmia, acontece a invasão de um país por outro que o quer anexar e que, para o conseguir, o bombardeia, assassina pessoas, destrói cidades e obriga a expatriar milhões de pessoas. Famílias inteiras destroçadas. Uma tragédia infinita e imperdoável.

Estou feliz, a minha casa íntegra, a minha família unida. E a primavera aí está, florida, renascida, cheia de flores e canto de passarinhos. 

E eu ando deleitada, fotografando tudo e todos, olhando cada coisa como se fosse a primeira ou a última vez.

Mas sei que tenho sorte e que nada é garantido. 

Mas é bom enquanto dura e sempre farei o que está ao meu alcance para que sejamos felizes, livres, donos do nosso destino. 

E Macron venceu em França e a Ucrânia há-de manter-se um país livre e independente e tenho esperança que conseguiremos voltar a acreditar num mundo sem muros, sem guerras, sem mal.

(E não quero saber se isto soa a ilusão sem sentido. Quero acreditar que será possível sonhar com isso e isso chega-me)

Não tenho cravos para aqui festejar Abril. Mas Abril é um mês que não apenas acolhe todas as vozes como todas as flores e, por isso, termino o texto com uma flor de que gosto muito. Para todos os que por aqui passam.


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25 de Abril sempre

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Um dia bom
Generosidade e afecto. Liberdade. Paz. 

segunda-feira, abril 04, 2022

Dia em família

 


Tenho estado aqui a ver se arranjo energia para começar a escrever. O dia foi muito bom mas começou cedo e acabou tarde e veio na sequência de uns tempos bastante atarefados. Talvez por isso, agora me sinta sem pilhas.

Festejámos mais um aniversário. Não foi hoje o dia dos anos mas foi o dia da festa da família. 

Entre caminhada matinal, compras no supermercado, ir buscar a minha mãe, almoço, preparar as coisas, ténis em grupo, lanche e brincadeiras e, no fim, ir levar a minha mãe, foi muito bom mas, quando chegámos, estávamos os dois com vontade que não viesse aí uma segunda-feira mas um domingo. A minha mãe dizia, no carro: "Vocês deviam era ir uma semana para um hotel para dormirem até tarde, para dormirem a sesta, para descansarem. Vocês não descansam.". Ao ouvi-la pensei que isso deveria acontecer no primeiro dia, dormirmos bastante, mas que, ao segundo, já não deveríamos aguentar-nos sem nada que fazer.

Os meninos estão crescidos, bonitos, amigos uns dos outros, sempre bem dispostos. Desta vez quem fez anos foi o menino que, durante algum tempo, aqui tratei por bebé e a quem, pouco depois, passei a chamar ex-bebé. Chorava que se fartava, em especial de noite, quando era bebé. Não se percebia o que se passava mas a verdade é que não deixava a mãe dormir. O pai, nessa altura, estava a trabalhar longe e ela, sozinha com dois pequenos, um dos quais a chorar toda a noite, passou um mau bocado. Quando resolvi tentar eu, até para dar lhe dar tréguas a ela, não consegui fazer nada dele. Chorava, fazia birras, não se cansava. O meu marido perguntava-me, espantado: 'Mas que é que o puto tem? Alguma coisa deve ter para berrar desta maneira...'. Mas, que se soubesse, não tinha nada a não ser o não dormir nem deixar dormir. Noites em branco. Quando se deixou disso, virou um menino tranquilo, meigo, muito boa pessoa. Como sempre foi muito dado ao desporto e a tudo o que sejam actividades físicas, acabámos por ficar surpreendidos por ser tão bom aluno e por, afinal, ser também dado a gostar de história (imagine-se...) e ser sensível, mesmo sentimental. Nunca se zanga com ninguém, nunca arranja problemas, ajuda os outros, tenta ir de encontro ao que os outros gostam e, claro, toda a gente gosta dele.

É o padrinho da pequena fera. Tanto queria um cão, tanto pediu e tanto logo se afeiçoou, mais que qualquer dos outros meninos, que só poderia ser ele o padrinho.

Nestes dias, a pequena fera anda de um para outro, todos brincam com ele e o enchem de festas e de mimo. 

Quando estão juntos, os meninos falam muito, têm sempre imenso a conversar. Dois deles, dois homónimos, os que sabem muito de futebol, tentam apanhar o outro em falso. O mais novo desses dois, o que hoje foi repórter e é um bacano bem disposto e cheio de marotice, bem tenta desarmar o primo mas o primo, o mais velho dos cinco, é enciclopédico no que se refere a jogadores, nacionalidade e clubes, treinadores e sei lá que mais. Não faço ideia onde se adquire este género de conhecimento mas a verdade é que nada o finta. 

Têm um apetite de dar gosto. Quando chegam ao pé de mim perguntam logo o que há para comer. Desta vez, dois deles perguntaram se era um lanche ajantarado. Talvez. Mas com o apetite que têm e com a energia que gastam, por muito que comam, acho que, pouco depois, estão capazes de se sentarem de novo à mesa e jantar e cear. Numa das fotografias que a minha filha mandou há bocado estão os cinco sozinhos à mesa, comendo e conversando. Uma graça. Fico feliz ao vê-los assim. Tomara que, ao longo da vida, seja qual o for o rumo que sigam, se mantenham sempre amigos. 

Hoje são amigos e quer os filhos do meu filho adoram a tia quer os dela adoram o tio. Aliás, quando cá estão, quaisquer deles perguntam logo se os tios não vêm ou quando é que os primos chegam. E o meu coração enche-se de alegria. Não há cansaço que se sobreponha ao contentamento por vê-los juntos e amigos uns dos outros.

A minha mãe gosta de estar no meio da confusão, admira-se por vê-los cada vez maiores. Diverte-se com a voz aguda da bisneta e com o seu sentido de organização. Ainda hoje, ao entrar no carro da tia começou logo a perguntar que bolas eram aquelas no chão, três bolas de futebol!, e a querer começar a fazer arrumações. E espanta-se com o vocabulário e a desenvoltura do mais novo, que sabe tudo. Ainda hoje, quis pôr uma raquete nas costas, presa entre o corpo e a tshirt. Dizia que era como se fosse uma espada. Depois puxava-a e apontava-a. E eu perguntei-lhe: 'Sabes o que se diz, nessa situação? En garde'. E ele, como que corrigindo-me, pronunciando o r arranhado, mesmo à francesa: 'En garrrde. Como na esgrima'. Não sei porquê, hoje esteve parte da tarde, depois de lanchar, de máscara. Nem sei que máscara é aquela. Trouxe-a lá de baixo, quando o aniversariante esteve com o tio, o seu grande amigo, a jogar ping pong. Se calhar é uma máscara de paintball.

Já sei que amanhã, quando perguntar à minha mãe se dormiu bem, me vai dizer ora!, que nem uma pedra, que adormeceu mal se sentou no sofá ou que caiu na cama e que dormiu muitas horas de seguida. O movimento acelerado e ruidoso destas tardes em grupo são para ela uma verdadeira terapia de choque em termos de sono e de boa disposição.

A vida é uma caminhada, na verdade. E que a façamos juntos, em harmonia, em paz -- isso é o que é preciso.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Afecto. Paz.