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sexta-feira, junho 03, 2022

O que acontece quando as casas ficam órfãs?

 

Hoje, antes da reunião propriamente dita começar, ele perguntou-me se continuo feliz e contente na casa nova. Disse-lhe que sim, que poder abrir a porta da cozinha e estar na rua e poder atender um telefonema e poder pôr-me a andar às voltas no jardim enquanto falo é daquelas coisas boas que aconteceram na minha vida.

Ele referiu que o movimento dele foi o contrário: mudou-se de uma bela moradia numa das melhores localizações (se calhar do país) para ir morar num apartamento no centro da cidade. Perguntei porquê. Lembro-me de quando andava feliz da vida a mudar-se para a grande casa nova, com um belo jardim. Disse-me que o fez, com muita pena, por questões de racionalidade. Todos na família trabalham no centro e, depois,  tinham pensado que, quando os filhos saírem de casa, iam ficar os dois sozinhos numa casa tão grande.

Disse-lhe que é um erro dar ouvidos aos filhos pois, não tarda, vão mesmo sair de casa e portanto deixam de protestar por terem que apanhar trânsito para o centro e, depois, um dia destes estão a encher a casa de filhos e vai ser preciso mais espaço, e depois querem lá deixar os filhos e vão precisar de quartos. 

Vi que ele ficou a pensar e disse-lhe: 'Mas deixe, são ciclos. A gente vai mudando, as circunstâncias vão mudando'. Ele disse: 'Se for preciso, depois volto a mudar'. 

Pensei: 'Espero nunca mais me mudar'. Não me esqueço do trabalho esgotante, interminável da mudança 

Mas, como qualquer opção, não há soluções perfeitas. No meio de uma cidade, desce-se à rua e está-se ao pé de tudo, pode tratar-se de tudo sem ter que andar de carro. Aqui não posso tratar de nada se não me meter no carro. Não sei se vamos conduzir até aos cem. Tenho um tio quase com noventa que conduziu até ao ano passado. Nem sei se, de vez em quando, ainda vai dar uma volta.

Um outro, quando o ano passado lhe contei, ficou muito admirado e depois disse uma coisa curiosa, muito dele: 'eu, nestas coisas, penso sempre numa coisa: se um morre, fica o outro sozinho numa casa grande...?'. Desatei-me a rir, só ele mesmo para um pensamento tão negativo e assustador. Respondi-lhe: 'Nunca me ocorreu isso. Mas mesmo que seja para ser bom durante um ou dois anos, já terá valido a pena'.

Ao meu marido o que o preocupa nisto é outra coisa. Volta e meia, em especial quando me vê com decorações ou arrumações, diz: 'um dia que os putos tenham que dar a volta a isto, há-de ser bonito...

Às vezes diz: 'sempre quero ver quando os putos tiverem que dar destino a tanta tralha'. Apetece-me sempre responder: 'querias... porque, na verdade, quando isso acontecer já não estarás cá para ver'. Mas não digo nada porque penso que, de facto, deve ser um pesadelo para eles.

A única vez que me calhou participar num número destes foi numa casa de uma tia do meu marido, casa em que ela vivia com uma irmã e com o cunhado e onde antes tinham vivido os pais. Era um apartamento muito grande, antigo, no centro da cidade. Nenhuma das irmãs tinha tido filhos pelo que os herdeiros foram três sobrinhos. Já falei desta experiência várias vezes. Foi das experiências mais traumatizantes por que passei. Os três sobrinhos e respectivas mulheres tinham interesses diferentes e moviam-se a velocidades distintas. Um queria ver cada papel, lia em voz alta, ia mostrar aos outros. Ao fim de um dia, tinha visto uma gaveta. O outro divertia-se com tudo, chegava à conclusão que as santas tias afinal devem ter tido o seu lado boémio, ria, contava histórias. A mulher deste, que andava de candeias às avessas com ele, desconversava, lançava farpas, falava nas namoradas dele. A mulher do primeiro queria era deitar tudo para o lixo. Abria sacos pretos daqueles de tipo contentor e, a eito, despejava gavetas inteiras lá para dentro ou, então, fazia montes a eito, para dividirmos entre nós, separando jogos de lençóis, serviços de chá. Eu queria que víssemos o que interessava a cada um e, se todos concordassem e as coisas fossem de valor equivalente, repartíamos as coisas com alguma lógica mas ninguém estava nem aí. O meu marido, como sempre, não tinha paciência para nada e começou por dizer que não queria nada, que resolvessem entre eles. Os outros, claro está, não foram na conversa: as tias tinham dito que era para ser dividido pelos sobrinhos e todos tinham que ter o trabalho de esvaziar o apartamento, ele que não pensasse que podia escapar-se. Então aquilo durou fins de semana infinitos, uma saturação insuportável. E uma intromissão na privacidade de todos os que ali tinham morado. Roupa interior, gavetas com objectos pessoais, cartas, carteiras ainda com fotografias e bilhetinhos. Tudo. E ou deitávamos fora a eito, desprezando o que eles tinham adquirido e guardado com tanto carinho, ou devassávamos os registos e os testemunho da sua vida, nos mais ínfimos detalhes.

Para além de nos termos aborrecido uns com os outros -- porque aquilo era uma coisa mesmo enervante e never-ending -- e para além do trabalho, depois, em arranjar sítio para guardar o que aproveitámos (com o meu marido a querer que eu deitasse tudo fora, que não queria ficar com coisas usadas pelos tios ou pelos avós), ficou a sensação de que não vou ser capaz de voltar a viver experiência equivalente.

E, no entanto, se calhar um dia vai ter que acontecer. 

Na altura da casa dos tios do meu marido, calhou termos obras de ampliação in heaven e, portanto, algumas coisas acabaram por der jeito e outras, que não faziam falta nenhuma, tiveram sítio onde ser arrumadas e ainda estão guardadas como de lá vieram, sem qualquer utilidade. Mas, se isso não tem acontecido, ou seja, se não tivesse onde guardar o que trouxémos, se calhar teríamos de nos desfazer de tudo.

Quando os meus avós morreram, quem teve o trabalho de esvaziar as casas foram os meus pais e os meus tios. Desfizeram-se de quase tudo. Os meus primos, desapegados, não quiseram nada. Os meus pais e os meus tis não tinham onde guardar ou não quiseram. Eu aproveitei algumas coisas e hoje guardo-as com muito carinho. Mas, na verdade, são memórias e memórias que vou acumulando. O meu marido não lhe chama memórias, chama-lhes tralhas.

E, no que se refere a esta casa, um dia em que deixemos de habitar esta vida, penso sempre que, com sorte, entre os herdeiros, algum vem morar para cá e se muda, deixando ficar tudo mais ou menos como está, para não ter que ter trabalho a ver-se livre de nada.

Quando vejo casas grandes, cheias que nem um ovo, cheias, cheias, penso sempre nisso: como é que alguém, outrem, vai conseguir dar a volta àquilo tudo? 

Por exemplo, veja-se a casa aqui abaixo. Algum dia  Hamish Bowles vai deixar de habitar o seu belo e bem recheado apartamento e alguém vai ter que revistar armários, gavetas, prateleiras, caixas, vai ter que dar destino a todas aquelas peças de que fala com tanta estima. Mas não se percebe como... Tanta coisa...

Inside a Magazine Editor's New York Apartment Filled With Wonderful Objects | Vogue

The home of the legendary Vogue editor and newly-appointed editor in chief of The World of Interiors, Hamish Bowles, honors his enduring love for travel. See Hamish's wonderful, whimsical New York City apartment in this edition of "Objects of Affection.


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Fotografias feitas in heaven na companhia de Julie London - "Time After Time" 

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Desejo-vos uma boa sexta-feira 

quinta-feira, janeiro 16, 2020

Como um tigre caminhando na noite






Desconheço-te. Sei apenas que habitas a noite. Tal como eu, sinto que a tua respiração se adensa à medida que a luz se esvai, que os vultos se desenham, que a penumbra te envolve, que a noite avança. É uma respiração morna, suave, sentida. E, acredita, eu sinto-a aqui onde estou.

Tal como acontece comigo, pressinto que os teus passos pelas veredas mal iluminadas nada mais procuram do que o silêncio e a batida longínqua de outro coração.


Se calha os teus caminhos acontecerem à luz do dia e cruzarem-se com os meus, serás para mim um estrangeiro, alguém que também não reconhecerei. E ainda bem. Bichos esquivos como nós devem vigiar-se de longe, adivinhar-se-se apenas pelo cheiro, pelo rasto que as palavras deixam.

Conheço-as bem, as tuas palavras, as pegadas vagarosas que vais deixando pelas margens dos rios, pelos lugares que, em segredo, visitas. Disfarças-te. E eu acho bem. Também eu me disfarço, também eu me oculto. Bichos intangíveis como nós apenas querem ser pressentidos, antevistos apenas em pensamento. 


Durante muito tempo nada sei de ti. É sempre assim. Não faz mal. Sei que andarás nos teus refúgios, procurando a melodia secreta dos rumores da madrugada e das palavras que ainda não encontraram o seu caminho. Mas sei que, mal cheguem as neblinas, tu terás vontade de sentir o frescor dos murmúrios e o toque de um afecto que pressagias. Sairás, então, dos labirintos em que te perdes para vires em silêncio, o bafo inquieto, pela beira do rio, pela beira da minha respiração, para atravessares o tempo e os lonjuras, para procurares um olhar que desconheces mas que sentes pousado em ti. 


Vem. Estou aqui à tua espera. Em silêncio esperarei o imperceptível som dos teus passos, esperarei sentir o calor do teu bafo, esperarei ouvir o bater do teu coração. Depois, antes que perigosamente te aproximes demais, afastar-me-ei. 

Sei que me compreendes: é assim que somos. A nudez ser-nos-ia insuportável pois os disfarces já se colaram à nossa pele. Somos bichos que caminham em silêncio, solitários, espreitando-se de longe, em segredo.

Mas vem na mesma. Aproxima-te. Quero sentir-te. Sinto tanto a tua falta. 

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Julie London vem aqui, de novo, para me embalar com o seu Cry me a river. 
E o texto foi-me ditado pelo tigre que Nitish Madan tão maravilhosamente fotografou.

E agora vou descansar para ver se, não tarda, consigo acordar sem ter que recorrer às técnicas do Mr. Bean.

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E um dia feliz para todos

sábado, março 31, 2018

Tempestade e bonança in heaven





Muito vento. Tanto, tanto. Tive que abrir a porta e ir lá fora, à chuva, pôr um tronco a travar a portada senão ela soltar-se-ia, talvez se partisse contra a parede. 

O tronco está coberto por líquenes e, de dentro de casa, fotografo-o. 


Mas rapidamente me recolho. Um rugido no ar, as árvores possuídas pela ventania, uma onda louca de vento agitando o arvoredo.

Poderia ser assustador tamanha a tempestade, tamanha a fúria dos elementos. Mas a natureza não me assusta mesmo quando enlouquecida. Talvez seja porque sei que a loucura passa, a beleza não.

Fotografei a chuva que caía, o vento fazendo rodopiar as cores da primavera, o som das águas caindo intensamente, os pássaros ocultos.


Depois os céus escureceram, o rugido do vento abafou o som da chuva, pareceu que uma noite precoce se tinha abatido sobre os campos. Coloquei madeira e pinhas na salamandra, deixei que o calor suave me envolvesse, adormeci embalada pelo bem estar do aconchego da casa.

Quando acordei era outra vez dia. O sol entrava na casa e vi que o céu estava quase azul e que a luz primaveril estava de volta.

Saí.

Arabescos floridos, hastes douradas, sombras e luzes nas paredes. Da tempestade nem vestígios.

Apenas a terra ensopada, o musgo macio completamente embebido, as árvores pingando e luzindo à luz doce do fim de tarde diziam que a chuva tinha passado por ali. 


Da azinheira soltaram-se, num sobressalto, uns grandes pássaros de plumagem clara. Mais à frente, o gato branco saltou de dentro do abrigo e desatou a correr. 

Caminho. Caminho em silêncio, agradecida por me se ser dada a graça de assistir às mudanças, sempre extraordinárias, da natureza.

Os verdes diluem-se uns nos outros, as árvores dançam com uma leveza apaziguada, os pássaros cantam e há agora uma alegria serena no ar. 

E as flores já despontam e há-as de todas as cores, florzinhas sempre delicadas e perfeitas. E todo o peso sai de cima de mim e pudesse eu voar e voaria.


O mundo pode ser um lugar perfeito e eu alimento-me de momentos assim para melhor atravessar os dias por vezes cinzentos e pesados que se cruzam nos meus caminhos. 

Tudo é passageiro e nós mais passageiros ainda. E depois dos dias vêm dias. E nada disto é novo porque a vida é este permanente e gracioso devir.

E penso que pouco mais de verdadeiramente importante  há a saber sobre o que quer que seja.




sábado, fevereiro 03, 2018

O novo macarthismo




Eu -- mulher livre que não admitiria que um qualquer parvalhão pousasse em si o peso da uma lascívia abusadora e indesejada e que não se sente bem em alinhar-se acefalamente com carneiros de qualquer espécie, nem amorais nem moralistas -- olho de lado para o coro de mulheres que vem, alegremente, liquidando a reputação de homens atrás de homens na praça pública.

Se defendo o direito ao contraditório e à defesa do bom nome, não consigo fazer coro com quem lança ofensivas na praça pública, queimando de imediado o homem a quem apontaram a arma da denúncia.

Só para que se possa ver mais do que um lado da questão, transcrevo o que acabei de ler na Bula da autoria de Edson Aran. As fotografias são de minha escolha e mostram personagens ou momentos de filmes de Woody Allen. A música que escolhi também foi minha opção e talvez apenas porque sim, o que é um motivo tão bom como outro qualquer.
Note-se: não estou, com isto, a dizer que estou a tomar partido por A ou por B, estou simplesmente a dizer que não tenho condições ou conhecimento exacto dos factos e das circunstâncias para crucificar ou defender uns ou outros.

Em dezembro de 2017, a revista americana The Hollywood Reporter publicou um textão da crítica de cinema Miriam Bale no qual ela conta, orgulhosa, que nunca mais verá um filme de Woody Allen na vida. Esse tipo de atitude jamais daria certo em outra área do jornalismo. “Sou torcedor do Corinthians e não assisto mais jogo do Palmeiras, valeu, chefia?!” Demissão, né?

No entanto, no mundo festivo do jornalismo cultural, o mimimi infantiloide da moça foi legitimado pela “The Hollywood Reporter” e diversas outras revistas e jornais que reproduziram o chorume sem qualquer ponderação.

No dia 4 de janeiro foi a vez do Washington Post publicar um ensaio rasteiro de um tal Richard Morgan (who?), que revira arquivos do diretor (projetos não filmados, anotações etc) para formular a tese de que toda obra de Allen gira em torno da “mulher objetificada pelo homem”. A Ilustrada republicou o texto.


“Zelig” não é isso. “A Rosa Púrpura do Cairo” não é isso. “Crimes e Pecados”, “Memórias”, “Celebridades”, “Annie Hall”. Nada disso é isso. Mas certamente Morgan, como Miriam Bale, não se deu ao trabalho de ir ao cinema antes de batucar no teclado.

Woody Allen e Mia Farrow ficaram juntos por 12 anos. O fim do relacionamento foi dramático. Allen se comportou como um dos seus personagens inconsequentes e trocou Mia por Soon Yi-Previn, filha adotiva da atriz com o ex-marido dela, André Previn. Foi só o começo da baixaria.

Moses Farrow, filho adotivo de Allen e Mia, ficou do lado do pai. Ronan Farrow, filho legítimo do casal, ficou do lado da mãe. Ronan, jornalista do “The New York Times”, tornou pública a denúncia de Dylan Farrow, outra filha adotiva do casal, que afirma ter sido molestada por Allen quando tinha 7 anos. O diretor argumenta que Dylan foi manipulada por Mia e Ronan para inventar a história. O filho Moses concorda com ele. Mia Farrow, por sua vez, também sugeriu que Ronan não é filho de Woody Allen, mas sim de Frank Sinatra, com quem ela foi casada nos anos 1960 e sempre manteve relação próxima.

Alguns dos mais brilhantes filmes de Woody Allen e Mia Farrow foram resultado da parceria entre eles. É uma pena que a relação dos dois tenha virado uma novela vagabunda e esteja de novo na mídia, catapultada pelas recentes denúncias de assédio sexual em Hollywood. É preciso lembrar, no entanto, que o “Caso Woody Allen” é completamente diferente da historia de Harvey Weinstein, por exemplo. O produtor usava o poder para constranger atrizes a fazer sexo com ele. Isso é criminoso. Já Allen, até onde se sabe, nunca fez nada parecido. O repúdio a ele nasce das alegações de Mia Farrow por conta da separação.

A atriz Mira Sorvino escreveu carta lamentando ter trabalhado com o diretor em “Poderosa Afrodite”, que deu a ela o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante. Greta Gerwig (“Para Roma com amor”) fez o mesmo e Rebecca Hall (“Vicky Cristina Barcelona”, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme) seguiu o exemplo. Muitas outras foram atrás.

Em 26 de janeiro, o musical “Tiros na Broadway” foi cancelado em Nova York. Em 28 de janeiro, o New York Times fez artigo declarando que a carreira de Woody Allen está acabada. A Ilustrada reproduziu o texto. Já não se trata mais de denúncia, isso já ficou para trás. O que existe agora é uma campanha organizada para que o diretor nunca mais consiga filmar.

A crítica de cinema Miriam Bale, assim o ensaísta Richard Morgan, têm todo o direito de se comportarem como noveleiros e torcer pelo personagem favorito deles na trama. O que não podem, penso, é destruir a obra do diretor e serem aplaudidos por uma mídia que deveria ser mais responsável.

Mas a verdade é o que “The Hollywood Reporter” nunca foi responsável. A publicação praticamente iniciou o “macarthismo” em 1946, quando listou 11 comunistas que deveriam ser expulsos de Hollywood. Entre os denunciados estava o celebrado roteirista Dalton Trumbo. Foi essa lista que incentivou o senador republicano Joseph McCarthy a iniciar uma “cruzada” para banir os socialistas da indústria do cinema.

O movimento feminista #MeToo, que começou com os mais nobres objetivos, evoluiu rapidamente para algo muito semelhante ao macarthismo. E não sou eu quem está dizendo isso. Alec Baldwin e Liam Neeson já falaram a mesma coisa. Catherine Deneuve e Brigite Bardot também.

Multidões de linchadores nunca estão com a razão. Jamais. Em hipótese alguma. Isso é básico numa sociedade civilizada. Mas a mídia, que deveria interditar a barbárie, é a primeira a fazer festinha pra ela. E depois ninguém sabe porque revistas e jornais agonizam.

Eu, de minha parte, vou continuar vendo tudo o que Woody Allen dirigir e escrever. Um dos maiores cineastas da história tem muito mais a me dizer que a revista “The Hollywood Reporter”.

Na verdade, ele tem muito mais a dizer do que a maioria do jornalismo cultural produzido no mundo (o mundo inclui o Brasil).


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Um bom fim-de-semana a todos!

sexta-feira, março 24, 2017

Um silêncio limpo, sem palavras.


Tem dias que isto está assim cá para o meu lado: cansada de palavras. Parte do dia a aturar gente palavrosa. Para expressar uma ideia parva que nem devia ver a luz do dia, há gente que se enrola num palavreado sem fim, rodriguinhos fora de moda, neologismas arraçados nem sei de quê. Uma pessoa quer atalhar mas eles estão tão enlevados na sua tonitruante prosa que nem percebem que estão a cansar.

Depois outra estirpe: a dos desgraçados que, em cada pequeno contratempo, vêem um dramalhão, que chegam até nós como se estivessem a afogar-se, pedras nos bolsos, nos sapatos, na cabeça. Vai-se a ver e é caquinha de nada, coisa que se teria resolvido se, em vez de encenarem uma tragédia, tivessem falado com quem podia resolver o problema.

Chego agora aqui e há debates entre opinadores, rangélicos na sua histeria habitual, rogeiros sabichões, e mais uns e outros canastrões, gente que reconheço de outras crises, outros de que nem quero saber o nome. Toda a gente diz coisas. Palavras, ruído, poluição. Cansada. Cansada de tanta opinião.

Liguei o computador e pensei: vou ficar calada, não vou contribuir para isto. O ar que respiramos completamente saturado de palavras. Não vou contribuir. Pudesse eu e era já amanhã que me punha a caminho de alguma montanha silenciosa, casas de xisto, água cantando nas pedras, o verde das árvores, o branco da névoa, o fresco da chuva. Pudesse eu.

Infelizmente não posso.

Percorro a net. Procuro palavras límpidas como o silêncio. Rareiam. Rareiam, e tanto que delas eu agora precisava. Poemas com o mundo inteiro lá dentro mas o mundo original, antes de ser mundo. Poemas que eu lesse como se tivessem sido feitos para mim. Tanto que eu precisava deles. 

Soda Scream © Gaelle Cueff


Uma lua onde o nosso olhar pudesse dormir abraçado, uma nuvem que nos fizesse sonhar como adolescentes, uma luz ao longe brilhando como uma estrela irreal que nos fizesse desacreditar de todas as impossibilidades, um caminho perfumado por onde pudessemos passear de mão dada, um olhar receoso como quem não sabe como aventurar-se, um olhar admirado como quem reconhece que o mundo por vezes se fecha como um ninho, uma música que se intui, uma prece límpida, um alfabeto só nosso.

De coisas assim eu queria ouvir. 

Segredos.

A semente de palavras assim, palavras sem propósito, palavras generosas, essas eu gostava que aparecessem no parapeito da minha janela. Ou então um pratinho de arroz doce com um coração de canela, um pequeno ramo de alfazema, um canário amarelo a cantar, uma cartinha com uma flor lá dentro. Disso eu gostava.

Eu queria ficar tímida, com vontade de esconder o meu sorriso, eu gostava de parecer um pássaro escandaloso cheio de flores, eu queria ter vontade de enxotar um bicho atrevido que viesse jogar a língua em cima de mim, eu gostava de olhar-me ao espelho e ver-me como uma invenção, uma graça, uma mulher cheia de luz. E gostava de abrir a boca e deixar sair cantos, blues, chamamentos, confissões imorais, silêncios nunca antes ouvidos, cores indecentes, murmúrios de seda, palavras transparentes, códigos secretos.

Demain nous appartient © Gaelle Cueff

Por isso, desculpem-me mas não estou capaz de conversar.

Só isto.

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segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Tom e eu.
Sem Dindinha


Por muito que confie em quem me lê e por muito que goste de escrever, há coisas de que não poderei aqui falar. São assuntos privados, meus.

Para além disso, talvez porque sou, de formação, uma pessoa das ciências exactas com um forte pendor racional e uma irracional fixação nos preceitos da lógica, tendo a relativizar ou, mesmo, a ignorar os factos que não consigo compreender.

Portanto, desculpar-me-ão por passar por sobre a inexplicável noite de ontem e vos contar apenas parte do meu dia de hoje. Aliás, no post abaixo, já, em parte, dele vos dei conta.

Não me levantei muito cedo. Ao domingo gosto de preguiçar no calor da cama. Depois fiz uma caminhada junto ao mar. Fiz fotografias.


Depois, fui a uma livraria muito especial onde encontrei livros não mediáticos. Vim para casa ao fim da tarde, feliz com as minhas aquisições e com o dia tranquilo que estava a ter. Tratei da casa, da roupa, do jantar. Comi sopa acabada de fazer, pêra abacate com queijo fresco de cabra e mel, dióspiro com queijo curado de cabra.

Depois, vim para a sala com uma chávena de chá. Misturei erva-príncipe com lúcia-lima. Liguei o aquecedor a óleo aqui ao meu lado. Passei as fotografias para o computador. Li algumas páginas de alguns livros. Escrevi o post que poderão ver logo a seguir a este. E adormeci.

E estava a dormir quando ouvi o toque da campainha. O meu coração disparou de imediato. Alterada, de passagem vi-me ao espelho do corredor. Perguntei quem era. Ouvi 'O primo'. O meu coração quase saltou. Enervada. Tentei sorrir para parecer natural.

Presumi que vinham os dois. Quando abri a porta apenas vi Tomé. Antes que eu perguntasse alguma coisa, disse-me 'Vim sozinho. Fiquei a pensar que ontem fui indelicado. Posso...?'. Desviei-me da entrada, deixei-o passar.

'Indelicado?'.

'Sim, ontem vim visitá-la pela primeira vez e não lhe trouxe um presente'.

'Disparate', disse eu.

Estendeu-me um saco de plástico com um pequeno embrulho.

'Que ideia... para quê dar-se ao trabalho?', disse eu, admirada mas, amiga que sou de receber presentes, curiosa.

Fomos andando até à sala. Fiz-lhe um gesto para que se sentasse. Sentei-me num sofá e ele noutro, à minha frente. Abri. Era um pisa-papéis de vidro, muito bonito, com uma flor lá dentro. Devo ter aberto a boca, de espanto.

Vendo a minha reacção, perguntou 'O que foi...? Não me diga que já tem...'.

Respondi: 'Pode não acreditar mas há que tempos que ando a namorá-lo. Acho-o lindo. Mas, de cada vez que estava prestes a ceder à tentação, pensava que era dispensavel'.

Ele sorriu: 'E é. E fico contente que goste. Aliás, sabia que gostava'.

Olhei para ele, admirada: 'Adivinhou?'

E ele: 'Não. Já a vi algumas vezes lá, a olhar para ele'.

O meu coração disparou de novo. Assustada. 'O quê? Que conversa disparatada é essa?'.

Ele explicou: 'Há tempos, estava eu lá com a Fred, eu aos livros, ela a ver lápis e apara-lápis, vimo-la a si. A Fred escondeu-se, não queria que nos visse. Mas eu fiquei a vê-la. Depois disso já a vi lá algumas vezes. De todas as vezes, vi-a a namorar esta peça'.

Fiquei sem saber o que dizer. Depois de uns instantes disse: 'Desagrada-me isso. Parece que estive a ser espiada.'

Ele desvalorizou: 'Percebo. Mas se a Fred não queria que a prima soubesse, que ia eu fazer?'.

Depois levantou-se. 'Hoje não pergunta se quero tomar alguma coisa?'. Levantei-me também.

'Não. Tenho vontade de pô-lo porta fora'.

Ele fingiu-se de repreendido, 'Quanta violência, prima...! '.

Depois pegou na minha mão, levou-a quase até ao seu rosto, como que num delicado beija-mão. 'Acho que não fiz nada de mal mas, se acha que sim, Senhora, aceite as desculpas deste seu servo. E dê-me de beber, Senhora, que uma pinga de água não se nega a um pobre caminheiro'.

Respirei fundo, tentei sossegar o coração. 'E bebe o quê?'.

Ele sorriu 'Quanta secura, Senhora, e eu tão sequioso. Dê-me o que quiser que eu lhe agradecerei.'.

Fiquei a pensar por um instante. Depois, testando-o: 'Nikka?'.

Olhou-me admirado. 'Nikka, Senhora...? Surpreende-me. Mas muito bem. Nikka'.

Fui lá dentro e voltei com dois copos. Trouxe também um pacote de bolachas de chocolate preto e gengibre. Levantou o copo e eu levantei também. Não disse nada e eu também não. Depois bebeu um vagoroso gole, fechou os olhos, o prazer banhou-lhe o rosto. Eu fiz o mesmo.

A seguir, reparando nos livros que eu tinha comprado, levantou-se e veio sentar-se ao meu lado para os ver, um por um. Tentando que ele não ouvisse as batidas do meu coração, disse-lhe 'Para ver se consigo perdoar-lhe o ter-me andado a espiar enquanto eu pensava que estava a namorar o pisa-papéis sem qualquer testemunha, leia um desses poemas.'.

Ele disse: 'Pelo seu perdão, Senhora, cumpro qualquer ordem'. E leu.


No fim, disse-me: 'De olhos fechados, não lhe soube melhor?'. Bebi mais um gole do Nikka e, com a cabeça, disse que sim. 

Então perguntei-lhe o que, desde que ele entrara, não me saía da cabeça: 'A Frederica sabe que está aqui?'.

Ele chegou-se ligeiramente para trás, notoriamente o assunto não lhe era querido, e respondeu secamente: 'Não lhe disse. Não costumo dizer-lhe tudo o que faço. Algum problema com isso?'.

Limitei-me a encolher os ombros. A questão é que não sabia, nem sei, o que pensar de tudo isto.

Depois perguntou-me: 'Não se ouve música nesta casa?'.

Eu apontei-lhe as estantes dos CDs e disse: 'Mas agora ouço no computador. Também quer que eu escolha?'.

E ele 'Não, agora escolho eu'.

E escolheu. Disfarcei a vontade de rir. Atrevido, mesmo.


Depois disse-me, 'Feche os olhos'. Fechei. Fiquei a ouvir a música assim, de olhos fechados, sentindo o seu cheiro e o seu calor a latejarem bem perto de mim.

Pouco depois, senti-o a despir-me. Não ofereci resistência.


Apenas lhe perguntei: 'Aqui, professor?'.

Ele beijou-me um ombro, e os lábios estavam quentes, a barba a roçar-me a pele, depois beijou-me a nuca, eu arrepiada. Respondeu: 'Por mim pode ser aqui, sim. Mas como aluno'.

Depois de uma pausa durante a qual me beijou o colo, acrescentou em voz muito baixa, quase como se confidenciasse um segredo: 'Ouvi dizer que é uma boa professora, prima'. 

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Este é o 4º episódio do folhetim 'Dindinha'. 
O anterior pode ser lido aqui e o link para os anteriores pode ser encontado lá.

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terça-feira, agosto 09, 2016

Porque é que nudez feminina é bela e a masculina parece obscena?
- pergunto.
Comparem-se as fotografias do Orlando Bloom em toda a sua pujança com as da Gisele Bündchen, Cara Delevingne, Kate Moss ou Sara Sampaio,por exemplo, e percebe-se logo porquê.
Digo eu.


Agora que falei de coisas sérias, já cumpri a minha quota diária de preocupações sociais. Quem estiver nesse comprimento de onda, machismo, sexismo, marialvismo e coisa e tal, com a Hillary, coitada, a ilustrar a pachorra que algumas mulheres têm que ter para aturar tanta parvoíce, pode saltar já daqui para lá.

Aqui, agora, a coisa é mesmo estival. Com o calor que está, é natural que a gente tenha vontade de fazer como a outra que tirava a roupa toda em qualquer lugar. Mas já me estou a adiantar. Aliás, já me adiantei logo no título.

Ando preguiçosa, não me apetece falar de coisa puxada, só mesmo ligeireza. Escrevo uma bobeirinha qualquer e logo me refastelo no sofá enquanto dou uma circulada nas mundanices. E aí parece que só sou atraída para as silly coisas. Passei por um artigo que ensina uma mezinha para a Europa, ensinamento bom, cura garantida -- um euro elástico (e eu a ler aquilo e a lembrar-me que já em tempos aqui dei a receita para esta mazela de termos economias a velocidades distintas mas atadas com uma moeda única, e que era uma coisa também na base de um euro para os probrezinhos e um euro proteinado para os ricos) -- e, em vez de agora falar nisso aqui, mandei o Stiglitz seguir pela sombra e dei comigo a curtir com o furor que a nudez do Orlando Bloom anda a causar pelas redes sociais.

[E depois ainda quero que me levem a sério. Oh mulherzinha mais franzina dos neurónios...]

Provavelmente os meus Leitores mais eruditos não conhecerão o Orlando Bloom. Talvez conheçam o Orlando e o Bloom mas em separado, não este de que aqui falo, Orlando nome próprio, Bloom de apelido. Melhor, Orlando Jonathan Blanchard Bloom de seu nome completo. Só o nome impõe respeito e não é pelo tamanho, é mesmo pela pinta do mesmo.

Bom. Para que não pensem que, depois de ter visto as fotografias, vou descer do meu salto alto e tecer loas ao que aos meus inocentes olhos foi dado ver, começo por apresentar Orlando Bloom mostrando o que ele tem de melhor: a sua arte.


Dito isto, passo ao que agora importa. A nudez de Orlando Bloom. O garboso homem mostrou-se nu enquanto remava com a sua bela Kate Perry. Sobre as águas e no areal da praia. E a coisa impressionou de tal forma quem viu as fotografias que todo um movimento se gerou. A internet encheu-se de gifs e de outras animações, toda a gente mostrando o seu espanto ou a sua disponibilidade.


Claro está que, se me falam de hits facebookianos ou de gatinhos, românticos pôres-dos-sóis ou outros bichos móis, passo ao largo, não quero cá saber de coisecas dessas... mas, se a coisa derrapa para a desgraça, aí estou eu, logo em estado de prontidão (salvo seja - liberdades linguísticas, claro).

Ou seja, fui logo à procura.

Tive que penar um bocado já que lhe puseram milhares de maluqueiras a ver se lhe tapavam o sol com a peneira, desde beringelas a piratas zarolhos e sei lá que mais.


Depois, quando a coisa parecia que estava quase lá, está quieto, tapavam com filtrinhos desfocadeiros.

Orlando in full Bloom
(versão censurada)


Até que vi, tal e qual.

E imaginem: feita puritana, não sou capaz de aqui a pôr. Bem, não é apenas puritanice, é mais caridade. Sério. Não ia causar atrofia psicológica a alguns dos meus Leitores. Quem quiser que flip.

Mas, cabecinha pensadeira que sou, dei por mim a cogitar: cacete, por que raio de carga de água é que não me parece elegante colocar aqui um homem em toda a sua gloriosa nudez e não me ensaio nada de pôr fotografias de mulheres nuas? Nelas vejo uma estética que tem qualquer coisa de poético e neles vejo um descaramento que até pede punição. Porque será isto, senhores?

No post mais abaixo, toda eu moderninha e o escambau, que as mulheres aceitam papelinhos secundários e rebéubéu pardais ao ninho -- e depois, se for para mostrar o corpo de uma mulher nua, que sim, que é uma obra de arte e, se for para mostrar um corpinho bem feito de homem, está quieto, só filtrinhos e singelas beringelas. Não percebo.

Cara Delevingne


Gisele Bündchen


Kate Moss

Sara Sampaio


Então? E do belo Orlando Bloom nada...? - perguntarão vocês, já fartos de tanta infrutífera auto-análise.

Pronto. Vá lá. Uma de fato de banho e não se fala mais nisso. E é para não dizerem que me estou a armar em Asssunção Cristas a fingir que não aceita convites para ir à bola quando a gente está fartinhos de saber que também foi a França à pála. Eizi-o, ao belo Orlandinho aqui há uns dois dias, ainda fresquinho.

Orlando Bloom, com um fato de banho a mais
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E por hoje é isto. Coisas do tempo de verão.



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E já sabem: se quiserem saber o estúpido que é ser-se machista e o que a pobre da Hillary tem penado à conta disso, queiram, por favor, descer.

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domingo, abril 03, 2016

Na Pensão Amor


Bom, abaixo já mostrei as Virgens e, a propósito -- bem, a propósito é como quem diz... posso não ser virgem (sou caranguejo, como é sabido) mas sou santinha -- mostrei uma selfie que fiz esta tarde (porque, se também sou filha de deus, também haveria de ter direito a uma selfizinha, ora essa).

E, como lá expliquei, fui à Pensão Amor no Cais Sodré, esse mau pedaço de Lisboa, antro de pecado e perdição. Outrora. 

E também já confidenciei que hoje não estou nos meus melhores dias. Fora eu moça dada às tecnologias e a esta hora já estava com um levezinho iPad nas mãos, estendida, tapada, abafada, escrevendo na boazinha. Mas, como sou avessa a modas e a gadgets, apenas tenho um computador grandão e pesadão que está bem é aqui, em cima da mesa. E, para me chegar a ele, aqui estou eu sentada, sem posição, dores no corpo, olhos meio lacrimejantes, com camisola, casaco, écharpe e meias de lã. 

É vício isto, de escrever aqui à noite, faça chuva, frio ou calor, esteja eu bem, fresca ou nem por isso. Há bocado, quando estava estendida no sofá, tapada até ao pescoço com uma manta de lã, li uma coisa de que gostei e que, acho eu, explica um bocado isto.

Se eu conseguisse, levantava-me e ia ali buscar o livro para transcrever. Mas dói-me tudo, caraças. Que chatice. Bom, vou tentar. (Depois de ter escrito isto ou ia buscar ou apagava o que tinha escrito, né?)

Encontrei. Não tinha assinalado e agora tive que passar os olhos por várias páginas até descobrir.
(...) O meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei alguma coisa em contrapartida; li e viajei e pensei e escrevi. Tive uma união com o mundo, essa união especial com o mundo que é a de quem escreve e de quem lê.
Isto pode ser lido no texto 'A minha vida' de Oliver Sacks, no livro 'Gratidão'. Está escrito no passado pois ele tinha sabido, um mês antes, que o cancro tinha reaparecido e que, dessa vez, a coisa era feia. Morreria pouco tempo depois, em Agosto de 2015. 

Mas gostei de ler esta passagem (tal como gostei de ler todo o livro, que é sábio e tocante) porque é aquilo que sinto: tal como quando leio, escrevendo sinto-me misteriosamente ligada ao mundo. Fui agora ver as estatísticas. Neste preciso momento, estão mais de cem pessoas ligadas ao Um Jeito Manso. A maioria é de Portugal, 79 pessoas mais concretamente, mas vejo que está alguém que escreve um interessante blog sobre livros e arte em Espanha, e pessoas no Brasil, em França, na Alemanha, etc. Esta ligação anónima fascina-me. Eu e você, Caro Leitor, estamos unidos, desinteressadamente unidos -- e essa é a melhor forma de união, a que é livre, voluntária, que nada pede em troca, a que se baseia no puro prazer da partilha de momentos. 

Bem, tudo isto para dizer que, tal como nos dias de trabalho quando o corpo me pede descanso, tenho esta vontade de estar aqui, também hoje, em fraca forma e em franco esforço, para aqui estou. Nada nem ninguém me obriga ou, sequer, pede. É mesmo um gosto meu e é pensar que também vos agrada estar aqui comigo.

Com isto tudo ainda não fui ao que aqui me trouxe: a Pensão Amor


Mas vamos com a minha amiga Blanche DeBris que hoje nos traz outra querida, a Sweetpea. São as damas do Burlesco, género que muito me apraz. Deixemos que entrem connosco na Pensão Amor.



Entra-se na Pensão Amor pela Rua do Alecrim. Quase não se dá por ela. Mas é um edifício que deve ter uns cinco ou seis andares. Na entrada uma sala magnífica, verdadeiramente magnífica. A decoração, a música, a frequência, tudo aquilo é um ambiente envolvente, invulgar.

Nestas salas, onde funciona o café, não me ia pôr a fotografar as pessoas que ali estão tranquilamente, conversando - era o que faltava. Por isso, foi apenas de raspão, como quem não quer a coisa, que lá tirei umas quantas, sobretudo ao décor, sem apontar a ninguém -- mas, sem focar, sem flash, claro que não ficaram extraordinárias.


Se eu quisesse reproduzir a música que lá se ouvia, não era nada do género que aqui coloquei, era mais para blues, músicas arrastadas, algo dengosas, sentidas, a alma dolente sob as luzes quentes daquelas salas tão acolhedoras.


Mas as pinturas das paredes das escadas entre andares, o ambiente, aquelas divisões, a sugestão do que, por ali, se pode ter passado, e os nomes das mulheres desenhadas, a Simone, a Esmeralda, a Regina, a Valentina, tudo me sugere os números de burlesco que, de resto, por lá também se anunciam. Aqui já fotografei à vontade.


No entanto, devo dizer que esperava que a pensão tivesse muito mais vida. Apenas o café instalado no piso da entrada pela Rua do Alecrim tem vida. Mesmo a pequena livraria de Livros Eróticos estava fechada.


Anda-se por ali e ninguém. Claro que, apesar de me doerem as pernas e as ancas e sei lá que mais, não resisti a andar a espreitar tudo. Um ambiente quase misterioso.


Parece habitado, há sofás antigos, mesas, uma televisão antiga, pequenos armários com naperons, bibelots de outros tempos.


Talvez pudéssemos ter ficado ali sentados a conversar ou a namorar, talvez a ideia até seja essa, não sei.

Até tem uma sala com um varão, tudo com uma decoração indescritível, cortinas plastificadas que devem reflectir as cores do tecto quando, de noite, os candeeiros se acenderem e houver espectáculo, tudo com cores que parecem que não condizem umas com as outras, uma coisa meio desconcertante. Um lugar que dá vontade que a gente o ficcione.


Quando entrei numa sala interior, com ar decrépito, pareceu-me ouvir bater uma porta e um som não identificável. Até me arrepiei. Saí logo de lá e nem disse nem ai nem ui. O que terá sido? Haveria por lá alguém, numa daquelas salas fechadas?

Depois, quando já vinha em sentido descendente, vinha a pensar que gostava de ter conhecido a pensão nos seus áureos tempos, gostava de ter conhecido a Clarissa, a Valéria e as outras mulheres que consolavam marinheiros, boémios, solitários.


Transcrevo de um artigo sobre o lugar:
Na Pensão Amor ainda há camas, armários, cadeiras e espelhos dos tempos em que o prédio era casa de prostituição. Na verdade, no número 38 da Rua Nova do Carvalho, em Lisboa, funcionavam quatro pensões que alugavam quartos à hora a prostitutas e a marinheiros que atracavam no Cais do Sodré, vindos de várias partes do mundo. Agora, os quartos também podem ser alugados ao dia, à semana ou ao mês, mas a empresas – que nada têm a ver com prostituição.
Quem sobe as escadas da Pensão Amor é surpreendido por uma mulher de pernas abertas. “Valéria vai levá-lo à miséria”, lê-se do lado esquerdo. Nos andares de cima, o cenário é idêntico: “Anita, a mulher por quem o seu coração palpita”, “Clarissa, peitos firmes, bem roliça” ou “Regina, dá um espectáculo que você nem imagina”. Os desenhos e as frases foram pintados nas paredes pelo ilustrador Mário Belém. “Fizemos um concurso e convidámos artistas a recriar cartazes burlescos de cabarets”, explica Queirós de Carvalho. “Este foi o que seleccionámos e ele optou por pintar as frases em português, já que se trata do Cais do Sodré.”
As escadas do prédio mantêm-se desde o tempo em que foi construído, logo após o terramoto de 1755. “Optámos por não arranjar as paredes e deixar as várias camadas de história”, conta Queirós de Carvalho. No segundo e no terceiro andar, os quartos das antigas pensões foram recuperados e funcionam como escritórios e ateliês. 

Contudo, apesar do que leio no artigo, agora não vi lojas nem ateliês, nem salões de cabeleireiro. mas vi divisões fechadas, só se for aí e, por ser sábado de tarde, estavam fechadas. Não sei.

Seja como for, gostei de ter visitado e fiquei com muita vontade de lá voltar, ficou a apetecer-me estar lá sentada a beber um chá bem apaladado ou um sumo fresco, ou um fumegante café, espreitando pela janela, olhando em volta, ouvindo música.

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Se não se importam, vamos agora com a Julie London: Cry me a river



                                       Tempo de dança num vago compasso de bela toada
                                       fecha solene a última festa do longo inverno.
                                       Chove de novo na húmida noite gelada de abril*;
                                       nada faria prever o perfume da música nova.

                                       Vejo agora teu rosto no espelho da sala dourada;
                                       luzem teus olhos ao brilho das velas nos lustres acesos,
                                       quando de novo a orquestra entoa a música nova,
                                       sempre que soa no brilho da sala a triste gavote.

                                       Música minha alheia não soa às árvores altas:
                                       ramos e folhas ondulam à chuva na escura montanha,
                                       cantam por mim o que vejo ao ver-te no límpido espelho,
                                       hoje que mais do que nunca rebrilham teus olhos brilhantes.

                                       Pena seria portanto perdermos a última dança;
                                       ambos sabemos que vêm vazios compassos de espera,
                                       logo que raie daqui a minutos a pálida aurora,
                                       ela que traz como sempre o ocaso dos nossos amores.


[Poema 3 de IV de Frederico Lourenço in 'Clara Suspeita de Luz'. *No original é Março ou é que mudei para Abril]
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Por sugestão de Rosa Pinto, em comentário abaixo, silêncio que se vai cantar o fado:

Xaile encarnado -- Aldina Duarte

Fragmento do filme A Religiosa Portuguesa. 
Diretor - Eugéne Green

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Se tiver energia (coisa que me parece pouco provável) ainda cá voltarei com a reportagem do outro sítio por onde andei (a custo) neste sábado à tarde.
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Entretanto, convido-vos a continuarem o passeio, descendo até ao post seguinte, para verem as Virgens que habitam estes lugares (e uma selfie minha, à mistura).

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