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quarta-feira, novembro 15, 2017

Momento Zen para ver se me inspiro




Aquela ali em cima podia ser eu agora. Excepto que all in pink não é exactamente o meu style. Também não uso pijamas. Por acaso tenho um assim, como o dela, mas em cetim verde água. Mas não me lembro da última vez em que o vesti. Da última ou da única. Se calhar em algum dia de inverno em que estava com gripe. Na última vez que estive em Madrid trouxe um todo merveilleux da loja de lingerie na Serrano onde sempre vou quando por lá passo. Mas ainda nem o estreei. Tenho algumas coisas em comum com a Marilyn e uma tem a ver com isto. A outra tem a ver com o Nº 5. Et pour cause.

Acho que ficava pink das ideias se me obrigassem a dormir num quarto todo em cor-de- rosa. Quando alguém me mostra a casa e chego ao quarto e vejo colcha cor-de-rosa, cortinas em cor-de-rosa, tudo muito cor-de-rosa, dá-me uma pena tal que mal consigo articular palavra. Felizmente há muito tempo que não passo por experiência tão traumática.

Mas por acaso tenho uns lençóis cor-de-rosa. Vêm ainda do meu enxoval. Têm um bordado também em cor-de-rosa com o olhinho das florzinhas em branco e uma barra com um folho do mesmo tecido mas um folho deveras artístico, tudo feito, certamente, a partir de desenhos arranjados sabe-se lá onde. Não me lembro se fui eu que escolhi tal obra de arte ou se foi presente. Quando casei tinha um enxoval e pêras. Ainda está quase tudo novo. Fiz o enxoval quando comecei a namorar a sério e o meu namorado só falava em casamento e até a mãe dele me oferecia coisas para a casa. Devia eu ter uns dezassete ou dezoito anos. Hoje nada disto me parece normal mas, na altura, acho que ninguém me achava demente por embarcar numa maluqueira destas.

Bordados, rendas. Thanks God, a maioria em branco. Felizmente quando era deixada à solta, optava por coisas que deixavam a minha mãe estupefacta: lençol de baixo em cor de tijolo e o de cima às riscas verticais côr de tijolo, verde seco e beige. Por exemplo. Uma ousadia. 

Quando me casei (com outro namorado, bem entendido) só fazia sentido usar as coisas mais fora da caixa. Se calhava pôr uma coisinha mais coisinha na cama logo o meu marido dava sinais de perplexidade: 'O que é isto?!'. Mais: coisas com folhos e rendas também dão muito trabalho. Ora, não passo a roupa de cama a ferro. Seca-se direitinho, depois tudo bem dobradinho e está feito. Por isso, mais vale que seja com roupa que passe bem sem ferro. Portanto, gavetas e gavetas de roupa de enxoval e nunca lhes dou uso. 

Agora, gosto sobretudo da roupa de cama da Zara Home. São lençóis muito largos, de bom tecido e com uns belos padrões. Esta semana tenho em baixo um beige e em cima um branco com uns belos desenhos em beige e uma espécie de dourado. Fica com pinta. Assim, sim.

Bem. Não era nada disto que eu queria dizer.

Vinha aqui só para dizer que vou ver se me inspiro para acabar a história das wild roses. E que, assim sendo, não estranhem se demorar a aparecer qualquer coisa. Estou um bocado num impasse sem saber como chegar ao desfecho. Por isso, vou aqui ficar sossegadinha a ouvir música (e a fazer de conta que não ouço os mails de trabalho a chegarem). Não. Sossegadinha não, senão adormeço. Vou pôr-me a escrever de olhos quase fechados a ver se a ideia se desdobra.

Devia era ver se aprendo yoga para fazer quando estiver a atravessar situações complexas como esta. Melhor: vou ver se consigo fazer esta posição a ver se me aguento. E se resulta.

Se não aparecer, é porque parti um pulso.


Até já.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Como, segundo Tim Wildschut, os pensamentos nostálgicos promovem o conforto psicológico, ajudam a combater a solidão e induzem uma sensação de calor, dei por mim a recordar os tempos em que eu, a minha mãe e a minha avó tratámos do meu enxoval. Psicologia e lavores femininos de mão dada, portanto. (E vamos lá a combater esse frio, está bem...?)







A partir de certa altura a minha mãe começou a dizer que era melhor começarmos a tratar do enxoval.

Fomos a uma loja que vendia tecidos a metro e a minha mãe queria algodão e acrescentava qualquer coisa que era distintiva, não sei se seria algodão egipcío ou se algodão egipcío é o das meias de homem. Sei que ela queria algodão do bom. Comprámos muitos metros, divididos em lençol de baixo, lençol de cima, que era maior por causa da dobra, e almofadas. Comprámos só pano branco.

Depois a minha mãe foi falar com uma senhora que fazia bordados à máquina e deixou lá um grupo de panos com a encomenda de uma série de bordados.

Uma das minhas avós que gostava muito de fazer crochet, fez uma série de barras em renda, umas de bicos, outras com monogramas, bordados antigos, complexos. Fez uma mais simples mas que eu escolhi porque, justamente era simples e a renda fazia uns lacinhos, e eu achava muito bonita.




Quando estavam prontas as rendas, a minha mãe levava-as à senhora dos bordados para que ela as aplicasse e, então, num processo aturado, escolhia-se o processo de aplicação, ponto ajour ou outros, não me lembro dos nomes.

Depois a minha mãe comprou também linho onde bordava ela própria, à mão. Tinha imenso cuidado para não sujar a alvura do pano, e punha óculos, acendia uma luz sobre o bordado e estava concentradíssima.





Num deles bordou uma barra enorme em ponto de Richelieu. Tenho ideia que andou meses ou anos a fazer aquela enorme barra cujos interiores recortava com uma tesourinha de bicos. Vinha da escola e entregava-se a este trabalho, por fim tenho ideia que já desesperava, nunca mais aquilo acabava.




Noutro dos bordados equacionava-se maduramente se a linha a usar devia ser branca, pérola, ligeiramente acinzentada, faziam-se ensaios, olhava-se de frente e de lado, a minha mãe aconselhava-se com a senhora, com a minha avó.

Quando a senhora os dava por prontos, ou bordados ou com as rendas aplicadas, íamos buscá-los. O meu pai ficava no carro e recomendava que não nos demorássemos mas demorávamo-nos sempre porque a senhora (disse-me a minha mãe no outro dia que teve um AVC, está agora num lar) tinha sempre pormenores a relatar, dificuldades com que se tinha deparado e que tinha ultrapassado depois de muito pensar e eu e a minha mãe ouvíamos com muita atenção, analisávamos, dizíamos que tinha ficado muito bem e ela lá sorria, mais tranquila. Depois eu e a minha mãe trazíamo-los em braços, envolvidos em pano de lençol para não se sujarem, e com o mesmo desvelo com que transportaríamos um recém-nascido.

Depois já era tanta coisa que se começou a colocar a questão: onde guardar?

Veio a ideia da arca. E, então, fomos um dia escolher uma arca. O dono da loja aconselhou uma arca de cânfora, grande, toda trabalhada, com uma espécie de tabuleiro interior, um fecho em bronze ou latão, não sei. Pesada que se farta. Cheirosa. Nunca engracei muito com ela, gosto de coisas mais simples, mas o senhor explicou que era o melhor que havia para enxovais e a minha mãe aceitou o conselho, e eu também não ofereci resistência, andava encantada com aquilo tudo.

Algum tempo depois a arca estava repleta de lençóis, toalhas de mesa lindas, umas aos quadrados de linho bordados intercalados com quadrados de renda, outras todas bordadas à mão.




Depois a minha avó tinha na cama dela uma colcha de renda antiga, pelo menos do tempo da minha bisavó, tinha em cima um casal de ceifeiros, ela com uma cesta com flores. Eu gostava muito dessa colcha e pedi à minha avó que fizesse uma para mim. Ela começou por dizer que não seria fácil porque o tamanho era outro, o original era mais pequeno, a linha também era diferente, teria que adaptar o desenho; mas lá a fez. Gosto imenso dessa colcha. Faz-me lembrar a casa da minha avó quando eu era pequena e usava tranças.

Quando abria a arca, havia, pois, aquele cheiro tão característico da cânfora. Na altura não percebia se gostava daquele cheiro ou não. Agora acho que não, e nem sei bem porquê. Mas, a verdade é que dediquei muita atenção a esse enxoval enquanto namorava o poeta cantor.

Depois, avassalada pela paixão e com outro namorado, deixei de ter tempo para prestar atenção a isso. Lá estava a arca cheia que nem um ovo e eu com a cabeça noutro sítio.

Quando me casei, claro que levei o enxoval, mas não a arca, não tinha onde pôr uma coisa daquelas. Ficou em casa dos meus pais. Algum tempo depois, mandaram-na para casa da minha avó. Mais tarde, ela também não a queria, dizia que lhe ocupava muito espaço, e acabei por levá-la para uma arrecadação onde ainda está. Agora tem lá dentro os trabalhos da escola dos meus filhos quando eram pequenos.

Ainda muito miúdos, chegados à nossa casa, um pequeno apartamento perto do céu, num décimo quinto andar com uma vista maravilhosa, casados de fresco, olhámos com apreensão para aquela roupa toda, elaboradíssima. Pensei que devia ser uma canseira passar a ferro aquelas barras bordadas ou de renda e sempre tinha ouvido dizer que engomar linho é obra. Comprámos, então, coisas mais modernas, lençóis mais largos, estampados ou de cores fortes, toalhas amarelas, cor de laranja e, claro, brancas, mas tudo simples.

A grande maioria da roupa do meu enxoval continua, pois, por estrear. 

Ocupa várias gavetas que bastante falta me fariam para outras coisas. Fui agora tirar algumas peças para fora, para fotografar e vi que algumas têm manchas amarelas, devia lavá-las, pô-las ao ar. Mas... e o tempo para isso? Quando me reformar logo me entretenho.

Mas olho aquelas peças de arte com muito carinho. Há nelas muitas, muitas horas de trabalho da minha mãe e da minha avó. Há nelas muito carinho, o carinho com que muito genuinamente pensavam estar a ajudar-me a ter um futuro melhor, um futuro no qual dormiria entre rendas e bordados. Lembro-me tão bem, e até com uma certa nostalgia, daquelas tardes em que nos debruçávamos sobre os desenhos, sobre os panos, antecipando para mim um futuro radioso, branco e feliz. E assim tem sido, uma vida feliz mas mais colorida do que monocromática, branca.

Lembrei-me disto hoje depois de ter lido um artigo na Ciência Hoje em que se dizem coisas interessantes como: Tim Wildschut, da Universidade de Southampton e co-autor do estudo, considera que a “nostalgia é experimentada praticamente por toda a gente e que pode promover um certo conforto psicológico. Por exemplo, um devaneio nostálgico ajuda a combater a solidão”.

Os investigadores quiseram “dar um passo em frente” e perceber “se este sentimento estava também envolvido no conforto fisiológico”. O estudo mostrou que a nostalgia tem uma função homeostática, de equilíbrio, permitindo a simulação de estados anteriores de prazer, incluindo estados de conforto corporal. Neste caso faz as pessoas sentirem-se mais quentes e aumenta a sua tolerância ao frio.


Por isso, meus Caros Leitores, se estiverem a sentir frio, desolação ou solidão, tentem, por favor, recordar momentos agradáveis da vossa vida, momentos que guardem com carinho e pelos quais sintam uma doce saudade. Sentir-se-ão, de certeza, mais quentinhos, mais acompanhados.


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As fotografias são de peças do meu enxoval. A canção, de que gosto imenso, é Marambaia e é interpretada por Maria Bethânia e Omara Portuondo.

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Hoje não escrevi nada no meu Ginjal. Não podia - é que faço mesmo questão de ter em destaque dois poemas enviados por dois leitores, a quem muito sinceramente agradeço, e que incorporei no corpo da mensagem, a seguir ao poema de João Miguel Henriques. Convido-vos a irem até lá. Confesso-vos que me sinto tocada de cada vez que vejo como das palavras nascem palavras, e que belas palavras e que bem que aquelas falam umas com as outras, que bem.

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Tenham, meus Caros Leitores, um dia muito feliz. E recebam um abraço que vos envio com amizade.