A partir de certa altura a minha mãe começou a dizer que era melhor começarmos a tratar do enxoval.
Fomos a uma loja que vendia tecidos a metro e a minha mãe queria algodão e acrescentava qualquer coisa que era distintiva, não sei se seria algodão egipcío ou se algodão egipcío é o das meias de homem. Sei que ela queria algodão do bom. Comprámos muitos metros, divididos em lençol de baixo, lençol de cima, que era maior por causa da dobra, e almofadas. Comprámos só pano branco.
Depois a minha mãe foi falar com uma senhora que fazia bordados à máquina e deixou lá um grupo de panos com a encomenda de uma série de bordados.
Uma das minhas avós que gostava muito de fazer crochet, fez uma série de barras em renda, umas de bicos, outras com monogramas, bordados antigos, complexos. Fez uma mais simples mas que eu escolhi porque, justamente era simples e a renda fazia uns lacinhos, e eu achava muito bonita.
Quando estavam prontas as rendas, a minha mãe levava-as à senhora dos bordados para que ela as aplicasse e, então, num processo aturado, escolhia-se o processo de aplicação, ponto
ajour ou outros, não me lembro dos nomes.
Depois a minha mãe comprou também linho onde bordava ela própria, à mão. Tinha imenso cuidado para não sujar a alvura do pano, e punha óculos, acendia uma luz sobre o bordado e estava concentradíssima.
Num deles bordou uma barra enorme em ponto de Richelieu. Tenho ideia que andou meses ou anos a fazer aquela enorme barra cujos interiores recortava com uma tesourinha de bicos. Vinha da escola e entregava-se a este trabalho, por fim tenho ideia que já desesperava, nunca mais aquilo acabava.
Noutro dos bordados equacionava-se maduramente se a linha a usar devia ser branca, pérola, ligeiramente acinzentada, faziam-se ensaios, olhava-se de frente e de lado, a minha mãe aconselhava-se com a senhora, com a minha avó.
Quando a senhora os dava por prontos, ou bordados ou com as rendas aplicadas, íamos buscá-los. O meu pai ficava no carro e recomendava que não nos demorássemos mas demorávamo-nos sempre porque a senhora (disse-me a minha mãe no outro dia que teve um AVC, está agora num lar) tinha sempre pormenores a relatar, dificuldades com que se tinha deparado e que tinha ultrapassado depois de muito pensar e eu e a minha mãe ouvíamos com muita atenção, analisávamos, dizíamos que tinha ficado muito bem e ela lá sorria, mais tranquila. Depois eu e a minha mãe trazíamo-los em braços, envolvidos em pano de lençol para não se sujarem, e com o mesmo desvelo com que transportaríamos um recém-nascido.
Depois já era tanta coisa que se começou a colocar a questão: onde guardar?
Veio a ideia da arca. E, então, fomos um dia escolher uma arca. O dono da loja aconselhou uma arca de cânfora, grande, toda trabalhada, com uma espécie de tabuleiro interior, um fecho em bronze ou latão, não sei. Pesada que se farta. Cheirosa. Nunca engracei muito com ela, gosto de coisas mais simples, mas o senhor explicou que era o melhor que havia para enxovais e a minha mãe aceitou o conselho, e eu também não ofereci resistência, andava encantada com aquilo tudo.
Algum tempo depois a arca estava repleta de lençóis, toalhas de mesa lindas, umas aos quadrados de linho bordados intercalados com quadrados de renda, outras todas bordadas à mão.
Depois a minha avó tinha na cama dela uma colcha de renda antiga, pelo menos do tempo da minha bisavó, tinha em cima um casal de ceifeiros, ela com uma cesta com flores. Eu gostava muito dessa colcha e pedi à minha avó que fizesse uma para mim. Ela começou por dizer que não seria fácil porque o tamanho era outro, o original era mais pequeno, a linha também era diferente, teria que adaptar o desenho; mas lá a fez. Gosto imenso dessa colcha. Faz-me lembrar a casa da minha avó quando eu era pequena e usava tranças.
Quando abria a arca, havia, pois, aquele cheiro tão característico da cânfora. Na altura não percebia se gostava daquele cheiro ou não. Agora acho que não, e nem sei bem porquê. Mas, a verdade é que dediquei muita atenção a esse enxoval enquanto namorava o poeta cantor.
Depois, avassalada pela paixão e com outro namorado, deixei de ter tempo para prestar atenção a isso. Lá estava a arca cheia que nem um ovo e eu com a cabeça noutro sítio.
Quando me casei, claro que levei o enxoval, mas não a arca, não tinha onde pôr uma coisa daquelas. Ficou em casa dos meus pais. Algum tempo depois, mandaram-na para casa da minha avó. Mais tarde, ela também não a queria, dizia que lhe ocupava muito espaço, e acabei por levá-la para uma arrecadação onde ainda está. Agora tem lá dentro os trabalhos da escola dos meus filhos quando eram pequenos.
Ainda muito miúdos, chegados à nossa casa, um pequeno apartamento perto do céu, num décimo quinto andar com uma vista maravilhosa, casados de fresco, olhámos com apreensão para aquela roupa toda, elaboradíssima. Pensei que devia ser uma canseira passar a ferro aquelas barras bordadas ou de renda e sempre tinha ouvido dizer que engomar linho é obra. Comprámos, então, coisas mais modernas, lençóis mais largos, estampados ou de cores fortes, toalhas amarelas, cor de laranja e, claro, brancas, mas tudo simples.
A grande maioria da roupa do meu enxoval continua, pois, por estrear.
Ocupa várias gavetas que bastante falta me fariam para outras coisas. Fui agora tirar algumas peças para fora, para fotografar e vi que algumas têm manchas amarelas, devia lavá-las, pô-las ao ar. Mas... e o tempo para isso? Quando me reformar logo me entretenho.
Mas olho aquelas peças de arte com muito carinho. Há nelas muitas, muitas horas de trabalho da minha mãe e da minha avó. Há nelas muito carinho, o carinho com que muito genuinamente pensavam estar a ajudar-me a ter um futuro melhor, um futuro no qual dormiria entre rendas e bordados. Lembro-me tão bem, e até com uma certa nostalgia, daquelas tardes em que nos debruçávamos sobre os desenhos, sobre os panos, antecipando para mim um futuro radioso, branco e feliz. E assim tem sido, uma vida feliz mas mais colorida do que monocromática, branca.
Lembrei-me disto hoje depois de ter lido um
artigo na Ciência Hoje em que se dizem coisas interessantes como:
Tim Wildschut, da Universidade de Southampton e co-autor do estudo, considera que a “nostalgia é experimentada praticamente por toda a gente e que pode promover um certo conforto psicológico. Por exemplo, um devaneio nostálgico ajuda a combater a solidão”.
Os investigadores quiseram “dar um passo em frente” e perceber “se este sentimento estava também envolvido no conforto fisiológico”. O estudo mostrou que a nostalgia tem uma função homeostática, de equilíbrio, permitindo a simulação de estados anteriores de prazer, incluindo estados de conforto corporal. Neste caso faz as pessoas sentirem-se mais quentes e aumenta a sua tolerância ao frio.
Por isso, meus Caros Leitores, se estiverem a sentir frio, desolação ou solidão, tentem, por favor, recordar momentos agradáveis da vossa vida, momentos que guardem com carinho e pelos quais sintam uma doce saudade. Sentir-se-ão, de certeza, mais quentinhos, mais acompanhados.
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As fotografias são de peças do meu enxoval. A canção, de que gosto imenso, é Marambaia e é interpretada por Maria Bethânia e Omara Portuondo.
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Hoje não escrevi nada no meu
Ginjal. Não podia - é que faço mesmo questão de ter em destaque dois poemas enviados por dois leitores, a quem muito sinceramente agradeço, e que incorporei no corpo da mensagem, a seguir ao poema de João Miguel Henriques. Convido-vos a irem até lá. Confesso-vos que me sinto tocada de cada vez que vejo como das palavras nascem palavras, e que belas palavras e que bem que aquelas falam umas com as outras, que bem.
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Tenham, meus Caros Leitores, um dia muito feliz. E recebam um abraço que vos envio com amizade.