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quarta-feira, julho 13, 2022

Mais um

 



Tinha-lhes dito que não havia nada, que podia esperar pelo fim de semana. Terça-feira é dia complicado, dia de reuniões que podem prolongar-se e ensarilhar-se. Mas depois percebi que gostariam que houvesse festejo. Pensei: faço arroz de pato. Tentaria ir ao supermercado à hora de almoço, poria o bicho na panela, arranjaria maneira. O meu marido disse que não. Coisa simples. Ou jantaríamos numa esplanada ao pé da praia ou, se fosse cá, mandaríamos vir pizas. Equacionámos. Melhor cá, poderíamos ficar até querermos, fazer o barulho que quiséssemos.

Mas foi dia de juízo. Sozinha em casa com o animal (refiro-me ao cão, claro). O rapaz que vinha arranjar um portão, resolveu vir de manhã, pouco antes de começar uma valente de uma reunião. E ou era ele experimentando o arranjo, entrando e saindo, abrindo e fechando, ou era o telefone tocando, uma sobreposição complicada de gerir. Enquanto isto, a fera colocada entre uma zona e outra para não ter hipóteses de se chegar ao pobre. Ladrando, ladrando. 

Reuniões, telefonemas, mensagens. Consegui sair para dar uma volta com a fera já às duas e tal. Fervia. O pobre mal conseguia pôr as patinhas no chão, só a querer voltar para trás. Uma braseira. Almocei perto das três, a correr, quase em cima de outra reunião. Era perto das cinco quando consegui dar um pulo ao supermercado. 

Depois chegou a turma da minha filha. Ainda fui fazer uma breve caminhada com o meu marido, que entretanto chegou, só para esticar as pernas. Logo a seguir chegaram os que vinham arranjar o estore da cozinha. Há vários dias à espera e tinha que ser esta terça-feira. Tentei que fosse noutro dia. Não. O único bocado de tempo que tinham era este. Pegar ou largar. Peguei. Chegaram. O cão isolado para não lhes saltar para cima. A ladrar, a ladrar.

Entretanto, chegou a turma do meu filho. 

E os outros não saíam da cozinha. Já a fazer-se tarde. Depois eram precisas umas ripas, não podia ficar arranjado. Que sim, que sim. Queríamos é que se fossem embora. Agora o estore está cerrado, não entra um raio de luz. Azarinho.


Para além das pizzas em forno de lenha, boazonas, resolvi fazer uma ursa. Passo a explicar no que consiste uma ursa. É coisa que vem do tempo em que os meus filhos eram pequenos. Sucesso garantido. Agora já são os filhos dos meus filhos que gostam da ursa.

Frango assado do supermercado. Desossei. Num tabuleiro grande, o frango inteiro desfiado. Depois, uns tomates grandes, maduros, cortados em cubinhos pequenos. Depois um pacote de batatas fritas. Depois um bocado de maionese e um little bit de ketchup. Envolvi tudo ao de leve para não espatifar as batatas fritas. Por cima, ripei seis ovos cozidos. Temperei com orégãos e com azeitonas às rodelinhas. Está feito.

Para além disso tinha salada mista: alface, rúcula, couve roxa, milho, tomate cherry, bolinhas de mozzarela, azeite, orégãos.

E espargos verdes com fio de azeite e um little touch lateral of maionese.

E as pizzas das de tamanho familiar, duas de salmão, mozarela de búfala e manjericão, duas de presunto, ovo e azeitonas e duas quatro estações, com tudo a que se tem direito.

De sobremesa: petit gateaux de chocolate, strudel de maçã, bolo de mármore e mil folhas com doce de ovo.


No final, depois das cantorias, passámos à fase arraial. A menininha mais linda ficou de DJ. Os pedidos foram no sentido da música pimba. Dançámos que foi um gosto. Debaixo das luzinhas, vá de cantar e dançar. Festa popular à maneira.

E, à despedida, fotografias de grupo.

Escuso de dizer que o urso cabeludo fez várias tentativas para roubar comida, chegou a ser apanhado de pé, patas felpudas em cima da mesa, a inspeccionar o que se passava lá por cima, o que lhe valeu grandes descomposturas. Por fim, já se contentava em andar a lamber migalhas pelo chão.

No fim, os meninos perguntaram se eu tinha gostado do dia -- e eu gostei -- e perguntei se eles também gostaram -- e eles gostaram. Tenho estado a ver as fotografias, todos tão bem dispostos, sempre alguns a fazerem maluquices. Dou por mim a sorrir enquanto revejo estas imagens felizes.

Quando se foram embora, o urso cabeludo atirou-se à tigela da água e bebeu durante minutos. Depois deitou-se espapaçado. Há bocado levantou-se e foi comer. Chegou aqui e caiu outra vez. Dorme a sono solto. E eu tenho estado a lutar para também não cair a dormir profundamente.

Este é o tempo dos caranguejos. A saison era aberta pelo meu pai, o primeiro dos caranguejos. Agora sou eu a abri-la. Hão-de seguir-se mais dois, dois homónimos. De seguida, entra-se em força nos leões, uns a seguir os outros.


Um dia, depois outro dia. Quando damos por ela, é um ano, depois outro ano. E é assim a vida, uma sucessão. Ia dizer uma sucessão infinita mas não é infinita, é finita. Mas cada um de nós é nada, uma partícula elementar, pelo que, abstraindo a identidade de cada um, há mesmo uma continuidade, uma infinita sucessão em que um dia não estamos, depois estamos, depois deixamos de estar. Mas, quando deixamos de estar, já cá estarão outros a assegurar a continuidade. E está bem assim.

(Isto enquanto não rebentarmos com a espécie, claro).

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Uma vez mais, figuras da pintura que a Inteligência Artificial associou a selfies minhas. Não sei se têm alguma coisa a ver comigo ou se teria que se lhes tirar a bissectriz para ter parecenças -- mas não interessa, gostei de conhecê-las e, por isso, aqui estou. Ou melhor, aqui estão.

  • Head of a Woman (La Scapigliata), Leonardo da Vinci. 
  • Woman Leaning on Her Elbows (Femme accoudée), Pierre-Auguste Renoir 
  • Portrait of a Neapolitan Woman, Jean Honoré Fragonard,1774
  • Salomé by Luc-Olivier Merson 
  • Portret van een jong meisje, Thérèse Schwartze
  • Woman on a Striped Sofa with a Dog. Mary Cassatt
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Amanhã tentarei responder aos comentários. Hoje não consigo.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Tudo de bom. Paz.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Flores, apenas


Bouquet à Manet
(Manet gostava muito da sensualidade das grandes peónias)

Jarra com peónias, Manet

Tenho coisas. 

Uma é que nunca fui de ir a floristas comprar flores para jarras. Acho mal empregado arranjar flores frescas para depois as deitar fora. Mesmo receber flores frescas de presente não é coisa de que goste muito. Olho o ramo tão bonito e, cá para, mim penso: 'mal empregadas, tão bonitas, e qualquer dia vão para o lixo, é dinheiro deitado ao lixo'. Claro que escondo que penso isto. Tento então preservá-las. Depois, quando estão secas, continuo a achá-las bonitas e custa-me deitá-las fora. Só recentemente deitei fora um ramo lindíssimo que uma das minhas primas me deu há que tempos. 

Bouquet à maneira de Cézanne
(para não correr o risco de morrerem,
Cézanne fazia flores de papel que pintava.
No entanto, acabavam por ir perdendo a cor)

Duas jarras de flores, Cézanne

Mas gosto de apanhar algumas no campo e deixá-las ir secando. Alfazema, por exemplo, gosto de apanhar e também gosto de lhes juntar folhas ou flores do campo. Mas, no campo, o que não falta são flores -- pelo que, se secarem, voltam à terra, não chegam a perder-se. Mas nem no campo gosto muito de as apanhar. Acho-as mais bonitas vivas. Cortá-las só para um deleite pessoal um bocado fútil parece-me uma violência desnecessária. 

Escrevo isto e penso que, quem ler, deve achar que cá está mais uma maluquice, e da grossa. E deve ser pois gosto de ver belos arranjos florais quer ao vivo quer em fotografia. Mas, embora saiba que muita gente deve achar uma heresia, gosto ainda mais de arranjos de flores a fingir.

Bouquet à Renoir
(do género dos arranjos que Madame Renoir gostava de fazer
e que geralmente continham flores brancas)

Grande jarra de flores, Renoir

E assim é que, para colmatar esta minha pancada, nesta sala tenho ali num canto uma jarra de vidro com umas flores de pano, umas flores cor de marfim, grandes, abstractas. Numa outra, uma jarra de vidro azul, uma jarrinha pequena com um feitio incomum, tenho umas flores que são apenas umas hastes muito finas com as pontas azuis. Fica bonito, acho elegante. 

E não tem que se assistir ao seu declínio pois não são flores, são representações de flores. 

Ora bem. Estive a ver os belos arranjos outonais que aqui vos mostro e achei-os mesmo bonitos. Lá no campo, quando apanho flores, também as ponho em bules. Gosto especialmente de um bule muito antigo, de esmalte em tom lilás com o desenho de amores perfeitos lilases. Gosto de lá ter hastes de alfazema. A cor condiz, acho bonito. Estas estão em cafeteiras e as flores que compõem os arranjos podem ser vistas abaixo.

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Andar no campo, ver as cores puras das flores, sentir o seu perfume, ver as abelhas que as procuram para delas sorverem o açúcar, o mel, a secreta doçura, ouvir os pássaros atraídos pelo deleite dos tons que vibram à luz do sol, olhar a corola e os delicados órgãos que sob ela se ocultam -- esse é, para mim, o verdadeiro prazer que a companhia das flores me proporciona.
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E a propósito disto das flores, com vossa licença:


When Like the Sun de A.D. Hope, lido por Tom O'Bedlam

No vídeo, as flores são quase todas de Georgia O'Keeffe e a mulher nua reclinada é de Lev Tchistovsky

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segunda-feira, setembro 12, 2016

As mulheres que lêem são perigosas?





Já o contei aqui. Eu era bebé, tinha seis meses, uma leve penugem loura na cabeça, e estava no meu quarto, na minha caminha branca que tinha na cabeceira uma fita com uma lua de prata. E estava a dormir.

A minha mãe estava noutra divisão. Lá fora um cão ladrou e, a seguir, a minha mãe ouviu uma voz de bebé a dizer 'cão'. Assustada a minha mãe foi a correr ver que coisa estranha era aquela. Eu estava acordada e provavelmente a sorrir já que me dizem que eu estava sempre a rir e as fotografias assim o mostram. Depois o cão ladrou e eu disse outra vez: 'cão'. A minha mãe assustada largou a correr a ir chamar a vizinha da casa do lado: 'a menina falou!'. A vizinha disse que podia lá ser, são sons que os bebés às vezes fazem. Mas a minha mãe que não, que eu tinha dito distintamente 'cão'. Vieram as duas a correr e abeiraram-se da cama, queriam que eu repetisse mas eu não. Até que o cão ladrou e eu disse 'cão'. Quando o meu pai chegou encontrou-as assustadas e também não acreditou. Até que o cão ladrou e eu voltei a dizer 'cão'. Logo depois, ia eu ao colo do meu pai visitar a madrinha dele e, quando acenderam a luz, eu disse 'luz'. E toda a gente ficou assustada, um bebé tão de colo. Depois foi um dos meus tios, mais novo que os meus pais, o Manuel, a quem, na brincadeira o irmão e os amigos chamavam Lela. Quando cheguei ao pé dele, disse Lela. Aos poucos foram acreditando que eu estava mesmo a começar a falar. A minha mãe conta que devia eu ter uns oito meses e já dizia tudo, foi comigo ao mercado e eu não me calava, a dizer o nome das frutas e a perguntar tudo. E que as pessoas ficaram admiradas, um bebé de colo, praticamente ainda só com uma penugem na cabeça, a falar assim: 'Mas que idade tem o bebé...?!' e mal acreditavam no que viam.

E contam que eu falava, falava. Perguntava tudo, queria saber tudo e não me calava. Com um sapateiro que trabalhava ao pé da casa de uma das minhas avós ou com o pai de uma que viria a ser minha tia. Eles tinham paciência e eu, sem querer, abusava. Adorava as explicações que eles me davam, a forma como falavam, as palavras desconhecidas que usavam.

Depois foi a ler e escrever. Aos quatro anos, quando entrei para a infantil, já lia e escrevia. Quando cheguei à primária lia correntemente. Uma vez mostrei à professora umas fotografias e numa estava eu a ler a Crónica Feminina. O meu pai tinha-me apanhado a ler aquela revista e achou graça. A professora disse: 'Sabendo já ler, devias ler coisas melhores, isso não presta'. Fiquei incomodada. Gostava tanto de ler a Crónica Feminina. Tal como gostava de ler tudo o que me vinha parar às mãos.

Ainda gosto. Para onde quer que vá, vou com livros.

Mas, se páro na estação de serviço, ponho-me a ver as capas das revistas e, se tiver tempo, até folheio alguma. Se estou parada à espera que me chamem pela minha vez, seja onde for, estou no smartphone a ler o que calhar. Se apanho uma revista qualquer, mesmo que tenha meses, leio-a de uma ponta a outra. 

Quando era adolescente escrevia cartas a amigas que conhecia em intercâmbios de escolas, em acampamentos, a namorados, a pen friends que não conhecia de lado nenhum. Adorava receber cartas e escrever de volta. Longas cartas.

Aqui é o que se vê, escrevo como se não houvesse amanhã. Mais do que paixão por palavras, é quase um vício. Coisa de nascença, como se viu.

Mas, com os livros, dá-se uma coisa estranha. E não sei se devo dizer com os livros, se com a idade. Estou cada vez mais intolerante. Se a escrita me parece vulgar, se há palavras que me parecem mal escolhidas ou que melodicamente são dissonantes no texto mas o são por desmazelo e não por qualquer motivo justificável, ou se são histórias de uma banalidade rasteira, não consigo sequer fazer um esforço.

Eu, que era omnívora na leitura, agora, tal como na comida, estou cada vez mais exigente. Se já não consigo suportar comida muito puxada, carnes com muita gordura, coisas assim, e cada vez mais gosto de um bom peixe fresco cozinhado muito simplesmente e até pode ser acompanhado só com batatas e feijão verde cozidos,  ou de boas saladas, bem temperadas, e fruta de época - ou seja, a simplicidade, o sabor verdadeiro das coisas - nos livros parece que é a mesma coisa.

Tem a escrita que me parecer fluida, simples, genuína. E soar-me-á bem se contiver uma melodia que me leve nos braços ou se for surpreendente e me sacudir o espírito. No fundo, acho que, por um qualquer motivo, deve conter um fio que me conduza pelo caminho das palavras.

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Poderia agora enunciar alguns dos livros ou autores que, apesar de muito incensados, eu acho um saco ou quais os que, por estes dias, me têm por companhia -- mas, dado o adiantado da hora, por aqui me fico.

Acrescentarei apenas -- e não serei original ao dizê-lo -- que encontro em alguns blogs as características que me prendem tanto ou mais do que muitos livros que por aí vejo recomendados. Alguns estão aqui ao lado, na minha galeria lateral. Outros não.

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Mas o título do post era 'As mulheres que lêem são perigosas?' e acabei por não responder.

Muito sucintamente direi que acho que depende. A maioria será completamente inofensiva. Mas haverá outras que são perigosas. Muito. Cuidado com essas.

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Ao longo do texto, as pinturas são, respectivamente, de Gustave Courbet, Berthe Morisot, Raffaello Sanzio, Renoir, Robert Delaunay.

Leonard Cohen interpreta The letters.

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Queiram, se para aí estiverem virados, é claro, descer até ao post seguinte: Veneza como nunca antes foi vista.

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sexta-feira, agosto 26, 2016

Paris, mon amour



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Digo que não gosto de Paris no verão mas estou aqui e só me dá para me lembrar dos seus lugares. Não dos lugares turísticos mas dos jardins, ruas e pracinhas, das esplanadas, das pessoas diferentes com que nos cruzamos, da vista da belíssima cidade a partir de alguns telhados, dos passeios pelos boulevards, das bancas de livros e estampas na beira do rio, das livrarias.

E agora estou a lembrar-me de uma coisa que não sei se já aqui contei. Éramos dois casais e andávamos quase sempre juntos mas um dia fomos cada casal para seu lado, acho que eles iam visitar algum amigo num arredor qualquer. Encontrámo-nos à noite e ele vinha com um blusão de pele novo, giríssimo. Nós admirados, não eram o género de pessoas que fossem às compras de roupa, muito menos ele. Mas estavam pouco convencidos. Então o que tinha sido? Não me lembro já bem de todos os pormenores, tenho ideia que, no comboio, tinha entrado um fulano com um malão. Então o fulano, que tenho ideia que era italiano, tinha dito que tinha estado a expor artigos de pele numa passagem de modelos ou exposição, não me lembro bem, e que tinham sobrado umas peças e que não lhe dava jeito ter que expedir aquilo por avião e que se conseguisse vender tudo, melhor. E que, então, tinha proposto vender um blusão por tuta e meia, não me lembro se uns 20 ou 25 euros. E que eles acharam aquilo muito suspeito e que o fulano ainda tinha feito um desconto. E, a modos que contrariados e desconfiados, ficaram com o blusão.

Ora o blusão era um espanto, bom mesmo, uma boa pele, um bom forro, um bom design. Chegaram ao hotel, reviraram o blusão, apalparam, sacudiram, pensando que tinha droga escondida, qualquer treta. Nada. Nem sabiam se o ele o havia de vestir, pois mais do que certo era material roubado e ainda eram apanhados

Mas então ele lá se afoitou e lá o vestiu. Um espectáculo de blusão. Ainda me zanguei por ele não ter trazido também para nós. Eu, que acho que desencanto pechinchas por onde passo, nunca consegui coisa assim.

Mas, pronto, isto foi uma derivação.

Estou aqui na sala, a escrever deitada no sofá, e a olhar para a estante baixa, funda e comprida, onde tenho livros e tralha e, por cima, a televisão e mil molduras.

Uma vez, o mais pequeno abriu a estante e começou de lá a tirar as figurinhas do presépio, os anjinhos, as caixinhas de porcelana, a caixinha com a bússula, a caixinha de música e outras coisas do género. E então, apressadamente, o mais crescido puxou-o por um braço e disse: 'Não mexas no museu da Tá!' e eu achei um piadão porque vi que eles olham essas minhas pequenas preciosidades como objectos de museu. Mas uma das peças trouxe-a eu de lá, há muitos anos, eram os meus filhos muito pequenos, ainda me lembro do meu marido andar com o meu filho às cavalitas: é um bule muito bonito, estou a olhar para ele, tem umas cores suavíssimas, e tem forma de elefante (se não estivesse cheia de preguiça, ia fotografá-lo para o mostrar). Nessa vez trouxe também uns copinhos pequeninos de vidro pintado à mão, com flores douradas e cor-de-rosa velho. Tinha muito medo que se partisse aquilo no avião, tive mil cuidados, e o meu marido sem querer saber, achava absurdo que eu trouxesse aquilo, se se partisse acho que ele até acharia que era bem feito para eu não ter ideias daquelas. Mas chegou tudo intacto. E não sei como, com mudança de casa pelo meio, com tanta miudagem sempre cá em casa, ainda resiste tudo. Nunca os usei, sempre os mantive a bom recato, porque são umas peças mesmo bonitas. Olho para elas e lembro-me de Paris.


E nessa vez, em Montmartre, os miúdos posaram para serem retratados a carvão. Mesmo bonitos. Quando lá voltámos, já mais crescidinhos, no mesmo sítio, posaram para uma caricatura. As mesmas feições, engraçados. Mas cansavam-se, muito museu, muita caminhada. No entanto, divertiam-se. 

Também acho que já contei. Uma vez fomos jantar para a zona Des Halles, íamos à procura de um certo restaurante. Mas os miúdos estavam estafados e o meu marido impaciente, quando chega a uma rua com restaurantes, por vontade dele entra no primeiro - e, então, vimos um com uma decoração muito bonita, em tons de violeta e preto, com uns castiçais entre o design e o romântico, com umas flores altas muito bonitas. Pronto, ficamos é já aqui.


Pedimos - sempre aquela festa, os miúdos a quererem experimentar tudo - e nem reparámos em nada. Até que, instalados, os amouse-bouche já a sossegar a impaciência, começámos a ver o que se passava à nossa volta. Só homens, alguns muito in love, de mão dada ou aos beijos na boca, outros a darem palmadas no rabo dos empregados, um a beijar na boca um empregado. Nós ali os quatro completamente deslocados. Os miúdos parvos com aquilo, nunca tinham visto por cá nada assim. Depois chegou um todo maquilhado, grandes pestanas, umas calças completamente justas e todo provocante e os outros todos a meterem-se com ele. Os miúdos faziam sinais um para o outro. O meu marido furioso connosco, a não querer que olhássemos ou ríssemos, a dizer que ainda arranjavamos chatice. 

Quando cheguei ao hotel, ao ver os folhetos turísticos, vi que aquele restaurante era um dos mais carismáticos do roteiro gay. Estava explicado.

E a bailarina enorme, completamente gorda, toda Toulouse-Lautrec? De tutu, tules cor de rosa, em pontas, a circular dançando nos Champs Elysées? Ainda hoje a minha filha fala nela.

E quando fomos os dois, romanticamente, em Wagon-Lit? Que viagem tão linda. Gostei tanto.

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E não vos maço mais com estas recordações, ainda por cima em modo repetex. Isto é falta de férias. Tenho é que lá ir um dia destes.

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E, para quem não conheça, um vídeo divulgado esta quinta-feira, muito bonito, com Paris num pas de deux com Victoria Dauberville, uma bailarina dos Dot Move.

Transcrevo parte da apresentação:

C’est l’histoire d’une danseuse seule face à son destin, en proie au doute mais déterminée à réaliser son rêve coûte que coûte : danser à l’Opéra de Paris. 

Pour illustrer ce conte moderne, DOT MOVE a relevé le pari de rendre Paris complètement désert pour en faire un terrain de jeu idéal d'une danseuse classique.

Le film est illustré par « Rêve d'Opéra », extrait du conte musical les « Souliers Rouges » écrit par Fabrice Aboulker et Marc Lavoine

RÊVE D'OPÉRA




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Lá em cima era Jacques Brel interpretando Les prénoms de Paris

As imagens mostram pinturas no museu de que mais gosto e que visito de cada vez que estou em Paris: o Musée d'Orsay.

Os autores são, respectivamente: Jean-Auguste Dominique Ingres, Paul Gauguin, Claude Monet, Auguste Renoir, Toulouse-Lautrec, Gustave Courbet e, finalmente, os jovens gregos são de Jean-Léon Gérôme, 
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domingo, março 27, 2016

Uma vez mais:
O que é a arte?
-- a palavra aos Leitores Joaquim Castilho e P. Rufino


Pintura que integrou a exposição 'A felicidade em Júlio Pomar'

 


O que é a arte? Para que serve a arte?


Para que serve uma paisagem desértica ou uma montanha nevada?

A arte, tal como por exemplo uma paisagem, pode transmitir-nos emoções agradáveis ou penosas, evocar memórias, ampliar a nossa sensibilidade, permite-nos ver e sentir para além da realidade racional, objectiva e “ utilitária” do quotidiano.

Contrariamente ao que normalmente sucede com uma paisagem, a arte é uma construção levada a efeito por um produtor, um “artista” que pretende realizar com volumes, cores palavras, com fixações em telas ou em papel fotográfico, por exemplo, as emoções ou uma qualquer mensagem que ele próprio pensa ter descoberto e que julga interessante dar a conhecer a outrem. Esta actividade exige “inspiração e transpiração” e é muitas vezes penosa de realizar até o artista julgar ter conseguido atingir o objectivo pretendido.

Aprendi, como engenheiro de telecomunicações, que para comunicar algo a alguém é necessário um emissor, o artista, um receptor, o público interessado na fruição da obra de arte, e um meio de comunicação, o objecto artístico, mas também uma linguagem que seja compreendida pelo receptor sem a qual não existirá transmissão do que quer que seja.
Se um chinês me comunicar na sua língua qualquer coisa eu não irei receber nada porque não falo chinês.
Se não me for acessível a linguagem utilizada pelo artista, ou se ele não me facilitar essa compreensão, não posso entender o que ele me quererá dizer e não posso fruir a obra de arte.

Muitos artistas constroem uma linguagem que nos é perceptível pelo facto das suas obras nos conseguirem transmitir as emoções que teriam pretendido expressar mas nem sempre são exactamente as que o artista terá querido exprimir mas uma transmissão funcionou.

Ubu Roi III - Miró, 1966

Gosto do Miró ou do Pomar porque sou sensível à sua linguagem reproduzida em inúmeras obras. 

Detesto o Cabrita Reis por não consigo “sentir” o que ele me quer dizer. Chego mesmo a pensar que ele não “fala“ qualquer linguagem. Mesmo os especialistas que a procuram traduzir por palavras escrevem numa linguagem tão hermética que eu sou incapaz de a perceber.


I dreamt your house was a line - Cabrita Reis, 2003

As linguagens vão evoluindo através dos séculos. Há artistas que morreram e outros que continuam vivos porque as linguagens que utilizaram continuam vivas.

É normal que os artistas procurem sempre outras linguagens, sempre foi assim, mas procurar não significa necessariamente encontrar. Um dos problemas da arte contemporânea é que há demasiada sede de procura e raramente se encontram linguagens perceptíveis à nossa sensibilidade de “receptores” comuns mesmo que a procuremos ir educando e façamos um esforço nesse sentido.

Depois aparece a “máfia” dos galeristas, dos colecionadores, dos críticos, dos gestores de museus, curadores de exposições e editores revistas de arte etc. etc. desejosos de “valorizar” as obras de arte dos “se” artistas que ainda complicam mais a situação.
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Acrescento ainda alguma coisa à minha longa “narrativa“ (...) uma vez que (...) talvez seja falando de música, da linguagem musical, que o meu texto possa ganhar alguma verosimilhança! 

O canto gregoriano, a ars nova, as linguagens trovadorescas medievais, as oratórias. os madrigais, o nascimento da ópera, a música pré-barroca, o barroco, a musica clássica, o romantismo, o impressionismo etc., etc.

Linguagens que poderemos ir compreendendo e que nos vão facilitando a recepção de sonoridades diversas, de diversas épocas, que traduzem emoções, memórias, planícies e montanhas que descobrimos e por onde é bom viajar.

Die Lebensstufen (The Stages of Life), Caspar David Friedrich, 1835
Encontrámos desde o século passado o dedecafonismo, a musica minimal repetitiva e outras linguagens como a do referenciado Eric Satie, inclassificável como ele próprio, depois becos sem saída como Scelsi, Stockausen, Boulez, Xenakis que sábia e honestamente tentaram novos caminhos. Novas clareiras com Gubaidulina, Ligeti ou Part e tantos outros que procuram e talvez tenham encontrado e que terão aberto caminhos que os “mais famosos” vieram a revelar.

Botas como as de Van Gogh ou torturadas paisagens como as Caspar David Friedrich enriquecem-nos porque terá havido sempre e continuará a haver alguém que, através da Arte, nos quererá dizer qualquer coisa e nos irá sendo possível sentir o que nos querem transmitir mesmo sem os compreender. Ligação absolutamente necessária entre o emissor criador e o receptor fruidor da obra de Arte .


Texto da autoria de Joaquim Castilho, enviado através de comentários a posts abaixo

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Este tema, sobre o que é a Arte, é muito interessante e estimula uma boa e saudável discussão. 



Aqui há uns bons meses comprei um livro na FNAC que aborda esta questão de uma forma curiosa e mesmo cativante. Uma excelente obra. O autor é Julian Bell e o livro intitula-se, “Espelho do Mundo – Uma Nova História de Arte”. Já conclui a sua leitura há uns tempos e não me arrependi um momento sequer. É um livro grande, de muitas páginas, que leva tempo a ler – com atenção. (...)

No fundo, o significado de Arte tem também a ver com as sensibilidades de cada um. Da percepção que temos de objectos (um quadro, uma escultura, por ex) e sons (música), por exemplo. Mas, julgo também sobre o sentido desses mesmos objectos e sons. Da sua beleza. Da sua capacidade de nos atrair. Daquilo que podem significar e transmitir. E talvez também da dificuldade da sua execução (quer pela duração da sua concepção, quer pelo esforço mental que exigiu, etc).

Há muitas variantes no que respeita ao conceito que nos leva a definir Arte. E a Arte e o seu conceito evoluiu, ao longo dos tempos. E houve momentos em que aquilo que se seguiu, um novo estilo, foi rejeitado de início, para ser admirado mais tarde. Na Pintura (recordemos as primeiras reacções aos artistas Impressionistas, um dos vários exemplos), como na Escultura, como na Música (Stockausen, Xenakis, etc, aqui mencionados por outro Leitor que gosto de ler). Mas, também na Literatura. António Lobo Antunes, se bem me recordo, teve os seus contestatários pela forma como se revelou a escrever, ao não seguir a escrita com a pontuação tradicional (o mesmo para Saramago, que depois foi Prémio Nobel). Nalguns casos, o que chocou o conceito de Arte foi a sua (total) inversão.

Por exemplo, como dizia um crítico, a desconstrução de se conceber Arte.

La soupe - Pablo Picasso, 1902-1903

Picasso e outros foram exemplos disso (todos os movimentos que se seguiram ao Impressionismo, para além do Cubismo, o Surrealismo, o Expressionismo, Fauvismo, Futurismo, etc, ousaram reinventar a concepção de Arte).

Passaram a conceber a Pintura de uma forma até ali completamente diferente. Foram ousados e criaram um novo estilo. Inovaram. Goste-se ou não, ninguém discute hoje as suas qualidades artísticas e o seu lugar – relevante - na História da Pintura.

Le Rêve - Picasso, 1932

Naturalmente que há e houve em muitos casos, na concepção de determinada obra (Pintura, Escultura ou Composição musical), razões de natureza pessoal, experiências ou vivências desse tipo que levaram à concretização dessa obra. Os exemplos são vários, alguns até fascinantes. Agora, também terá de haver algum rigor para se considerar, ou incluir no conceito de Arte, determinada obra. É que nem sempre um excesso de ousadia, ou de inovação, ou de desconstrução, ou de abstracção, pode, ou deve, ser considerado Arte. Ou não deveria. Hoje, todavia, relativizou-se muita coisa, até na Arte. Por mim, desde que uma composição musical, um quadro, uma escultura, um livro, me fascine, pelo gozo que me deu de o desfrutar, já me sinto feliz. 

Les Deux Sœurs - Auguste Renoir, 1881

(PS: tenho imenso respeito por Martin Heidegger (com quem Herbert Marcuse colaborou, em particular num trabalho sobre Hegel – sempre admirei muito Marcuse), mas ainda hoje me custa entender aquela sua atitude perante o Nazismo, sobretudo vindo de alguém da sua estatura intelectual. Ficou a dever bastante a Hannah Arendt (com quem teve um “affair”, a sua recuperação, ou “desnazificação”). Outra nota: embora goste de Van Gogh, prefiro, por ex, Renoir (ou Monet, Manet)).


Texto da autoria de P. Rufino, enviado através de comentário a post abaixo

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Agradeço a ambos os Leitores os seus contributos e espero que não levem a mal que tenha puxado os seus comentários para o corpo principal do Um Jeito Manso.

A selecção de obras que usei para ilustrar o texto é da minha responsabilidade embora tenha sido feita a partir das referências dos seus textos.

A música lá em cima, Magnificat, é da autoria de Arvo Pärt.

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terça-feira, março 13, 2012

Vita Brevis - o mal pode estar dentro de nós ou à nossa espreita (com exemplos práticos: Paula Rego, Hieronymus Bosh, Edvard Munch e Renoir); e, para aligeirar, uma sugestão: que Nuno Crato, para a próxima, em vez de nos desiludir mais, nos surpreenda e imite Jacob Bovia


Música, por favor
(pf carreguem na setinha de play mais em baixo, à esquerda, para não saltarem para o Youtube)

Rodrigo Leão - Vita Brevis


Falamos, arreliamo-nos, enfurecemo-nos, gritamos, insultamos, adiamos, negamo-nos, e sempre como se tivéssemos tempo para corrigir os erros, para viver melhor, para darmos largas aos nossos ensejos.

Mas quem nos garante que esse amanhã existirá?

Paula Rego - A dança


Às vezes vejo fotografias de festas, casamentos. Tantos familiares que lá aparecem saudáveis, felizes e que, algum tempo depois, desapareceram. Às vezes, posteriormente, descobria-se que nessa altura em que riam e festejavam e que julgavam estar resplandecentes de saúde, estavam afinal a alimentar, no seu interior, um monstro inclemente que se multiplicava em silêncio, disfarçado, alarve.

Hoje eu falava sobre uma nomeação pública que não percebia, tal como não tinha percebido a anterior demissão. Disseram-me: ‘tem um cancro e é dos mauzinhos’. 

(Não explica nada mas, enfim, tendemos, face a isto, a ser mais tolerantes.)

Depois há isto, 'dos mauzinhos', porque, nestas coisas de seres criminosos há diferenças. Há os maus que, se forem descobertos a tempo, são fáceis de vencer e há os outros, os que são mesmo maus, maus como as cobras. Mas a natureza é a mesma, bichos falsos que a fazem pela calada.

Tenho medo. É uma coisa que me mete muito medo.

Hieronymus Bosh - pequeno excerto de uma grande tela (aqui pretendo ilustrar o medo)


Já vi partir alguns que me eram próximos às mãos desta bicheza malvada. Pensa-se que se tem uma vida inteira pela frente e podemos correr o risco de, sem sentirmos nada, estarmos afinal a ser devorados por dentro, invadidos, dominados. Térmitas brancas, sonsas, dissimuladas, manhosas, infestantes. Claro que hoje, felizmente, grande parte destes animais tenebrosos que, em silêncio, tecem horríveis teias, já são, afinal, vencíveis e quem os vence sente-se, depois, vitorioso, feliz, renascido, mas, enquanto não se sabe que a guerra está ganha, que susto, que susto, que enorme coragem é necessária. Tenho, pois, uma sentida admiração por todos quantos têm essa força, essa coragem, essa esperança que os leva a enfrentar o mal e a vencê-lo.


Edvard Munch - O grito

Hoje também, quando ia para o trabalho, do outro lado da auto-estrada, uma confusão das antigas. Veículos parados, muita gente fora dos carros, ar aflito, muitos polícias, o trânsito, a seguir, todo parado ao longo de quilómetros. Entretanto, vinham a chegar ambulâncias do INEM e dois ou três carros de bombeiros, apitando, numa urgência, e ziguezagueando impacientes entre os carros parados .

Do lado que eu ia, o trânsito fluía sem dificuldade, gente que seguia normalmente para mais um dia de trabalho numa manhã de primavera, quase verão.

Separadas apenas por uma barra metálica, duas realidades tão diferentes. Eu e os outros que seguíamos no mesmo sentido, chegámos bem ao nosso destino; do outro lado, alguém que antes ia também descontraidamente para mais um dia igual aos outros, afinal, naquele momento, sofria na estrada - e tomara que fosse apenas um sofrimento passageiro. E, atrás, muitas centenas de pessoas, fechadas nos seus carros, pessoas que iriam chegar atrasadas, aborrecidas pelo contratempo e, sabemos lá nós, se, em alguns casos, esse atraso não ia também causar outros problemas.

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É a precariedade do ‘normal’, do ‘estar-se bem’. É a aleatoriedade absoluta do ‘ser’. É o julgar-se que se está bem e que se é imortal e, no instante seguinte, constatar que se é pouco mais do que um ser vulnerável à espera de salvação.

Renoir

Por isso – mas talvez também porque geneticamente sou como sou – não consigo entregar-me a raivinhas, a rancores, a ressabiamentos, a pequenas invejas. Talvez também por isso, tenho muita dificuldade em perceber as pessoas que perdem tempo a congeminar ajustes de contas, pessoas que se consomem a remoer o que fizeram, o que deviam ter feito, o que gostariam de fazer, o que os outros fizeram. Nada disso me interessa. Para trás das costas o que é passado (especialmente o que não é declaradamente bom) e para a frente é que é caminho.

Também não posso compreender estratégias políticas que assentam em empobrecimento, desemprego, insegurança, medo. Não as compreendo (porque são estúpidas), nem as aceito (porque são desumanas).

Vita brevis, tempus fugit - que é como quem diz, a vida é curta, o tempo foge. Não a desperdicemos, não sejamos tão mal agradecidos quanto isso, dando-nos ao absurdo luxo de a desperdiçarmos, por um minuto que seja.

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Se a música de Rodrigo Leão já acabou, então, música, de novo, por favor
(pf carreguem na setinha de play mais em baixo, à esquerda, para não saltarem para o Youtube)
Katie Melua - Blowing in the wind


E porque estes temas são pesados e eu não gosto muito de carregar com eles, voltemo-nos então agora para coisas levezinhas (ou melhor: parvinhas).

  • Como a daquele tipo, Jacob Bovia, 28 anos, bem apessoado por sinal, que foi preso por andar a mostrar o pénis às meninas da universidade no estado de Maryland. O engraçado é que não era o verdadeiro, era um pénis falso. Brincadeirinha, terá ele dito – mas olhem, foi dentro na mesma.
  • Como a do Nuno Crato que tinha, ao menos, a obrigação de saber fazer contas mas que, ao que parece, nem sabe ler, nem sequer sabe fazer os cálculos mais elementares pois distorceu completamente o relatório elaborado pela Inspecção Geral de Finanças (IGF) após auditoria à Parque Escolar. A ser verdade o que hoje se leu um pouco por todo o lado, parece que nada do que ele diz corresponde à verdade e, para os casos em que há desvios, eles são explicados essencialmente por razões que não têm que ver com a qualidade da gestão. Aliás, há tempo, pessoa conhecedora destas matérias já tinha comentado que o caderno de encargos exigia que se cumprissem regulamentos que foram feitos por alemães (... para obrigarem as empresas de todos os países a comprarem equipamentos alemães que são os únicos que estão conforme os ditos regulamentos; e assim se percebe porque foram gastos equipamentos dispendiosíssimos que poderão fazer sentido em países cujos climas inclementes podem justificar aquecimento a sério mas não entre nós).

Mas, para verem a resenha do relatório da IGF e se perceber do que se fala, convém ler o artigo do Daniel Oliveira publicado no Expresso Online.

Este Nuno Crato não pára de me desgostar, são umas atrás de outras, francamente.

> Nos EUA um tipo é preso por andar a fazer uma graçola e aqui um ministro pode fazer e dizer o que lhe apetece que nada de mal lhe acontece. Assim como assim, acho que preferiria que, na próxima, em vez de aparecer a deturpar a realidade, Nuno Crato nos aparecesse antes a pregar partidinhas, como por exemplo a mostrar-nos um dildo. 

Exibicionista - obtido no Jow Cartoons


Tinha mais graça e de certeza que com isso não corria o risco de atirar com muitos milhares de pessoas para o desemprego nem nos maçava com tão grosseiras faltas de rigor.

«/\»

[Hoje no Ginjal temos Helga Moreira, uma Senhora que é Física e Poeta, uma conjugação virtuosa. Acompanha, claro, com Clair de Lune, um Debussy vintage. ]

«v»

Tenham, meus caros, uma bela terça feira. Aproveitem-na bem e divirtam-se à grande.