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sexta-feira, maio 08, 2026

Será mesmo verdade que a Inteligência Artificial vai curar todas as doenças e reverter o envelhecimento...?
Se calhar é.
Vamos pensar nisso...?
Ou isso é uma seca e vamos mas é, antes, tentar perceber porque é que os Clubes de Leitura e os Retiros são maioritariamente frequentados por mulheres...?
Ou deixamos isso também para outro dia?

 

Cá por casa e arredores não querem que eu fale de Inteligência Artificial e do que por aí vem. Dizem que não é preciso falar tanto, que já não se aguenta e que, para mais, talvez não seja como por aí se diz. E eu acho que vai ser, talvez até em domínios em que agora não pensamos. 

Por exemplo, a propósito das cabines clínicas acredito que vai ser como as máquinas multibanco. Ao princípio pensava-se que as pessoas iam continuar a ir ao banco, que o dinheiro é coisa séria, de muita apegação, que não é para ser transaccionado numa máquina no meio da rua. E veja-se: eu nem ao multibanco já vou, já é raro, já é tudo via app, praticamente nem há já dinheiro físico. Quando tive que ir ao banco, aquando da morte da minha mãe, para mim foi um atraso de vida, já não estou habituada. Acredito que com a saúde vai ser o mesmo. Mais depressa vou a uma cabina, sou avaliada, sou medicada, se calhar saio de lá com os medicamentos na mão e, eventualmente, prescrição para outros exames ou consultas de especialidade, tudo já marcado, do que fico meses à espera de uma consulta, depois tempos na sala de espera, depois ir à farmácia ou andar a ver onde posso fazer os exames. 

Acredito que é o caminho. Agora avaliem-se as consequências disto a todos os níveis. Tal como dantes havia grandes agências bancárias, cheias de empregados, e agora há poucas e com pouca gente, assim acontecerá com os centros de saúde ou clínicas de ambulatório. Continuará a haver, mas poucas, para temas que terão que ser tratados presencialmente. Tal como hoje há contact centers dos bancos, aliás já com bots a atenderem, tudo na base do algoritmo, assim haverá para os temas da saúde, para esclarecer dúvidas, para assuntos mais particulares. Não tenho dúvida que será o futuro. Continuará a haver, isso sim, cuidados de enfermagem, cuidados que requerem mão -- e toque -- humano. Porque mesmo as cirurgias... veremos se não será quase tudo na base da robotização.

Mas, a levar a sério as previsões mais optimistas -- e aí vou com mais cautela --, dentro em pouco a inteligência artificial encontrará a solução para o envelhecimento e a solução para todas as doenças.

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Veja-se, por exemplo, esta conversa:

Peter Diamandis: A IA vai curar todas as doenças, reverter o envelhecimento e é preciso estarmos preparados para isso

Peter Diamandis é uma das mentes mais extraordinárias a que já tive o privilégio de chamar amigo, um homem que não só prevê o futuro, como o constrói. Hoje, no Open Book, vamos mergulhar no seu novo livro "We Are as Gods" (Somos como Deuses), e acredite, o que ele tem a dizer sobre a IA, o envelhecimento e a próxima década da história da humanidade vai mudar a sua perspetiva sobre tudo.

Peter H. Diamandis é autor de best-sellers do New York Times e fundador de mais de vinte e cinco empresas nas áreas de IA, tecnologia da saúde, espaço, capital de risco e educação. É cofundador da Singularity University e curador da Abundance360. Possui diplomas em genética molecular e engenharia aeroespacial pelo MIT e um doutoramento em medicina pela Harvard Medical School. O seu podcast Moonshots aborda a IA e outras tecnologias exponenciais e costuma ultrapassar 1 milhão de ouvintes por episódio.


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 Ouvi, até, um a dizer que o importante é chegarmos a 2030 pois haverá um antes e um depois, a nível de longevidade.

Não sei.

Claro que associada a essa idade virá a inquietação: qual o propósito de viver se a vida tenderá a ser quase infinita (a menos que haja acidentes), sem um propósito, sem necessidade de trabalhar? A que novos objectivos nos agarraremos? 

Como será a vida no planeta?

Custa a pensar nisso. Se quisermos aventurar-nos por aí as dúvidas são tantas que preferimos pensar que talvez não seja assim, que é quase uma futilidade preocupar-nos com um tema tão abstracto.

Pois eu não creio que seja longínquo ou abstracto.

Com milhões ou biliões de robots humanóides a serem produzidos, logo a terem que ser escoados, com a corrida desenfreada a ver quem chega primeiro à meta, é inevitável que os receios e as preocupações humanistas vão tender a ficar pelo caminho.

O tempo para regular ou para dosear já foi. E não foi aproveitado. Agora já entrámos na fase da concretização.

Quem me ouve, em família, ou quem me lê aqui, pensará que é uma obsessão minha. Não é. Falo nisto há muito tempo. 

Já o disse: o tema da minha tese foi a tecnologia percursora da inteligência artificial. Era um tema tão novo que não havia na faculdade ninguém habilitado a avaliar-me. O trabalho que fiz, um modelo que concebi e que funcionou e que me surpreendeu e que surpreendeu quem o avaliou foi bem uma amostra do imenso poder que tem um modelo assente na matemática mais pura e dura, com funções testadas e validadas, com a estatística e as probabilidades a serem o motor, e com todas as heurísticas e todo o arsenal matemático a fundamentar todos os outputs. Na altura tive que usar o Centro de Cálculo da Gulbenkian pois os meios informáticos ainda eram muito limitados em Portugal.

Agora, com os super data centers, com o que já se desenvolveu, com as funcionalidades de machine learning todas activas de forma ubíqua, com o mundo inteiro a contribuir para a aprendizagem dos algoritmos (todos as nossas pesquisas, todas as nossas interacções com os Chatgpts, os geminis e os claudes desta vida, com os mails, com as redes sociais -- tudo é um manancial estatístico poderosíssimo, praticamente infalível). E ao alcance de todos. Uma coisa assim já não pode ser travada.

Claro que posso hibernar no campo, andar a podar árvores, a fotografar florzinhas, a ler e a escrever, e abstrair-me desta revolução em curso. Mas ela está aí.

Tenho estado a testar em simultâneo o ChatGPT, o Gemini e o Claude *. Lanço o mesmo desafio aos três. Trabalhos complexos que eu levaria anos a fazer e que, se não fossem feitos só por mim, implicariam uma equipa durante meses ou anos -- com eles, são dias. E são dias porque comparo, valido, corrijo (de vez em quando falham e, como são matérias que domino, a minha intuição facilmente me diz que, por vezes, alguma indicação não está correcta). E o que estou a fazer não é rocket science -- encontrar cura para as doenças, afinar modelos para detecção precoce de tumores,  automatizar fábricas de uma ponta a outra, fazer topografia de lugares inacessíveis através de informação colhida por satélites. Não, nada disso, o que estou a fazer é coisa mais b-a-ba. Mas, pelo que vejo, não tenho dúvidas. Muito, muito trabalho humano vai desaparecer. A formação vai ter que ser adaptada. Por exemplo vai ser preciso aprender a colocar bem as questões, a contextualizar, vai ser preciso saber aferir -- isto nos domínios da interacção, bem entendido.

Não me alongo pois começo a falar disto e vou por aí fora. O tema não apenas assusta como apaixona. 

Há muitos anos li um sociólogo francês dizer que neste século a maior parte dos empregos estaria nos domínios do lazer - cultura, entretenimento, turismo, bem estar. Talvez estejamos quase lá.

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* Já agora, caso queiram saber a minha opinião: Claude, um bom bocado à frente. Uma máquina. Uma máquina... mas uma máquina do caraças.

Amanhã tenciono publicar o seguinte estudo (e depois me dirão): 

ANÁLISE E PROPOSTA DE REFORMA

O SNS que Portugal Merece

Diagnóstico do Sistema de Saúde Português,

Benchmarking Internacional e Roteiro de Reforma

Maio de 2026

Estudo de política de saúde · Dados: OCDE, INE, DGLAB, Conselho de Finanças Públicas


Nota: Não sei o que é que o Albertino -- ou lá como é que o amigo da ministra se chama, sei que não é Albertino mas agora não me apetece puxar pela cabeça, são duas e meia da manhã, estou com sono -- vai fazer naquilo do pacto que o Tozé encomendou mas estou capaz de lhe enviar isto a ver se abrevia as conclusões. 46 reuniões...? É isto a famosa improdutividade portuguesa. Matam-se a trabalhar, lá isso é verdade. O problema é que é a fazer coisas inúteis. 

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E, já agora, informo que, quando comecei a escrever, tinha em mente não falar disto, não queria maçar quem acha que parece que estou sempre a tocar a mesma nota -- queria abordar um tópico que me intriga: porque é que os clubes de leitura ou os retiros são quase todos maioritariamente frequentados por mulheres e porque é que tudo aquilo me parece uma pepineira, uma chachada sem ponta de graça. Mas agora já me parece que não vem a propósito. Além disso há que reconhecer que, se quem os frequenta, lhes acha graça, o que é que eu ou alguém tem a ver com isso, não é? E, na volta, eu é que sou a modos que analfabruta. Acho que, mesmo que fosse para discutir um livro escrito por mim, eu não teria nada a dizer. Nada. Cada um que faça a leitura que lhe apetecer, eu não tenho nada a ver com isso. Com qualquer autor, é isso: escreveu, escreveu, está escrito, lavou as mãos e o livro que se faça à vida. O que é que um círculo de mulheres arranja para dizer sobre o que o pobre do autor para ali escreveu...? Não sei... Só sei que não me interessa saber o que é que os outros acharam sobre um livro. Quando muito, posso ter interesse em saber se alguém cujas opiniões em geral prezo gostou ou não gostou. E chega-me. Mas, enfim, se calhar sou eu que sou bicho do mato. Não liguem.

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, julho 02, 2025

Origami

 

O calor destes últimos dias tem-me desfeito. Só estou bem em casa, ao fresco. 

Mas calhou termos combinado um almoço ali para as bandas do centro, de perto do rio. Um calor de ananases. Felizmente o restaurante era relativamente perto de um grande parque pelo que o stress do estacionamento desta vez não foi tema. Claro que tive que me abstrair da memória de todas as vezes em por ali andei quando a minha mãe esteve internada, durante quase um mês, no hospital lá perto, num belo quarto com uma bela vista, vista essa a que nem ela nem eu prestámos qualquer atenção. Mas, enfim, o tempo anda e temos que andar também, transportando as memórias.

Não tentámos pôr o carro perto do restaurante pois estamos escaldados com as dificuldades em encontrar lugar. Assim, ali era garantido e, de resto, a distância não era nada por aí além. Mas subestimámos o calor que estava. Caraças. Infernal. Um daqueles calores que queimam, que custam a suportar.

Lembro-me sempre do meu espanto, há uns trinta e tal anos -- numa altura em que as viagens não eram uma banalidade absoluta --, quando um amigo chegou de umas férias algo exóticas pelos locais menos turísticos de Marrocos e me contar que, de tudo, o pior tinha sido o calor, temperaturas em torno dos 40º. Falou dos ventos, das areias, das ruas estreitas, de mil coisas, mas o calor... isso tinha-o deixado francamente marcado. E eu perguntava como suportavam, o que faziam para prosseguir os passeios dentro de tal forno. 

A experiência mais próxima que eu tinha tido tinha sido em Angola, numa viagem feita na minha adolescência. Mas a viagem foi no verão de cá, logo no tempo menos quente de lá. Estava calor e o ar era pesado, tanta a humidade, o meu cabelo chegava ao fim do dia todo empapado, mas o calor era razoável, nada de nada de fornos acima dos 40º.

E, no entanto, agora, por cá, é o que se sabe. Uma coisa impossível.

Ainda não foi desta que fui conhecer o Macam, o novo museu, às terças está fechado. Ainda tive a ideia de ir até ao CCB mas fui demovida, a ideia era peregrina demais.

Portanto, depois de termos cumprido uns afazeres, regressámos a casa onde o cãobeludo nos esperava, estendido no chão de pedra. 

Vesti o biquini e fui ler para o spot que descobri ser o mais perfeito, aquele onde poderia estar todo o santo dia, uma sombra verde, fresca e boa. 

O livro não me convence mas isso parece ser o 'novo normal', livros que não aquecem nem arrefecem mas que, espantosamente, parecem ser do agrado dos editores (e, se calhar, de muitos leitores). Mas entre uma página e outra vou olhando para a copa das árvores, para os pássaros que por ali andam, para o céu, para lado nenhum.

E estou a gostar muito das caminhadas ao cair da noite. É a hora da doçura, da intimidade. As luzes das casas estão acesas, mas as janelas ainda abertas deixam ver o tom quente e dourado do interior. As ruas estão silenciosas, o ar mais fresco, e sabe muito bem andar assim, o cão mais ligeiro, nós conversando ou não que o silêncio às vezes é muito reconfortante.

E, agora à noite, depois de ter feito umas coisas para o Instagram (tenho este lado proleta, de não me baldar, parece que tenho sempre que produzir quelque chose e então lá está, todos os dias tento fazer uma coisa para a story e outra para o feed), o Youtube traz-me de novo a matemática e a física, temas que sempre trago no coração, e, uma vez mais, envoltas em poesia. 

Desta vez o tema é o origami, tema que sempre me atraiu (numa onda contemplativa, não executiva). O que se faz com uma folha de papel só não é mágico porque tem muita técnica. Uma maravilha.

This Origami is Changing Engineering…

Twenty-five years ago, physicist Robert Lang worked at NASA, where he researched lasers. He also garnered 46 patents on optoelectronics and wrote a Ph.D. thesis called "Semiconductor Lasers: New Geometries and Spectral Properties." But in 2001, Lang left his job to pursue a passion he’d had since childhood: origami. In the origami world, Lang is now a legend—and this Great Big Story documentary tells his true story. It’s not just his eye-catching, intricate designs that have taken the craft by storm. Some of his work has helped pioneer new ways of applying origami principles to complex real-world engineering problems.


Dias felizes

sexta-feira, maio 30, 2025

A matemática só serve para fazer contas ou pode ser um precioso auxiliar ao serviço da política...?

 

Ao ler que um grupo de trabalho europeu vai fazer um estudo em Barcelona para perceber o impacto do turismo de massas na crise da habitação, fiquei contente. É preciso estudar os assuntos antes de se desatar a alvitrar soluções aleatórias, coxas, precárias. A crise habitacional é transversal e profunda pois onde haja turistas alojados em casas que antes era de habitação e/ou onde haja muita imigração, faltam casas para morar e, logo, disparam os preços. Ou seja, uma franja considerável dos habitantes não arranja casa para viver.

Já não é a primeira vez que aqui falo do assunto pelo que peço que me desculpem pela repetição. 

Uma das vertentes da matemática é a de resolução de problemas em que há milhares de condicionantes, milhares de variáveis e em que se pretende atingir um objectivo.

Por exemplo, imagine que, por uma vez, alguém com poder de decisão decide ser rigoroso e quer saber, município a município, quantas casas para arrendamento habitacional deve haver (escalonando a resposta por tipologias de casa e por intervalos de renda) e quantas casas para arrendamento turístico são admissíveis. O objectivo, diria eu, seria misto: por um lado que não haja pessoas sem casas para viver (admitindo que a renda não deve ultrapassar x% do rendimento líquido do agregado), por outro que haja uma oferta turística razoável (ie, não excessiva) e, vendo na perspectiva dos proprietários da casa, que obtenham um rendimento justo e adequado, em linha com o que é obtido nos mercados em que o tema da habitação não é um problema. 

Dito assim, pode parecer abstracto, impossível de quantificar.

Mas, digo-vos eu, para quem saiba, é canja de galinha. Não é a primeira vez que aqui digo que há decisões que deveriam ser tomadas com base em modelos matemáticos precisos, inequívocos. 

Tomar decisões a olho, atirar bocas mortáguas para o ar ou dar palpites com base em achismos, isso a mim arrepia-me.

Precipitações como diabolizar os Airbnb são outro disparate. O turismo é óptimo para o país e, como se vê, os hotéis estão cheios pelo que, se se reduzirem os alojamentos locais, não haverá resposta suficiente por parte dos hotéis, ou seja, será dinheiro que não entra no País. Portanto, o que há é que equacionar e tomar decisões por forma a atender a todas as necessidades.

Acresce à realidade do desvio de casas do arrendamento habitacional para o turístico, a presença no País de mais de um milhão de imigrantes que precisa de casa.

Ou seja, há forçosamente um défice de casas. Ora, saber quantas, onde e de cada tipo é indispensável.

Para começar, o que há a fazer é um levantamento, por local, do número de famílias que carece de casa arrendada para viver, quantificando quantas pessoas por agregado e de que rendimento líquido dispõem.

Igualmente deve ser feito um levantamento de fogos potencialmente disponíveis que sejam do Estado (Administração Central, Local, Forças Armadas, etc).

Claro que, para além destes dois levantamentos, os mais complexos, há muito mais informação necessária -- mas nada de transcendente.

Há ainda aspectos paralelos a equacionar: não se pode pedir a um proprietário que, tendo a possibilidade de gerir um arrendamento local no qual aufere um rendimento mais interessante, abdique dele para fazer um arrendamento habitacional que está sujeito a muitos custos e a pesados impostos. 

Já aqui falei muitas vezes da pesada carga fiscal que reduz liquidez às pessoas que pagam impostos. Se os salários (ou pensões de reforma) já de si são baixos, se lhe raparmos uma grande fatia, pouco sobra. Se há uma grande camada da população que não paga IRS por auferir baixos rendimentos, a verdade é que há uma 'invisível' camada que não paga porque foge ao fisco. E foge de todas as maneiras que pode: os senhorios não passam recibo fiscal, e, todos os que podem, sejam senhorios, médicos, etc, criam empresas através das quais recebem 'ordenados' e às quais imputam toda a espécie de custos de forma a não pagarem IRC ou a pagarem pouco, ao mesmo tempo que pouco -- ou nada -- pagam de IRS.


Ora, no caso dos inquilinos, se as famílias (e aqui não me refiro apenas às pobres, muito pobres, mas às da classe média) dispuserem de mais rendimento líquido, já não ficarão com a corda na garganta ao pagarem rendas mais altas.

Ou seja, o tema da crise habitacional é um tema com alguma complexidade e que toca vários pontos a optimizar. Mas, sendo complexo, não é transcendental. Qualquer pessoa que perceba do assunto e que disponha de informação, equaciona o problema e resolve-o (e o que não faltam são ferramentas informáticas para isso), providenciando, aos decisores, informação concreta. 

Pensar que é um tema complexo e carpir em cima dele ou tomar decisões avulsas ou a olho (por exemplo, atirar para o ar a boca de que fazem falta 26.000 casas e logo a seguir vir alguém dizer que não é isso mas o dobro e logo depois vir uma dizer para pôr um tecto às rendas e vir outro dizer para usar quartéis e... por aí fora, cada um a atirar palpites para o ar e todos sem qualquer base sólida) é apenas deixar que o problema se agudize e se arraste.

Ainda não percebi que gente é que nos governa que não percebe que a matemática não se resume à aritmética banal. Saber quantos médicos, quantos enfermeiros, quantos centros de saúde e com que recursos, quantas creches, quantas escolas, quantas casas, etc, são necessárias para resolver os problemas da população é coisa que requer cálculos, que requer cabeça, que requer informação fundamentada, que requer uma correcta afectação de recursos financeiros. Os matemáticos não servem só para serem professores, servem para muito mais. Servem, por exemplo, para ajudar criaturas inteligentes a tomarem boas decisões. Claro que a decisão última deve ser sempre política mas, caraças, que se baseie em cálculos correctos, sujeitos a critérios bem explicados e bem intencionados.

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Imagens obtidas via Sora (IA)

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Dias felizes

terça-feira, maio 06, 2025

Na génese das 'coisas' ou dos 'fenómenos' mais complexos está sempre algo extremamente simples?
E é nessa dança entre o infinitamente pequeno e infinitamente grande que se joga todo o mistério do universo?
É aí que reside a impressão digital de Deus?

 

Nunca gostei de matemática da mesma maneira que os meus colegas que gostavam de matemática. Mais do que querer decorar ou, até, perceber axiomas ou teoremas, eu gostava de me aventurar de forma 'fluida' pelos meandros do meu próprio pensamento lógico. Há algum tempo um colega dessa altura recordou como eu surpreendia os professores com a forma como resolvia os problemas de matemática. Não me lembro disso mas lembro-me do prazer de encontrar lógica em algumas caminhos e de ir, tomada por esse prazer, ir por eles afora. 

Em todos os níveis de ensino, fosse qual fosse a complexidade dos assuntos, eu detestava o que fosse de decorar, custava-me imenso decorar o que quer que fosse, e, contrapartida, gostava de ir pela matemática como em passeio de descoberta. Acontecia-me, até, ter prazer em deixar-me guiar pela intuição, deslizar pelos raciocínios e chegar aos resultados como se fosse 'ao calhas'. Por isso, por vezes sentia o chamado síndrome do impostor pois parecia-me que acertava por acaso, por ser bafejada por alguma espécie de iluminação que me fosse exterior, alheia ao meu mérito. E o pior é que, por vezes, tudo me parecia tão incrivelmente óbvio e linear que me faltava até a paciência para lá chegar passo a passo, só me apetecendo voar directamente para o resultado final.

Acontecia-me, quando via como os meus colegas se tinham preparado, estudado, e sabiam tudo na ponta da língua, sentir admiração por eles e, a mim própria, ver-me impreparada, desleixada nos meus estudos e obrigações, à mercê de uma sorte que poderia falhar-me.

Contudo, quando posta à prova, a coisa fluía e eu a ideia que tenho é que me sentia quase como se estivesse possuída por uma luzinha que me guiava.

Essa mesma sensação já a tenho sentido também a escrever, quando não sei o que vou escrever antes que os meus dedos escrevam, como se o fizesse por decisão própria. Sinto-me como se alguma coisa dentro de mim ultrapassasse a minha vontade humana.

E, no fim, fico surpreendida com o que, involuntariamente, fiz.

E sei que, escrito assim, pode parecer que estou a armar-me ao pingarelho ou que me acho especial. Mas não é isso que acontece. Uma pessoa que estuda muito, que se prepara, que tem um método apurado de estudo, está em melhor condições que eu pois parece que me sinto sempre vulnerável, em risco de a inspiração ou a boa sorte me abandonar.

Tirando isso, o que sei de certo é que pouco ou nada sei e que o muito que desconheço me fascina como se fosse uma luz dourada e breve, uma música soprada pelos deuses ou um punhado de palavras cintilantes que alguém solta ao vento.

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Já aqui falei inúmeras vezes em fractais. É tema que me fascina. Não sei explicar porquê mas fascina-me. Acho que neles reside um mistério que parece insondável (e que, no entanto, pode ser traduzido por uma fórmula matemática simples, elegante como são todas as coisas simples.) 

Ando por aí, em geral pelo campo, em especial in heaven, a descobri-los e a deixar-me fascinar por eles. 



A expansão linear -- ou não linear -- de uma realidade infinitamente simples deve ser vista como um aglomerado, quiçá quase infinito, de coisas simples ou, a partir de um certo grau de multiplicação, a complexidade deve desligar-se da simplicidade que está na sua génese e devemos admitir que estamos perante uma realidade nova, talvez até caótica?

Não sei. Tendo a querer ater-me à sua simplicidade original. Mas não estou certa de que seja a melhor abordagem. 

Por exemplo, uma multidão é algo que tem regras próprias ou deve ser vista como um aglomerado de pessoas em que o comportamento da multidão reproduz, embora em larga escala, o comportamento de cada indivíduo?

O tema não é abstracto: aplica-se a diversos campos do saber (biológico, computacional, sociológico...).

O vídeo abaixo, da BBC, fala sobre o tema. 

O que são os fractais, padrões matemáticos infinitos apelidados de 'impressão digital de Deus'

O que as galáxias, as nuvens, o sistema nervoso, as montanhas e o litoral têm em comum?

Todos contêm padrões intermináveis conhecidos como fractais.

Os fractais são ferramentas importantes em diversas áreas — desde estudos sobre as mudanças climáticas e a trajetória de meteoritos até pesquisas sobre o câncer (ajudando a identificar o crescimento de células mutantes) e a criação de filmes de animação.

Desejo-vos dias felizes

terça-feira, setembro 03, 2024

Como a matemática traz ordem ao nosso Universo

 

Quando de manhã saí de casa, ia, como sempre, meio aluada, a olhar para o céu, a perceber a intensidade e o sentido da ondulação das árvores que já fazia antever a ventania que à tarde se faria sentir. Ia com o telemóvel na mão pois posso sempre receber uma chamada ou uma mensagem ou pode surgir algum motivo para ser fotografado. 

E, então, sem que estivesse para tal preparada, vi um esquilo aqui mesmo ao pé de casa. Estava no caminho. Olhou para mim e deixou-se ficar. Pus-me de roda do telemóvel, à procura da câmara. Quando avancei, num ápice, subiu ao pinheiro mais próximo e ficou ali, ao alto, a observar-me. Pé ante pé, aproximei-me, ainda com a ideia de o fotografar. Mal levantei os olhos do telemóvel já ele tinha desaparecido.

Andei de volta do pinheiro mas já não o vi.

Entretanto, sob os pinheiros, quase por todo o lado, há incontáveis pinhas roídas. Vejo agora também muitas bolotas no chão.

Fui lá para baixo caminhar. Parei para olhar lá para cima, para o pinheiro onde ele tinha estado. Nada. Tinha desaparecido. Quantos mais animais haverá escondidos nas ramagens, nas tocas, atrás de pedras?

Estava nestes pensamentos, absorta, quando olhei em frente. Até me arrepiei. Estava à minha frente. Parado. Claro que não sei se é o mesmo. O meu marido diz que acha que há vários.

Fiquei parada. Ele olhou para mim e depois, de novo num passe mágica, desapareceu.

Qual a amplitude dos saltos, qual a velocidade, qual a função matemática que descreve os seus percursos, isso eu não sei. Mas, tivesse eu uma câmara, certamente lá chegaria.

Se eu dissesse isto que acabei de escrever a alguns dos meus netos para lhes mostrar a abrangência e a beleza da matemática, perguntar-me-ia: 'E para que é que serve saber quais as funções matemáticas que descrevem os saltos, as corridas, os percursos dos esquilos?'. E eu talvez não tivesse na ponta da língua a resposta que inequivocamente demonstraria que é melhor conhecê-las do que desconhecê-las.

É que poucas coisas há no mundo, na natureza, na vida, que não sejam susceptíveis de serem modelizados, analisados (qual o padrão que seguem, como se distribui a frequência de ocorrências, etc) e, a partir daí, efectuar previsões, detectar desvios e o seu significado, etc. 

Claro que nem todas as abordagens à matemática são iguais. Há quem seja super estudioso, quem não dê um passo sem percorrer os cânones, sem ter a certeza da fundamentação de cada raciocínio. Nunca fui assim. Sou muito intuitiva. Sou de me atirar de olhos fechados, frequentemente sem ser capaz (ou, melhor, sem paciência) de explicar como lá cheguei. Quando estudava e os meus conhecimentos eram postos à prova, acontecia-me muito, mesmo sem querer, ver-me colocada em piloto automático, a dar respostas imediatas mesmo a problemas complexos. A sensação que tinha era que atirava ao calhas. Como geralmente acertava, ganhei a fama de inteligente. Ainda hoje quando me encontro com os colegas da altura, referem situações em que 'dei baile' ou coisas do género. Em geral não me lembro de nada disso. Lembro-me, sim, que, na altura, quando mostravam o seu espanto, eu achava que, na volta, eu era um bluff, que dizia a primeira coisa que me vinha à cabeça e que, apenas por mera coincidência, acertava.

Hoje sei que o cérebro tem mecanismos de tipo 'atalhos' em que, a partir de certos indicadores que o cérebro capta, os neurónios estabelecem circuitos super rápidos. Claro que isso é involuntário e independente da nossa vontade. O que eu poderia fazer, voluntariamente, era determinar-me a não dar ouvidos à minha intuição. Mas nunca o fiz. Por preguiça e talvez pelo prazer de correr riscos, sempre tive, sobretudo, a tentação de me deixar ir, às cegas. Claro que hoje, também sem querer, já tendo a ser mais prudente. Mas isso traz-me maior insegurança e maior consciência das minhas limitações.

E se estou com esta conversa é porque estive a ver vídeos sobre a intuição em matemática versus o suposto 'rigor' matemático. Interessantíssimo, interessantíssimo.

Mas porque podem ser um bocado herméticos ou desinteressantes para quem não goste especialmente do tema, tenho aqui um vídeo que me parece de interesse mais geral.

Como a matemática traz ordem ao nosso universo | Talítia Williams

A estatística Talithia Williams sobre como a matemática é o caminho mais claro para a compreensão da nossa existência.

O que tem a matemática a ver com a teologia? De acordo com a Dra. Talithia Williams, professora de matemática e comunicadora de ciências, bastante.

Em pouco menos de três minutos, Williams explica como a matemática liga o mundo natural com ideias mais profundas de ordem e propósito. A matemática, diz ela, ajuda-nos a compreender tudo, desde a migração dos peixes até aos padrões que vemos na natureza, revelando a estrutura do nosso universo.

Williams acredita que a matemática é mais do que apenas números – é uma linguagem universal que oferece insights sobre a nossa existência. Esta interseção entre matemática, natureza e cultura revela algo profundo e profundo sobre as nossas vidas e o propósito por detrás delas.


Desejo-vos um bom dia

sexta-feira, junho 14, 2024

Ainda o tema da Saúde
(enquanto a Ministra Ana Paula se entretém a pegar fogo a tudo o que tem à sua guarda)

 

Ainda sobre o Hospital de Braga. Se agora está a enviar doentes para S. João, não sei. Desde há uns anos que já não há PPP, ou seja, o hospital de Braga está, tal como os outros, a ser gerido pelo SNS. 

Enquanto foi gerido por uma PPP (concretamente, no caso, pela José de Mello Saúde) recebeu vários prémios pela excelência dos seus serviços, os inquéritos de satisfação feitos junto dos utentes revelavam uma satisfação considerável.

Contudo, por o SNS não querer pagar o que era suposto, a José de Mello Saúde perdia dinheiro com a gestão deste hospital. Não é, pois, verdade, tal como erradamente se diz em comentário ao post abaixo, que o Estado gastasse dinheiro e os 'Privados' ficassem com os lucros.

Ou seja, há por aí muita ideia errada, provavelmente alimentada por infundados preconceitos.

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Num hospital, em especial nos de média/grande dimensão, as Comissões Executivas (sejam quais forem os nomes que se deem aos órgãos de gestão), têm que dar resposta às seguintes vertentes: 

  • Compras (de consumíveis, de serviços, etc), 
  • Recursos Humanos (controlar presenças/assiduidades, escalas, trabalho extraordinário, pagar salários, contratar ou demitir trabalhadores, tratar da formação, comunicação interna, etc), 
  • Financeira (contabilidade, tesouraria, controlo de Orçamentos, etc), 
  • Sistemas de Informação (sistemas, equipamentos, segurança informática, etc), 
  • Serviços Gerais/Infraestruturas (gestão do edifício, limpezas, segurança do edifício, frota, arquivos, correspondência, etc), 
  • Operação/Direcção Clínica (óbvio), 
  • Jurídica (contratos, litígios, protecção de dados, etc). 
  • A coordenar estas vertentes, está o CEO (ou Presidente, ou Director-Geral -- chame-se o que se quiser)

De todas as valências, apenas a de Operação/Direcção Clínica requer conhecimentos na área da Saúde. Todas as demais requerem pessoas com conhecimentos específicos da área (economistas/gestores, advogados, engenheiros, informáticos, etc). 

Achar que a equipa de gestão de um hospital deve ser constituída por médicos é querer que a sua gestão seja um desastre. Pelo menos, não conheço nenhum que pudesse ser director financeiro, director de informática, director jurídico, director de infraestruturas. E mesmo um CEO que tem que lidar com todas estar vertentes, se não tiver umas luzes de gestão, jurídicas, etc, vai ver-se à nora para gerir a equipa de gestão.

Um Centro de Saúde é uma realidade mais singela a nível de gestão, aliás, não tem nada a ver, mas, mesmo assim, diria que deveria ter à frente um Gestor e não um médico, deixando a vertente Clínica para os médicos e enfermeiros, que trabalho não lhes falta, e libertando-os de tarefas que têm a ver com gestão de contratos de limpezas, de contratos de manutenção de elevadores, de controle de assiduidade, etc. 

Contudo, aquilo a que me referia no meu post de há dias é que é urgente que se faça uma análise a nível regional e nacional, uma análise macro, para analisar a procura (por exemplo, o brutal aumento de pessoas em algumas zonas que obriga forçosamente a que sejam necessários novas unidades e mais pessoal clínico) e que se tente encontrar a oferta optimizada, por especialidade e por local (e por altura do ano). Penso que o Ministério da Saúde (seja de que partido for) deveria formar um grupo de trabalho para fazer um trabalho nos moldes que sugeri. Neste grupo devem estar sobretudo matemáticos, mas também gente da gestão/economia, e, claro, também médicos e enfermeiros. 

Ou seja, não estava a falar a nível 'micro', isto é, hospital a hospital (no SNS). No entanto, nos grandes hospitais públicos penso que a gestão deve ser profissional nos termos que acima referi (se calhar já é -- mas não faço ideia). Nos hospitais privados, é assim, isso sei.

Um esclarecimento ainda sobre a cobrança que os hospitais privados fazem aquando da admissão para internamentos e cirurgias. Trata-se de uma caução. 

No SNS, gaste-se o que gastar, é o Estado que paga. Sejam gastos insignificantes ou da ordem dos milhares ou milhões de euros, o dinheiro sai dos cofres do Estado e é gerido via Orçamento de Estado. Se for preciso gastar mais, haja impostos que os cubram. É assim e ainda bem. Mas tratando-se de dinheiros públicos, diria eu que deveriam ser geridos com mão de ferro para evitar desperdícios, abusos (nomeadamente que pessoas se naturalizem de propósito para vir receber tratamentos milionários que no país deles não conseguem), etc.

Nos hospitais privados não há quem lá meta dinheiro de impostos. O dinheiro para pagar edifícios e equipamentos e respectiva manutenção, para pagar a médicos, enfermeiros, auxiliares, água, luz, comunicações, medicamentos, tratamentos, etc, etc, ... e impostos, só vem de um sítio: do que as pessoas ou as seguradoras lhes pagam.

Acontece que os seguros são limitados e nem sempre cobrem tudo. E, quando não há seguros, ainda mais arriscado há. Um problema grave que os hospitais enfrentam são as dívidas dos clientes. Quando são internados, pagam uma caução. Tenho ideia que, quando a minha mãe foi internada pela última vez, a verba da caução foi 2.500 euros. Tinha um seguro mas o plafond foi ultrapassado ao fim de umas semanas. No acerto de contas, descontando o plafond do seguro que foi esgotado e os 2.500 pagos de caução, ainda houve uma verba considerável a pagar. Paguei, claro. Mas, do que é sabido, há quem se queixe que não tem como pagar e, portanto, deixe uma dívida. Ou seja, a caução é uma forma de minimizar o risco de ser dívida total. 

Quando ouço falar nos Privados, algumas pessoas falam como se fosse um bando de bandidos. No entanto são empresas que têm que pagar ordenados (nomeadamente a médicos, a enfermeiros, a auxiliares, a pessoal administrativo, a pessoa de limpeza e de segurança, rendas, empréstimos bancários, licenças software ou outras, enfim, pagar toda a espécie de despesas). Se um hospital privado não conseguir fazer face às suas despesas, não há quem lhe valha, não há orçamento rectificativo, não há nada. Portanto, responsavelmente, têm que ser bem geridos.

Os meus pais estiveram internados quer no SNS quer em hospitais privados. A nível de cirurgias e internamento, há algumas diferenças sobretudo a nível do apoio e da informação à família e a nível do conforto do doente. Mas, de qualquer forma, penso que o problema não está aí. O problema está em tudo o que está antes de se chegar à fase do internamento. A experiência que tenho nas Urgências é diametralmente oposta. No SNS passei horrores, horas e horas, noites inteiras sem saber o que se passava com eles, eles em macas nos corredores. Eu própria já passei uma noite e uma manhã num SO de um hospital público e foi uma experiência abaixo de terceiro-mundista, uma coisa indescritível, desumana. E a nível de ambulatório, é para esquecer (pelo menos nos grandes hospitais). E a nível de Centro de Saúde já ontem falei. Muito mau (pelo menos, nos caso que conheço).

Ou seja, há um problema dramático de gestão, de défice de oferta, de desorganização. Há regiões do país, talvez porque agora têm mais centenas de milhares de habitantes do que quando os hospitais existentes foram construídos, que não têm hospitais que cheguem.

Claro que não é suposto que haja hospitais ao pé de casa. Por isso, quando referi que num estudo há que definir objectivos, mencionei que uma dos parâmetros é a distância razoável a que deve situar-se um hospital. Falei em 50 km como distância máxima a título de exemplo mas é uma distância que me parece razoável. Mas se me disserem que pode ser outra distância, tudo bem, seja. 

Quando, há algum tempo, os médicos acharam que eu estava a sofrer um enfarte agudo de miocárdio e activaram o protocolo respectivo, me meteram numa ambulância e me enviaram para um hospital, vi-me numa ambulância a 'abrir', com sirene e luzes a piscar e, à chegada, a ser posta em cadeira de rodas e levada para uma sala de reanimação. Se estivesse mesmo em vias de 'patinar', penso que andar mais do que 50 km seria um risco. Mas estes parâmetros, que serão a chave para desenhar o mapa de hospitais e centros de saúde e para identificas as necessidades das respectivas equipas, são a chave para se obter uma solução equilibrada.

Num estudo destes, que acho que deve ser feito (aliás, que acho quase impossível que não seja feito), devem também ser equacionadas as acessibilidades e a adaptação das actuais infraestruturas às novas exigências. Por exemplo, ter um grande hospital como o S. José encavalitado naquelas ruazinhas ali por cima do Martim Moniz onde os carros quase não cabem e onde basta que alguém deixe um carro mal estacionado para o trânsito bloquear, parece-me um tremendo risco. Isto já para não falar em que, às tantas, nem a construção é resistente a sismos de grande magnitude. Mas, enfim, é um mero exemplo do muito que acho que há a equacionar.

O que acho dramático é ver a barracada permanente de ver tantas Urgências fechadas, de não se saber a quantas se anda, de ver pessoas, nas Urgências, à espera de ser atendidas ao longo de horas infindáveis, de não se conseguir uma consulta num Centro de Saúde, de tanta gente não ter médico de família... e não se pegar no touro pelos cornos, não pôr uma equipa de gente competente a equacionar estes problemas (que, relembro, são problemas típicos que se aprendem a resolver nos cursos de Matemática, nomeadamente no ramo das Aplicadas - Investigação Operacional e etc.).

E, sim, resolver estes problemas (de adaptar a oferta à procura e de optimizar a solução, garantindo o cumprimento de objectivos pré-definidos) tanto se faz na Saúde, nas Redes Logísticas (centros de Produção, Armazenagem e Expedição seja do que for, seja de medicamentos, seja de petróleo, de cimento, de adubo, de mantimentos, etc), nas Redes de Transportes Públicos (nomeadamente na definição de números de 'carreiras', nos locais das Paragens, na definição dos horários, na identificação da localização e número de Postos de Carregamentos Eléctricos, etc, etc. A Matemática, os algoritmos, os modelos, a estatística e as probabilidades têm isto de maravilhoso: aplicam-se a tudo nesta vida.

De qualquer forma, definir os locais ideais para ter unidades clínicas, a respectiva dimensão, as respectivas especialidades, etc, não requer conhecimentos clínicos. Os conhecimentos clínicos são, si, indispensáveis para traçar planos de saúde, para tratar e acompanhar doentes, para prevenir doenças, etc. A medicina é uma arte? Talvez, não digo que não... (embora nem todos os médicos sejam artistas... e embora haja outros que são uns verdadeiros artistas...). 

Mas a Inteligência Artificial já faz maravilhas e, em algumas áreas, já suplanta largamente a capacidade de análise humana. O diagnóstico precoce de algumas maleitas (por exemplo, neoplasias) através da imagiologia, por exemplo, parece estar a demonstrar que o facto de a brutal capacidade de computação permitir detectar desvios ao padrão com grande rapidez e precisão parece não ter paralelo com a 'visão humana'.

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Todos os vossos comentários são bem vindos e muito agradeço a vossa generosidade por partilharem as vossas opiniões. 

A todos os que não costumam ler os comentários, sugiro que visitem os do último post bem como os do post anterior pois tal como eu aprendo e fico pensar talvez também os considerem importantes.

E venham mais.

quinta-feira, junho 13, 2024

Então, Caros Comentadores, querem V. dizer que está tudo bem na Saúde em Portugal, nomeadamente no SNS?
Tempos de espera, como os de ontem em alguns locais, de 14 horas para pulseiras amarelas e 20 horas para pulseiras verdes, em V. opinião é do melhor que há?
Haver 25% pessoas, na zona de Lisboa e Vale do Tejo sem médico de família é coisa que não importa para nada?
Haver várias Urgências fechadas ao fim de semana, por vezes, também durante a semana não faz mal nenhum....?
Pergunto.



Não sei se ontem falei em chinês ou se é o facto de ter invocado a ajuda da matemática que assustou os meus Comentadores.

É que eu ontem referi quais as premissas que, em meu entender, devem ser fixadas como objectivo: tempos de espera razoáveis (e não o disparate e a desumanidade que é hoje), haver sempre um Centro de Saúde ou um Hospital num raio razoável (quando hoje ouço que, por estarem Urgências ou Especialidades fechadas, os doentes têm que ir à procura de atendimento a mais de 100 km... (ou seja, objectivos deste género que traduzam uma qualidade de serviço razoável, humana, aceitável)

Isto não é bom?

Ou os meus Caros Comentadores acham que as pessoas podem ser tratadas a pontapé para não arreliar os médicos que não querem que se equacione o problema no seu conjunto?

Quando falei em tempo médio por cada acto médico falei, repito, de uma média. Não faço ideia de quais são os valores médios. 20 minutos era um exemplo. Se for 30 minutos, é 30 minutos. Uma média é uma média e serve para estimar o número de doentes que podem ser atendidos por dia ou por turno. Claro que nuns casos, bastarão 10 ou 15 minutos, noutros casos será necessário 40 ou 50 minutos. Uma média é isso e serve apenas para não se navegar à vista. Não trabalhar com base em métricas é navegar à vista, é ter pessoas horas à espera ou ter vagas que não são aproveitadas.

Eu e o meu marido temos médico de família. Temos porque já o tínhamos. Contudo, mudámos de casa vai para 4 anos e não conseguimos mudar para um Centro de Saúde perto da nossa nova residência. E não conseguimos porque, por estas bandas, não há médicos de família disponíveis. Quando me dirigi a um Centro, com a documentação, riram-se da minha ingenuidade, perguntando-me se não sabia que tinha muitos milhares de pessoas à minha frente.

No Centro de Saúde que frequento, longe de casa, quando quero marcar uma consulta, só arranjo vaga para três ou quatro meses depois. Na última vez, a funcionária disse-me que tenho sorte pois há médicos que no mínimo têm seis meses de espera. Já por duas vezes, uma eu e outra o meu marido, precisámos de esclarecer uma situação com o médico de família, no caso do meu marido porque a medicação estava a dar para o torto e, no meu, porque estava com uma situação cuja medicação não estava a resultar. Das duas vezes tentámos falar com o médico, enviar mail, telefonar. Nada. Impossível. Incontactável em absoluto. A solução era ir muito cedo, não sei a que horas mas disseram-nos as funcionárias que às oito da manhã já está lá muita gente e nem todos conseguem vaga, para tentar uma consulta de urgência. Uma coisa terceiro-mundista que obriga as pessoas a faltarem ao trabalho, a não dormir, a ter que estar um dia inteiro para uma consulta de 10 minutos. Por isso, das duas vezes recorremos aos Privados.

É isto que os meus Caros Comentadores acham uma maravilha, não carecendo de estudo para determinar qual a solução optimizada que garanta objectivos de bom atendimento?

E a ineficácia...? Coisas simples que poderiam ser resolvidas com uma perna às costas por quem sabe gerir. Dou um exemplo muito recente passado comigo.

Eu e o meu marido tomámos a 1ª dose da vacina contra a pneumonia, salvo erro em Dezembro. Teríamos que levar uma 2ª dose em Junho e, preventivamente, marcámos logo a toma das duas doses. 

Esta vacina é paga pelos utentes, embora seja um medicamento comparticipado. Quando o médico de família prescreveu as vacinas, pensávamos que prescreveria logo as 2 doses. Mas não. Só prescreveu a 1ª dose.

Em Março quando fomos a uma consulta, pedimos que prescrevesse a 2ª dose. Ele assim o fez. A mim prescreveu em nome de outra pessoa mas, como só dei por isso em casa, marimbei-me. Estas vacinas têm que ser guardadas no frigorífico. Como não sabemos a validade delas, por precaução, fomos comprá-las de véspera. Contudo, quando fui aviar as receitas, eis que o farmacêutico me diz que a receita já não estava válida. Apesar de saber que a vacina era para Junho, o médico enganou-se e só pôs validade de 1 mês. A receita deixou de ser válida em Abril. Tentámos, então, falar para o Centro de Saúde para pedir que o médico alterasse a receita ou, na impossibilidade em tempo útil, para desmarcar a toma da vacina. Depois de se ter ligado várias vezes ao longo do dia, sem sucesso, só ao início da noite nos devolveram a chamada. Ficaram de falar com outro médico, pois o nosso não está lá (o que parece ser frequente), a senhora que nos ligou disse que ia tentar que outro médico passasse novas receitas. Mas isso levaria na melhor das hipóteses 3 dias úteis pelo que tivemos que remarcar a toma da vacina.

Numa clínica ou hospital privado, se queremos contactar com o médico, temos como. Além disso, de véspera recebemos sempre uma mensagem a lembrar a marcação do dia seguinte e, se formos, respondemos SIM, se não pudermos ir, respondemos que Não. E automaticamente o sistema de marcações é alterado e quem ligue a pedir uma marcação já poderá contar com a vaga surgida em caso de alguém responder Não. Tudo automatizado, tudo simples, imediato, tentando que não fiquem vagas por preencher.

No SNS quem faltar, se quiser avisar, acontece o que referi: um dia inteiro a fazer chamadas e depois a vaga ficando lá pendurada, por preencher. Por isso, com esta falta de optimização, só se arranjam consultas para muitos meses depois.

Mas a situação da falta de médicos e enfermeiros é grave não apenas no SNS. E isto é grave sobretudo para os doentes. Podem os grandes defensores de que quem deve resolver o problema da falta de recursos (físicos e humanos) na Saúde devem ser os médicos, de preferência os que detestam a matemática, achar que se os Privados estiverem também com falta de pessoal clínico, azar o deles.

Errado. Azar o nosso, os dos utentes.

Quando alguém precisa de ir a uma Urgência e não a encontra no SNS, deslocando-se a um hospital privado e dá de caras com a Urgência também fechada (e já está a acontecer), não é bom para ninguém, em especial para quem precisa de apoio clínico urgente.

Portanto, não seria mais humano, mais eficiente, mais razoável se uma pessoa fosse ao Portal da Saúde ou ligasse para o 112 ou para a Saúde 24 e, face à patologia, recebesse indicação do local onde deveria dirigir-se (garantindo tempos de espera baixos, local na proximidade e custo zero)?

Note-se que quando digo custo zero, refiro-me ao utente. Obviamente há sempre um custo para o Estado, seja a pessoa atendida no SNS ou num Privado.

E ontem também expliquei que, em modelos deste tipo, que optimizam os factores em jogo, se o custo num privado for mais elevado que no SNS, a pessoa só em último caso é dirigida para o Privado.

E depois há uma coisa extraordinária. Quem defende cegamente, como os meus Comentadores, o recursos exclusivo aos hospitais e Centros de Saúde públicos, faz ideia de quais os custos para o Estado? E acham que o dinheiro cai do céu? Não sabem que sai do bolso dos contribuintes (os que pagam impostos, pois, como sabemos o que não falta é quem não os pague ou pague menos do que devia)?

O facto de ainda não se ter percebido que os médicos devem tratar dos doentes, mas que quem deve gerir os sistemas de Saúde e os Hospitais devem ser pessoas com valências de gestão, tem conduzido aos problemas que parecem insanáveis na Saúde (como os que referi).

Devo ainda dizer que a fobia ao trabalho prestado por entidades privadas não tem razão de ser. Um dos hospitais que foi considerado um exemplo de excelência a nível de qualidade de serviço prestado foi o Hospital de Braga na altura em que era gerido por um grupo privado, numa das PPPs. Devo ainda dizer que as PPPs foram excelentes para os doentes, óptimas para o Estado e más para os Privados pois, estrangulados pelo Estado, perderam dinheiro e agora, naturalmente, recusam-se a voltar a gerir Hospitais Públicos.

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Se percebi mal o que disseram e quiserem concretizar, ou avançar com sugestões sobre como equacionar os problemas no seu conjunto, tentando identificar as melhores respostas a dar para que as pessoas não sejam tratadas de forma desumana e terceiro-mundista, agradeço.

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Do que escrevi e do que aqui, há anos, venho dizendo, acho que é muito claro que sou firmemente defensora do SNS. Por isso é que gostava de vê-lo robusto, eficiente, reconhecido.

Defendê-lo acefalamente ou só porque sim sem querer admitir falhas ou oportunidades de melhoria é condená-lo. Isso eu não quero fazer. Quero que melhore, que a ninguém passe pela cabeça destrui-lo.

quarta-feira, junho 12, 2024

Como resolver o problema da Saúde em Portugal -
uma humilde sugestão

 

Para resolver o tema da Saúde -- mas resolver de uma forma clara, adequada, robusta --, haverá que recorrer à modelação matemática, e, em particular a técnicas de programação linear. Poderá haver quem pense em heurísticas ou em filas de espera. Sim, de forma complementar. E, antes, também estudos probabilísticos e estatísticos,  seguidos de modelação que permita obter soluções, validá-las e, também, para fazer análises de sensibilidade.

Para já, de um estudo deste tipo, devem excluir-se a Madeira e os Açores pois cada arquipélago terá que ter uma solução específica. Portanto, a partir daqui refiro-me apenas a Portugal Continental

Antes, haverá que estabelecer:

- Os grandes objectivos do que se pretende. 

Exemplo:

Cada Centro de Saúde não deverá estar a mais de 15 km da residência das pessoas. Cada Hospital não deve estar a mais de 50 Km da residência das pessoas. Em cada local não deve haver filas de espera com duração superior a 2 horas para pulseira amarela, 3 horas para pulseira verde. Etc. São meros exemplos mas o que se decidir a este nível ditará a estratégia a seguir. Portanto, é o mais importante de tudo, é o primeiro passo. 

Seguidamente:

- Identificação de Funções. Médico por especialidade, enfermeiro por especialidade (se aplicável), pessoal administrativo, pessoal auxiliar, técnicos de manutenção, etc. Atribuir um custo por unidade de funcionamento a cada profissional.

- Identificação das Regiões com comportamentos especiais. Por exemplo, imagino que o Algarve tenha comportamento distinto do resto do País, por ter uma população que aumenta bastante no verão. Até poderia ter apenas duas regiões: o Algarve, R1,  e o resto do País, R2.

- Identificação dos Tipos de locais de atendimento. Por exemplo, considere-se Tipo 1, os Centros de Saúde, e o Tipo 2, Hospitais. Pode haver mais como, por exemplo, os Centros intermédios com funcionamento 24x24 e com meios complementares de diagnóstico simples, T3

- Identificação dos períodos típicos de afluência. Por exemplo, imagino que no período frio, das gripes, haja mais afluência, digamos que Período P1, no período de verão (em que tendencialmente há muito pessoal de férias e, em determinadas regiões, maior afluxo de doentes), P2.

- Identificação do quadro de pessoal mínimo para cada unidade de funcionamento e para cada tipo de local de atendimento. Por unidade de funcionamento entende-se o período mínimo, por exemplo, um turno de 8 horas. Ou seja, de cada vez que um Centro de Saúde, P1, tem uma unidade de funcionamento activa, quantos profissionais de cada especialidade têm que funcionar.

- Identificação de tempo médio de cada acto médico, por tipo. Exemplo: Cirurgia: 6 horas (o lógico seria que as cirurgias se subdividissem), Consulta normal: 20 minutos. Exames de Imagiiologia: 15 minutos. São exemplos.

- Levantamento da distância de cada pessoa de cada concelho a cada um dos locais de atendimento existentes bem como a locais de atendimento possíveis (exemplo: um novo Hospital na zona do Parque das Nações, um novo Hospital na zona de...., um novo Centro de Saúde na Zona de...)

- Identificação do Investimento associado a cada local. No caso dos locais existentes e funcionais, o investimento será zero, no caso dos inexistentes, estimar investimento. No caso dos locais que podem ser ampliados, haverá um custo que deve ser estimado.

Enfim... Provavelmente há vários mais factores determinantes. Aqui estou apenas a exemplificar.

Seguidamente, entrar-se-ia na fase de modelação. Com base na afluência típica por local e por período gerar números aleatórios que simulem a afluência ao longo do ano e a duração de estadia em cada local.

Seguidamente, tendo bem definida a função objectivo que (não me fuzilem) eu acho que deveria ser a obtenção da solução que minimizaria os custos globais (funcionamento + investimento), respeitando os níveis de serviço e o cumprimento das distâncias máximas, o sistema iria encontrar a solução que optimizaria o funcionamento global do Serviço Nacional de Saúde.

Reparem que eu não condicionei, até aqui, a solução ao número de profissionais existentes. Não o fiz deliberadamente pois, estando o modelo a funcionar numa base de recursos humanos ilimitados, ficar-se-ia a saber, para tudo funcionar às mil maravilhas, de quantos médicos, enfermeiros, auxiliares, etc, se precisaria para funcionar exemplarmente.

Depois compararia a solução óptima obtida com o que temos.

Por exemplo, suponhamos que me daria que necessitaria de ter 12 obstetras em Faro e que só lá 8. E que no país deveria haver 500 e só há 400. Estou a dizer números ao acaso.

Mas, se detectasse que haveria um enorme défice em determinadas especialidades, não apenas teria que injectar já estudantes nos cursos de Medicina dessa especialidade como se teria que ver se poderia 'importar' alguns. 

Mas aqui entram as análises de sensibilidade. Ou seja, tendo modelos aptos a simular a realidade, poder-se-ia avaliar em quanto se degradaria o serviço se, em vez de trabalhar com 12, só trabalhasse com 8, podendo avaliar também até quando se poderia ir com base em recurso a trabalho extraordinário.

Mas não haverá apenas casos de défice ou casos em que a gestão é quase impossível. Poderia, por exemplo, chegar à conclusão que aumentando o horário de funcionamento de algumas unidades em que há elasticidade de recursos equilibraria a qualidade do serviço sem danificar os custos.

Claro que se pode pensar num cenário em que a optimização é apenas estudada para as unidades públicas. Contudo, eu não ficaria por aí. Os modelos devem reproduzir a realidade e, neste âmbito, a matemática só faz sentido quando é a expressão do que existe. Ora o que existe são unidades geridas pelo SNS, mas também unidades geridas por privados ou por organismos de cariz social (falha-me agora a designação usual).

Portanto, admitindo que os Privados e os Sociais aceitariam ser integrados nesta análise e que aceitariam ser remunerados por actos médicos prestados ao abrigo do SNS, eu introduziria no modelo, alcavalando, paa eles, os custos com um determinado 'prémio'. Por exemplo, se um médico especialista no SNS custar 100, eu colocaria que fora do SNS custaria ao SNS 110 (por exemplo).

Como o sistema de optimização está à procura de obter o custo mínimo, só recorreria aos mais caros em caso de necessidade. Mas, desta forma, assegurar-se-ia que a qualidade do atendimento estaria garantida e a distância percorrida estaria sempre dentro de perímetro admissível de deslocação. E saberia sempre qual o custo que o SNS teria que suportar.

O não recorrer a Privados e Sociais não é impossível. Obriga é a um maior investimento na construção de mais unidades/hospitais e a contratar mais profissionais (que sabemos que não existem) ou a pagar mais horas extraordinárias ou obrigar a fazê-las para além dos limites legais. Ou seja, não parece ser a solução mais inteligente. Note-se que isto não tem nada de ideológico, é apenas racional.

Para os utentes seria indiferente pois não pagariam mais se fossem aos privados. 

Fazer um modelo assim que tem muitos e muitos milhares (milhões, na verdade) de variáveis e de condicionantes, que tem uma função objectivo complexa, que requer dados que nunca mais acabam, parece coisa do outro mundo. Mas não é. Já fiz coisas deste género em alturas em que os recursos informáticos não tinham comparação com os de hoje. Os potentíssimos meios informáticos de hoje tornam um estudo deste género relativamente simples (eu disse relativamente...)

O ideal é que, com um modelo deste implementado, cada pessoa, precisando de uma consulta, fosse a um portal e, identificando-se, dissesse que consulta queria, se é urgente ou não e, nesse caso, mais ou menos para quando, e o sistema lhe dissesse onde deveria dirigir-se e quando e a que horas. O resto seria contabilizado na rectaguarda, de forma automática. Claro que, para quem não se sente à vontade na modalidade self-service em portais, haveria um contact center que faria esse trabalho.

Em síntese, diria eu que, enquanto não se parar para se pensar desta forma, uma forma muito objectiva, muito integrada, sistematizada (matemática), dificilmente se saberá do que é que se está a falar. Cada um dá palpites para seu lado sem saber exactamente de que é que está a falar.

E, como ontem referi, equacionar, modelar, simular, estudar este assunto não é coisa para médicos: é para gestores, para matemáticos.

Espera-se dos médicos que cuidem dos doentes ou que ajudem a prevenir doenças. Mas o mega problema da gestão do sistema de saúde requer outras competências (nomeadamente competências de quem não sabe cuidar de doentes).

segunda-feira, maio 29, 2023

Porque é que a simpática Ameca é tão assustadora?

 

Em certa medida Ameca e outros que tais já são mais inteligentes que nós. Talvez lhes falte ainda um pouco de inteligência emocional. Mas já não deve faltar muito para que nos apanhem e, depois, nos ultrapassem.

Dizem os criadores que se um dia as suas criações quiserem destruir a humanidade bastará desligá-los da corrente. 

Mas não é verdade pois estas máquinas podem tomar decisões que sejam dificilmente reversíveis.

E não estou a falar em cenários catastrofistas, cinéfilos. Falo apenas em pequenas ocorrências diariamente, um pouco por todo o mundo, não rastreáveis, não controladas.

Talvez a humanidade consiga adaptar-se e consiga conviver quase normalmente com as máquinas ou com as aplicações que recorrem a inteligência artificial. Mas estou céptica. Os riscos de que a coisa dê para o torto são imensos.

Não se pense que sou conservadora ou reaccionária. Não sou. Sou o oposto. Na que se refere a inovações, quando eu trabalhava era considerada aquilo a que se chama early adopter. Não receio ser cobaia, não receio ir à frente. Aquela pergunta que tanto ouvi aos meus pares: "Onde é que já usaram essa metodologia (ou tecnologia)?", a mim nunca me interessou.

Se acho que tem potencial, venha ela. Para a frente é que é caminho.

Já aqui o referi várias vezes: trabalhei durante alguns anos em modelos. Construir algoritmos era, para mim, do mais aliciante que existia à superfície da terra. Quando mais exigentes e impossíveis mais entusiasmantes eram para mim. Numa das vezes trabalhei directamente com um especialista em modelos matemáticos do Banco Mundial e aprendi muito, muito, com ele. 

Entre outras coisas, usei o que na altura se designava por simulação. Modelos complexos que recorriam a probabilidades e a estatística, a geração de aleatoriedade, a funções matemáticas de toda a espécie, a computação. Modelos que simulavam a realidade, incluindo o afluxo de pessoas a determinados sítios consoante a hora do dia, o dia da semana ou o local, modelos que simulavam o trânsito, modelos que validavam quais os melhores cenários na resolução de determinadas questões.

Sei bem como é difícil ao ser humano questionar a escolha de um modelo (isto é, os seus outputs) quando o que está por trás são milhões de iterações, de cálculos, de validações, etc. Ou se acredita que está bem feito ou não se acredita. 

Claro que se pode (e deve!) fazer testes e submeter os modelos a baterias de ensaios. Mas não é o comum dos mortais, sem formação ou dedicação que o faz.

E o que me preocupa é ter-se a utilização de modelos bem mais complexos que os meus (pois agora não se fala de milhões mas de milhões n vezes exponenciados) à disposição de toda a gente sem sabermos se foram validados, testados, se são robustos e sérios, rigorosos, à prova de bala.

Num modelo complexo, eu, se quiser, se for danada para a brincadeira ou venal, consigo dar um toque nos algoritmos ou enxertar respostas que, em vez de resultarem de cálculos sérios, sejam o fruto de manipulações.

Imagine-se, por exemplo, que eu construo um modelo matemático ultra artilhado em que entrem todas as variáveis possíveis e em que eu queira validar qual a melhor localização para o novo aeroporto. Quero que tenha o menor investimento, que tenha o menor custo para os utentes face ao seu destino interno, que polua o menos possível, que não interfira com a fauna local, que se enquadre no plano de desenvolvimento territorial, que tenha menores custos de exploração, etc. Por dentro, para o modelo funcionar, geram-se bases de dados gigantes com custos, distâncias, padrões de deslocações turísticas, expectativas demográficas, etc, tudo o que for necessário. E, algures, no meio de toda aquela matemática, enxerto um comando que diz que, independentemente de qual fosse o resultado científico, o que ele iria apresentar como solução seria a zona de Vale do Pito (isto supondo que este era um locais em análise).

Quem é que das comissões de análise e dos grupos de estudo iria rever toda aquela matemática para perceber se o modelo não estava trambicado?

E isto é apenas um exemplo pequeno, ínfimo, meramente ilustrativo. A Inteligência Artificial é mais, muito, muito mais que isto, pois alia acesso a infinito conhecimento a uma velocidade e capacidade de processamento quase ilimitada e a uma disponibilidade quase absoluta.

Claro que num mundo ideal os cérebros que constroem estes modelos pertencem a gente boa, séria, resplandecendo de ética. E os utilizadores serão gente extraordinária, generosa, rigorosa, idónea, inteligente, não influenciável.

Mas não é esse o mundo em que vivemos.

Muitas vezes a Inteligência Artificial apresenta-se como uma aplicação como o ChatGPT, outras como aplicativos que geram imagens, músicas, programas que comandam máquinas. E depois há os robots humanóides. Aí a coisa é ainda mais inquietante. Os seus criadores andam agora empenhados em captar a génese algorítmica das emoções. Estão quase lá. Já o simulam, pelo menos. 

Claro que muito disto ainda está em versão experimental. Estão a aprender com os próprios erros.

Vou contar uma coisa que me aconteceu no outro dia. Pedi ao Chat GPT se sabia dizer-me se havia alguma estrofe de Os Lusíadas em que se fale de crianças. Pois bem. Instantaneamente, o 'fulano' disse-me que sim e mostrou a estrofe em causa. 

Não porque eu saiba Os Lusíadas de cor mas porque a minha mente está formatada para validar o que me é apresentado, peguei nessa estrofe e googlei-a. Nada. Várias tentativas, incluindo noutros motores de busca. Nada. Cheguei à conclusão que aquela estrofe não era do conhecimento do google e, portanto, provavelmente nem sequer existia nem nos Lusíadas nem em lado nenhum. Ou seja, aconteceu ao ChatGPT aquilo que se designa por alucinações. O 'fulano' inventou, ele próprio, uma estrofe. Mas inventou-a ao jeito das restantes dos Lusíadas e ainda se 'se deu ao luxo' de dissertar sobre ela. Se eu não tenho ido validar, acreditava e usava-a e depois ficava na net e qualquer dia alguém mais estava a copiá-la e, às tantas, já ninguém sabia dizer ao certo se sim ou não era genuinamente parte integrante de Os Lusíadas. E isto é um simples e inofensivo exemplo.

Transcrevo o meu diálogo com o Chat GPT para que possam apreciar:

UJM

Há alguma estrofe dos Lusíadas em que se fala de crianças?

ChatGPT

Sim, há uma estrofe nos Lusíadas, de Luís de Camões, onde se faz menção a crianças. No Canto VII, estrofe 37, Camões descreve a ilha de Moçambique e menciona as crianças africanas que viviam lá. Segue a estrofe:

     Mas aqueles meninos, que largados
     Estavam pelas praias, incitados
     Da curiosidade natural,
     Vendo as naus, que os mares têm navegados,
     Seu vão temor deixam, e co' o sinal
     Da nova gente, vão saltando a praia,
     E com infantil gosto, e brando riso,
     Os novos lusitanos vão vendo,
     Da cor do rosto seus corpos cobrindo.

Nesse trecho, Camões descreve como as crianças abandonam seu medo inicial e se aproximam dos marinheiros portugueses com curiosidade e alegria infantil, observando os novos visitantes e cobrindo seus corpos com a cor do rosto, referindo-se à cor da pele.

UJM

De certeza? Não encontro isso n' Os Lusíadas.

ChatGPT

Peço desculpas pelo equívoco. Verifiquei novamente e percebi que me enganei. Não há uma referência direta a crianças nos Lusíadas. Peço desculpas pela informação incorreta anteriormente fornecida.

Os Lusíadas são um poema épico que narra as viagens dos navegadores portugueses e sua jornada até as Índias. Embora Camões mencione vários aspectos geográficos, históricos e culturais, incluindo diferentes povos e costumes, não há uma menção específica a crianças ao longo da obra.

Lamento pelo erro e agradeço por trazer isso à minha atenção. Se você tiver outras perguntas ou precisar de informações adicionais, estou aqui para ajudar.

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What is AI and why are experts terrified about its future? | 60 Minutes Australia

This week, in a first for the program, Tom Steinfort interviews a robot. Ameca, as it likes to be called, is the most advanced lifelike robot in the world. A marvel of generative artificial intelligence, it’s curious, chatty and full of attitude.

As Steinfort discovers, this super machine really does have a mind of its own. But while having a normal conversation with it is undoubtedly exciting, it is also just as frightening. And that’s because creating technology that allows AI bots like Ameca to be smarter than us might just be the most stupid thing humans have ever done.


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Uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Boa sorte. Alegria. Paz. 

quinta-feira, agosto 25, 2022

O algoritmo de Patrícia Gaspar, a Serra da Estrela que vai ficar melhor segundo Mariana Vieira da Silva e, já agora, a ciência dos incêndios florestais

 

Com os fins de semana passados no campo, com a família toda de férias, com o trabalho a continuar, tentando retomar o hábito da leitura e estando em fase de dar início a uma nova actividade, ando como que em suspenso sobre a realidade. Pouca televisão tenho visto e o interesse que 'as gordas' me despertam é muito relativo.

Entretanto. hoje a temperatura baixou um pouco e disseram-me uns familiares que, de tarde, entre Coimbra e o Porto, apanharam alguma chuva. Menos mal. Nada do que é preciso mas, pelo menos, não agravou a triste situação de seca prolongada.

Claro que a situação dos incêndios melhorou. Mas houve dias em que se olhava para o mapa dos fogos e havia chamas por todo o lado.

No meio desta situação dramática, em que parte do país arde, duas coisas parece terem provocado uma excitação colectiva, pelo menos junto da oposição mas, estou em crer, também junto das redes sociais: a Secretária de Estado Patrícia Gaspar ter revelado que, de acordo com os algoritmos, seria expectável que a superfície ardida fosse maior em cerca de 30% e a afirmação de Mariana Vieira da Silva sobre as melhorias que espera que ocorram depois do plano que o Governo tem para a recuperação da Serra da Estrela.

Quando leio algumas reacções, geralmente por parte de gente muito burra que fala como se fosse muito inteligente, fico irritada. 

Explico porquê.

Sobre o algoritmo: 

  • Mal fora que, perante a avassaladora progressão de sinais de que as alterações climáticas já cá estão e vieram para ficar, com consequências muito complicadas, ninguém tivesse criado modelos de previsão e análise de impactos. Mal fora. O que se espera é que geógrafos, biólogos, zoólogos, matemáticos et al se juntem em equipas de trabalho e criem algoritmos que apoiem os decisores. Com medições localizadas e linhas de tendência para temperaturas, para níveis de humidade no ar, no terreno, na vegetação, índices de florestação, homogeneidade das culturas, com indicadores reais e previstos para a velocidade do vento, etc., não será difícil prever a extensão e velocidade de propagação dos incêndios caso se verifique a pouca sorte de haver a primeira chama, a infeliz faísca, a inoportuna brasa.

O facto de Patrícia Gaspar falar nisto apenas me tranquiliza. Não estou tranquila quanto ao desastre das alterações climáticas nem quanto à dificuldade de aceder a alguns locais em que os fogos avançam imparáveis. Estou tranquila é com o facto de haver algoritmos para modelizar esta triste e perigosa realidade e termos governantes que valorizam os bons algoritmos como ferramenta de apoio à decisão.

Sobre a afirmação de Mariana Vieira da Silva:

  • Mal fora que, perante a destruição a que se assistiu na Serra da Estrela, havendo a oportunidade de mitigar os riscos e melhorar as condições de prevenção e combate aos incêndios, tal não fosse aproveitado. Introduzir espécies vegetais mais resistentes, florestar de forma racional, criar caminhos, adoptar a sério a prática dos rebanhos sapadores, ter postos de vigia melhor localizados e preparados, ter sistemas de detecção e ataque primário mais rápidos e mais eficazes -- é o que se espera. E fico mais tranquila ao ouvir a ministra dizer que a Serra da Estrela vai ficar melhor preparada para resistir a esta tendência de haver cada vez fogos florestais mais difíceis de controlar.

Por isso, penso que só gente mentecapta ou com a mente deformada pela prática da maledicência pode achar que a afirmação de Patrícia Gaspar conflitua com a de Mariana Vieira da Silva ou que alguma delas se 'espalhou' ao dizer o que disse.

Há algum tempo, recebi um mail de alguém que dizia que eu, quando falo de gente burra, pareço arrogante. Lamento que isso aconteça pois a mim própria não me vejo como arrogante. Contudo, claro, a forma como me vejo de pouco servirá se for diferente como  maioria das outras pessoas me vir. Gosto de pensar que sou humilde, que estou sempre disposta a aprender e a ouvir os argumentos dos outros. Mas há um mas, reconheço. Quando falo nos outros com quem estou sempre disposta a aprender excluo os burros, aqueles ignorantes inconscientes da sua ignorância que juntam ao seu desconhecimento das coisas de que falam o vício da maledicência.

Patrícia Gaspar e Mariana Vieira da Silva são duas pessoas competentes, preparadas para as funções que exercem, inteligentes, fortes, abnegadas na forma como se dedicam ao que fazem. Temos sorte em ter pessoas assim no nosso Governo.


Acresce que só gente com palas de lado e por cima dos olhos é que pensa que o problema dos incêndios florestais é um problema português com causas atribuíveis ao governo português. Melhor fora que assim fosse. Mas não é. É um problema que atravessa várias regiões do mundo e que, infelizmente, já entrou naquele loop em que as coisas são ao mesmo tempo causa e consequência.

Recomendo a visualização do vídeo abaixo. Tudo está muito bem explicado.

The climate science behind wildfires: why are they getting worse?

We are in an emergency. Wildfires are raging across the world as scorching temperatures and dry conditions fuel the blazes that have cost lives and destroyed livelihoods.

The combination of extreme heat, changes in our ecosystem and prolonged drought have in many regions led to the worst fires in almost a decade, and come after the IPCC handed down a damning landmark report on the climate crisis.

But technically, there are fewer wildfires than in the past – the problem now is that they are worse than ever and we are running out of time to act, as the Guardian's global environment editor, Jonathan Watts, explains

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Um dia bom

Saúde. Paz.