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quarta-feira, março 22, 2017

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
[Não é poesia mas tem muita filosofia]



Confesso:

Gosto de bobos. Gosto de ser boba. Gosto de dizer bobagens. Gosto que me digam bobagens.

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Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


[Clarice Lispector]

Das vantagens de ser bobo



Vídeo de Cine Povero sobre imagens de obras de Marc Chagall (1887-1985)

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E desçam que quiserem encontrar a vossa serenididade.

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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Eis-me sem explicações, não calando a voz do chão que grita dentro de mim e que, nestas paredes e nestes caminhos, irá para além de mim. Sou feliz in heaven.


No post abaixo questionei-me sobre o que é o amor e, a propósito de uma mulher que despertou paixões várias, Gala, mostrei um poema de um homem que muito a amou, Paul Éluard.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Aqui chegados, a casa estava fria, quase húmida de tão fria. Reparei que o galo, a galinha e os seus galitos parecem ter-se zangado. Costumo dispô-los uns atrás dos outros e agora uns estão para um lado e outros para outro. Devem sentir a nossa falta, parecem amuados, temos vindo pouco, o tempo não chega para dar corpo a todos os afectos.




Desta vez a salamandra animou-se, ainda agora fui espevitá-la. Vem de lá um calorzinho bom, um perfume a cedro, a azinheira, a pinheiro, a pinhas: são as minhas árvores queridas que nos dão sombra, perfume, cor e também calor.

Estava no sofá, reclinada, a ler uma entrevista a T.S. Eliot, quando reparei que o fogo se reflectia no vidro da janela, parecia uma fogueira no jardim, quase como se da pedra enorme que tenho aqui no chão à porta nascesse uma chama.




Sinto-me feliz com coisas assim: sabia que os meus filhos estavam juntos, divertindo-se em família, todos mascarados, as crianças numa alegria, e sabê-los amigos enche-me de felicidade. E eu aqui, sabendo isso, e sabendo que o meu pai está a ser bem tratado e talvez recupere ligeiramente, que a minha mãe está a descansar um pouco, sentindo o afago bom do calor perfumado da salamandra, vendo o dia a cair do lado de fora, lendo, rodeada de afecto, senti-me agradecida. Sei como são frágeis os acasos que fazem uma pessoa ter motivos para estar feliz, frágeis, efémeros. Tantas pessoas que os não têm e que tanto o mereciam. Por isso, sempre que me sinto abençoada, sinto-me também agradecida, quase como se, sentindo-me agradecida, conseguisse a benesse de por mais tempo me ser concedida a graça de o continuar a ser.

Antes de me deixar estar aqui na sala, descansada, a ler, tinha andado a passear. Que bom é passear por aqui, in heaven. Reparo em cada pequeno pormenor. Uma árvore mais verde, um bocado de musgo solto - e penso, um gato, um coelho talvez, ou a chuva ou o vento - e está mais fofo e aveludado, uma pedra que parece mais coberta de terra.




Os cedros estão carregadinhos de pontos dourados. Gosto muito de cedros, crescem muito, dão belas sombras, são elegantes, os ramos tombam como capas, como mantos.

O que antes era uma terra de mato rasteiro tem agora pequenos bosques perfumados. Baixo-me para descer as escadas de pedra cobertas de musgo e folhagem que mal se vêem debaixo das ramagens das árvores. Depois sinto que fiquei com folhas presas no cabelo e hesito em tirá-las. 

As figueiras continuam despidas, ramos escuros que desenham arabescos no ar. Mas, na ponta de cada um, um pequeno rebento. São as folhas que começam a pressentir-se.




Fico sempre emocionada quando assisto a este milagre. Todos os anos as figueiras se despem para o inverno, e ficam nuas, ramos que poderiam prenunciar o seu fim. Mas depois a natureza faz renascê-los e dos ramos começam a surgir provas de vida.

Daqui por algum tempo as folhas começarão a desenhar-se, depois as árvores ficarão frondosas e os figos crescerão até que, pesados, deixarão que uma gota de mel se solte.

Continuo.

Gosto de andar com a máquina fotográfica. Guardo o registo do que me parece ser mágico, quase indizível. Tantos tons de verde, ramos nus, cinzentos, misturando-se com folhagens verdes de várias tonalidades. No meio tenho bancos, uns de pedra, outros que desenhei, pequenas conversadeiras que forrei a azulejo. Pensava: vai apetecer-me sentar-me no meio das árvores a ler um livro ou a conversar, deve haver ali um sítio onde seja bom estar. E apetece, tenho é pouco tempo para poder fazer tudo aquilo que quero.




Quando andava a passear em silêncio, vi o gato preto que por aqui anda por vezes. Ele não me via e eu andei ainda mais silenciosamente. Mas, então, ele apercebeu-se da minha presença. Virou-se para mim, olhou-me com aquele seu olhar verde e intenso. Arrepiei-me. Fiquei estática a olhar para ele e ele para mim. Depois, quando eu começava a ganhar consciência e me preparava para o fotografar, fugiu. Este gato desafia-me, teme-me, encanta-me sendo tão arisco e ágil, perturba-me pela forma como me olha.

Mais à frente, outra alegria. Quase poderia dizer que eram dois botões, de um tom de pétala de rosa deixada ao embalo do sol. Maravilho-me com coisas assim, com a beleza muito pura.




Na parte de fora da pequena capela, lembrei-me de ter Adão e Eva. A Igreja (a Igreja antiquada e com a qual não me identifico) acha que cometeram um pecado e, por isso, deixa-os de fora. As crianças que nascem desse pecado têm que ser purificadas antes de poder ser aceites no seu seio. Eu não considero que os actos de amor ou de prazer possam ser pecado e, por isso, não baptizei os meus filhos. Nasceram puros porque nasceram de actos de amor.


E juntei falas a Adão e a Eva.
Adão, encantado por Eva, usa as palavras de David Mourão-Ferreira e diz

A vestir-te
o corpo
nu
ou a sede
que é minha
ou a seda que és tu


E Eva faz suas a s palavras de Natália Correia para dizer

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto o sabor

Mais à frente, rodeei as azinheiras por um muro em redondo onde fiz pintar estrofes ou pequenos poemas.

Trocar tudo por ti, se for preciso

Pensei nesta espécie de canteiro como um poço do amor de onde se erguesse a vida traduzida em árvores. São cinco poemas de amor. O senhor que aplicou os azulejos suou as estopinhas para conseguir fazer a curvatura do murete mantendo os azulejos encostados de forma a que as palavras ficassem bem desenhadas. Gosto de andar aqui e ler os poemas e sentir que o amor está bem marcado na minha vida, impresso na pedra.

Sou eu que aqui me encontro. Um dia desaparecerei e talvez as ervas e os musgos tudo invadam. Talvez as árvores tombem cansadas de carregarem as suas pesadas ramagens. Ou talvez os meus filhos e os seus filhos e os filhos dos seus filhos tentem manter este espaço e continuem a achar que é o seu heaven. Não sei. Mas acredito que muito de mim continuará a existir para além de mim, aqui nestas paredes, nestes poemas, nestes desenhos, nestes caminhos, nestes recantos. Como disse, era uma terra inóspita, só pedras e mato, e agora sou eu aqui envolta em palavras, em árvores, em luz, perfumada pelos cheiros íntimos desta terra que me adoptou e que eu sinto que me ama de uma forma silenciosa e fértil, doce, maternal.


Para dizer que sou eu aqui, diante de mim

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A límpida e maravilhosa música é Llongau Térou-bi interpertada por Catrin Finch e Seckou Keita

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Relembro que, descendo até ao próximo post, encontrarão as minhas dúvidas sobre que coisa é o amor e um poema muito belo, dito e cantado, de um homem que muito amou uma mulher que o viria a fazer sofrer, Éluard e Gala.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
E sejam muito felizes. 
E façam por amar e ser amados, está bem?

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sexta-feira, dezembro 13, 2013

Sobre um presente inesperado e maravilhoso que a UJM recebeu. E os meus sentidos agradecimentos pela imensa gentileza do Leitor que mo ofereceu.


No post abaixo falo da entrevista de Passos Coelho à TVI/TSF sobre a qual pouco ou nada há a dizer tal a vacuidade. Mas, enfim lá digo qualquer coisa e, de caminho, falo do Passos Coelho do jornalismo televisivo,  o Abreu Amorim do comentário económico. E falo de outros que não têm nada a ver com os anteriores.

Mas aqui, agora, a conversa é outra.

Aqui vou contar-vos sobre o primeiro presente que recebi nesta época natalícia. Mas, primeiro, como música de fundo, que deslize Ariane.





Não vou contar-vos pormenores. Talvez os conte um outro dia. Hoje dir-vos-ei que, por mail, recebi indicações de como chegar ao esconderijo onde tinha sido deixado. 

Gostava de saber dizer-vos da emoção, da surpresa. Enquanto lia o mail ia ficando mais admirada e encantada. Estava ao telefone com a minha filha e contei-lhe logo. Depois, quando falei com o meu filho, também lhe contei. Ficaram os dois enternecidos com a ideia.

Fiquei ansiosa por ir buscá-lo. Apenas contava ir para aqueles lados no fim de semana mas pensei logo que não ia descansar enquanto não fosse lá, tinha medo que alguém o descobrisse, ou que chovesse e se estragasse. Mas durante a semana só de noite e chegar lá, ao esconderijo, de noite, não se recomenda. 

Mas tinha que ser. Lá fomos, pois, os dois, eu e o meu marido, um destes dias.

Era de noite, estava frio, as ondas batiam na amurada, chovia ao de leve. E eu fui resgatar o meu presente.

E às escuras, com a luz do telemóvel a tentar ajudar e sem se conseguir ver nada e depois com a mão a tentar tactear o volume que tinha sido descrito, lá o senti. Intacto. Quietinho à minha espera.

Não sei se conseguem perceber a alegria de receber um presente assim. E o que isso significa, a generosidade de quem ali se deslocou propositadamente para me deixar um presente.

Já o tenho aqui comigo. Um objecto precioso. Um livro de poemas, edição de autor. 


O primeiro presente que recebi nesta época natalícia
e o primeiro presente alguma vez dirigido à UJM, essa outra que sou eu

O DECANTAR DAS SOMBRAS



Rumores de vento
trazidos
nas palavras
que pousas
lentamente
no papel em branco

Versos
feitos de sombras
que colhes ao entardecer

Rasto de um rosto
quando
de ti mesma
te escondes


Estender o braço
por cima do espaço aberto
na minha frente
e tocar
em tudo o que imagino
para além de todos os horizontes

Inclinar o dia
e decantar as sombras
para que o dia me fique azul
e do vento norte
nada mais me reste.
Sem sombras
o riso poderá abrir-se





Uma gata no Ginjal
(oculta, atenta, presente, transparente)

Pouco mais do que silêncio
palavras   sombras do vento

[Gundula Steglitz]



*

Muito obrigada Joaquim. Gostei... e muito!

*

O poema lá em cima é Ariane de Miguel Torga dito por Inês Veiga Macedo.


A música é Spiegel im Spiegel de Arvo Pärt interpretada por Filipe Melo e Ana Cláudia.


*

Há poesia dita também no Ginjal. Hoje é Jorge de Sena e Catarina Guerreiro e une toute petite lumière, just a little light, una piccola...

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira. 

sexta-feira, maio 18, 2012

Ana e Tomás vão de férias, juntos - e, excepcionalmente, a ficção e a realidade misturam-se. (É da magia do lugar, meus amigos...)


Música, por favor

Banda sonora de Braveheart





Ana estava de novo numa encruzilhada. A imprevista visita do seu amigo veio agitar as suas calmas águas. Além disso, do lado de lá do telefone, todos os dias lhe pediam que voltasse ou, pelo menos, que desse autorização para ser visitada. A curiosidade do lado de lá estava a dar lugar à impaciência, à incompreensão. 

Não é de um momento para o outro que se vira costas a uma vida preenchida e feliz. Tinha querido afastar-se para pensar em paz, sem pressões, sem chantagens emocionais, tinha também resolvido dedicar-se a coisas simples, a coisas terrenas e palpáveis farta que andava de coisas complexas e, tantas vezes, aparentemente intangíveis.

E, no entanto, aquilo que deveria ser não mais que um hiato, vinha progressivamente a conquistar espaço na vida de Ana.

Era a expansão das vendas, o aumento do emprego na vila que atraía gente de fora para arranjar trabalho, era o aumento de investimento (inclusivamente, tinham pedido a Ana para dar opinião sobre a construção de um hotel e Ana estava tentada a propor sociedade pois sentia que havia, do outro lado, também vontade disso), era o sucesso escolar e o envolvimento empenhado da escola, era o ambiente receptivo das pessoas com quem lidava, e era a amizade com Tomás, o carpinteiro - tudo a motivava e prendia a esta vila, a esta nova vida.

A carpintaria tinha-se expandido desde que tinham formado a empresa de arranjo de interiores. Tomás tinha agora alguns aprendizes e até tinha convidado um velho marceneiro para ajudar a enquadrar os jovens inexperientes. Trabalhava bastante e como vivia sozinho e amava o seu trabalho, ficava sempre até tarde na carpintaria. A forma como ele passava a mão pela madeira até a sentir macia, a forma como desbastava, afagava, polia a madeira deixava Ana maravilhada. Não se cansava de o observar, com encantamento e respeito. Nas suas mãos a madeira era um corpo moldável, um corpo que não oferecia resistência.




Habituado durante anos ao silêncio, o carpinteiro ao princípio tinha estranhado as invasões de Ana mas, vendo que ela respeitava os seus silêncios e gostava de ouvir as suas deambulações pelos caminhos secretos das palavras, começou a habituar-se e já se inquietava se ela se atrasasse. 

Ana sabia que essa amizade era comentada na vila mas isso não a incomodava nem um pouco. Tomás era livre e ela sempre se tinha sentido, também, uma mulher livre. E, se o não era oficialmente, isso não coarctava os seus movimentos. Claro que numa cidade grande os movimentos de uma mulher quase passam despercebidos, enquanto num meio pequeno tudo se sabe. Mas o facto de se saber o que quer que fosse, não incomodava Ana. Era a dona exclusiva do seu destino e fazia questão de o demonstrar. Além disso, sempre tinha achado que só é atacado quem mostra medo.

Desde que estava na vila ainda não tinha tido férias. E, assim, um dia pediu ao dono da oficina se poderia ter três dias, precisava de descansar. O dono riu-se, 'claro que sim, ora essa, nem precisava de pedir'.

E, portanto, ao fim do dia, Ana perguntou a Tomás se queria ir mostrar-lhe a sua terra natal. Tomás riu, 'que ideia...', irem os dois? Ana disse que, 'claro, os dois, a menos que queira levar mais alguém....' Tomás sorriu. Depois lembrou que não tinha carro e que há anos que não conduzia. Ana disse que isso, obviamente, que não era problema.



E assim, numa manhã quente, lá foram. Ana ia toda animada, parecia uma adolescente. Tomás, sempre mais sério, ia inquieto. Será que aquela mulher percebia que o efeito que produzia nele? Será que percebia que cada vez lhe custava mais passar sem a sua presença?

Parecia que não. 

Ana conduzia e, a seu lado, Tomás ia calado. Ana colocou o rádio na Antena 2. Depois perguntou-lhe se ele se tinha lembrado de trazer um livro para lhe ler durante a viagem. Tomás tirou um livro da mochila. Disse: 'Para o sítio que a vou levar a ver, tem que ter os olhos em bom estado, tem que conseguir ver tudo muito bem. E, ao ver, talvez o coração se lhe agite. Por isso o coração também tem que estar muito bom. Por isso, vou ler-lhe conselhos médicos - mas não uns quaisquer. Escute com atenção.'

E leu:

Os olhos são órgãos brilhantes, redondos e radiosos, cobertos por sete túnicas e três humores. Os olhos são as janelas da alma, para se verem através deles, como por uma varanda, as cores e as figuras. Faz-lhes bem (...) olhar para as montanhas e a verdura.

O seguinte faz mal aos olhos. Choro, fome, jejum, (...), toda a embriaguez e excesso. Sono demasiado depois das refeições e vigílias imoderadas. Canto em demasia e coito frequente.

O coração é um órgão côncavo, cavernoso em baixo, amplo em cima, e é o termo de todas as operações da alma racional (...). As operações do espírito começam no cérebro e recebem o seu complemento no coração.

Eis o que faz bem ao coração. Canto aprazível e alegria moderada. (...) E todo o cheiro aprazível que há nos pomares e prados, na estação da primavera, faz bem aos melancólicos e cardíacos.

Coisas que fazem mal ao coração. A inchação, tristeza, preocupações e qualquer causa que provoca a síncope. Excesso de estudo e muita meditação, coito frequente e tudo o que fizer mal ao baço faz mal ao coração. (...) E o que quer que faça a alma entristecer-se, porque o coração é o princípio da vida e o termo da morte.

Ana ria-se. E depois brincou: 'Há uma coisa que faz mal quer aos olhos, quer ao coração...'. Tomás riu-se também: 'Não acredite em tudo o que ouve e, de qualquer maneira, a ciência evoluíu muito desde que este tipo escreveu isto'. Ana concluíu: 'Seja como for, como vamos ficar em quartos separados, não corremos riscos...'. Tomás não se ficou: 'Não vejo o que é que uma coisa tem a ver com outra e, além disso, dois quartos com esta crise...?'. Ana virou a cara, espantada: 'Não lhe conhecia essa veia malandreca, Tomás...'.

Depois Ana pediu-lhe de novo que ele lhe falasse de si, que contasse a sua história. Tomás disse que o faria no dia seguinte e apenas se Ana fizesse o mesmo. Mas, entretanto, animados com a conversa, nem tinham dado pelos quilómetros a passar e estavam a chegar ao destino. Pararam e saíram do carro.

Ana, então, ficou sem palavras. Era uma beleza quase excessiva.


S. Leonardo da Galafura

Tomás passou o braço sobre os ombros de Ana e leu as palavras de Miguel Torga: 

'O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.'

E era assombro o que Ana sentia, as lágrimas quase a saírem do coração para lhe toldarem o olhar.


S. Leonardo da Galafura por Miguel Torga

Ana tinha chegado, pois, às terras detrás dos montes, às terras mágicas, imaginadas pelos poetas, desenhadas linha a linha pela inocência mais genuína dos homens de coração puro como Tomás.

Ana estava deslumbrada. Ao ver esta terra pelos olhos de Tomás descobria o mundo virginal de Miguel Torga. Uma beleza imaterial, longínqua e, no entanto, ali, envolvendo-a, uma beleza absoluta, uma imensidão de verde e azul. Um espaço limpo, de imensa pureza.


O Douro Vinhateiro, Trás os Montes, espaço de paz, de imensidão, de beleza e silêncio

Tomás tinha os olhos brilhantes e, através deles, via Ana também emocionada. Que força misteriosa vinha daquela terra que se desdobrava ali, a seus pés, em montes e montes e outros montes...! 


Quando o sol já se punha e os montes quase se douravam, um grande pássaro
saíu dos montes para voar, para reinar, silencioso e  sublime, sobre o Douro que se tinha posto prateado


Tomás puxou a mão de Ana, 'Olhe. Não são só as gaivotas que voam sobre os rios... Olhe este grande pássaro, repare nas grandes e fortes asas'. 'Que beleza, que beleza, meus Deus...', disse Ana num fio de voz. 'Que lindo que tudo isto é, Tomás, que lindo... '

Depois foram para o hotel, cada um para o seu quarto. Mas, passado um bocado, Ana foi bater-lhe à porta: 'Empresta-me aquele livro que vinha a ler, o dos cuidados médicos?'. Tomás apontou para a varanda, 'está ali, estava a lê-lo'.


'A caneta que escreve e a que prescreve - doença e medicina na Literatura Portuguesa',
organização de Clara Crabbé Rocha --- na varanda do quarto do hotel

Ana foi buscá-lo e disse, sorrindo com ar malicioso: 'Então, sendo assim, vou ler que é para ver se amanhã tenho os olhos e o coração em bom estado...'.


***

O trecho em itálico pertence ao livro acima referido e é da autoria de Pedro Hispano, c. 1210-1277.

***

E, por hoje, é isto. Tal como refiro na resposta aos comentários de ontem, li-os, claro que li!, com atenção e carinho mas, porque estou de férias e com um programa apertado e porque, como de costume passa das 2 da manhã e tenho que apagar a luz (... não, eu não estou num quarto sozinha...), não poderei responder individualmente, como gosto, a cada um dos comentários. As minhas desculpas.

E tenham, meus Caros, uma esplêndida sexta feira... porque eu, bem, eu não me posso queixar, não é? ... Por aqui ando, atrás da Ana e do Tomás, a segurar a vela e a servir de narradora o que, dado o local que eles escolheram, me deixa encantada.

Finalmente, aos meus Leitores que me fizeram ter esta enorme vontade de vir (re)descobrir esta terra de uma beleza indescritível, o meu muito, muito, sincero agradecimento.