Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Astor Piazzolla. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Astor Piazzolla. Mostrar todas as mensagens

sábado, dezembro 28, 2019

Relato do que foi o meu tão desejado dia de férias





Para que conste: ansiava por um dia de férias. Sozinha. Tinha uma em mente. E requeria horas seguidas por minha conta. Melhor se pudessem ser vários dias e não apenas um. Mas é o que é, um dia, e quando puder voltar a ser, será.

Senti-o levantar-se, tomar banho -- e pouco mais. Voltei a adormecer. Mas não acordei tarde. Sabia que o tempo ia ser curto para a aventura que, há tanto tempo, estava latente.

Por isso, nem me detive muito no pequeno almoço: uma banana, um dióspiro, três ou quatro amêndoas, um café.

E, depois, ala.


Comecei pelo meu quarto. Mais concretamente pela minha mesa de cabeceira. Poupei a gaveta de cima. Ficará para segundas núpcias. As três de baixo. Depois passei para a cómoda, mais concretamente para as duas gavetas de cima, as minhas. Dois gavetões.

Antes, fui à despensa buscar o rolo dos sacos grandes pretos, daqueles quase tipo contentor.

Não me pus com aquela de as coisas me fazerem feliz. Nada disso que não sou de filosofias quando o tema é arrumações: se estão em condições, se é provável que as volte a usar, então para um lado. Se já não me serve mas ainda está em bom estado e bonito e talvez as meninas grandes lhe venham a dar uso, para outro. E se algumas são tão pequenas e justas que talvez venham a servir, um dia destes, para a menina mais pequena, para outro. O resto, num saco para dar. O que não tem préstimo para ninguém: lixo.


Nisto uma coisa me deixou verdadeiramente espantada: como já fui tão magra. Olho para algumas peças e não percebo como foi possível lá ter cabido dentro. Mas no outro dia, ao ver fotografias de há uns anos, constatei como o meu corpo se modificou. Grande parte das pessoas acha que estou bem mas eu sei que devia ter menos uns três ou quatro quilos. A verdade é que, quando casei, vestia o 36, depois de os meus filhos nascerem passei para o 38, ali pelos quarenta e tal anos, em alguns modelos, já ia no 40 e, depois da menopausa, galgou para o 42 -- e já desisti, daqui não baixa. Se vou à nutricionista e corto drasticamente calorias e mudo completamente os meus hábitos, abdicando de muito do que gosto, volto ao 40. Mas como não nasci para sofrer e tenho muita dificuldade em abdicar do que gosto, passado algum tempo já regressei ao 42. Portanto, por muito lindos que sejam os meus vestidos, as minhas saiinhas bem justinhas, as minhas blusinhas bem cintadinhas, a verdade é que já não são para mim. Portanto, bye bye e coração ao largo.

Ao fim da tarde, já tinha também dado a volta ao roupeiro do closet. Aquele roupeiro é um quebra-cabeças. Quando a minha filha saíu, deixou imensa roupa, quase toda a que usava antes de começar a trabalhar. Não consegui desfazer-me da que estava em bom estado. Com o meu filho foi a mesma coisa: deixou praticamente cá tudo. E ainda tudo cá está. Depois a roupa que foi deixando de servir também ao meu marido e que estava boa, idem. Já teve muito mais peso. Quando os miúdos vêem fotografias dele com mais cabelo, o cabelo mais preto, e mais gordo desatam a rir-se, mostram uns aos outros, alta galhofa, quase sem acreditarem que aquele quase badocha é a mesma pessoa que o esbelto grisalho que tão bem conhecem. Portanto, fatos, casacos, blusões, sobretudos, parkas, etc, tudo impecável mas grande demais. Ou seja, este roupeiro que é grande, em vez de ter serventia, está transformado num depósito de peças de utilidade duvidosa.


Retirei peça por peça, vesti cada uma das minhas, avaliei o estado, avaliei a possível reutilização.

Custou-me bastante pôr de lado a roupa dele, casacos tão bons, coisas em tão bom estado, mal empregadas.  Mas não foi fazer uma dieta de engorda para dar uso àquilo, não é?

Fiquei surpreendida como blusas minhas que tinha posto de lado por terem enchumaços e por me terem ficado largas ou apertadas, nem sei, e que agora, vestindo-as, me parecem bem. Fui buscar a tesoura de costura e retirei-os. Voltei a vesti-las e foi como se me tivessem saído na rifa. 

No fim, havia um saco grande de coisas para o lixo onde se incluíam os enchumaços, cabides que se partiram ou que estavam meio mancos, roupa manchada pelos anos de prolongada quarentena e quatro sacos com roupa para dar. E um quinto com roupa que vou levar para o campo pois o nível de exigência lá é menor e roupa mais descontraída, solta, larga e confortável é sempre útil. 

Quando o meu marido chegou, encontrou-me nesta faena. Assustou-se com aquela sacaria (e ainda nem se apercebeu do saco para levar para o campo; mas os roupeiros lá também estão a precisar de levar uma volta). Olhou para o monte de roupa dele que estava para conferir e declarou logo: lixo! Mas eu disse-lhe que, se eu tinha tido paciência para estar há bem mais de oito horas de seguida a arrumar roupa, seria incompreensível que ele não tivesse paciência nem durante um quarto de hora. Lá se esforçou. Mas não há dúvida: jamais voltará àquele peso. Deve ter pesado uns noventa quilos. É alto mas, ainda assim, agora que deve andar pelos setenta e tal (acho eu: ou será oitenta? -- não faço ideia) é que está bem.


Depois tomei um belo banho, vesti-me e fomos passear para a praia. Estava precisada de respirar e de esticar as pernas. De caminho, já levámos dois sacões para o depósito das roupas. Amanhã levamos os outros.

Estava uma noite tranquila, o mar quase silencioso, distante, a maré vazia. E a noite estrelada. Foi bom andar a passear ao fresco. Depois fomos jantar. Já não era cedo.

Contudo, quando cheguei a casa ainda fui arrumar umas coisas. Lembrei-me que o roupeiro do quarto do meu filho ainda tinha muito espaço livre. Por isso, levei para lá parte da roupa que acho que pode vir a ser do agrado das meninas crescidas. Assim, conquistei espaço no outro roupeiro.

Falta-me agora a pièce de resistance: o roupeiro grande que mandei fazer no que era o quarto da minha filha e que se tansformou no meu boudoir, na minha arca dos mil tesouros, a gruta onde a princesinha mais linda gosta de se embrenhar para ir buscar coisas para se produzir.


Precisava de mais uns dias de férias assim, sozinha em casa, para poder completar a empreitada.

Ah, é verdade: para arrumar as gavetas adoptei o método da Maria Kondo. Dantes sobrepunha as peças. Agora não, agoro, dobro-as dobradinhas e ponho-as ao alto: cabe muito mais, está tudo à vista. Ficam umas gavetas mesmo bonitas, arrumadinhas de dar gosto. Uma belezura.

Finalmente: podem achar que não sou boa da cabeça -- e não vou ser eu que vou tentar convencer-vos do contrário até porque, cá para mim, são bem capazes de estar certos -- mas a verdade é que gosto de fazer este género de arrumações profundas, que implicam reorganizar os espaços. Mas, como no outro dia disse à Susana, a minha motivação para estas coisas vai apenas para roupas, sapatos ou livros (embora, no caso dos livros, não me desfaça de nenhum) mas não para peças de decoração. Não estou a ver-me a pegar nas minhas clepsidras ou caixinhas ou quadros ou molduras ou mesinhas de apoio e pô-las à venda no OLX. Mas nunca se sabe. Há pessoas que dizem que a prova de que, no passado, fizeram bem as coisas é que, se fosse hoje, voltariam a fazê-las da mesma maneira. Eu nunca disse tal coisa. Eu faria sempre as coisas de outra maneira, tentaria fazê-las melhor. Com o tempo vou aprendendo e mal fora que a aprendizagem não me servisse para nada. Portanto, com o crescente gosto que tenho pela simplicidade, quem sabe um dia não começo mesmo a seguir o exemplo da Susana?

Com isto tudo, já são três da manhã e nem vou ter tempo de responder ou agradecer os comentários (mas li-os!). Estou um bocado estafada pois passei horas a subir e a descer a mini-escada para tirar e pôr os cabides nos varões de cima, ou agachada ou de joelhos para arrumar as gavetas de baixo. E este sábado tenho que me levantar cedo pois outro dia de trabalho me espera. As minhas desculpas.


_______________________________


Ao som do Libertango de Astor Piazzolla dançado por dois homens, Sebastián e César, usei as fotografias do último post de Steve McCurry: Power of Gathering de onde extraio algumas assisadas citações:

This is the power of gathering: it inspires us, delightfully, to be more hopeful, more joyful, more thoughtful: in a word, more alive.

Alice Waters

The table is a meeting place, a gathering ground, the source of sustenance and nourishment, festivity, safety, and satisfaction. A person cooking is a person giving. Even the simplest food is a gift.

Laurie Colwin


NB: Obviamente as fotografias não têm a ver com o texto, estão aqui por elas próprias. 

______________________________________

E a todos desejo um belo sábado. 
Paz e amor. Saúde, sorte e dinheiro. E harmonia e beleza. Essas coisas, vocês sabem.

sexta-feira, junho 01, 2018

Já fiz 35 anos há algum tempo e ainda não consegui nada disto...


No outro dia li uma coisa que era o que todas as pessoas que já fizeram trinta e cinco anos já deveriam ter feito. Coisas como, por exemplo, ter arranjado uma cadeira ao lado da cama para pôr a roupa que se tem preguiça de guardar e que não está suficientemente suja para ser lavada. Cada um dizia sua coisa. Ter um armário só para tupperwares, era outra. Coisas assim.

Pus-me a pensar no que eu escreveria. O que quereria eu ter feito ou tido até aos trinta e cinco anos? Pensamento meio fútil ou meio palerma, esse. Porquê aos trinta e cinco? É metade da vida útil? Não creio. Ainda hoje de manhã estive com a minha mãe que, aos oitenta e cinco, está elegante, ágil, sempre activa, sempre bem disposta, sempre com planos. Por vezes, acho-a mais jovem agora do que a achava aos quarentas e tais.

Por isso, o que me ocorre é o que eu gostaria de ter feito em qualquer idade e que, a bem dizer, espero ainda vir a ver esse desejo realizado. Enumero algumas coisas.

1 -  Dançar o 'Por una cabeza' com um homem que saiba conduzir-me de modo a que eu me sinta a mais leve e desejada de todas as mulheres.

Nunca dancei um tango a preceito. Uma lástima: nenhum dos homens da minha vida gosta de dançar.
Escrevo no presente embora a certeza do que digo, na actualidade, só a possa ter em relação a um deles. Dos outros presumo que, com a idade, não tenham adquirido pé para a dança já que, quando com eles dancei, era slow, slowzinho bem gostoso, mas não passava daí.

2 - Ter uma casa com um grande sótão que, a toda a volta, tivesse estantes e tudo bem organizado, os livros todos bem à vista, os lidos de um lado, os não lidos de outro e sempre no lugar certo, os de poesia portuguesa, os de literatura francesa, os russos,os americanos, os brasileiros, as biografias, as autobiografias, os epistolares, os textos à solta, os indefinidos. Os de história, os geografia, os de fotografia, os de pintura, os de museus. Conversas com pintores, conversas com escritores. Assim mesmo, tudo com seu sítio bem definido. Um luxo. Adorava.


E ter uns cadeirões super confortáveis para eu estar lá a ler e haver um puff para pôr os pés, e um candeeirinho ao lado, e tudo muito confortável e claro e aconchegante.

E até podia ter uma caminha para eu me deitar a ler naquelas tardes em que gosto de deixar que o sono me tome nos seus braços.


Idealmente seria esse o lugar no qual me sentiria bem a escrever. Escrever. Escrever com muito prazer. Escrever como se não houvesse amanhã. E haver muita gente a gostar de ler o que eu escrevesse.

3 - Ter uma casa na árvore e nessa casa ter uma varanda com vista. E estar lá sentada a olhar o mundo, a meditar, a fotografar, a ler, a ouvir os pássaros, a ver o tempo quase parado, a não querer muito mais do que a paz daqueles momentos.



4 - Ter um super-mega closet. Poder ter um espaço à larga para a roupa. Poder tudo super-bem organizado. Blusas de verão, blusas de inverno. Por cores. Saias. Calças. Casaquinhos. Casacões. Echarpes. Tudo com espaço de sobra. Sapatos de verão, sapatos de inverno, ténis, tudo por cores. Carteiras por tamanhos, por cores.


5 - Ter um outro espaço. Se já ocupei o sótão com livros e um andar com o closet, se calhar agora teria que ser a cave. Um atelier de pintura. Com janelas por onde entrasse muita luz. Poder ter bancadas à larga para as tintas e pincéis. Poder ter paredes grandes para pendurar ou encostar as telas, ter espaço para cavaletes. Poder pôr linóleo no chão para não ter que ter cuidado para não sujar o chão.


6 -  Esforçar-me por ser capaz de seguir uma receita e aprender a fazer bolos. Bolos saudáveis, com pouco açúcar. E lindos. Ou como aqueles que mostrei há dias, da pasteleira russa Elena Gnut, ou como estes da Alana Jones-Mann de quem a minha filha me falou e que também os faz bem criativos. Gostava mesmo de ser capaz de surpreender e deliciar os meus cépticos descendentes e o meu marido sempre gozão.


7- Ser capaz de contar histórias que encantassem quem me ouvisse, histórias cheias de sonho e de mil vidas, cheias de mistério e múltiplos afectos, e ser capaz de moldar a voz, modular os tons, os silêncios, e todos os que me ouvissem presos ao desenrolar da história e eu emocionada, sem saber de onde vinham todos aqueles maravilhosos enredos, sem saber a origem da melodia secreta que envolvia palavras e palavras e palavras, eu porta-voz de uma história mais verdadeira do que a vida dos que ali estivessem. Gostava mesmo.

..........................................................

Enfim. Tanta coisa. 
Na volta, devo é começar a jogar com mais afinco no euromilhões para ter dinheiro e tempo para ter e fazer tudo isto.

....................................................................................

quinta-feira, maio 11, 2017

Falar com eles...?
Não sei, não. Só se for com alguém que encaixe nos meus requisitos.





Gosto de ler sobre o processo de criação. Ler ou ouvir. Sejam escritores, pintores, escultores. Se calhar tabém músicos mas, não sei porquê, sobre música não me desperta tanto interesse.

Gosto de ler diários de escritores. Claro que não de quaisquer escritores. Nunca me passaria pela cabeça ler um diário do Valter Hugo Mãe, do Gonçalo M. Tavares, ou de grande parte das pessoas que podemos ver na Feira do Livro (é verdade... deve estar quase a abrir, não...?). Sou tão exigente no gostar de outras pessoas. Sendo eu pessoa em quem os outros vêem alguma simpatia, a verdade é que tenho alguma impaciência para com um grande número de pessoas. Pessoas agressivas: zero, não tolero. Pessoas secas, desinteressadas, inertes, indiferentes perante tudo: zero, não tolero. Pessoas que acham que sabem tudo e que, na prática, por serem pouco inteligentes, não sabem disfarçar a sapiência e, pior, maltratam aqueles que acham cultural ou intelectualmente inferiores: zero, não tolero. Pessoas que monopolizam qualquer conversa, egocêntricos e narcísicos: zero, não tolero. Pessoas que só vêem o lado mau da vida, que não acreditam em nada nem em ninguém, que acham que não vale a pena empenharem-se em nada, pessoas geralmente corrosivas: zero, não tolero. E etc.


Portanto, se eu pensar que gostava de conversar com um escritor que admire, logo dou um passo mental atrás pois quem me garantiria que, sendo bom de escrita, não seria um desastre no convívio?

Não há muitos escritores portugueses que ainda escrevam que eu admire. Se, em relação a essa minoria, imaginar como serão como pessoas, tenho que confessar que a lista fica tão exígua que eu agora só me lembro de uma pessoa, da Hélia Correia. Penso que poderia estar um dia inteiro a lidar com ela, na cozinha, no quintal, talvez à janela. Mas não me lembro de outro, imagine-se. Mas admito que é o de sempre: quando é fazer listas, tenho uma branca.


Aliás, agora ocorre-me que também gostaria de conversar com Pedro Támen. Gosto muito da poesia dele e das suas traduções, duas artes especiais. Acho que deve ser agradável falar com ele, tem ar de ser pessoa interessante. 

Um com quem eu teria adorado conversar era o Cesariny. Ou a Agustina. De resto... Tenho que dar uma volta pelas estantes e montes aqui da sala a ver se não haverá mais alguém. Ah, talvez o Mia Couto. Tem ar de ser silencioso e de falar das terras por onde anda com o olhar perdido nesses horizontes.

Bem, se continuar por aqui com esta conversa, talvez me vá lembrando de um ou outro.

De qualquer forma, nunca vou a Encontros de Escritores ou sequer me abeiro deles nas Feiras do Livro. Ali é tudo circunstancial, desligado da alma, toca e foge, um smile e já chega. Nem pensar. Uma conversa com alguém interessante (mesmo que não seja artista de nenhuma arte) tem que ser conversa com vagar.


Talvez para colmatar esse meu gosto que não consigo consumar, volta e meia ponho-me a ver videos com entrevistas. Deixem que partilhe convosco (enquanto na televisão dá o futebol e reparo que o Cristiano Ronaldo está ruivo e com a pele cor de laranja).

Ian McEwan fala do seu processo de escrita




Philip Roth fala de como é escrever sobre sexo



Já agora, a Hélia Correia a falar do livro da sua vida



________

Entretanto já fui ali jantar. Tinha deixado o jantarinho a preparar-se e estava saboroso. Assei um lombo de peixe sobre cama de maçã aos gomos e, por cima, coloquei-lhe tomate maduro às rodelas largas. Um pouco de sal, orégãos, alecrim e azeite. Antes forno aquecido ao máximo. Quando o tabuleiro entrou, baixei para 150º e deve ter estado para aí 1 hora. Acompanhei com feijão-verde e brócolos cozidos e, para sobremesa, frutos vermelhos (framboesa. mirtilos).

___________________________________

Apeteceu-me ter um vídeo dançante: um tango de Piazzolla Tango - Oblivion

As fotografias são selfies de Flora Borsi combinadas com fotografias de animais

_______________________

E um dia feliz a quem por aqui passa.
______

sábado, fevereiro 08, 2014

Aos abrigos! A Lovely Lídia está de regresso ao Um Jeito Manso. Vem de peito feito, destemida como sempre. Cuidado com ela, que é rápida no gatilho e não falha uma. Mas hoje, para começar, ela vai dançar o Oblivion de Piazzola. É que a Lovely Lídia é também exímia no tango. Claro.


Este é o meu 4º post desta noite. 

  • Já a seguir tenho um vídeo com os piores momentos de Portugal. Ainda lá faltam alguns pois tesourinhos deprimentes é o que não tem faltado nestes últimos quase três anos. Mas, enfim, o filme tem apenas cerca de 1 minuto e não cabia lá tudo.
  • Depois, a seguir, tenho mais uma fantástica intervenção de Mário Crespo, desta vez secundado pelo Prof. Valadares Tavares. Eu acho que o espírito de La Pasionaria baixou no corpo do Crespo. Só pode. Mas é bom de ver. 
  • Depois, mais abaixo ainda, tenho a fantástica entrevista que Liem Hoang Ngoc, o deputado europeu francês que está a investigar a actuação da troika nos países entroikados, concedeu ao Público.

Mas isso tudo é a seguir.

*


Aqui, agora, tenho mais uma vez Lídia Drummond, a Leitora que nos comentários aparece como Lídia Santos Almeida Sousa.


Se nos mails me aparece com a imagem da sedutora Blondie, as suas palavras são as de uma guerrilheira.

E é para essa suas desbragadas palavras que hoje, de novo, abro alas - para as palavras e para a sua artística montagem.




Mas antes, para lhe fazer a vontade, que entre Piazzola e o seu Oblivion. 



Lídia, imagine que aquele a quem anda a desafiar corresponde ao seu pedido.

Pode começar a dançar.


É hora de tango.








*
E, agora, que comece o tiroteio
(tiroteio verbal, é claro, que por aqui é tudo gente de paz)

*

PARA O SENHOR PRESIDENTE MANUEL VIOLAS



Que sorte, viu-se livre do "CAGA-MILHÕES", o Pires de Lima, que tal como o Cómico Cantinflas, fala, fala, fala mas não faz nada. 



Ele o seu amiguinho Portas já correram com o Santos Pereira e sua equipe que deixou pronto o pouco trabalho que o Lima faz. Além dos road shows, nunca dali sai nada.


Agora vão correr com o badocha Pedro Reis da AICEP pois não está lá a fazer nada. O Paulo e o Lima abicham tudo. O Paulo demitiu-se irrevogavelmente, para obrigar o Alforreca a contratar o Lima e ele ficar como Vice 1º Ministro, como exigiu o verdadeiro mandante de Portugal, o merceeiro-mor Soares dos Santos. E a exigir morar e trabalhar no Palácio Conde de Farrobo, perto do Zoo onde estão os seus parentes mais chegados, as hienas e os répteis rastejantes.  


Quem acode a este pobre País? Terão de ser os homem de bem. Quem me dera que seu Ilustre Avô fosse vivos.

Já não há Capitães da Indústria.



Cumprimentos.

*

Para Pires de Lima


Desculpe a expressão mas ontem fez-me lembrar um velho Provinciano que embirrava com um emigrante novo rico que só falava em milhões e passou a ser conhecido pelo "CAGA MILHÕES": ele são 500 milhões para aqui e para acoli, que depois de espremido não dá nada.

Lembra-se do seu Pai, pessoa horribilis, referindo-se ao Sócrates? Chamou-lhe "ladrão de feira". Pode dizer-lhe que eu mando dizer que o filho dele está incluído num bando de "ladrões de feira", mentirosos como ontem a Ministra da Justiça, que mentiu ao dizer que o fecho dos Tribunais estava incluído no memorandum, que ela repetia até  à exaustão que foi assinado pelo PS quando foi negociado, pelo Teixeira dos Santos, pelo Catroga e com a conivência do PR e assinado pelo PS, PSD e CDS.


À noite, um horrível Velosa, em discussão com o Lacão acabou por confessar que esse acordo foi feito pelo PSD/CDS  numa das alterações ao Memorandum, sem o apoio do PS.


Diga à Ministra que os mentirosos/aldrabões não olham aos detalhes e ela se fosse boa advogada, sabia isso, mas como o seu negócio são os Pareceres, está desactualizada. É muito mal educada e berra como uma peixeira do Bolhão. Nesse aspecto o Senhor e o Ministro da Saúde são bem educados, nem sequer sai ao seu Pai.



*

Para a Procuradoria Geral da República


MP INVESTIGA FAVORES DE RELVAS A PASSOS 





Este assunto tem uma testemunha silenciada que foi despedida do Gabinete do 1º Ministro, quando o escândalo rebentou por iniciativa do José António Cerejo. 


Chama-se Maria Helena Belmar Costa, foi durante 30 anos funcionária do PSD e secretária do Relvas no Governo de Durão quando este caso ocorreu. 


Foi expulsa do Governo de Passos quando era sua secretária pessoal. 

Encontra.se a trabalhar na REN, mas ninguém melhor do que ela para saber esta enorme vigarice dos fundos estruturais para formar técnicos para Aeródromos não existentes, havia para aí três.


Espero que o processo avance para que o bom nome do MP e da Procuradoria se afirme pois nenhum processo do PSD avança.






***   ***   ***

NB: Quaisquer elogios, protestos, desafios para duelos ou convites para tangos devem ser dirigidos à perigosa Lovely Lídia já que os fantásticos textos são de sua autoria.


***   ***   ***

Relembro: se quiserem seguir para bingo, é irem descendo por aí abaixo. Isto hoje foi dia de festa, uma farturinha que só vista, quatro posts, quatro.

***   ***   ***

E pronto, por agora é isto. Este fim de semana parece que vai estar um tempinho de susto pelo que ainda nem sei bem qual vai ser o meu programa de festas. Amanhã será, como geralmente, dia de família, ascendentes e descendentes, mas ainda não sei bem como nem onde e, no domingo, a ver o que o tempo nos deixa fazer. Seja como for, será bom até, porque, por definição, para mim fim de semana é sinónimo de coisa boa.

E eu a vocês, meus Caros Leitores, desejo-vos também um fim de semana bom, bom, bom. 
Sintam-se felizes, está bem?


segunda-feira, julho 02, 2012

Cartas de amor entre o Nininho e a Bebé, o Íbis e a Íbis, o Pretinho e a Bebé-anjinho (e outros que tais). Todas as cartas de amor são ridículas...? Claro, mas apenas para aqueles a quem não se destinam. Resumindo: (três) Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz


Música, por favor

Astor Piazzolla - Milonga del Angel




Correspondência, listas, fragmentos  - Casa Fernando Pessoa

*



Bom dia Bebé: gosta de mim exactamente? Não venho do Abel, mas devia ter vindo; e, em todo o caso, o Bebé também tem influência no estilo do Abel. Tem influências à distância, mas ao colo (situação muito natural nos bebés) ainda tem mais. E o Abel tem aguardente doce, mas a boca do Bebé é doce e talvez um pouco ardente, mas assim está bem. Gosta de mim. Porquê? Sim?

Estou doido, e não posso escrever uma carta: sei apenas escrever asneiras. Se me pudesse dar um beijo, dava? Então porque não dá? Má.

A verdade é que o dia de hoje se embrulhou de tal maneira, que mal tenho tempo de lhe escrever mal este pouco tempo. Vespa.

Tenho que ir a fugir para casa para jantar cerca das 8 e ir depois a casa daquele meu amigo onde costumo jantar aos sábados. Hoje, é ir lá um pouco à noite, depois do jantar. Fera.

E acabei, e pronto. Dá-me a boquinha para comer?

Íbis
(nome de uma ave do Egipto, que é essa mesma)

2-10-1929


Ofélia Queiroz, namorada de Fernando Pessoa
entre 1 de Maio e 29 de Novembro de 1920  e entre  11 de Setembro de 1929  a  11 de Janeiro de 1930



Fernandinho meu, e hoje muito bonito

Venho escrever-lhe, e por acaso à hora que me costuma telefonar (8h) porque como talvez saia com a minha irmã, depois do jantar, ficaria amanhã sem carta minha, se o não fizesse agora.

O meu amor, dispôs-me lindamente para todo o dia com a sua carta, e para completar, telefonou-me duas vezes, que me deixou ficar radiante.

Então o meu queridinho estava triste, estava? tinha razão, fechado numa gaveta, coitadinho!... Quem foi o patife que lá o meteu? Deve ter sido o Sr. Engenheiro, com certeza. Quantos socos já terá apanhado a esta hora? Quem me dera ser 'Mimi'... Dava-lhe muitos socos, mas por cada soco cinquenta jinhos... Quia? Dos tais, como o líquido que há no Abel. Depois do meu amor ter essa bebida à sua disposição já não vai mais ao Abel, pois não?

Vieram agora mesmo chamar-me para jantar, até já, é servido? Quem me dera tê-lo ao meu lado a jantar! Eu servia-o, queria?

Pronto, já papei, e papei bem porque estou contente, o meu amor com certeza tamem já papou. Quando papa comigo? Isto já parece qualquer coisa que que eu li há tempo, creio que do Santa Rita; o Preto papão que papava a papinha, qualquer coisa neste género que achei graça. (Ou o Papim, qualquer coisa que me não lembra agora).

Fica para sábado o nosso encontro, conforme combinámos pelo telefone, às 5 1/4, se convier ao meu Fernandinho, sim? Se puder, telefona-me?

Então o meu feio pergunta-me na sua carta se gosto de si exactamente? Gosto exactamente, gosto exactamente muito; gosto exactamente muitíssimo! O Fernadinho gosta de mim exactamente menos. Chama-me feia, vespa e muitas coisas feias, já vê que não gosta tanto de mim, que só chamos coisas menitas.

O Fernandinho ainda se lembra como eu sou, como é a minha cara? Há tantos dias que me não vê...

Tá melhorzinho da doidice?! Mas eu gostava de tê-o assim doido, como o indica a sua cartinha de hoje, e prezo-me de não ter nada mau gosto, porque eu sou uma rapariga de bom gosto.

Adeus querido amor, bonequinho meu, para eu brincar visto ser bebé. Até sábado, Tiozinho!

Uma noite muito feliz lhe deseja a muito sua

Íbis


3-10-1929

Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888 e 30 de Novembro de 1935)



Terrível Bebé;

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim

Fernando  

9-10-1929

(Nota: Existe, de permeio, uma outra carta de Ophélia datada de 5 de Novembro. Por razões de espaço, não a coloco aqui)

***


As três cartas aqui divulgadas constam do livro
Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz
da Assírio e Alvim, edição de Manuela Parreira da Silva.
 


***

Se não for abusar da vossa boa vontade, gostaria de vos convidar ainda a visitar o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as palavras vêm num veleiro para se juntarem aos guerreiros que sobem à cidade para defender a palavra com Manuel Alegre ao leme. E, não é pela vitória de Espanha no Euro 2012 mas até era bonito que fosse, a música desta semana está a cargo de Manuel de Falla. Há castanholas (a sério) lá para os meus outros lados!

***

Mais uma voltinha, mais uma viagem, mais uma semana. 
E que seja feliz, a começar já por esta segunda feira. 
Divirtam-se, está bem?

domingo, julho 01, 2012

O homem do mato (... e as crónicas de Pedro Mexia no Expresso)


Música, por favor


Astor Piazzolla - Los pájaros perdidos



Quando eu era pequena, talvez até aos 4 ou 5 anos, a casa em que vivíamos pertencia a um conjunto de moradias que, nessa altura, estavam ainda relativamente isoladas no que, na altura, era ainda quase campo. Pouco a seguir, separado por uma estrada, era mato alto e árvores, uma zona muito extensa para que não se ia. A ideia que tenho, a esta distância, é que era uma floresta sem fim.

Por essa altura, era costume os miúdos da vizinhança juntarem-se todos a brincar à porta de casa. Contudo, a minha mãe sempre me avisava que não podíamos ir para longe de casa, muito menos para a tal estrada. O limite admissível era uma loja ‘multi-usos’ que havia no fim da rua, misto de mercearia, drogaria e creio que até posto de correio. No entanto, a grande tentação era um pinheiro enorme que havia logo a seguir debaixo do qual apanhávamos pinhões que depois comíamos, partindo-os com uma pedra sobre outra e, tentação ainda maior, um socalco de onde se via a estrada até ao longe e onde passava um pequeno ribeiro de água cristalina que vinha, por um aqueduto que passava por debaixo da estrada, do bosque do outro lado.




A minha mãe zangava-se muito a sério se sabia que eu, apesar de todos os avisos, me aventurava mais do que me era permitido. E assustava-me com ’o homem do mato’.

Eu, no meu íntimo, pressentia que aquilo era uma manobra de intimidação e questionava-a muito, querendo descobrir uma contradição: ‘Quem é o homem do mato? Onde vive? Que mal é que ele faz?’, etc, etc.

E as respostas eram sempre as mesmas: é um homem que vive lá para dentro do mato, no sítio onde há mais árvores, ninguém sabe exactamente onde, ninguém sabe quem ele é, dizem que teve um desgosto mas ninguém sabe ao certo, ninguém sabe de onde veio, ninguém sabe de que é que ele vive. E acrescentava sempre, ameaçadora: ‘Dizem que, quando aparece, tem um saco e dizem que ele costuma meter lá os meninos que apanha’. Eu ficava assustada mas apenas ligeiramente pois, apesar de ser muito pequena, sabia que aquilo era totalmente improvável.




Quando falava nisso aos meus amigos, eles confidenciavam que os pais também diziam o mesmo; mas também não acreditavam e, sabendo-nos consensualmente descrentes da veracidade da história, desvalorizávamo-la.

E, por isso, sempre que nos juntávamos, as nossas brincadeiras levavam-nos inevitavelmente para a zona proibida.

No entanto, um dia o improvável aconteceu.




Estando nas nossas inocentes brincadeiras, apareceu junto a nós um homem alto, de cabelo pouco cuidado, pelos ombros, barbas igualmente desarranjadas, mal vestido, todo ele mal composto, alguém como nós nunca tínhamos visto. E trazia um saco na mão. Não sei como ficaram os meus amigos mas eu, até hoje, lembro-me de como fiquei transida, imobilizada, gelada. Se o homem tivesse pegado em mim e me tivesse levado dentro do saco, eu não teria soltado um ai. Lembro-me, no entanto, que o homem sorriu, compassivo, olhou para nós e seguiu. Lembro-me que, mal ele se afastou, corremos a esconder-nos e assim ficámos por um bom bocado, à espreita, em silêncio. Passado um bocado, corremos esbaforidos, cada um para sua casa.

Lembro-me que só à noite ganhei coragem para contar o sucedido à minha mãe. Estava cheia de medo com o que se tinha passado e, também, porque já sabia que a minha mãe se ia zangar a sério. E assim foi.

A minha mãe já sabia. Já tinha corrido a notícia que o homem do mato tinha ido à loja. Contou que não era a primeira vez, de quando em vez, muito espaçadamente, isso acontecia. Saía do mato, ia até lá, e de saco abastecido (lembro-me de ouvir falar em fósforos, sabão, velas, mas provavelmente também comida mas disso não me lembro) voltava a entrar no mato. Ninguém sabia para onde, nem até quando, ninguém sabia de nada.

A minha mãe acrescentou ‘Mas eu não estava farta de avisar para teres cuidado? Sabe-se lá quem é ele, se é bom, se é mau.’





Mas eu lembro-me bem do seu sorriso e, a partir daí, pensei sempre nele como um bom homem. E, de vez em quando ainda me lembro do fascínio que essa figura passou a despertar em mim, alguém que vivia no silêncio do mato, livre, fora do tempo.

*

(Lembrei-me deste episódio verídico da minha infância porque há pouco, ao ler a crónica do Pedro Mexia no caderno Actual do Expresso e pensando que parece que as crónicas dele andam a perder o viço - sinto que há ali qualquer coisa de forçado, de arrastado (... ou será fadiga minha?) - me recordei de uma que ele, talvez há um ano, lá escreveu, numa altura em que o que escrevia me despertava atenção e me levava a ler com gosto até ao fim. Salvo erro, chamava-se qualquer coisa como ‘O caminho da floresta’, lembro-me que achei piada, estava bem escrita. E falava destas pessoas que, um dia, entram na floresta para não mais regressarem).

*

E, com isto, já estamos em Julho. Passa depressa o tempo. 

Seize the day. Carpe Diem. 

E tenham, meus Caros, um belo domingo!