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domingo, janeiro 23, 2022

Que dizer deste sábado?

 


Há pouco, depois de jantarmos, ao sentar-me aqui, adormeci. E não estou a conseguir pôr a máquina em funcionamento. Um sono... Vou tentar mas não sei se isto vai dar a algum sítio.

Let's go. Let's see. Se não for dar a lado nenhum, por favor, relevem.

De manhã fomos buscar a minha mãe e fomos passear com ela à beira mar. Ali o piso é plano, o pavimento bom -- e isso é fundamental pois tem andado com uma dorzinha numa perna --, há sol, bom ar, boas vistas, gente com ar despreocupado, crianças a brincar. Sabe bem andar ali. 

[Isto não está fácil... Debato-me... Ao fim de semana o meu corpo pede algum descanso mas hoje não havia margem para me levantar mais tarde. Por isso, acordei com despertador e vi logo que ia passar o dia a sentir que precisava de descansar. E eu, certamente padecente de alguma debilidade mental, em vez de ir dormir, estou nisto...]

O little teddy bear fica numa alegria com a minha mãe, tal como ela o fica com ele. Amor mútuo. Tirei-lhes fotografias à beira-mar. Já lhe mandei. Agora que tem o tablet e que se habituou a receber mails, já é outra coisa. 

Enquanto passeávamos, contou-me que não tem paciência para ver debates ou o que quer que seja relacionado com a campanha. Diz que não consegue ver 'aquela gente' que, em vez de se mostrar agradecida com a forma como este governo tem conseguido gerido o país debaixo desta pandemia, nem falam nisso e só sabem é dizer mal. 'Como se eles alguma vez fossem capazes de fazer a mesma coisa...' e acrescenta com ar de desprezo: 'Estúpidos...'. Dou-lhe razão.

Depois fomos ao supermercado. Fui sozinha pois o meu marido ficou a passear no parque de estacionamento com o cabeludo que, segundo ele, ficou muito intrigado ao ver-me ir sozinha lá para dentro.

No outro dia, uma das pessoas mais entendidas nesta raça, alertou: 'Têm que ter mão nele pois é um cão áspero'. A conversa era com o meu marido e ele pediu que ela explicasse. Que é teimoso, possessivo, territorial, que quer ser o pastor, o macho alfa da matilha. Se não lhe mostrarmos que somos nós que mandamos iremos ter problemas. De facto, é isso tudo. 

Mas converso com ele e ele entende-me. No outro dia, ao caminharmos, ia só a querer arrancar a luva que o meu marido levava calçada. Punha-se de pé, dava saltos, apanhava-lhe a luva. O meu marido já estava passado com aquele desassossego. Quanto mais se zangava, mais ele o desafiava. Ia com trela curta mas tentava morder a trela. Um desacato. Eu parei e disse-lhe muito calmamente: 'Queres ir-te embora? Se não te portas bem, vais para casa. Porta-te bem. Vai no chão'. Ouviu-me atentamente, sacudiu a cabeça e, a partir daí, foi a andar tranquilamente. 

Se subo até ao piso de cima ele vem comigo e fica a ver o que vou fazer. Eu digo-lhe o que vou fazer e digo para ele esperar um bocadinho. Ele senta-se e fica à espera. Quando me despacho, digo-lhe: Vá, já está, vamos embora' e ele vem comigo para baixo. Quando apanha alguma porcaria na rua e não a quer largar, antes tentávamos e ele rosnava. Agora dizemos: 'Queres um biscoitinho?'. e ele imediatamente larga o que tem na boca. O pior mesmo é quando ao fim do dia tem um pico de energia que custa conter. Quer brincar, mordisca-me o braço para eu brincar com ele, quer saltar para o sofá para tentar arrancar-me o travessão que tenho a prender o cabelo, poe a patorra peluda no computador. É uma luta. Tenho que ter uma boa dose de biscoitinhos. Digo: 'Senta' e mostro um biscoitinho. Recua, senta-se e fica à espera. Segundos depois volta a fazer o mesmo. E eu faço o mesmo. Ao fim de umas quantas vezes já nem digo nada que ele se senta quieto só de imaginar que o vou mandar sentar.

Depois de almoço, já era tarde, comecei a cozinhar. 

Enquanto as carnes cozinhavam, fui para o jardim, para um recanto em que dá o sol. Levei o livro. O bicho foi comigo. Começou por querer festa mas eu estava a querer estar sossegada. Lá percebeu e deitou-se a roer uma pinha aos meus pés. Adoro estar assim, sentada ao sol, a ler, o meu amigo ao meu lado. Vou lendo devagar, parando em frases que me deixam encantada. Continuo a maravilhar-me com a harmonia e inteligência de algumas combinações de palavras. Vou dobrando as pontinhas das folhas que contêm qualquer coisa especial. Mas são tantas. A ver se um dia tenho energia para aqui partilhar algumas convosco.

O meu marido aproveitou para se deitar no sofá a ver qualquer coisa. Ou seja, a dormir.

A seguir fui terminar o cozinhado, levar o tabuleiro ao forno, arranjar as coisas, lavar a louça, arrumar a cozinha.

Depois, vesti-me para sair. Com o forno desligado, fomos fazer uma brevíssima, ultra-brevíssima caminhada, e regressámos.

E saímos. Já passava das sete e era de noite. Um friozinho muito cortante. À noite a temperatura cai. A casa arrefece durante a noite. Acho que a caldeira deve ficar ligada durante a noite. O meu marido não concorda. Não gosta de ir dormir e deixá-la a funcionar. 

Quanto à maltinha... nada de original. Estão todos confinados, nas respectivas casas. A Omicron está a varrer as salas de aula a uma velocidade estonteante.

Este sábado fomos a casa da minha filha. Um dos meninos está positivo. 

Este domingo iremos fazer a mesma coisa em relação ao meu filho. Um dos meninos também está positivo.

Não entramos. Eles do lado de dentro, de máscara, nós do lado de fora, de máscara. Só deixarmos umas coisas, vermo-nos. O dog doido, a puxar, quase a estrangular-se de tanto puxar. Gosta tanto deles e não o deixamos ir para a farrinha do costume. Percebo-o. Também me apetece abraçá-los, dar-lhes beijinhos. 

Estão bem. Um deles esteve como se estivesse com gripe mas já passou. O outro, nada. Os irmãos e pais parece que nada. A ver o que dão os testes. Mas felizmente, até ver (e, noc-noc-noc, já bati três vezes na madeira) estão bem. 

Mas, já agora, contenho-me. Aliás, o meu marido obriga-me a conter-me. Não apenas puxa pela trela do urso felpudo como pela minha.

Depois regressámos. 

Mais algumas coisas para fazer. Acabámos de jantar por volta das dez. 

E, ao aterrar aqui, como já o disse, adormeci profundamente. De vez em quando, a minha cabeça põe o interruptor para baixo. Off.

Acordei com frio e sem conseguir pôr os neurónios a laborar. 

Tinha fotografias do passeio de domingo passado e do campo na quinta-feira mas não consigo energia para as passar para o computador. Por isso, preguiçosamente, vou usar fotografias aqui do jardim, já feitas no outro dia.

E, como é bom de ver, não vi televisão nem faço ideia se o Rendeiro ainda está com febre, se o Rio já não está a deitar sangue pelo nariz ou se as sonsas do Bloco e os marafados do PCP continuam focados em dizer mal do PS, fazendo tudo para abrirem a porta à direita. Por isso,  sobre essas matérias, nada poderei dizer. 


O que posso dizer é que estamos já com um pé na primavera. Aliás, mais do que isso: a minha cabeça também já está na primavera. E á só me apetece é dias a ficarem grandes, sol a ficar quente e, tomara, daqui a nada o jardim e a casa a ficarem cheios de crianças, de risos e com todos à volta da mesma mesa. Só não sei é se isso será na primavera ou só no verão. Mas qualquer dia estamos lá. Na boa.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, julho 06, 2021

Compasso de espera

 

De vez em quando esqueço-me da máscara e, ao lembrar-me, tenho vontade de dizer 'que se lixe' mas, felizmente, acordo para a realidade. Os meus filhos ainda não foram vacinados e os meus netos obviamente também não. 

A minha filha esteve cá com os meninos. Eles estão de férias e férias num apartamento não é coisa fácil, em especial quando a mãe está a trabalhar. Aqui estão à larga, podem brincar à vontade. Crescidos, divertidos, sempre com a resposta pronta.

Se estão a jogar à bola, estão sem máscara e, se eu estou ao telefone com alguém, também sem máscara, como gosto de cirandar na rua enquanto telefono, acontece-me quase me cruzar com eles. Ou, então, de vez em quando, calha pegar no computador e ir para a mesa em que a minha filha está... e estarmos ambas sem máscara. Felizmente, o meu marido -- que tem baixíssima confiança em mim e faz por me vigiar de perto -- aparece a perguntar: 'E a máscara? Já sabia...'. É certo que é ao ar livre mas nunca fiando. Ao que parece, a delta é do mais tinhoso que existe.

A máscara seca-me a boca e o nariz, às vezes quase parece que me falta o fôlego. Quando fazemos as nossas caminhadas, andamos por lugares onde praticamente não nos cruzamos com ninguém. Por isso, posso andar sem máscara. Caminhar de máscara é muito mau. Acho que me desmotivaria, se tivesse que fazer caminhadas com a boca seca, quase a arfar.

Li que Israel está a reconhecer a menor eficácia da Pfizer perante esta bicha indiana. Atenua a gravidade da doença mas não é lá muito famosa a prevenir a transmissão. Que dizer, então, da porcaria da vacina (como a minha mãe se lhe refere) que me espetaram no braço e que agora, afinal, parece que... está bem, está.

O mundo mudou completamente: há uns tempos, tempos até não muito longínquos, haveríamos de ter informação disponível para podermos optar. Agora isso é que era doce. Quando a seringa estava a milímetros da minha pele, soube, porque perguntei, qual era. A minha vontade foi dizer ao rapaz que fosse mas é dar banho ao cão. Mas naquela altura acho que nem se falava na delta nem se sabia tanto quanto hoje se sabe. E todos os dias se vai sabendo um pouco mais. Ou melhor, constatando que se sabe menos do que se pensava. 

Se eu tivesse a certeza que o que tive foi consequência da vacina, informaria o Infarmed e informar-vos-ia. Ou se tivesse a certeza que não foi, também diria: o que me espetaram no braço foi a vacina X mas está provado que o que me aconteceu não teve nada a ver.

Como não sei, não digo.

Ligou-me hoje um conhecido de longa data. Já teve, ao longo da sua vida,  uma bela dose de sustos de saúde. Disse-me que até não há muito tempo se achava saudável, invencível. Quando começou a perceber que os outros o olhavam como uma pessoa doente, percebeu que, se calhar, não era tão indestrutível quanto pensava. 

Dizia-me ele, no fim, a modos que para me consolar: Tirando o que lhe aconteceu que, ao que parece, poderia ter sido muito grave e que deve ter sido um susto dos valentes, nada do que me diz me parece especialmente grave. Se calhar é coisa... como dizer... coisa da idade...

Desatei-me a rir. Na volta...

Também me parecia que a idade passava ligeirinha sobre mim, sem me pesar. Quando era nova, achava graça quando ouvia as outras pessoas, mais velhas, gozarem com a PDI. A PDI era uma sigla que apenas se aplicava a quem estava bem longe de mim. E agora já cá estou, onde os outros estavam.

Enfim. Não tenho feito outra coisa senão andar para aqui nas lamúrias. Imagino a seca que é lerem este desfiar de coisas nenhumas. Mas a verdade é que, por muito que não queira, é um tema agora tão presente na minha vida que me é difícil ignorá-lo.

Mil vezes preferia falar de flores, das ameixas que vão caindo ainda verdes e que, quando estiverem maduras, devem estar comidas pelos pássaros.

Ontem vi um pêssego meio roído no chão: parecia que tinha sido roído por um ser humano. Mas capaz de ter sido um coelho... ou a raposa.

Ainda não foi hoje que vimos a Netflix. O meu marido tem andado cheio de dores no corpo. Não sabe o que é. Acorda de madrugada sem posição. Hoje lembrou-se: será que é da vacina? Tomou a segunda dose a semana passada.

Como dorme mal e pouco, mal se deita aqui no sofá, adormece. Depois lá vai, meio derreado, para a cama.

Olhamos um para o outro a rir e dizemos: estamos acabados. E, agora que estou a escrever isto, também estou a rir-me: estávamos bem e, de repente, virámos dois jarretas, com maleitas inexplicáveis, derreados... acabados... 

E pronto, não digo mais nada. E devia era prometer que aqui não voltava enquanto não tivesse alguma coisa de jeito a dizer. Mas, como não sou boa de promessas, mais vale ficar calada.

E, meanwhile, enquanto este enervante compasso de espera -- em que um merdinhas de nada fez o mundo baquear e andar aos pinotes, em marcha atrás -- não passar, vou-me entretendo por aqui. Por exemplo, vou pondo uma musiquinha à maneira e imaginar que um dia poderei organizar aqui no jardim uma cena assim, tudo a cantar e a dançar, sem máscaras, sem doenças, sem dores, sem preocupações. 

O que eu tenho vontade disso, caraças.

Hauser - Waka Waka

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As pinturas são, respectivamente: Cymon and Iphigenia - Frederic Leighton, Ida Rubenstein -Valentin Serov, Portrait of Jeanne Hébuterne - Amedeo Modigliani, No. 22 - Special - Georgia O'Keeffe, Unknown title - Amadeo de Souza Cardosoc. 

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Desejo-vos um dia feliz
E, se não puder ser tão feliz assim, respirem fundo, olhem pela janela, fechem os olhos, imaginem os dias melhores que estão por vir.

quinta-feira, julho 01, 2021

A imparável valsa

 


Ontem, depois de ter publicado o post da noite, fui espreitar. E fui apenas porque sim. Porque sim, aliás, não. Estava na data limite e já estava intrigada por ainda não o ter. Mas tinha: já lá estava o relatório do último exame. Li em diagonal e, na minha ignorância, percebi que o cenário não era negro. Uma ou outra coisa confirmada e outra coisa que requeria google. Googlei e fiquei sem perceber bem. Entretanto, os médicos próximos já me descansaram e esta quinta-feira, com todos os exames feitos, vou à consulta da especialidade. Espero que a conclusão seja tão leve quanto o desejo. 

Há bocado, ao falar com o meu filho, dizia-lhe que queria perceber o que me tinha acontecido. Tenho uma questão que é muito minha, muito matricial: perceber tudo. Enquanto não percebo, parece que fico agarrada ao assunto, com necessidade de investigar e aprofundar. O meu marido diz que isto é um defeito meu e passa a vida a dizer-me: esquece. O meu filho diz que eu deveria era estar contente por aparentemente não haver problema de maior em vez de estar a querer perceber o que se calhar não tem grande explicação. Por vezes, as coisas acontecem porque sim e não porque haja uma causa bem identificada. Pode até acontecer que parte das explicações resida numa coisa muito simples: já não tenho vinte anos.

Se as coisas forem tão tranquilas quanto o espero, logo conto. Não gosto de contar coisas quando estou preocupada e, muito menos, contar coisas que possam preocupar alguém.

Por isso, por me parecer que as conclusões do último relatório não são más de todo (capaz de até serem razoáveis) hoje andei ligeirinha, bem disposta, toda cheia de provocações, quase a fazer a cabeça do meu marido em água. Ainda há pouco, quando eu estava a gozar com ele, queixava-se que estava tramado, que tenho andado tão bem comportada... e que, agora, parece que me tiraram a tampa de cima, e já não há quem tenha mão em mim.

Ao fim da tarde, lembrei-me de ir até à praia e ele alinhou. Foi bom. Mas a maré estava cheia, com pouco areal plano e rijo para caminhar e, além disso, estava um bocado ventoso e fresco. Por isso, não deu para lá estar muito tempo. Mas foi bom. 

Vou aprendendo -- ou melhor, forço-me a aprender -- a dosear melhor as horas e o esforço dedicado ao trabalho. 

Mesmo agora, antes de ter começado a escrever este post, estive a ler e a responder a mails e, em alguns casos, estava a escrever e a sentir que estava a stressar. Irritam-me as pessoas irresponsáveis ou os aluados que não percebem o que se lhes diz, plantando-se no meio da organização só para empatar. Então, quando recebo mails daqueles, não consigo evitar aquela vibração negativa que me faz sentir irritada. Mas logo respiro fundo e tento dosear também aquela má emoção que não faz nenhum bem à saúde.

E depois há outra coisa... entrámos em Julho. Começo a sentir o apelo das férias. 

O ano passado, apesar de altamente desafiante, foi um ano tão pesado e tão complexo para mim -- tantas coisas a acontecerem na minha vida, todas ao mesmo tempo, sem conseguir colocá-las em compartimentos que se fossem fechando -- que parece que fiquei a modos que meio esgotada. 

E este ano, apesar de mais sereno -- muito mais, sem comparação -- tem sido também demasiadamente preenchido. Preciso de férias, de um intervalo, de uma interrupção nas minhas rotinas e nas minhas constantes responsabilidades, preciso de conseguir sentir uma coisa que pode parecer básica mas que há séculos que não consigo sentir: que não tenho nada com que me preocupar.

No entanto, esta droga deste coroninha da treta também não ajuda nada.

Devia sentir-me confiante para ir ao cabeleireiro e vir de lá outra, deveria sentir-me confiante para ir para férias, para ir para o Algarve, para um hotel, para ir levar belas massagens com óleos e pedras quentes, deveria  para ir dar um passeio pelo país e sentir-me confiante para ir aos bons restaurantes. Mas ainda não me sinto confiante para isso. Tudo o que sejam espaços fechados me parecem ratoeiras em que, ou estamos sempre de máscara, ou é uma questão de sorte. E custa-me estar sempre de máscara.

Como ando nesta, quando cheguei da praia, peguei na tesoura e cortei um bom bocado o cabelo. Precisei de me agarrar para não ir por aí fora... e fazer um corte 'a garçon'. Mas tenho tanto cabelo que, apesar do lavatório ter ficado cheio dele, ainda mantenho aquela juba que, só de olhar, já me dá vontade de lhe meter a tesoura.

Depois enfiei-me na banheira e tomei um rico banho. 

Havia restos de ontem, não tive que fazer o jantar. Portanto, menos mal. Mas persiste a ideia: tenho que arranjar maneira de descansar mais a sério, de interromper esta sucessão de dias em que há sempre chatices para resolver. Claro que este susto agora também não ajudou nada, foi mais um stress no meio do stress. Mas, enfim, desde que acabe bem, estará bem.

E, de resto, sei bem: sou uma sortuda, na verdade não tenho de que me queixar. 

Portanto, adiante.

[Não tenho paciência para reler este relambório mas receio que esteja num tom de queixume ou lamúria. Não quero isso. Logo, logo, vou lembrar-me de alguma que me empolgue e descanse a cabeça. E logo, logo, hei-de vir para aqui rir e dizer disparates, para espantar estes estados de espírito que não levam a lado nenhum.]

Rir é que é bom. Olhar para a frente é que faz sentido. Nesta valsa a mille temps, o resto -- o tempo em que se olha para dentro ou para trás ou se está a carpir -- é perda de tempo, entretenimento de mau gosto. E essa é que é essa.


And Joy is Everywhere;
It is in the Earth’s green covering of grass;
In the blue serenity of the Sky;
In the reckless exuberance of Spring;
In the severe abstinence of gray Winter;
In the Living flesh that animates our bodily frame;
In the perfect poise of the Human figure, noble and upright;
In Living;
In the exercise of all our powers;
In the acquisition of Knowledge;
in fighting evils…
Joy is there
Everywhere.


– Rabindranath Tagore, Joy
Nobel Laureate

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As fotografias e este poema pertencem ao post Ode to Joy do blog de Steve McCurry.
Jacques Brel interpreta La Valse a Mille Temps

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Desejo-vos um dia feliz com saúde, alegria e boas notícias

sexta-feira, junho 25, 2021

A verdade é que sobre tudo isto não há muito a dizer

 



Pouco a dizer. Manhã muito atarefada. Tarde atípica, fora de casa, com algumas decepções pelo meio e alguma improdutividade indesejada. Chegámos a casa lá para as dez e meia da noite. 

Banho. Para jantar o que apanhámos pelo caminho. 

Depois pus-me a ver televisão, nomeadamente o House. Sempre aquela máquina de desconcerto, sarcasmo e inteligência. 

Agora, abri o computador à espera de uma informação que, afinal, não está cá. E não tenho novidades para partilhar ou notícias para comentar. Para além da grande Lisboa continuar a marcar passo, Lisboa propriamente dita retrocedeu. 

Não sei se isto é por tanta gente já se portar como se não houvesse covid ou se por o teletrabalho ter abrandado e muita gente estar de volta aos escritórios, ou seja, a espaços fechados. Espaços não ventilados são ratoeiras. E, se muita gente volta a espaços fechados, mais gente anda de transportes e mais gente vai a restaurantes (espaços também mais ou menos fechados com pessoas sem máscara). Não sei. O que sei é que esta não estava no programa. Sempre imaginei que com tanta gente já a ter estado infectada e tanta gente vacinada, com a vida a poder ser feita ao ar livro ou de janelas abertas, esta droga tivesse esmorecido. Afinal não.

Continuamos sem estatísticas sobre como e onde as pessoas estão a ser infectadas e acho que, sem essa informação, não se conseguem ter medidas dirigidas e eficazes.

Também ouvi, no carro, alguma polémica em torno do entusiasmo futebolístico do Ferro Rodrigues e da suposta divergência entre o Marcelo e o Costa sobre a gravidade da situação. Nada disso me interessa muito. Poeira. Mais chato é que este vírus seja diabólico, se transmute, troque as voltas a toda a gente, deixe sequelas, dê cabo da vida a muita gente. Isso, sim, é trágico e incontrolável. Quem abriu a caixa de pandora talvez não tenha percebido o que ia acontecer. E até acredito que a não tenha aberto de propósito. Coisas assim acontecem. Deus gosta de brincar aos dados, não é? 

Chato também que, fruto desta tragédia, toda a gente seja forçada a aceitar coisas que, em situações normais, não aceitaria. Só prova que somos vulneráveis e que valemos zero. 

No outro dia, está a fazer três semanas, pude viver na primeira pessoa a prova provada de que a nossa vontade vale zero, o nosso suposto controlo sobre as situações que nos envolvem e sobre o nosso corpo vale zero. Não temos voz activa para coisa alguma quando as circunstâncias nos tiram o tapete. 

Bem podem mil filósofos desde a antiguidade até aos dias de hoje ou uma legião de gregos antigos ter inventado a pólvora e todas as tragédias do mundo muito antes de alguém ter sonhado na nossa existência que nada disso contribui para a nossa segurança ou felicidade.

Quando chega a hora, só nos acontece uma coisa -- olhar para dentro de nós e para o que nos rodeia e pensarmos: mas que raio nos está a acontecer?

Li que as últimas palavras da Princesa Diana, pouco antes de morrer, quando estava no carro, aparentemente sem ferimentos de maior mas, efectivamente, prestes a entrar em paragem cardíaca, terão sido Oh my God, what's happened? Também ela, perante o acidente e perante quem, perto dela, já se tinha ido, mostrou a estupefacção de quem não percebe o que lhe está a acontecer.

Mas, enfim, nada de novo. Tudo é um acaso. E a única coisa ajuizada é festejar a vida enquanto ela parece estar à nossa disposição. Tudo o resto, maldizer os outros ou a vida, acusar este ou aquele, arranjar tricas sobre futilidades ou desperdiçar um minuto que seja da nossa vida é uma estupidez sem explicação.


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Nos últimos tempos, um post que escrevi em janeiro de 2015 tem recebido diariamente um número inusitado de visitas. Trata-se de um post que escrevi com a alegria possível quando o meu pai teve alta depois de umas semanas complicadas. Depois disso, voltou a estar hospitalizado mais algumas vezes. Sofreu bastante, sobretudo por assistir ao declínio do seu corpo, da sua independência, do seu orgulho. Já fez um ano que se foi. E faria hoje anos. Todos os anos festejávamos o seu aniversário mesmo quando, acamado, já não participava nos festejos nem tinha grande consciência de que lá estávamos a festejar que estivesse vivo. 

Faz-me um bocado impressão constatar como o tempo passa de uma forma tão inexorável. O seu bisneto mais novo não chegou a ter consciência da sua existência. E qualquer dia os outros acabarão por se esquecer daquele bivô ausente, entubado, que não os via e mal falava. A vida da gente esvai-se de nós e, com o tempo, esvai-se da memória dos que nos conheceram. E é assim mesmo, nada a fazer. 

E isto só é mais uma razão para aproveitarmos enquanto podemos. Tirando isso, batatas.

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As fotografias cheias de surrealidades são da autoria de Ellen Sheidlin
E June Tabor faz-nos companhia com Love Will Tear Us Apart

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Dias felizes.
Saúde

quinta-feira, junho 17, 2021

É a 4ª onda? É a variante Delta?

 

Seja a quarta, a delta ou o que for, de nada nos servirá essa informação se daí não conseguirmos extrair conclusões úteis.


Informação extraida hoje, dia 16.06.2021, do site da DGS

Os números voltam a subir e eu volto a pensar que a comunicação continua a falhar. A informação de pouco serve se for um mero despejar de números. Para ser útil, temos que interpretar os números e não apenas servi-los, a cru. Por exemplo:

  • Os novos casos, como se distribuem por escalões etários? Não quero saber valores acumulados, quero saber os do dia a dia para perceber a evolução.
  • Dos novos casos, quantos tinham ou não tinham a vacina tomada? Uma ou duas doses?
  • Dos novos casos, quantos usavam a máscara no provável local onde foram contagiados?
  • Qual o contexto em que ocorreu o contágio? Casa? Escola? Restaurante? Local de Trabalho? Transporte Público? Espaço fechado?

Só com informação deste tipo, exacta, concreta, se poderão tirar ilações que permitam tomar medidas para contrariar a tendência.

Se, por exemplo, não ocorrerem contágios em espaços abertos (praia, parque, etc) não haverá grande sentido em forçar medidas que serão forçosamente sentidas como artificiais e desnecessárias.

Em contrapartida, se a maioria dos contágios ocorrer em meios de transporte, então haverá que reforçar a ventilação e meios de higienização. Ou se ocorrer em contexto familiar, onde não se usa máscara e onde confluem pessoas que vêm dos locais de trabalho ou das escolas, então haverá que reforçar cuidados a montante. Ou se ocorrem em contexto profissional, por exemplo em escritórios sem ventilação natural, então haverá que repensar se é mesmo de levantar a obrigatoriedade de teletrabalho obrigatório.

Estou a dar exemplos apenas para concretizar a ideia de que informação deve ser completa, estruturada e clara. De outra forma, as medidas são mais gerais do que precisariam de ser e, em concreto, pouco se sabe sobre como nos precavermos.

E, quando falo em tomar medidas, não falo apenas em entidades 'superiores' que decidam em nome de todos: falo também em cada um de nós que, sabendo onde e como estão a ocorrer os contágios, poderemos adaptar as nossas atitudes para reduzir o risco.

E muito gostaria que a DGS percebesse isso e nos facultasse a informação de que todos estamos necessitados. Sinceramente, acho que já vai sendo tempo de irmos voltando a uma vida tão 'normal' quanto possível mas isso só poderá acontecer quando estivermos mais e melhor esclarecidos.


E é isto: o coroninha a fazer do mundo um seu joguete

quarta-feira, junho 16, 2021

Mea culpa...?

 


Hoje foi um dia quase normal, com reuniões e tudo. Contudo, bem mais moderado do que era antes. E teve trabalho de mails, de despachos, de apresentações, telefonemas. Mas tudo melhor doseado.

Junto à hora de almoço, o meu marido pegou numa cadeira e num pequeno sacho e eu peguei numa taça e fomos apanhar nêsperas. O meu marido subiu da cadeira para o muro e, lá em cima, com o sacho fazia vergar as pernadas da nespereira. E ou ele ou eu apanhávamos as nêsperas. Estão gordas e doces e temos ali uma bela quantidadezinha. Adoro nêsperas. 

Ao vê-lo empoleirado, pensei que, se os netos o vissem, talvez tivessem orgulho nele tal como eu sentia ao ver o meu avô andar em cima da nespereira para me dar as nêsperas a mim.

Ao fim da tarde, fui varrer uma parte do quintal. 

Quando fui despejar o balde das rodas ao monte da compostagem, passei pela horta e apanhei (e comi) framboesas. Depois fiquei a recear que não fossem framboesas mas outro fruto não comestível. Mas já tinha comido. Agora, já passaram umas boas horas e ainda estou viva. Portanto, eram inocentes framboesas. 

Claro que não falei na minha dúvida ao meu marido para que não ficasse a achar que não pode confiar em mim.

Ontem aconteceu uma coisa que só serviu para lhe dar razão.  Conto-vos.

Geralmente não tomo medicamentos. Há uns anos, receitaram-me glucosamina e disseram que era melhor tomar todos os dias. A minha prima médica já antes me tinha dito que com os antecedentes da nossa avó, que padecia de dores nas articulações, mais valia prevenirmo-nos e tomarmos glucosamina. Mas esqueço-me e passam-se temporadas sem tomar nada. Contudo, ultimamente andava a tentar não me esquecer pondo o frasco em cima da mesa onde tomamos as refeições. Se o tirava de lá, certo e sabido que, até me lembrar, passavam semanas ou meses de esquecimento.

Contudo, face ao que recentemente me aconteceu, até se perceber de que exactamente se trata, prescreveram-me um comprimido todos os dias de manhã. Foi para cima da mesa para não correr o risco de me esquecer. 

Acresce que tive que fazer, entre outros, um exame que requer a tomada de contraste por via endovenosa. Como o contraste é à base de um produto que existe num alimento a que sou alérgica, foi-me prescrita a toma prudencial de um corticoide de manhã e um anti-histamínico à noite com quatro dias de antecedência. E que, no dia do exame, não apenas tomasse de manhã o corticoide como, ao almoço, o anti-histamínico. 

E aí veio o receio de me esquecer: se da glucosamina era o que se sabia, faria agora como mais três. Então, para ter a coisa bem controlada, passei a fazer assim: à noite punha os quatro medicamentos directamente na mesa. E, à medida que tomasse cada um, punha a embalagem dentro de uma bandeja. Portanto, não tinha que enganar: fora da bandeja, significaria medicamento não tomado.

Pois bem. De manhã, ontem, dia do exame, corticoide tomado, caixa para a bandeja. Quando, à hora de almoço, fui tomar o anti-histamínico, vi que já havia cinco comprimidos tomados. Fiquei baralhada. O que ia tomar era o quinto. Como... já cinco tomados?

Será que o tinha tomado de manhã, distraída, e sem colocar a caixa na bandeja? Ou num outro dia, em vez de um, tinha tomado dois?

Puxei pela cabeça. Nada. O que quer que fiz, fiz distraidamente, sem dar por ela.

Ou seja, no dia em que tinha mesmo que tomar os medicamentos para prevenir reacções alérgicas, não sabia se tinha tomado o comprimido. Fiquei sem saber o que fazer: ou arriscar-me a não tomar ou arriscar-me a tomar o dobro da dosagem...?

O meu marido passado comigo: como é possível? como é possível que não prestes atenção a estas coisas?

Mas, pronto, fazer o quê? Mea culpa, mea maxima culpa. Pelos vistos não tomei mesmo a devida atenção. E quando lá cheguei tive que fazer a figurinha triste de dizer que não sabia se tinha ou não tomado o anti-histamínico. Disseram-me para não tomar que eles iam estar atentos a alguma reacção e a postos para actuarem. E, no fim, tive que ficar à espera a ver se não aparecia a reacção.

Cá para mim, tomei foi no sábado dois em vez de um pois no sábado andei ainda mais espapaçada que nos outros dias. 

Portanto, reconheço: é um facto, sou capaz de dar conta de coisas complicadas, muitas ao mesmo tempo, maçadas de toda a espécie. Mas ponham-me coisas simples à frente que vou inevitavelmente baralhar-me. 

Por isso, o meu marido tem a ideia que, se não verificar minimamente o que faço, é mais do que certo que irei despistar-me. Mas como também não tenho pachorra para prestar contas e muito menos para ser controlada, quando troco mesmo as mãos, ele não tem como ajudar-me... e fica todo irritado.

Isto contado assim deve parecer coisa de marretas. E, na volta, é o que é. Mas a verdade é que é assim agora e desde sempre, desde o tempo em que éramos praticamente adolescentes: ele muito compenetrado das suas tarefas e  responsabilidades e eu desvalorizando o que considero minudências. No entanto, dou-lhe razão: o meu conceito de minudências é muito alargado pois, sem querer, encaixo nas minudências coisas como a toma de medicamentos críticos, em momentos críticos. 

Por isso, por eu ser como sou, se me acontece alguma, mesmo que coisas pelas quais não sou responsável, há sempre a tendência de acharem que, de alguma forma, a responsabilidade deve ter sido minha.

A minha mãe é a mesma coisa. Hoje dizia, quase como se implorasse: e, por favor, deixa de comer tantas nozes, tantos cajus..!. Já lhe disse que primeiro vamos ver o que se conclui dos exames mas que uma coisa é sabida. colesterol alto não tenho. As minhas análises, do que se viu e até ver, estão bem e que nada do que se passou tem a ver com frutos secos. Mas... e ela ouvir-me....? Diz que sou dada a excessos, recorda-me episódios que, em sua opinião, provam que sou desmedida e, sem que haja ainda conhecimento médico da situação, já quer, à viva força, que prometa que não vou voltar a comer tantos frutos secos. Por mais que lhe diga que não tem nada a ver, que os médicos não descartam que seja algum efeito da vacina, ela quer, porque quer, que eu espie pecados que não cometi. O meu marido tende a alinhar pela mesma bitola e, volta e meia, diz-me: a tua mãe é que te conhece bem. 

Ou seja, na cabeça deles de alguma coisa eu hei-de ser sempre culpada. O que me vale é que esse conceito do pecado e da culpa não faz lá muito o meu género.

Tirando isso, tivemos visitas ao fim da tarde: o meu filho e a sua trupe. Dantes, quando alguém chegava, beijávamo-nos. Agora não. Qualquer dia esquecemo-nos desses hábitos de afecto e proximidade. Tenho, em especial, muita vontade de abraçar, beijar e ter sentados ao meu colo os meus pequeninos. Um dia destes, estão do meu tamanho e ficará absurdo querer que se sentem ao meu colo. 

Meus meninos mais queridos. 

E é isto. Por hoje, nada mais a acrescentar. Daqui a nada estamos no verão mas, por cá, ao fim do dia outonou. E agora estou aqui e até tenho um poncho vestido. Certo que é de linha, aos buracos, mas aconchega-me. Está fresco.

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As pinturas sã da autoria de Manuel Mendive enquanto Rhiannon Giddens interpreta Round about the mountain

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E umas palavras para melhorar o dia

"Toda limitação é estimulante" 

| Guimarães Rosa e Maria Bethânia


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Desejo-vos um dia feliz
E obrigada pelas palavras amigas que recebi, quer aqui quer por mail.
Saúde.

quinta-feira, junho 03, 2021

Só espero não me apaixonar por ti

 


Não se nasce ensinado mas pode aprender-se. Tanto faz ser gramática, ortografia, aritmética, asseio, boas maneiras à mesa ou etiqueta em reuniões por videochamada. Não é preciso ter nascido em berço de ouro para, tendo chegado à idade adulta, saber que não é de bom tom meter os dedos no nariz, enfiar a faca na boca ou aparecer de câmara desligada numa reunião em que todos os outros estão à vista.

As funcionalidades para as as reuniões pelas vias que hoje são tão banais já existiam antes do corona dar as caras mas, quando não há a necessidade, é difícil romper velhos hábitos. Mas o merdinhas apareceu e, de um dia para o outro, milhões de pessoas desataram a fazer reuniões por Zoom, Meet ou Teams. Hoje já é normal o que há um ano era ainda uma proeza para muita gente.

Não sei quantificar o número de reuniões que já tive por estas vias nos últimos catorze meses mas não errarei se disser muitas, largas centenas.

E ao longo destas muitas ocasiões tenho constatado como há pessoas que, ao fim de tanto tempo, parece que ainda não atinaram.

Por exemplo, no outro dia estive para aí uma hora com um cavalheiro do qual só via a testa e o cabelo. Ao princípio, ainda lhe disse: estou a vê-lo mal. E dava-lhe pistas. Mexia-se e, durante uns segundos, conseguia ver-lhe a cara mas, instantes depois, estava na mesma. Não sei para onde estava a olhar pois não lhe via os olhos mas para o ecrã não era, senão ele próprio perceberia que era como se, ao vivo, estivesse debaixo da mesa, a gente só a ver-lhe a tampa craniana. 

Outra que me chateia é a gente perceber que a outra pessoa está o tempo todo a ler ou a escrever mails em vez de estar a participar na reunião. Acho de uma tremenda falta de respeito. Não que ao vivo isso não aconteça. Uma vez estava numa reunião com o que na altura era o presidente da empresa. Estávamos várias pessoas em volta daquela grande e bela mesa e reparei que ele estava a olhar atentamente para o tablet. Tentei abstrair-me para continuar a falar com propósito quando sabia que era dele a palavra final. Até que não aguentei, parei e disse: 'Não sei que quer que eu pare...'. Ele reagiu com surpresa: 'Porquê?'. E eu: 'Se calhar tem que estar aí concentrado e eu estou para aqui a falar...'. Atrapalhado, disse: 'Não, não, continue, peço desculpa. Estava aqui a ver uma coisa que chegou... ' 

Mas agora já não estou para isso. No outro dia, a pessoa que convocou a reunião esteve notoriamente distraída a ver outras coisas no seu computador enquanto um seu colaborador partilhava uma apresentação. Noutros tempos, ter-lhe-ia dito: 'peço desculpa mas estou aqui por seu convite. O mínimo que se espera é que preste atenção àquilo que quis que eu visse'. Mas não disse nada. Limitei-me a pôr-lhe uma cruz em cima, metaforicamente falando. Em casa do meu filho pratica-se a modalidade da bolinha preta. Quem se porta mal recebe uma bolinha preta e, por consequência, um castigo. Mentalmente faço cada vez mais isso. Faz porcaria -> bola preta. 

Também aconteceu uma coisa desagradável uns dias antes. Uma pessoa convidou várias outras. Quando lá chegámos (virtualmente falando, claro), ele não estava, tinha-se feito representar por um colaborador.  E foi esse colaborador que nos comunicou que o chefe tinha tido outro compromisso. Os demais olharam uns para os outro certamente todos pensando que deveriam acabar com a reunião logo ali. Mas a deferência de uns para com os outros impediu que o gesto mais óbvio fosse praticado.

E outra coisa que volta e meia acontece. A reunião está marcada com um certa duração, por exemplo uma hora, e um dos participantes, gostando de se ouvir, fala, fala, fala, e a gente vê o tempo a passar e constata que a coisa promete pois ainda mais ninguém falou. São reuniões que se atrasam, se sobrepõem às seguintes, impedem que uma pessoa sequer tenha tempo de intervalo e consiga levantar-se, ir à casa de banho, ir encher o copo de água, às tantas já uma pessoa enervada, atrasada e em falta para com as pessoas que estão noutra reunião à nossa espera. Chateia-me imenso isso, tenho que fazer um ginástica para parecer que estou totalmente focada quando, ao mesmo tempo, estou a enviar uma mensagem aos seguintes a desculpar-me e a apontar para nova hora.

Aqui. como em tudo, há aspectos que são de aprendizagem intuitiva, não é preciso ter nascido em berço de ouro ou ter tido aulas de etiqueta. Basta perceber a natureza das coisas e ter cuidado em respeitar os outros.

O meu amigo algoritmo, vendo que, no outro dia, achei graça à elegância e serenidade de Jamila Musayeva e talvez adivinhando a minha agarração à cegadas das reuniões a toda a hora, resolveu sugerir-me outro vídeo, agora sobre etiqueta zoom. Se eu estivesse no meu estado normal, ao ver como Jamila se apresenta (Hello there! I am Jamila Musayeva, a certified international etiquette consultant, an author, a teacher, an entrepreneur and a mom of two), faria um flic flac à rectaguarda e fugiria aos pinotes para bem longe. Agora não. Agora deixo-me estar meio a dormir a ouvir o que ela tem para dizer. Ainda por cima, não diz disparates. Pode dizer coisas óbvias mas, lá está, não devem ser tão óbvias assim pois todos os dias constato que grande parte das pessoas as não cumprem. E não cumprem porque não lhes ocorre ou porque se estão nas tintas.

Portanto, que entre a Sra Dona Jamila: Zoom Etiquette: How To Prepare For a Zoom Meeting.


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E claro que não era sobre isto que eu vinha falar. Como creio que alguns saberão, gosto muito de arquitectura e, portanto, enquanto dormia, estive a ver alguns vídeos com espaços que são muito a minha presente onda: peace and love, natureza, quietude

Gostei muito deste. 

Serene Architectural Masterpiece in Carmel, California | Sotheby's International Realty


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As composições são obra de Ertan Atay e são o que são, falam por si.

Tom Waits, que é sempre aqui muito bem vindo, interpreta I Hope That I Don't Fall In Love With You e eu, como ando sem inspiração, peguei outra vez no nome da canção e fiz dele o título desta coisa a que se convencionou chamar post. Outra vez um título que não tem nada a ver com nada?, perguntarão. É verdade. Assim anda também, em parte, a minha vida, cheia de imprevistos e inexplicações.. 

Nota: Não tenho conseguido responder a comentários pois, para o fazer, deverei estar acordada e, por estes dias, a esta hora, tenho andado basicamente a dormir. Se o texto for sem qualquer etiqueta, despenteado, desvirgulado, queiram por favor relevar ou avisar-me, ok? 
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Desejo-vos um santo feriado.
(Santo=podre de bom)

terça-feira, maio 18, 2021

Os malefícios colaterais do coiseca

 



Leio por aí que os divórcios e separações estão prestes a rebentar. Pudera. Só quem nasceu um para o outro tolera o outro por perto a toda a hora. Mesmo esses é bom que tenham uma distância higiénica: não sempre por perto, não sempre a toda a hora. Agora para quem tem as suas diferenças e só as suporta quando devidamente espaçadas, condimentadas com situações que distraiam a atenção, imagine-se a pressão que vai crescendo dentro da panela. Não imagino sequer o que seria para mim a tortura se tivesse em casa não o homem da minha vida mas uma amélia, um zé cueca, alguém que, só de existir, estaria a pôr-se a jeito para me levar ao desespero. Ao contrário do que parece ser a tendência, em que o pessoal aguenta até que isto desconfine, acho que comigo a coisa acabaria mal muito antes disso. Não apenas faria o célebre número das malas à porta como não prescindiria também de lhe atirar as cuecas pela janela. E, antes que ele percebesse o que lhe estava a acontecer, já lá estariam os senhores das chaves a mudar a fechadura. E, se o encontrasse na rua, de certeza que já nem o reconheceria. Mas, se calhar, isto seria eu -- eu que sou impaciente. Parece que os pacientes conseguiram respirar fundo, dar um tempo, esperar que o corona dê tréguas. E agora, com a malta a ficar progressivamente mais vacinada e com o bom tempo a convidar à alegria, com cada um a regressar aos poucos à sua vidinha, com o intolerável 'novo normal' a cair em desuso, é que vai ser o adeus oh vai-te embora, bye-bye e chega pr'a lá, oh melga.

Mas, claro, estas provações têm consequências: li que nunca nasceram tão poucas crianças como agora. É que uma coisa é conseguirem tolerar-se, um em cada ponta da casa. Outra, bem diferente, é conseguir passar por cima da raiva contida e, numa de ser só sexo, bora lá, truca-truca. 

E isso, pelo que os números indiciam, é que nem pouco mais ou menos. A malta parece ter abrandado fortemente na coisa: não se suportam, não se desejam. Ou então não é isso, é simplesmente que, fartos de ter as crianças a bombar por perto todo o santo dia, nem pensar em deitar mais uma ao mundo. 

Mas isso já não sei. Que o pipeline está cheio de malta em vias de se separar e que quase não têm nascido crianças é um facto. O que vai no subconsciente, no consciente e no inconsciente de cada um isso já não posso dizer.

Mas estou curiosa.

Como estarão as estatísticas de anticoncepcionais? Alguém me diz? Camisinhas? Como será? Pelas ruas da amargura? Já eram? Pírulas, com a malta toda a dizer que causam mais enfarilhamentos que a astra-zeneca, imagino eu que também estejam em contagem decrescente. 

Sobra o quê? Já nem sei bem o que agora se usa.

Ah... espera aí. Copos menstruais... não é? 

Caraças. Sou muito ignorante. Li no outro dia que uma ex-PAN quer que os haja gratuitos nos centros de saúde e também em escolas, universidades e institutos politécnicos. E eu só pensei: olha a sorte que tenho de estar na menopausa, assim nem tenho que ir ver como é que os ditos funcionam. Bolas. Só de pensar. Serão de que tamanho? Enfiam-se assim sem mais, à papo-seco? E puxa-se e vem cheio? E não há o risco de se entornarem...? Caraças. 

Adiante. 


Mas, então, dizia eu que parece que a malta que, antes, já de si, não se gramava de alma e coração anda a evitar-se. Claro: foi dose, tantos meses de convívio forçado é para quem pode (com p e com ph).

Ora bem. Não sei se, justamente por isso ou por outra coisa qualquer, há outra: parece que nunca se consumiram tantos ansiolíticos e anti-depressivos. A malta anda pelos cabelos. Uns trepam às paredes, outros batem com a cabeça nas paredes. Tudo em ponto de rebuçado.

Percebe-se. 

A minha mãe contou-me que num daqueles programas que vê, creio que disse que era com a Tânia, foi uma médica dizer que há ainda outra: osteoporoses e que tais é a dar com um pau. Pudera. Sem exercício e sem sol, quem é que pode andar escorreitinho e com a ossada em bom estado?

Quem pense que o corona é bicho para só se acolitar nas ventas e por aí abaixo que tire o cavalinho da chuva: aquilo é bicho que vai de A a Z.

E, cá para mim, a coisa não fica pelo abecedário. Aliás, no outro dia, vi um anúncio na televisão de que a malta, com isto do confinamento, já nem anda a pôr a dentadura e, por isso, quando as forem pôr estão largas. Ou apertadas...? Não sei, não prestei muita atenção, só registei que o corona também dá cabo das dentaduras.

Portanto, já sabem.

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Fotografias de Anna Devís e Daniel Rueda na companhia de OK Go Sandbox - Art Together Now

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E o que eu estimo é o que eu desejo.

Tudo de bom. 

Saúde. 

Paz e Amor.

sábado, abril 17, 2021

Eu, versão nude

 



Raramente agora uso saltos altos. Só quando tenho que calçar forçosamente sapatos pretos. Não sei dos meus sapatos pretos, básicos, de meio salto a que tanto recorria. Eram meio em pele, meio de camurça e com salto não excessivo nem em altura nem de finura. Provavelmente ficaram in heaven do primeiro período de confinamento. Os que tenho cá são uns bem altos, outros em dois tons ou, outros, num modelo adequado a quem tem o pé feito a sacrifícios. Agora, andando maioritariamente de ténis ou chinelóides, até tremo quando me arranjo toda a preceito e, quando estou para sair, constato que tenho que usar sapatos pretos. Lá tenho que trepar para os que cá estão.

Écharpes também. Raramente as uso. Em casa não vou estar de echarpe. Se saio ao fim de semana ou, durante a semana, ao fim do dia, para as compras ou outros afazeres, também não vejo sentido em grandes aperaltamentos. Jeans ou afins, blusas simples, um casaquito básico ou um poncho. Apenas se vou a trabalho reencontro aquele ritual que era tão meu. Mas aquelas precedências que eram tão intuitivas, falham. Vou a sair, toda pronta, e quando vou calçar os sapatos, verifico que ainda estou com as meias de algodão ou lã fina que uso em casa. Coisas assim. 

Também nunca mais usei o meu relógio. Era inseparável dele. Só ao fim de semana é que não o usava. Isso e a aliança. Nunca mais a usei.

Ai... caraças... (já venho)

Bolas. Bolas! 

Já apanhei um susto. Nem vos conto. Que susto.

Estava a escrever isto e, de repente, ocorreu-me que há mais de um ano que não os uso. Entretanto mudei de hábitos, mudei de casa, mudei de emprego. E deu-me um susto: onde estariam? Com o coração a palpitar, fui à procura, cheia de medo de lhes ter perdido o rasto. Tinha muito presente onde os tinha, na outra casa. Mas agora tudo mudou de sítio, não apenas em termos absolutos mas, também, em termos relativos. Dantes, usava o quarto que tinha sido da minha filha, para ter as minhas coisas à larga. Em cima da secretária dela, tinha uma caixinha onde tinha os anéis de uso corrente e era aí que todos os dias, ao chegar a casa, colocava anéis, aliança e relógio. De manhã, o gesto era também automático: depois de me perfumar e vestir, escolhia o anel e o colar que iam bem e a aliança e o relógio.

O relógio já o contei: inseparável dele. Tem um peso, um toque, uma elegância de que não conseguia desprender-me. O ponteiro das horas avariou. O dos minutos estava bem. Eu usava-o assim mesmo. Até que resolvi que não fazia sentido. O arranjo custou uns duzentos ou trezentos euros, nem sei. Voltei a poder ter horas certas. Até que, passados uns tempos, talvez uns dois ou três anos, voltei a notar que o ponteiro das horas começava, de novo, a perder a pedalada. Deixei-me estar. Por mim, sem problema. O pior eram as outras pessoas: dava por elas a espreitar-me para o relógio, depois olhavam para o delas. Algumas ultrapassavam a barreira da indiferença e diziam: acho que o seu relógio não está certo. E eu explicava o que expliquei mil vezes: só o das horas é que não está bem. As pessoas ficavam meio desconcertadas. Uma pessoa sabe sempre mais ou menos as horas, não sabe é os minutos. Portanto, como o ponteiro dos minutos estava bem, eu orientava-me. Ainda pensei voltar à ourivesaria reclamar da reparação. Mas a reparação já tinha uns dois ou três anos. Depois meteu-se a pandemia. Agora já nem moro perto. 

Agora, quando vou trabalhar presencialmente, nem me lembro do relógio ou da aliança. Também estou a pensar que antes punha sempre rímel e que nunca mais o pus, nem de tal me lembrei. Baton ou gloss agora só uso em teletrabalho. Na rua ou no trabalho presencial não, só serviria para sujar a máscara. Parece que eu, a meus olhos, já só existo bem na versão nude: no make up, no toilette, no high heels.

Quando ouço falar no regresso à 'normalidade' estremeço por dentro. Não sei se sou capaz de voltar a andar metida no trânsito em horas de ponta, não sei se sou capaz de voltar a andar todos os dias de saltos altos, aperaltada, todos os dias a comer em restaurantes, todos os dias confinada em torres e todos os dias rodeada de gente que, muitas vezes, não nos permite sermos donos da nossa própria agenda.

Mas, dizia eu que apanhei um susto ao escrever sobre o relógio e a aliança: afinal já os encontrei. Senti um tremendo alívio. Nem imagino a aflição em que ficaria se não os tivesse achado.

Esta sexta-feira, ao fim do dia, fomos à outra casa ver se estava tudo bem, trazer o correio, buscar comida feita para o jantar e para o almoço de sábado. De caminho, pensei parar para ir procurar mais duas suculentas e uma nova taça. É que, no outro dia, ao distribuir as que tinha comprado, tinha-me sobrado uma. Mas então não é que, antes de ir pagar, tive uma chamada que me fez distrair-me por dois minutos? Mal dei por ela, já o meu marido as tinha posto deitadas, dentro da taça de barro. Conclusão: partiu várias folhas, fez outras tantas caírem. Nem queria acreditar. Fiquei passada. Mas, sonso como é, achou que eu devia estar maldisposta por outra coisa qualquer para estar tão chateada por motivo tão nulo. Fiquei ainda mais passada. Disse-me que não estivesse ao telefone em vez de estar a tomar conta delas. Desisti. Ao chegarmos, sendo já tarde, de noite, não pude ocupar-me delas. A ver se faço um bercinho para tentar que das folhinhas partidas renasçam novas flores.

Só me apetece ir tratar disso. Não me apetece pensar nas chatices que invadiram o meu dia nem noutras maçadorias. Só em jardinagens, coisas simples, andar com as mãos na terra, pensar em coisas boas.

E é isto. Ou melhor, não passa disto. Passa das duas da manhã. Tenho que me levantar cedo. Por isso, vou parar com esta conversa mole, que não ata nem desata. 


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Fotografias de Ben Hassett na companhia de David Gilmour com Yes, I Have Ghosts

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E tenham, por favor, um belo sábado.
Be happy.