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quarta-feira, janeiro 09, 2019

Uma cerimónia de perdas





Tive que ir ao médico por um destes dias. Na sala de espera, de imediato procurei revistas. Infelizmente nada de útil, só revistas médicas e do expresso, ainda por cima antigas. Portanto, ia treslendo e, de soslaio, vendo quem estava, ouvindo conversas.

E uma conversa fez-me especial impressão. Uma senhora talvez com setentas e tais, ar de pessoa com posses, triste e abatida, contava que o marido tinha estado em observação numa clínica privada e que, dada a sua situação, de lá tinham chamado uma ambulância e passado uma guia de marcha para um hospital público. Contava ela, com voz aflita, que o marido estava muito mal. E que, apesar de estar tão mal, tinham-no deixado ficar umas horas na urgência. Com a voz embargada, contava que, ao fim de três horas sem saber o que se passava, conseguiu que a deixassem entrar e que foi dar com ele numa cadeira de rodas, no corredor. Dizia ela: 'Naquele estado e ali assim, sozinho, na cadeira de rodas'. E dizia que, como o hospital estava cheio, o tinham internado num piso intermédio por cima das urgências. E falava em voz baixa, assustada, com medo do que pudesse acontecer ao marido.

Percebo-a muito bem. Percebo a sensação de vulnerabilidade quando uma pessoa está doente, à mercê dos outros.


Felizmente a única vez em que me vi numa situação minimamente parecida foi coisa de nada. Tinha feito artroscopia aos joelhos (um disparate para o qual ainda hoje não encontro grande explicação) e uns dias depois tive o que creio ter sido uma reacção à epidural: uma enxaqueca como nunca antes tinha tido, insuportável. Não podia sequer ver luz. Calhou nesse dia ter consulta no hospital. De tal forma estava que me aconteceu o impensável: vomitei no carro. Não dava para parar e não consegui evitar. Cheguei à recepção do hospital e tive que ir à pressa (eu, que mal conseguia andar) à casa de banho para voltar a vomitar. Quando estava no consultório, mal conseguia falar, estava quase afónica. E, então, comecei a ver tudo branco, a sentir-me esquisita, a sair de mim mesma. Só percebi que o médico saíu apressadamente. Voltou com um copo de água com açúcar que me deu a beber e logo a seguir chegou uma enfermeira com uma cadeira de rodas. Sentaram-me lá e levaram-me a correr para o SO. E eu vi-me, indefesa, sem forças, sem voz, agoniada, cheia de dores de cabeça, a ser levada em cadeira de rodas pelo meio de uma recepção cheia de gente. Eu que sou discreta e que detesto dar nas vistas, vi-me incapaz de sequer opinar, quanto mais ir pelo meu pé para onde quer que fosse.


Mas se comigo foi esta coisa de nada, com o meu pai, infelizmente, já passei pela triste evidência de que, na doença, todos são iguais na vulnerabilidade e que, se calha o hospital estar cheio, todos para ali ficam, expostos, frágeis, indefesos, à mercê de tudo.

Não vale a pena a gente pensar que não é justo ou que poderíamos pagar cuidados diferentes porque, de facto, não vale a pena: quando se está mesmo doente e se é levado para um hospital, nada mais há a fazer senão esperar que alguém acuda, que alguém tenha tempo para se acercar. De cada vez que o meu pai esteve nesta situação, ando por ali, entre gente que tosse e grita e geme e chama, tentando abstrair-me da infelicidade que é estar naquelas desafortunadas circunstâncias. E vou à procura de um enfermeiro que vá aspirar o meu pai ou de um médico que me diga o que se passa e estão todos ocupados e o tempo passa e o meu pai e todos os outros doentes para ali estão, indefesos, certamente muito infelizes, à vista de todos. A vida é sábia: o que vale ao meu pai é que já não vê e já perdeu um pouco a noção exacta do que acontece quando é levado para fora do seu espaço habitual. Porque senão, orgulhoso como sempre foi, haveria de se sentir humilhado por estar estar exposto na sua fragilidade, ali, numa maca, ao pé de outras macas e de outras pessoas que por ali andam.


Claro que era bom que houvesse o dobro dos hospitais, o dobro dos médicos, o dobro dos enfermeiros e dos auxiliares. Mas, se tivéssemos serviços públicos a dobrar, pagaríamos impostos a dobrar e isso também ninguém quer.

A única coisa que desejo é que a vida seja generosa para comigo e para os meus e que situações destas sejam raras, pouco dolorosas -- porque sei que passar por isto é uma pouca sorte.

E se passar por estas situações é triste em qualquer idade, pior é para os mais velhos que, pelas vicissitudes da sua saúde, ou ausência dela, vão assistindo ao seu próprio declínio, impotentes, dependentes, sem nada poderem fazer. Que ao menos haja quem os acompanhe e apoie e, na medida do possível, os faça sentir queridos e protegidos.


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E lembrei-me de escrever isto ao ver o vídeo abaixo que mostra o poeta Donald Hall. O vídeo chama-se Old Age Is a Ceremony of Losses. 

Sei bem que o meu marido vai ficar aborrecido porque não gosta que eu escreva coisas deste género, um bocado a atirar para o pesado. Talvez receie que isso signifique que eu esteja com baixo astral. Mas não estou. Estou normal. Mas do meu estado normal também faz parte ser realista.

Temo, isso sim, que escrever coisas assim possa deixar um bocado em baixo quem me lê e eu isso também não gosto. Não sou de dramatizar. Não vale a pena. A vida é mesmo assim, cheia de coisas -- e nem todas muito boas. Mas, atenção, a vida é boa na mesma. Há que vivê-la o melhor possível (enquanto isso for possível)

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Já agora, se me permitem, um poema de Donald Hall lido por Tom O'Bedlam: Safe Sex


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No post abaixo tenho Marcelo loves Cristina e vale a pena ver os divertidos cartoons

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