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quarta-feira, novembro 07, 2018

Fatal




Fatal. Fatal como o destino. 

Nem mais nem menos. Isto mesmo. E os muito novos que me desculpem. E os muito velhos também, se a indecisão já passar da conta. É que tudo tem que estar no ponto certo. Sou exigente, se calhar um pouco niquenta, na volta ponho defeito onde outros vêem petisco. Mas é o que sou. Dourar a pílula para quê? Não sou perfeita. Orgulhosamente imperfeita, confesso.

E digo isto porque, se me ponho a querer definir, os requisitos parecem demais e parece que contraditórios. Mas são mesmo assim. Especifico. Pelo menos, tento. Comigo nem prato muito cheio, muito vulgar, tempero pouco cuidado, nem coisinha pouca, arte infantil, pratinho vazio com um salpico ao canto e uma ervinha a enfeitar. Não, nada disso. Tem que ter sabor inusitado e muito bom, tem que atrair o olhar, tem que ser na conta certa. E tem que ter beleza, graça, sabedoria, singeleza e malandrice, tem que saber pensar, surpreender-me com as suas metáforas, tem que usar a palavra como se fosse uma espada afiada porém delicada, como se fosse uma flor, um véu, um beijo, uma vénia, uma armadilha, um abraço, um ponto no infinito, um abismo, um afago, um desafio, uma imprevisão, um enlevo. E tem que olhar, saber olhar é muito importante, e, olhando-me, tem que saber desvendar-me. Mas não abusar da descoberta. Tem que ser capaz de guardar segredo. Mesmo que, um a um, vá desocultando os mistérios, tem que deles guardar segredo. E deve ser capaz de ouvir com reverência a música mais pura, o canto mais divino. E deve gostar de árvores, muito. Tanto ou mais do que eu. E tem que saber percorrer a minha pele. Com o olhar, com a mão, com a sua pele. E tem que apreciar os silêncios e tem que respeitar os meus vagares. 

Portanto, não é qualquer um. Não senhor. Tem que ser alguém especial. Raro. E tem que querer ser meu. E, sendo meu, tem que saber ser livre.

Mas mais vale deixar a Adélia falar que ela introduz bem o tema. 

Fatal

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma actriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se me dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.

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E nada de conclusões precipitadas. Nem tem que ser anjo, nem minotauro. Poderia dizer que talvez in between mas sei lá. Aliás, nem interessa. Nada pior do que definições.

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O primeiro desenho é de Rodin, o segundo de Picasso. Renée Flemming interpreta Sempre libera de Verdi (na Traviata) e Serge Polunin dança como um anjo ao som de Evermore de Kai Engel. O poema Fatal, como referi, é de Adélia Prado.

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terça-feira, outubro 04, 2016

As mãos de ambos
desataram a carícia
que um ao outro prendia






Não me iludo!
Não me iludo!

Não me é permitido mais
do que perdê-lo

- Oh meu anjo amado...

Minha asa de voo
                                   desamparado!




Soletra as ruínas
do próprio peito

a fitar a lonjura
dos tempos
os conflitos do mundo

desse jeito equívoco
e turvo, nesse uivo
ambas as mãos tocando

o absurdo





Ela vai rompendo as trevas
ameias e descaminhos
os atalhos, as entranhas

de florestas e espinhos

Ela vai colhendo as rosas
que lhe mitigam o peito
em torno do coração

Ela vai na desmesura
em busca da razão
que lhe explique a rasura

a devastar-lhe a paixão





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Anunciações, um 'romance' de Maria Teresa Horta
Fotografias de Peter Lindbergh excepto a primeira, de Irving Penn
"Porgi, amor", Mozart, interpretada por Renée Flemming

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segunda-feira, maio 30, 2016

Sodoma divinizada


Como descrevi no post abaixo, com um sol ameno, um mar muito azul e gaivotas all over, é com prazer que me entrego à doce preguiça de existir e de ler.

O livrinho que estou a ler é dos que me sabem a doce rebuçado, talvez daqueles de Portalegre, muito bem confeccionados, bem apaladados.

Tenho estado aqui a ver se encontro um excerto que seja bem elucidativo mas acho que vou limitar-me a copiar o início e o fim justamente do texto que dá título ao livro.

Como supor que um poeta tenha um laboratório e sobretudo - para quê?
Mesmo quando faz ciência, o poeta não põe óculos - põe asas.
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Publicou o Sr. Álvaro Maia no Contemporânea um artigo bastante infeliz, criticando um do meu querido Fernando Pessoa sobre a bela individualidade de António Botto. Nesse artigo o Sr. Maia, sem argumentar, cobre o autor das Canções de insultos os mais grosseiros. E através duma pretensiosa e falsa erudição em que só se sente o vazio, não havendo na sua obrinha a mínima substância, não havendo enfim, nada, o Sr. Maia chega ao ponto, na sua bílis invejosa e despeitada perante a alheia formosura do corpo e do espírito que ele, coitado, não pode possuir, chega ao ponto, digo, de negar talento e arte ao grande poeta que é António Botto.

António Botto
Ora mais respeito pelos artistas, Sr. Maia. O senhor não tem o direito de cuspir na Arte lá porque é torto e feio. Se Deus lhe deu essa figura por alguma coisa foi e nessas condições o senhor, que se diz tão religioso, submeta-se sem revolta, sem gestos abomináveis de bílis plebeia, à vontade divina.

António Botto está já consagrado na alma de Fernando Pessoa, uma das mais altas individualidades de toda a nossa literatura, tão rica de Espíritos.

(...) não é para defender António Botto que aqui estou. (...) O que eu quero é precisamente atacá-lo nessa crítica tão insensata quanto vazia.

A propósito da bela individualidade de António Botto, o Sr. Maia ataca a luxúria e a pederastia, Obras Divinas. Incapaz de sentir os prazeres altíssimos da Carne-Espírito que o Verbo consagrou, ataca-os duma forma vil e tola. Como a Razão herética, filha da Serpente e do Anticristo, contraria o delírio da carne divinizada que é uma expressão de loucura bestialmente espiritual a negar a Razão, sacrílega anti-Loucura, anti-Vertigem, o Sr. Maia, esquecendo-se de que o racionalismo é filho dos últimos séculos de heresia e livre exame, enaltece-o encomiasticamente só para satisfazer a sua bílis contra a vertigem luxuriosa da Vida, antítese da Razão.(...)

O pederasta e luxurioso alheado das cousas divinas não é digno de censura por ser pederasta e luxurioso; é-o apenas como quaisquer outros homens  - o do lar, o comerciante honrado, o escroque por não exercer o vício misticamente.

Mas quem o pode hoje exercer no ambiente terreno, naturalista das nossas cidades e em que os nossos companheiros do vício se alheiam de Deus, sua própria essência?... Criem-se templos de Luxúria em que esta tome uma feição litúrgica e só então surgirá o verdadeiro sensualismo místico que há-de exprimir a divinização do Mundo, a divinização de Sodoma estabelecida exaltadamente pelo Verbo e pelo Espírito Santo de Deus!


[Excerto de Sodoma Divinizada - Leves reflexões teometafísicas sobre um artigo, por Raul Leal (Henoch)]

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A legenda da primeira fotografia das gaivotas é uma afirmação da autoria de João Chagas a propósito de Guerra Junqueiro que em 1904 'vai pôr o mundo científico de Paris ao corrente de trabalhos sobre rádio, feitos no seu laboratório' e faz parte do capítulo 'Cronologia, ou quase' do livro Sodoma Divinizada de Raul Leal, organização, introdução e cronologia de Aníbal Fernandes da ed. Guimarães.
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Lá em cima Bryn Terfel & Renée Fleming interpretam Là ci darem la mano (Mozart)

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E aceitem, por favor, o meu convite e desçam até ao azul do sol a sul.

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domingo, maio 15, 2016

Fernanda Câncio, Sócrates, o Caso Marquês, a Visão, o Correio da Manhã
- ou o longo lamento de uma mulher fatigada




Ando num tal estado que parece que nada do que interessa à comunicação social me interessa a mim. Não pego num jornal em papel há que tempos. Passo uma vista de olhos pelos jornais online para ver o que está a acontecer à superfície da terra mas sinto-me frequentemente descoroçoada com o relevo que os jornais portugueses dão a vacuidades.

Por isso, a notícia publicitada pela Visão sobre o artigo de Fernanda Câncio a propósito do pretendido envolvimento no Caso Marquês não fez tocar, em mim, nenhuma campainha. Depois, os destaques e o que li na blogosfera também não, continuei indiferente. 


Contudo, mão amiga -- a quem agradeço -- fez-me chegar ontem o dito artigo. Li-o há pouco. E li com algum desconforto e, sobretudo, pena. Agora li o que Fernanda Câncio, a propósito, escreveu no Jugular -- o processo marquês e eu (e a visão) -- e o que sinto é a mesma coisa. Sobretudo pena.


Há neste caso qualquer coisa de trágico. 

Fernanda Câncio namorou José Sócrates. Tê-lo-á amado. Como qualquer namorada, ter-se-á sentido apaixonada por ele, ter-se-á sentido bem nos seus braços.

Depois afastaram-se. Acontece.

O que seria normal seria que, tendo-se afastado, cada um fosse à sua vida. No entanto, ao que se vê, Fernanda Câncio continua a viver com a sombra de Sócrates enleada em si.

Sócrates é um homem inteligente, carismático, voluntarioso e que sempre despertou ódios e paixões. Depois de, no seu primeiro mandato, ter sido um primeiro-ministro bem sucedido e, depois de, na sequência da crise financeira internacional, ter suado as estopinhas e lutado como um leão, por vezes como um leão acossado, e de ter caído às mãos de uma espúria aliança esquerda/direita, poderia ter finalmente atingido o momento da sua vida em que poderia descansar (até se abalançar a novos voos).

Contudo, qualquer coisa nele sempre parece atrair a blasfémia, a injúria, a tempestade.

Poderia isso ter terminado ao ir para Paris. Mas não. Os jornais perseguiram-no, as investigações também.

Não sou de ir em conversas. Penso por mim. Julgo o que tenho a julgar. Sócrates para mim foi e é um político e é como político que o avalio. E avaliá-lo politicamente é, sobretudo, votar ou não votar nele e, no intervalo, avaliar a justeza das medidas que defendia ou implementava. Votei nele das duas vezes e continuo a achar que, de cada vez que foi a votos, era a melhor alternativa. 
Não sou de me abster nem de me distrair com utopias. 
Se nas eleições vão a votos A e B, é entre A e B que escolho. 
Se não estou muito satisfeita com A mas sei que, se o apear, virá B que é pior, pois que, até haver melhor opção, fique A.

Depois, indícios que podem levantar suspeições relativas a ilícitos são para ser avaliados judicialmente. Não politicamente, muito menos na praça pública.

Não faço juízos de valor nem condenações morais a partir do que o Correio da Manhã ou o Jornal i lançam para a opinião pública. 

Custa-me que uma pessoa, ao ser detida, tenha a televisão a filmá-la, custa-me que a pessoa seja difamada e acusada na praça pública e que, ao fim de ano e meio, ainda não esteja acusada de nada.

Ninguém deveria estar sujeito a tal insanidade.

Madoff foi indiciado, julgado e condenado em quanto tempo? Se não estou em erro, em três meses.

Sócrates já esteve preso como se fosse um bandido e agora, apesar de em liberdade, continua com a vida em suspenso. Sem poder trabalhar, vive a aguardar que um omnisciente e omnipresente Juíz Alexandre (sobre quem caem todos os casos de peso neste país) se decida a não sei o quê e que um falhado Rosário Teixeira continue a investigar o rabo da pescada que a amiga de Sócrates deixou no prato depois de almoçar num restaurante que, vendo bem as coisas, pertence a um sujeito que já foi sócio de um outro que veio das Beiras e que deve ter conhecido o primo do amigo do tio de Carlos Santos Silva. Um filme que, se não fosse dramático para quem o vive por dentro, seria uma comédia.

E, em volta de Sócrates, vão caindo como arguidos ou potenciais arguidos todos os que mais próximos estiveram dele: a ex-mulher, a ex-namorada e mais uma mão cheia de pessoas.

Fernanda Câncio, depois de, ao longo de penosos meses, se ter visto envolvida em insinuações e acusações por parte das bocas infectas do Correio da Manhã, tremeu nos alicerces e sentiu que devia explicar-se.

No longo texto que escreveu, transcreve as acusações, desmonta-as, nega-as. Lendo-a, fica à vista a sabujice mental e a paranóia torcionária do jornalismo que se pratica no Correio da Manhã.

No entanto, não sei se Fernanda Câncio fez bem em fazê-lo. Eu, penso eu, não o teria feito -- pelo menos daquela maneira. No entanto, sei lá eu como é viver uma situação destas.

A questão, em meu entender, é que agora vê-se a ela própria na capa de uma revista, vê-se a ela própria envolvida numa coisa com que nada tem a ver.

Penso também que escusava de ser tão extensa na explanação das suas razões e, sobretudo, escusava de ter deixado subjacente um juízo moral sobre a utilização de dinheiro emprestado por parte de Sócrates. Ao fazê-lo, propaga, junto da opinião pública, o seu juízo moral a propósito de um homem que, em tempos, amou. Ora, para além do mais, o seu juízo moral sobre o homem que namorou não é tema público nem acrescenta nada ao que está em causa.

Se Sócrates cometeu actos ilícitos pois que o acusem e que vá a julgamento. E que, se for julgado culpado, que pague. 

Mas que se despachem com o processo dito Marquês. É inadmissível o tempo da justiça em Portugal. E não é só com Sócrates, é com tudo. Uma vergonha.

E que, se nada houver contra Sócrates (como tantas vezes acontece com estas longas investigações em que desgraçam a vida das pessoas a troco de coisa nenhuma), pois que nunca mais exerçam justiça neste País porque serão comprovadamente incompetentes, insensíveis e desumanos.

Quanto a Fernanda Câncio, compreendo que, sendo jornalista, não consiga alhear-se do mau jornalismo que se pratica em Portugal. E, até por isso, é trágico o que lhe está a acontecer. Agora queixa-se do sensacionalismo de que foi vítima por parte da Visão que, no fundo, se vem somar ao sensacionalismo do Correio da Manhã. No entanto, ao querer defender-se, veio, afinal, ajudar a alimentar o dito sensacionalismo.



O que eu lhe aconselharia -- até porque simpatizo com a sua maneira de ser frontal e a sua escrita talhada a direito (embora, por vezes, em minha opinião, não colocando em perspectiva a importância de algumas causas) -- seria que, se conseguisse, se lembrasse sobretudo de viver a sua própria vida, pôr tudo isto para trás das costas, retomar uma vida normal, recuperar a alegria, esquecer esta teia putrefacta em que se tem visto envolvida. O mundo existe para além do que os jornais como o Correio da Manhã e sucedâneos relatam e, até, para além de José Sócrates.

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Lá em cima Renée Fleming interpreta a terceira das 'Vier letzte lieder' de Richard Strauss sob condução de Claudio Abbado.

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Já dei seguimento à minha história mas não está fácil arranjar fotografias para a ilustrar, e agora tenho que parar com isto e ir para outra. Mas daqui a nada, já a publico.

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Contudo, entretanto, desejo-vos já, Caros Leitores, um belo dia de domingo.


quarta-feira, maio 11, 2016

A mulher que gosta que lhe falem de árvores


Se lhe perguntassem no que estava a pensar quando entrou naquela casa, diria que não fazia ideia. Muito menos saberia responder à pergunta óbvia.

Simplesmente estava a entrar na casa onde alguém lhe sugerira que fosse naquele dia.

Quando bateu à porta ainda pensou, por breves instantes, o que responderia se lhe perguntassem o que pretendia. Mas não teve tempo de tentar encontrar a resposta.



A grande porta abriu-se automaticamente e ela entrou. Estava num pátio interior. À esquerda e à direita duas portas abertas, cada uma delas dando para um corredor que, de certa forma pareciam fazer parte de dois estreitos braços que circundavam o pátio. Em frente, uma escada de pedra. Ao fundo, por detrás da escadaria, uma parede coberta por heras e de onde, do que pareciam ser aberturas, pendiam enormes fetos.

Começou a chover ao de leve e ela olhou em volta, sem saber bem onde se dirigir. Reparou então que, num recanto, havia um telheiro sob o qual havia um largo e comprido banco de pedra. À frente um outro canteiro de fetos quase encobria aquele espaço. Sentou-se. Sentia-se abrigada, tranquila, sem qualquer sombra de inquietação ou, sequer, curiosidade. Não fazia a mínima ideia de que casa era aquela nem quem é que lá estaria. Em casa não tinha dito nada até porque de véspera ou de manhã ainda não tinha resolvido ir. No emprego, antes de sair para almoço disse que precisava de tirar a tarde de férias. Portanto, não dissera a ninguém onde vinha. Noutras circunstâncias ter-se-ia precavido, arranjado maneira de ir com companhia ou, pelo menos, avisado para o caso de, se alguma coisa corresse mal, saberem onde procurá-la. Mas não tomou quaisquer cuidados.

Foi olhando em volta. Havia uma laranjeira florida, o perfume era intenso. Por trás da casa, e não percebeu se fazia parte do terreno, havia uma árvores muito altas que não reconheceu.

Havia, no pátio, junto às paredes laterais, uns vasos de pedra muito grandes com árvores de pequeno porte floridas. Os pássaros cantavam muito alto mas não viu nenhum.

Encostou a cabeça à parede, fechou os olhos e deixou-se ficar a aspirar os aromas, a sentir a frescura do ar molhado, o canto dos pássaros. Talvez tenha adormecido.

Não sabe quanto tempo depois, ouviu um som que não reconheceu, umas pancadas, mas, logo depois, ouviu o barulho da porta a ranger, a abrir-se. Manteve-se serena, sem qualquer expectativa.

Viu que entrava um homem que igualmente se detinha, olhando em volta. Ficou um bocado no meio do pátio. A chuva tinha parado. Olhava as escadas, depois olhou o telemóvel, depois deu alguns passos em volta. Depois, devagar, começou a subir as escadas, hesitante.

Ela não fazia a mínima ideia de quem ele era mas não sentiu curiosidade.

Ouviu que o telefone lhe tocava na carteira mas não atendeu. Pouco depois, de novo. Nem sequer viu quem era. 

Algum tempo depois, ocorreu-lhe que não deveria ficar ali até tarde demais. Por coincidência, nessa altura, começou a ouvir um canto. A Norma? Tentou perceber mas os seus conhecimentos musicais não eram famosos. Então, sem pensar, levantou-se e dirigiu-se às escadas. Depois das escadas, um varandim de pedra. Olhou em volta. Não se via para fora da casa, os muros e as árvores envolviam-na. Viu, lá em baixo, o abrigo onde tinha estado sentada.

Ao fundo, uma grande porta de madeira. Experimentou empurrar. Estava fechada. Deu a volta à argola que servia de puxador. Abriu. A música mais audível. Foi entrando.

Um corredor, uma grande sala, jarrões de porcelana, grandes sofás de veludo, tapeçarias, grandes quadros, talvez retratos de família, um relógio de pé, um piano, outro corredor, outra sala, uma enorme lareira, uma mesa de jogo, cadeiras em volta, mais sofás. Cortinados de veludo e renda. Outra sala. Olhou em volta, pensou que queria ver de onde vinha a música.

Estava mais próxima. Foi andando. 

Quando chegou à sala de onde vinha a música, uma sala com as paredes forrada de papel claro, com uns curiosos panejamentos no tecto e tapetes sobre tapetes, dirigiu-se a um cadeirão para se sentar.

Quando se sentou, reparou que, em frente, num sofá, estava o homem: deitado, a cabeça sobre uma almofada, os óculos em cima do peito, de meias, os sapatos tombados no chão. Quando a viu, ele, sobressaltado, deu um salto. Embaraçado, colocou os óculos, tentou calçar-se sem olhar para os pés. Ela permaneceu sentada, sorrindo, olhando para aquela atrapalhação.

Já calçado, ele disse: ‘Não sei quem é’.

Ela, com ar levemente irónico, disse: ‘Eu também não sei quem você é’.

Ele, então, disse em tom de desafio: ‘Mas eu talvez seja capaz de adivinhar’.

Ela sorriu: ‘Adivinhar quem eu sou...? Será…?’.

E ele, ‘Acho que sim’.

E ela ‘Não sei. Para isso, teria eu que me deixar adivinhar e não sei se quero’.

Ele sorriu. ‘Está certo’. Depois de uma pausa, disse: ‘Já pensava que não vinha’.

Ela: ‘Já cá estou quase desde a hora de almoço. Estive a dormir a sesta lá em baixo’.

Ele arqueou as sobrancelhas, admirado: ‘Desculpe…? Como…?’

Ela disse: ‘Daqui a nada já lhe mostro o que elegi como boudoir para o meu sono de beleza’.

Ele sorriu, ar intrigado: ‘Ah sim…? Está certo. A senhora manda. Olhe, permita: toma alguma coisa?’. Ela riu de novo. Ele perguntou: ‘O que foi?’

Ela riu, abanou a cabeça, ‘Nada’, mas o sorriso era malicioso. Respondeu antes: ‘Chá. Pode ser?’

Ele disse: ‘Já lhe disse: a senhora manda.’. Chegou junto a uma parede e, aproximando-se de uma grelha, puxou um fio e disse: ‘Um chá e uma imperial, se faz favor’. Ela riu-se. Da parede saíu um fio de voz. Ele perguntou-lhe então: ‘Perguntam-me que chá prefere’.

Ela respondeu: ‘Qualquer. Ou chá ou infusão, qualquer coisa. Jasmim, cidreira, lúcia-lima’.

Ele riu ‘Não é esquisita’.

Ela disse: ‘Sou, sou. Muito. Mas não com o chá’.

Ele, sorrindo, disse para o intercomunicador. ‘De flor de laranjeira’.

Ela deu uma leve gargalhada ‘Perfeito. Condiz comigo.’

Ele maliciou: ‘Isso ainda havemos de ver’. 

Quando chegou uma empregada, fardada a preceito, com avental plissado em branco, estavam eles de pé, à janela, ele a falar-lhe das árvores, ela a ouvir atentamente. Sempre tinha gostado que lhe falassem de árvores.

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Lá em cima Renée Fleming interpreta (no Palácio dos Czares em Saint Petersburg) a Casta Diva da ópera Norma de Bellini. 

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E caso vos apeteça conhecer um pouco do livro que tão descaradamente me tentou esta terça-feira queiram, por favor, descer até ao post que se segue. Um livro surpreendente que muito vivamente recomendo.


quarta-feira, março 23, 2016

Sob a pele
- um passo no sentido da impossibilidade


No post abaixo falei do atentado terrorista de Bruxelas e de como me parecem fátuos os fogos de indignação que se elevam pedindo que seja olho por olho, dente por dente. Quando escrevo sobre estes temas dói-me a impotência que sinto por me sentir fechada num mundo manietado por gente estúpida.

Por isso, se me permitem, mudo de registo, parto para outra. Sinto necessidade de respirar ar puro. Ou de me alienar - como queiram.




Milhões de horas já foram certamente despendidas a definir arte e nenhuma foi a definitiva nem alguma vez será. Identicamente nunca será definida de forma última a escala de valor para a arte. Estamos no domínio da subjectividade e cada um fala por si. Pode o ‘mercado’, como um deus cego, desprezar uns ou idolatrar outros, podem os homens, alguns, tentar impor algum nivelamento ou ditar modas, podem os tempos estabilizar numa relativa uniformidade de apreço e tudo isso, de alguma forma, estabelecer uma base valorimétrica -- mas uma coisa será sempre certa: nada disso será alguma vez passível de definição ou explicação inequívoca.

A olhos leigos tudo é relativo. No outro dia, na Casa da Cerca, em cima dos bancos de pedra, junto à janela, estavam uns rolos de pano ou umas coisas com cordas (já não me lembro bem e, pelas fotografias, não consigo perceber). Percebi que era uma instalação da Ana Vidigal.


Não percebo se tem valor comercial ou se tem algum sentido ou valor estético. Podia não ter mas eu gostar. Contudo, a mim nada me diz. E, no entanto, Ana Vidigal é um nome sólido nas artes nacionais. Também há umas duas semanas, ao vermos uma exposição  de peças atípicas ou vídeos do além, deparámo-nos, junto a uma das paredes, com um balde e uma esfregona. A minha filha, na brincadeira, perguntou se seria também uma obra de arte e os miúdos olharam para saber a resposta, talvez admitindo que pudesse ser. E não sei se era. Também na Casa da Cerca vi descrita como escultura uma ‘cena’ que era um grande livro com pedras entre as folhas.



Olho esse género de coisas com estranheza. No entanto, várias pessoas acharam normal ou gostaram e por isso as expõem. Não sou fundamentalista, não me choca, não generalizo: apenas passo à frente.

Mas já me aconteceu muitas vezes ficar caída de amores por uma peça de arte e ver, com espanto, que os outros a olham com indiferença ou desprezo. Tantas vezes isso.
Nessas alturas tenho que refrear os pensamentos que, indignados, ladram no meu ouvido: ‘há com cada uma… quem diria que me ia sair um burro encartado desta maneira…?’. Depois censuro-me, penso que gostos não se discutem, que não tem nada a ver e penso, uma vez mais, que tenho pensamentos que me deveriam envergonhar.
Um dos artistas que encaixa neste género é Rui Chafes. Gosto dele. Mas conheço pessoas que o acham desinteressante, pouco artista. Contudo, as suas obras têm, a meus olhos, uma beleza intangível que não sei situar em categorias ou descrever por palavras.


Para já, têm aquilo que me atrai: não se parecem com nada. E é disso que eu gosto: aprender formas, corpos, sombras, desequilíbrios.

Explico-me. Se virmos a estátua de Catarina de Bragança na Expo, cuja fotografia há tempos aqui coloquei, perceberemos o que quero dizer: é perfeita, uma mulher bonita esplendidamente passada para um material que a perpetuará.


Acho interessante que se queira eternizar a imagem de algumas pessoas em pedra ou metal. Contudo, estátuas como esta deixam-me indiferente. É quase como ver uma fotografia a três dimensões. Nada de extraordinário, apenas a mestria de quem fez o exercício.

No entanto, vejo um volume pesado, metálico, suspenso, sem forma reconhecível, sem propósito, e logo eu fico parada, agradada, com vontade de assimilar a estranheza.

Desde que tive contacto com a obra de Rui Chafes logo me senti intrigada, e do pasmo logo nasceu a vontade de ver mais, para me admirar, para  não reconhecer o que de indefinido cobre aquelas peças. E logo senti que as suas palavras seriam também assim, estranhamente vindas de dentro da terra, do fogo dos elementos, fascinantes como se incompreensivelmente familiares.

Portanto, sempre que vejo as suas palavras escritas logo me abeiro, e logo vou como se entrasse num lugar desconhecido, esperando ser surpreendida: talvez uma gruta com figuras suspensas, jogos de luzes místicas, água correndo em silêncio, caminhos levando ao centro do mundo ou procurando a luz, reflexos de origem obscura.


Este livrinho parece um missal. Pequeno, escuro, uns tons de azul que encerram o mistério das palavras de Rui Chafes, compacto como retratando a personalidade e a obra do escultor onde nada parece supérfluo, onde parece haver uma coerência intrínseca. Sou muito sensível ao grafismo, ao toque dos livros. Falo de ‘Sob a Pele’, Rui Chafes, conversas com Sara Antónia Matos, uma edição Documenta, Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar.


O primeiro prazer começa logo na dimensão, o sabê-lo transportável dentro da carteira. Anda comigo. Assim que posso, abro-o, leio umas palavras ao acaso -- como agora.

O artista é um predador?
     
      Pode dizer-se que o artista tem um olhar de rapina. Dou, muitas vezes, por mim a olhar obcecadamente para um pormenor de uma pessoa, de uma planta, de uma parede, de um edifício, do que for. Fico parado a estudar a forma como a sombra de uma coluna se projecta no chão, fico preso nas qualidades de um determinado material, pode até ser o puxador de uma porta, por exemplo. A atenção pode deslocar-se, simplesmente, para um gesto da pessoa, uma ruga, um traço de expressão, um dente, uma mão, para a forma como o cabelo de uma rapariga cai sobre o pescoço, etc. Deixo de ouvir, momentaneamente, o que a pessoa está a dizer, o olhar torna-se mais importante. 
     Sempre defendi a ideia do artista-ladrão (talvez predador, como dizes). O que um bom artista faz é roubar imagens ao mundo e esconder as provas. É o roubo perfeito, no caso dos melhores artistas .... [sorriso]

Ainda dentro da temática do corpo, o que separa desejo e pornografia?

    Distância. Tenho de falar de distâncias, é isso que está em causa.
     O erótico envolve poesia e esta nasce, ou advém, da distância (...). A poesia é sempre um passo no sentido da impossibilidade e, portanto, se não houver esse espaço de inacessibilidade, que separa o sujeito do objecto pretendido, não há poesia nem erotismo. Há um colapso entre sujeito e objecto, que resulta da anulação da distância, e que corresponde ao 'já', ao 'aqui e agora', e à consumação imediata do acto ou do pensamento pornográfico.


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Viagem aos confins de um sítio onde nunca estive 

Filme de João Mário Grilo sobre a exposição 'O Peso do Paraíso' de Rui Chafes
CAM -- Centro de Arte Moderna, Lisboa 2014

 

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Lá em cima Renée Fleming, com a Prague Symphony Orchestra, interpreta 'Morgen' de Richard Strauss
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E permitam que me repita: para temas tristemente actuais queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde afloro o que penso sobre a forma como acho que deveríamos olhar para isto do terrorismo na Europa (e só falo da Europa porque, se disto porque entendo, imagine-se a minha ignorância relativamente a outras geografias)

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sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Eis que se abre um pouco mais a grande porta do infinito:
"Ladies and gentlemen, we have detected gravitational waves. We did it!"






No outro dia escreviMas sei que há uma flor navegando pelos ares, que há água e estranhas formas de vida noutros planetas, que há milhões de sóis, milhões de céus, milhões de sonhos perdidos em órbitas desencontradas, palavras flutuando sobre as ondas que as marés siderais levam e trazem, medusas aladas, anjos, luas, pedrinhas, memórias, braços que procuram abraços, sons estelares, infinitos nadas; e lugares escuros, sem tempo, onde passado, presente e futuro se misturam. 



Não escrevi por escrever: escrevi porque é assim que vejo o vasto espaço que nós habitamos -- nós seres ínfimos, insignificantes, pouco inteligentes, uns entre muitos outros seres dispersos pela inimaginável vastidão. Vejo o vasto espaço como um imenso mar feito de partículas infinitamente pequenas que, em situação normal, isto é quando não existem brutais explosões, deslizam suavemente como vastas marés, um ondular suave que transporta memórias (restos de impactos, restos, restos não sei de quê, talvez pós de pedrinhas, invisíveis areias vindas de longínquas luas, poeiras do que antes foram pessoas, agora talvez anjos), um espaço atravessado por sons provenientes do movimento dos astros, dos astros que morreram, dos que são sugados para o interior de si próprios, dos que se expandem mais do que exponencialmente. Vejo isto na minha cabeça. Vejo a partir do que leio. Vejo talvez a partir de sonhos vindos não sei de onde. Estava a escrever aquilo e, como disse no fim do texto, era como se não fosse eu a escrever -- de tal maneira que não consegui dar título ao que escrevi.


Falar da Física tem este misterioso efeito sobre mim, falo sem saber do que falo, falo como se os rastos de luz que aquilo que não se vê deixa na atmosfera guiassem as minhas mãos. Sinto-me cega, tacteando o invisível, querendo descobrir o desconhecido, o intangível, o imaterial, percorrendo caminhos que não vejo, que nunca vi e que me levam não sei onde. Cega, inocente como uma criança, inventando histórias impossíveis, dou por mim a acreditar que por vezes em mim coexistem aquilo que fui, que fui nesta minha vida, com aquilo que fui num qualquer outro corpo (seja de mulher, seja de cavalo ou gaivota), e também com aquilo que sou agora e com aquilo que serei. Uma fusão intraduzível em palavras. E também sinto, por vezes, que estou perto daqueles a quem posso tocar com as mãos mas também perto dos que, estando longe, estão aqui, agora, ao meu lado, porque me lêem, porque me querem bem, porque, como dizia a Rita num comentário a um texto mais abaixo 'somos todos mais parecidos do que nos julgamos', tão parecidos que nos tocamos, nos interseccionamos e que, parte de mim, está agora convosco tal como agora que escrevo tenho aqui comigo alguns de vós. Sei que escrito assim pode parecer uma coisa de doidos mas é o que eu sinto como verdadeiro, sem que consiga explicar o que quer que seja a propósito disto -- melhor: sem que queira explicar.


A verdade é que, se eu deixar de me impor barreiras e deixar que o meu pensamento flua, ponho-me a dizer coisas sem um nexo identificável. E, como disse, não tento sequer pôr ordem nas minhas palavras não vá perder-se o fio de ariadne que me conduz através do infinito labirinto. Eu que gosto tanto de brincar a transformar o mundo em modelos e que me delicio com os milagres da simulação que se aproxima tão tangencialmente da inteligência artificial, em momentos assim, seria incapaz de verter o meu despensamento em expressões algébricas. Pelo contrário, toda eu me movo na mais pura abstração e se tivesse que descrever por onde ando, falaria de espaços que são abertos, sem formas identificáveis, uma imensidão sem princípio nem fim, percorrida por algo que não é silêncio nem som, por um movimento que não se sente, sem sombras nem luz, onde o tempo não existe e onde tudo é tudo. E penso que gostaria de ser capaz de me exprimir sem recorrer a estas palavras que estão puídas de tanto uso pois queria falar de realidades primevas, espaços e tempos em que a razão dispensava a expressão, em que a emoção existia envolta em silenciosos e apenas pressentidos frémitos.


Querer equacionar, neste contexto, como foi que tudo começou parece-me pensamento fútil. Não começou. O imenso infinito onde muitos mil sóis, muitas mil luas, muitos mil seres navegam em elegantes movimentos ou desaparecem recuando ao âmago da sua origem ou se expandem em louca exuberância é um contínuo sem princípio nem fim. Se não há começo não há, pois, quem o tenha começado. Mas, se não há um deus fundador, há, sim, muitos mil deuses. É a feliz aleatoriedade que por vezes é mãe da harmonia e da felicidade, é a beleza das descobertas ocasionais, é a suavidade das convergências improváveis, é a infinita mão que nos protege, feita da memória de todas as boas mãos que alguma vez existiram, é o bailado milagroso que se dança dentro nossa cabeça e do qual nasce a nossa capacidade de olhar, de ouvir, de sentir, de amar, de escrever poesia, de escrever palavras sem dono, injustificáveis como números primos.


Nesta quinta-feira, à hora de almoço, olhei o telemóvel, espreitei as notícias. E só não caí de joelhos porque me segurei. Tinha sido anunciada a descoberta das ondas gravitacionais. Pensei logo nas minhas ondas das marés siderais. Fechei os olhos, arrepiada. Finalmente. Depois abri os olhos, procurei mais informação. Só me apetecia ir para o campo, para o meio das árvores, ou para  a beira do mar, deitar-me, encostar os ouvidos à superfície do planeta, tentar ouvir os seus segredos, adivinhar o mistério que ele esconde. Mas depois pensei que o segredo não está no interior da terra. E depois pensei que não há segredo. E depois pensei que o que há é beleza, a magia da infinita beleza, a mágica beleza do infinito.


Onda gravitacional é a onda que transmite energia por meio de deformações no tecido do espaço-tempo, ou seja, perturbando o campo gravitacional. A teoria geral da relatividade prediz que massas aceleradas podem causar este fenómeno, que se propaga com a velocidade da luz.(...) Em 2016, pesquisadores do projeto LIGO (Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory) observaram "distorções no espaço e no tempo" causadas por um par de objetos com massas enormes interagindo entre si. Acerca da descoberta, David Reitze, diretor do projeto, em uma entrevista coletiva em Washington, disse: "Nós detectamos ondas gravitacionais. Nós conseguimos".



O avanço científico está a ser recebido com uma das descobertas do século. A equipa internacional que fez a descoberta diz que esta primeira deteção das ondas gravitacionais significa a entrada numa nova era na astronomia.

O físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955) defendeu, na Teoria da Relatividade Geral, que o celebrizou, que os objetos que se movem no Universo produzem ondulações no espaço-tempo e que estas se propagam pelo espaço. Previu, assim, a existência das ondas gravitacionais e demonstrá-la de forma direta era o último desafio em aberto da Relatividade.



E leio, sobretudo, a contagiante alegria de Carlos Fiolhais: HABEMUS ONDAS GRAVITACIONAIS! 

Como disse um dos cientistas envolvidos, até agora só tínhamos olhos para o espaço, Agora temos também "ouvidos". E o espaço não é um sítio de pasmaceira, é um cenário de acontecimentos violentos, que nos fornece feéricos espectáculos de luz e cor.
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Vídeos sobre as Ondas Gravitacionais




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No meio de guerras com armas de toda a espécie, incluindo as financeiras, eis que mais uma porta maravilhosa se abriu. E, portanto, se, por um lado, vivemos tempos sombrios, por outro, atravessamos uma época de luz.
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Lá em cima, Renée Fleming interpretou a Canção à Lua de Dvorak

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E, depois disto, caso sejam dados a gostos estranhos como mergulhar na lama, mais propriamente no imenso lamaçal em que está transformada a comunicação social portuguesa completamente infestada pelos PàFs e pró-PàFs, queiram, então, por favor, deslizar até ao post já a seguir onde falo da forma implacável como Manuela Ferreira Leite lhes baixou os fundilhos e lhes aplicou umas valentes nalgadas. E aplaudi, claro está.


segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Decadência


No post abaixo falei da Grécia, da dupla Tsipras e Varoufakis que anda a deixar a velha guarda sem saber como articular a gramática ao falar deles, e da santa papalvice dos saloios tugas que por aí andam metidos a bestas a dar ensinadelas aos novos ministros. Cometi um atentado enfeitando o texto com obras de Paula Rego e, para terminar, mostrei um vídeo encantador que mete um cachorinho perdido, uns cavalos leais e um lobo mau.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Depois das aulas, depois do lanche, depois dos deveres cumpridos, era-me permitido entrar na sala dos crescidos. Tinha que me comportar, falar em voz baixa, permanecer discreta enquanto os adultos conferenciavam entre si. Levava um livro, um bordado, um jogo. Deveria sentar-me à mesa mas pedia sempre para me sentar na senhorinha de veludo cor de rosa. O olhar que recebia era de repreensão, Sempre a querer aquilo que não te está destinado, mas, para evitar palavras desagradáveis, ouvia um Só por hoje ciciado em tom de censura.

Por vezes eles jogavam cartas, outras vezes falavam de partilhas, da vizinhança, da homilia, de dinheiros, de empregados, de dívidas. Sempre que a conversa envolvia juros, que eu não sabia o que era, ou bancos, a minha mãe fazia um ar aflito e falava ainda mais baixo. O meu pai cada vez aparecia menos. Eu tinha medo que ele morresse, quase parecia meu avô, e cada vez o via com um ar mais preocupado.

O tempo foi passando e as carpetes ficando puídas. Os adultos foram envelhecendo, o tom de pele das tias foi perdendo o viço, as primas foram para longe. Aos poucos a casa foi ficando mais vazia.

As empregadas começaram a falar pelos cantos, havia preocupação nos semblantes. Eu perguntava porque não se arranjavam os tapetes ou os cortinados e ninguém me respondia. Depois, aos poucos, os tapetes e os cortinados também foram desaparecendo.

Até que os homens da casa começaram também a deixar de aparecer. O caseiro, o jardineiro, o pai. Perguntei. Que iam tratar de uns assuntos noutras terras. Assustada, E voltam? e logo que Esta criança, só perguntas. Fui a criança até muito tarde pois estou em crer que, com tantos problemas, ninguém reparou que eu ia crescendo.

Depois foram os castiçais que desapareceram. Perguntei, Mãe, e os castiçais grandes? e logo uma resposta seca, Estavam amarelos, precisavam de ser areados. Mandei pôr uns mais simples, são mais fáceis de limpar. E eu percebia que não devia perguntar mais nada.

De pequena fui, assim, aprendendo a perceber a angústia no silêncio dos outros.

Depois as mulheres começaram também a escassear. As tias já quase não apareciam. Amigas nunca as conheci. A seguir foi a cozinheira. Começámos a comer mal. Sopa que parecia água, arroz com couves. Mãe, porque é que não se junta um ovo? e a minha mãe, nervosa, Sei lá se ainda há galinhas.

Um dia, o chão tinha bocados de gesso. Olhei para o tecto e reparei que estava a desfazer-se. Não disse nada porque senti a tristeza no olhar da minha mãe. 

A partir daí, quase não falávamos. Não queríamos verbalizar a tristeza perante a decadência da casa e das nossas vidas. Fui crescendo, magra, pálida, vendo a minha mãe sempre triste, cabelos precocemente brancos, vestidos mal arranjados. Sentávamo-nos as duas na sala. Ela já não se importava que eu me sentasse a ler na senhorinha de veludo quase sem cor. Sentava-se a olhar para a janela ou para o quadro grande na parede em frente. Por vezes trazia também um livro, uma revista velha mas, a maioria das vezes, vinha com as mãos vazias. Sentava-se à mesa, apoiava as mãos no tampo que geralmente tinha pó e ficava a olhar para elas. 

Sentindo-a tão sozinha, habituei-me a trazer comigo uma bolsa de pano juntamente com o livro que estava a ler e, quando a via mais triste, levantava-me e punha-me atrás dela. Ela não se mexia, era como se nem me sentisse. Então eu tirava o pente e ganchos da bolsa e começava a penteá-la. Gostava de lhe fazer uma trança que depois lhe enrolava em volta da cabeça. Outras vezes fazia-lhe duas tranças e ela parecia uma boneca velha, uma trança branca de cada lado. Depois levantava as tranças e prendia-as em cima, parecia saída de um quadro antigo. Ela não dizia nada mas eu sentia-a abandonada, como que entregue ao afecto que se desprendia das minhas mãos.

A casa estava cada vez mais desolada, fria, pobre. A decadência abria fissuras cada vez mais profundas nas paredes, nas janelas, nos tectos, nas terras, na mente da minha mãe.

Um dia cheguei a casa e a porta estava aberta, as janelas abertas. O cão andava de divisão em divisão, ganindo. Chamei por ela. Ao fim de muito tempo apareceu, despenteada, o vestido roto, suja de terra. 

Perguntei-lhe onde tinha andado, o que tinha acontecido. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, mas o choro era silencioso. Depois disse-me para eu vender o quadro grande e, com o dinheiro da venda, ir estudar para longe. Tive vontade de chorar mas há muito que me tinha aprendido a conter. Mãe, não diga isso. Não nos vamos desfazer do quadro da sua irmã. Desde que a minha memória alcançava que não se falava naquela tia mais velha, que tinha morrido quando eu era pequena. Então a minha mãe disse, Não é minha irmã, é a mulher do teu pai. Fiquei sem palavras. E ela saíu de casa para nunca mais voltar.


No outro dia voltei lá. A casa está igual, a sala parece perdida no tempo e, em frente do retrato da mulher do meu pai, pareceu-me ver o vulto transparente da minha mãe, perdida nas suas recordações, olhando as suas magras mãos vazias.

Depois, fui a pé pelos campos. Subi até ao alto do monte na extrema da vila, queria falar com o padre, saber de alguma novidade. A grande igreja do cristo azul estava também ao abandono, o vento frio trespassando-a. Não sei o que aconteceu para que todas as minhas memórias estejam a ser tão cruelmente apagadas.

Ajoelhei-me, os joelhos sobre a pedra fria e suja, e, com as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto, pedi ao cristo azul que não me abandonasse.

Quero acreditar que não me abandonará.




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As fotografias são da autoria de Martijn Fabrie e a Casta Diva (Bellini) é interpretada por Renée Fleming



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Permitam que relembre que sobre a Grécia e sobre as patéticas referências da corte passista falo no post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, abril 07, 2013

Clarice Lispector, a hora da Estrela - uma maravilhosa exposição de palavras na Gulbenkian, palavras de uma diva que muito amou a língua portuguesa







... escrever não é um ofício? ... aprendizagem então...?
- Clarice Lispector


Irei até onde o ar termina, irei até onde a grande ventania se solta uivando, irei até onde o vácuo faz uma curva, irei até onde meu fôlego me levar.



Ver a verdade seria diferente de inventar a verdade?
- Clarice Lispector


Sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, (...) faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava de morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus.



Você magnética
Dar paz ao rosto

(Lista de lembretes curiosos rabiscados pela escritora; Clarice nos anos 50 em Washington, fotografada por Erico Veríssimo)


Ali, enfim familiar, toda revelada para ele, o homem a examinou. Ela não seria bonita, se uma pessoa não a amasse. Mas tinha a beleza que se vê quando se ama o que se vê.



Olhar-se no espelho e dizer-se deslumbrada: como sou misteriosa - Clarice Lispector


Nos braços os pelos claros douravam a moça como se ela não pudesse ser trocada. Uma vez amada, ela era de rara delicadeza e beleza. Ele olhou-a curioso, simpático. Ela era capaz de fazer a felicidade de um homem; mas estranhamente tivera que enganá-lo com truques até fazê-lo feliz, e só então é que lhe mostrará que não o enganara e que a felicidade que lhe dava era real.



Aí está ele, o mar, a menos ininteligível das existências não-humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos - Clarice Lispector


'De profundis'. Joana esperou que a ideia se tornasse mais clara, que subisse das névoas aquela bola brilhante e leve que era o germe de um pensamento. 'De profundis'. Sentia-o vacilar, quase perder o equilíbrio e mergulhar para sempre em águas desconhecidas. Ou senão, a momentos, afastar as nuvens e crescer trémulo, quase emergir completamente... Depois o silêncio.



Bilhete da amiga Lygia fagundes Telles sobre um livro de Clarice Lispector 


E o primeiro verdadeiro silêncio começou a soprar. O que eu havia visto de tão tranquilo e vasto e estrangeiro nas minhas fotografias escuras e sorridentes - aquilo estava pela primeira vez fora de mim e ao meu inteiro alcance, incompreensível mas ao meu alcance.



Imagem de uma das salas da exposição. Dentro de algumas gavetas os fragmentos, as cartas, as fotografias, os apontamentos.


Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. (...) Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda húmido de lágrimas pela mãe.



A transcendência era em mim o único modo como eu podia alcançar a coisa? - Clarice Lispector?


Era o ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendessemos. Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias de mais.



Clarice Lispector fala sobre a sua vida (entrevista disponível no youtube); em primeiro plano a máquina de escrever



Pois olhando agora absorta ao redor de si, nem ela própria saberia de que modo tornar lógico e racional o facto de seu profundo amor estar espalhado, o facto do mistério estar guardado.




Cada vez eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever - Clarice Lispector

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Clarice Lispector, a hora da estrela

A exposição pode ser vista na Sala das Exposições Temporárias da Gulbenkian (cá em baixo, junto à Biblioteca, à Loja, ao Bar)

Começou no dia 5 deste mês e vai estar até 23 de Junho.



Sabendo-se da minha paixão pela obra desta escritora, foi com muito prazer que esta tarde me misturei com as suas palavras. 

Uma tarde maravilhosa. Um sol bom.

Mas, ao fim da tarde, já se fazia sentir um friozinho, gostoso mas friozinho.



Ao fim da tarde, os dois manos e a sua priminha, amigos, lindos, uns amorzinhos muito doces
(o bebé ficou em casa, adoentadinho, meu rico menino)

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Os textos (até o filme de baixo) são excertos escolhidos ao acaso, aqui dispostos sem qualquer ordem premeditada, de 'Uma maçã no escuro', 'Laços de Família', 'A paixão segundo G.H.', 'Uma aprendiz ou o livro dos prazeres', 'Perto do coração selvagem' e 'A hora da estrela', todos, claro, de Clarice Lispector (Ucrânia, 1920 - Rio de Janeiro, 1977)


Lá em cima, é Renée Fleming interpretando Casta Diva. Achei que ficava aqui bem.


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E, depois disto, apenas vos quero desejar um domingo muito feliz.