Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Manguel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Manguel. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, setembro 10, 2020

Traz-me a verde eternidade, não prodígios




Como estou em silêncio sob o alpendre, trabalhando sozinha e rodeada de buganvílias em flor, não incomodo os pássaros. Andam por ali em total liberdade. De vez em quando ouço barulhos quase estranhos que me levam a levantar-me, em silêncio, e ir tentar descobrir. Vem das árvores. Numa das vezes, um pássaro levantou-se, precipitadamente. Parecia que ouvia bater, uma pancada seca e repetida no chão e, afinal, era um pássaro. Se calhar terei que arranjar uns binóculos para tentar aprender a sua actividade.

Fui até lá ao fundo. As bananas estavam maduras. São muito estranhas, nunca vi bananas assim. O meu marido dizia que deviam ser bananas-pão, que não se comiam cruas. Apalpei-as, vi que estavam amolecidas. Como estava sem ter quem me refreasse, arrisquei. Doce, doce, doce. Um pudim macio. Apanhei as outras três. Já comi outra. O meu marido, desconfiado, não quis. Não sabe o que perde.

Coloquei num vaso o caroço de uma pêra-abacate que a minha mãe me deu. A ver se desponta. Se rebentar, transplanto-o e coloco na terra. A minha mãe diz que a vizinha tem uma no quintal e que cresce muito e dá abacates que é um gosto. Gosto de abacate macia misturada com kefir, canela, cajus, arandos, um fio de mel. No outro dia, a minha filha trouxe-me um boião com pólen de abelhas, em grão. Agora misturo-o no kefir da manhã e aquele crocante dá uma graça suplementar à papinha fresca e gostosa com que começo o dia.

Ao fim da tarde, voltámos a ir fazer uma caminhada na praia. O mar estava tranquilíssimo. A brisa mais do que fresca estava perfumada, uma maresia doce, dourada, serena. Andavam pequenos gaivotinhos a brincar na rebentação tranquila da água. Tinha levado a máquina mas sem cartão, não consegui registar o momento. A ver se amanhã conseguimos lá voltar.

De regresso, vim regar a zona da relva a que os jactos da rega automática não chegam. Tem que se arranjar aqueles aspersores. Mas gosto de regar. Reguei também os vasos. O meu marido foi regar a horta. 

Para o jantar fiz lombos de salmão, que é coisa rápida e fácil de fazer.

Fiz assim: fui apanhar duas grandes goiabas.
(A anterior proprietária disse que eram goiabas. Continuo a achar que são marmelos. Grandes, mal cabem numa mão)
Num tabuleiro coloquei azeite, uma cebola às rodelas, os marmelos às fatias, dois tomates em metades e, por cima, os lombos de salmão. Temperei com sal. Reguei com azeite. Antes tinha aquecido o forno. Quanto o tabuleiro entrou, baixei para os 180º. Ao mesmo tempo pus no fogão, a cozer, feijão verde, batata normal e batata doce cor-de-laranja. Quando estavam cozidos, deixei ficar o feijão verde para o comermos assim mas juntei as batatas ao tabuleiro, temperei tudo com um pouco de orégãos e reguei com outro fio de azeite.

Quando tudo estava dourado e um cheirinho saboroso tinha invadido a cozinha, o processo culinário foi dado por concluído e passou-se à fase da manducação.

Mais tarde, voltei onde sempre volto: ao meu ninho. Entre almofadas macias, descanso o corpo. Ouço música. Descanso a cabeça.

Não contei ainda que, à hora de almoço e ao fim da tarde, regressei ao livro. Acabei-o, claro. Não consegui estendê-lo por mais tempo.
Dizia que o escritor não devia ter a indelicadeza de surpreender o leitor. Procurava na literatura conclusões que fossem ao mesmo tempo surpreendentes e óbvias. Lembrando que Ulisses, cansado de prodígios, chorou de amor ao ver a sua verde Ítaca, concluía: "A arte deve ser como Ítaca: de verde eternidade, não de prodígios".
(...) 
Gostava de metáforas antigas -- o tempo como um rio, a vida como uma viagem e um combate --, e esse combate e essa viagem terminaram para ele, e o rio arrastou consigo todas as coisas daqueles serões, excepto a literatura, que (teria dito Borges, citando Verlaine) é o que fica depois de o essencial, sempre inacessível às palavras, se pronunciar.
Amanhã retomarei o Narciso e Goldmund. Imersa em verde, no meio de flores e do canto dos pássaros, depois de reuniões e outros compromissos, entrarei num outro mundo.

Tempos de paz, tempos de felicidade. Tantos passos a gente vai dando e, de repente, parece que todos os passos existiram para aqui chegar. Claro que há ainda algumas pontas soltas, algumas partes por desbravar, caminhos dúbios, labirintos, poemas para ouvir, páginas por ler. Mal fora se assim não fosse, significaria que tinha chegado ao fim da minha viagem. Ora não, espero ter ainda muitas dúvidas para esclarecer, muitos conhecimentos para adquirir, muitas lutas por travar. Mas a todos os esconderijos e caminhos ínvios a luz há-de chegar e muito haverá ainda por festejar.

__________________________________________________

_________________________________________________

Fotografias de Tina Modotti com acompanhamento de Melody Gardot em So we meet again
De novo, excertos de Com Borges de Alberto Manguel
__________________________________________________

Saúde, boa sorte, boa disposição.
Be happy.

terça-feira, setembro 08, 2020

Com Borges, com Manguel



Um dia em que eu estava lá, o carteiro trouxe uma grande encomenda contendo uma edição de luxo do seu conto O congresso, publicado em Itália por Franco Maria Ricci. Era um livro enorme, encadernado em seda preta, com letras douradas e impressas num papel fabriano azul feito à mão, cada ilustração (a história vinha ilustrada com pinturas tétricas) fora colada à mão e todos os exemplares numerados. Borges pediu-me que lho descrevesse. Ouviu atentamente e exclamou: "Mas isso não é um livro, é uma caixa de chocolates!" E, a seguir, ofereceu-o ao desconcertado carteiro.

................................................


Mas também conseguia ser deliberadamente cruel. Um dia, estávamos nós sentados na sala, um escritor de cujo nome não me quero lembrar veio ler a Borges uma história que redigira em sua honra. Como tinha que ver com arruaceiros e delinquentes, julgou que Borges a apreciaria. Borges preparou-se para ouvir. As mãos sobre a bengala, os lábios ligeiramente entreabertos, os olhos fixados nas alturas sugeriam, a alguém que não o conhecesse, uma espécie de docilidade cortês. A história passava-se numa taberna cheia de personagens pouco recomendáveis. O inspector de polícia do bairro, conhecido pela sua bravura, entra desarmado e, pela simples autoridade da voz, leva os homens a deporem as armas. Então, o escritor começa a enumerá-las com entusiasmo: "Um punhal, dois revólveres, um bastão de couro..." Borges continuou na sua voz mortalmente monótona: "Três espingardas, uma bazuca, um pequeno canhão russo, cinco cimitarras, dois machetes, uma malvada de uma pistola de rolha..." O escritor conseguiu emitir uma risada. Mas Borges prosseguiu, implacável: "Três fundas, um tijolo, uma besta, cinco alabardas, um ariete..." O escritor levantou-se e desejou-nos as boas noites. Nunca mais o vimos.

_________________________________________




________________________________________

Excertos de 'Com Borges' de Alberto Manguel

+


[Não conheço a autoria das pinturas]

______________________________________

sexta-feira, setembro 04, 2020

Como as conversas devem ser sempre





Um novo dia cansativo: ir à outra casa cansa-nos. Já não existe aquela motivação que havia quando embalávamos coisas e coisas sem parar, descobrindo coisas que não víamos há tempo, desejosos de ter as nossas coisas na casa nova. Agora é o rabo da coisa a ser esfolado. Tudo o que era relevante e imprescindível já cá está. Sobra o que só se usa de quando em quando, o que passou de moda, o que é bom demais para ser deitado fora mas que, na casa nova, nem se sabe bem onde pôr. E ao início, em Julho, não estávamos tão cansados e saturados como agora já estamos. Vimos de lá exaustos, pouco nos aguentamos por lá. Devíamos conseguir estar mais tempo mas ao fim de hora e tal já estamos impacientes, já só nos apetece vir embora. Reparo agora que nem me tenho lembrado de ir à janela. E tanto que eu adorava ver o rio, a bela Lisboa dourada pela luz do fim do dia. 

Hoje já resolvi deitar para o lixo o equivalente a três grandes caixas de cartão e um saco preto do lixo, daqueles grandes. Mas ainda há muito para revirar.

Trouxemos vários travessas de inox, tabuleiros de pirex, vários de alumínio, fritadeiras (coisa que não uso há anos), toalhas de mesa, individuais que tinham ficado esquecidos, peças de barro como dois assadores de chouriço e um prato para o servir. Coisas pesadas que só visto.

Trouxemos ainda um quadro grande e dois feitos com azulejos artesanais. Creio que ficarão bem in heaven.

E depois fui-me às minhas carteiras, maletas, sacolas. Muitos anos a ser coquette é uma coisa tramada. Anos de vida urbana, anos de querer sentir-me bem arranjada, toda eu cheia de atenção aos details. Mas neste momento olho para as coisas de uma maneira diferente e penso que era outra. Carteiras (ou malas, como queiram) de todas as cores e feitios: uma cor-de-rosa, uma em azul profundo em camurça, outra em azul claro, tão bonita. Uma em amarelo torrado-dourado, outra, bolsinha, em pele castanha cor de mel, aos folhozinhos, uma graça. Outra em feltro preto, bordada em flores coloridas. E outras. Algumas, datadas ou a caminho de gastas, foram para o lixo. Mas ainda pior que serem demais: as coisas que todas ainda tinham dentro. Canetas e pens (que, Mr. X, Caríssimo Info-excluido -- já somos dois! --, não são a mesma coisa), pacotes de lenços de papel, batons já meio secos, tampões, moedas, cartas, carteiras com cartões, alguns dos quais eu procurava há séculos. Parte foi para o lixo, parte ficou num saco à espera que eu tenha tempo e disponibilidade para olhar para cada papel antes de lhe traçar a sina. E trouxe parte da bijuteria. Ainda me falta trazer aquela pequena vitrina de parede que, a meu pedido e com perfeição, o meu pai fez e onde tenho as pérolas, as pseudo-pérolas, as madre-pérolas, os corais. O meu marido trouxe um candeeiro de pé que estava meio abandonado. Tinha até ideia que não estava grande coisa. Afinal, depois de ajustado, estava bom e fica a mesmo a calhar ali num canto da zona de jantar. Viemos carregados. Uma vez mais, o carro a deitar por fora.

E ainda passámos por outros lugares pois, no meio disto, com o que deixámos para trás, reparámos que há algumas coisas que deveriam ser repostas. Passámos também pelo supermercado. Para além de limpa-vidros, de detergente para tijoleira vermelha, de lâmpadas, de autocolantes para pregar quadros (yes! mais caro do que se possa pensar mas dá um jeitão...) e etc., trouxe mantimentos diversos e... sardinhas (yes!). E assim foi que, depois de termos regressado cheios de sacos e de termos arrumado o possível (algumas coisas aguardam que eu engendre qual a melhor forma de as arrumar) e de termos tomado banho, preparei uma bela sardinhada. Batata cozida, salada de tomate, pão saloio.

Mas se a tarde foi pesada e durou até tarde, já a manhã foi tranquila, na praia. Ampla, felizmente já com pouca gente, bom tempo, um mar forte. E com leitura. Fiz um intervalo no Narciso e Goldmund. Para a praia prefiro livros pequenos, leitura que possa ser entrecortada. De Alberto Manguel, 'Com Borges'. Tão bom. Coloco o livro no meu alinhamento para ficar na sombra. O excesso de luz dissolve as palavras. De vez em quando penso que deveria esforçar-me por fixar o que leio. Mas sei que não consigo, só registo as ideias, não as próprias palavras. Agora, ao escrever isto, pensei em várias passagens; mas não consigo encontrá-las. Talvez que não seja suposto extrair frases do seu contexto. Ainda assim, arrisco transcrever este pequeno excerto.
'(...) o que, na minha cabeça, as conversas deviam ser sempre: acerca de livros e acerca do mecanismo dos livros, acerca da descoberta de escritores que eu nunca lera, e acerca de ideias que não me tinham ocorrido, ou que só dera conta de maneira hesitante e semi-intuída e que, na voz de Borges, cintilavam e deslumbravam em todo o seu rico e de algum modo óbvio esplendor. Eu não tomava notas porque, naqueles serões, me sentia demasiado satisfeito.'
E apercebo-me agora que ainda cheiro a gengibre apimentado. Trouxe da outra casa uma caixa daquele creme que adoro: Special Edition Ginger Body Yogurt. Tem um aroma apimentado que me agrada muito. Já estava menos de meio e o meu marido quase se passou quando percebeu que estava a carregar embalagens usadas. Mas ia deitar fora uma coisa de que gosto tanto...? Acabo o banho e, ainda na banheira, a pele ainda morna e húmida, passo o creme pelo corpo que o absorve de imediato deixando-me com aquele perfume levemente exótico, levemente intrigante. Gosto.

Gosto de coisas talvez insólitas: a pele perfumada com gengibre picante, conversas boas, fluidas, francas, comportamentos nobres, conversas onde as ideias cintilam, e, também, de estar deitada ao sol, ler, apanhar folhas secas na relva ao fim da tarde, sentir-me satisfeita por aprender e ter vontade de descobrir, gostar de estar com os outros, gostar que os outros gostem de estar comigo, sentir que a confiança é sagrada, mais sagrada do que mil rezas, deslumbrar-me com a cor escandalosa das flores, ficar em suspenso para melhor perceber o invisível canto dos pássaros, esperar a chegada de momentos ainda melhores. Coisas assim. Talvez simples, talvez, por vezes, inalcançáveis.


________________________________________________________

Pinturas de Yoshihito Kawase a acompanhar Ghostly Kisses em Where Do Lovers Go?

________________________________________________________________

Paz e amor. E saúde também, claro.

sábado, setembro 15, 2018

António Lobo Antunes, a Pléiade e, finalmente, um Nobel*


Tal como os antigos comentadores biblícos, Borges e Scholem debateram a questão fundamental: 
A que sucesso pode aspirar um artista? 
Como pode um escritor alcançar o seu propósito, quando tudo o que tem à disposição é a ferramenta imperfeita da linguagem? 
E, acima de tudo, o que é criado quando um artista parte para a criação? 
Será que surge um mundo novo e proibido, ou será que um espelho negro deste mundo é erguido para nos vermos reflectidos nele? 
Será uma obra de arte uma realidade duradoura ou uma mentira imperfeita?

in "Embalando a minha biblioteca", Alberto Manguel

[O excerto acima vem mais ou menos a despropósito da mais recente parvoíce de António Lobos Antunes: 
Para Lobo Antunes esta publicação numa coleção tão especial, desde a encadernação ao papel bíblia, tem um valor comparável ao prémio da Academia Sueca: "Estar na Pléiade é como receber um Nobel." Acrescenta: "É uma biblioteca onde se encontram vários Nobel da Literatura."
António Lobo Antunes garante que este era o seu sonho de adolescente "porque é o maior reconhecimento que algum escritor pode ter". ]

* Um Nobel à medida dele, claro. Só me pergunto: teria ele necessidade de dizer estas parvoíces? Ficar contente e orgulhoso é normal -- mas não consegue sentir o reconhecimento sem se sair com a parvoíce do Nobel? Que raio de ego ele tem, senhores.

segunda-feira, setembro 10, 2018

O querido numen que habita in heaven






Os meninos dormem toda a noite. Uma sorte. E eu a noite passada também dormi bem. E o bebé acordou com um apetite que me pôs logo contente. Para o pequeno-almoço, os manos tiveram ovo mexido, pão com queijo, acompanhado, no caso do mano do meio, com um copo de leite frio e, no dela, com um iogurte (até nisso é parecida comigo: por ela, comia vários por dia). Pois o bebé comeu um bocado de ovo mexido, depois uma tigela de nestum e depois ainda comeu o pão que sobrou de um dos manos. Entretanto, algum tempo depois, viu o avô a comer uma bolacha de aveia tufada com algas e também quis, pelo que comeu um pouco. A satisfação que me dá entregá-los a todos bem alimentados ninguém imagina.

Depois lavaram-se, vestiram-se, pentearam-se e foram brincar enquanto os pais não os foram buscar.


Quando saíram, já eu estava cheia de saudades. O meu marido disse: olha a diferença. E era. O silêncio. A casa, de repente, ficou silenciosa. Durante uma porção de tempo andámos a arrumar, a apanhar coisinhas do chão, a acasalar pecinhas de jogos, a pôr tampas em canetas. Depois fiz uma máquina de roupa e o meu marido pôs a secar.

A seguir, voltámos a pegar em armas e bagagens e ala moço que se fazia tarde. Campo. Claro que no carro aconteceu-me aquilo que acontece aos bebés: ao fim de pouco tempo, estava a dormir. Acordei  logo a seguir, quando o meu marido parou para abastecer. E viémos a relembrar coisas deles: a assertividade dela, a malandrice do mano do meio, a teimosia do bebé, a graça de todos.

Quando liguei para a minha mãe, ela perguntou se já estávamos a caminho e disse que devíamos arranjar um helicóptero. E é. Dava jeito.


Quando chegámos aqui ao campo, a casa estava como a tínhamos deixado na sexta à tarde, quando de cá tínhamos saído com os três meninos. Num instante, pusemo-nos a arrumar e limpar e, mal acabei, deitei-me no sofá, com um livro, pensando que dava para descansar por uns minutos. O meu marido lembrou-me que tinha a máquina cheia de lençóis, que podia pô-la a lavar. Eu respondi-lhe que nem pensar, que ficava para depois, que precisava de pousar por um bocado e que, para mais, eles não deviam tardar. Pois, nesse preciso instante, ouvimos apitar. Era a minha filha, a chegar com os meninos. E pronto.

Grandes, grandes. Posso passar dois ou três dias sem os ver que, quando os revejo, já lhes noto diferença. O mais velho caminha a passos largos para, não tarda, estar da minha altura.

Estivemos a apanhar sol, a ler, a conversar, a apanhar figos, os meninos a treparem às árvores, a implicarem um com o outro, a serem amigos como se nada fosse. E fomos ver a casa de troncos que o tio fez e fomos passear e, ao fim do dia, jantámos e claro que é sempre uma boa disposição. São uns brincalhões, sempre muito bem dispostos, com um fantástico sentido de humor. Farto-me de rir com eles.

Depois foram cedo porque esta segunda-feira é dia de escola.

Quando nos vimos aqui na sala, só os dois, o meu marido disse que já sentia falta de ter que fazer alguma coisa. E eu fiquei numa inércia total, incapaz de ter acção para fazer o que quer que fosse. O meu marido ainda disse: temos que resolver se vamos a algum lado. Mas pode ser que amanhã eu consiga pensar se quero voltar a fazer a mala e pôr-me a caminho para algum destino ou se quero é deixar-me aqui ficar a descansar. A minha filha esteve a sugerir um lugar muito bonito onde esteve recentemente mas ainda não consigo pensar.


E eu, aqui sossegada, a televisão a dar nem sei bem o quê, finalmente consegui disponibilidade para passar as fotografias da máquina, para as ver, para escolher algumas para aqui ilustrar o que têm sido estes dias felizes. Como se vê, apanhámos bom tempo e assim-assim, estivemos no campo e na cidade, na rua e dentro de casa. Claro que as fotografias mais bonitas são aquelas em que se vêem os seus rostinhos lindos e felizes da vida. Mas como não os quero aqui ter à vista, vejo-me condicionada a escolher aquelas em que estão de costas ou de lado. Como é bom de ver, quando os fotografo, quero 'apanhá-los' no melhor ângulo e, portanto, são poucas as fotografias em que estão com os rostos ocultos. Não interessa. Dá para dar uma ideia de como desfrutam bem este seu tempo mágico da infância. E, para mim, é um prazer vê-los e um privilégio assistir ao seu crescimento.

Entretanto, vi no mail da empresa que esta segunda-feira há uma big reunião de dia inteiro fora de Lisboa e só me apeteceu benzer-me por estar de férias e não ter que madrugar para passar um dia inteiro numa cena que, para mim, ia ser um castigo. Cá para mim, fizeram de propósito e tenho que agradecer a amabilidade porque o meu colega que convocou a reunião, conhecendo-me bem como me conhece, sabia bem que, se eu lá estivesse, a coisa corria sérios riscos de não correr especialmente bem. Portanto, acho que isto de ter férias na altura em que as empresas fazem a rentrée é uma grande ideia.


E, assim sendo, enquanto os outros estiverem fechados numa sala a aprender uma coisa que deveriam ter nos genes e, se não têm, também não é com coisas daquelas que lá vão, eu vou estar numa espreguiçadeira ao solinho ou à sombrinha, a ler, ou vou estar a passear sobre a caruma perfumada, ou a apanhar figos, e a preguiçar, a deixar-me dormir ao ar livre, a ouvir os passarinhos, a sentir o perfume das árvores.

Para mais, estou com três livros em simultâneo e qualquer deles me enche de prazer: os Diários da Virginia Woolf, o Solte os Cachorros da Adélia Prado e o Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel.

Que mais se pode querer de umas férias?

.........................................................................................................................


Sempre que deambulávamos pelo jardim, dizíamos que éramos os seus guardiões, nunca os seus donos, porque (como em todos os jardins) o sítio parecia-nos possuído por um espírito independente, aquilo a que os antigos chamavam numen. Numa explicação acerca da numinosidade dos jardins, Plínio diz que ela acontece porque, outrora, as árvores foram os templos dos deuses e que os deuses jamais o tinham esquecido.



...............................................

Tinha nas prateleiras dezenas de livros muito maus de que não me desfiz, não fosse dar-se o caso de alguma vez precisar do exemplo de um livro que eu julgasse mau. Balzac, n'O Primo Pons, avança uma justificação para este comportamento obsessivo: "Uma obsessão é um prazer que atingiu o estatuto de ideia."

---------------------------------------------------------

A itálico, dois pequenos excertos de 'Embalando a minha biblioteca' de Alberto Manguel

sexta-feira, abril 21, 2017

O cheiro dos livros e etc.
[E resposta a um comentário]




Posso ter uma maneira de me exprimir muito assertiva. Aliás, sei que tenho. Se acredito numa coisa, não me parece necessário mostrar-me mosca morta, passiva, ou dar voltas ao bilhar grande, sendo manipuladora, ou exaltar-me, sendo agressiva. De facto, creio que já o contei, nos testes de personalidade que, de quando em quando, fazemos em contexto profissional, apareço, entre outras coisas, caracterizada através disto mesmo: praticamente 100% assertiva.

No entanto, que não se pense que tenha certezas absolutas sobre tudo. Não tenho. Mas se a minha opinião é uma, então explano-a com convicção apesar de admitir que seja falível. Li agora mesmo um comentário de alguém que me questiona sobre o que eu escrevi dizendo: 'mas quem é você para dizer que (patati-patatá)?'. Leio e fico estupefacta.
Quem sou eu para exprimir a minha opinião? 
Ora essa. 
A resposta é simples: sou uma pessoa como outra qualquer que, vivendo num país livre, diz o que pensa. Então, em vez de exprimir a minha opinião, deveria fazer de conta e exprimir, como minhas, opiniões alheias, só para agradar aos donos dessas opiniões ou a quem me lê? Essa é boa.
Há pessoas que parece que têm tiques ditatoriais. Parece que não admitem que alguém pense de maneira diferente da sua. Parece que não gostam de ver os outros a exprimir-se livremente.

Para mim seria impensável escrever um comentário assim. Mas, enfim, o mundo é diverso e há que receber toda a gente com boa cara mesmo os que não a sabem mostrar aos outros.


Gosto de ler, como é sabido, e leio tudo. Livros, blogs, jornais, capas de revistas nas estações de serviço, revistas com mais de um ano nas salas de espera dos médicos, mails, comentários, o que calhar.

Gosto de ler a escrita de quem não pensa como eu, gosto de ser surpreendida com maneiras de pensar antagónicas em relação à minha, gosto de ler sobre temas que desconheço, gosto de ser confrontada com argumentos que desmontam os meus. Mas em tudo o que gosto de ler tenho que encontrar elegância, inteligência e tolerância.
E, já agora, para a coisa se aproximar da perfeição, ainda alguma musicalidade -- mas isso já é pedir demais.
Ia começar a escrever sobre o perfume dos livros quando li aquele comentário que, por não me soar bem, me desviou. Depois desse, chegou outro do mesmo calibre ao qual já lá respondi. Ele há com cada uma...

Mas não me detenho mais sobre os azedumes que volta e meia por aqui vêm aterrar e retomo o meu tema.


Até há algum tempo, achava-me uma amante de livros cheia de inconfessáveis particularidades. Pensava eu que uma amante de livros a sério tinha forçosamente a capacidade de ter a biblioteca bem organizada e arrumada e, para conseguir lá chegar, tentava arrumar cada livro no lugar certo mal chegava com ele a casa. Pensava também eu que teria que ler todos os livros em que pegasse até ao fim e impunha-me essa disciplina mesmo quando me arrastava de página em página. Pensava, sobretudo, que teria que ser alheia em relação a tudo o que pudesse ser considerado fútil e, portanto, tentava omitir aspectos que, para mim, eram (e são) vitais: o grafismo da capa, o tipo de letra, a paginação. E pensava ainda que jamais um amante de livros seria sensível ao seu cheiro e, por isso, apesar de ter um prazer apreciável em abrir uma estante e sentir o perfume dos livros, nunca me referia a tal.

Sei agora que estava enganada. Não há regras -- mas não há num nem noutro sentido.

Agora que o mundo inteiro está disponível para ser visto, é frequente verem-se bibliófilos rodeados de pilhas de livros, caoticamente dispersos pela casa, tal como é de pasmar verem-se paredes revestidas a estantes imaculadas e ordeiras.

Sobre já não me dar ao trabalho de me forçar a ler aquilo que não aprecio, tive o consolo de saber que Borges poucos livros leu por completo.

E, sobre o cheiro dos livros, tive o agrado de saber que é gosto partilhado por muita gente e que há. até, investigações sobre o tema.


A que cheira um livro antigo? A que cheira um livro novo?

Varia, claro, mas não há livro em que eu pegue que não aspire o odor que dele se desprende. Leio que podem ser identificadas notas de baunilha, sândalo, café. Não sei. Para mim cheira a memória de bibliotecas, cheira a casas de infância e refúgios secretos, cheira à casa da Mariazinha que tinha longe o marido, médico, e em cuja sala pouca luz entrava, uma sala com sofás de pele já gasta e cheia de estantes com os livros dele, dos quais retirava os livros do Fernando Namora que me ia emprestando. Cheira às minhas longas noites de leitura, noite adentro, cheira ao prazer de ler as palavras que outros, um dia, escreveram. Cheira a livrarias infinitas, a labirintos, a galerias imensas, cheira a cera de abelhas, cheira a um mundo desconhecido, cheira a mãos que acarinham as folhas que lêem, cheira a um mundo que contraria a efemeridade de quem os escreve, cheira a um mundo fora do mundo.

de Bois de Jasmim:
What Does The Scent of Books Reveal?
____________

Já agora,

O império da palavra - O futuro da leitura
Alberto Manguel



_________

E queiram deslizar até ao post seguinte caso queiram ler sobre uma Separação escrita por quem a sabe sentir.

_______

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Fatti non foste a viver come bruti




Nunca fui de fazer poemas. Sinto, desde sempre, que não tenho competência para tal. Quando adolescente, intuía que, se me pusesse a escrever, me sairiam poemas vulgares, lágrima a rolar na face, passarinhos cantando nos galhos, nuvens brancas sobre céu azul.
Verdade seja dita que também nunca fui de amores não correspondidos, sempre fui mais dada a paixões de caixão à cova, e essas, em mim, mais depressa são de pegar fogo do que de alimentar arroubos poéticos. 
Nem aqueles poemas chorosos de amores imaginários ou sofridos mereceram alguma vez a minha atenção. Acontece também que, graças a algumas primeiras impressões, bani dos meus gostos alguns poetas que conheci através de poemas demasiados líricos para o meu gosto. Ainda hoje mantenho preconceitos contra, por exemplo, Florbela Espanca a quem, se me forçar a ler, reconheço elegância verbal e sentido poético. Mas, não sei explicar, parece que, para mim, há ali um excesso de sentimento que me afasta -- e é que nem será excesso de sentimento, será mais uma ausência de processamento do sentimento; não sei explicar. Sei é que não me atrai.


Já uma vez contei aqui: teria eu uns dez ou onze anos, no liceu, ao fazer uma redacção, deu-me para fazer um poema. A professora ficou impressionada e pediu à minha mãe autorização para o mandar para o jornal da cidade. A minha mãe autorizou e o jornal publicou-o. Uma vez, na rua, cruzámo-nos com uma amiga da minha mãe que vinha fungando. Contou que tinha passado pelo edifício do jornal que tinha, na rua, um placard de vidro onde estava exposta a última edição, justamente na página em que estava o meu poema -- e que se tinha emocionado. À minha mãe aquilo também lhe dava para o sentimento e confessava-se surpreendida com esse meu feito. Eu ouvia a conversa e observava, com uma certa estranheza, a emoção delas e era como se nem tivesse a ver comigo. Aquilo tinha-me saído, sem pensar, sem saber bem o que escrevia. Ainda hoje me lembro: era como se uma toada se tivesse formado na minha cabeça e eu, sem refrear, a deixasse plasmar-se no papel. Mas não fiquei impressionada ou envaidecida. Era como se aquilo tivesse acontecido por acaso (ou não se tivesse verdadeiramente passado comigo, pelo menos não com aquela que eu era habitualmente).

Reparem, por favor, no avião que vai a passar no canto superior direito
-- um elemento real num cenário irreal.

Também aqui há tempos, sem que eu percebesse como nem porquê, mal chegava ao emprego e ligava o computador, sem pensar, escrevia um poema. Era coisa que durava uns dois ou três minutos. Guardava-o e nem pensava mais no assunto. Tempos depois, lembrei-me disso -- e vi-me aflita para os descobrir, não me lembrava que nome teria eu dado ao ficheiro. Quando descobri, li e fiquei surpreendida. Não é que os achasse bons ou maus: pura e simplesmente não os reconhecia, era como se não tivessem sido escritos por mim. Muito estranho. Nunca mais os li, não quero comprovar que, de vez em quando, me desconheço.

Tirando isso, a mim, devota da poesia, não me dá para me aventurar por aí. Sei que não tenho arte, poder de síntese, depuramento ou elevação suficientes para decantar as ideias ou as emoções de forma a exprimir-me capazmente em linguagem poética.

Mas, se não me dá para escrever poesia, dá-me, isso sim, para a consumir com assiduidade e reverência. Não deve haver dia em que eu não procure a leitura ou a audição de, pelo menos, um poema. Tendo formação e ocupação profissional em áreas que são do mais árido possível no domínio da palavra escrita, não sei explicar que amor é este, das palavras feitas poesia. Mas os amores não se explicam: vivem-se.


Há pouco, uma vez mais, lia Manguel e, como sempre faço neste tipo de livros, leio tentando não memorizar para que, a cada vez, possa surpreender-me; forço-me à ignorância. Abro ao acaso, leio e, por vezes, sinto que já li antes mas, se me agrada, continuo a ler e sempre assim, ao de leve, uma aragem que me traz um conhecimento que passa.

Transcrevo uma parte que me agradou:
Talvez essa perseverança de uma voz seja a única verdadeira justificação da poesia.
A poesia não oferece respostas, a poesia não pode apagar o sofrimento, a poesia não trará um ser amado de volta à vida, a poesia não nos protege do mal, a poesia não nos concede força ética nem coragem moral, a poesia não vinga as vítimas nem castiga os que as vitimam. Tudo o que a poesia pode fazer, e só quando as estrelas são caridosas, é emprestar palavras às nossas perguntas, ecoar o nosso sofrimento, ajudar-nos a recordar os mortos, nomear as obras do mal, ensinar-nos a reflectir acerca das consequências da vingança e dos castigos, e também da bondade, mesmo quando essa bondade já não existe. (...)
Este poder da poesia é algo que há muito conhecemos, ou talvez sempre tenhamos conhecido, desde os primórdios da linguagem, um conhecimento tornado maravilhosamente evidente nos primeiros cantos do Purgatório.
(...) Até em Auchwitz, onde nada já parecia ter importância ou sentido, a poesia era ainda capaz de atiçar resquícios de vida em prisioneiros como Primo Levi, oferecer a intuição de 'algo gigantesco', acender no meio das cinzas a centelha da velha curiosidade e fazê-la arder mais uma vez, em chamas eternas.
....


(...)
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
(...)

"Se questo è un uomo" de Primo Levi é interpretato por Dino Becagli sobre música de John Williams (banda sonora de A lista de Schindler)
...

O título da mensagem (Fatti non foste a viver come bruti = Não fostes feitos a viver quais brutos) foi retirado de Divina Comédia, Inferno, XXVI e é referido no livro de Manguel


Já aqui acima, Carlo D'Angelo (1919-1973) lê Inferno, Canto XXVI, Divina Commedia - Dante Alighieri (1265-1321). As ilustrações que se vêem no vídeo são de William Blake (1757-1827), Gustave Dore (1832-1883), Alessandro Vellutello (1473-?).

No texto, o excerto transcrito, em itálico, faz parte do capítulo 16, 'Porque é que as coisas acontecem', do livro 'Uma história da curiosidade' de Alberto Manguel

Por recomendação de Fernando Ribeiro a quem muito agradeço, lá em cima o Maestro José Atalaya conduz (sublimemente) a Orquestra Raizes Ibéricas na interpretação do Adágio para cordas de Samuel Barber.

Fiz as fotografias ao fim do dia. Depois de ter estado rodeada pela criançada -- alegres, ruidosos, felizes da vida -- quando me vi sozinha, olhei o céu e, com assombro, vi-o assim, como se estivesse em chamas (não todo, mas um bocado do céu estava assim: indescritível, inacreditável).



E, para acabar: o Paraíso

L'amor che move il sole e l'altre stelle



Roberto Benigni recita Dante (Paradiso: Canto XXXIII)

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.

...

segunda-feira, janeiro 04, 2016

Que consequências têm as nossas acções?






Numa história que contou a amigos, J. Robert Oppenheimer, conhecido como o pai da bomba atómica, foi enormemente influenciado por um exemplo semelhante de curiosidade perversa em Do Lado de Swam, de Proust. Oppenheimer decorou uma passagem em que Mademoiselle Vinteuil espicaça a amante a cuspir numa fotografia do seu falecido pai: "Talvez não tivesse pensado que o mal fosse um estado tão raro, tão extraordinário, tão alheio, para onde era tão repousante emigrar", escreve Proust sobre a Mademoiselle Vinteuil, "se tivesse sabido discernir em si, como em toda a gente, aquela indiferença aos sofrimentos que se causam e que, sejam quais forem os outros nomes que se lhe dê, é a forma terrível e permanente da crueldade."(...)

Oppenheimeimer já foi apelidado de versão moderna do herói romântico, que, como o Manfredo de Byron (mas não o de Dante), é incapaz de se arrepender dos seus pecados e se divide entre a ânsia de explorar o desconhecido proibido e o sentimento de culpa por tê-lo feito.(...)

Nos seus tempos de jovem solitário, Oppenheimer comportava-se de modo algo errático. Passava por períodos melancólicos em que se recusava a falar ou reconhecer a presença dos outros; noutros, parecia estranhamente eufórico, recitando longas passagens de literatura francesa e de textos sagrados do hinduísmo; às vezes, os amigos consideravam-no à beira da loucura.(...)

Por um lado, parecia perder-se frequentemente em abstracções, distanciar-se em silêncio; por outro lado, submetia-se sem remorsos à supervisão das autoridades militares, muito embora os serviços secretos suspeitassem de que ele era um espião comunista, por causa das suas opiniões liberais, e o tratassem com pouca consideração. Quando, depois da guerra, Oppenheimer pediu aos Estados Unidos e à União Soviética que partilhassem conhecimento tecnológico para evitar um embate nuclear, os dois inimigos viram nesta atitude conciliatórias razão suficiente para lhe chamar traidor.

A questão de como construir uma bomba atómica, essa descendente sobremaneira evoluída da primeira bombarda da época de Dantes, suscitava um problema não só teórico mas também de engenharia. Por causa do receio de que os alemães conseguissem desenvolver a bomba antes dos cientistas americanos, a construção de Los Alamos teve de ser rápida, embora faltasse resolver alguns problemas básicos de física: as estratégias de "acção à distância" tinham de ganhar forma antes de se formular completamente a pergunta sobre que acção seria essa. Quando o general-de-brigada Leslie Groves escolheu Oppenheimer para o cargo de director do laboratório de Los Alamos, o que o impressionou mais foi que o cientista percebia, muito melhor do que os colegas, os aspectos práticos do problema de como passar da teoria abstracta à construção concreta.

A situação mudou a 7 de Maio de 1945, quando a Alemanha se rendeu, terminando assim a ameaça do ataque nuclear. Em Julho, começou a circular uma petição entre os colegas de Oppenheimer, pedindo ao governo que não usasse a bomba "a não ser que os termos impostos ao Japão fossem divulgados em pormenor ao público, e o Japão, sabendo desses termos, recusasse render-se." Oppenheimer não foi um dos 70 signatários da petição de 17 de Julho.

No dia anterior, 16 de Julho, a bomba foi testada num local a que Oppenheimer chamara Trindade. Quando viu os efeitos da explosão controlada atrás da barreira de protecção, Oppenheimer deve ter parecido Dante atrás do bloco a observar a actividade dos demónios quando a primeira bomba atómica explodiu e libertou a famosa nuvem em forma de cogumelo, lembrou-se de um verso da Bhagavad Gita, quando o deus Vishnu tenta convencer o príncipe mortal a cumprir o seu dever e lhe diz: "Agora sou a Morte, a destruidora de mundos."

Depois do teste bem sucedido, quatro cidades japonesas foram escolhidas como alvos de bombardeamento: Hiroxima, Kokura, Niigata e Nagasáqui. Só poucos dias antes do ataque é que a decisão foi tomada: como era a única que não tinha um campo de prisioneiros aliados, a escolha recaíu sobre Hiroxima. (...)

A dicotomia que tanto impressionara Oppenheimer na passagem de Proust transparecia na sua própria vida. Por um lado, reverenciava a procura científica com a curiosidade inteligente que o levava a questionar os mecanismos íntimos do universo; por outro lado, enfrentava as consequências dessa curiosidade, tanto na vida particular, na qual a sua ambição egocêntrica raiva a egoísmo de Manfredo, como na vida pública, na qual, enquanto cientista, se tornou o responsável pela máquina de morte mais poderosa criada até então. (...)

Um dos biógrafos de Oppenheimer, depois de citar o parágrafo de Proust, comparou-o a uma declaração do próprio Oppenheimer perto do fim da vida, numa conferência em parte patrocinada pelo Congresso para a Liberdade Cultural, uma organização anticomunista fundada (pela CIA) após a guerra:

Até hoje, e ainda mais nos tempos da minha adolescência quase infinita, mal agi, mal fiz alguma coisa ou deixei de fazer alguma coisa, fosse ela uma artigo sobre física ou uma palestra ou ler um livro, como conversar com um amigo, amar, que não suscitasse em mim uma grande sensação de repulsa e de erro. (...) Acabou por se me revelar impossível (...) viver com outra pessoa, sem perceber que o que eu via era apenas uma parte da verdade (...) e, numa tentativa de me libertar e ser um homem racional, tive de compreender que as minhas preocupações sobre o que eu fazia eram válidas e importantes, mas que não constituíam a história toda, que tinha de haver outra maneira de as ver, porque as outras pessoas não as viam como eu. E eu precisava que elas as vissem, precisava delas.

[in Uma História da Curiosidade de Alberto Manguel, no capítulo 'Que consequências têm as nossas acções']

......

Fascinam-me -- e estão muito para além do meu entendimento -- as ténues fronteiras entre o bem e o mal, entre a razão extrema e a loucura, entre a perfeição e a arte da destruição, entre a defesa da paz e a apologia da guerra. E, também, entre a aleatoriedade dos acasos e o arrumado rumo da história (seja ela a história colectiva ou a individual).
.....

Oppenheimer: The Man Behind the Bomb -- A "Countdown to Zero" 




....

A canção intitula-se Lost in August, interpretada por Jenos (de 5th Blood) e é apresentada como Song of the atomic bombing of Hiroshima

.....

Caso vos apeteça espraiar o espírito por territórios mais leves, desçam por favor que, abaixo há um postal de amor e, a seguir, há 3 vídeos em que se ouve Menguel de viva voz a falar de alguns autores e a mostrar a casa onde vive, nomeadamente a sua própria biblioteca.

...

Alberto Manguel: o discípulo fala dos tempos em que substituía os olhos de Borges. E fala de Machado de Assis, Roberto Bolaño e Paulo Coelho. E mostra a sua incrível biblioteca!


A leitura de Uma História da Curiosidade, que me tem trazido deleitada, fez-me ter vontade de conhecer o autor, Alberto Manguel. Mostro-vos três dos vídeos que, pela sua curta duração, me parecem adequados a tê-los aqui pois mostram um pouco da sua opinião e da sua relação apaixonada com os livros. Os dois primeiros são falados em espanhol com legendas em português-brasileiro. O terceiro é falado em francês, sem legendagem, mas, na esperança de que haja muitos leitores que o percebam eporque me agrada muito, optei por também o incluir.

1.

Alberto Manguel: O discípulo de Borges


 O escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel fala da sua relação com o Jorge Luis Borges, de quem foi os olhos


   

2.

O escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel analisa a produção literária latino-americana (nos antípodas, Machado de Assis e Paulo Coelho; e, de caminho, desanca Roberto Bolaño)


 

3.

Le Voyageur et la tour - Alberto Manguel | La Grande Librairie




...

Como acima referi, tenho já quase pronto um post que contém um texto, um longo texto, sobre 'Que consequências têm as nossas acções?', que transcrevi do livro 'Uma história da curiosidade'. O início do capítulo de onde transcrevi o excerto começa assim: Aprender, como os cães, as regras da lealdade e da obediência é, para Dante, um processo demorado e doloroso. Contudo, já é tarde e já não consigo revê-lo minimamente nem ajeitar uma ou outra imagem que ainda quero confirmar ou decidir-me por uma música. Por isso, fica para amanhã -- ou de manhã, se conseguir madrugar, ou para a hora do almoço.

E, assim sendo, por agora, fico-me por aqui.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta chuvosa segunda-feira.

..

domingo, dezembro 20, 2015

As serenas incertezas




Dante acreditava que, durante a nossa viagem pela vida, se a graça o permitir, encontraremos uma alma companheira que nos ajudará, pelo caminho que fica para lá da selva escura, a reflectir sobre as nossas próprias perguntas e a descobrir o que quer que seja o nosso destino; acima de tudo, uma alma cujo amor nos mantenha vivos.
Acredito nisto. Já me foi dado encontrar esse alguém que parece ter sido misteriosamente posto no meu caminho para me mostrar que todos os acasos são possíveis. Nessa altura, todos os caminhos parecem ter inexplicavelmente convergido para aquele instante sagrado em que a nossa vida e a de outra pessoa parecem ganhar um novo e incompreensível sentido. E, a partir daí, uma serenidade invade o nosso corpo porque sentimos que um tem o outro e que, juntos, percorreremos com feliz expectativa todos os labirintos de que a vida é feita.

Todos sabemos que os acontecimentos por que passamos ultrapassam, no seu sentido mais completo e profundo, as barreiras da linguagem. Nenhum relato, nem sequer da mais pequena ocorrência na nossa vida, pode fazer verdadeira justiça ao que teve lugar, e nenhuma recordação, por mais intensa que seja, pode ser idêntica à coisa recordada. Tentamos relacionar o que acontece, mas as nossas palavras falham sempre, e aprendemos, após muitas tentativas, que a melhor aproximação a uma versão verdadeira da realidade só pode existir nas histórias que inventamos. Nas nossas ficções mais poderosas, sob a teia da narrativa, consegue discernir-se a complexidade da realidade, como um rosto atrás de uma máscara. A melhor maneira de contar a verdade é mentir.
Penso o mesmo. Tantas vezes vivo situações que são tão impossíveis de descrever, tantos loucos acasos, tantos inesperados momentos de afecto e sintonia, tantos mistérios, tantos momentos em que o conhecimento parece vir de há muitas vidas atrás, tantos instantes de paz e beleza - que não tento nem falar neles, ninguém acreditaria. Tantas vezes as situações parecem mais credíveis se eu alisar a realidade, se eu omitir o que parece ficção, se eu esquecer aquilo em que nem eu própria acredito, aqueles instantes que eu não sei explicar senão pensando que sonhei. 

Os leitores na Idade Média usavam a Eneida de Virgílio como ferramenta de adivinhação, fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de uma revelação; Robinson Crusoé faz basicamente a mesma coisa com a Bíblia, para encontrar orientação nos seus longos momentos de desespero. Todos os livros podem ser, para o leitor certo, um oráculo, chegando ocasionalmente a responder a perguntas não formuladas (...)
Também acontece isto comigo. Quando estou na minha capela, gosto de pensar no que me está a acontecer, na minha vida, nas minhas dúvidas e, então, pego na Bíblia, abro-a ao acaso e leio. E o que leio responde-me. É a única forma que tenho de ler a Bíblia. Não a leio numa perspectiva religiosa, pelo menos na perspectiva da religião católica. Sendo agnóstica, gosto, contudo, de acreditar que há respostas, que as respostas pairam no espaço à espera que agente as agarre e as encaixe nas nossas perguntas. 
E isto faço também agora. Pego neste livro e abro-o. Na página onde ele se fez abrir, eu encontro explicação para o que faço, para o que me acontece, para o que não sei dizer. Não é que fique, em tudo, completamente esclarecida mas, pelo menos, sinto-me acompanhada nas minhas perplexidades e, sentindo-me acompanhada, sinto-me serena. E isso, para mim, já é bom.
...

O livro de onde transcrevi os excertos em itálico é 'A História da Curiosidade' de Alberto Manguel de que no outro dia falei. As fotografias provêm do BoredPanda. Lang Lang interpreta a Serenade de Schubert.
....

Convido-vos, ainda, a descerem até ao post seguinte onde falo na sensualidade das gordas.

...

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Tudo começa com uma viagem




1. 
No leito da morte, Gertrude Stein ergueu a cabeça e perguntou: "Qual é a resposta?". Como ninguém falou, ela sorriu e disse: "Nesse caso, qual é a pergunta?"

2. 
Temos em mãos vários fios, e o mais provável é que um ou outro nos conduzam à verdade. Podemos perder tempo a seguir o fio errado, mas mais tarde ou mais cedo encontraremos o certo.

3.
Ulisses: Conhecei o mundo inteiro.

4.
Formular uma pergunta é resolvê-la.

5.
Deu ao Homem a linguagem, e a linguagem criou o pensamento, que é a medida do universo.

6.
"Para onde vais?", perguntou o leitor ao cavaleiro, "Aquele vale é fatal quando as fornalhas ardem, acolá fica o monturo cujos odores enlouquecem, aquela fenda é o túmulo onde os altos regressam."

7.
"O mundo é como a impressão que fica depois de uma história ser contada."

8.
Sob o luar, a sombra de um gordo precede-me na estrada que vou a descer; e se me virar e fugir, ele persegue-me: é este o homem que devo conhecer.

9.
Vladimir: Que fazemos aqui, eis a questão.

10.
Nunca perguntes o caminho a alguém que o conhece, porque assim não poderás perder-te.

11.
Os homens receiam que as mulheres se riam deles. As mulheres receiam que os homens as matem.

12.
O cão, que, com todo o seu ímpeto e ferocidade, quando vem para morder, se se deitam no chão, não faz mal; isto por piedade.

13.
Einstein: Mas, seja como for, não podemos fugir às nossas responsabilidades. Estamos a fornecer à humanidade fontes colossais de poder. Isso dá-nos o direito de impor condições. Se somos físicos, temos de nos tornar políticos do poder.

14.
E o apetite, esse lobo universal, tão duplamente secundado pela vontade e o poder, tem de forçosamente fazer uma presa universal, e por último devorar-se a si mesmo.

15.
A terra não discute, não é patética, não faz arranjos, não grita, não apressa, não persuade, não ameaça, não promete, não discrimina, não concede fracassos, nada fecha, nada recusa, nada exclui, de todos os poderes, objectos, estados, todos notifica, nenhum exclui.

16.
Não existe... a morte... Só existo... eu... eu... que morro...

17.
Acredito que estou no Inferno, logo estou lá.

18.
"O que é a verdade?", perguntou Pilatos, jocoso, sem ficar para ouvir a resposta.

....




.....


 .....


........

1. Donald Sutherland, Gertrude Stein: A biography of her work
2. Sir Arthur Conan Doyle, O cão dos Baskervilles
3. Shakespeare, Troilo e Créssida, acto 2, cena 3
4. Karl Marx, Zur Judenfrage
5. Percy Bysse Shelley, Prometeu Libertado
6. W.H. Auden, Cinco Canções, V
7. Valmiki, Yoga Vasistha, 2, 3, II
8. James Reeves, "Coisas Vindouras"
9. Samuel Beckett, À Espera de Godot, acto 2
10. Rabino Nachman de Breslau, Contos
11. Margaret Atwood
12. Fernando de Rojas, A Celestina, canto 4
13. Friedrich Dürrenmatt, Os Físicos, acto 2
14. Shakespeare, Troilo e Créssida, acto I, cena 3
15. Walt Whitman, Folhas de Erva
16. André Malraux, A Estrada Real
17. Arthur Rimbaud, Noite do Inferno
18. Francis Bacon, "Da Verdade"
....

  • Todas as citações do início do post, de 1 a 18, cujos autores se encontram acima, abrem alguns dos capítulos de 'Uma História da Curiosidade' de Alberto Manguel que tenho estado a folhear, surpreendida e agradada, e que mal posso esperar para degustar pausadamente, deleitadamente.
(O título do post é o início do capítulo I, cujo título é 'O que é a curiosidade?')
  • As imagens referem-se à Divina Comédia de Dante Alighieri

  • A música é "Blessed is the Man" que pertence a Vespers Op. 37 de Sergei Rachmaninov (Russian Orthodox Vespers Service) numa interpretação a cargo de Mikhail Ivanovich Glinka Choir.
  • A animação é de Blanca Li  - "Le Jardin des Délices"
  • 14 and Shakespeare the Numbers Man: a Matemática e a Poesia, pelo professor Professor Roger Bowley
  • A dança é Silhouette, uma coreografia da mesma Blanca Li sobre música de Tao Gutierrez
...

 E, por hoje, pouco mais.

Não vou falar da actualidade já que não me interessa, nem um bocadinho, se o Mourinho foi despedido. 

Vendo-o, sempre enjoado, tantas vezes pensei que não percebia aquela pose. Se não gostava, pois que não comesse. Portanto, se tudo lhe estava a correr mal e se ele já não estava com pachorra para maçadas, pois que fosse para casa. Ora se, ainda por cima, vai para casa com uns milhões valentes na mão, pois melhor para todos.

Também não vou comentar o caso do Banif pois era mais que esperado. 

Quando a bulha rebentou entre herdeiras, deu para perceber que, o que viria a seguir, não seria bom de se ver. Mas os depositantes não terão problemas pelo que não há razão para alarme social.

Também não vou comentar aquilo da Manuela Ferreira Leite dizer que não é a altura certa para se reflectir sobre o Banco de Portugal.

Lá está ela. Parece tão atinadinha mas, quando a coisa toca aos ex-colegas e amigos do BdP (nomeadamente, às matrafonas adormecidas Carlos Costa e Aníbal Cavaco), logo ela sai em sua defesa. Bolas para ela. 

Também não quero saber se o filho da prima da mulher do Rajoy, que lhe deu um murro na cara, é maluco, desequilibrado ou aventureiro. 

Gostava era que o Rajoy fosse corrido do mapa eleitoral. Era bom que estes trastes todos levassem uma corrida em osso. 

Muito menos vou falar do Passos Coelho, esse brincalhão, a dizer que acalmou os correlegionários do PPE.

Às tantas, se não fosse ele, os outros vinham por aí, de lanças na mão, a ver se libertavam o país do jugo marxista-leninista, não? Não se enxerga, aquele láparo mitómano. Porque será que não vai para casa fazer farófias para fora, que talvez fosse útil a alguém?

E, obviamente, não vou falar do dó que até mete o papel de décima-sétima categoria a que o vice-Portas está votado, nada lhe restando senão por aí andar, pelos cantos, a remorder a propósito do que o António Costa diz.

É que já ninguém quer saber dele para nada e ele, pateticamente, ainda não percebeu. Tornou-se irrelevante. Nada do que ele diz interessa a quem quer que seja. O jantar já acabou e ele ainda não percebeu que já deveria ter-se levantado da mesa há que tempos. 
...

Portanto, meus Caros, não levem a mal, mas hoje prefiro ficar-me pela história da curiosidade e vou ler um pouco do belo livro que tenho aqui ao meu lado (bem, belo, belo... Tenho que dizer que não acho muita graça ao design encardido da capa mas, enfim, relevo face à qualidade do interior)

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.
..