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sexta-feira, janeiro 28, 2022

Just in Time?
Ou Just in Case?
Ou... o quê?

 


Em tempos aprendi alguns conceitos e algumas técnicas que tinham cá chegado, luzindo e reluzindo com as cores da eficiência japonesa. O JIT, Just in Time, foi um deles. Não haver stock. Reduzir o capital empatado em stocks. Todas as empresas que lidavam com cadeias de abastecimento ou sistemas produtivos se mobilizaram para serem tão boas como as melhores. Os números não enganavam. Ter armazéns cheios de stocks já era. Coisa do passado. O que era preciso deveria chegar quase na hora, quase em cima do acontecimento.

Uma vez fui visitar uma fábrica de automóveis em Espanha. Era a fábrica europeia de uma grande marca mundial. Uma fábrica grande, a perder de vista. Praticamente sem pessoas. Um orgulho para a gestão da fábrica. Pessoas quase que só no controlo de qualidade, na recta final da linha de produção, o carro já praticamente pronto. A montante só robots. Tudo robotizado. E carrinhos robotizados atravessavam a fábrica para levar as peças do armazém para a linha de produção. O armazém robotizado praticamente apenas tinha as necessidades do dia. Vá: da semana. Tudo na base do just in Time. Os diferentes fornecedores abasteciam a moderna fábrica de acordo com sistemas chamados MRP, Material Requirement Planning. Tudo calculado ao dia.

Isto obviamente passou-se no século passado, numa era em que havia yuppies, executivos deslumbrados consigo próprios.

Se calhar fiz parte desse grupo mas, felizmente, nunca falei como eles, nunca me vesti como eles, nunca me deslumbrei com o que a eles os deslumbrava.

Mas, nessa vez, cheguei lá de limousine. Éramos uns cinco ou seis, nem sei bem. Para lá chegarmos, em vez de irmos em carros separados, alguém achou que o ideal seria arranjar-nos uma limousine com chauffeur. Nada de mais. Mas o carro era aparatoso, um luxo.

Hoje a indústria automóvel é daquelas que se torcem e retorcem por não terem stocks e por, de vez em quando, terem que parar as suas linhas de produção. Falta-lhes sobretudo os chips e outros componentes vindos de longe, de onde também muita coisa escasseia.

Mas se fosse apenas a indústria automóvel a debater-se com a escassez de materiais...

Querem crer que só agora, ao colocar aqui a fotografia é que vi que o prato está deitado quando deveria estar ao alto...?
Ele há coisas....

De vez em quando a malta apanha uns sustos e percebe que os modelos estratificados em que todos dependem demasiado uns dos outros apresenta muitas vulnerabilidades. E não apenas de outros mas de outros noutros países, sujeitos a dificuldades, prioridades ou necessidades que não necessariamente as mesmas que nós.

Os consultores que vendem a gestão de risco e os departamentos das empresas que se ocupam disso bem identificam os pontos de fragilidade e constroem planos de contingência. Tudo bonito para enfeitar power points. Quando os motoristas fizeram greve e as estações de serviço ficaram sem combustíveis e toda a gente, em especial nas empresas, ficou a roer os dedos a ver a vida a andar para trás, poderia ter-se aprendido alguma coisa. Mas não. Não se aprende nada. Nem aqui nem em lado nenhum. Os modelos de eficiência aplicados cegamente, ensinados nos bancos da escola como se fossem axiomas (inquestionáveis, portanto), moldaram a sociedade de cabo a raso. 

Nem sei se isto da pandemia nos mudou alguma coisa de verdade ou se foi apenas uma abanão de nada, um abanico. 

Era bom que a sociedade se mobilizasse para discutir algumas coisas, para colocar algumas ortodoxias e dados adquiridos em perspectiva. Não sei como se pode fazer isto. Era bom que voltasse a haver tertúlias, locais de discussão, fóruns abertos em que se equacionassem novas maneiras de estar na vida (e nos negócios), maneiras mais sustentáveis, mais equilibradas. Como sociedade civil temos que ser mais activos, mais participativos. Não podemos andar, passivamente, a reboque do que os 'outros' decidem por nós. Parafraseando JFK, não perguntemos o que os outros podem fazer por nós mas, antes, o que nós podemos fazer pelos outros.

Mas, em concreto no que se refere à escassez de alguns bens em alguns sectores, o vídeo que aqui partilho convosco explica o que se passa.

The global supply chain seems to be in a perpetual state of crisis. Whether its groceries, petrol or micro-chips for electric vehicles, everything just keeps running out. But why does it keep happening?

The crux of the matter lies in the way our global supply chain works, and how companies have come to rely on a unique system of efficiency, dubbed 'just in time', which developed in Japan in the late 1960s and early 70s. Josh Toussaint-Strauss explores how the prevalence of just in time supply systems are contributing to a global supply chain crisis

Just in time: why we keep running out of everything 


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As fotografias foram feitas em casa, in heaven, e fazem-se acompanhar por Maria Bethânia e Omara Portuondo interpretando Gente Humilde

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E queiram descer para uma visita a Mr. Valupi que explica porque é que "Louçã também vai a votos neste domingo"

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E a si que está aí desse lado desejo uma feliz sexta-feira

sábado, setembro 04, 2021

O rum já cá canta

 

Se repararam na bebida que os astros recomendam a esta carangueja que vos escreve terão tomado boa nota que, para eu poder conferir a justeza da recomendação, teria que arranjar rum para experimentar o ponche (rum e sumo de frutas).

Pois bem, disse bem: teria que arranjar. Teria. 

Em dia animado, de casa quase cheia, praia com uns, tarde no jardim com todos, jantar com quase todos, brincadeiras em casa com toda a malta miúda e parte da adulta, eis que, à tarde, o meu filho e a minha nora chegam com uma coisa num saco, dizendo que era para mim. Quando vi, fiquei toda contente. Não me teria passado pela cabeça que um genuíno rum cubano, vindo directamente da Festa do Avante, viria parar-me às mãos para que eu pudesse experimentar o tal cocktail que os astros me recomendam.




Ao jantar, quando a minha filha perguntou o que é que eu bebia, logo um deles gritou: rum! Mas não. Reservo-me para uma inauguração mais a preceito. Talvez num sunset no jardim. Um dos miúdos, preocupado: e não vai ficar bêbeda? Sosseguei-o: claro que não. A maioria será sumo. Expliquei que estou habituada: por exemplo, também gosto de vodka (embora nunca o tenha bebido puro).

Havia um cocktail que o meu marido preparava com champanhe, campari e sumo de laranja que era bem bom. Não me lembro se é a este que se chama kir royale que associo a um de que gostava, não me lembro se era o mesmo.

A grande diferença é que dantes a componente alcoólica tinha que ser mínima, senão dava-me para rir perdidamente e, a seguir, para dormir. Agora é à vontade: estou um camionista. Posso beber que nada me abala. Digo isto sem nunca ter abusado pelo que, na volta, se me exceder, caio mesmo para o lado. 
Camionista, sim, mas provavelmente não de barba rija. 
Por exemplo, não sei se com uma caipirinha me aguentava. Nunca experimentei. Tenho ideia que aquela aguardente não apenas é agreste como muito forte. Também nunca experimentei whiskey. Não gosto do sabor. É-me desagradável. Mas gosto muito de gin. Gin, água tónica e o que calhar lá dentro (pepino, hortelã, maçã, laranja, pêssego, whatever -- mas não tudo junto, claro...). Gosto mesmo.

Quanto a vinho, já o disse: passei a grande apreciadora. Gosto mesmo. 

Idem em relação a cerveja, embora não tanto como vinho. 
Escrevo isto e recordo-me de uma tarde em Madrid. Tínhamos chegado, estava muito calor e era o fim de tarde. Ao pé do hotel em que costumávamos ficar, havia um daqueles lugares bons para nos refrescarmos enquanto picávamos. O meu marido pediu uma caneca que lá se chama de outra forma, não me lembro. Ocorre-me pinta mas não deve ser. E eu pedi uma simples água fresca. Se fosse em Portugal teria bebido uma água das pedras. Ali, só água lisa. E lembro-me de ele se encantar com a cerveja, dizia que nenhuma era tão gelada como ali. E dizer-me que experimentasse e eu, uma vez mais, ter tentado... e uma vez mais ter detestado. Não percebia como se podia gostar tanto de uma coisa tão mal saborosa. 
E, no entanto, se agora me sabe bem. Ainda não consigo beber sem ter alguma coisa para picar ou mastigar. Cerveja, só cerveja, não aprecio. Ainda não aprecio. Mas, tendo o que acompanhar, gosto imenso. No outro dia, vi no supermercado umas cervejas alemãs artesanais, diferentes, e tive vontade de experimentar. O meu marido dizia que não valiam nada. Trouxe só porque a minha intuição puxava por elas. O meu filho, quando lhe falei, também disse que eram mais pesadas que as nossas. Afinal nada pesadas, bem boas.

E agora fico-me por aqui. Dois dos quartos do fundo do corredor estão ocupados. Os primos saíram tarde com a tia, os pais estão a festejar com amigos e eles estão cá. Hoje fizeram todos testes para poderem estar juntos cá em casa, sem máscara, à vontade. Foi uma festa. Covid free. Uma alegria. O mais velho veio dar-me um grande e sentido abraço e fez outro tanto ao avô. Daqui a nada estão a pé que são passarinhos que chilreiam pela entrada do dia.

Se calhar vou dormir na sala que fica ao lado da casa de banho que serve os quartos em que eles estão. O meu quarto fica num recanto na outra ponta do corredor, um bocado longe. Receio não ouvi-los. 

Estou com tranças que a minha filha me fez. Fez-me a mim e fez à sobrinha. Vou dormir com elas a ver se amanhã estou com o cabelo ondulado.    

Ah, é verdade. Quando se deitaram, quiseram que eu contasse uma história. Contei mais um episódio da Princesa Margaret e o seu irrequieto cão Kikas. O mano do meio, quando a história começou, exclamou: 'Ah, a Princesa Margaret. Um clássico das noites em que a Tá ficava connosco à noite lá em casa...'. Gostei. Há que tempos, bem antes da pandemia, e ainda se lembra. Também achei um piadão a que, quando foram lavar os dentes, o mais pequeno tenha dito: 'Há uns anos atrás, o meu mano contou-me...' (e referiu o que o mano lhe tinha contado). Eu disse: 'Há uns anos...? Tem graça essa. Há uns anos ainda tu não devias ser nascido'. Olhou para mim sem saber bem como sair daquela. O mano foi em seu socorro: 'Acho que ele quer dizer uns meses'. E ele, ouvindo, encolheu os ombros, como se fosse um preciosismo.

Umas ternuras. Todos eles, umas ternuras. 

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E, já agora, algumas inspirações para cocktails com rum


Salut!

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Desejo-vos um sábado muito bom

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Fake news com covid à portuguesa e, de sobremesa, Paulo Portas com manipulações e meias verdades.
Salva-se a querida Dame Judi Dench e o queridíssimo Chico Buarque.

 



Por motivos que não vêm ao caso, tivemos que ir à cidade. Muita gente. Muita gente sem máscara e outros com meia máscara. Fez-nos muita impressão. Desviávamo-nos, incomodados. Mas aquela gente não sabia que ainda estamos em regime de confinamento? Esqueceram-se que ainda há covid? É certo que estávamos na rua mas, bolas, cruzando-nos uns com os outros em quase permanência, gente a passar por nós a menos de um metro... Andámos aos ss na rua, a fugir de um, a fugir de outro, tentando ser discretos, sem perceber a que mundo tínhamos ido parar. E tantas lojas abertas. Não conseguimos perceber. 

Depois, já que estávamos ali e precisava de sacos para o aspirador, resolvemos ir, num instante, comprá-los. Ao entrar na loja, uma mulher mais velha que eu vinha na minha direcção também para entrar. Mas vinha sem máscara. Desviei-me para que não ficasse a respirar-me para cima, a menos de meio metro. Quando vi que ia mesmo entrar, disse-lhe: 'Desculpe mas não pode entrar sem máscara'. Ela disse, sem espanto: 'Sim, tem razão'. Abriu a bolsa e retirou uma máscara. Mas ali andava sem máscara, na maior descontração. 

Ao presenciar toda aquela movimentação, fiquei a pensar que, afinal, se calhar, ao contrário do que por vezes penso, quando a pandemia for debelada tudo voltará ao que era. Para nosso grande espanto, não fora algumas pessoas de máscara, dir-se-ia que estávamos nos tempos de antes do corona. Na loja, várias pessoas comprando e escolhendo coisas com vagar, umas tirando dúvidas junto dos funcionários, outras revirando objectos. Preocupação por estarem num espaço fechado, zero. 

Aqui onde vivemos, não muito longe da cidade mas cumprindo os deveres de confinamento, estamos distantes dos velhos hábitos que, pelos vistos, se vão reatando.

Pelo telefone, o meu filho desvalorizou: que quase um ano de vida alterada acaba cansando a disposição das pessoas, que isto é natural. Os mais novos sentem-se praticamente a salvo e, a menos que por dever cívico queiram proteger os outros, virão para a rua gozar a vida. Diz ele. Talvez. Acredito que sim. 

Era quase noite. Provavelmente os que vi, entre o sítio em que estacionámos, o largo onde havia assuntos a tratar, a rua, o percurso para a loja e o caminho de volta ao carro, terão sido umas cem pessoas na rua, talvez mais, não sei calcular. Dessas, talvez metade das pessoas andasse sem qualquer preocupação de afastamento. Talvez uns trinta ou quarenta por cento estivessem sem máscara. Vários dos que estavam de máscara estavam de nariz de fora. Talvez seja uma amostra pouco significativa, talvez não possa tirar conclusões precipitadas. Não sei. Mas fez-me muita impressão. Achei um excesso de à vontade.

Pelo caminho, na rádio ouvimos a notícia de que um farsante do PSD, avençado do Observador, resolveu forjar um plano, usando um template do Governo, com logótipo e tudo. Depois veio com desculpas esfarrapadas que nem ao menino jesus convencem. Fizeram bem os que, lestamente, enviaram o caso para o Ministério Público. Não há pachorra para os chico-espertos para quem só a desestabilização importa. Numa altura em que as hostes laranjas se agitam -- volta o Passos, não volta o Passos --, aparecem as fake news que agitam as redes sociais e lançam a confusão. 

Se não tivesse sido tão prontamente denunciado haveria de andar já meio mundo nas televisões a discutir mais uma treta, uma de entre tantas. 

É como o Paulo Portas. Ao princípio até gostei de vê-lo aos domingos na TVI: um comentário abrangente, aparentemente documentado. Mas rapidamente derrapou para a manipulação, para a meia verdade, para a insinuação, para a maledicência. Fala do que os opositores de Costa intrujam e intrigam como se fossem as posições do Costa. Pouco sério, isso. Ou apregoa como medida certa e de sua lavra coisas que Costa já decidiu faz tempo. O meu marido já desistiu e eu no domingo passado desisti a meio. Gosto de gente que pratica a honestidade intelectual, gente de bem, gente que, mesmo em quadrantes políticos contrários, usa de armas limpas, argumentação franca. Mas pode alguém ser quem não é? Não, né...? Paulo Portas é quem é e, pelos vistos, não mudou nada. Portanto, azarinho: para mim o comentário político do PP nas noites de domingo da TVI  já era. Aos domingos à noite fugia do cagalhotas e ia ouvir o Portas. A partir de agora, viste-o. Estão bem um para o outro, um na SIC, outro na TVI. Aos poucos, vou-me desligando de tudo o que seja treta, falsidade, intrujice. 

Há bocado, ao tentarmos ver alguma coisa, deu-nos uma aversão total a esta comunicação social que explora a má língua, a acusação, a leviandade, a estupidez. O meu marido disse: vamos desligar a televisão. Mas não fui tão radical mas fui ver outra porcaria, o MasterChef Brasil. Aquilo não é culinária, são casos sociais

Enfim.

Pelo meio, por acaso, até gostei da comunicação de Marcelo. Falou bem. É isso: já chega de futilidade, de parvoíce, de irresponsabilidade. Ao falar com a minha mãe, ela disse o mesmo ao comentar a comunicação dele às 20: o homem está como eu, farto de gente estúpida, gostei de ouvi-lo, tem todo o meu apoio. E eu disse: E o meu.

Tirando isso. Dia preenchido como sempre. Mas já estou com a cabeça no que quero fazer no sábado: tentar tirar o vaso dali. O meu marido continua a insistir que é impossível a menos que se tire a terra e, na prática, se mate a planta que está a querer renascer. E isso, obviamente, não. Agora há uma coisa: quando a gente quer uma coisa, consegue. Portanto, não acredito que aquele vaso descomunal vá ficar ali até ao fim dos meus dias. Temos que conseguir. Se não fossem as escadas, a coisa seria de caras. O pior é fazê-lo descer as escadas.

Penso nisso e em varrer o jardim. Nem sei como vou estar concentrada nas reuniões quando me apetece é ir varrer o jardim. Com um ancinho, com um balde para recolher as camélias murchas, a caruma, as folhas secas. O meu marido quer ir podar algumas buganvílias. E temos que ir os dois tentar domar as roseiras bravas, trepadeiras, que circundam uma das árvores grandes.

Não serão grandes objectivos, eu sei, mas agora é o que há. Parece que já nem sei ter grandes ideias nem grandes desejos...

A minha mãe, ao telefone, dizia que pelos anos não quer nada, que tem os armários e as gavetas cheias de coisas de que não precisa, que já nem tem onde guardar mais nada. Eu disse que estou na mesma, que há um ano que não compro praticamente nada a não ser comida e que não sinto falta de nada. Mas, se sinto um certo orgulho por me ter tornado assim, a verdade é que penso que, se muito mais pessoas estão como eu, isto é o desastre total para a economia. E é que eu acho que isto não é apenas enquanto durar a pandemia, acho que isto é assim forever. Mas, lá está, na volta é comigo e pouco mais porque, se calhar, mal nos desconfinemos, meio mundo irá a correr gastar dinheiro em traparia. Não sei. Aliás, não sei mais nada de nada.

Por isso, calo-me. Espero que gostem das fotografias de Philotheus Nisch e da companhia de Natalia Lafourcade e Omara Portuondo a interpretarem  Tú me acostumbraste. E espero que gostem também de ver os vídeos que hoje vi e de que gostei.


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Dame Judi Dench e Benedict Cumberbatch Unite Us


Já agora, deixem que partilhe o vídeo de alguém que fala das várias gerações, desde as memórias da bisavó da mãe até aos seus sete netos. E eu que tenho tantas saudades dos meus -- pimentinhas mais lindos, que agora só os vejo por fotografias ou filmes ou conversas à distância.

Chico Buarque fala sobre sua relação com seus netos


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E tenham um belo dia
Força. Boa disposição. Saúde.

quinta-feira, novembro 26, 2020

Toda florescida de brincos de princesa

 



Tenho um puzzle de muitas peças para montar. Quero que fique perfeito, harmonioso. Contudo, muitas peças são imperfeitas e nem todas parecem encaixar na perfeição. Sei que há quatro peças a mais, desajustadas, desagradáveis, boas para serem descartadas. Contudo, vejo-me forçada a inseri-las no puzzle, tentando o prodígio de que, em cima de todos os demais condicionalismos, ainda consiga que o resultado se pareça com um puzzle perfeito... Um quebra cabeças. Nem as minhas artes para resolver impossibilidades estão a conseguir salvar-me deste complexo enigma que me calhou em sorte.

Durante o dia, por duas vezes, saí para o jardim para fotografar as flores a ver se descia em mim alguma inspiração. Fotografei, maravilhada, os meus brincos de princesa, a floreira que estava partida e que colei, a casinha dos passarinhos e tudo em que o meu olhar pousa. E as ideias até que desceram mas, passado um bocado de descer uma, logo descia outra que me fazia parecer absurda a  anterior. 

Depois, ao fim do dia, recebi um telefonema: alguém, que está nesta tanto ou mais do que eu, queria saber do puzzle. Ainda se riu com algumas das minhas ideias peregrinas. No outro dia desatámos os dois a rir, eu quase sem conseguir falar, uma risota pegada. Mas, até ver, as minhas ideias luminosas não lhe pareceram grande coisa. Quer um puzzle onde ninguém possa botar defeito. Também eu. Mas como? Ele diz: sei que não tenho soluções mas para isso conto consigo. Digo-lhe: ou a gente aceita que o puzzle fique com quatro peças meio de fora ou deitamos as peças fora. Mas isto sou eu a querer forçar a solução imperfeita porque, na verdade, não sou de deitar peças fora. Quando me sinto a ponto de deitar a toalha ao chão penso: 'isto é capaz de ser bom para evitar a demência'. E penso naqueles sudokus ou jogos de terceira idade em que se quer exercitar a memória ou o raciocínio para ver se os neurónios não se deitam a dormir. Penso que este meu pincel é tipo vacina em dose dupla. E rio-me. Tudo para ver se não desisto. 

Hoje deu-me para metáforas, que maçada, como se isto fosse horas para estar com isto. Só pode ser porque ainda não consegui desligar... 

Mas, pronto, vou ver se mudo o chip. Perfumes. A minha mãe estava a pensar oferecer-me um Nº5 pelo Natal. Tive que lhe dizer que não, praticamente já não uso perfume, não me dá jeito perfumar-me para estar em casa ou fazer caminhadas ou ir à praia. Embora, reconheço, seria chique a valer um Chanel e uma esvoaçante echarpe de seda para ir caminhar à beira mar. Um sucesso junto das gaivotas. Um sucesso e uma vingança junto dessas flausinas que me fazem sentir inveja delas.

Tenho no quarto, no closet, duas prateleiras com os meus perfumes. Frascos lindos, perfumes maravilhosos. Encanto-me a contemplá-los. De vez em quando destapo alguns para relembrar o odor. Sinto saudades. Cheirinhos mais bons...

A minha vida mudou. Desde meados de Março que não ponho o meu relógio. É um relógio solto, pesado, lindo. O ponteiro das horas tinha voltado a adiantar-se estupidamente, os menos próximos a alertaram-me que o relógio não estava certo. Mas, tirando o tempo em que esteve a ver se conseguia ser arranjado (duzentos euros para nada), nunca o tirei. Não era para ver as horas, era mesmo só pela sua elegância e beleza e pela companhia. Se o não pusesse, sentiria a falta daquele peso no pulso. Só não o usava ao fim de semana. A aliança também nunca mais usei. Mãos sem nada. Brincos só para as reuniões. Saltos altos também nunca mais.

No outro dia, fui ao dentista. Andava há séculos a adiar, não era nada de urgente, mas, quando vi que isto da covid estava para dar e durar, acabei por achar que o melhor era deixar-me de coisas e ir. O dentista (que agora já não dá pelo nome de dentista, cada um tem sua especialidade) que é homem novo, enquanto punha a cadeira para baixo, olhou-me para os pés e exclamou: ah, que ténis tão giros... e são confortáveis, não são...? Desatei a rir. 'São velhos... e confortáveis, sim'. E ele, olhando-os, 'são muita giros'. Depois olhou para mim e disse: 'Acho muito melhor assim... Há quem ande em cima de saltos altos e nunca experimente o conforto de andar com sapatos assim'. Voltei a rir-me e expliquei-lhe que até Março eu andava todos os dias da semana, de manhã à noite, montada em sapatos bem altos. E ele, que é novo ali e não me conhece de outros carnavais, olhou para os meus jeans, os meus ténis, o meu rabo-de-cavalo e espantou-se: 'A sério...?!'. Ah pois é, bebé. Aqui a je já foi madame empinocada, perfumada, emperiquitada de alto a baixo. Agora é tudo na base do casualware e já vai com sorte. Quando vou entrar numa meeting, uns minutos antes, ponho uns brincos, penteio-me, visto uma blusinha de seda, agora que está mais fresco ponho uma echarpe, passo um brilhozinho nos lábios e está feito. Mantenho as leggings, as meias fofas e quentinhas porque isso ninguém vê. O meu marido goza que se farta. Se me vê andar à pressa a ir à procura de uma echarpe ou de uns brincos, goza logo: 'temos reunião... certo?'. Ele não é como eu: veste-se como se veste e não se altera para as reuniões. 

E pode não parecer mas a minha ideia quando peguei no computador era escrever sobre perfumes. Se eu ainda estivesse numa de usar perfumes, gostava de receber um presente assim: uma cestinha com um vasinho com uma orquídea -- ando com esta coisa de querer ter uma orquídea -- e, ao lado do vasinho, dentro da cestinha, um frasquinho com um perfume raro. E uma caixinha com uns brincos lindos, talvez uma filigrana pequenina, moderna. E uma caixinha com pedrinhas às cores e conchinhas. E ainda um voucher para ir fazer um curso de perfumista. Gostava de saber fazer perfume. Tinha era que ser um curso remoto. Penso que seria um presente que iria deixar-me encantada. Mas como já não uso perfume, e brincos só os remotos, nada de grandes necessidades, acho que vou ficar à espera apenas da orquídea. De resto já o fiz saber aqui em casa. Sempre tive vontade mas sempre achei que era bicho tricky, como os gatos. Não sei se saberei tratar animal tão senhor de si. Mas deve vir com manual de instruções. No outro dia até pensei comprar uma orquídea artificial. Mas as coisas artificiais não dão luta e eu, como é bom de ver, a sério, a sério, só gosto mesmo é do que dá luta.

Mas, pronto, como me distraí com a conversa e daqui a nada tenho que estar a pé, passo já ao vídeo que aqui me trazia. Um vídeo Vogue, uma casa fantástica, um jardim de sonho, uma colecção de vidrinhos e cheirinhos boa para a gente sonhar com ela. A Paola Locatelli não faço ideia de quem seja mas, a julgar pelo que aqui vejo, deve ser simpática.


E um dia feliz, ok?

quarta-feira, abril 01, 2015

Pôr a casa pronta para a primavera, decorar com leveza e alegria. E mesas de café que não chateiam muito.







Como muito bem sabem as pessoas que por aqui passam de visita, faço parte da minoria privilegiada deste país. Não o digo com vaidade mas quase como uma justificação para falar no que vou falar quando sei que há tantas pessoas com dificuldade em manter a sua única casa. Mas tenho tido sorte e por isso me sinto agradecida, não sentindo que tenha que me envergonhar ou esconder a minha situação. 




Ou seja, tenho duas casas, uma na cidade e outra no campo. Claro que também não é nada de estonteante já que há quem tenha também casa de praia, um flat no Rio, um ninho em Paris, um iate não sei onde e talvez até um hotel inteiro noutro sítio qualquer. Enfim, tudo uma questão de escala. Adiante.

Vem isto a propósito de eu gostar de decoração e de ter por onde praticar. 




Não gosto de mobílias escuras, uniformes, pesadas, não gosto de ambientes convencionais. Se algum móvel é mais tradicional, logo o conjugo com outras coisas mais leves. Gosto de cores alegres, de peças variadas, de sítios onde nos possamos sentar no chão ou de ter banquinhos para que uma pessoa pegue neles e se sente onde quer. E gosto de almofadas e de as mudar de sítio. Quando se mudam as almofadas de sítio, é a cor delas que muda de sítio e a decoração já parece renovada.




A mesma coisa com as cobertas, os panos que se põem em cima dos sofás (quando se põem, claro) ou as colchas da cama. É fácil a casa parecer ter um ar rejuvenescido, fazendo pouco. Uma peça colorida, uma nova disposição das coisas, um bibelot inesperado, alegre, um espelho com uma pequena jarra com flores à frente, tudo ajuda. Enquanto escrevo, tenho suspensas no tecto, mesmo sobre mim, uma bailarina, uma fadinha e uma outra menina extravagante e só isso, acho eu, já dá um toque pessoal e divertido à sala. 




Vem isto a propósito do artigo da Harpar’s Bazaar dedicado ao rejuvenescimento primaveril das casas através de poucas mudanças e do qual fazem parte as fotografias que usei para ilustrar este post.



Em qualquer das duas casas tenho duas salas: a que é usada usualmente, onde está a televisão, os livros, o sítio para escrever, e outra que é usada quando se trata de convívio entre um grupo mais alargado de pessoas e que está perto da zona das refeições. 

Em qualquer dos espaços a lógica é sempre a mesma: sofás ou cadeirões em volta, mesas de apoio ao lado dos sofás, e nenhuma mesa a meio. 




Acho que uma mesa ao meio estorva, temos que andar em volta, acanha o espaço. Apenas na casa in heaven, na sala da lareira, pela própria configuração da sala e porque quero que tudo fique mais aconchegado em volta do calor, tenho uma mesa baixa de madeira e tampo de vidro que comprei uma vez num antiquário. Em cima tinha umas peças bonitas que, depois de uma ter sido partida por um dos pimentinhas, já desandaram quase todas para a madeira de cima da lareira (acho que aquela madeira que serve de prateleira deve ter um nome mas agora não me lembro). Quando tinha um sofá em frente da lareira, a mesa, sem nada em cima, passou a servir essencialmente para quando lá estávamos,  o meu marido pôr os pés em cima.




Depois reformulámos a decoração e agora há uma banqueta larga forrada a tapeçaria em frente, e um par de bergères de cada lado.

Mas, de facto, nas casas onde vou, a maioria talvez tenha sempre uma mesa baixa em frente ao sofá principal da sala. 




Vem isto a propósito de outro artigo da Harper’s Bazaar sobre mesas de café e que, por achar algumas soluções interessantes, aqui coloco algumas fotografias pois podem dar boas ideias a quem esteja com vontade de dar um novo ar à sua casa.


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Quem canta é Maria Bethânia & Omara Portuondo  interpretando Só vendo que beleza (Marambaia)

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E, já que de coisas da cas, aqui se fala, sigam, por favor, até à última invenção em termos de copo de vinho

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sábado, maio 31, 2014

As casas em que já vivi. 'Oh as casas as casas as casas, mudas testemunhas da vida'


Este é o meu terceiro post desta noite. Apesar de perdida de sono, apesar de um dia inteiro de reuniões faladas em inglês, coisa que me deixa um bocado de cabeça feita em água, estou com vontade de escrever. Deve ser a minha forma de espairecer ao fim de uma semana cansativa.

Comecei aqui com um déjà vu, mais uns quantos chumbos do Constitucional a mais umas quantas normas inscritas no Orçamento. Temos um Governo que, desde o início, age à margem da lei: marimbar-se para a Constituição é uma das suas imagens de marca.
Enquanto escrevo isto, estou a ver Passos Coelho na televisão, rodeado de seguranças, autênticos gorilas, empurrando o repórter que o questiona sobre o assunto dos chumbos. Bonito. Não o mordeu como eu temia mas pôs os seguranças a empurrar o jornalista. Cada vez melhor. 
A seguir aluei-me, fui para o jardim, peguei em flores, centrei-me numa certa Rose de Granville, desfilei, deitei as mãos à poesia de António Ramos Rosa como quem mergulha as mãos na terra. Na terra de um jardim proibido, diga-se.

Mas isto é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Vou falar das casas onde já vivi. Lembrei-me de escrever isto ao ter nas mãos o terceiro número da revista Granta que, justamente, é dedicado à CASA. Para ilustrar o texto, vou colocar umas fotografias que tirei agora aqui à minha volta. Uma das fotografias mostra umas páginas da Granta (explico porque não tem a ver com a minha casa). A última fotografia foi tirada in heaven faz uma semana.



Marambaia - para nos acompanhar, por favor




A primeira casa de que me lembro foi a casa para a qual os meus pais foram viver quando se casaram. Era uma pequena moradia de rés do chão, tenho ideia que era geminada.

Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade

Ruy Belo

Era pintada de branco, talvez caiada. Por dentro era também branca. Mas lembro-me de a minha mãe remodelar a casa de banho e escolher pintá-la de um verde água muito claro e ela gostar muito e eu também. Tenho ideia que para ela aquilo foi uma coisas especial e isso contagiou-me. Ainda hoje recordo a alegria de termos uma casa de banho muito bonita, de um verde claro muito bonito. Eu brincava muito na rua. Perto da minha casa viviam duas gémeas que eram um ano mais velhas que eu e que tinham um irmão ainda mais velho. Eu adorava brincar com elas. Tinham um gato e vestiam o gato. Elas e o irmão brincavam muito com o gato mas, à distância, aquilo de que me lembro mais me parece que devia ser uma tortura para o pobre do gato. Andavam sempre com ele ao colo como se fosse uma boneca.

Eu era mesmo muito pequena, devia ter menos de quatro anos porque nem andava na escola infantil, ficava numa das minhas avós. A minha mãe, quando vinha das aulas, ia lá buscar-me e íamos as duas a pé até a um cruzamento onde o meu pai nos esperava de bicicleta, ia e vinha para a empresa de bicicleta. Caso a minha mãe achasse que o meu pai estava atrasado, fazia com o tacão do sapato uma cruz na areia do passeio e íamos andando. Por vezes, ele apanhava-nos. De longe já vinha a assobiar, jovial. Depois descia da bicicleta e vinha a andar ao nosso lado, levando a bicicleta de lado. Quando vejo as fotografias dos meus pais nessa altura, fico muito admirada. Têm um aspecto muito moderno. Jovens, bonitos, roupas actuais. Há uma fotografia que tenho na mesa de cabeceira em que estão ambos num estilo muito casual, de boné desportivo com uma pala comprida, grandes óculos escuros. Poderia ser uma fotografia de moda actual. 

Segue umas crianças,

acompanha, viva,
a sua alegria.


António Osório

Depois, os meus avós ofereceram um terreno aos filhos. Fizeram aí uma moradia. Os meus pais ainda aí vivem e foi aí que cresci e vivi até me casar. É uma casa com uma vista espectacular. De um lado a serra, do outro o mar. Depois, com a construção, o mar ficou escondido mas a serra ainda lá está à vista. Eu levantava-me e ia logo espreitar a serra.

Para o meu quarto dessa casa, a minha mãe mandou construir uma mobília a partir de uma revista. Era uma mobília baixa, de madeira clara, com espaço para escrever, com espaço para os livros, com muito espaço para os brinquedos.

Na parte da frente da casa há um jardim com rosas. Agora só tem rosas mas antes teve também cristas de galo, zínias, amores-perfeitos, brincos-de-princesa. O que eu adorava ver crescer as flores, ver as cores, a macieza das pétalas, o perfume.

Na parte de trás há o quintal com laranjeiras, videiras e um limoeiro. Agora tem relva a cobrir a terra e tem também flores mas, até certa altura, tinha uma horta. Tínhamos sempre tomates que cheiravam maravilhosamente. Eu gostava de os apanhar pois soltava-se um perfume irresistível quando se desprendiam do caule. Tínhamos também feijão verde, que o meu pai armava para treparem junto a umas canas que cruzava e enterrava na terra. E havia alfaces, cenouras, salsa, hortelã. Houve também uma altura em que lá tiveram uma pequena capoeira. Mas aquilo não era bem para eles. Ao princípio, o meu pai até engendrou um dispositivo para as galinhas terem sempre milho e água, especialmente quando íamos de férias. Mas era preciso andar sempre a limpar a capoeira e, sobretudo, depois, havia a cena de as matar e a coisa, ou pelo trabalho ou pela violência, não sei, acabou por não durar muito. A capoeira virou casinha de arrumação para as ferramentas e para as coisas do quintal (pás, ancinhos, mangueiras).

Sempre tive muitos amigos, rapazes e raparigas, e geralmente sempre me senti mais atraída por gente mal comportada. Brincava imenso com eles, na rua, por onde calhava. Um dos grandes amigos da altura já foi ministro e agora é deputado. Na altura já era bem comportado e, por isso, eu preferia o irmão que era mais maluco.

in GRANTA Nº3


Mais tarde mudámos o meu quarto, para uma mobília convencional. Nem sei porque foi. Ainda é a mobília que está no quarto. Agora dorme lá a minha mãe porque a cama do quarto dos meus pais foi substituída por uma cama articulada, daquelas eléctricas que sobem e descem, que se reclinam e que levantam ora a parte da cabeça ora a dos pés, ou ambas. Os miúdos acham um piadão à cama do meu pai.

Quando me casei, andávamos à procura de casa e não gostávamos de nada. Depois de viver numa casa com uma vista ampla, não conseguia ver-me enfiada numa casa sem graça, com vista para outras casas. Até que um dia nos falaram num apartamento num 15º andar, apenas quarto e sala, uma sala enorme, e cozinha e casa de banho. Para alugar. Fomos ver. Nem queria acreditar. Via a margem sul de ponta a ponta e o Tejo e Lisboa toda, uma vista assombrosa. Decidimos logo. 

Quer o quarto, quer a sala tinham janela envidraçada até abaixo com passagem para uma varanda. Eu levantava-me e ia logo ver o rio, ver o casario de Lisboa. Estivesse sol ou chuva, trovoada ou nevoeiro, a vista era sempre de cortar a respiração.

A minha filha ainda viveu lá até ao ano e meio.

Mas, com uma criança pequena, não apenas não havia quarto para ela como eu tinha pavor daquelas varandas. Um 15º andar é mesmo muito alto.

Tudo quanto está aqui, quer a
casa aí ao lado, quer esta parte
[a biblioteca], tudo isto está
construído com livros, não tem
tijolos, não tem nada disso

José Saramago, Blimunda

Por isso, mudámo-nos, desta vez para uma casa que comprámos, um andar espaçoso, cinco assoalhadas, boas varandas. A vista não era a mesma coisa, nem pensar, mas era ao lado de um jardim, numa zona central, perto de tudo. Algum tempo depois nasceu o meu filho e o colégio onde os pusemos também era quase ao lado.

Gostava da casa mas faltava-lhe a vista. Quando já não tínhamos onde pôr os livros, tivemos o pretexto para mudarmos de novo. Talvez há uns quinze anos descobri, por mero acaso, esta casa onde agora vivo. É um piso alto numa zona alta da cidade e é bem maior que a outra. A vista é outra vez espectacular, o rio a banhar-me as janelas. E há sítio para os milhares de livros.

Os meus filhos já cá não vivem mas os quartos deles estão como quando eles cá viviam. E fiz bem em manter os quartos pois não faltou muito até voltarem a ter ocupação e já não chegam. Quando se juntam cá a dormir, e não são todos ao mesmo tempo, já têm que se espalhar também pelos sofás-camas.

Gosto imenso desta minha casa. Está repleta de livros e de objectos de toda a espécie. O meu marido sempre teve o sonho de morar num loft, amplo e quase vazio. Não tem essa sorte porque eu ocupo todos os espaços. A casa é ampla e tento preservar espaço central livre mas, ainda assim, não há canto que não tenha uma coisa qualquer. Para os miúdos é o que a minha filha diz: um parque de diversões. E eu fico feliz. Esta é uma casa onde é bom estar e eu fico contente por sentir que a casa acolhe com hospitalidade e afecto os que aqui estão.

Como sou uma privilegiada, tenho uma segunda casa, uma casa no campo, in heaven. É também num sítio alto e tenho vista ampla e, de novo, tenho uma serra a zelar por mim. Temos esta casa no campo, a que eu pomposamente baptizei como quinta, há uns vinte anos e é para lá que fugimos sempre que podemos. Quando andávamos à procura, o meu marido tinha estabelecido uma regra: devia ser perto da primeira, no máximo a uma hora de distância. Em boa hora nos cingimos a essa regra. Num instante nos deslocamos entre uma e outra. 

Quando para lá fomos, os meus filhos eram miúdos, adoravam. Andavam de bicicleta, brincavam, levavam os amigos, brincavam com a nossa cadela querida. Depois, adolescentes, passaram a achar uma seca. Por fim, íamos apenas os dois e eles ficavam cá, na cidade. Eu tentava controlar a situação por telefone, ligavam do fixo quando chegavam a casa mas eu nunca estava descansada. Apanhei uns valentes sustos com o meu filho que se atrasava ou que se esquecia de ligar ou que estava em discotecas e não ouvia as minhas chamadas. Geralmente depois ficava furioso, 'bolas, mãe, doze chamadas!'. Muitas vezes, quando a minha filha já tinha ela saído de casa e ele ficava sozinho e não me ligava nem atendia o telefone, já eu estava a convencer o meu marido para, a meio da noite, ir ver se o descobríamos, quando ele ligava, cheio de sono. 

Agora voltaram a adorar estar na quinta, in heaven. E para os pimentinhas é um admirável mundo novo, caminhos, recantos, caruma, pinhas, bolotas, flores, figos, pedras, pássaros, tocas de coelho, espaço para jogarem à bola, abrigos feitos por todos, para a chuva ou para a sombra. 

E assim é o mundo que eu habito. Não sei se voltarei a mudar de casa. Não sinto necessidade disso e gosto muito delas mas sabe-se lá o que a vida nos reserva. 

Não guardo saudade das casas que deixei para trás. Não sou muito de guardar saudades. Gosto sempre mais do que estou a viver do que do que vivi. Aqui sinto-me bem, as minhas casas gostam de mim tal como eu gosto delas e acolhem com amor aqueles que eu amo - e isso é o mais importante.


O que por palavras nos está oculto
no silêncio crepita
na intimidade

José Tolentino Mendonça





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A primeira canção, Marambaia, é interpretada por Maria Bethânia e Omara Portuondo; a segunda, Luar do Sertão, é interpretada apenas por Maria Bethania.

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Relembro: se continuarem por aí abaixo, encontrarão mais umas quantas coisas de que talvez gostem.  Passa das duas da manhã, mal me tenho de olhos abertos pelo que não vou rever. Deve estar uma coisa jeitosa, tudo com letras a mais ou a menos e a pontuação uma desgraça. Relevem, está bem?

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana!


sexta-feira, maio 10, 2013

Mais a borboleta, coisas sólidas e verdadeiras, para cantarle a mi amor e blackbird (: Miguel Esteves Cardoso que diz 'Como é linda a puta da vida', Manuel António Pina, o mestre da 'Crónica, saudade da literatura', Maria Bethania e Omara Portuondo e, ainda, Sir Paul McCartney)


Abaixo poderão encontrar dois posts sobre a situação político/económica do país e sobre as PPPs.

Mas agora, aqui, a conversa é outra. Ou melhor: dou a palavra a outros.

A vossa melhor atenção, por favor: les beaux esprits se rencontrent.


Para cantarle a mi amor
tengo mariposas blancas






Muito depende de sermos capazes de estar no momento em que estamos, sem pensarmos no que fizemos para ali estar ou nos preocuparmos para onde vamos a seguir.

Se pudéssemos ser inteiramente inteligentes, não pensaríamos senão no momento em que estivéssemos, sem expectativas. Para estarmos à espera, sem saber de quê. Anteontem, durante um segundo de um almoço de Agosto, pousou num copo uma borboleta espampanante. E logo voou, deixando-nos a falar dela.

O momento e o tempo estão tão ligados como o nosso coração e a nossa alma. Tenho a certeza que todos os dias somos visitados por lembranças do muito que nos pode acontecer, do pouco que sabemos e do pouco tempo que temos para ficar com uma pequena ideia do que tudo isto é.

Estas visitas espantosas, em que só se repara por sorte, só são bem recebidas e apreciadas, quando a nossa atenção se desliga de nós próprios e do mundo que gira dentro de nós e se vira, como se de uma casa vazia, para fora.

Há um estado activo de recepção, de estarmos prontos para o que vier, sem termos nada marcado ou expectativa nenhuma. Não se consegue ver a borboleta, se estivermos à espera dela e resolvermos: 'Agora vou estar aqui sentado, com a cabeça esvaziada, inteiramente distraído pelo que me rodeia, à espera que me apareça pela frente uma coisa maravilhosa'.

É quando se está com que se ama que se é mais visitado. Se calhar, o que atrai as visitas é a doçura da companhia e a distracção em que o amor vive. Ali.


[Mais a Borboleta, de Miguel Esteves Cardoso in 'Como é linda a puta da vida']


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O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto de Passos Coelho, de Seguro, de Portas, de todos eles, da 'troika', do défice, da crise, de editoriais, de analistas!

Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.

Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?"

Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.


[Coisas sólidas e verdadeiras, de Manuel António Pina in 'Crónica, saudade da literatura']




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Relembro que, se quiserem estragar a vossa disposição, há dois posts abaixo que são bem capazes de cumprir essa missão (e não venham depois queixar-se de que não avisei).

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Mas, caso prefiram antes lembrar o Dia da Espiga e ir espairecer para o meu Ginjal e Lisboa, então Pedro Tamen apareceu vindo de uma Rua de Nenhures para pôr a mão sobre o meu coração sonhador. Para iluminar ainda mais a brancura das palavras do poeta temos mais uma maravilhosa música do Mali.

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E mais nada. Desejo-vos, meus Queridos leitores, uma sexta feira muito feliz, com mariposas blancas voando em volta do vosso coração e rosas tempranas na vossa imaginação (ou nas vossas mãos!).


sábado, abril 27, 2013

Não sou forte e nem poderosa. Assim começa o Livro das Horas de Nélida Piñon.




Desde o berço sou escritora. Ao abrir os olhos, jurei ter fé nas palavras, com elas contar uma história.

Este ofício, acaso mundano e perverso, me compromete com a fala poética, com o discurso do mistério, com o coração da língua. Mas, na condição de aprendiz, rastreio o transcurso literário dos antecessores a fim de saber onde eles estiveram, e eu não estou. A quem eles amaram, e eu não amei.

Consulto as enciclopédias, e os rostos destes escritores divergem do meu. São contrários ao meu, de hoje. O coração, a língua e o século, a que estiveram atrelados, os distanciam de mim. Ainda assim, devo-lhes gênese e aprendizagem. E onde estejam agora, talvez no Père-Lachaise, persiste neles o epicentro irradiador de saberes e de alento literário. Cada frase que escreveram fundamenta a construção literária.

Solitária ou na multidão, eu desfruto de seus enigmas, das suas partículas narrativas, mima-me com a atualidade dos seus pensamentos. os ponteiros do relógio, que ora consulto, dizem o ano em que estou, mas nada diz da hora da nossa morte. E, apesar de tudo, sei que é mister percorrer campinas e grotões. Ir até onde a arte se aloja e eu naufrago. Apalpar a emoção, que é a âncora humana.






O amor reclama palavras porque sabe que o corpo não fala. As palavras, que verberam na casa, exacerbam os sentimentos por meio da arte. Elas conferem aos amores uma eloquência que não merecem.





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O texto é parte do Livro das Horas, memórias, de Nélida Piñon.

Desconheço a autoria da primeira fotografia. A segunda é de Jonas Andréasson.

A música é Você e é interpretada por Maria Bethânia e Omara Portuondo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito bom.


quarta-feira, dezembro 05, 2012

Como, segundo Tim Wildschut, os pensamentos nostálgicos promovem o conforto psicológico, ajudam a combater a solidão e induzem uma sensação de calor, dei por mim a recordar os tempos em que eu, a minha mãe e a minha avó tratámos do meu enxoval. Psicologia e lavores femininos de mão dada, portanto. (E vamos lá a combater esse frio, está bem...?)







A partir de certa altura a minha mãe começou a dizer que era melhor começarmos a tratar do enxoval.

Fomos a uma loja que vendia tecidos a metro e a minha mãe queria algodão e acrescentava qualquer coisa que era distintiva, não sei se seria algodão egipcío ou se algodão egipcío é o das meias de homem. Sei que ela queria algodão do bom. Comprámos muitos metros, divididos em lençol de baixo, lençol de cima, que era maior por causa da dobra, e almofadas. Comprámos só pano branco.

Depois a minha mãe foi falar com uma senhora que fazia bordados à máquina e deixou lá um grupo de panos com a encomenda de uma série de bordados.

Uma das minhas avós que gostava muito de fazer crochet, fez uma série de barras em renda, umas de bicos, outras com monogramas, bordados antigos, complexos. Fez uma mais simples mas que eu escolhi porque, justamente era simples e a renda fazia uns lacinhos, e eu achava muito bonita.




Quando estavam prontas as rendas, a minha mãe levava-as à senhora dos bordados para que ela as aplicasse e, então, num processo aturado, escolhia-se o processo de aplicação, ponto ajour ou outros, não me lembro dos nomes.

Depois a minha mãe comprou também linho onde bordava ela própria, à mão. Tinha imenso cuidado para não sujar a alvura do pano, e punha óculos, acendia uma luz sobre o bordado e estava concentradíssima.





Num deles bordou uma barra enorme em ponto de Richelieu. Tenho ideia que andou meses ou anos a fazer aquela enorme barra cujos interiores recortava com uma tesourinha de bicos. Vinha da escola e entregava-se a este trabalho, por fim tenho ideia que já desesperava, nunca mais aquilo acabava.




Noutro dos bordados equacionava-se maduramente se a linha a usar devia ser branca, pérola, ligeiramente acinzentada, faziam-se ensaios, olhava-se de frente e de lado, a minha mãe aconselhava-se com a senhora, com a minha avó.

Quando a senhora os dava por prontos, ou bordados ou com as rendas aplicadas, íamos buscá-los. O meu pai ficava no carro e recomendava que não nos demorássemos mas demorávamo-nos sempre porque a senhora (disse-me a minha mãe no outro dia que teve um AVC, está agora num lar) tinha sempre pormenores a relatar, dificuldades com que se tinha deparado e que tinha ultrapassado depois de muito pensar e eu e a minha mãe ouvíamos com muita atenção, analisávamos, dizíamos que tinha ficado muito bem e ela lá sorria, mais tranquila. Depois eu e a minha mãe trazíamo-los em braços, envolvidos em pano de lençol para não se sujarem, e com o mesmo desvelo com que transportaríamos um recém-nascido.

Depois já era tanta coisa que se começou a colocar a questão: onde guardar?

Veio a ideia da arca. E, então, fomos um dia escolher uma arca. O dono da loja aconselhou uma arca de cânfora, grande, toda trabalhada, com uma espécie de tabuleiro interior, um fecho em bronze ou latão, não sei. Pesada que se farta. Cheirosa. Nunca engracei muito com ela, gosto de coisas mais simples, mas o senhor explicou que era o melhor que havia para enxovais e a minha mãe aceitou o conselho, e eu também não ofereci resistência, andava encantada com aquilo tudo.

Algum tempo depois a arca estava repleta de lençóis, toalhas de mesa lindas, umas aos quadrados de linho bordados intercalados com quadrados de renda, outras todas bordadas à mão.




Depois a minha avó tinha na cama dela uma colcha de renda antiga, pelo menos do tempo da minha bisavó, tinha em cima um casal de ceifeiros, ela com uma cesta com flores. Eu gostava muito dessa colcha e pedi à minha avó que fizesse uma para mim. Ela começou por dizer que não seria fácil porque o tamanho era outro, o original era mais pequeno, a linha também era diferente, teria que adaptar o desenho; mas lá a fez. Gosto imenso dessa colcha. Faz-me lembrar a casa da minha avó quando eu era pequena e usava tranças.

Quando abria a arca, havia, pois, aquele cheiro tão característico da cânfora. Na altura não percebia se gostava daquele cheiro ou não. Agora acho que não, e nem sei bem porquê. Mas, a verdade é que dediquei muita atenção a esse enxoval enquanto namorava o poeta cantor.

Depois, avassalada pela paixão e com outro namorado, deixei de ter tempo para prestar atenção a isso. Lá estava a arca cheia que nem um ovo e eu com a cabeça noutro sítio.

Quando me casei, claro que levei o enxoval, mas não a arca, não tinha onde pôr uma coisa daquelas. Ficou em casa dos meus pais. Algum tempo depois, mandaram-na para casa da minha avó. Mais tarde, ela também não a queria, dizia que lhe ocupava muito espaço, e acabei por levá-la para uma arrecadação onde ainda está. Agora tem lá dentro os trabalhos da escola dos meus filhos quando eram pequenos.

Ainda muito miúdos, chegados à nossa casa, um pequeno apartamento perto do céu, num décimo quinto andar com uma vista maravilhosa, casados de fresco, olhámos com apreensão para aquela roupa toda, elaboradíssima. Pensei que devia ser uma canseira passar a ferro aquelas barras bordadas ou de renda e sempre tinha ouvido dizer que engomar linho é obra. Comprámos, então, coisas mais modernas, lençóis mais largos, estampados ou de cores fortes, toalhas amarelas, cor de laranja e, claro, brancas, mas tudo simples.

A grande maioria da roupa do meu enxoval continua, pois, por estrear. 

Ocupa várias gavetas que bastante falta me fariam para outras coisas. Fui agora tirar algumas peças para fora, para fotografar e vi que algumas têm manchas amarelas, devia lavá-las, pô-las ao ar. Mas... e o tempo para isso? Quando me reformar logo me entretenho.

Mas olho aquelas peças de arte com muito carinho. Há nelas muitas, muitas horas de trabalho da minha mãe e da minha avó. Há nelas muito carinho, o carinho com que muito genuinamente pensavam estar a ajudar-me a ter um futuro melhor, um futuro no qual dormiria entre rendas e bordados. Lembro-me tão bem, e até com uma certa nostalgia, daquelas tardes em que nos debruçávamos sobre os desenhos, sobre os panos, antecipando para mim um futuro radioso, branco e feliz. E assim tem sido, uma vida feliz mas mais colorida do que monocromática, branca.

Lembrei-me disto hoje depois de ter lido um artigo na Ciência Hoje em que se dizem coisas interessantes como: Tim Wildschut, da Universidade de Southampton e co-autor do estudo, considera que a “nostalgia é experimentada praticamente por toda a gente e que pode promover um certo conforto psicológico. Por exemplo, um devaneio nostálgico ajuda a combater a solidão”.

Os investigadores quiseram “dar um passo em frente” e perceber “se este sentimento estava também envolvido no conforto fisiológico”. O estudo mostrou que a nostalgia tem uma função homeostática, de equilíbrio, permitindo a simulação de estados anteriores de prazer, incluindo estados de conforto corporal. Neste caso faz as pessoas sentirem-se mais quentes e aumenta a sua tolerância ao frio.


Por isso, meus Caros Leitores, se estiverem a sentir frio, desolação ou solidão, tentem, por favor, recordar momentos agradáveis da vossa vida, momentos que guardem com carinho e pelos quais sintam uma doce saudade. Sentir-se-ão, de certeza, mais quentinhos, mais acompanhados.


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As fotografias são de peças do meu enxoval. A canção, de que gosto imenso, é Marambaia e é interpretada por Maria Bethânia e Omara Portuondo.

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Hoje não escrevi nada no meu Ginjal. Não podia - é que faço mesmo questão de ter em destaque dois poemas enviados por dois leitores, a quem muito sinceramente agradeço, e que incorporei no corpo da mensagem, a seguir ao poema de João Miguel Henriques. Convido-vos a irem até lá. Confesso-vos que me sinto tocada de cada vez que vejo como das palavras nascem palavras, e que belas palavras e que bem que aquelas falam umas com as outras, que bem.

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Tenham, meus Caros Leitores, um dia muito feliz. E recebam um abraço que vos envio com amizade.