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segunda-feira, junho 06, 2022

Cenas de um dia, com uma fera a pingar como um pinto, com os célebres casos notáveis da multiplicação e com uma Rainha como nunca ninguém a viu.

E, a despropósito, uma espécie de spa subterrâneo construído à mão em 100 dias.

 

Anima-me a perspectiva de que esta semana vai ser mais curta. Semanas de quatro dias é que devia ser sempre. Com organização, era na boa.

Anima-me ainda já não estar na escola, sujeita a testes. 

Volta e meia, embora já há algum tempo que não, ainda sonhava que descobria que ia ter teste e não tinha estudado nada, não sabia nada. E ainda me lembro do nervoso miudinho quando os professores distribuíam os 'pontos' ou, nos exames, o formalismo todo do enunciado do exame e das folhas que não me lembro se eram de 25 linhas. Ia sempre um bocado nervosa. Na intimidade do meu pensamento, pedia que me corresse bem. Mesmo que me sentisse conhecedora da matéria, ia nervosa com receio que saísse alguma coisa cujo alcance eu não atingisse ou que eu desconhecesse. Isso ficou um pouco em mim. Ficou também em mim uma outra coisa. Nunca gostei de estudar de mais. Nunca consegui decorar nada pois nunca consegui ter paciência para ficar a perder tempo a decorar. Mesmo em exames finais, não conseguia estudar tanto quanto devia. Ainda agora quando tenho reuniões que são decisivas, não consigo 'ensaiar' na íntegra ou saber a priori tudo o que vou dizer. E isso deixa-me, depois, no momento antes, com algum receio. Vejo colegas que imprimem as apresentações e que, antes de chegar a vez delas, estão a ver e rever cada slide. Nunca fiz isso. Mal vejo os slides, nunca os imprimo e vou para as reuniões a contar na minha capacidade de improviso e com o que me há-de ocorrer. Mas, no momento antes, vendo que toda a gente se preparou, bate o nervoso miudinho. Mas não o evito. Uma espécie de atracção pelo abismo.

A minha fera felpuda também mostrou tê-lo. Estávamos perto de uma piscina. Eu não que eu estava de roda dos casos notáveis relembrando outros tempos. Dois meninos a preparem-se para testes de matemática, um em cada poiso e eu a ajudar um deles. Às tantas um grande chinfrim e o alerta de que o urso cabeludo tinha caído à piscina. A minha filha, vestida, que estava a comer um gelado, atirou-se logo. Um dos meninos não sei se se atirou ou se lá estava. Eu e o meu marido claro que também corremos. Ainda vi o anfíbio peludo a nadar e depois a ser içado. Saiu a escorrer, com metade do volume, a correr, alvoroçado. A minha filha também saiu molhada, com o gelado na boca, também são e salvo.

Mas, dizia eu, que há coisas que me animam. 

E o saber que estou a entrar numa semana curta que antecede uma ainda mais curta anima-me ainda mais. E estamos a entrar no verão e isso também é bom.

E estar em vias de pôr em prática, na empresa, uma little revolution que acho necessária também me anima. Tenho dificuldade em acomodar-me a situações que acho um atraso de vida. Portanto, ou vai ou racha. Uns vão adorar, outros vão odiar. Mas isso não me preocupa. Gosto de cortar a direito.

Bem. Sobre o dia também tenho a dizer que não vi nada do jubileu. Deve ter sido um misto de Santos Populares, Carnaval e Live Aid. Ou seja, uma festa pop, boa para todos. Mas não vi, andei por outras bandas.

Quanto ao resto, segundo vi nos onlines agora à noite: por cá, acho que nada mexe, tudo na maior tranquilidade. No resto do mundo, o bicho ronda. Mas ainda espero um milagre. 

Por milagres. A minha mãe hoje dizia que gostava de ir a Fátima, que há muitos anos que não ia. Que eu me lembre, deve ter ido quando eu teria uns dezasseis anos e fomos conhecer as grutas. Se foi depois, desconheço. Às tantas quer ir fazer pedidos. Ou agradecer. 

O meu pai que sempre conheci agnóstico (isto para não dizer ateu), quando já estava acamado e, volta e meia, um pouco perdido das ideias, quando a minha mãe foi operada a um cancro, mostrava-se inquieto e dizia que rezava a Nossa Senhora de Fátima para ela se pôr boa. Nunca lhe dissemos o que ela tinha, nem pouco mais ou menos. Nem ele percebeu que ela esteve fora tanto tempo. Mas dizia isso. Quando contei à minha mãe, ela ficou admiradíssima: 'Essa é boa... Mas ele nunca acreditou em nada disso....'. Não ia a missas e acho que tinha embirração por padres e afins. Vá lá a gente perceber alguma coisa. Mas se calhar é isso que ela quer ir agradecer, ela ter atendido o pedido do meu pai. Mas não sei, não faço ideia, não me apeteceu perguntar-lhe.

Adiante. À falta de novidades, abri o youtube e vi um vídeo que achei o máximo. Já uma vez tinha visto um assim e depois quis revê-lo e não consegui. Agora, ao ver este foi como se tivesse reencontrado amigo de longa data. Acho o máximo. Acho de uma habilidade incrível, imaginação, força, determinação. Gostava de ser capaz de fazer coisas assim com as minhas próprias mãos. Até me fez lembrar aquela história que ilustra a motivação, aquela do homem que quando lhe perguntaram o que estava a fazer, disse que estava a construir uma catedral quando os outros, que faziam o mesmo, disseram que estavam a partir e a carregar pedra.

 100 Days Building A Modern Underground Hut With A Grass Roof And A Swimming Pool


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Para não se dizer que não ligo patavina ao jubileu resolvi enfeitar o texto com fotografias que mostram a Rainha segundo a lente digital e criativa de Hey Reilly

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria. Paz.

sexta-feira, maio 12, 2017

Eu e os dois Papas que já vi -- e sem precisar de usar a APPeregrinos.
[Uma conhecida minha quase tocou a mão de Francisco e veio de Roma completamente santinha.
E Trump e o Comeygate
-- e a sua entrada a passos largos nos primeiros dias do resto da sua passagem pela Casa Branca.
É que não há milagre que o salve. Consta que, no FBI, os "Agents are pissed off...”
(e os artigos sobre o possível impeachment começam a apertar).





Eu nem devia contar isto porque, a partir daqui, toda a gente vai ficar a saber que tenho para cima de cento e muitos anos e eu, como é ressabido, quero ver se me confundem com a Cate Blanchett, mas com a Cate Blanchett em mais novo, para aí com menos dez anos do que tem hoje. 

Mas conto. Paciência.

Era eu menininha mas já assalariada, trabalhava num edifício gigante que deitava para uma avenida de Lisboa. O Papa estava cá. Não havia nada destas histerias -- gente a ir com dias de antecedência, as televisões com reportagens em permanência, directos all over, comentários multi-sabores -- pelo menos que eu me lembre. Sei que, de vez em quando, nesse dia, eu ia à janela, espreitar. Como nada acontecia, voltava a sentar-me. Até que, então, ouvi um sururu, toda a gente a ir a correr para as janelas. Também fui, claro. E lá ia ele, todo de branquinho, a dizer adeus. 

Anos depois, queria eu ir para um sítio qualquer, cheia de pressa, e o trânsito cortado. Era o Papa que ia passar. Também nada de histerias, nem sabia que o percurso se cruzava com o meu. Deixei o carro não sei onde e ali de uma das avenidas novas, vi-o a passar na Av. da República. Branquinho, de pé, lá ao longe.

Não me fez impressão de qualquer espécie, não me senti perdoada dos meus incontáveis pecados, não me senti capaz de voar de alegria. Nada. Apenas senti que tinha visto o Papa. E acho que nunca mais me tinha lembrado disso até agora que estou a escrever.

Mas, claro está, isto sou eu. A outra qualquer uma tal visão já tinha dado para se ir internar nas Carmelitas Descalças. A mim, qual quê? Ainda por aqui ando a espalhar gula e luxúria pelos céus. Sim, que aquela visão do Franco encerra em si cinquenta pecados capitais e estar eu a divulgá-la na net é estar a pedir a excomunhão das ondas etéreas, ámen.

E não é que eu ande em más companhias. Pelo contrário. Aqui há tempos, pessoa minha conhecida foi de férias a Roma. Quando a revi, parecia beatificada: 'Estive com o Papa...'. Pasmei: 'A sério...?'. E ela, pia e benta, cabeça santamente de lado: 'A sério'. Fiquei banza. Quem haveria de dizer? Qual sumidade, rainha ou primeira-dama tinha sido recebida pelo Papa. Mas ela, como eu permanecesse naquele estado de estupor catatónico, detalhou: 'Fomos para lá às seis da manhã para ver se arranjávamos lugar na primeira fila, já lá havia muita gente, mas conseguimos um lugar bom. Quando ele passou, estendi a mão e quase ele lhe tocava...' E sorria perante tal milagre.

Faltam-me aqui alguns pormenores pois só me lembro de ter perguntado: 'E aguentou-se tanto tempo sem ir à casa de banho?' mas ela tirou-me as dúvidas com aquele seu sorriso canonizado: 'Aguentei-me...' e parecia que estava a reportar um outro milagre.

Mas, portanto, isto para dizer que desta vez não vou ver o Papa em pessoa. E se eu gosto deste Papa. A sério. Vocês sabem que sim.

Quando vinha para casa, no carro, ouvi dizer que os parques de estacionamento de Fátima já estão cheios, que agora só numas tais 'bolsas' e que a organização recomenda que as pessoas usem a app Peregrinos. Pensei cá para mim: 'Bolas que a organização não brinca em serviço, já tem apps e tudo'. Mas, isto, está bom de ver, é pensamento solitário de uma idosa info-excluída no meio do trânsito de Lisboa.


Quanto àquilo das aparições ou visões ou césar-nevões, continua a polémica.


Já ontem, à hora de almoço, D. Januário Torgal Ferreira dizia aquilo que a ala mais civilizada da Igreja agora diz: que aquilo das aparições claro que não tem materialidade, é coisa interior, que com certeza que a Nossa Senhora não anda por aí a fazer o pino em cima das árvores.


Também, creio que na véspera, José Miguel Júdice se saíu com uma boa: que claro que tem a ver com a fé, não com a razão -- e, à luz da razão, qual a diferença entre uma menina dizer que tinha visto uma Senhora em cima da árvore ou que o Nicolás Maduro foi visitado por um passarinho que era o Chávez? Nenhuma, dizia ele, é uma questão de fé. Mas que não se pode deixar de dar um motivo (ou um símbolo) a que as pessoas se agarrem senão desatam a agarrar-se a outros símbolos, de outras religiões. E pronto, esta é a argumentação de Júdice, crente convicto.


E hoje, na televisão, Frei Bento Domingues dizia que isto das Nossas Senhoras é daquelas coisas que representa uma humanização da religião, o lado humano e feminino numa religião populada maioritariamente por homens. E que isto da Nossa Senhora há para todos os gostos, a de Fátima, a dos Aflitos, a dos Remédios, etc, etc. Soube ontem que também há a Nossa Senhora dos Coletes. Mas dizia também o Frei Bento que a mensagem que este Papa traz é que Fátima seja um local em que os crentes se devem unir a favor da Paz. Não para invocar histórias mal contadas (e esta das histórias mal contadas é minha) mas para receberem a mensagem de serem alegres, inclusivos e defensores da Paz. E, se for isso, parece-me bem.


Logo depois mostraram imagens de gente toda escadeirada, pés em bolha e, pior que isso, todos tomados de um fervor místico ao chegarem lá, a chorarem e a abraçarem-se uns aos outros. Se calhar, quando alguém faz caminhadas deste género e chega ao destino, também fica assim mesmo que o destino seja o lugar mais prosaico do mundo.

E pronto. Sobre o tema nada mais tenho a declarar. E, atenção, nada contra quem se entrega a estes exercícios de caminhadas extremas ou quem acredita mesmo numa senhora em cima de uma azinheira. Cada um é como cada qual e eu não sou aqui nenhuma super-juíza-alex para me pôr com juízos morais sobre os comportamentos de cada um. Sou apenas contra a Igreja que alimentou e alimenta isto, mesmo quando está mais que percebido que Francisco é completamente contra este obscurantismo e contra o aproveitamento, sem escrúpulos, das emoções mais primárias das pessoas.

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Já sobre o Trump, tenho cá para mim que está a entrar a passos largos nos primeiros dias do resto da sua passagem pela Casa Branca. O que ele fez ao do FBI só pode sair-lhe caro. O terem saído fotografias suas, na Sala Oval, a sala de todos os delitos, a receber os russos logo depois de ter corrido com o Comey é pormenor. O que se passou com esta corrida em osso ao dirigente máximo do FBI encerra sinais de uma perturbação que deve preocupar não apenas os Estados Unidos mas o mundo.



Razões de sobra tem, pois, Francisco em pedir aos peregrinos que olhem pela paz no mundo. Tomara é que o ouçam em vez de se porem a traficar favores com a Nossa Senhora.

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E, dado que tenho que ir pregar para outra freguesia, despeço-me já. Espero que se tenham sentido tocados pela religiosidade do Padre Borga e pela imagem de cristal da Nossa Senhora com que a Vista Alegre pretende assinalar as comemorações do Centenário. Algumas mentes perversas viram ali um dildo fresquinho e com ar de limpinho. Mas as mentes perversas não são admitidas neste meu espaço. Para essas, até me permito sugerir aquela imagem da Nossa Senhora que parece a Ana Bacalhau e que se encontra à venda em lojas virtuais brasileiras que anunciam que estão harmonizando sua vida.


Tirando isso, o que eu estimo é o que eu desejo. E peace and love, meus irmãos.


E não deixem de ver o Franco, o meu PT special one, que, entre outros atributos, tem o de ser dado a culinárias saudáveis. No vídeo que partilho convosco, temos pudim de chia ensinado por alguém que mostra que o pudim o fez desenvolver-se em todos os sentidos, presumo que até intelectualmente.

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segunda-feira, maio 08, 2017

Eu e mais duas iguais a mim
e a Irmã Lúcia, aka Sor Doris, e mais umas duas um bocado parecidas
(ou nem tanto quanto isso)





No outro dia calhou não ter companhia a meu gosto para almoçar e, para obviar ao desconforto de almoçar sozinha, resolvi ir a um lugar que me servisse de compensação. Jardim, museu, boa comida. Quando estava para ser atendida, duas senhoras elegantes e simpáticas olharam para mim como se fossem dizer alguma coisa mas, afinal, era apenas um gesto de simpatia, que fosse eu primeiro.

Gostava de ter ido para a esplanada mas as mesas estavam ocupadas; fiquei dentro, onde as mesas são corridas. Sentei-me e, pouco depois, as duas senhoras aproximaram-se. E digo senhoras apesar de supor serem pouco mais velhas que eu porque tinham um ar muito bem, entre o intelectual ligado às artes e as 'tias'. Pediram licença -- claro que sim. Uma mesa de intervalo e elas, uma em frente da outra.


Nestas coisas sou meio distraída. Olho em abstracto, ouço vagamente as conversas que chegam até mim. Não presto grande atenção a situações em concreto salvo se a cena é notória e sonante. Assim, tenho ideia de, uma ou outra vez, as senhoras me sorrirem quando o meu olhar se cruzava com o delas. Normal, sendo elas manifestamente tão simpáticas.

Contudo, às tantas, a que estava do meu lado levantou-se, chegou-se a mim e, olhando-me de perto, nos olhos, disse um nome em tom interrogativo. Admirada, disse-lhe 'Não, esse não é o meu nome'. Ela olhou-me com ar ainda mais admirado. A outra olhava-me também com ar curioso. Então, a senhora disse: 'Peço desculpa. Tive que me levantar para vir esclarecer. Desde há pouco que estamos com isto. É ela. Mas não nos encontramos com ela há algum tempo, ela tem vivido em Espanha, por isso estávamos na dúvida. Mas eu agora disse, tenho que esclarecer isto senão ainda vai achar estranho nós não tirarmos os olhos dela'.  Eu disse que não tinha reparado. Ela continuava a olhar-me, inquisidora 'Que coisa. Parece mesmo ela.'. E eu, 'Pois... não sou'. Ela olhava-me intrigada: 'Mas a voz... é igual. E os olhos... iguais. E a pele, esta mesma pele, este cabelo. Igual'. Eu mantive-me na minha 'Pois. Mas não sou'. Ela foi sentar-se com ar de quem ainda suspeitava. A outra disse: 'Mas olhe, fique a saber que tem uma sósia'.


Isto foi há umas duas semanas. Não quis logo falar disso porque é coisa que me perturba um bocado (tal como sempre me perturbam as coisas incompreensíveis das quais sou a prova provada da ocorrência de absolutas improbabilidades)

Já é a segunda vez que isto me acontece. Já contei sobre a outra vez, em Espanha.


De facto, é uma sensação muito estranha pois se sou fruto do legado genético dos meus pais, uma conjugação de traços fisionómicos ou maneiras de ser, quais as probabilidades de ser igual a outra pessoa que não me é nada? Creio que nulas ou perto disso. E, no entanto, pelos vistos já somos três iguais.

Em qualquer dos casos, as pessoas ficaram incrédulas, quase como se duvidassem que eu fosse outra que não a que pensavam que fosse. Fico com a sensação que, se insistissem muito mais, me deixariam na dúvida sobre a minha própria identidade.

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E, no entanto, a improbabilidade não é tão absoluta quanto eu gostaria de pensar. Acima mostro imagem de pessoas bem conhecidas junto a gémeos de si separados à nascença)

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Ocorreu-me contar isto, ao ler que a Irmã Lúcia, aos dezoito anos, fugiu para Espanha. Diz-se que isso aconteceu por conselho da Igreja, para ela se afastar do sururu provocado pelas fenómeno das aparições (e, digo eu, provavelmente para ver se ela parava de mudar a descrição do que tinha visto que a coisa já estaria a ficar incómoda). Ao todo viveu dezassete anos em Espanha entre Pontevedra e Tui. Para que ninguém soubesse quem ela era, mudaram-lhe o nome. Passou a ser a Sor Doris.


Aí, continuou a ser visitada, inclusivamente pelo Menino Jesus. Ou seja, da forma como a coisa é dita, dá ideia que visitada por Jesus em pessoa, mas enquanto bebé, não sei se vindo pelo próprio pé ou se, sendo bebé de colo, alguém o terá deixado ao pé de Lúcia. Dizem que 'oficiais' foram três aparições a que assistiu em Espanha mas há quem diga que foram muito mais. Visitada pela Santíssima Trindade, dizem. Em pequena, os pais diziam às pessoas que não lhe dessem ouvidos, que Lúcia sempre tinha sido uma intrujona. Uma imaginativa dirá agora a corrente menos cesar-nevista da igreja católica. Eu direi apenas que, ao que parece, era uma criativa. Ou uma pândega.

Mas o que aqui me traz nem é isto, que isto é déjà vu. O que aqui me traz é que há quem diga que não houve só uma Irmã Lúcia mas, pelo menos, três.

Transcrevo:

Um dos peregrinos, Angel Diaz, de 56 anos, acredita que a Lúcia que morreu no Carmelo de Coimbra não é a vidente original, tendo sido substituída, algo que justifica com base nas suas alterações morfológicas, nomeadamente os dentes, nariz e queixo.

Antes dessa, tinha havido outra, mas não aquela a quem Fátima “apareceu”, acrescentou.

Portanto, a Irmã Lucia, aka Sor Doris, pode ter tido umas quantas sósias ou, então, pode ter-se desmultiplicado em várias, quais aparições de elle même. Ou isso ou clones ou hologramas ou qualquer coisa nessa base. Embora, para dizer a verdade, nem sei se são assim tão parecidas quanto isso.

Uma história com pano para mangas, é o que é. Ou, como hoje de tarde alguém dizia: Isto da fake news não nasceu nos Estados Unidos, há muito tempo que a gente cá tem disso.

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[E até já. A ver se me me ocorre dizer alguma coisa mais sobre a França.]

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quarta-feira, maio 03, 2017

Sobre a questão religiosa no ano do Centenário das Visões imaginativas (vulgo aparições) de Fátima





Sobre religião ou práticas religiosas já aqui falei algumas vezes mas, com vossa licença, aflorarei de novo o tema. Tendo frequentado a catequese, desde logo não me sent cativada por nada do que tentaram ensinar-me. Tudo era muito focado na noção do pecado e da confissão e, desde que me lembro, tudo aquilo me parecia forçado, artificial ou incompreensível. E ter que ir confessar coisas que não me pareciam pecados era uma violência que me custava suportar. Depois a história contada era toda ela focada em episódios que não me pareciam credíveis. Portanto, ao fazer a comunhão solene, mal me vi liberta da obrigação que, na prática, me era imposta e à qual os meus pais não se opunham, soltei amarras e distanciei-me.

Não me casei pela igreja, não baptizei os meus filhos. Estar numa missa do princípio ao fim --o que acontece muito esporadicamente e porque a situação o impõe -- é, para mim, um tempo que dou por mal empregue e no qual não vejo sinais daquilo que, para mim, é a religiosidade. Tudo aquilo é ritualizado e, não estando eu por dentro, não consigo acompanhar as 'falas' ou a 'coreografia' do ajoelha, senta, levanta. Mais: acho de mau gosto aqueles cantares meio amodernados, com jovens tocando alegremente viola. 

Dito isto.

Em Évora, no outro dia

Não há vez nenhuma que vá de passeio que não entre nas igrejas, em especial quando não há missa (que é, quase sempre, o caso), não me deixe por lá ficar uns momentos, não me sinta bem naqueles espaços de silêncio e paz. Mais: como também já o contei, na minha casa in heaven, não descansei enquanto não arranjei maneira de lá ter uma capela. 

Não me revejo em doutrinas, dogmas, práticas, preceitos, preconceitos. Pelo contrário, tenho em mim um sentimento difuso de religiosidade. Sendo profundamente humanista, quase venero a natureza. Penso que é no maravilhamento pelo milagre da existência de tudo e no respeito pela sua preservação e dignificação que residirá, talvez, o verdadeiro sentimento de religiosidade. Penso eu, claro.

Em Vila Viçosa, no outro dia

E se percebo a necessidade de encontrar um rosto humano ou um nome a quem dirigir os nossos apelos ou preces, não me revejo numa história que, ao longo dos tempos, foi construída sobre preconceitos, sobre exclusões, sobre regras que, se não cumpridas, levam ao castigo. Para mim uma igreja deve ser um lugar de inclusão, de generosidade e tolerância. Sempre me incomodou, mas incomodou visceralmente, que a igreja repudie os divorciados, os homossexuais (ou as adolescentes com calções e tshirt de alças como aconteceu comigo e já aqui o contei). Só esse facto me levaria a não poder colocar-me ao lado desta igreja. Sempre me incomodou que a igreja mostrasse tanto repúdio em defender o uso de preservativo mesmo em situações de risco, ou os contraceptivos em geral. É um pormenor, eu sei. Mas ilustra o que quero dizer. Uma igreja que se agarra a ideias desfasadas da realidade e em nome da qual se condena, se marginaliza, não é lugar que eu ache recomendável.

Mais: não gosto de ver aquelas organizações de jovens que parece que sofreram lavagem ao cérebro e se emocionam perante fenómenos que a pscicologia de grupo explica. Não gosto de ver jovens a falarem como velhos moderninhos. Não gosto de ver jovens que se mobilizam entusiasticamente para actividades sem qualquer utilidade social como, por exemplo, irem em peregrinação a Fátima ou irem a Roma ver o Papa. 

Haverá -- certamente que há -- actividades organizadas pela Igreja e que são de grande utilidade social. Não digo que não. Tal como se encontram actividades meritórias e solidárias em sociedades desportivas e recreativas.

A Igreja Católica vem perdendo crentes enquanto outas igrejas e credos vão conquistando aderentes e isso tem uma explicação muito óbvia.

O persistir na defesa de 'milagres' ou numa doutrina que apoia a crendice e defende a exclusão não é inteligente.


Li hoje que, nas primeiras descrições das aparições, os pastorinhos falavam que a Senhora vinha de vestido azul pouco abaixo do joelho. Depois, com os anos, a descrição do que a Senhora tinha dito foi sofrendo alterações enquanto o vestido ia descendo e lhe aparecia uma capa pelos ombros. Na altura, os párocos referiam-se ao que se passava como coisa de crianças. Contudo, em cima de uma história destas, sem pés nem cabeça, a igreja arquitectou um edifício de crendices que alimentou um negócio próspero -- e que, em minha opinião, desvirtua o verdadeiro sentido religioso da Fé.

Já no outro dia aqui o disse. Que se escolha um lugar como espaço de meditação ou como espaço de partilha de fé, eu compreeendo. Que, para além disso, se tire partido disso para fomentar o turismo, eu também percebo. O que não percebo é que se fomente a crendice e se deixe que pessoas se arrastem, pés em ferida, joelhos em sangue. O que não percebo é que, ao mesmo tempo que se louvam ídolos religiosos, se fomentem práticas que mais parecem pagãs ou que se fomente que é pelo sacrifício que se conseguem as boas graças de santos, santinhos, beatos e beatinhos.


Que se ensinasse que, em tempos, houve um homem bom, justo, um lutador corajoso que deu a vida pelas suas convicções, um homem que sabia perdoar, que não julgava com sete pedras na mão, que se preocupava com os doentes e com os pobres, isso parecer-me-ia suficiente como aglutinador de uma crença, de uma prática de vida.

Li um texto no Kyrie Eleison intitulado A questão religiosa no qual fiquei a pensar. Terá razão o JCM naquilo que escreve mas não se pode abraçar uma religião e seguir os seus preceitos pelo medo do que por aí pode vir se não o fizermos. Tem que ser porque com ela nos identificamos.

Recomendo a leitura desse texto que começa assim:
O Iluminismo assentou a sua avaliação – claramente, negativa – da religião revelada em três pilares críticos: a crítica do preconceito, da superstição e da autoridade que não advenha da razão. Segundo os iluministas, a religião revelada manteria uma atitude anti-racional fundada em preconceitos e superstições, na ordem do conhecimento, e na autoridade, no que diz respeito a matérias morais e à própria crença dogmática. Esta crítica racionalista tornou-se no Ocidente culto o padrão com que se julga ainda hoje a religião. O que levanta, pelo menos, dois problemas. (...)
Percebo a preocupação expressa na formulação dos problemas e, embora não partilhe o mesmo ponto de vista, acho que o tema merece reflexão.

E não me alongo mais. Não é tema que se aflore num sítio destes pois não é matéria para três pinceladas mal amanhadas. São temas complexos. E compreendo que, se as pessoas não reconhecem em si uma matriz cultural que seja esteio e propósito para a vida, ficarão, talvez, vulneráveis a quem as saiba convencer a arrimarem-se a outros amparos, quiçá destruidores da civilização a que chamamos nossa. Resta saber é se a igreja católica, tal como ela é, tal como chegou aos dias de hoje, é ainda essa matriz, a matriz que nos defenderá de uma eventual destruição.

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A primeira fotografia mostra 'Suspensão', obra de Joana de Vasconcelos que representa um terço. Foi inaugurado esta terça-feira no Santuário de Fátima, tem 26 metros de altura e dá luz.


A música lá em cima é o Hino Fátima 2017 feito para a visita do Papa, com letra de José Tolentino Mendonça e música de João Gil.


Ambos os trabalhos, o terço e o hino, ilustram o que eu acabei de dizer: não consigo rever-me nisto. Em nenhum dos dois reconheço sinais daquilo que para mim tem a ver com um sentimento de religiosidade. Contudo, admito que o problema seja meu.

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E, a quem não é dado a temas religiosos, permito-me sugerir a visão do monólogo de Colbert contra Trump. É de antologia.

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