Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, maio 31, 2018

O D de David
[Ou a eterna questão: o tamanho realmente importa?]



Ainda as pessoas não andavam afobadas com a mãe de todas as questões metafísicas -- a saber: quem é que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? -- e já o mundo discutia a mais dúbia e complexa de todas elas: does size matter?

Isto, claro, na era em que toda a humanidade ainda se expressava em inglês.


Local de grandes discussões esotéricas e quânticas, já o Um Jeito Manso albergou deambulações diversas sobre o tema. Provavelmente em certos momentos achei que sim, o mais possível, e, noutros, achei que não senhora, que o que mais importa é a arte. Tem a ver com o espírito de missão que encarne em mim no dia em que opino.

Ultimamente, por razões cá muito minhas, ando alheada do mundo da filosofia e, de passagem, também do da anatomia.

A problemática do sacrossanto RGPD, que cavalgou todos os outros magnos assuntos, tem-me assoberbado para além da conta pelo que tudo o que é dialéctico, retórico e atlético me tem passado ao lado.

Mas eis que abro o correio e, pimbas, um vídeo profundo e artístico me salta para o colo.

Sem delongas, ei-lo, ao vídeo. Pensem o quiserem e concluam o que, em consciência, vos parecer melhor mas vejam como, neste como em todos os outros assuntos, tudo é muito relativo.
Já lá dizia Einstein, o tal que inventou a receita do soufflé de relatividade, que o tempo comprime os corpos. Deve ser por isso que o D do David se comprimiu todo quando entrou no museu, um espaço vintage meio enregelado, e pareceu insuflado aos olhos das meninas do shopping, lugar moderninho e bem climatizado.


quarta-feira, maio 30, 2018

Cor de chocolate





Contei aqui uma vez mas recordo. Desde há muitos anos e por razões que não vêm ao caso acontece não usar transportes públicos. Se calha ficar sem carro porque tem que ir à oficina já parece que estou a pôr em causa a minha sobrevivência e só fico tranquila quando me asseguram que me trazem um de substituição.

Lido assim e, ainda mais, por quem não tem estas mordomias, há-de parecer que estou para aqui a armar-me ao pingarelho. Mas claro que não estou. As coisas são o que são e as minhas ircunstâncias são estas. Claro que preferia ter também motorista mas essa sorte só tenho ao fim de semana ou de vez em quando, em viagens mais longas (mas, nesses casos, tenho que ter o trabalho de cravar alguém).

Andar de metro, de autocarro, de comboio ou de metro é experiência que não tenho há milénos.


Mas uma vez aconteceu ter que ir de autocarro não sei onde. Não faço ideia porquê. Provavelmente teria o carro na oficina e, talvez por estar de férias, ninguém tratou de me arranjar carro de substituição e não estive para me dar a esse trabalho. Não sei. Nem me recordo onde fui. O que sei é que foi uma experiência fascinante.

Relembro.

Informei-me de percursos e horários e fui para a paragem de onde partia o autocarro um bom bocado antes do horário. Quando ele chegou, entrei. Fiquei lá sozinha. Passado um bocado começaram a chegar mulheres. Todas negras. Tenho ideia que todas gordas. E tenho ideia que todas se conheciam. Curiosamente sentava-se cada um em seu banco. Percebi depois porquê. Pousaram um saco no assento ao lado e de lá tiraram o farnel. Pão. Desataram todas a comer. Rapidamente um intenso cheiro a pão com chouriço alastrou pelo autocarro. E conversavam alto e riam de gosto enquanto comiam.


Eu estava encantada. Ouvir aquelas conversas e aqueles risos era, para mim, pitéu do melhor. Depois o autocarro partiu e, noutras paragens, outras pessoas iam entrando, a grande maioria negras. Percebi que eram empregadas de limpeza. Vinham de trabalhar em casas particulares e iam trabalhar nas limpezas dos escritórios, ao fim do dia. E iam naquela alegria. O sentido de humor e a energia delas surpreenderam-me de uma maneira que ainda hoje, anos depois, recordo a minha admiração.

A vida de muita gente é árdua. Não sei como fazem para conciliar com a vida pessoal e familiar. 

Aliás, sei.


Recordo-me daquele ano em que fiz voluntariado na escola secundária que é considerada uma das mais problemáticas do país (senão, mesmo, a mais problemática). Já falei algumas vezes dessa experiência. Não é o assunto de hoje pelo que não vou deter-me nos diversos casos que me emocionaram e me mostraram uma dos lados sombrios da vida. Quero apenas falar duma jovem negra, também reboluda, também extrovertida, também muito faladora.

A toda a hora dizia que queria deixar de estudar, que estava ali apenas porque era obrigada, que queria chumbar para poder deixar de vez a escola. Já devia ter uns dezoito anos e andava ainda no 8º ano. Não sabia nada. Não prestava atenção a nada. Não queria participar em nenhuma actividade. Desinteresse puro. Foi ela que, quando eu escrevi no quadro a palavra 'bondade' e pedi que escrevessem alguma coisa sobre isso, desatou a rir, lendo a palavra com aquele sotaque negro, sincopando a palavra, silabando-a com ar de quem vê um alien em forma de palavra: "bon-da-de". E muito alto, rindo: O que é isso? Bon-da-de? Nunca ouvi. Bon-dade, bon-da-de. Ahaahaha. 

Expliquei. Não prestou muita atenção. Era um conceito que lhe era estranho.


Quando lhe perguntei que profissão queria ter, olhou-me admirada. Não queria nenhuma. Quando lhe perguntei porque não queria aprender, respondeu que tinha que ficar em casa a tomar conta dos irmãos porque a mãe ia trabalhar e os irmãos mais novos ficavam em casa sozinhos. Fiquei a olhar. Nestes momentos, sinto crescer em mim uma emoção forte e sinto que felizmente sei conter-me porque, por dentro, as lágrimas avançam como uma onda. Ela deve ter sentido que eu queria perceber melhor porque me explicou. Quando aqui estou, só penso neles. Devia estar lá a tomar conta deles.  A minha mãe não tem a quem os dexar. Nessa altura, estava a falar baixo e sem se rir. Eu queria dizer-lhe que deveria estudar, para poder ter uma melhor vida, para melhor poder ajudar os irmãos. Mas como dizer isso, sabendo das outras crianças sozinhas em casa?


Como se fazem adultos saudáveis e alegres e como é que estas mulheres que, para poderem sobreviver e alimentar os filhos, trabalham de manhã à noite, deixando os filhos entregues a si próprios, ainda são capazes de rir e brincar, abstraindo-se das dificuldades e festejando a vida, é coisa que me enche de espanto e admiração.

Talvez seja a pele cor de chocolate que tem o condão de lhes adoçar o coração. Mas não sei.

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Há excepções. Mas são isso mesmo: excepções.

Misty Copeland


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E os casos excepcionais: Mandela

[Invictus - lido por Morgan Freeman]


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As fotografias são da autoria de Tim Walker

Lá em cima, quem canta é Le Gateau Chocolat, esta outra gloriosa excepção

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terça-feira, maio 29, 2018

Um anjo da guarda chamado Mamoudou





De vez em quando o homem aparece. No inverno, quando chego é muito de noite. Ele põe-se no recanto junto à porta. Ali é abrigado, não chove, não bate o vento. Quando se vem da rua, não se vê. Apenas quando se vira para entrar no prédio é que de vê. Assusto-me sempre. Não se vem à espera de ver um vulto ali no chão. Não via se era novo ou velho, estava escuro e ele deitado. Se era mais cedo, por volta das oito e picos, estava soerguido, encostado à parede que lhe serve de cabeceira. Assustada, não tentei nunca olhar bem, creio que por pudor, respeito pela sua privacidade. 

Agora voltou e é de dia até mais tarde. No outro dia, não estava nada à espera, como sempre assustei-me. Nesse instante, desejei que ele não tivesse visto que eu me tinha assustado. Estava outra vez encostado à parede, em cima dos cartões, coberto por uma manta escura. Percebi que estava um vulto ao lado, talvez uma mochila ou um saco. Num relance vi que é de meia idade, talvez mais novo, talvez abaixo ainda dos quarenta, que tem barba, que estava vestido de preto. Desviei o olhar, abri a porta. Pensei que deveria ter dito boa noite. Mas não sei se o incomodaria com isso, talvez não queira ser visto assim. Não sei.

Faz-me impressão. Um sem abrigo a dormir à nossa porta é coisa que incomoda. Não sei definir porque me incomoda. Talvez porque é a constatação próxima do abandono. Ou a constatação de que o infortúnio pode apear qualquer um. Ou porque há uma tristeza muito grande numa situação assim e a gente não sabe o que fazer. Ou porque pensa que é um caso em muitos.

Um outro dia, era já mais tarde, regressávamos os dois, já ele dormia ou, pelo menos, estava deitado e todo tapado. Assustei-me com o vulto. Disse: 'Mas com tanta assistência, porque não procurará ele apoio? Não será que deveríamos avisar que viessem cá oferecer-lhe guarida?'. O meu marido achou que não, que o deixássemos estar em paz. Lembrei-me do curso que fiz, do que nos ensinavam, que deveríamos sempre respeitar as opções de cada um, que muitos sem-abrigo vivem na rua por opção sua.

De manhã, por mais cedo que seja, já lá não está. Nem vestígios dele. 

Quando passo na A1, na zona de Vila Franca, olho sempre aqueles prédios grandes que nunca foram acabados. Entre pilares, há sempre roupa estendida, uma cadeira, provas de que ali vive gente.

Admiro-os desde que vi uma reportagem na televisão. Gente digna. Gente muito pobre. Nada têm e, no entanto, do pouco que conseguem fazem uma casa. Diziam, na vizinhança, que são pessoas simpáticas, bondosas. Apenas não conseguem trabalho, apenas lhes falta suporte, apenas se viram despojados de tudo.

Há uns dois ou três anos vi um filme que me impressionou muito. Samba. A história de um imigrante, sem documentos, clandestino, vulnerável. Um filme extraordinário que mostrava a vida da gente invisível. Com medo de ser preso e de ser deportado, sujeitava-se a tudo, a toda a espécie de exploração e violência. Tinha um coração grande e era lindo. A rapariga do filme apaixonou-se por ele. É certo que as raparigas dos filmes gostam de se apaixonar pelos rapazes corajosos que se encontram em situações de fragilidade. Quando são bonitos, têm umas mãos generosas de quem sabe dar abraços longos e quentes e um olhar meigo e carente ainda mais.

Hoje vi aquele filme com o Mamoudou Gassama.

Vi sem perceber como era aquilo possível. Como é que uma pessoa normal trepa a um quarto andar em meio minuto, sem cordas, sem qualquer apoio? Se eu visse uma criança suspensa num quarto andar, desatava a gritar, a chorar, haveria de querer ligar para os bombeiros e não saberia que número ligar, talvez me pusesse de braços abertos cá em baixo sabendo que de nada serviria, impotente, aflita. Não me ocorreria trepar para salvar a criança. Não sou ginasticada, por muito que tentasse não o conseguiria. Mas será que o Mamoudou alguma vez suporia que seria capaz de tal milagre? Se calhar não. Conseguiu-o porque a generosidade falou mais alto, porque a coragem superou o medo.

A França rendeu-lhe homenagem mas é pouco. Todos os presidentes de todos os países da Europa deveriam fazer o mesmo. Todos deveriam abrir-lhe as portas, dar-lhe emprego. Todos deveriam abrir o coração aos imigrantes, aos pobres, aos que nada têm senão a sua alma, a sua força. A velha Europa precisa do sangue nobre desta boa gente.

Emociono-me ao ver o filme. Já vi algumas vezes sem perceber como é que um vulgar ser humano consegue subir a um quarto andar mais depressa do que voasse pelas escadas. Talvez Mamoudou seja um anjo, talvez os seus fortes braços sejam longas asas, talvez seja o anjo da guarda do menino que estava sozinho em casa, o menino cujo pai se calhar também tem uma vida complicada e cuja mãe, noutro país, se calhar também não tem uma vida fácil. A vida não é fácil para os pobres, para os despojados. O que os salva é a sua força de deuses e o seu coração de fazedores de milagres.



E o que Mamoudou, 22 anos apenas, já andou para ali chegar. O que ele já viu. O que ele já viveu.

E, no entanto, quando viu a criança pendurada apenas pensou em ir salvá-la. No vídeo abaixo ele conta.


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(No post que se segue a conversa é outra. De resto, nada de mais: é sabido que eu é mais bolos)

Não me comas... pleeaaaaseeee...


Só para dizer. Não sou puto fã de festas temáticas, festas surpresas ou cenas afins. Quando faço anos, estar com a família mais próxima é do que gosto, e mais do que isso já me fatiga. E é em casa, comidinha feita por mim, nada de barafundas de restaurantes. Quando faço anos de casada, ir numa de escapadinha -- nem que seja ao virar da esquina -- já está bem para mim. Naquelas coisas que alguns casais fazem, de renovar votos com copo-de-água e tudo a preceito, nem que me pagassem. Nem pintada. Nem com a promessa de vida eterna. Uma seca dessas não a suportaria nem á lei da bala.

Espanta-me sempre quando as pessoas se empolgam e afadigam durante semanas a preparar ao pormenor cada coisa de um festejo quando depois o momento se esgota num ápice e pouco fica da trabalheira de quem andou naquela labuta.

A minha filha é assim: gosta de organizar cenas. Se há algum happening, aí está ela a engendrar o como, onde, quem, a imaginar o décor, as toilettes, os presentes, os comes, os bebes, os isto, aquilo e o outro.

Quando era pequena, o que ela vibrava, em antecedência, com o dia da festa de anos. Eu tentava moderar-lhe as expectativas e ia pensando em sucedâneos (caso fossem necessáros) já que, fazendo anos em pleno período de férias, dos vinte amigos que convidava, se aparecesse uma meia dúzia já era uma sorte. Felizmente, com o irmão, os primos e os miúdos do prédio a coisa compunha-se. Mas, depois, das mil brincadeiras que imaginava e preparava com um entusiasmo que me enternecia, poucas conseguia fazer e, por volta das nove ou dez da noite, já os amigos se iam embora e já ela ficava desolada por ter acabado tão depressa.

Não sou disso.

Mas que não se pense que me acho melhor do que alguém que seja festeiro. Não. Cada um é como é -- e aprecio a veia festejadora de quem a tem.

Eu, mesmo nas datas mais simbólicas, não me dá para festivais. Quando fiz um aniversário bem redondo, tinha pensado vivê-lo em Florença. Mas uma pessoa da família estava gravemente doente e irmos para fora parecia arriscado. Fomos, então, dar um passeio no país, regressando a tempo de jantar com a descendência que, na altura, ainda não contemplava netos. Ainda me lembro da minha filha se queixar que o bolo poderia ter sido mais artilhado. Devo ter ido comprar na primeira pastelaria que, àquela hora, estivesse aberta*.

A verdade é que embirro com bolos de aniversário que têm muita cor, muito acúcar e pouca arte. Parecem-me uma piroseira. Quanto mais simples, melhor. O ano passado comprei a tarte de framboesas da Padaria Portuguesa e adoraram. É pequenina, só dá mesmo para provar. Tem que se trazer outros bolos.

E digo 'trazer' porque os vou sempre 'buscar' à loja. Fazer bolos não faço. Não dão para improvisar. Se me ponho a juntar beterraba para ficarem encarnadinhos, sei lá se ponho na dose certa e, às tantas, não fica o bolo todo mal saboroso. Ou se invento de misturar sumo e casca de laranja, amêndoas e cenoura ralada sei lá as doses para ficar na textura certa. Uma vez fiz um doce que consistia em chocolate derretido a envolver frutos secos, passas, fruta cristalizada. Ia ao frigorífico a solidificar. Quando secava ficava como que um chocolate sólido, com alto recheio. Adorei. Os miúdos detestaram. Os mais crescidos acharam que estava calórico demais. Foi a gota de água. Resolvi que não estaria mais para me aventurar a dar o meu melhor e ainda por cima ser criticada ou gozada. Foi o ponto final.

Comida de tacho ou forno, não: dá para rectificar, acrescentar, disfarçar. Gosto. É a minha praia. Nos bolos tem que se ensaiar, ver se fica a contento, e, se for aprovado, repetir. Ora repetir é coisa que não me assiste. Ou seja, para uma inventora anárquica como eu, mais vale assumir que doçaria é terreno interdito.

Mas tenho pena.

Gostava de ter mão para doces, de inventar e ter a intuição para antever o resultado final.

Uma cunhada do meu filho é uma artista. É capaz de passar horas a esculpir figurinhas que saem bem, são divertidas e saborosas.

Aliás, há gente que faz bolos mesmo artísticos.

Mas, não desfazendo, nada como Elena Gnut, a pasteleira russa de 31 anos que faz bolos que devem causar desgosto a quem tem que os comer. Eu, pelo menos, se fosse um bolo destes imploraria para não me comerem.

(Adiante, que o que eu disse daria pano para mangas...)

A sério: um bolo assim eu gostava de ter numa festa minha. Sobretudo, gostava de ser capaz de fazer fazê-lo e depois partilhar o prazer de ter família e amigos à minha volta, a cantar, a contemplar tamanha obra de arte e, finalmente, a comê-lo, chorando por mais.

Um igual a este, por exemplo, seria, soit-disant, a minha cara. Uma comoção. Nem sei se deixaria alguém dar-lhe uma trinca.


E sai uma musiquinha para ajudar à festa


E mais um bolinho, coisa simples.


Bon apétit

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Um dúvida metódica: 
Será que um bolo assim pensa: 
Não me comas 
ou, pelo contrário, 
Não te acanhes... come-me... vá lá...
?
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* Recebi uma sms da minha filha que passo a transcrever: 
Já li. Era e sou assim mesmo. Mas, para variar, não te lembras nada de pormenores. Quando fizeste anos, foste passear e nós, à noite, aparecemos aí em casa e, como não tinhas bolo de anos porque não era para haver nada, eu comprei um salame mas, como estava tanto calor e eu tinha ido jantar fora com o X. porque fazíamos dois anos de casados, ficou todo mole e meio derretido mas ainda deu para cantar os parabéns.
(NB: Agora que o diz, lembrei-me. Bem me lembrava que a cena do bolo tinha dado que falar. E, já agora: quando ela diz que ficou todo mole e meio derretido refere-se ao salame, não ao X.)

segunda-feira, maio 28, 2018

A beleza da decadência





Encontro beleza na decadência. Não sei dizer se em todas as formas de decadência ou apenas em algumas. Penso que, em especial, encontro beleza nas várias camadas de vida que, ao longo dos tempos, se vão sobrepondo, deixando marcas, cicatrizes, vestígios. Pode ser um tronco de uma árvore sem vida, um corpo de mulher que guarda mil histórias, pode ser um edifício esventrado cujas paredes mantêm palavras, desenhos, cores. Memórias impressas, suavizadas pelo tempo.


De manhã, passeei pela beira do rio, lá onde a decadência tomou conta da paisagem. Gosto muito deste lugar e temo o dia em que o rolo destruidor do progresso arrase estas velhas casas esventradas, o que sobra destas paredes mil vezes palco de declarações de amor, de gritos de revolta, de sonhos e devaneios.

Sei que um dia tudo aqui será desfeito, anulado, o pó e as cinzas levados para bem longe. Em vez destes armazéns e casas onde, em tempos, houve trabalho e famílias e agora há apenas ruínas, pedras, mato e gatos vadios, nascerão hotéis e apartamentos de luxo ao alcance de muito poucos. Haverá passadiços sobre o rio, haverá superfícies espelhadas, talvez nasçam arbustos floridos, talvez esculturas. Respirar-se-á civilização.


E quem ali habitar poderá contemplar o elegante deslizar dos veleiros, a cor mutante das águas, a graça do casario que sobe da margem para as colinas, o voo das gaivotas, os cargueiros e os enormes cruzeiros que transportam turistas de país em país. 

Não sei se alguém saberá que ali, por onde tenho andado uma e outra e outra vez, houve, em tempos, casas sem telhado, buracos em vez de janelas ou portas, ervas sem dono, gatos silenciosos que se esgueiram por entre os destroços.


Vou andando e espreitando. Há risco de derrocada. As vigas caíram, os pilares cederam. Num dos edifícios deve ter havido um incêndio. As madeiras estão queimadas, entulho por todo o lado. Do lado de fora, os bonecos pintados riem, ignorando a desolação que habita o interior.

E, no entanto, em tudo isto eu encontro beleza.

Espreito. Quero ver o que se esconde por detrás das ruínas, quero imaginar o que foi em tempos aquele lugar. 

Uma escada que não leva a lado nenhum e em cujos degraus cresce erva. O sol torna alegre aquele espaço que cheira a maresia e que está impregnado de memórias. Quem, em tempos, por aqui andou não imaginou no que isto se haveria de transformar.


Espreito, aventuro-me. Passam turistas que vão para os restaurantes. Admiram-se com a beleza da paisagem, Lisboa tão linda ali tão perto, os cacilheiros, os pescadores da beira de água, a degradação das casas. E eu gosto de ouvir tantas línguas, de ver tanta gente diferente, gosto da proximidade da água. Gosto de pensar que era bom se uma vez pudesse descer as escadas das muralhas e entrar na água. Gosto de pensar que um dia vou tentar ser pescadora e que, por sorte de marinheiro de primeira água, talvez pesque um peixe grande, brilhante, ou um tesouro. Talvez um dia deite a rede ao mar e recolha um misterioso tesouro. 


Espreito. Aproximo-me. As cores dos desenhos são vibrantes. Chega a ser engraçado ver como ficam alegres as paredes assim, com figuras coloridas, desenhos interrompidos pela erosão.

O reboco vai caindo, os tijolos estão à vista, os tectos caíram, as telhas caíram. Espreito e vejo o céu. O sol entra nas casas, a luz desenha novas figuras. Renovam-se assim as ruínas, rejuvenescem com o brilho da luz, com as cores do acaso, com o olhar curioso de quem as olha. É tão bela a decadência.


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As fotografias foram feitas no Ginjal

Acompanha-me no passeio Max Richter com Lamentation For a Lost Life

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Permitam que vos convide a descer um pouco mais para poderem conhecer a extraordinária história de Rikke Schmidt Kjaergaard

Olha os meus olhos





Há temas sobre os quais não consigo formar ideia, muito menos defender, de forma militante, as minhas razões.

No caso da despenalização do aborto não tive dúvidas em defendê-lo apesar de ter dúvidas sobre se eu, alguma vez, teria sido capaz de o praticar (a menos que fosse por razões de inviabilidade do feto). Mas as minhas questões pessoais não me impediram nunca de ter dúvidas sobre a legitimidade da opção.

Já sobre a eutanásia não consigo formar opinião. Tendo assistido, de perto, nos últimos anos, a situações em que a morte apareceu como inevitável e, mesmo quase, como desejável, vivi casos em que apareceu mais cedo do que expectável -- causando tristeza e grande abalos emocionais mas, na verdade, poupando sofrimentos --, ou, surpreendentemente, se afastou quando parecia mais do que certa, deixando-nos estupefactos com a inacreditável capacidade de regeneração do corpo humano. 

Ainda no outro dia comentava com a minha mãe que morte boa só aquela em que, tendo a pessoa já vivido uma boa e longa vida e tido os seus momentos de realização e felicidade, cai para o lado sem dizer água vai. Pode ser um choque para quem cá fica mas, vendo bem as coisas, acabará por ser percebida como uma bênção.

Lembro-me, a propósito, de um ex-colega meu. Uma vez ligou-me uma colega minha a dar a inesperada notícia e na hora seguinte choveram telefonemas e sms, toda a gente em choque com a morte dele. Estava reformado, feliz da vida, e um certo dia, sem nada que o fizesse supor, sentou-se, baixou a cabeça, disse que se sentia cansado e com calor e, instantaneamente, caíu morto. 

Mas há os casos de lenta agonia ou grande sofrimento ou há os casos em que o corpo vai perdendo, uma a uma, cada uma das suas inesgotáveis capacidades. Talvez aí se justifique a eutanásia. Mas isso se a pessoa o quiser e o quiser de uma forma consistente. Claro que há o caso em que os órgãos entram em falência e em que, por todas as circunstâncias, qualquer esperança está fora de questão. No entanto, aí não se pode falar em eutanásia mas em ajudar a pessoa a sair o melhor possível da condição de moribunda.

Não sou dada a filosofias de bolso e muito menos me sinto habilitada a falar sobre o sentido da vida humana. Não sei se viver só se justifica quando existe uma função utilitária ou quando a pessoa tem autonomia sobre os seus actos ou quando quer estar viva. Não sei mesmo. E não sei porque não sei se esses estados são forçosamente definitivos.

Seja como for há casos em que ainda bem que o próprio ou os seus próximos não desistiram.

O caso que acabei de ler é impressionante. 

Trata-se de Rikke Schmidt Kjaergaard, a cientista dinamarquesa que aos 38 anos adoeceu, subitamente, com uma bactéria mortífera. Toda a gente julgou que ela ia morrer. Esteve em coma durante meses. Os médicos pensavam que, mesmo que sobrevivesse, talvez o cérebro estivesse incapaz e seria provável que perdesse os dedos das mãos, os dos pés, o nariz e parte do rosto.

E, no entanto, ao fim desses meses em que viveu aprisionada dentro de um corpo tomado pela estranheza e em que apenas podia comunicar piscando um olho, ela voltou a si. Fez fisioterapia, reaprendeu a viver e agora, apesar de, de facto, ter perdido os dedos das mãos (com excepção de um polegar), ela voltou a viver, a andar, a escrever, a sorrir.

Publicou um livro: The blink of an eye - how I died and strarted living 

Recomendo a leitura do artigo no The Guardian -- Look into my eyes: one woman’s journey from coma to consciousness -- de Joanna Moorhead do qual me limito a transcrever um excerto:
After a deadly bacterial infection, Rikke Schmidt Kjærgaard woke to find herself locked in her own body, with only one way to communicate – blinking: one for no, two for yes. Yet five months later she made a full recovery. Here she tells her remarkable story
(...) Rikke spent five months in hospital, and her book details the agonising path to an almost-full recovery (as well as losing her fingers, she is virtually blind in her left eye). There is the day she utters her first, and very apt, word: “weird”; the days she becomes paranoid and delirious, a common occurrence in coma patients; the terrifying times when she is hauled, in agony, into an upright position in physiotherapy sessions. And then, as she gradually regains her strength and autonomy, there are some incredible milestones: the day she leaves the hospital to first buy the ingredients for, and then cook, a birthday cake for Peter; the day she takes Daniel to his school and climbs the mountain of steps to his classroom, with him holding her hand, willing her to do it, and glowing with pride when she reaches the top. (...)
A partir de agora vai dedicar a sua vida a lutar para que um doente tenha voz mesmo quando a não tem. Em coma, ela ouvia o seu corajoso marido a contar vezes sem conta aos diferentes médicos e enfermeiros qual a condição da mulher, os tratamentos que tinha feito, a sua evolução. Quando 'acordou' Rikke pensou que deveria haver uma melhor forma de enfrentar a situação.
(..) She and Peter were acutely aware of how difficult it had been, even as scientists, to communicate effectively with the hospital staff looking after her. “You experience a total loss of control; and in my situation, being a patient was really difficult. I met so many different doctors and every time Peter had to tell them over and over what had happened to me. So when I got better I said to him: ‘There has to be a better way to do this.’”(...)
“It’s all about being there for people, about never underestimating the difference it can make to simply be with someone in their difficulty, to be beside them, to not leave them. I want to give people hope. It’s what got me through and it’s why I’m where I am now.” 
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A fotografia lá em cima mostra a lava do vulcão Kilauea no Havai

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domingo, maio 27, 2018

Um rapaz selvagem encanta uma mulher da cidade





Quando foi o Butcher's Crossing adorei. Não era só a escrita, nem sei se era a história. Talvez não. Penso que foi, sobretudo, aquela escrita tão próxima da natureza, a terra a mudar aos longo das estações do ano.

Depois foi a descoberta das Oito Montanhas. A mesma coisa. Os elementos. O frio, as neves, o calor, o degelo, o céu que muda, as árvores que mudam em função da altitude, as pedras, os caminhos, o céu à noite, os sons da natureza.


A meio da semana, na fugida à livraria, novo livro de Paolo Cognetti, 'O rapaz selvagem'. Trouxe-o logo. Li-o hoje no carro, li à tarde antes de adormecer. Que bom. Autobiográfico. Nada de situações empolgantes, nada de enredos viciantes. Apenas a  descrição da vida na montanha. Paolo foi passar uns tempos sozinho, numa cabana alugada em plena montanha. A forma como passa os dias, os passeios, os animais que espreitam, os ruídos nocturnos, o amigo pastor. As páginas vão fluindo e eu presa a elas.


Encontro-me comigo quando leio uma escrita assim, tão próxima da natureza.

Hoje in heaven estive assim. Percorrendo devagar, maravilhada, o fulgor do renascimento. Depois das chuvas a terra fica ainda mais fértil. E tudo, tudo me encanta. As rochas e os verdes que as emolduram, as grutas tentadoras mas onde não quero entrar, os cheiros que perfumam o ar quente que faz vibrar os odores da terra, das árvores, do alecrim, do rosmannho, do funcho. A lagartixa que foge, os animais que não vejo mas cuja corrida ouço.


Estava à porta da sala. As portadas abertas, as portas de vidro abertas. Estava com a máquina fotográfica a tentar capturar a luz por entre os verdes, a luz nos muros, as sombras nas rochas. Então ouvi uma espécie de grito. Depois outro. Vinha do pinheiro grande. Um grito, outro grito. Depois um pássaro grande veio em voo urgente para pousar na azinheira ao pé de mim. Era cinzento com cores em volta do pescoço e asas em azul e verde. Gritou e logo um outro pássaro igual mergulhou também do pinheiro e veio ter com ele e logo o primeiro voltou a voar de volta ao pinheiro. Gritavam. Voo nupcial, talvez. Tudo tão rápido que não consegui registar.


O meu marido andou com a roçadora a cortar as silvas e o tojo que estão a despontar com todo o vigor e eu andei atrás dele com medo que corte os orégãos, os lírios e outras florzinhas do campo. Ele não quer que eu ande ali, prefere andar à vontade. Mas ando. Os óculos de plástico de protecção e a vontade dele em cortar a direito não me deixam descansada quando anda com aquela máquina terrível. Mas fica um cheiro bom a erva, a campo, a flores. Adoro. Já o disse muitas vezes: para mim é como se assistisse a milagres. Contemplo a natureza, venero a sua transformação, maravilho-me com a sua harmonia e perfeição.


Talvez por isso, ler palavras de alguém que sabe trazer à escrita estes sentimentos de profunda intimidade é um prazer.

Como disse, o livro chama-se 'O rapaz selvagem' e eu fico a pensar que, se calhar, também eu, que adoro andar sozinha e em silêncio nestes caminhos que são tão meus, sou uma rapariga selvagem. E, no entanto, grande parte da minha vida decorre entre avenidas lentas, sobrecarregadas e escritórios onde não entra o ar da rua nem se ouve os cantos dos pássaros.





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sábado, maio 26, 2018

Gosto deles. E um dia que grave um vídeo vou querer tê-los comigo.
Eles e a equipa deles.


Não sei se eles são pop. Na volta, são. Mas, sejam o que forem, acho que há nos vídeos deles uma desconstrução criativa, uma graça na exploração de ilusões de óptica e um sentido de humor que me agradam. Claro que a música em si e a forma como interpretam as canções também não me desagradam. Mas, na verdade, parece-me mais o acompanhamento musical da diversão que são os vídeos do que o principal foco de interesse.

Acabei agora de ligar o computador e, como sempre, fui espreitar a selecção YouTube de hoje. Não estou com muito interesse no que passa na televisão. Pimeiro foi o futebol. Agora é a Quadratura do Círculo enitida a partir do congresso do PS.. António Costa aguenta-se no mano a mano com Pacheco Pereira, Lobo Xavier e, bem entendido, com Carlos Andrade. Pasmo com a capacidade desta gente que não se cansa, não se desgasta, não perde a verve, não se lhes gasta a pachorra. Se fosse eu já estava de língua de fora, desidratada, com tensão baixa,  incapaz de aturar quem quer que fosse. Pois António Costa,  quase à meia-noite, aqui está em grande forma, verbo fácil, números na cabeça, resposta pronta. Não sei como é possível. 

Tirando isso, como é bom de ver não faço ideia do que se passou no Congresso do PS. Ouço falar no ministro Siza Vieira, na desbocada Ana Gomes e sei lá que mais. Se calhar são temas interessantes mas, a esta hora e depois das semanas que tenho vivido, acho que já não arrebito as orelhas com nada.

A esta hora só a rapaziada dos Ok Go. Eles trepam pelas paredes, eles andam de cabeça para baixo, eles pintam a manta.

Acho que isto deve ser um anúncio a qualquer coisa mas não faz mal, é giro na mesma.



Quem vê caras não adivinha corpos (nem vozes)


Gosto tanto de música, quando ando no carro estou sempre a ouvir música, sempre que posso ouço música e, no entanto, nunca fui de gostar de cantar. É como escrever poesia: acho que não tenho jeito, não faço. Nem tento. 

E espanto-me com as pessoas que, tendo enquanto falam, uma voz normal, quando cantam apresentam um inesperado vozeirão. A gente interroga-se: mas de onde vem isto? Olha-se a cara da pessoa, ouve-se a conversinha em voz fininha e suave e, depois, alto e pára o baile.

Ou isso ou dançar. Gosto de dançar, gosto muito. Mas danço sem perder o controlo, sem me tranfigurar. Gostava de, dançando, me tornar outra. Mas isso nunca aconteceu.

Conheço uma mulher (ia a dizer uma mulher jovem mas, pensando bem, deve ter perto de quarenta e, portanto, apesar do arzinho juvenil, já deve poder ser encaixada na categoria das da idade média). É bonita e, em acréscimo, super elegante, super distinta. Apenas veste griffe e tudo nela respira 'pinta'. Profissionalmente é competente, compenetrada. 

Quando fala em público, não pode passar despercebida: e não é só a beleza, a elegância, o bom gosto na forma como se apresenta. É também a contenção, a segurança, um certo recato. Impõe alguma distância, respeito.

Nos tempos livres, toda ela é literatura. Devora leitura. Ama livros. Manda vi-los de todo o lado. E consta que escreve como uma princesa. Diversas vezes ouço amigos comuns comentarem os seus escritos no facebook. Uma vez mostraram-me. Fiquei admirada. Culta, feminista, engajada. Não lhe imaginava essa veia. 

Mas ponham-na, à noite, numa pista de dança. Vira outra. Fica selvagem, sem contenção, sem freio. Irreconhecível, impúdica, desbragada. No outro dia. Um amigo chegando perto. Abraçando-a, ela toda entregue ao louco prazer da dança, abraçada a ele, toda ela corpo, liberdade.

Eu olhava-a e, apesar de ser sempre assim, quase a irreconhecia. Um amigo comum dizia dela: vira outra, uma transformação espantosa, não se imagina. Não se inibe de nada. Fotografei-a, uma vez, quando estava numa daquelas loucas performances. Viu que eu a fotografava mas foi como se não me visse. 

Quando saímos, o meu amigo disse-lhe: isso é que foi, hein...? fica outra, mesmo.

Mas, nessa altura, já ela era outra, de novo. Mal sorriu e nada disse. Pareceu, até, incomodada com a conversa. E nunca, nas nossas conversas, o tema da sua veia de dançarina veio à baila. 

E eu lembrei-me disso agora ao ver os vídeos abaixo. Quem, vendo aquele rapaz a cantar, poderia adivinhar a forma como dança?

Jakub Józef Orliński




sexta-feira, maio 25, 2018

Ronaldinho Gaúcho e as suas duas mulheres.
Donald e Kim, dois malucos arrufados.
Bruno e o leiteiro que foi mandado para junto de todos os outros


Isto para dizer que, não percebendo eu nada de futebol, os avalio, sobretudo pelo aspecto. Bem sei que não devia dizer isto. Como dizia a outra senhora, já não tenho idade nem posição social para dizer coisas destas. Mas como eu me movo numa escala temporal às avessas, quanto mais anos dizem que tenho mais eu me sinto livre e solta como um passarinho. 
Ou deveria dizer passarinha? Tanto faz. Passarinho ou passarinha aqui, no contexto, são metáforas e as metáforas são como os anjos, não têm sexo. 
Por isso, digo o que me apetece.

Portanto, o aspecto dos futebolistas. Melhor dizendo: o look

E eu sou niquenta, já se sabe. Não gosto de qualquer coisa. Aquilo de deixa lá ver o que é que ela tem no caixote do lixo, teria graça no meu. 

Cristiano Ronaldo pela certa. Não queria nem dado. Só se fosse para me lavar o carro. Diz que ele gosta de carros e diz que eu nunca lavo o meu. Portanto, era uma verdadeira união estratégica, uma relação baseado no interesse. O Rui Patrício talvez fosse elegível, tem ar de ter garra. Talvez o quisesse para me ajudar na poda (note-se: de vez em quando adiro ao acordo ortográfico e deixo cair o h)

Bem. 

Não sou de fixar nomes. Se agora quiser dar mais uns exemplos já não sei, nada mais me ocorre. Parece que os jogadores agora são todos estrangeiros ou estrangeirados. Claro que do Bruno Alves não me esqueço. Tem lugar cativo. Esse podia escolher a função: cozinheiro, jardineiro, cabeleireiro. Não quero saber que seja sarrafeiro. Tem ar de ser dotado no futebol e não só. Capaz de dar até um belo deputado. Ou o Zidane. Podre de sexy. Esse não iria parar ao meu caixote do lixo que eu haveria de lhe dar serventia. 

Mas agora o Ronaldinho Gaúcho? Por quem sois. Com aqueles dentinhos? Ná. Desculpem mas não dá. E, no entanto, com aquele arzinho de bom menino, ele parte os pratos é todos. Duas mulheres. Diz que vai casar com as duas. Casamento na base da simbologia. Da simbologia ou simbolismo? Na volta, do simbolismo. Coisa simbólica. De faz de conta. Bigamia de facto (o de jure que se dane). Dá para acreditar? Quem diria? O safadinho. Sempre de barretinho e dentinho ao léu e, afinal, todo descaradão, todo dado ao desfrute, todo feito Otelo. 

E foi esta notícia que alegrou o meu dia cinzento e todo ele carregado de compliances, consentimentos, privacidades e violações. Dia mais toldado, mais sem graça. Os da administração pública nem aí, rgpd não é coisa que os rale, e uma pessoa nisto, cheia de trabalhos e o escafandro.

Enfim. É o que é. Nada a fazer. 

Mas, dizia eu, esta notícia do Ronaldinho alegrou o meu dia. Quem diria? Aquelezinho ali? Uma mulher em cada braço, uma de cada lado da cama. Lindo. O pior é se ele, com aqueles dentinhos, resolve brincar com elas na base da dentadinha.

Mas pronto, adiante.

Aquilo de não dar para entender as macacadas do Trump e do Kim gordo a mim não me assiste. Lembrar-se-ão que não consegui alinhar no foguetório com os votos que trocaram, todos peace and love, beijinho na boca, iupi. Não acreditei. Ná. Aqueles ali só atinam se forem tratados com muito comprimido para chanfrados de alto risco. Ora aqui, neste santificado espaço, não há cá pão para malucos. Portanto, que já haja ou que já não haja cimeira ou que aquilo do nuclear tão depressa esteja acabado como à beira de se esgadanharem uns aos outros, a mim não me dá pica. Vira o disco e toca o mesmo: vai de volta, vai de volta. 

Já aquilo do Bruno de Carvalho a escaqueirar o Sporting é tema que me interessa. É literário aquilo, é ficção da boa. Aquele aspecto meio ganzado, meio transtornado, aquela voz arrastada, aquelas respostas provocadoras de quem já não as mede: é um filme.

Claro que, pensando bem, aquilo lá no Sporting parece que são escolhidos a dedo. São mais os malucos ou incapazes que por lá têm passado do que gente capaz ou, vá, séria e boa da cabeça.

Só me ocorre que alguém deveria fazer-lhes o mesmo que a senhora aqui de baixo. 


E não digam que por aqui não se aprende nada. Aprende-se e é muito. Só boas ideias. Esta de se arranjar um quartinho nos fundos lá na Academia de Alcochete para ir enfiando lá dentro, um a um, presidentes estarolas que fosse preciso pôr com dono parece-me de génio. A kind of museuzinho dos tesourinhos deprimentes feito com ex-presidentes do clube. Parece-me ideia inteligente, daquelas que um tal barreto que, não por acaso, enfia todos os barretes que lhe estendem costuma ter. If you know what I mean. 

quinta-feira, maio 24, 2018

Bruno de Carvalho está em directo a mostrar que não está bom da cabeça.
Não me admirava nada que entrassem uns quantos a enfiar-lhe uma camisa de forças


O meu marido não quer ver. Acha degradante. Não quer assistir à miséria que ali está. Eu quero ver. Não sei porquê mas quero. Sempre senti curiosidade em perceber os confins, os labirintos e os alçapões da mente humana. Gostava de ter sido psiquiatra mas não consegui coragem para estudar medicina, ver mortos e tudo isso que sempre me assustou. Depois queria ser psicóloga mas não havia muitos cursos e parece que não eram reconhecidos, acho. Portanto, fiz a agulha e fui numa direcção completamente inesperada.


Mas, adiante que isso não vem ao acaso.


Não sei o que revelaria um exame neurológico, um tac, uma ressonância, uma coisa assim à cabeça deste marau que ali está com cara de doido varrido. Mas forçosamente revelaria que há ali muitos bocadinhos de miolos feitos num oito. Fusíveis fundidos, neurónios empecilhados, buracos negros, ratoeitas, janelas partidas, portas arrombadas. Um desastre, em suma..

E ao lado dele tem um senhor com um ar meio enfiado, meio de fuínha. Havia dantes uns desenhos animados em que um pássaro era igual ao senhor que ali está a fazer figura de corpo presente.

Interrogo-me: como é que alguma vez alguma pessoa inteligente conseguiu deixar-se enganar por um maluco destes? Ou o futebol tem mesmo o condão de dar um nó cego nos neurónios e nas sinapses de qualquer adepto?

Já agora, Leitor (que deve ficar azul quando eu escrevo barbaridades que envolvem a mente como, por exemplo, aquilo que hoje escrevi) enviou-me os Estatutos do Sporting. Partilho convosco.

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Esta cegada que se está a viver no Sporting, cá para mim, só vai ter fim quando ele for preso e, também cá para mim, só ainda o não deve ter sido porque o Super-Judge Alex deve andar com mais do que fazer. Mas pronto, isto não deve ficar nos autos porque não tem qualquer fundamento, é apenas uma intuição cá minha. Bem intuição é como quem diz porque acho que toda a gente pensa como eu uma vez que me parece provável que muitos indícios vão ter até ele.

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E sai um bailinho mandado para animar

No inferno estarei em boa companhia

[The death south]


Casamento real - o que eles disseram.
Não um... mas... dois vídeos reveladores.

[Uuuupsss... talvez não tenha sido bem aquilo...]


Há aquela pancada de, nos treinos ou nos intervalos dos jogos de futebol, a maltosa falar com uma mão à frente da boca para os jornalistas ou gente mais esperta que os repórteres desportivos não conseguirem descobrir o que estão a dizer.

Não sei se os deputados também não fazem isto. Provavelmente fazem. Como dizem coisas muito interessantes, quer uns quer outros, mas são modestos, não querem que a gente lhes conheça as elevações.

Ou isso ou são paranóicos. Ou convencidos. Ou, simplesmente, meio parvos.

Whatever. 

Por mim, podem eles estar descansados: não apenas não acerto uma como me estou nas tintas para o que dizem. Até porque, ao longe, não vejo bem. Quando tenho reuniões em salas grandes, se calha algum colega que esteja do lado de lá da mesa, em especial se está longe, pôr-se a falar comigo por mímica, pondo-se, discretamente, a dizer qualquer coisa através de movimentos labiais, fico toda atrapalhada: primeiro, não distingo, com precisão, as ditas labiaduras; segundo, começa a dar-me vontade de rir. 

Mas vontade de rir mesmo, são estas duas cenas que aqui abaixo: descobrir palavras cuja labiagem bate certo e, na verdade, ser tudo completamente ao lado.

William, Harry, Meghan, o Bispo, a Maestrina, as reacções da realeza... uma graça a pretensa reconstrução do que disseram ou cantaram durante o real casório. 

Casamento real - Uma leitura labial errada




ou


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E, finalmente, eis as duas fofésimas e simpatiquérrimas manas catatuas

(mas tadinhas, isto foi noutra festarola, não nesta)


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As fotografias aqui apresentadas, todas elas, também são, obviamente, uma paródia.

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quarta-feira, maio 23, 2018

A atenção comovida, o espaço cuidadoso, o alarme fascinado





Por vezes sinto uma compulsiva necessidade de tomar decisões erradas. Propositadamente. Como se precisasse de seguir um caminho já prevendo que não leva a lado algum. Contudo um péssimo rumo pode dar ir dar a um excelente resultado. A vida a tremer, a hesitar entre as mãos nervosas. Perder-me para me poder encontrar perdido. É lindo. É raro, mas acontece. A dor ainda é um sinal seguro de que estamos vivos, o resto menos.


Gosto de ti assim, quando não projectas as tuas ansiedades como dardos lançados para o coração e para os rins de gente que passa por ti e não imagina quem és. Guardei algumas dessas setas, que fui arrancando do meu corpo, dentro de uma caixa que nunca abri nem voltei a fechar. Como fiz então para guardar a seguinte? Não será hoje que te vou revelar os segredos das caixas que têm as mulheres onde guardam aquilo de que tu, e os outros, desconhecem o valor. Faço-te apenas notar que a relação de uma mulher com uma caixa é essencialmente diversa da relação que um homem pode ter com uma caixa.


De fotografia nada sei, a não ser a inquietante proposta dessa coisa mítica: parar o tempo num pequeno espaço e garantir-lhe uma ambição de eternidade. Mas quem pode garantir não ser ficção o cinetismo da realidade? É dentro de nós que as imagens correm. Mas o caçador chega ao mundo de fora e diz: Pára! -- e tudo pára. Temos um movimento visual escolhido pela atenção comovida, o espaço cuidadoso, o alarme fascinado. Na película impressionada fica a conjunção do sujeito com o objecto, síntese de um lapso da 'história', acabado de nascer e já votado às várias mortes das coisas todas.


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Quem canta I'm a a fool to want you é a extraordinária Angelina Jordan (que, não me canso de dizer, tem agora 12 anos)

Quem aparece nas fotografias é a não menos fantástica Gisele Bündchen. 

Os dois primeiros excertos pertencem ao mesmo livro do qual ontem transcrevi um little bocadinho.

O último é de Herberto Helder e pertence a 'em minúsculas'

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