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sábado, junho 06, 2026

Colheita Feira do Livro de Lisboa 2026

 

Cá estão eles, conforme ontem tinha dito. 

Mas, antes de transcrever uma página de cada, explico porque os comprei.

  • Comprei o livro da Carla Pais e o do Nuno Duarte pois foram vencedores de prémios Leya e tenho curiosidade em perceber que género de livros estão os jurados a valorizar. Em concursos alguns anteriores, li-os e fiquei intrigada pois não consegui levá-los até ao fim, mal acabava de ler já me tinha esquecido do que tinha lido (e até tenho boa memória), e, enquanto os lia, não via interesse nem na história nem no rasgo literário. Claro que pode ser um problema meu, ou pode acontecer que, nessas vezes, eu estivesse a passar por uma crise aguda de exigência. Por isso, vou fazer nova tentativa com os dois últimos.
  • Comprei o '1984' pois acho que já o li mas, ao vê-lo no stand, ocorreu-me a dúvida se o teria. Como estava a um bom preço, pensei que mais valia trazer não fosse já não o ter cá em casa.
  • Comprei o da Lídia Jorge pois acontece que também tenho alguma dificuldade em manter-me interessada quando tento os seus romances. Como fez um grande discurso o ano passado no 10 de Junho, em Lagos, e está incluído neste livro de crónicas e não a conheço enquanto cronista, resolvi trazer.
  • Comprei o da Siri Hustvedt porque tenho simpatia por ela e porque gosto de ler memórias e tenho curiosidade em acompanhar a sua vida, não apenas enquanto mulher e viúva de Paul Auster, mas também enquanto pessoa autónoma e escritora.
  • Comprei o de Leonardo Sciascia porque o Paulo Portas o recomendou e, até ver, quando seguimos as suas recomendações, não nos temos dado mal.
  • Comprei o de Laura Agustí porque gostei da capa e porque fala de flores.

E agora a transcrição de uma página de cada livro. Fotografei e pedi à IA para passar a imagem a palavras. 

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(...) possibilidades: ou a senhora Roscio e o seu primo tinham sido surpreendidos em flagrante crime de adultério, como se diz nos processos verbais da polícia; ou Roscio não tivera qualquer suspeita, mesmo fundamentada, da sua ligação. No primeiro caso, devia reconhecer-se um comportamento muito estranho: ver, declarar friamente ao amante da sua mulher a intenção de o esmagar ali; depois, organizando a vingança, manter com o homem odiado um relacionamento cordial. No segundo caso, ficava por explicar como Rosello tinha sabido o que Roscio tramava contra ele. Havia, é verdade, uma terceira hipótese: que a senhora Roscio, inocente, tivesse sido seduzida, enganada, pelo primo, perseguida pelas suas assiduidades, e tivesse avisado o marido, ou, ainda, que o marido se tivesse apercebido disso. Mas, nesta última hipótese, assegurado da fidelidade da mulher, Roscio ter-se-ia limitado a modificar ou a romper as suas relações com Rosello. A sua compreensão e a sua tolerância para com as paixões humanas, perante esta ofensa irreparável, mesmo que apenas projectada, não podiam ter evoluído até ao ponto de procurar uma vingança irreparável.

Poder-se-ia, todavia, considerar que ele não tinha ido encontrar-se com o deputado comunista a não ser para verificar se este estava disposto à denúncia; que ele não tinha ainda resolvido exercer a sua vingança, e havia, aliás, claramente declarado ao deputado que devia ainda decidir que lhe diria tudo ou nada, segundo... Segundo o quê? Segundo o quê, sob a ameaça, Rosello mudaria ou não de comportamento?

Por conseguinte, ao ameaçá-lo abertamente, Roscio tinha-lhe posto uma condição? Era necessário, neste caso, voltar à primeira hipótese: a uma maneira mais estranha de se comportar, no estilo floreado continental, ou de cinema, da parte de um marido enganado mas apaixonado pela sua mulher, decidido a conservá-la contra todos e contra tudo. E embora Laurana julgasse severamente toda a maneira de viver governada pelas paixões, particularmente pelas do amor-próprio e da honra, não podia fazer de outro modo que o de sentir, na sua hipótese, uma falta de respeito pela memória de Roscio: era por isso que fazia todos os esforços por a demolir, por a aniquilar. Mas seja qual for a maneira como se encare o assunto, este tinha algo de equívoco, de ambíguo: mesmo que não aparecessem ainda muito claramente as relações de causa e efeito, as relações dos protagonistas entre eles, dos elementos de que dispunha com o mecanismo do crime. E no equívoco, na ambiguidade, Laurana sentia-se moral e sensualmente implicado. (...)

in 'A cada um o seu' de Leonardo Sciascia

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Na primavera, o jardim da minha mãe torna-se um espetáculo de calêndulas e outras flores, que crescem com vigor, e ela envia-me sempre fotografias para que eu veja como evolui cada uma das plantas. O jardim, quadrangular e quase tão amplo quanto a casa, tem uma secção dedicada à horta, onde o Francesco, o seu companheiro, planta curgetes, pimentos, tomates, beringelas, alhos e cebolas. Todos os anos acaba por semear mais do que o necessário, e a colheita é tão generosa que a minha mãe costuma repartir as verduras entre as amigas, para que nada se perca. Apesar das suas tentativas de convencer o Francesco a plantar menos, ele entusiasma-se sempre com a horta, como tantos outros reformados que encontram na jardinagem uma forma de se manter ocupados e produtivos.

Quando construíram a casa, a horta era uma das ideias-chave do Francesco. Instalaram mesmo uma cisterna para recolher a água dos telhados e poder assim regar sem depender da rede pública, um recurso especialmente valioso numa província seca como Teruel. Agora estão a pensar em ampliar a cisterna, devido ao aumento de restrições ao consumo de água.

A calêndula, que cresce com abundância no jardim, é uma planta bastante resistente, que não exige muito da terra e tolera bem tanto as geadas como as secas. Além de ser decorativa, tem aplicações práticas: as pétalas podem substituir o açafrão-das-índias como corante, e as propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes fazem dela uma base ideal para a confeção de cremes caseiros. Todos os anos, a minha mãe aproveita a colheita de calêndulas para fazer o seu próprio creme, e eu guardo os boiões vazios do que gasto durante o ano para que ela possa enchê-los com a sua produção artesanal. (...)

in 'Furor Botânico' de Laura Agustí

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(...) corre que se desunha, rapaz, se queremos que aprendas a ler em condições devemos correr atrás dele, quando não, será tarde demais, dizia-lhe isto porque nunca voltava inteiro das ausências, ficava sempre mais qualquer coisa perdida naquele vácuo para onde desaparecia enquanto o Victor lhe enchia o cachimbo com tabaco e o calcava no fundo, era como uma parede a que iam sendo retirados tijolos, seria chegado o dia em que desabaria, e nesse dia não haveria nada mais a ensinar e nada mais a aprender. Não tem filhos?, perguntou-lhe o Victor, e o Ângelo respondeu, tenho três, mas têm mais o que fazer do que aturar um velho rabugento, moram longe, um está na Alemanha, outro no Canadá, o terceiro é professor universitário em Coimbra, vê lá tu, e o Victor disse, o meu irmão vai para a Universidade, não sei se para Coimbra, e o Ângelo respondeu, pois faz muito bem.

O Vicente deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse, anda lá, vá, disse-lhe aquilo e ele foi como foram todos, mas o que o apoquentava desde esse dia não era ter ido, era ter sido o último a ir como se algo dentro de si dissesse, fica, fica, fica, a coisa má dos Tirapicos, uma espécie de desejo mórbido de ser preso outra vez, uma vontade de se vingar do flato do pai, ter um filho ladrão e também subversivo, talvez até comunista, porque não?, o que não faltava em Alcântara eram reuniões clandestinas do Partido, se quisesse mesmo muito poderia aderir, fazer parte, mas nesse caso seria o comunista mais estúpido de sempre porque estaria a arriscar a prisão e a tortura apenas e só por despeito a um velho agonizante, e não por acreditar naquilo, sabia lá ele em que é que acreditava, tudo o que conseguia distinguir era aquilo em que não acreditava, sempre era melhor do que nada, e não acreditava nos cabrões dos americanos que diziam que a grua tinha sido verificada na semana anterior. Deu outra vez por si de punho (...)

in 'Pés de Barro' de Nuno Duarte

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(...) escala, sem sabermos como sair deste imbróglio. A questão não é de deformação por uma espécie de justiça essencial como a que movia Maria das Dores, ou pelos sentimentos contrários que tenham a ver com poder ou ressentimento. O problema é da ordem do embate entre o antropológico e o tecnológico em cuja encruzilhada nos encontramos perplexos. Li num artigo assinado pelo jornalista José Vegar que «a quantidade de informação transmitida por telecomunicações durante todo o ano de 1986 poderia ser transmitida em apenas dois milésimos de segundos em 1996».

Vinte e oito anos depois, a estrela irradiante que é a pulsão comunicacional como é descrita? Não tem descrição possível. Um mundo inimaginável de imagens, números e sinais crípticos expande-se pelo universo e leva-nos na enxurrada. O que entra nessa cadeia infinita não se retira mais, ainda que se apague. Esta é a eternidade que criámos. A responsabilidade por colocar mensagens que tenham a ver com a verdade nesta cadeia transfiguradora deveria por isso inserir-se na Ética e na Moral. Mas onde bater à porta de semelhante igreja?

5.

O ano de 2024 que agora entra, se acaso a História continua a ter parecenças com a lógica de uma narrativa, depois dos nós que se ataram, sobretudo desde há dois anos, estas guerras devem começar a ter suas peripécias definitivas e seus desenlaces, ao longo dos próximos meses. É possível (...)

in 'O céu cairá sobre nós' de Lídia Jorge

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(...) que a criança se perdesse no seio dos homens de barba feita e pés valentes, fizera-se ali um lugar para ele por ter aquele dom de falar com as pedras e por trazer àquelas almas uma certa curiosidade envolta de misticismo. Era preciso acolher aquele enviado, vigiar todos os sinais que o corpo transmitisse. Cada palavra, dita ou por dizer, podia significar uma profecia de oráculo que decifrasse a vontade de Alá. Davam-lhe livros sagrados a estudar, a decifrar, a ler em voz alta num refúgio da mesquita a que apenas os homens cultos tinham acesso. Uma espécie de quarto recôndito que se fizera para ouvir e refletir sobre as palavras do Profeta e assim preparar o sermão da sexta-feira para os fiéis. Mohamed fizera-se homem dentro daquele lugar. A cumprir o desejo do pai e a cava fé da mãe, orgulhosa que ficava a olhar para ele como um salvador tocado pela divindade e, por isso, aliviada das possíveis agruras que a vida lhe pudesse reservar. Bastava-lhe aquela ideia de que o filho mais novo trazia consigo as vontades cumpridas de um Deus. Trajado a preceito, com brio e esmero, a crescer sob uma bênção maior. Um saber inteiro que a escola não podia dar naqueles tempos de que só os escolhidos de Alá teriam o privilégio de desfrutar. Mohamed era, portanto, a voz materializada da crença e o menino que havia de estudar mais do que os outros. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, toda aquela doutrina lhe veio acentuar o silêncio e a mudez; foi-se calando ao longo dos anos, governando as vozes dentro de si, emudecendo-as com o passar do tempo, ora de mudos não se rege a religião, por isso, certo dia, o imã chamou o pai de Mohamed para lhe dizer que de nada lhe valia ter ali o filho, que ali só havia lugar para gente que adorasse as palavras e se vergasse às preces do Profeta, o que aparentemente não era o caso do miúdo. Isto, claro está, foi um grande desgosto para a mãe, que até ali via em (...)

de Carla Pais em 'A sombra das árvores no inverno'

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(...) que o que tinham antes. Estavam a dançar à porta do Michel. Ele vive pertinho da Bastilha e telefonou-nos por entre a barulheira toda. Acho que vou deixar a política pelo amor, não são coisas completamente separadas uma da outra, como é óbvio. Contei-te os horrores da minha doença para evocar a tua mais profunda e sincera compaixão pela tua pobre querida no Soho, atormentada por duas aflições: o coração e a cabeça. Espero que tenha resultado. Estás pronto para fugir comigo agora? Contento-me com um café. Que tal um café, sem beijos nem abraços. Pode ser um café perfeitamente espiritual para exibir a minha alma em toda a sua radiosa pureza. Se um café for demasiado íntimo, contento-me com fazer amor ao telefone. Como vai a vida? Esta palermice toda é só para te dizer que parece que passou uma eternidade e que tenho mais saudades tuas por não saber se e quando te verei. Acho que és o melhor do mundo e é muito triste perder o melhor.

Com amor,

Siri

Lembro-me da dor de cabeça. Passou depois de uma violenta explosão gastrointestinal na sanita que me deixou trôpega e zonza, mas sem dores. Diarreia-choque como cura milagrosa.

Demerol? Quando andava na faculdade, um médico receitou-me um medicamento para uma enxaqueca obstinada que continha Demerol, um opiáceo, nos ingredientes. Deu-me sete cápsulas roxas e vermelhas. A dor de cabeça durou mais de um ano e, depois, passou. Guardei aqueles comprimidos para tomar caso tivesse uma dor que me parecesse insuportável. Teria sobrado algum? Parece-me pouco provável. Não me lembro de arranjar uma receita para Demerol em Nova Iorque, mas talvez o tenha feito. (...)

De Siri Hustvedt, em 'Fantasmas, um livro de memórias'

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(...) meia-volta. Um rapaz com cabelo louro e cara de parvo chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o, sorridente, a sentar-se num lugar vago à sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, não podia continuar e ir para a mesa duma rapariga sozinha. Daria demasiado nas vistas. Sorrindo amavelmente, Winston sentou-se ao pé dele. O loiro Wilsher arvorava o seu sorriso parvo e radiante. Winston teve uma alucinação e imaginou-se a cravar-lhe uma picareta no meio da cara. Poucos minutos depois, a mesa da rapariga ficou inteiramente ocupada.

Mas ela devia tê-lo visto avançar na sua direcção, e talvez tivesse percebido a dica. No dia seguinte, Winston teve o cuidado de chegar mais cedo. E de facto ali estava ela, sentada mais ou menos no mesmo local e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homenzinho com movimentos rápidos de percevejo e uma cara achatada, com uns olhitos pequenos e desconfiados. Quando se afastou do balcão com o seu tabuleiro, Winston viu que o homenzinho avançava a direito para a mesa da rapariga. As suas esperanças desvaneceram-se de novo. Havia um lugar vago numa mesa mais à frente, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele apreciava suficientemente o conforto para escolher a menos ocupada. Com gelo no coração, Winston seguiu-o. Seria inútil se não conseguisse apanhar a rapariga sozinha. Nesse momento ouviu-se um grande estrondo. O homenzinho estava estatelado no chão, o seu tabuleiro voara pelos ares e havia dois jorros de sopa e café a escorrer à sua frente. Levantou-se e deitou a Winston um olhar feroz, parecendo suspeitar que este lhe passara uma rasteira. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração a ribombar no peito, Winston estava sentado à mesa da rapariga.

Não olhou para ela. Colocou na mesa o conteúdo da bandeja e começou de imediato a comer. Era importantíssimo falar de imediato, antes que chegasse alguém, mas entretanto apossara-se dele um medo terrível. Passara uma semana desde que ela o abordara. A jovem podia ter mudado de ideias, podia ter mudado de ideias! Era impossível que aquela aventura acabasse bem; essas coisas nunca aconteciam na vida real. Winston podia ter recuado completamente na intenção de lhe falar se nesse momento não tivesse avistado Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, a coxear pela sala com um tabuleiro nas mãos, à procura de um lugar

de George Orwell em 1984

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Desejo-vos um belo sábado

quinta-feira, junho 12, 2025

Neste nosso tempo em que os cidadãos regrediram à subtil designação de seguidores

 

Até não há muito -- talvez até antes de haver uma concorrência desmedida entre os canais de televisão, nomeadamente os de cabo que têm que manter as emissões em contínuo e deitam a mão a tudo o que é gato-sapato, ou até ao advento das redes sociais que vieram dar a voz a tudo e a todos por mais ignorantes e estúpidos que sejam -- só era dada oportunidade de se pronunciar em público a quem reunia um mínimo de características positivas que os fizessem distinguir do comum dos mortais. Tinha que se ser gente de cultura, com alguma coisa a acrescentar, para se poder chegar a um púlpito e falar para as massas.

Agora não. Veja-se Marcelo que, num dos seus momentos de deriva populista, chamou a discursar no 10 de Junho o João Miguel Tavares. Anedótico. E tal como a Assembleia da República é agora lugar em que um bando de grunhos tem assento, também as televisões se enxameiam com gente desqualificada. Vejam-se os Big Brothers desta vida, os programas de comentário do 'social' e muitos outros. E veja-se a cambada que invade os youtubes. 

Quando os meus netos cá estão, quando se póem a ver televisão, o que eles gostam de ver são youtubers ordinários a comentarem jogos ou parvoíces, a dizerem toda a espécie de disparates. Por mais que se tente impedi-los é por isso que eles se sentem atraídos. E imagino que os tiktoks desta vida estejam também pejados de porcarias idênticas. A mim, no instagram, não me aparece disso porque o algoritmo percebe que gosto de outras coisas e não me mostra grunhices mas, fosse eu de me interessar por maledicência, populices, racismos ou outras desconformidades e, certamente, seria alimentada com milhões de coisas dessas.

Não sei como se poderá parar estas enxurradas de desinformação, de superficialidade, de ordinarice, de aberração. Faz-me lembrar aquelas praias ultra-poluídas, como algumas dos países mais pobres de África, uma desgraça sem limite, as águas carregadas de lixo, as praias inundadas de detritos de toda a espécie e feitio, as pessoas, como animais, a esgravatar no meio da porcaria. Assim a comunicação nos dias de hoje. Lixo, lixo, lixo. E meio mundo a foçar no meio dessa imundície.

As instituições democráticas acabam por soçobrar perante a força da avalancha. Veja-se o que acontece com estes grupos ultra-nacionalistas, gente com aspecto troglodita, gente que nem sabe de que fala, sem conhecimentos de história, certamente gente com alguma perturbação mental, talvez traumas de infância, talvez gente mal-amada, gente que odeia os outros, gente que parece que tem prazer em fazer mal a pessoas indefesas, gente que odeia a decência, a democracia, a cultura, a inclusão, gente incapaz de gestos de bondade, de generosidade. E, no entanto, por aí andam e, estranhamente, conseguem que haja outros tantos que os apoiem. E ouvi que os serviços secretos sabem da existência destes grupos de gente má, de gente que incita e pratica a violência, e, pelos vistos, nada faz. Ouvi que há países em que estes grupos são proibidos. E acho bem. Mas não deve ser possível controlar verdadeiramente a sua existência pois este nosso mundo dispõe de alçapões e labirintos para toda a gente que gosta de se mover no mundo das trevas. A dark web, os chats e outros corredores sombrios permitem a movimentação desta gente maldosa que, em vez de se tratar, anda a espalhar o mal.

Ouço dizer que o populismo, o racismo, a xenofobia, o ultra-nacionalismo e coisas que tais se combatem com uma informação correcta, com educação, com pedagogia. Ajudará mas é lirismo pensar que isso é suficiente. Meio mundo não frequenta a aprendizagem rigorosa, não frequenta o conhecimento, não frequenta a comunicação social séria, não frequenta o mundo dos livros, não frequenta os espaços em que as pessoas falam sobre assuntos sérios e falam com vagar. 

Por isso, por muito que se queira educar os ignorantes, a pedagogia não chega até eles: uns porque trabalham e chegam tarde e cansados a casa, outros porque se desabituaram de ponderar, outros, os mais jovens, porque a realidade das redes sociais, dos whatsapps e dos youtubes é a única que conhecem.

E, no entanto, eis que, no meio disto, surge uma mulher que, vestida de branco, com voz pausada e serena, diz palavras sábias, límpidas, radiosas, inteligentes.

No dia 10 não ouvi o discurso de Lídia Jorge mas mão amiga fez-mo chegar. E, embora esteja a ser amplamente divulgado, faço questão de tê-lo também aqui. Uma maravilha. As escolas deveriam divulgar amplamente estas palavras. As televisões deveriam passá-las de vez em quando. De alguns excertos deveriam ser feitos cartazes para espalhar por todas as terras. 

Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D. Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui, no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.

 

[Discurso de Lídia Jorge. Lagos, 10.Junho.2025] 

quarta-feira, junho 11, 2025

Para mim, um 10 de Junho sem discursos -- mas, do que já vi, um grande discurso de Lídia Jorge

 

Tal como tinha dito, o meu dia começou bem cedo. Pouco passava das oito e já a casa se enchia das vozes que nos enchem de alegria -- a nós e ao cãomaisfofo que salta, rodopia, em volta deles, surpreendido e feliz. Os pais foram para fora, embarcavam bem cedo, e, neste dia feriado, ficaram cá. Nos outros dias ficam nos outros avós que vivem mais perto das escolas. 

Portanto, foi dia cheio, sempre algum a querer fazer alguma coisa, ela na cozinha a querer estar ao comando. Despachada, rápida, impaciente. Eu, que também sou rápida, vejo-me grega para acompanhar aquele ritmo. Está-lhe nos genes querer fazer tudo rapidamente e várias coisas ao mesmo tempo. 

Não apenas fez parte do almoço como fez uma limonada e um bolo que estava francamente bom. Pesquisa a receita, vai vendo os ingredientes necessários, vai buscá-los ou pede-os, ao mesmo tempo vai partindo ovos, batendo os ingredientes, comentando o que vai fazer a seguir. Um ritmo que vai lá, vai. Ao jantar, voltou a fazer a parte principal enquanto o mais novo se ocupava do acompanhamento. Uma animação, uma agitação, uma alegria.

E, de tarde, estivemos no jardim e dançámos e jogámos à estátua e rimo-nos, e, entre eles, também estiveram entretidos. Dia bom. 

Pensávamos que ia estar de trovoada e chuva mas não, para a tarde até abriu. Nada dos calores dos outros dias mas razoável.

O cãoamigo agora está com as pilhas todas carregadas, super interventivo. Mal me vê agarrada a algum deles, na beijoquice, aparece logo a interpôr-se entre nós. Mas, embora venha a rosnar baixinho, vem a dar ao rabo, encosta-se também a mim. Eu digo: 'Então, quer ver que já não posso dar beijinhos...?' e ele dá ao rabo, todo encostado. Só falta rir. O dia todo nisto.

Quando se iam embora, os meninos puseram as respectivas mochilas às costas, pegaram nas malas (como vão ficar uns dias fora da sua casa, de manhã trouxeram logo a bagagem e as coisas da escola para o resto da semana), e foram para o jardim, para o pé do portão, à nossa espera. O dog estava ao pé deles, a dar ao rabo. Pensava que também ia. Tive que refrear o seu entusiasmo e disse-lhe: 'O cão (de facto, disse o nome dele, não disse 'cão') não vai. Fica cá a tomar conta da casa, está bem?'. Pois, de imediato, o rabinho parou de abanar e, com ar infeliz, foi para o lado, sentado, meio deitado, a olhar para outra direcção. E, até sairmos, ali ficou, a olhar na direcção oposta. Conheço-o: estava decepcionado, triste. A sua capacidade de compreensão, as suas emoções e raciocínios surpreendem-me a toda a hora.

Fomos, pois, levar os meninos a casa dos outros avós. 

Quando regressámos a casa, ainda fomos tratar o problema da perna do cãobeludinho e ainda fomos dar uma voltinha boa.

Ou seja: não vi televisão o dia todo. Para dizer a verdade, nem me lembrei de tal coisa tal como nem me lembrei que era dia de cenas.

Portanto, não sei como foram os festejos oficiais, desconheço o que o Marcelo disse, desconheço quem esteve ou deixou de estar. 

Só agora, através do instagram, tive conhecimento que a Lídia Jorge fez um discurso inteligente e poderoso. Fico contente. Tenho que tentar encontrar o discurso inteiro. 

Não costumo ligar a mínima aos discursos do dia 10 mas dá ideia que este discurso teve substância, acrescentou, ficará na memória de quem o ouviu.

Tirando isso, nada mais me ocorre pois o conhecimento do que está a passar-se por aí (ruas de Los Angeles, comportamentos trogloditas contra adeptos ou contra actores de teatro ou outros sucedidos por terras de aquém e além mar) é diminuto. 

Por isso, não opino. Vou descansar.

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Como é bom de ver as imagens mostram imagens geradas pelo Sora (IA) a partir do que lhe pedi.
Não é bem o que eu queria mas não tenho capacidade para aqui ficar até 'ele' acertar.

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Dias felizes para todos

quinta-feira, janeiro 18, 2024

Só para saber se ele sempre teve olhos azuis

 

Numa operação de zapping, comecei pela 1. E passei pela Fátima Campos Ferreira, naquele seu tom repuxado, quase gongórico, a entrevistar o José Luís Peixoto. Sei que é escritor renomado, um dos mais publicados e, se calhar, até lido. 

Quem por aqui me acompanha saberá que, nesta como em muitas outras coisas, não sou flor que se cheire. Não é por mal nem para chatear nem para mostrar que sou diferente mas a verdade é que tendo a não gostar do que é consensual para a maioria das pessoas. Não gosto nem deste fofinho nem do fofinho Valter Hugo Mãe nem do fofinho em versão tentativamente alternativa Gonçalo M. Tavares. Não fazem o meu género nem como escritores nem como pessoas. 

Mas, lá está, posso ser eu que vou em contramão na autoestrada. Se calhar estes fofos, simpáticos, que gostam de se fazer passar por simples, quase simplórios (e, se calhar, estão a ser genuínos), são como é suposto os escritores fofos serem e eu é que não atino pois toda a gente, menos eu, sabe que os escritores se querem fofos e que, os homens em geral, se querem também muito fofos. E se há algum Editor aí desse lado que não concorda pois que faça o favor de o dizer.

O que aconteceu é que o meu marido quase saltou da cadeira quando viu aquele dueto: 'Não vais pôr-te a ver estes dois pois não?'. Sosseguei-o, que não, mas que pacientasse durante dois minutos só para eu aferir a minha opinião. Não precisei de dois minutos. Mudei. Aquela pessoa que ganha a vida a ser escritor não faz o meu género. Agora com uma coisa fiquei eu estupefacta: apareceu de olhinhos azuis clarinhos. Ora juraria que é moreno de olho castanho. Ou não? Sempre foi fofinho de olho azul ou, para reforçar a fofura, resolveu aplicar lentes cor de olho de boneca?

Só isso. A quem puder esclarecer, agradeço.

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Aqui neste vídeo não se vê bem mas, no plano que calhei apanhar, eram azulinhos, azulinhos sem tirar nem pôr.

Fátima Campos Ferreira em Primeira Pessoa com José Luís Peixoto


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PS: Mas não sou só niquenta com os nossos fofos escritores-estrela. Tenho muito mais opiniões assim que fazem com que frequentemente me sinta carta fora do baralho. Quando meio mundo gaba a última obra ou a qualidade da escrita ou a honestidade da narrativa de vários outros eu salto fora, assumo-me como freak, digo logo que o mal é certamente meu. Por exemplo: Lídia Jorge. Prémios e mais prémios. E, no entanto, como escritora não tenho paciência para ela, acho-a uma maçadora. Portanto, estão a ver.