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segunda-feira, abril 27, 2026

Cartas de amor

 

Provavelmente só as pessoas até à minha geração conhecem a experiência de receber cartas de amor. Ou escrevê-las. Em papel, enviadas pelo correio.

Como sempre adorei escrever, onde eu ia arranjava alguém com quem me corresponder. 

Ia acampar com miúdos de outros liceus, e era uma festa, dias longe de casa, numa quinta. E, vinha de lá, com um monte de nomes e moradas e, depois, escrevia cartas e cartas e ficava numa expectativa à espera que o carteiro trouxesse envelopes gordos, cheios de novidades, de pensamentos, de dúvidas. 

Conheci uma inglesa na praia, mergulhámos, sorri para ela, começámos a conversar, o meu pai ensinou-a a nadar e, durante anos, através de uma muito assídua correspondência, conheci  realidade de uma adolescente que vivia uma vida diametralmente oposta à minha. A liberdade inglesa contrastava com o moralismo da fechada e cinzenta sociedade portuguesa. Espantava-me com tudo o que ela me contava. E trocávamos fotografias. Era uma realidade que me chegava de um outro mundo.

Depois conheci um rapaz de um liceu do Porto. Uma inteligência incomum. Correspondemo-nos durante muito tempo, creio que já andava na universidade. Tão diferente de todos os demais. Hoje, um ilustre catedrático. 

Em Angola, um amigo especial, inseparáveis durante um mês. Vivências muito diferentes, eu com dezassete acabados de fazer, ele já com dezanove, a meus olhos, um homem feito. Uma história que me marcou. E, depois, as cartas dele, cheias de ironia e de provocação. Tentava desinstalar-me, coisa que eu sempre apreciei. Uma só a descobri quando estava a esvaziar a escrivaninha da sala da minha mãe.

E depois um outro rapaz irlandês. Pelas fotografias via que era gigante, cabelos compridos. Um outro mundo, tempos de grandes conflitos, ele com uma consciência política muito à frente da minha, uma revelação. Abriu-me horizontes.

E um rapaz africano que muitas vezes não sabia se as suas cartas conseguiriam chegar até mim, que tinha que percorrer uma longa distância para receber as minhas. Aí a vivência não era apenas muito diferente, nem era por ser um outro continente, era, mesmo, como se fosse outro planeta. As dificuldades pelas quais passava eram imensas e, sobretudo, havia conflitos e tinha muito medo que o matassem. Eu recebia as suas cartas com inquietação mas ainda maior inquietação sentia quando passava muito tempo e não chegava carta dele. Depois lá chegava e eu ficava toda feliz. Até que, por fim, as cartas dele deixaram de chegar.

E, depois, as cartas de amor. Tenho um saco cheio delas. Deixei-as ficar em casa dos meus pais. Também as recuperei quando há cerca de dois anos as encontrei na mesma gaveta em que as deixei. Não fui capaz de as reler. Eram dirigidas a uma que já não sou. Contudo, sei que eram cartas bonitas, muito bem escritas. Tinham sempre várias folhas, e eu, sobretudo, gostava de ler. Não era tanto o amor, era mais o prazer de ler, em especial por serem bem escritas. E eu retribuía e sei, honestamente falando, que mais do que o sentimento, era o prazer da escrita, o prazer de desbravar caminhos através das palavras.

Encontrei também as cartas que o meu pai enviou à minha mãe enquanto fez a tropa, em Abrantes.

E encontrei a carta que o meu avô materno dirigiu à minha avó, para se declarar.

São palavras que sobrevivem e que são testemunhos não apenas de sentimentos mas, também, de uma época.

Mensagens escritas no telemóvel esvaem-se, não ficam para o futuro. Cartas são cartas, são eternas. Não sou saudosista, não há muitas coisas das quais tenha saudades mas das cartas tenho. 

Talvez por isso, goste tanto de ouvir ler cartas, em especial cartas de amor. E, se forem ditas por quem tem uma voz feita para dizer palavras, ainda melhor.

Benedict Cumberbatch lê uma bela carta de amor

Gerald Durrell e Lee McGeorge conheceram-se em 1977, quando Durrell — já naturalista e escritor de renome — dava uma palestra na Universidade de Duke, onde ela estudava comportamento animal. Tornaram-se amigos íntimos rapidamente e, em dois anos, casaram. Em 1978, pouco depois de se terem conhecido, Durrell escreveu-lhe uma carta.

Benedict Cumberbatch leu esta bonita carta para terminar o nosso espetáculo especial do Dia da Terra no Royal Albert Hall, em abril de 2026.

O espetáculo foi realizado em parceria com a Vivobarefoot e em apoio à Greenpeace.


Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, julho 28, 2025

Um domingo feliz

 

Festejámos, em família, o último aniversário de Julho, o terceiro. Daqui por poucos dias iniciam-se os de Agosto, mais três. Bem quero manter-me na linha, mas as tentações são sempre mais que muitas. Claro que eu poderia manter-me de boca fechada, em especial quando chega a hora dos bolos. Mas com a falta de açúcar que entra na minha dieta rotineira, quando me apanho com um doce à frente nem tento controlar-me. Pelo contrário, sobe em mim uma insana vontade de me desforrar, vontade essa que não contrario.

De cada vez que nos encontramos pasmo com o que está a acontecer-me. Estou, de dia para dia, relativamente mais pequena. Uma coisa que me deixa diminuída, digamos assim. E, contudo, fora deste contexto há quem me ache alta. Alta eu sei que não sou mas, caraças, também não sou uma anãzinha. Mas é assim que me sinto quando estou ao pé dos mais altos. E repare-se que a meio da semana almoçámos com dois dos meninos e no domingo anterior tinha estado com todos. Portanto, não passou um mês desde que os tinha visto. E, no entanto, juraria que este domingo estavam todos mais altos. Já ao fim do dia, fiz questão de me fazer fotografar entre os dois rapazes mais altos. Grandões, peludos, cabeludos, com o braço sobre os meus ombros, tenho que virar a cabeça para cima para lhes ver a cara. A impressão que me faz o ritmo a que isto se processa. 

A minha menina também já está uma mulher. No outro dia, andando em passeio, estava a apanhar banhos de sol sobre uma rocha e a fotografia que o meu filho enviou tinha sido tirada de um ângulo em que eu não via muito bem a cara. Parecia-me ela mas achei que pelo corpo não podia ser, devia ser a mãe dela. Virei o telemóvel para ver se a via de frente mas o telemóvel rodava a imagem. Só então reparei na minha nora, de pé, na água, junto à rocha. Só visto. Também já me ultrapassou. Com os seus olhos claros, toda ela grande, faz-me lembrar as jovens do norte da Europa. O mano seguinte também está mais alto, claro, quase a apanhar-me. Mas ainda não entrou naquela fase da adolescência em que, quais feijões mágicos, deitam corpo diariamente. O mais novo, ainda na primária, evidentemente ainda se mantém um menino (apesar de um espertalhão e de um reguila de primeira, o que não é de admirar face à 'escola' que tem de todos os lados - para além dos dois irmãos, pelo lado do pai tem dois primos e, pelo lado da mãe, tem mais quatro; isto já para não falar dos primos em segundo grau e dos inúmeros filhos dos amigos dos pais).

Enfim, é a vida a florescer, uma primavera radiosa.

Os telemóveis têm vida própria e o meu volta e meia, geralmente à noite, dá um toque que me parece o de uma mensagem a chegar. Vou ver e é para me dizer e mostrar que tem uma nova história. . Há dois dias era uma história de há 3 anos. Por sua alta recriação, junta fotografias, passa-as de carreirinha como um vídeo e junta-lhe uma música. Quando fui ver até estremeci. A primeira era da minha mãe, toda sorridente, jovem, bem encarada, elegante. Estávamos no Algarve. Um dos meninos já estava espigado mas o que hoje está já da altura do mais alto ainda era um menininho, bem mais pequeno, nem se compara, carinha de menino. O que eles cresceram nestes três anos nem dá para acreditar.

Fiquei a pensar que a minha mãe, naquela altura em que respirava saúde, em que andava pela praia sem se cansar, sempre na boa, em que, a caminho dos noventa, nos deixava pasmados com a sua vitalidade, mais do que certamente já tinha o mal a crescer dentro dela. Aliás, creio que foi pouco depois disso que fez um exame que alertava para a probabilidade de haver ali um problema, recomendando exames complementares, exame esse que ela escondeu de toda a gente bem como escondeu o facto de a médica lhe ter telefonado duas ou três vezes a insistir para ir fazer o exame e a informá-la do que poderia vir por aí. Mas, na altura das fotografias no Algarve, por tudo o que me recordo e pelo seu ar tranquilo e bem disposto das fotografias, tenho quase a certeza de que ela pensava que estava tudo bem. E como não, se não tinha qualquer sintoma? Sabia, isso sim, que tinha insuficiência cardíaca, mas não era nada de especial e os médicos diziam que, na idade dela, era normalíssimo. Estava medicada e eu estava descansada. Nunca a vi a tomar um único comprimido que fosse, mas, se eu lhe perguntava, dizia que já tinha tomado e que depois voltava a tomar à noite, antes de se deitar. Porque haveria eu de desconfiar? No entanto, poucos meses depois vim a descobrir que a insuficiência cardíaca se tinha agravado e que, se eu sabia que um dos comprimidos ela se recusava a tomar por achar descabido e com muitos possíveis efeitos colaterais (julgando eu que a médica estava ao corrente dessa sua decisão e a relevava), muito provavelmente também não tomava o outro que eu julgava que, para ela, era pacífico. Mas, naquela altura, ela estava tão bem que eu não tinha razão para duvidar de coisa alguma. Isto há três anos. E ela já morreu há ano e meio. Ou seja, tudo o que se passou, passou-se muito rapidamente e de uma forma muito incompreensível para mim pois a gestão que a minha mãe fez do seu quadro clínico deixava-me muito confusa. Com o que vim a descobrir aos poucos, estou em crer que o que a arrasou mais e motivou as suas decisões foi o seu pânico em tomar medicamentos e, com certeza, muito mais, em fazer quimio ou radioterapia. Preferiu fazer de conta que tomava os medicamentos e, sobretudo, preferiu fazer de conta que não sabia o mal que tinha.

Mas, enfim, não vale a pena estar a pensar nisto. Tenho que pensar que, com a idade que tinha, provavelmente não poderia mesmo fazer tratamentos agressivos e viveríamos todos na angústia de saber que não viveria muito. Assim, pensávamos que não tinha nada e ela não se viu forçada a ser tratada como uma doente terminal. E, se calhar, acreditou naquilo que em que falávamos muitas vezes: nestes casos, a idade joga a favor, as células já não se multiplicam rapidamente. Aparentemente tinha esperança de viver muitos mais anos e isso também foi bom.

Hoje os meninos lembraram-se dos belos crepes que ela fazia. O mais novo disse que nunca mais tinham comido daqueles crepes. Não sei quem disse que, sim, já tinham comido, sim. Ele esclareceu: 'Feitos pela avó não'. Apeteceu-me comentar que ficava contente por se lembrarem dela. Mas não quis parecer que estava a querer puxar ao sentimento, pensei que isso poderia deixar os miúdos constrangidos, poderiam pensar que me estavam a entristecer ao falarem nela. As coisas devem ser naturais. É bom que percebam que a vida continua, que a alegria deve viver entre nós, juntamente com as memórias que cada um guarde.

Quando chego ao fim do post, penso como hei-de resumir tudo num título. Agora vacilo. Ia escrever 'Um domingo feliz com saudades dentro' mas vou deixar ficar só o 'um domingo feliz' porque as memórias e as saudades não têm que macular a felicidade. Não maculam. Integram-na.

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E ia escrever sobre mais uns vídeos que, agora à noite, vi com declarações de várias mulheres que foram vítimas de assédio e abuso por parte do Trump, mas, vejam só, derivei para esta conversa. Acontece, não é?

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

terça-feira, fevereiro 04, 2025

Quanto tempo o tempo tem

 

Ontem e hoje dias de reencontros, daqueles em que as pessoas se lamentam dizendo que é pena é que seja nestas alturas que a gente se encontra. Pois. E despedimo-nos a dizer que 'temos que combinar qualquer coisa.' Mas depois o tempo passa.

Em pequenos grupos, vai-se conversando. Onde eu estava, conversas de médicos, vários, racionalizando, descrevendo as maleitas que vão aparecendo com o tempo, constatando o óbvio: chega a uma altura em que, se a pessoa vive, é apenas para morrer mais devagar.

E, ao mesmo tempo, duas jovens mamãs, cada uma com os seus dois filhos, idades variáveis entre os 4 anos e os 4 meses. As crianças não sossegam e as mães tentam que os filhos não se magoem. O bebé, agasalhado, no carrinho. Entraram há pouco para a passadeira rolante que é a vida. Correm, brincam e riem ao mesmo tempo que outros choram quem acabou de sair dela, alguém para quem a linha do tempo se extinguiu.

Revi também uma 'rapariga' que apenas reconheci pela mãe. A mãe manteve as feições mas ela está muito diferente. Devia ter cinco, seis, não sei, devo ter-me encontrado com ela até ela ter uns nove ou dez anos. Agora, se calhar uns quarenta e tal anos depois, quando a abracei tratei-a pelo diminutivo com que a tratava. Espantaram-se. 'Ah, ainda te lembras...'. Claro que me lembro. Sorrimos: continuamos a tratar-nos assim. Não faz sentido tratarmo-nos de outra maneira, o afecto que nos une é o mesmo de quando éramos pequenas.

Mas o tempo passa. 

Disseram-me: 'Há um ano passaste tu por isto.'. Pois foi. E desatei a chorar. 

As flores que a minha filha lá pôs há um ano, ainda estavam boas e deixei-as ficar. Juntei-lhes outras. Com carinho, ajeitei-as. Mas, na verdade, é um gesto simbólico. Mais flor, menos flor. Para mim, a minha mãe não está ali, nunca esteve. O que ela era, a nível material, o que sobrou, diluiu-se na terra (e ainda bem que assim é). O que ela era, imaterial, vive ainda em nós. E está ainda bem vivo.

Mas, enfim. É o que é. É a vida. É o tempo que passa. Nada a fazer. São as circunstâncias da nossa condição humana, finita, efémera.

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Por isso, adiante. Para a frente é que é caminho.

Para que não me fique um travo a uma certa tristeza, talvez a uma certa impotência, se não levarem a mal, a ver se espaireço, vou ter com a Philomena CunK que tem aquela maluquice irreverente que me agrada.

Philomena Cunk on Time – A Deeply Confusing Investigation | Moments of Wonder

What is time? Can we see it? Can we touch it? And if we stop all the clocks, does time stop too? In this hilarious episode of Moments of Wonder*, Philomena Cunk takes a *very serious (but mostly wrong) look at the concept of time.  

Join Philomena as she visits the Greenwich Clock Museum to investigate what clocks actually do, asks experts deeply confusing questions, and delivers her trademark deadpan wisdom on one of life’s biggest mysteries.  

⏳ Prepare for an educational experience like no other—because after watching this, you might know even less about time than you did before.  


Desejo-vos dias felizes

quinta-feira, janeiro 23, 2025

Não tenho muito a dizer

 

Hoje haveria vários temas divertidos para abordar, desde a possibilidade de termos um deputado larápio, um upgrade dos que fanam carteiras no 28, até à graça de ter o delfim Musk a criticar no X uma das mega decisões do Trump.

Mas não estou muito para aí virada. Faz um ano que o telefone tocou à noite trazendo a notícia que eu mais temia. E ainda não consigo perceber como é que já passou um ano nem consigo passar por cima deste grande paradoxo que é a vida humana, tão efémera, tão destituída de lógica. E parece que ainda não há muito andava eu a tentar convencê-la a tomar os comprimidos para aquilo que afinal nem era o principal problema, a rebater os seus argumentos sobre efeitos secundários, efeitos esses que, de tão variáveis e tão erraticamente empolados, eu achava que eram fantasia mas que provavelmente era apenas a sua maneira de desviar a atenção do problema sério que ela escondia, provavelmente até dela própria.

E depois há as saudades. A falta.

Mas o tempo corre, a vida continua. É assim mesmo.

Neste momento, mais dois familiares próximos estão internados e eu espero, espero, que se ponham bons. Mas sei que bons, bons, bons como antes, dificilmente ficarão. 

Mas, ao mesmo tempo, novas crianças vão entrando na passadeira rolante, crianças que riem, que brincam, que aprendem. E adolescentes que se estreiam nas artes do amor. Jovens adultos que progridem na sua vida. 

Portanto, há que saber conviver com memórias, com perplexidades, com preocupações, com saudades e com expectativas e esperanças e com alegrias.

Apesar de estar bem consciente disso, hoje não estou propriamente inspirada ou motivada para grandes conversas.

Mas vi um vídeo que me agradou imenso e que aproveito para partilhar convosco. A dona da casa é artista que admiro e com quem simpatizo. E a sua casa é fantástica.

Isabel Teixeira expõe literatura, arte e história em sua casa! | Pode Entrar | GNT

O lar de Isabel Teixeira se resume à história. Seja de seus avós ou de sua própria caminhada, a atriz tem desde o piano de sua avó, passando pelos livros autografados de Guimarães Rosa de seu avô até a fotografia de seus bisavós❣️

Dias felizes.

E não nos esqueçamos que a vida é para viver.

segunda-feira, janeiro 13, 2025

Coisas da vida

 

O domingo foi tranquilo. Estive muito ocupada mas isso não tornou o dia menos tranquilo. 

O tempo esteve afável e, depois de almoço, pus-me em trajes menores ao sol. O buganvília fornece a cortina que garante a minha privacidade face aos vizinhos da casa ao lado. 

Tenho dois familiares internados e, dada a idade que têm, claro que fico bastante preocupada. 

Há cerca de um ano estava eu numa angústia, aterrorizada sempre que o telefone tocava, aterrorizada sempre que entrava no quarto, aterrorizada sempre que não sabia o que dizer à minha mãe sem deixar perceber que sabia que ela podia morrer de um momento para o outro.

Nessa altura, quando estava em casa, via todos os vídeos que encontrava, colocava mil questões ao chatgpt, percorria toda a literatura que encontrava para tentar perceber o comportamento da doença e se havia alguma coisa que se pudesse fazer ou para perceber quais seriam os sinais de que ela estava mesmo a morrer. O meu marido queria impedir-me, achava que eu estava a martirizar-me desnecessariamente. Mas tenho uma necessidade insaciável de querer compreender tudo ao pormenor. A minha filha também me criticava, dizia que era assunto para médicos, não para leigos, e que estava a deprimir-me para nada. Creio que o meu filho talvez me compreendesse pois é um bocado como eu mas acho que o meu marido não chegou a comentar com ele que eu andava, obsessivamente, a tentar saber tudo o que se passava dentro do corpo da minha mãe. Depois, poucos dias depois, morreu. 

Se calhar deveria ser capaz de dizer que, felizmente, poucos dias depois morreu. Mas ainda não consigo associar o conceito de felicidade à antecipação da morte.

Contudo, o meu lado racional começa a interiorizar que, nestas situações, querer que a morte chegue mais tarde é apenas querer que aqueles que amamos sofram cada vez mais. Por isso, tento ter sempre presente o que uma amiga, médica, amiga também da minha mãe, me disse já por mais de uma vez: 'Ainda bem que foi rápido, ainda bem. Não percebes que foi melhor assim?'. Pois, se calhar devia mesmo perceber.

Foi em Janeiro.

Também me lembro de que, quando morreu a minha avó materna, o meu tio, tentando consolar-me, disse: 'É assim, no inverno cai a folha', como se fosse uma coisa natural, chegando-se ao inverno da vida, partir.

Não fixei o mês das mortes de mais ninguém, a não ser a do meu pai que morreu no início de Maio. Dos meus outros avós, tios, sogra, etc, não me lembro. Mas sei que o meu sogro também morreu por estas alturas. Se fizesse uma pesquisa aqui talvez descobrisse o dia da partida de alguns. Mas não quero, não me apetece.

E espero que estes meus familiares que agora estão doentes recuperem. Um parece que está a melhorar, outro nem tanto. A minha prima usa termos médicos e eu depois vou ver no google ou no chatgpt o que é mesmo aquilo. Quando as pessoas chegam a estas idades avançadas, a vida começa a ser um equilíbrio. Felizmente viveram bem até agora pelo que isso já ninguém lhes tira. Não é?

Seja como for, começo finalmente a encarar estas coisas como naturais.

Em contrapartida, ainda fico muito impressionada, mesmo um pouco angustiada, quando alguns dos meus amigos, da minha idade, têm coisas chatas. Dois deles tiveram-nas muito recentemente. Um ainda está em tratamento. Isso faz-me impressão. Um dia estão na boa, toda a gente, incluindo eles, julgam-se na boa, curtem a vida com gosto e alegria, e, afinal, no dia seguinte, descobrem que não estão. Desses dois, um era (e é) médico do outro. A vida é, por vezes, traiçoeira. E breve.

O meu marido não gosta que eu fale disto. Acha que é uma conversa da treta. Mas não sou pessimista, fatalista, nada disso. Acho que é o contrário. Se encararmos a nossa condição humana, precária, frágil, efémera, de forma racional, saberemos dar valor ao que temos, enquanto temos. 

Penso que se tivermos consciência de que coisas assim acontecem a toda a gente, melhor saberemos aproveitar a vida, dar-lhe valor, darmos graças por estarmos bem.

E é isto. Não tenho conseguido responder a mails, comentários ou ver televisão porque, quando me meto em alguma, é de cabeça e pouco ou nenhum tempo sobra para o resto. Hei de voltar à superfície.

Entretanto, desejo-vos uma boa semana.

quinta-feira, dezembro 26, 2024

O almoço de natal - menu e receitas

 

Estou a ver se não adormeço... Vou ver se consigo manter-me acordada para contar o que foi o almoço de Natal.

Prato de peixe

Como os meninos nunca querem comer peixe no dia de Natal, nomeadamente bacalhau, lembrei-me de inventar qualquer coisa que fosse mais apelativa para eles.

Trouxas de Bacalhau:

Cozi batata doce roxa (que fica negra como breu quando coze e que é deliciosa), batata roxa normal, ovos, couve Pak Choi, bacalhau.

Depois de tudo cozido, tirei as espinhas ao bacalhau, descasquei os ovos, esmaguei tudo com garfo. Numa frigideira, fritei em azeite cebola com uma folha de louro. Quando estava frita, retirei a cebola e o louro e envolvi o puré. Depois temperei com salsa picada e pus um puco de sumo de limão. Envolvi.

Tinha massa folhada rectangular, comprada. Cortei cada rectângulo em quadrados pequenos, talvez de 10 cm de lado. Em cada quadrado pus uma colherada generosa do puré. Fechei a trouxinha. 

Num tabuleiro coloquei azeite e mel. Rebolei lá as trouxinhas. Depois polvilhei bastamente cada uma com sementes de sésamo e sementes de chia.

Rolinhos de salmão

Cozi batata doce cor de laranja, ovo, lombo de salmão. Depois esmaguei tudo e temperei com azeite e limão.

Cortei os rectângulos de massa folhada em rectângulos. Em cada pequeno rectângulo coloquei uma colherada de puré e enrolei. 

Fiz a mesma coisa que às trouxas. Envolvi-as em azeite e mel e polvilhei com as sementes de sésamo e chia.

Entretanto, tinha o forno a aquecer. Com o forno a 170º, introduzi as trouxinhas e os rolinhos. 

Quando estavam tostadinhas, estavam prontas.

Foram servidas com salada de alface e quase funcionou como uma entrada.

Prato de carne

Para carne: Perna de borrego, um peito/entrecosto de borrego, uma peça de entrecosto alto de porco. E uma morcela de arroz e uma alheira.

De véspera preparei uma marinada com cerveja, alhos, pó de pimentão doce, orégãos, tomilho, alecrim, sal, azeite. Num tabuleiro temperei a perna e num outro a peça de entrecosto de porco. Não temperei de véspera o entrecosto de borrego pois, como era baixo, poderia ficar excessivamente impregnado.

Rebolei cada peça na marinada. cada peça tinha levado uns golpes para ficar mais saboroso e para assar melhor. Tapei cada tabuleiro com papel de alumínio e coloquei no frigorífico.

Ontem quando chegámos a casa, seria uma e tal da manhã, o meu marido colocou lenha de azinho no forno de lenha. Como se levanta cedo, lá para as sete e tal, já o forno estava mais ou menos quente, colocou mais lenha para se formar mais fogo e aumentar o calor. E tirou os tabuleiros do frigorífico pois, segundo o meu filho, grande mentor destas incursões gastronómicas, a carne não deveria entrar muito fria no forno.

De manhã, escorri o caldo da marinada para que o sabor não se impusesse demasiado. Temperos puxados não são connosco. 

No tabuleiro maior, coloquei legumes: cebolas grandes, um grande alho francês cortado em bocados, uma beringela, com casca, aberta ao meio, courgettes, cenouras, abóbora em cubos, um ramo de salsa, duas couves pak choi. Ficou completamente cheio. Polvilhei com um pouco de sal. Em cima dessa fofa cama, coloquei a grande perna de borrego.

No outro tabuleiro, também a marinada escorrida, coloquei uma grelha. E a peça de entrecosto ficou alto, na grelha. Cobri ambos com papel de alumínio.

La para as dez e tal, o meu marido empurrou as brasas para o canto e colocou os tabuleiros. 

(Nestes dias é tal a azáfama que não me ocorre fotografar. E depois, quando chegam, é a confusão de sempre e a alegria das trocas de presentes. E, às tantas, já está tudo esfomeado. E, portanto, nunca consigo ter a reportagem do making of nem sequer fotografias do produto final. Por isso, coloco aqui apenas a fotografia da lareira. Lá em cima, a arvorezinha das luzinhas que está por cima. E foi porque a minha filha felizmente fotografou a troca de presentes e o ambiente e eu agora repesquei estas pois, assim como assim, sempre dão alguma cor ao post)

Continuando...

Acompanhamentos

Arroz de forno

Entretanto, numa panela cozi uma perna de frango e um osso de vaca, uma grande cebola, um alho francês, salsa. Sem sal e já explico porquê. A água era o triplo do arroz que ia fazer.

Quando estava tudo cozido, retirei o osso de vaca que era destinado ao cão, para estar entretido. 

Depois desossei a perna de frango e escorri o caldo.

No caldo acima descrito, juntei uns mini-cubinhos de bacon, uns bocadinhos de chouriço de carne alentejana e um pouco de sal. Quando ferveu, juntei o arroz. Antes que estivesse pronto, retirei, coloquei num tabuleiro, cobri com mais cubinhos de bacon e chouriço às rodelas. Um pouco antes de irmos almoçar, foi para o forno de lenha. Nessa altura, em assadores de barro, a morcela de arroz e a alheira foram também para o forno, para estarem na mesa como entrada.

Batatinhas de forno

Cozi, com pele, batatinhas das pequeninas. Quando estavam quase, escorri e coloquei num tabuleiro Temperei com bacon aos cubinhos, sempre pouco, só para dar sabor, um pouco de orégãos e alecrim e azeite. E foi para o forno, neste caso para o forno da cozinha.

Empada de galinha

(Extra)

Foi um extra de última hora. 

Tinha-me sobrado quase um rectângulo de massa folhada fresca. Então, juntei os legumes da cozedura para o caldo do arroz e a carne de galinha desossada, coloquei um pouco de sal, um pouco de hortelã, misturei tudo com um garfo. Coloquei na massa folhada e fechei o rectângulo. Pincelei também com azeite e mel e também coloquei sementes. Ficou uma empada de galinha que também foi aprecada.

Volto às carnes de forno

A meio do processo de confecção, tirámos os tabuleiros para virar a carne ao contrário, voltando a ir para lá. Pincelei com o caldo da marinada e com azeite e mel. 

O processo foi monitorizado. Estaria pronto quando o interior da carne chegasse aos 70º. E só o ficou lá para as 13:30 ou talvez um pouco mais. Ou seja, cerca de 3 horas.

Esqueci-me de falar no entrecosto de borrego. Só foi para o forno já mais para o fim. 

Devo dizer que foi tudo apreciado. 

Sobremesas

Para sobremesa, eu e o meu marido fizemos um doce de abóbora e queijo cottage mas não seguimos exactamente a receita pelo que não ficou extraordinário. Por isso, não o descrevo. Se voltarmos a fazê-lo e resultar bem, depois conto.

A minha filha trouxe um bolo de iogurte que fez com cobertura de chocolate que ficou mesmo bom, um bolo-rei dito da Versalhes (passe a publicidade) e um bolo de limão estrela de natal da Padaria Portuguesa (passe também a publicidade). A minha nora trouxe arroz-doce, sempre uma delícia, umas rabanadas muito boas que fez com a mãe e com a minha neta (mulheres de armas, que dão belas sovas na massa) e ainda bolo-rei. E tinha também doces de ovos e bombons. E, como fruta, um prato com dióspiros às rodelas em volta, com centro de uvas.

Também havia queijos mas, para dizer a verdade, nem lhes toquei...

Vinhos

Aqui receio errar pois é pelouro do meu marido e, sinceramente, não prestei bem atenção. Só bebi o tinto e era muito bom. Tenho ideia que o branco era Burmester e que o tinto era Reguengos Reserva mas se calhar devia confirmar e ser mais específica mas agora não consigo, ele já se retirou. Ainda por cima tem andado um bocado constipado e à noite fica cheio de tosse.

Para quem não bebeu vinho, também havia Pleno (creio que de chá verde e limão) e água....

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E agora já estamos a pensar no repasto para o dia de Ano Novo. E já há algumas sugestões no ar e parecem-me bem. Depois conto. 

Chateia-me um bocado fazer comida só para nós os dois mas adoro fazer comida para muita gente. A rotina maça-me. O que gosto é de confusão, de estar sob stress e de improvisar.

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Claro que, quer antes, quer agora, não consigo deixar de pensar na minha mãe que no ano passado, por esta altura, estava tão mal, internada, com os médicos a dizerem-nos que a situação era terminal, que poderia ir-se de um momento para o outro. Naquela altura, não só a aflição de vê-la tão mal como a inquietação e perturbação por termos descoberto que ela estava tão mal quando já não havia nada a fazer, deixavam-me de rastos. 

Mas a vida é assim mesmo: efémera. Chega a uma altura em que, para uns, se acaba. São lugares comuns, mas é o que é. 

Mas a vida continua para quem cá está. Os miúdos estão felizes da vida, a sua alegria preenche todos os espaços. E o ambiente é harmonioso, afável, todos numa boa onda. Neste nosso primeiro Natal sem ela, hoje não se falou na sua ausência, mas sei que todos, ou quase todos, pensámos na tristeza que foi a sua partida. Mas há que aceitar que não há nada a fazer. A vida continua. E que continue bem e que seja bondosa para todos e que nós, os que estamos cá, saibamos apreciá-la, honrá-la, e saibamos sentir-nos agradecidos por tudo o que ela nos dá. Mesmo que, por vezes, seja ingrata.

E, pronto, já chega de conversa, estou cansada, com sono.

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E dias felizes para todos

segunda-feira, julho 15, 2024

Dias felizes

 

Devo dizer que tenho vivido dias felizes. Com os que me são mais queridos juntos, todos bem dispostos, a conversa a fluir de gosto, todos em volta da mesa, com a casa cheia, com a maluqueira nocturna que me fez rir de gosto, com o madrugar bem mais cedo do que me é habitual, com a alegria de todos... sinceramente, a nível pessoal, não posso querer mais. 

De vez em quando lembro-me do que disseram e dou por mim a rir sozinha. 

Todos têm a sua vida pessoal e profissional (ou escolar), certamente todos terão, de quando em vez, os seus contratempos e preocupações. Mas, como por magia, quando nos encontramos todos, parece que os problemas perdem relevância e a ninguém lembra falar de maçadas.

Estou boa do meu pé. Quase boa. A nível visual está praticamente normal. Claro que, quando olham, ficam um bocado enjoados pois acham-no esquisito. O dedão (e arredores) está a perder a pele. Mas a mim isso não me incomoda nada. Também ainda tem umas manchinhas escuras mas nada de mais. Também já mexo razoavelmente o dedo. Dói-me ainda um pouco mas já não me tira o sono e, na maior parte do tempo, nem me lembro de tal coisa. E da tendinite do ombro que me causou rigidez também já estou quase a cem por cento. Vou eu fazendo uns exercícios e a coisa está a ir ao sítio. Só aqui é que me ponho a falar nisso. Quando estou com a minha turma nem me lembro das chatices que tive nem do que ainda sobra delas. 

Claro que, no meu íntimo, sinto saudades da minha mãe e faz-me muita impressão que tenha sido uma presença tão constante na minha vida e que, como que por artes mágicas, em pouco tempo, se tenha despido de matéria. Era alguém tão presente e agora é apenas memória. E já passaram quase seis meses. Por vezes, parece-me impossível. E no outro dia o meu pai faria anos e, no entanto, ao mesmo tempo, parece que já não existe há imenso tempo, quase como se já não pertencesse à minha vida actual. E não pertence. Mas a verdade é que pertenceu até 2020. 

O tempo tem o seu lado cruel, a vida tem o seu lado de traiçoeira. 

Mas forço-me a manter estes pensamentos no lado adormecido da minha mente. E consigo que isso coexista com a minha alegria em estar viva e rodeada por aqueles que tanto amo.

E depois há as pequenas coisas. Infra-mínimas. Mas que me dão prazer, me motivam, me animam.

Por exemplo: estava com o cabelo comprido que geralmente apanhava em rabo-de-cavalo, muitas vezes dando-lhe uma reviravolta ao alto, para cima. Mas andava com vontade de o transformar. Então hoje, há bocado, fiz assim: estando apanhado num rabo de cavalo alto, como é costume, meti-lhe a tesoura e lá vai disto. Ou seja, agora, depois de cortado, dá para o apanhar na mesma, à tangente mas dá, e, curiosamente, ficou com um escadeado bem curioso. Saiu um monte de cabelo, ficou muito mais leve, e acho que não ficou mau de todo. Ainda lhe dei mais umas duas ou três tesouradas à frente para fazer um degradé mais harmonioso. Já não vou à cabeleireira há anos e fico com pena pois gostava dela e espero que as restantes clientes sejam mais fiéis do que eu. Mas isto de ter a liberdade de fazer coisas assim, na base do 'lá vai disto', faz-me sentir muito bem.

A outra coisa pertence à mesma categoria, a das frioleiras: andava com vontade de usar vestidos compridos mas nada me agradava pois não sou bem o género de intelectual de esquerda daquelas que usam saias compridas, largas e desengraçadas, nem sou exactamente o estilo hippie. Não estava a ver-me como uma maria-pendona. Mas também não queria usar vestidos que parecessem de noite, muito menos de baile de finalistas. Portanto, mantinha-me no classicismo das calças, dos vestidos pelo joelho, e, numa versão mais estival, calções brancos com blusinhas coloridas. Mas finalmente dei o salto. Encontrei o género de que gosto. A minha filha ofereceu-me um, que me assenta de uma forma superconfortável e com o qual gosto mesmo de me ver. E eu comprei os outros. E sinto-me tão bem... Há um que ainda não estreei mas sobre o qual estou com uma boa expectativa: cai como seda, suave, muito leve, é justo em cima mas alarga um pouco para baixo, é super decotado à frente e atrás, de alcinhas finas, e é em cor de coral com pavões gigantes de alto a baixo naqueles tons verdes e azulões. E, para conjugar, tenho um brinco, um único, com uma pena nos mesmos tons. Penso que vai ser exótico e isso agrada-me.

E toda a vida usei brincos discretos. Poderiam ser coloridos e adaptados às toilettes mas nada de exuberâncias. Contudo, andava com vontade de ter brincos ousados, coloridos, incomuns. E descobri-os. Estou mesmo feliz com eles. A ver se amanhã os fotografo para vos mostrar pois acho-os especiais e, sobretudo, os pais da criadora comoveram-me e apetece-me transmitir-lhes o meu carinho.

E ainda mais uma: chapéus. Adoro chapéus. Mas sempre me fiquei por modelos que me parecessem elegantes mas discretos. Provavelmente as pessoas discretas já os achariam algo destacados mas, para mim, estavam aquém do meu gosto intrínseco. Pois vi um que imediatamente chamou a minha atenção. A minha filha, ao vê-lo na loja, disse que todo ele é, em si, um statement. De facto. E não fujo a isso. Mas, ainda assim, receei que fosse demasiado aparatoso. Contudo, acabei por não resistir. Acho-o um espectáculo e sinto-me mesmo feliz quando o ponho. (Não é este. Este aqui ao lado é um que encontrei via google)

Quando era adolescente gostava de modelos originais e de me maquilhar e os meus pais zangavam-se, não queriam que eu desse nas vistas, diziam que não tinha idade para isso. Depois, pela minha profissão, tinha a noção de que não deveria mostrar-me a tender para o radical ou para a desalinhada (até porque era acusada disso). Agora já não tenho que provar nada a ninguém nem tenho que recear as opiniões alheias. Não que me preocupasse com isso mas, enfim, vivia o meu dia a dia integrada numa realidade em que as fugas à regra tendiam a ser mais ou menos vistas como perigosas excentricidades.

Claro que para coroar o bolo só mesmo uma cerejinha a enfeitá-lo: durante a semana fomos, por duas vezes, almoçar a um restaurante veggie. Não me tornei e acho que não me tornarei veggie mas a verdade é que gostámos imenso. Comemos agora muito menos carne, preocupamo-nos cada vez mais com uma alimentação equilibrada e saudável. E o meu filho ofereceu-me um conjunto de alimentos biológicos, saudáveis, e isso agrada-me e atrai-me bastante.

Portanto, apesar de não estar a ir para nova, a verdade é que me sinto cada vez mais disponível para procurar e acolher novidades e para me libertar das poucas peias que já tinha.

E viva a vida.

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Mercedes Sosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa - Volver a los 17


Uma semana feliz

sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Depois de uma noite mal dormida, dia de caça ao tesouro. E de saudades.

 

A senhora que ajudou a tratar o meu pai e que, depois da morte dele, muito por minha insistência, continuou a ir duas vezes por dia a casa da minha mãe para ver se estava tudo bem e que a ajudava nas compras, e a quem continuo a pedir ajuda, encontrou uma chave que consegue abrir um dos móveis do corredor. Consegue perceber-se que numa das portas há uma chave partida e as outras estavam fechadas sem que soubéssemos onde estava a chave. E eu não fazia ideia do que lá estava dentro.

Mas ela ligou-me a dizer que a chave da portinha da estante da televisão conseguia abrir a porta desse tal móvel e hoje estive de volta dele. Tudo uma arca de mil tesouros, não tanto pelo valor das coisas mas pelo inesperado de muito do que lá vou descobrindo.

O móvel é grande pelo que lá achei de um tudo. Desde logo muitos sacos de lãs. Lãs finas, grossas, fios. De todas as cores. Acondicionei em grandes sacos para as trazer. Não vou deitar fora. Se um dia me der para fazer mantas de crochet tenho ali material para as fazer de todas cores, tamanhos e feitios. Encontrei também um pano grande, muito colorido e, em minha opinião, muito bonito. Creio que se chama capulana. Comprei-o há mil anos em Angola. Pensei em usá-lo como toalha de mesa grande ou coberta para a cama ou para pôr num sofá. Hoje poderia usá-lo para estender na areia ou na relva. Nunca mais me tinha lembrado dele. Gostei de vê-lo. Trouxe-o e irei dar-lhe uso. Encontrei também uma pequena boneca de louça algo bizarra. Gostei. Há ela qualquer coisa de inocente e, ao mesmo tempo, exótico, talvez até trágico. 

E tantas coisas mais. Por exemplo uma garrafa alta, de vidro, em azul. Lembro-me de adorar a elegância daquela garrafa polifacetada. Não a trouxe porque agora estamos numa de livros e o carro já estava a deitar por fora.

Ah, sim, trouxemos outra coisa. Na varanda das traseiras, a minha mãe tinha dois pequenos cadeirões e uma pequena mesa, tudo de verga, que a minha mãe tinha pintado de azul claro. E fez-lhes umas almofadas claras, floridas. Estava muitas vezes ali sentada a apanhar sol e a ler ou a fazer tricot. Mas aquilo tem muitos anos. Há fotografias com os miúdos, ainda bebés, ali de pé, agarrados aos cadeirões ou às mesas. E neste momento estou a ver uma fotografia minha com a minha filha ao colo, teria ela talvez com um ou dois meses. Estou sentada ali, quando ainda estavam na sua cor natural. Por tudo o que recordo, quis trazer aqui para o nosso terraço. Há muitas memórias boas associadas a estes cadeirões e a esta mesinha. 

Mas claro que, com tudo isso, o carro veio a deitar por fora e o meu marido bastante contrariado.

Ainda consegui trazer um quadro que o meu tio fez para oferecer aos meus pais. Sei como o fez com gosto, com carinho. Sei como ele ficará feliz quando souber que está agora aqui em casa. 

Deixei lá, para a senhora ver se quer aproveitar alguma coisa ou dar, muitos sapatos da minha mãe, muita roupa de quando os meus filhos eram pequenos, algumas malas. Ela apareceu lá e eu disse que se calhar ela não ia aproveitar nada daquilo mas ela disse que eu lá deixasse que ela logo via. Agradeço-lhe muito por isso pois, como já o disse, isso retira-me muito do peso de me desfazer de algumas coisas.

Ainda lá há mil coisas a que tenho que dar destino. Para já, infinitos livros... E ainda não me aproximei da cozinha, da despensa, que está compacta, muitas prateleiras e prateleirinhas, com rendinhas e cortininhas, e lá, infinitos objectos, uma coisa quase assustadora. Nem sei o que fazer a tudo o que está no roupeiro grande do corredor...

Quando vimos de lá, vimos cansados. E eu parece que, nestas situações, não faço ideia porquê, fico desidratada e com a tensão baixa. Ou seja, isto esgota-me um bocado. 

Ainda por cima, a noite passada tive uma insónia das antigas, horrível, e, no pouco tempo dormido, tive pesadelos. Sonhei que estávamos a empacotar louça, copos, com todo o cuidado para nada se partir, mas, no dia seguinte, eu via tudo partido, mas partido intencionalmente. Acordava aflita, sem saber quem estava a fazer aquilo, sem saber como proteger as coisas, com vontade de chorar por ver que coisas tão queridas pela minha mãe estavam a ser destruídas.

E, ao acordar, pensava que já faz um mês que ela morreu. E punha-me a pensar em muitas das coisas em que ainda me custa a acreditar, a perceber, a aceitar. E, portanto, custava-me a voltar a adormecer.

Por isso, hoje estou muito sem energia, muito exausta.

Por vezes tenho a estranha impressão de que foi há muito tempo que a minha mãe morreu. Uma coisa longínqua, num outro tempo, numa outra vida. Mas, muitas outras vezes, sinto o oposto, parece-me que está na hora de lhe ligar ou penso que não posso esquecer-me de lhe contar isto ou aquilo. Por exemplo, ao conversar com a minha prima, ela disse-me algumas coisas que eu pensei que a minha mãe gostaria de saber e deveria ter a resposta para algumas dúvidas que se levantaram durante a conversa. E, então, percebo que esse tempo acabou. Não mais falarei com a minha mãe. E isso parece-me mentira, uma mentira em que ninguém consegue acreditar.

O meu marido pergunta-me se não seria preferível eu ir falar com aquela psicóloga que me caçou no hospital e com quem falei algumas vezes. Não sei. Penso que é um percurso que eu terei que fazer por mim e que qualquer dia já terei assimilado (ou interiorizado) tudo o que sucedeu, aceitando que o que aconteceu algum dia teria que acontecer.

A minha filha hoje perguntou a mesma coisa, diz que talvez falar com a psicóloga me ajude a arrumar os assuntos. Diz que não faz sentido eu continuar a querer perceber as decisões e as atitudes da minha mãe, que foi o que foi, que nada a fazer, que já não adianta compreender ou deixar de compreender. Bem sei. 

Mas, se continuar com o sono alterado ou a dar por mim a querer recordar as conversas com a minha mãe a ver se descubro algum indício a que deveria ter prestado atenção e não prestei, se calhar irei mesmo bater à porta da psicóloga. É que uma coisa é o pensamento racional e outra são os desvios por onde, involuntariamente e volta e meia, se tresmalham as nossas ideias.

Enfim...

Penso que aqueles pesadelos tiveram a ver com o quanto eu sei que a minha mãe estimava as suas coisas, gostava de ter sempre tudo muito ao seu gosto, tudo bem cuidado. E sei que ela gostaria de saber que quero continuar a dar uso a algumas das suas coisas, que continuarei a estimá-las, que direi 'isto veio de casa dos meus pais, foi a minha mãe que pintou', ou 'estas almofadas foi a minha mãe que as fez'. 

Mas, como já contei, preservar e trazer as coisas cá para casa é um exercício de equilíbrio pois tenho que encontrar uma forma harmoniosa de as integrar, sem desvirtuar o nosso 'estilo' . 

E tenho que agradecer ao meu marido pois tem arrumado e carregado coisas e coisas e coisas, sacos e sacos e infinitos sacos e caixotes, tudo pesadíssimo. Isto apesar de, por ele, não trazer nada, não querer nada. 

Esta tarefa, de facto, é espinhosa. Se calhar deveria ter deixado passar mais algum tempo, se calhar deveria ter descansado mais a cabeça. Mas parece que me custa pensar que as coisas da minha mãe estão ao 'abandono', inúteis, esquecidas e, por isso, quero distribui-las, acolhê-las. E digo da 'minha mãe' pois desde há muitos anos, desde que o meu pai teve o AVC, a minha mãe é que geria integralmente a casa. Mas ainda haveremos chegar ao território privado do meu pai: o sótão (que o meu filho irá explorar pois deve haver ferramentas e se calhar uma bancada de trabalho), a casinha do quintal (que não sei o que tem) e a adega que ele fez debaixo da escada, segundo ele num lugar em que a temperatura e a humidade preservavam a qualidade do vinho.

Bem. Já chega. Tenho ideia que a escrita anda para aqui às voltas mas tenho sono demais para tentar voltar atrás para a enfiar nos eixos. Sinto-me cansada. 

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E, uma vez mais, já que estou numa de coisas da casa, partilho um vídeo que mostra uma casa muito interessante. Ao ver casas assim, sinto-me inspirada. Há aqui ideias muito engraçadas, criativas e acolhedoras. Espero que também gostem.

Touring a MASSIVE NYC Loft Apartment | Michelle Pham

Welcome to Michelle's STUNNING loft in heart heart of Flatiron, Manhattan! This inspiring and unique home is filled with endless art, DIY projects and decor from around the world that brings such a welcoming feel to the space. There are so many incredibly thoughtful details throughout the apartment that you can't miss. Make sure to take all the inspiration for your own space


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Desejo-vos uma sexta-feira feliz

Saúde. Serenidade. Paz.

sexta-feira, fevereiro 09, 2024

Eu numa fotografia, eu nas palavras que escrevo, eu nas minhas memórias -- em dia de descobertas e trabalhos pesados

 



Ainda não arrumei grande parte das coisas que vieram em sacos no sábado passado mas, ainda assim, resolvemos lá voltar hoje, só os dois, dar um avanço. 

A minha filha já tinha dito que podia ficar com um serviço de jantar, a minha nora, embora pouco convencida, disse que ainda conseguia acomodar mais um serviço de chá. E eu, não tendo nenhum deles referido um serviço de café que escolhi com a minha mãe quando ainda andava no liceu e de que sempre gostei muito, resolvi que esse viria para mim. O que elas escolheram é da Vista Alegre mas o que eu escolhi é de uma fábrica na Baviera, um desenho e umas cores completamente diferentes. Na altura a minha mãe hesitou pois era muito diferente das louças que ela tinha. Mas consegui convencê-la. Quando o desembalar a ver se fotografo para vos mostrar.

Acondicionar este tipo de louças, especialmente quando serviços completos, é muito trabalhoso e demorado e mais vale estarmos os dois sozinhos pois despachamos muito mais serviço. 

O serviço com que a minha filha ficou, disse-me a minha mãe não há muito tempo, nem chegou a ser estreado. É muito bonito. Já aqui falei nisso pois, quando ela me contou que na parte de baixo do móvel do lado esquerdo havia um segundo Vista Alegre ainda por estrear, fiquei com muita pena. Não sei para que o comprou tendo já um outro e isto para não falar de um outro, da Sociedade das Porcelanas de Coimbra (que viria a ser comprada e absorvida pela Vista Alegre) que, esse, era frequentemente usado. Não sei qual a ideia ao comprá-lo pois era óbvio que não chegaria a ser usado. Não sei se terá pensado que era um investimento. Provavelmente, mais que um investimento, um legado. Acontece que os destinatários já não têm onde guardar mais pratos, mais chávenas, mais copos. Neste caso, em particular, a minha filha diz que vai reformular a arrumação do aparador da sala de jantar para ver se lá o consegue encaixar. 

Mas o que acontece é que, porque me custa desfazer de coisas que a minha mãe adquiriu e conservou com tanto cuidado e agrado, vou trazer tudo. Fica tudo encaixotado num canto da cave e, com sorte, quando os meus netos tiverem a sua casa, virão cá abastecer-se.

No sábado tinha trazido toalhas e mais toalhas de mesa de renda e bordadas que agora tenho que ver onde as vou guardar. Hoje trouxe sacos de lençóis de linho, bordados, lençóis cheios de rendas, a dobra toda em renda, ora em bicos, ora em palas, ora a direito, ou a renda como entremeio, ou com renda e bordados, ou seja, também de toda a espécie e feitio -- predominantemente brancos com rendas e bordados também em branco. Mas vi uns de que me lembrei. A partir de certa altura, não sei bem, talvez tendo eu uns dezassete anos, a minha mãe e as minhas avós resolveram começar a fazer-me o enxoval. E lembro-me de ir a uma senhora que pregava rendas e fazia bordados para escolher para mim e de a minha mãe aproveitar a embalagem e mandar também fazer alguns para ela e lembro-me de ter sugerido que fizesse lençóis brancos com um bordado em cinza claro. Já não me lembrava do efeito mas, na realidade, estão muito bonitos. 

Pelo toque do tecido e pela forma como estão tão imaculadamente dobrados e arrumados tenho a certeza que não foram usados uma única vez. É que no roupeiro do corredor há pilhas de lençóis normais e eram esses que andavam a uso. Uns coloridos, outros com bordado inglês, outros com bordados simples. De alguns ainda me lembro de quando vivia lá. Imagine-se. Mas, portanto, todo aquele afã de fazer rendas, bordados, de escolher o melhor pano, de escolher a pessoa mais perfeccionista para fazer a obra de arte mais perfeita, foi para encher gavetas e prateleiras com coisas que não eram destinadas a ser usadas.

E agora tudo me vem parar a mim que também não uso nada disso. E fico cheia de pena, quase como se parte dos interesses ou ocupações da minha mãe tivessem sido inúteis. Na prática, como se tivesse desperdiçado parte da sua vida com coisas que, em termos muito pragmáticos, não servem para nada. Isso deixa-me triste.

Quando me encher de coragem para arrumá-los a ver se antes os fotografo. Ao menos vêem a luz do dia e podem ser observados por alguém em vez de estarem, em prateleiras no topo de roupeiros, votados ao ostracismo.

Ao tentar avaliar o volume de trabalho que ainda tenho pela frente, espreitei para dentro de alguns roupeiros. É de pesadelo. Coisas infindáveis. Mas num deles, ao tentar perceber o que me parecia um embrulho feito de tecido, fiz uma descoberta que me deixou emocionada. O vestido de casamento da minha mãe. Era estreita e magra como uma modelo. Não sei como cabia naquele vestido, lindo. Parecia-me que estava embrulhado num tecido fino, branco. Afinal, percebi despois, parece ser uma camisa de dormir, também até aos pés. Deve ter sido a que usou na noite de núpcias. Não sei agora onde vou guardá-lo. Se tivesse uma casa gigante com uma divisão a servir de museu, engomá-lo-ia, mandaria fazer uma caixa de vidro e pendurá-lo-ia lá dentro, como se vê nos museus, um lindo vestido em exposição.

E fiz uma outra descoberta extraordinária: numa gaveta da grande escrivaninha, que tem um conteúdo também infinito, por baixo de exames médicos, dentro de um envelope que estava dentro de um saco, ou seja, totalmente camuflado, estavam cartas escritas pelo meu pai quando estava na tropa e namorava a minha mãe. No endereço estava Menina tal e tal (o nome da minha mãe). Não sei se vou gostar de ler ou se vou sentir-me intrusa. Ao pegar no molho, vi que a última estava num envelope feito à mão, quase a desmanchar-se. E tinha escrito 'Por mão própria'. Uma letra muito bonita, mais bonita que a do meu pai (que é bonita). Se bem percebi, datada de mil novecentos e vintes e tais, é uma carta do meu avô materno dirigida à Menina tal e tal, minha avó. Tenho que rever a data pois, se vi bem, a minha avó pouco mais seria que uma criança. Aliás, a minha mãe, se não estou em erro, nasceu quando a minha avó ainda nem tinha dezassete anos. Tê-los-ia quase, estava por dias, mas ainda não feitos. Creio. 

E muitos envelopes com muitas fotografias. Dos meus pais em jovens, dos amigos, de primos, minhas em bebé e até adolescente, dos meus avós. Tantas, tantas fotografias. Eu deveria ter paciência e tempo livre para ler tudo o que tenho encontrado, para organizar as fotografias e todos os achados.

Mas não sei quando será que isso pode acontecer.

Comecei  também já a separar roupa da minha mãe. Fico com muita pena. Há tão pouco tempo ela ainda usava aquelas blusas, aqueles casacos, aquelas echarpes. A vida é efémera, ingrata. Sei que é da natureza, que não há volta. Tantas vezes eu dizia: 'Ninguém cá fica'. Ninguém. Mas quando nos toca a nós, de perto, as coisas ficam muito difíceis.

Ainda no início de Novembro, há três meses apenas, quando a minha mãe resolveu ir para uma residência assistida, estive com ela a escolher a roupa que ia levar. Só levou roupa de inverno porque, segundo dizia, na primavera ou no verão, ela mesma iria a casa para escolher roupa mais fresca. Estava cheia de planos. Foi carregada. Pensava que ia ainda viver muitos anos, queria levar muitas 'mudas', sempre gostou de se arranjar bem e, além disso, tinha lá amigas e isso ainda incentivava mais os seus brios. Ainda assim, nos primeiros dias em que lá esteve e antes de começar abruptamente a decair, ainda queria mais ténis, uns pares de calças de fato de treino para fazer ginástica, mais casaquinhos, mais não sei o quê. Voltei a casa várias vezes para ir procurar o que ela me ia pedindo. Tinha-se esquecido também de levar o casaco de tricot que estava a fazer, lá andei à procura disso e mais de um saco com novelos dessa lã. Em qualquer instante desses dias em que estava a fazer as malas ou a pedir que lhe levasse mais coisas eu adivinhei que, traiçoeiramente, um monstro silencioso estava a devorá-la por dentro. Dois meses e poucos dias depois estava morta. E eu pensar nisto deixa-me ainda perplexa e tristíssima. Quando escrevo ou digo ou penso que a minha mãe está morta ainda me parece mentira. Uma mentira muito cruel.

Sei que, num plano racional, pode dizer-se que a minha mãe sofreu durante pouco tempo e viveu bem, motivada e autónoma, até pouco antes de cair doente e, em pouco tempo, morrer. Mas, num plano emocional, é muito difícil.

Por exemplo, vendo aquelas suas roupas, as suas carteiras, as suas coisas, tudo ainda tão presente em mim, custa-me muito. E custa-me a acreditar. 

Estou a pôr quase tudo em montes em cima da cama dela. E tenho combinado com a senhora que a ajudava nos cuidados ao meu pai -- e que continuou a ir a casa dela no mínimo duas vezes por dia ver se estava tudo bem e que a ajudava nas compras --, que ela vai lá a casa (tem a chave), vê o que eu coloco em cima da cama, escolhe para ela o que quiser, vê se há coisas que se possam dar a quem precisar. E, se houver coisas que ninguém conhecido queira, ela mesma doa ou põe no lixo. Isso para mim é uma grande ajuda pois não tenho que ser eu a desfazer-me das coisas da minha mãe.

Ah, é verdade. Descobri também um rolo grande e grosso, atado com uma fitinha, e com um papel por fora a dizer Diplomas. Só vi o que era cá em casa. Muitos diplomas. Do meu pai, da minha mãe, meus. E, no meio, uma aguarela da autoria do meu tio, irmão da minha mãe. Lembrava-se daquela pintura. Era eu pequenina e achava que aquela pintura era insólita, inesperada, bonita. Depois deixei de vê-la. Agora descobri-a no meio dos diplomas. Estas descobertas enternecem-me.

Enfim. Irei dando notícias.

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Uma boa sexta-feira

Saúde. Força. Paz.

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

Um saco cheio de cartas

 


Quando eu deixei de morar em casa dos meus pais, deixei lá ficar, numa gaveta do roupeiro do meu quarto, toda a minha correspondência. Para mim, tudo aquilo era privado. Mesmo que não tivesse nada de especial, era privado, cartas que troquei com amigas e amigos, com namorados, conversas só minhas. Claro que ali só estava o que eu recebia, não o que eu escrevia, mas ali estava muito da minha vida. 

Sempre gostei muito de escrever e, na altura, não havendo blogues, havia a correspondência. Estava sempre à espera de cartas. E escrevia longas cartas, cada carta tinha sempre várias páginas. A bem dizer, isso durou, na prática, até ir de férias para Angola, com dezassete anos acabados de fazer, pois, a seguir a isso, veio a faculdade e, nessa altura, passei a ir a casa dos meus pais apenas ao fim de semana e, como é bom de ver,  as solicitações e os desafios eram tantos que, pelo que me lembro, o hábito de escrever e receber cartas se foi atenuando. Não acabou, acho que não, mas, forçosamente, deve ter sido mais esparso.

Mas, ao sair de casa, sabendo que aquela gaveta estava cheia de cartas, centenas, creio, não quis levá-las pois tenho esta característica: sempre que entro numa nova fase da minha vida, fecho a porta e sigo viagem sem levar nada atrás. 

Por vezes pensava que, estando ali tudo tão disponível e, em especial, tendo aquele quarto passado a ser o quarto da minha mãe quando o meu pai teve o AVC (ele teve que passar a estar numa cama articulada com protecção), era natural que ela não resistisse à tentação de ler todo aquele imenso manancial de informação. Desejei que não o fizesse mas sempre pus o coração ao largo: se lesse, paciência. Nunca lhe falei naquilo nem ela a mim. Aliás, sempre pensei que, mesmo que ela lesse, não ia confessá-lo pelo que, em termos práticos, era como se não tivesse lido.

Há algum tempo, quando estive num almoço em que esteve um meu ex-namorado, ao comentar algumas coisas com a minha mãe, ela disse-me que eu ainda tinha lá em casa toda as cartas que ele me escreveu. Eu disse que sim, que sabia, e 'deixe-as lá estar'.

Neste sábado, lá em casa, ao avaliar por alto o trabalho que temos pela frente e, sobretudo, o que pode ser distribuído entre os meus filhos (e, confesso, estou bem apreensiva pois vejo neles pouca receptividade -- e compreendo as suas razões), lembrei-me dessa gaveta. 

Não tinha ideia que fosse tanta coisa. Trouxe. Um saco cheio, cheio. Está agora aqui, na cave. Não sei quando vou ter tempo e paciência mas acho que deveria minimamente organizar aquilo. 

Hoje, quando fui lá abaixo à procura de uma coisa, lembrei-me de espreitar o saco. Vi um molho de cartas que, de repente, acendeu em mim uma recordação que eu julgava apagada. Um amigo algo especial, um rapaz muito interessante, muito inteligente. Era do Porto, do Liceu D. Manuel. Conheci-o em Lisboa, encontrámo-nos algumas vezes e tenho ideia de que pintou um climinha. Terei que ler as cartas para perceber a dimensão da coisa. Mas, ao pensar nisto, não posso deixar de concluir aquilo que é mais do que óbvio: isso também aconteceu enquanto namorava aquele tal outro, embora, no caso, ainda estivesse no início. Mas é mais uma que só prova aquilo que está mais do que provado, aquele namoro foi mesmo um flop, mas um flop dos gigantes, pois foram vários os interesses que tive enquanto o namorei. Mesmo naquele mês em Angola tive um outro interesse, e esse dos valentes, um que foi um vendaval, um tufão. Porque deixei que o namoro continuasse é daquelas coisas que ainda hoje me intriga. É certo que tentei, algumas vezes, acabá-lo mas continua a ser para mim um mistério o não ter posto um ponto final mal começou, isto porque comecei a namorar sem dar por isso. Criancices, só pode.

Também lá está, no meio do saco das cartas, um outro saco. Fui ver: as cartas desse tal namorado. Foi certamente a minha mãe que lá arrumou assim. Eu sempre fui na base de tudo ao molho e fé em deus, carta recebida ia direitinha para a gaveta, estava lá eu para fazer molhinhos. Abri uma carta só para me certificar que, naquele saco, eram as cartas dele. Eram, claro. Uma caligrafia perfeita. Era das coisas que eu gostava nele, a sua letra. Sendo figura das artes e das letras, reconhecido e incensado, às tantas ainda tenho para ali algum futuro tesouro.

Tenho é também que ver se descubro as cartas de um pen friend que conheci através de um anúncio numa revista. Era africano, dizia que vivia numa zona de guerra, que passava mal. Escrevíamo-nos em francês. Eu gostava muito de lê-lo e andava sempre aflita com medo que lhe acontecesse alguma coisa. Até que deixou de escrever. Naquela altura, sem internet, as pessoas que se perdiam de nós ficavam perdidas para sempre. Tenho que ver se, pelo nome, consigo saber alguma coisa dele. Mas tenho pouca esperança.

Também deve haver muitas cartas da Jill. Conheci-a na Figueirinha, teria eu uns dez ou onze anos, não sei. Ao passo que os meus pais eram jovens, os dela pareciam avós. Eu andava dentro de água como um peixinho. E ela, muito branquinha, não sabia nadar e tinha muito receio. Brincámos muito e, por fim, já ela andava na maior comigo, na água. Foi o meu pai que a ensinou a nadar. Escrevemo-nos durante anos. Eu pasmava com a liberdade dela e com a naturalidade com que falava de coisas que, para nós, na altura, em Portugal, eram tabu. A ver se, pelo nome, consigo saber alguma coisa dela.

Tem graça isto. Eu que pensava que as portas que, ao longo da minha vida, fui fechando estavam mais do que fechadas para todo o sempre, vou agora verificando que, aos poucos, por umas ou por outras razões, parece que, mesmo sem que seja eu a querê-lo, se vão reabrindo. Tem mesmo muita graça, isto.

A vida surpreende-nos.

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Este domingo foi muito feliz. Estivemos juntos, almoçámos juntos, estivemos na praia, houve futebolada no areal. Seis renhidos futebolistas cheios de energia e amor à competição. 

Uma alegria. Adoro estar com eles, adoro vê-los juntos.

No entanto, do nada, quando regressei a casa senti uma grande tristeza. A minha mãe já cá não está. Ainda me parece mentira. Mas é verdade. Até cerca de dois meses antes dela morrer eu pensava que, à parte das doençazecas naturais da idade, ela era saudável e que iria viver ainda por muitos anos. Todos os dias eu falava com ela, em média duas vezes por dia, e, portanto, contava-lhe muitas coisas, conversava sobre os meninos, sobre os meus filhos, sobre o que calhava. Até para a distrair daquilo que eu pensava que eram sintomas de nada que ela, por medo, empolava, eu arranjava sempre mil assuntos para conversar com ela. Na última vez que conversei com ela, ela fraca, fraca, eu a perceber que a sua vida poderia estar por um fio, contei-lhe sobre a operação da Kate Middleton, sobre a estranheza pública sobre aquele longo internamento, contei da operação à próstata do Carlos, contei que o William tinha cancelado os compromissos e que, por isso, agora era a Camilla que andava em funções. E a minha filha gozou com a outra que se refere a ela como a Camela. A minha mãe ainda tentou sorrir. E agora já cá não está. E, de vez em quando, abate-se sobre mim uma grande perplexidade e uma grande tristeza.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Força. Paz.

segunda-feira, novembro 22, 2021

Saudosista eu...? Ná...

 





Não tenho propriamente saudades. Tenho recordações. Saudades no sentido de querer voltar a viver, isso não tenho. Nem há nada que gostasse de voltar a viver para fazer o que na altura não fiz ou para repetir o momento. 

Se, agora que escrevo, tentar pensar em momentos bons que gostasse de reviver apenas me ocorrem instantes. Mas não seria bem reviver o que eu gostaria, seria mais estar de novo dentro daquele momento, agora que sei que aquele momento ficou retido no passado.

Por exemplo, eu teria uns catorze anos e houve uma gincana num fim de semana. Éramos pares e a prova incluía percurso de carro, depois eu saía e tinha que fazer tiro ao alvo, depois no carro aos esses, depois andar com um ovo numa colher, depois no carro a fazer peões. E o meu par, no carro, era um jovem bem mais velho que eu (na altura eu achava que ele era bem mais velho mas se calhar tinha uns vinte ou vinte e poucos) e eu achava-o um ás do volante e aquilo era muito renhido e nós estávamos empenhados em vencer e estava a correr-nos bem, eu entrava e saía do carro quase em andamento e era muito emocionante, ouvia gritar por nós e, no fim, ganhámos. E lembro-me de ter os cabelos compridos, soltos, e lembro-me que tinhas uns calções curtinhos e uma blusinha em azul turquesa com o desenho de malmequeres. E estava sol e eu lembro-me que, naquele instante, estava tão feliz e que pensei que ia sempre lembrar-me daquele momento.

Também me lembro do dia em que já era de noite, no inverno, os dias eram curtos, e estava um nevoeiro cerrado. Teria uns quinze ou dezasseis anos, estava sozinha, devia ter vindo daquela casa onde supostamente ir ter explicações mas em que, na realidade, ia pela tertúlia, pelo ambiente de liberdade e alguma clandestinidade que ali se vivia, e ia para a paragem de autocarro, apenas se viam vultos, eu estava um pouco assustada. E, então, um vulto cruzou-se comigo e disse o meu nome mas no diminutivo. E eu olhei e já não vi ninguém. E fiquei arrepiada, trémula, no frio e nevoeiro. E não me importava de voltar a estar ali para tentar perceber quem era aquele homem. Só por isso. E também pelo ambiente cinéfilo, um suspense materializado.

Lembro-me daqueles dias em Angola, tanto calor, tanta humidade, os meus cabelos fartos e compridos ao fim do dia sempre ainda mais pesados e húmidos. Ansiava pelo banho para poder limpar aquela humidade que se colava à pele e aos cabelos. Usava blusinhas cai-cai, quanto muito com uma fita que se atava atrás do pescoço. E ele -- que tinha um perfume que, na sua pele, se tornava afrodisíaco em contacto com aquele calor africano -- a olhar-me fixamente e a dizer que os meus ombros o deixavam maluco. E eu ria e dizia que ele tivesse juízo mas, lembro-me bem, o que eu queria mesmo é que ele não tivesse juízo nenhum. Ele tinha namorada em Portugal e eu também.  Talvez fosse bom voltar a esses dias. Mas seria só para observar melhor aqueles momentos em que, de verdade, senti o que era ser mulher e como era bom estar com um homem. Não quereria voltar a revivê-los nem daria largas à vontade forte que sentia de deixar correr sem qualquer preocupação pois sei que se isso tivesse acontecido talvez a minha vida tivesse seguido outro rumo e eu gosto muito do rumo que ela seguiu. Mas não me importava nada de nos ver naqueles longos e maravilhosos dias.

E lembro-me da manhã de um dia 10 de Dezembro, dia também húmido, Lisboa branca, envolta em neblina. O primeiro dia do resto da minha vida. Não queria reviver mas fotografá-lo, fotografar-nos, aos dois, envoltos num tule branco e molhado, naquele dia em que não conseguíamos parar a torrente de beijos nem separar-nos. Gostava de saber como nos viam aqueles que se cruzavam connosco porque nós não víamos nada, apenas tínhamos olhos e mãos e bocas um para o outro.

E, claro, lembro-me de mil instantes de mil ternuras, eu e os meus filhos, bebés, depois mais crescidos, depois adolescentes, depois adultos, depois a viverem as suas vidas, a terem os seus filhos, mil momentos de amor. Mas revivê-los não, apenas revê-los. Sonho é com os momentos que estão por vir.

Não sinto, pois, vontade de regressar ao passado para o reviver. Não. Só o futuro me interessa. Tenho é muita vontade de ser surpreendida pelos momentos que o acaso e a sorte têm para me oferecer. Que nunca me faltem os bons momentos para relembrar. Gostava de ter pela frente mais muitos mil instantes luminosos cintilando na minha memória.


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E que entrem as Avós da Razão para dizerem de sua justiça sobre o Saudosismo


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Fotografias feitas este domingo aqui em casa ao som de Autumn Leaves com o Chet Baker

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Desejo-vos uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Te espero cuando la noche se haga día, suspiros de esperanzas ya perdidas

 



Vou fazendo contas de cabeça. Tento adivinhar a data em que voltarei a passear, a receber visitas. Penso: fins de Abril, Maio. Estando bom tempo, poderemos estar na rua, quase nem usar máscara. A minha mãe há-de estar vacinada, algures no tempo nós dois haveremos ser vacinados, todos o seremos. Voltaremos a sentar-nos em volta da mesa, talvez não nos sentemos em mesas separadas, talvez não sintamos necessidade de estar a milhas uns dos outros. Pelo meio aparecerão variantes tailandesas, eslovacas, congolesas. As vacinas irão sendo adaptadas. Aos poucos iremos voltando a uma quase normalidade. 

É nisto que penso enquanto estou aqui fechada, trabalhando de manhã à noite, cercada de chuva, de mau tempo, de frio. A terra do jardim está ensopada. Não se consegue andar, chove em permanência uma chuva miúda, as árvores pingam, pingam. Estava, à tarde, sob o alpendre a comer uma laranja quando ouvi correr água como num cano. Olhei admirada. A água corria no algeroz e caía copiosamente no tubo que desce por um dos pilares. 

Às tantas vi uns pontinhos brancos na árvore que tem os ramos nus. Fui a correr buscar a máquina para fotografar. A primeira flor da amendoeira. Que alegria. Que boa notícia. E outras se anteveem. O constante devir, o permanente milagre.

E é isto. Debaixo da invernia, adivinha-se já a chegada da primavera. A natureza continua os seus ciclos, indiferente às agruras que os estúpidos humanos infligem a si próprios. Esta continuidade são o chão que, queiramos ou não, pisamos.

E depois virá o verão, os tempos quentes e secos e esquecer-nos-emos destes dias sombrios, escuros, tristes. Estarei ao sol, saber-me-á tão bem, sentir-me-ei mais viva. Sentir-me-ei mais mar, mar de terras quentes, mar de aventuras e perdições. Fecharei os olhos e irei ao saber das marés do pensamento. Talvez adormeça ao sol, os pássaros cantando e eu mergulhada naquele doce abraço que sabe a eternidade. Depois acordarei, a pele agradada pelo calor, abençoando o prazer de estar viva.


Mas, por enquanto, estamos no inverno, em confinamento, atravessando o calvário que calhou em sorte a esta geração. Os meus avós avós falavam da pneumónica de que tinham ouvido falar, uma desgraça que roubara a vida a milhares de pessoas. Era coisa longínqua. As pestes eram coisa de passados irrepetíveis. E, no entanto, aqui estamos.

Durante o dia, pelo telefone chegam-me algumas boas notícias mas também problemas. Hoje uma pessoa, contando que lhe tinha entrado no gabinete uma pessoa a chorar (há quem não possa estar em teletrabalho), desatou também a chorar. Interrompeu, ouvi uma respiração funda. Depois disse-me: 'Desculpa. Hoje estou com um estado de espírito macabro'. Pessoa sempre animada, pessoa forte. E, agora, isto. 

Pelo meio, vou recebendo mensagens da família, fotografias dos meninos. Por vezes estou a meio de reuniões, ouço o sinal de uma mensagem a chegar. Se consigo, espreito. Às vezes fico com pena de não poder meter-me na conversa. Apetecia-me enviar sorrisos, corações. Mas comporto-me. Limito-me a pensar que não tarda estamos na primavera, depois no verão. E que, talvez, no outono já nos sintamos livres.

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E um poema a condizer com a cinzenta tristeza que tem vestido estes dias

Mario Benedetti - Te Espero

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As fotografias foram feitas aqui em casa, enquanto chovia.

Não sabia que título dar a este post. Hesitei entre 'wonderful world' ou em extrair do poema de Mario Benedetti o início do poema. Achei esta segunda hipótese mais deslocada do conteúdo do texto mas bonita.

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Desejo-vos um dia cheio de luz, mesmo que chova todo o dia.

sábado, dezembro 26, 2020

In dulci jubilo

 


Parte da família veio na véspera e jantámos juntos, nós numa mesa, eles numa outra. Bacalhau com todos, claro, e porque os meninos não apreciam bacalhau, fiz um empadão com carnes diversas que cozinhei na hora e um puré feito com batata normal, batata doce e cenoura. Estava dourado com gema de ovo por cima e todos gostaram muito. Não fiz sobremesa, claro. Mas veio uma tarte de pera deliciosa e rabanadas e eu tinha um bolo de massapão e bombons. Estão sempre bem dispostos e são carinhosos e sinto-me muito feliz. A lareira acesa, as janelas abertas. A casa iluminada, acolhedora. Um dos meninos, o que é mais zen (o mais zen às vezes mas, também, o mais aguerrido noutras) gosta muito das minhas massagens e, portanto, pediu uma. Sugeri que se sentasse num puff junto à lareira e eu num puff atrás dele, ambos de máscara. Hoje recebi uma fotografia do momento. Durante uma meia hora ele nem se mexeu, o corpo tranquilo, a mente tranquila. Enfio as mãos sob a camisola e massajo-lhe as costas, o pescoço, os ombros. Depois massajo-lhe o couro cabeludo. Fica em transe, em silêncio. O calor da lareira é um bons calorzinhos desta vida, tão acolhedor. E fomos conversando até serem horas de se abrirem os presentes. E foi uma alegria. Receberam presentes que desejavam muito, ficaram felizes. E foi tão bom estarmos assim, em família, luzinhas a piscar, madeira a crepitar.

De manhã veio a minha mãe e veio o resto da família. Refiro-me, claro, ao núcleo mais restrito. Desta vez foi assim, apenas o inner-inner circle. 

De véspera a minha mãe tinha recebido a visita do meu tio e da minha prima. Perguntei logo: e estavam de máscara? Que sim e que ela também foi logo pôr. Menos mal. Tinha-lhe andado a pedir encarecidamente que não visitasse amigas nem recebesse visitas. Nunca sei bem se vai nas minhas conversas pois, volta e meia, a posteriori, relata-me situações que nem aprofundo para não me preocupar desnecessariamente.

O meu tio ofereceu à minha mãe um quadro que pintou para lhe oferecer. 

A casa, com a maltinha toda, entra logo num outro registo. Os meninos, quando estão juntos, ficam numa alegria que é digna de ser observada. Adoram-se. Houve nova troca de presentes, a sala pejada de sacos, embrulhos, uma animação. 

Entretanto, estive toda a manhã a preparar as iguarias. Contudo, tive a vida bem facilitada pois não apenas veio comida já feita como encaminhada. Brunch. Duas quiches, uma de espinafres e cogumelos e outra de frango e alho francês, piano no forno, salmão frio, batatas no forno, umas com bacon e ovos, outras com alheira e ovos. Raviolis e tortelinis recheados uns com salmão, outros com ricota e espinafres, tiropitas de ricota, maçã e salmão. Salada de tomate cereja com mozarela. Tábua de queijos, prato de carnes frias. Paté de frango. Batatas fritas. O resto do empadão. 

De sobremesa, nada feito por mim, salame de avelã, folar de maçã, bolo de agrião, bolo de laranja coberto de chocolate, arroz doce, coscorões e sonhos. E bombons que também não fiz mas que, pelo menos, escolhi. 

A minha mãe ficou à cabeceira da mesa grande e eu e o meu marido na outra ponta da mesa, a minha filha e família numa mesa a meio caminho e o meu filho e família na mesa mais ao fundo. Lareira acesa, janelas abertas. E esta parte, confesso, foi a mais estranha de tudo. Natal é estarmos perto uns dos outros, conversarmos ao lado ou de frente, não a metros de distância uns dos outros. Não dá jeito. E fizemos assim: em cada mesa havia talheres de servir e levavam-nos para não haver muita gente a mexer nos mesmos talheres. A comida estava nas bancadas da cozinha mas íamos à vez. Por isso também houve algum desfasamento na hora de início e de fim. Espero que para o próximo Natal eu já possa ter as mesas ao pé umas das outras, todos perto uns dos outros. Nos outros anos até tínhamos que nos apertar tentando caber o mais possível à volta da mesma mesa. Era uma barafunda de conversas cruzadas e animação. Agora também foi mas o facto das mesas estarem afastadas umas das outras esbateu um bocado aquela sensação de proximidade que é uma das coisas boas que o Natal tem.

Felizmente estava um pouco de sol e a temperatura, embora baixa, estava suportável. E, sobretudo, felizmente que não choveu. Estivemos, pois, no jardim. Jogaram badminton, praticaram arco e flecha, jogaram à bola, andaram às lutas mas, claro daquelas lutas que são brincadeira, descarga de energia e proximidade, houve quem tentasse andar de patins, houve salto à corda.

Depois fez-se frio e voltámos para dentro. Lareira acesa, janelas abertas, sempre de máscara excepto quando se comeu e, nessa altura, longe uns dos outros. Lanchou-se. Brincaram, conversámos. 

E. quando a noite caiu, houve preparação de marmitas e cada um foi à sua. 

Fomos levar a minha mãe a casa. Vi o quadro que o meu tio lhe ofereceu e fiquei surpreendida. Muito bonito. Tem a idade da minha mãe. É o irmão mais novo do meu pai. É uma pessoa boa a quem nunca vi outra coisa que não um sorriso, mesmo quando é um sorriso triste. Estivemos a ver onde é que o quadro deveria ficar. Ficará valorizado com uma bonita moldura. Vim admirada e até comovida com o belo quadro que ali está.

Também recebi presentes de que gostei muito e, sobretudo, vivi o Natal em família, no aconchego da casa, rodeada pelas pessoas que trago sempre no meu coração e de que gosto -- e preciso -- de me sentir próxima.

Claro que, várias vezes durante estes dias, senti-me agradecida por poder concretizar aquilo de que gosto. Muitas pessoas também gostam e não podem porque têm casas pequenas demais, porque não têm rendimentos nem vontade de festejar, porque estão doentes, porque não têm família, porque estão noutro país. Sinto-me, pois, uma pessoa com sorte e agradecida por essa sorte. Sendo pessoa que gosta de ter a família por perto tenho tido a sorte de a ter.

Claro que nestes momentos, apesar da animação, de vez em quando bate, por dentro, às escondidas,  uma ponta de nostalgia. Este ano tem sido dureza. E um ano de perdas. Mas logo respiro fundo e deixo para lá. Não adianta. Portanto, agarro-me à alegria de estar perto daqueles que amo e que sinto que também me querem bem. Nada é tão bom como isso.

Caminhamos para o fim deste ano. Lembro-me da esperança que senti ao entrar em 2020. Parecia-me um ano tão promissor. Vinte vinte. Pensava que um ano com um nome tão promissor, vinte vinte, tinha que ser um bom ano. Afinal, veja-se. Ano mais triste não deve ter havido muitos. E sei que, quem saiba de história, pensará que, sim, claro que houve muitos mais: tremores de terra que destruíram cidades, guerras, mortandades, devastações, pragas e pestes. Bem sei. Mas reporto-me aos tempos presentes, o mundo inteiro, um mundo em grande parte desenvolvido e rico, a sofrer o mesmo mal: uma ceifa geral, uma súbita mudança de hábitos, o medo do invisível. Neste preciso momento, em menos de um ano, identificado como óbito por covid, a estatística já vai em 1 736 752. Uma coisa impensável. Uma doença surgida do nada. Não fui, pois, a única pessoa a sofrer a perda de um familiar pelo que também acho que não devo falar nisso. No outro dia, um conhecido perdeu a mãe depois de dois meses antes ter perdido o pai. Há sempre quem esteja pior que nós, quem esteja verdadeiramente mal, amputado de familiares ou entes queridos cuja perda era imprevisível e se tornou insuportavelmente dolorosa, quem deva ser respeitado pela indescritível dimensão da sua dor.

Mas não são essas as únicas perdas. E os que sofrem maus tratos ou desrespeitos, tanto mais dolorosos se forem às mãos daqueles que se julgava serem pessoas de bem? Que tristeza se deve sentir. E as saudades e o desânimo? Quantas saudades se deve sentir quando se perde a esperança em dias melhores?

Penso nos que sofrem. Escrevo a pensar nas pessoas que não sentem vontade de festejar, que tiveram perdas irreparáveis, que não têm a que se agarrar para poderem atenuar a tristeza que sentem. E é para essas pessoas que vai, de novo, o meu abraço.


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Desejo-vos um sábado feliz