Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, agosto 31, 2018

Os diários da Virginia -- um blog que, muito vivamente, recomendo





Sou viciada em leitura. Omnívora. Se vou à cabeleireira, antes de me instalar, vou buscar revistas. Se percebo que as únicas que não li têm mais de um ano, não me importo. Se vou ao médico, o que me alivia enquanto espero é ter revistas para ler, mesmo que sejam da tap ou de artigos médicos de há séculos. Se me põem a revista do ikea na caixa de correio, pego nela como se fosse pitéu caído do céu. Se estou à espera de qualquer coisa e não tenho que fazer small talk, pego no telemóvel e ponho-me a ver notícias, blogs ou mails. 

Antes disto, na fase pré-histórica em que não havia net, preenchia o espaço entre livros com cartas. Na adolescência, o capítulo epistolar preencheu parte significativa da minha vida. Adorava escrever e receber cartas. Agora, não há cartas. Sinto falta da emoção de abrir a caixa de correio e descobrir lá um envelope gordo e de ir a correr para dentro de casa para desdobrar as folhas e ler a deliciosa prosa lá contida. Nos tempos que correm, são mails longos, com histórias de vida. Um presente que recebo agradecida. Pena serem tão poucos assim.


Se passo numa livraria, tenho que entrar e entro com um sentimento quase de urgência, como se não tivesse nada que ler; e, se nada encontro que me agrade, sinto uma frustação irracional.

Os meus gostos são difíceis de explicar: por um lado, sou tolerante quanto a tretas sem qualquer interesse e qualidade e, por outro, sou completamente intolerante quanto a coisas armadas em boas. Pegar num livro com uma historieta sem substância ou escrito num estilo rudimentar é coisa para mim impossível mas pegar numa vip ou numa nova gente de há um ano onde tudo o que lá vejo é estúpido e ridículo e onde, na maioria, se fala de gente de que nunca ouvi falar, já me parece aceitável. É certo que isso só acontece a espaços bem afastados e por não mais do que por uma hora mas, ainda assim, é incompreensível. É como se fosse uma forma de conhecer uma parte do mundo que me é estranha. 


Feita esta confissão, ficará estranho eu dizer que estou cada vez mais exigente quanto à inteligência e elegância da escrita. Mas é verdade. É sem escrúpulos ou remorsos que abandono um livro a meio ou antes de lá chegar se as palavras se arrastarem sem graça, se não for surpreendida por uma forma inesperada de dizer ou não me encantar com a singeleza do estilo, com a luminosidade que transparece das frases. Mais: tolero a insolência, as contradições ou o mau feitio de quem escreve se escrever bem, se me tocar com a emoção das suas palavras. E sinto saudade, como se fosse coisa do coração, se me vejo privada de algumas leituras.

Gosto de ler diários. Não sigo disciplinadamente a cronologia. Posso abrir ao acaso e não sinto falta de perceber a sequência temporal. Mas, se estou com tempo, como agora que estou de férias, vou de carreirinha, certinha, da primeira entrada à seguinte, à seguinte, à seguinte.


Ou blogs. Blogs que sejam verdadeiros. Não gosto especialmente de blogs monotemáticos, monocórdicos. Por exemplo, blogs que têm uma agenda política ou económica bem vincada e não se desviam daí nem um milímetro, não deixando espaço a um estado de alma ou a uma ironia, para mim não são especialmente apelativos. É certo que se pode criar um blog apenas para divulgar receitas de cozinha ou, outro, apenas para falar de livros ou, ainda outro, para mostrar gráficos sobre economia -- têm o seu público e ainda bem. Mas a mim é que me maça seguir um blog que é sempre e só mais do mesmo. Mas pelo-me por blogs com apontamentos diários, genuínos, espontâneos.

Comecei a ler agora o da Virginia e já estou agarrada. Tudo ali tem graça, leveza, inteligência, humor. Há ironia, há desprendimento, há elegância.

Agora não tenho tempo para transcrever alguns excertos pois estou a ser puxada para outro programa mas, logo que possa, volto aqui para vos mostrar porque é que estou a gostar tanto e porque é que tão vivamente o recomendo.


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Continua aqui

Afinidades electivas? Osmose mútua? Mero efeito da simbiose e do love?




Já não é a primeira vez que me entretenho a reparar nas afinidades entre os membros dos casais, aqui dando conta das minhas observações. Qualquer coisa na forma como caminham, como se vestem, como conversam, como olham na mesma direcção revela que, com o tempo, qual cão e dono, um absorve os traços os modos e os interesses do outro. 
Reparo agora que apenas fotografei casais heterossexuais. Fi-lo com a naturalidade de quem se limita a observar e a registar. E, no entanto, o que não faltam são casais homossexuais, sobretudo mulheres. Provavelmente tantos como de homens mas os homens devem coibir-se mais de se manifestar abertamente. As mulheres, sempre mais destemidas, passeiam de mão dada, abraçam-se. Mas, por qualquer absurdo preconceito, inibo-me de as fotografar, quase como, se o fizesse, corresse o risco de passar por voyeur ou o estivesse a fazer por achar que, por ser anormal, merecia ser registado. Não sei. A nossa cabeça tem pancadas que andam por desconhecidos mares subterrâneos. 
Mas, portanto, apenas homens e mulheres caminhando na praia. É dos prazeres de que posso usufruir nestes dias que entardecem com vagar. Leio, vou à água, fotografo, converso. As manhãs são essencialmente dedicadas às caminhadas à beira de água, as tardes ao doce remansar, as noites à flanação urbana (entre bailarinas de dança do ventre, românticos trovadores, retratistas a carvão, acordeonistas, ginastas, vendedores de rua, animados jovens, apaixonados e enamorados). É bom estar de férias.

Enquanto caminho de manhã ou deambulo à noite não consigo observar atentamente os casais, percebendo-lhes as afinidades, fixando-as nos meus retratos. Mas, de tarde, sim. Estou sentada, invisível, olhando quem passa, pensando que seria um bom exercício imaginar uma história para cada um. Ou como seria bom poder abeirar-me das pessoas e pedir-lhes que me contassem a sua história, como se conheceram, o que fazem, de onde vêm. Se calhar não me repudiavam. Lembro-me muitas vezes de um homem, um homem com umas feições vincadas, que, estando eu a fotografar os barcos, se acercou de mim e me pediu que o fotografasse. Lembro-me de como, apanhada na minha própria armadilha, fiquei assustada, atrapalhada. Tive até algum pudor em me pôr para ali a focá-lo bem ou a estudar a melhor forma de o captar. Apontei a máquina e disparei, ele imóvel a oçhar-me de frente. Dos rostos mais expressivos e impressionantes que já fotografei.






















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Olh'ó passarinho


O meu marido, quando à noite se ouvem os gritos das gaivotas, protesta: 'Essas gajas não se calam'. Eu gosto. São gritos fortes que condizem com o seu porte majestoso, quando abrem as asas e atravessam o mar. 

Também se insurge com elas quando se abeiram da esplanada onde tomamos o pequeno-almoço. Bichos espertos e com grande capacidade de adaptação, elas chegam-se a todo o lado onde lhes cheira a comida. Acho-as bonitas: elegantes e determinadas. Ele diz: 'Cagam tudo'. Não é dado à poesia.

No outro dia, vi um senhor a vir da beira do mar com uma gaivota ao colo. Como eu própria vinha da água, não tive como registar a situação. Terão que acreditar nas minhas palavras. Transportava-a com cuidado. Depois pousou-a. Ela agitou-se, tentou abrir as asas, tombou, uma das pernas a tentar ajudar mas sem sucesso. O senhor voltou a pegar nela ao colo e levou-a até a uma pequena piscina que tinha sobrado da maré que estava a descer. Julgaria que a água a ajudasse. Não ajudou. O senhor pegou então nela, atravessou o areal e foi pô-la na cadeira do nadador-salvador que não estava lá. A pobre gaivota, de repente sem majestade ou altivez, ali ficou, numa aflição, sem força. Não sei se estaria lesionada, doente ou se apenas estaria na sua hora de se ir. A incapacidade ou o fim da linha é sempre uma coisa triste de observar. Imagino a surpresa desagradável que o nadador-salvador, um jovem bronzeado, terá tido quando voltou ao seu poiso. Na volta, ainda pensou que tinha sido a gaivota que o tinha procurado, em busca de ajuda.

De vez em quando, interrompo a leitura, pego na máquina e começo a seguir o voo das gaivotas que sobrevoam a praia.

Gosto mais de vê-las assim, livres, belas, do que pensar que, como todos os seres vivos, também têm as suas fragilidades e a sua finitude. E, de facto, também não gosto de vê-las feitas pombos descarados a ver se debicam croissants. Mas as coisas nem sempre são tão impolutas, perfeitas e genuínas como gostamos de as idealizar.






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quinta-feira, agosto 30, 2018

Do lago saíram dois cisnes mas, afinal, o cisne negro não era um cisne:
era Leda


O homem estava à beira de um mar tranquilo como um lago. Era um homem grande que, numa quente tarde de verão, olhava o azul imenso. Olhar perdido nos veleiros, nas gaivotas, talvez nas memórias.

Até que viu o cisne. Ah... 




Fascinado, ficou preso à elegância com que ele deslizava sobre a subtil ondulação das águas. Um cisne branco passeava sob o olhar seduzido do homem que tinha chegado de terras longínquas. Seria guerreiro, o homem? Seria um navegador solitário?

Jamais o saberemos. Sabemos, apenas, que não mais conseguiu desviar o olhar do gracioso cisne que, à sua frente, o envolvia num bailado todo ele inocência e tentação.

Mais surpreso ficou o homem quando viu que havia um outro cisne, um cisne negro. Saídos das águas, sinuosamente ondulando pelo areal, deslocaram-se ambos até mais acima, até onde uma quase cama os esperava. 

Ao sol, o cisne branco e o cisne negro. Elegantes, belos. O cisne negro dado à leitura, o cisne branco apenas aos banhos de sol. 

Mas, olhando com atenção, poderia reparar-se no olhar pouco amigável do cisne branco. Talvez despeitado. Enquanto isso, o cisne negro, inocentemente entregue à leitura, não se apercebia dos riscos que corria. O cisne branco, balouçava-se e talvez não fosse apenas pela aragem: era um cisne ameaçador que esperava a oportunidade para atacar.


E, de repente, já não eram dois cisnes. Agora a mulher era Leda e o seu belo corpo preguiçava ao sol, e toda ela absorta, entregue às palavras, ao romance. A seu lado, o cisne desviava o olhar da escultural mulher que resplandecia ao sol. 

O tempo passou, entardeceu com vagar, a luz dourada e morna fazendo brilhar o maravilhoso ébano  da pele de Leda.

Terá adormecido, terá sonhado? Leda não saberá dizê-lo.

Num momento era um cisne que a olhava e não olhava e, no instante seguinte, ao despertar, já era um homem que se curvava sobre ela, a mão na sua coxa, palavras tentadoras, sorriso perigoso. 

Entre eles, o cisne silencioso baixava a cabeça. Talvez já fosse apenas um invólucro vazio, talvez se tivesse transformado no homem que tenta e é tentado por Leda.

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.







Eu sei que já disse que não sou apologista de depilação em homens
mas,
em casos assim,
se calhar,
eu estava capaz de abrir uma excepção.


Em casos assim, é inevitável: a gente lembra-se do Tony Ramos. Eita homem mais peludo, minha nossa. Há quem ache sexy, homem macho. Mas eu, cá para mim, se isso é macheza então acho que, se calhar, não seria precisa tanta. Claro que a gente pode ver por outra perspectiva: é fofinho, ursinho peludão. E, no inverno, deve ser quentinho.

Mas eu, se fosse a cara-metade dele, capaz de, quando o apanhasse a dormir de barriga para baixo, lhe pôr umas bandas de cera depilatória e pimbas: já foste. Pelos ao ar. 

Ou então, para ele não dar pela coisa, punha uma espuminha macia e, ao de levezinho, com uma lâmina cuidadosa, fazia-lhe a barba às costas. E nem lhe dizia nada.

Mas ficava atenta: se visse que, qual Sansão, lhe estava a faltar a força, então, olhem, se calhar reconsiderava e deixava que a guedelha lhe crescesse de novo. E cala-te boca.


De resto, isto é como tudo: gostos não se discutem.

E o importante é que o ursinho fofinho seja bom rapazinho, que isso é que importa 
-- e o resto são conversas.

Se Trump chegar a ser corrido.
[IF YOU EVER GOT IMPEACHED - A Randy Rainbow Song Parody]


Gostava tanto que Trump fosse corrido, banido, humilhado, gozado. Ainda me parece impossível que o mundo assista impotente a uma coisa destas. Mas quando se começa a trilhar o caminho da mediocridade, tudo ajuda à festa e as consequências são todas as que se possam e não possam imaginar. O populismo é o ninho na qual os ovos de serpente melhor fruto dão.

Valha-nos o ridículo que, de tão incomensurável, inspira os humoristas. Randy Rainbow é um dos que anda em cima de Trump... e não as poupa.

quarta-feira, agosto 29, 2018

Flores a sul
[E a falta de vontade para falar do e-toupeira do Vieira]




Tenho algumas coisas para dizer porque, de vez em quando, espreito as notícias e fervem-me logos os dedos para desatar a opinar mas, por isto, aquilo e o outro, a ocasião acaba por não se proporcionar. Parece impossível mas parece que atraímos: chegámos ao hotel já perto da meia-noite. Pode parecer que não mas a vida de férias é cheia de coisa -- e nem vou falar dos mails e dos telefonemas que são coisa sempre pipilante (o meu marido tirou o pio aos dele, só vê duas ou três vezes por dia, mas eu ainda não cheguei lá; não tiro o som pelo que todo o santo dia aquilo pipila) -- ele é praia, ele é brunch, ele é sesta, ele é leituras, ele é praia ao pôr do sol, ele é passeiozinho, ele é banho e toilette nocturna, ele é jantarecos, ele é passeio after hours, ele é o luar espelhado sobre o canal. Uma azáfama.

Por isso não é só a escassez de tempo: é também a falta de mood. Se uma pessoa anda zeníssima como conseguir desarrincar das entranhas palavras áridas, desprovidas de luz, de sal, de cor? Não é possível.


Faço fotografias cheias de azul, de veleiros sobre um mar cintilante, de crianças sorridentes, de um cisne negro e de outro branco, de um barrigudo armado em hippy, de uma mulher gorda com o rabo todo de fora, de casais carregadinhos de afinidades, de gaivotas atrevidas. E de flores. Ando numa de flores. Flores tão lindas. 


Vejo muitas mulheres com grandes flores no cabelo. Eu ainda não pus nenhuma. Não se seguraria, acho eu. Ando é com vontade de ter uma bandolete com flores, flores grandes e às cores. Interrogo-me se tenho idade para andar com flores no cabelo mas depois mando-me calar porque era o que faltava que houvesse um limite de idade para usar flores no cabelo. 

Ah, e já comprei um soutien azul claro. O meu marido passa-se: diz que venho de Lisboa para comprar um soutien no Algarve e quem o ouça dirá que fiz a coisa mais parva do mundo. Mas paciência. E todos os males do mundo fossem tão inofensivos como este. Se aqui encontrei o que queria -- há lojas de lingerie de enfiada e eu tenho tempo para andar nisto -- que mal tem? Portanto agora já posso usar as minhas blusinhas em azul claro ou aturquesadas e, por baixo, um soutienzinho em ton sur ton. Pode parecer coisa pouco importante mas, para mim, que ligo a este género de pormenores, é da máxima relevância. 

E também comprei uma coisa de pendurar, uma meia garrafa com uma corda com conchas. Depois, quando pendurar, fotografo. Quando lhe der a aragem fará uma musiquinha boa para a gente sonhar, sereníssima. Aliás, não foi uma, foram duas. Uma em azul com uma corda grande para pendurar nas traves de madeira do telheiro no campo e outra, mais pequena, em cor de rosa, que pendurarei na viga da sala da cidade, ao pé da menina bailarina e do anjinho colorido.


Mas isto para dizer que, no meio disto, acaba por se me esvair o élan para falar de cenas macacas. O smiley lion quer que eu fale das e-toupeiras que habitam o glorioso. Mas não sei nada disso, teria que ir informar-me e estou tão nas nuvens que me custa andar a espreitar os labirintos em que se move essa bicheza. Mas pode ser que dentro em breve a coisa se dê, ouviu, lion? Deixe-me cansar-me deste mundo de florzinhas e frioleirazinhas onde agora me apetece deslizar que, quando a wild UJM estiver de volta, as e-toupeiras e demais animalada secreta não vão perder pela demora.

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E já disse que nunca vi uma cobertura de rede nos quartos tão deficiente como esta? Se não disse, digo agora: péssima. Como não quero usar a rede aberta do hotel, sujeito-me a dar cinquenta vezes ao pedal antes que algum efeito se produza.

Já vejo se consigo manter-me acordada enquanto escrevo as próximas palavras. Se elas não aparecerem é porque, entretanto, caí nos braços de Morfeu. Também tenho direito, não é...? É que estou perdidinha. A sério. Não imaginam.

Ei-los, os meus flamingos algarvios


No outro dia falei da minha fantástica aquisição, nascida da mais pura e justificável necessidade: umas havaianas porretas com flaminguinhos pink instalados sobre caminhas de riscado preto e branco nas quais assentam agora os meus pés, entre os quais um com um artístico hematoma.


E até já

terça-feira, agosto 28, 2018

O Papa, a homossexualidade e a psiquiatria


Estou eu aqui sossegada, a banhos, e a ser maçada com um surururu que atravessa dunas e marés para chegar até mim. Desde jornalistas a bloggers meio mundo desatinou com um desabafo do ex-Jorge Bergoglio: disse ele que, quando um filho manifesta inclinações homossexuais, os pais deveriam tentar fazer qualquer coisa por ele, nomeadamente levá-lo ao psiquiatra.

E tão politicamente incorrecta a coisa soou que logo a Santa Cúria limpou a palavra psiquiatria do conselho, reescrevendo a história da frase. Mas nem mesmo assim os incomodados se aquietaram, continuando a blasfemar. Ora, em meu entender, deveriam  antes atentar no sentido profundo da recomendação.

É que eu, que não me tenho por beata ou conservadora, não consigo divisar o mal da ideia de Francisco, o Papa. 
[Até porque quando a malta pensa em psiquiatria já vai com o pensamento enviesado, logo pensando em médico para malucos, tarados, gente depressiva ou esquizo. Mas, calma, há psis para a juventude.]
Eu leio assim a ideia do Papa Francisco: 
  • A julgar pelo que se sabe, alguns jovens que sentem inclinações homossexuais acham que a única maneira de consumarem os actos que têm em mente é irem para padres.
  • Portanto, parece-me bem que o Papa sugira que se explique aos jovens que podem ser homossexuais à vontade sem terem que ir para padres. 
Mais:
  • Claro que, para os que gostam de usar saia não querendo assumir o fetiche, a batina pode parecer um bom sucedâneo. 
  • Mas ainda assim, se é só por isso, o psiquiatra pode falar de outras opções. 
Mais ainda:
  • Alguns deles, com gostos mais perversos, sabendo que, em certas situações, a perversidade dá prisa, acham que onde podem usar e abusar da impunidade é nos seminários e noutros meandros paroquiais. 
  • Mas também aqui me parece que há espaço para a psiquiatria, nomeadamente para lhes explicar que ir para padre para abusar de crianças não é a melhor ideia. Claro que podem passar impunes durante anos ou mesmo para sempre mas ainda assim pode haver tratamento, seja na base da persuasão seja na base do tratamento químico ou mesmo físico (embora não se recomende que um psiquiatra dê um par de estalos num putativo pedófilo).
Acho que já é tempo dos homossexuais que gostam de fazê-la pela caladinha e os pedófilos que gostam do cheirinho a batina e a incenso deixarem de se acobertar na igreja. E se a solução é mandá-los ainda jovens para o psiquiatra pois muito bem. Estou com Bergoglio.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Retrato de uma quente noite algarvia




No outro dia, antes de me ir sentar na sala com o portátil, calhou pôr um creme novo nas mãos, por sinal bem cheiroso, ultra hidratante e, por acaso, a modos que escorregadio. E, como agora que aconteceu já é fácil deduzir -- mas, no momento, nem me ocorreu -- o portátil escorregou-me das mãos. Eu estava de pé e, para o dito não se estatelar no chão, como sou de reflexos rápidos, atalhei a queda com o pé que, na hora, estava descalço. O computador aterrou de bico no peito do pé. A dor foi grande e pouco tempo depois um grande hematoma cresceu, arroxeou, inchou. Como nos dias que se seguiram a batatona ficava de fora do sapatinho de salto alto, tudo certo. Doía mas não estorvava. Só que, agora, o chinelinho lindo que tenho para a praia, que é de tira larga, roça no hematoma e já o esfolou. Portanto, tive que arranjar solução. 

Ou seja, agora à noite, vi-me na contingência de entrar numa loja que me atrai que só visto, a Ale-Hop, para ver se lá me governava. E governei. Descobri -- e por 4€ -- as havaianas mais lindas que alguma vez suporia ter: às risquinhas preto e branco e, ao meio, um flamingo em pinkésimo. Quando as calço não se vê o flamingo, só as riscas em preto e branco. E a tirinha de enfiar no dedo é também em rosa pink refulgente. O máximo. A minha menininha mais linda vai ficar roída de inveja: por sapato, de qualquer espécie, é como eu: vidrada.

Estou mesmo contente com a minha aquisição. Agora não estou com paciência para ir fazer uma sessão fotográfica com os flamingos mas, amanhã, se não me esquecer, fotografo-os para vos mostrar.

Mas, para o texto não ficar desenfeitado, mostro um outro flamingo com uma flaminguette a cavalo.


Aproveitei o facto de ter sido forçada pelas circunstâncias a entrar naquela loja para trazer presentes para quase todos: uma caneta para cada menino-rapaz -- umas canetas de uns seres estranhos que, quando mexem os braços, acendem umas luzes encarnadas nos olhos. Para o bebé, uma rãzinha de corda para brincar na banheira. Para a minha mãe uma ventoinha portátil, em que basta carregar numa patilha para aquilo fazer fresquinho. Para a minha sweet girl já não foi lá, foi noutra loja, um chapelinho, tipo capeline (à escala, claro) de crochet, em rosa, beige, amarelinho, com umas fitinhas e umas florzinhas. Fiquei logo a pensar que, tivesse eu mais tempo livre e poderia dedicar-me a fazer chapéus assim, multicores, cheios de graça e, quiçá, alguma loucura.


Para além disso, também dancei. Naquele largo junto aos repuxinhos luminosos, estavam uns jovens tocando uma música boa, africana. Em volta, algumas mulheres começaram a dançar. Eu também. Musiquinha boa numa noite quente. Dancei, pois então, ia lá eu fazer-me rogada a um pezinho de dança...? Tentei que o meu marido dançasse comigo. Respondeu: 'Não exageres...' Pé de chumbo. 


Depois perguntei-lhe como se chamava aquilo. Estava com a palavra debaixo da língua. Ele disse em tom de pergunta, gozando: 'Moamba...?' Ri-me e disse: 'Não. Cachupa'. Uns passos à frente, ele quase se lembrou: 'Mizomba...?'. Aí lembrei-me: 'Kizomba'. 


Mais à frente, uma rapariga fazia um número que não consegui perceber o que era.

Logo a seguir um homem jovem, em tronco nu, estava estendido directamente sobre a calçada, no meio do largo. Tinha as mãos cruzadas sobre o peito. Junto a si, os seus sapatos. Tinha-se descalçado para dormir.

[Mostro-o em ponto pequeno e desfocado, por razões óbvias]

As pessoas passavam em volta e olhavam, mas seguiam. Parámos a tentar perceber que cena era aquela da rapariga que tinha em volta muita gente, certamente todos igualmente intrigados. Como aquilo não desenvolvia, seguimos. Reparámos, então, que um casal tinha levantado as costas do outro do chão e, com esforço, tentava mantê-lo sentado. O homem, estremunhadíssimo, mal conseguia abrir os olhos, enquanto os outros se esforçavam por acordá-lo. O meu marido disse: 'Coitado. Estava ele ali tão bem, a dormir tão sossegado, e vêm estes interromper-lhe o sono'


De resto, jantámos um belo jantarinho que culminou com um salame de alfarroba que sabia também a aguardente de medronho. Bem bom. O restaurante, tal como todos os outros em volta, completamente cheio. Mas o peixinho impec como sempre ae o serviço igualmente bom. Portanto, so far so good.


Quando saímos e fomos dar uma voltinha, o senhor do acordeão tocava enquanto uma senhora dançava à sua frente. O sorriso do senhor era rasgado e a animação da senhora também. No fim da canção fizeram uma festa e o senhor, tendo-lhe perguntado de onde era ela e tendo-lhe ela respondido que british, disse, todo sedutor, wait. one special for you, wait. Todo ele resplandecia de felicidade. Ela esperou e ele tocou uma música romântica para ela. Pensei que ele iria tocar uma canção inglesa.Mas não: italiana. Ela fez um gesto de que estava a amar e, de novo, dançou só para ele.


Resumindo: tá-se bem. E agora vou ler um pouco porque aqui a alvorada é cedo. O meu marido não consegue ficar na cama quieto. Habituado a madrugar, é incapaz de acordar e ficar sossegado. Podia pôr-se a ler ou até, simplesmente, de olhos fechados ou, mesmo, de olhos abertos a olhar para o tecto. Mas não: levanta-se, toma banho, circula e, claro, acorda-me.

Já contei que o pequeno-almoço aqui é mesmo bom? Até tem papas de aveia, coisa que nunca tinha apanhado noutro hotel. E eu que gosto tanto de papas de aveia. O que vale são os quilómetros que faço durante o dia, senão ia daqui uma baleia.

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E, antes de me despedir,  respondo, aqui mesmo, aos comentários:

  • Descanso, sim, hoje até dormi a sesta. E não dou descanso, não senhora, à máquina fotográfica, não consigo, mesmo que quisesse, é mais forte que eu. Por isso, descanse vizinha Marieta, que aqui vou dando conta do que vou reportando. 
  • É como com o blog. Poder eu podia passar sem escrever, Bea,... mas não seria a mesma coisa. Habituei-me a isto, ir registando aqui o que vou vivendo, e parece que o dia não acaba se eu não vier aqui escrever estas insignificâncias. 
  • E sim, Chevy, as nossas crianças, que são presente e futuro, transportam a promessa de um mundo melhor. Tomara que assim seja, não é? E é avô? A sério? Fazia-o um adulto a modos que rebelde, muito longe disso de ser um avôzinho com netinhos... E também se baba todo com as gracinhas deles...? Conte-me tudo. 
  • E senhora JV, perdoe-me lá aquilo do El Greco, aquele pintador de gente mal encarada, um dia vou vê-lo com outros olhos para ver se também passo a engraçar com ele. E está a ler o mesmo livro? Boa. Les beaux esprits tralala-tralala. E olhe, já agora, deixe-me que lhe diga que não a fazia tão gira (vi no convite do LinkedIn). Faz-me lembrar uma prima minha quando era da sua idade. Toda bonitona, senhora dona JV!
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Um dia feliz para todos. 
Até mais logo.

domingo, agosto 26, 2018

Estas não são minhas, estas foram feitas pelo meu marido


Enquanto eu estava a ler o Aquiles do Fuentes (ontem esqueci-me de o referir), ele esteve a experimentar a máquina nova. Enfim, já tão não nova quanto isso mas ele ainda não a tinha experimentado.

Esteve também a fotografar-me mas essas não mostro, não pactuo com paparazzis. 

Bem, pode ser que uma ou outra ainda mostre. Logo vejo. Agora vou vestir a minha espécie de macaco, not so monkey as you may think, mas muito fashion e decotado e arrojado, e vamos jantar. 

Quanto regressar, logo penso bem, agora não consigo pensar porque estou a ser pressionada para me despachar com isto. Deixo-vos, pois, com estas.






Até já e bom apetite também para vocês

A sul





Acordei e, mal abri os olhos, saltei da cama e fui ter com o meu marido que já tinha feito a sua caminhada matinal, já tinha feito certamente muito mais coisas e estava a instalar-se na sala.


Na véspera tinha estado de roda de mim: Quando é que te apetece falar do que vamos fazer nas férias? E eu: Qual a pressa? E ele: A pressa é que estamos a entrar nas férias e ainda não se conseguiu perceber o que queres fazer. E eu: Faço o que tu quiseres. Decide tu. E ele: Havia de ser bonito. Tudo o que eu escolhesse tu não haverias de querer. E eu: Tenta. E ele: O que eu gostava era que tu quisesses falar sobre o assunto. E eu: Pois. Mas não é agora.

Mas este sábado, levantei-me, liguei o computador e perguntei-lhe: Mas então queres já ir hoje? E ele: Eu, por mim... E eu: Vou ver o que há.

Pareceu-me que havia em qualquer dos dois para onde costumamos ir. Perguntei-lhe qual preferia. Preferia o mesmo que eu senão lá teria que tentar demovê-lo. Assim não deu luta. Perguntei: Hoje? E ele: Acho que sim.


E assim foi. Em menos de nada fizemos a mala. Mas primeiro ainda quis que lhe cortasse o cabelo. Usa-o praticamente rapado e é assim que gosto de vê-lo.

Parámos, a caminho, para comer uns petiscos de asian street food e depois foi de seguidinha. Eu a ler e ele de chauffeur que é assim que eu gosto. Se há homem a bordo não hei-de ser eu a conduzir. Sou feminista a sério, que é lá isso.


E, portanto, acabei o Fabián e o Caos do Pedo Juan Gutiérrez e o que tenho a dizer é que é um grande livro. Já aqui o disse que, ao princípio, fiquei a olhá-lo de lado. Aquela forma de sincopar a escrita não estava a cair-me no goto. Frase curta demais. Parecia futilidade. Mas ultrapassei o engulho e a verdade é que, mais à frente, a coisa entrou nos eixos, começou a fluir com aquela espessura visceral que lhe é tão característica.

E, mais para o fim, a coisa adensa-se, tudo é muito intenso, aliás, sempre tudo é muito intenso, e tudo é muito verdadeiro, muito emotivo, muito cru.  Livro muito bom. Quando acabei tive pena que tivesse acabado. Não acabou entre risos. Acabou como era quase inevitável. Fabián, da maneira que era, não tinha lugar na sociedade cubana. 


Fiquei com pena que tivesse acabado porque já sei que vou ter que esperar uns anos para que apareça um outro. E não há muitos escritores que eu acorra logo a comprar mal sai livro novo. Assim de repente há dois: o Pedro Juan Gutiérrez e o Paolo Cognetii. Ambos têm blogs e ambos estão aqui na minha galeria lateral. Pode ser que aconteça isso com mais algum mas não estou a lembrar-me.

E, então, chegámos e, passado pouco tempo, já estávamos na praia. Sempre aquela luz clara, aquela amplitude de horizontes, as palavras de Sophia vagueando sobre as águas, percorrendo os caminhos de areia.

É bom respirar o ar e contemplar o mar a sul.


Mas a água fria, fria. A minha filha tinha dito que estava de dar gosto, boa, boa. Mas que nada. Já deve ter soprado algum anticlicone vindo do atlântico, afastando as correntes mediterrânicas. Mas que sei eu disso. Estava fria e pronto. Tentei. O meu marido aventurou-se, mergulhou. Mas eu não. Não deu. Fui andando, água adentro, fui andando devagar. Mas, quando estava quase a ganhar coragem, o frio atou-me as pernas e arrepiei caminho.

Mas ficámos por lá até já bem tarde, o sol muito brando, muito dourado, a temperatura macia, as gaivotas descendo sobre o areal.

Fotografei muito, a luz estava bonita e eu estava tão tranquila. Tão bom.


À noite, depois de jantar, andámos a passear e já vi um chapéu muito lindo, com uns bordadinhos, umas florzinhas. Chamou logo por mim, tentador. Noutra encarnação eu fui uma mulher muito sedutora que usava os chapéus como arma de sedução. Ou isso ou outra coisa qualquer; mas lá que o chapéu é lindo, lá isso é. Não comprei porque achei caro. Pode ser que nas barraquinhas encontre algum do género e mais em conta. Sapatos e chapéus. Perco-me. E soutiens. Tenho-os de todas as cores. Mas não tenho azul claro e, como me visto muito nesse tom, tenho que usar soutien branco. Já fui espreitar ali à loja de lingerie e vi um bonito todo em renda. Mas a renda é ingrata quando o tecido da blusa é muito fininho, fica a perceber-se como que uma rugosidade por baixo. Prefiro em liso na zona mais proeminente e renda nas zonas mais oblíquas. Mas, enfim, não vim de férias para andar às compras. Vim para desligar de tudo o que é hábito da cidade.


Agora tenho aqui ao meu lado para ler o Palomar de Italo Calvino, os Contos de Petersburgo de Nikolai Gogol, o Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel e o 3º volume de Entrevistas da Paris Review porque, à última hora, quando estava a escolher os que queria trazer, lembrei-me que me parece que ainda me faltam alguns dos escritores deste livro.

Tirando isso, espero que esteja tudo bem convosco. Vou dando notícias e espero que elas vos encontrem de boa saúde e com boa disposição. Agora fico-me por aqui. Vou adormecer enquanto, lá fora, as gaivotas dançam e cantam. Bem as ouço, felizes da vida, livres, livres.


Enjoy