Nunca tinha ouvido falar em tal pessoa. Afinal parece que, mais uma vez, é problema meu. Jeremy Allen White é, afinal, conhecido, afamado, premiado, parece que excelente e multifacetado actor.
E eu, que vivo aqui como uma eremita social, afastada de redes socias, longe dos ecos da fama alheia, desconhecia a existência da figura.
32 anos, 1,70 m, casado, com dois filhos, divorciado, parece que vive agora com outra afamada figura do panorama artístico, Rosalia.
Como sou a tal que torce o nariz aos maiores pitéus, olho para ele -- e olho pois nunca o vi actuar, não posso avaliar a arte -- e não o acho nada de especial. Não me parece muito bonito. A mim não me convencia ele.
E, no entanto, parece que é, para meio mundo, se calhar até para três quartos de mundo, um sex symbol. Tento aguçar a vista, olhar para ele sob essa lente. Pois nem assim. Não que seja feio, não que seja desagradável, capaz até de ter uma certa pinta, tem um ar um bocado desmanchado que me agrada. Mas falta ali qualquer coisa. Não sei. Há ali qualquer coisa que não está no sítio.
E não é a tal questão do umbigo que parece que anda a intrigar toda a gente. Provavelmente a mãe fez-lhe a ele o mesmo que a minha me fez a mim: apertou-o bem, enfaixou-o, de modo a que o dito cicatrizasse 'bem fechadinho'. Não é pois a isso que me refiro, acho que é mais a ligação entre o nariz e a boca. Não sei. Ou as sobrancelhas, descaídas ou lá o que é, não sei. Ou, vendo com atenção, parece que há ali qualquer coisa que se destaca pela proeminência. Não sei.
Mas o tema do umbigo não me interessa nem é por ser secundário. É mais porque, vendo bem, há coisas nele para que a gente pode olhar. Ora, havendo-as, porque perder tempo a olhar para o que mal se vê.
Sobre o dia de hoje muito haveria a dizer mas, hélas, noblesse oblige, não posso. Portanto, tendo estado fora do circuito e desconhecendo o que por aí vai, para ter tema de escrita fico limitada a contemplar o meu próprio umbigo.
Melhor: não o dito cujo [que, por sinal, é 'muito bem feitinho', o orgulho da minha mãe que se gaba de me ter trazido bem apertadinha durante um mês, até que não ficou vestígio de nada à vista, tudo recolhidinho] mas outro tipo de umbigo. Claro que nunca perguntei à minha mãe se o aperto não me terá causado cólicas porque o que lá vai, lá vai. Tentei que os umbigos dos meus filhos também ficassem perfeitinhos, e ficaram, mas nunca apertei muito, assumindo cá para mim que, se eles viessem a protestar, lhes diria que tinha sido para seu bem. Felizmente, saíram bem e, portanto, não tive que usar aquele argumento sobre o qual, de resto, não estaria muito convicta pois não sei bem o que é isso de ser para o bem de cada um. Na volta, um mês de cólicas vale bem o ter, para o resto da vida, um umbigo perfeitinho. Sei lá.
Mas, portanto, o que tenho a dizer não tem nada a ver com umbigos propriamente ditos.
Tem a ver, isso sim, com as estatísticas do blog. Mais do que quantas visualizações ou a partir de que países me visitam, gosto de ver as coisas que alguns Leitores escreveram nos motores de busca que fez com que viessem direccionadas para cá. Hoje, uma das expressões foi esta: 'fantasias de uma mulher casada'. Fiquei admirada: porque é que a google -- ou seja o que for -- manda para aqui toda a gente que não sabe fantasiar sozinha?
Sexo com dois ou mais homens é daqueles clássicos que mimetiza um outro clássico: um homem a fantasiar ter duas ou mais mulheres de roda de si.
Contudo, nisto como para tudo nesta vida, para que as coisas produzam o efeito desejado, é preciso ciência. Ciência, imaginação and a touch of je ne sais quoi. Apenas improviso é bom às vezes, por acaso. Mas, se dá para o torto, é para esquecer.
A ménage, seja de duas para um ou de dois para uma é daquelas que, só por si, pode ser uma valente carga de trabalhos ou, ainda pior, um tédio.
Ou vem numa decorrência -- uma coisa que vai evoluindo, que começa por não ser nada para, aos bocadinhos, começar a desenhar-se qualquer coisa, uma coisa envolvente em que não são dois homens a servir uma mulher mas, antes, três pessoas que se desejam e que passam das intenções aos actos, tacteando, ousando, arriscando -- ou não vale um caracol furado, só serve para deixar todos desconfortáveis. Digo eu, claro.
É como aquilo do swing. Ir para um clube para experimentar um elemento de um outro casal é também daquelas que, em meu entender, só funciona com gente pouco exigente. Pode ser que, em idades pouco sofisticadas em que tudo o que vem à rede é peixe, a coisa possa parecer que funciona. Mas é treta. Fancaria. Claro que haverá quem garanta que poderá funcionar e ser um booster na boa disposição dos envolvidos mas, tenho para mim que, se não for bem gerido, pode é virar um belo pesadelo.
A ser, tem que ser na base do afecto entre todos, um afecto tão verdadeiro que resista ao experimentalismo, à desconfiança, às comparações. Também digo eu de que, claro.
Mas estou em crer que, se calhar, as fantasias de uma mulher casada são, na maioria, de uma outra natureza.
Mas são coisas de natureza muito inconfessável, daquelas de que mais vale nem falar, que, se calhar, até é bom que não se materializem não vá dar-se o caso de se transformarem numa xaropada sem pingo de graça ou de sofisticação.
É que, também tenho para mim, coisas destas, para terem graça, devem vir envolvidas num mínimo de sofisticação. Deve haver romance, rêverie, bons modos (para além de uma boa pegada), demorada preparação e boa e cuidada execução -- deixando vontade de repetir (para aperfeiçoar).
Poderia aqui dar alguns exemplos mas receio que, por falta de talento (e de liberdade de expressão), ao transformar fantasias gostosas e privadas num conjunto de palavras normais, as calientes fantasias virem uma pornochanchada. E isso é que não, caraças.
E estou a escrever isto e a pensar que os meus filhos lêem as macacadas que para aqui escrevo. Às tantas, a esta hora, estão preocupados. Daqui vai, para eles, o meu disclaimer: descansem que a mãezinha não é dada a aventuras, a ménages, a swings, a órgias, muito menos a coisas ainda mais ponteagudas ou cabeludas. Zero. A mãezinha o que tem é uma imaginação desbragada na ponta dos dedos. Ofereçam-lhe um título que a mãezinha logo escreve uma redação. E é isto que a mãezinha acabou de escrever: uma redação que saiu assim mas que poderia ter saído assado.
Nada a fazer, já sabem. A mãezinha é um caso perdido.
A primeira, a segunda, a terceira e a sexta fotografias são de Mario Testino que os sabe escolher a dedo. A segundo mostra os fotógrafos Mert Alas & Marcus Piggott, ao que parece com Miley Cyrus. A quinta mostra Jeanne Moreau no filme Jules et Jim. E a última, obviamente é de Robert Mapplethorpe
Nem de escárnio e maldizer, muito menos de amigo. Quanto muito de amor. Ou nem isso que não sei o significado de nenhuma palavra. Como se uma estranha incompreensão me tivesse tocado e eu nada soubesse. Múltiplos sentidos e nenhum.
Ouço um canto longínquo:
Ai Deus! pois me a fizeste mais que a mim amar,
mostrai-ma, onde possa com ela falar,
senão dai-me a morte.
Ouço, ouço. Mas não sei o que quer quem assim se lamenta. Não sei qual das vozes assim me fala. Tantos nomes e nenhum. Só sei que não deixo que Deus me mostre àquele que na noite me chama, àquele que comigo não pode falar.
Escondo-me onde a sua voz não me alcance, fecho os olhos para que nenhuma luz me chame. Fecho-me para que nenhuma palavra tente acender o meu desejo.
Mas ouço o longínquo murmúrio:
E se vos nom vir, que farei?
Pensando em vós, eu morrerei
de amor, de amor, de amor, de amor,
por vós, senhora, de amor
Detenho-me. Suspendo a respiração.
Não morras, não morras, não morras por mim. Pensa em mim, nunca te esqueças de mim, chama por mim. Mantem-te vivo. Por mim.
Sei bem que, mesmo que o teu coração deixe de por mim bater, ainda a tua memória se agitará para chamar aquela que não conheces, de quem não sabes o nome, a quem nunca viste o olhar. Mas quero-te vivo para além dos minutos em que a tua mente e os fiapos do teu espírito se agitariam querendo dizer o meu nome. De ti quero mais do que o silêncio. De ti não sei o que quero.
Fecho os olhos, em silêncio chamo também por ti. Mas não sei por que nome te chame. Chamo por todos. Mas nenhum deles é o teu.
Não sei se existes. Também não sei se existo.
Não me verás. Isso não. Não saberás o desenho dos meus lábios, a luz do meu olhar, não saberás a doçura das minhas mãos. Mas saberás que, as a shadow, passarei por ti.
Abaixo falei da matemática aplicada ao sexo e, quando se juntam duas coisas boas, já sabem o que é. Epifania ou apoteose? Ou, antes, o desmontar de mitos? Ou, simplesmente, a explicação para muita coisa? Talvez tudo isso. Os consultores falariam de uma situação virtuosa mas eu, que não sou dada a consultorias, apenas convido, quem ainda não conhece, que vá até lá de visita que talvez goste. Digo eu.
Mas isso é a seguir. Aqui, agora, vou de novo pela mão do meu grande amigo, o algoritmo da Google. Um dia destes ainda arranjo uma paixão verdadeiramente virtual. Mas então não é que este meu enigmático amigo põe à minha frente toda a espécie de agradinhos? Faz-me rir, faz-me pensar, intriga-me, provoca-me. E sem me pedir nada em troca. Eu é que sou boazinha e retribuo, divulgando aqui alguns dos presentinhos que ele, melifluamente, me vem deixar nas mãos.
Mas tem mais. Não sei que coisa tenho eu que faz que quem eu deixo que se aproxime mais de mim, às tantas, tenha vontade de me educar. É sempre. Ou isso ou proteger-me. Mesmo os meus colaboradores, volta e meia, se estou a apertar com eles, dizem que eu descanse, que não me preocupe, que eles resolvem tudo. Ainda ontem, a propósito de um problema que me foi colocado, um me disse, todo arreliado, que não percebia porque é que me tinham incomodado com aquilo, que ia saber porque é que não me tinham deixado em paz que ele resolvia a coisa sem eu ter que me preocupar. Enterneço-me. Posso nem sempre o demonstrar mas, a sério, que gosto. E que acho piada. Ainda me lembro de um grande amigo meu dizer que eu dou a ideia de parecer precisar de ser protegida mas que era um grande engano, que quem cai nessa, às tantas já está é sob a minha protecção.
Pois bem. Vem isto a propósito de todos os dias, nas estatísticas do blog, aparecerem como palavras de entrada cá o que as pessoas escrevem no google: 'Quem é a autora do blog Um Jeito Manso?'.
Já fiz vários posts a tentar responder a essa pergunta (por exemplo: aqui, aqui e aqui) mas, pelos vistos, as pessoas não se dão por satisfeitas. Ou são outras pessoas que ainda não leram o que antes já escrevi. E, estava eu a pensar nisto, quando vejo que o Youtube me sugeria o vídeo que abaixo partilho: 'Quem sou eu?'. Nem mais.
Já o vi e fiquei agradada. É mesmo isso. Mas deixo o vídeo para o fim e vou, uma vez mais, tentar satisfazer a curiosidade dos meus leitores. Se não se importam, vamos com música, com uma das minhas soul mates, Melody Gardot. O ano passado via-a numa noite estrelada no jardim do palácio Marquês de Pombal. Será que ela vem este ano a Lisboa?
Bem, adiante.
Gosto de ler salteadamente, gosto muito de ler diários ou entrevistas ou cartas ou apontamentos ou pensamentos à solta ou ensaios ou pequenos contos -- porque isso vai bem com o meu espírito desordeiro, de ler ao acaso. De vez em quando lá leio de cabo a raso mas, cada vez mais, isso é menos frequente.
Gosto de muitas coisas na internet, nomeadamente no youtube: vídeos com números de burlesco, com jazz, com coros religiosos, com pop, com blues, dança de toda a espécie, poesia, gente que não sabe arrumar o carro, perfumes, gente a bordar, escultura em movimento, o que calhar.
Divertem-me (e, no fundo, dão-me pena) as pessoas que elegeram um género ou um autor e dizem que é o melhor do mundo e que tudo o que há para além disso é coisa menor.
Maçam-me as pessoas monocórdicas que só se interessam por um ou dois assuntos e que, para além disso, parecem rodeadas por um estranho vazio.
Quando as pessoas estão a falar muito a sério de um assunto, especialmente se eu achar que a conversa está a entrar num estilo doutoral, e me parece que elas julgam estar perto de atingir o nirvana, se eu achar que são inteligentes, gosto de dizer ou fazer uma parvoíce qualquer para que percebam que isso do céu é muito relativo. Se achar que são burrinhas, poupo-as.
Gosto de ver toda a gente feliz à minha volta. Se vejo alguém tristonho, fico logo com vontade de levar essa pessoa pela mão até ao pé do mar para que sintam que há milhões de possibilidades de que tudo volte a ser bom. Ou gosto de saber o que se passa. Quando as pessoas falam no que as atormenta, no fim da conversa já estão mais aliviadas.
Gosto muito de ouvir dizer poesia. Muito. Gosto de ter prazer e ouvir dizer poesia é um dos muitos prazeres a que gosto de me sujeitar.
Gosto de ser surpreendida. Por exemplo, agora virei a televisão para a RTP 2 e estou a ver uma cena do além, nem sei bem o que é mas que estou surpreendida, lá isso estou. Uma mulher nua e outra armada em castigadora. Agora a beijarem-se na boca. Parece que houve um crime. Agora acabou. O que seria? Falavam português.
Nisto dos blogues também gosto de não saber o que vou ver. Gosto de visitar blogues que eu ache que por ali se escreve muito bem. Cansam-me os que falam elipticamente ou por meias palavras, como se fossem recados encriptados, como se os autores tivessem alguma na manga contra incertos. Acho que isso não acrescenta nada à felicidade de ninguém, são pura perda de tempo. Cansam-me, também, os que se repetem uns aos outros. Aliás, cansam-me as pessoas sem ideias próprias. Aquelas pessoas que, se a gente leva a conversa num sentido, já nos estão a dar razão mas que, se dermos um twist e levarmos, com assertividade, a coisa no rumo oposto, continuam convictamente a dar-nos razão -- dão-me pena. No fundo, involuntariamente desprezo-as. Marias-vão-com-as-outras, uma praga.
Gosto de aprender. Gosto de aprender coisas de que não sei nada. Há pessoas que se interessam por um assunto e estudam tudo, tudo, tudo o que há a saber sobre isso. Respeito-as. Até as admiro. Mas, sem querer, dão-me um bocado de pena. Dá ideia que se se fazem velhas sem conhecerem do mundo nem um bocadinho: afunilam num único tema e por esse tema morrem. Sou o oposto: gosto de saber pouco de quase tudo. Gosto do prazer infantil da descoberta e, de, guardando a afeição, ir em busca de novos tesouros. É como se, para mim, o mundo fosse uma imensa arca cheia de jóias raras, riquezas múltiplas, infinitas, infinitas. E eu a querer descobrir, só pelo prazer de descobrir. Não de possuir, não de saber a origem ou a história de cada uma. Apenas o prazer de descobrir.
Acho que sou, antes de mais, um animal. Um animal irrelevante, frágil. Tento não me esquecer de como vivem os animais: alimentam-se, reproduzem-se, vivem a sua vida, e, quanto muito, preocupam-se com a sua sobrevivência. De resto, é prazer e ir levando. Assim devo fazer eu: sem me achar importante, sabedora, imprescindível, ir vivendo tanto quanto possível na boa, tentando que, à minha volta, se esteja também bem.
Quando erro, corrijo, peço desculpa, tento de novo. O meu orgulho não se manifesta nisso. O meu orgulho manifesta-se noutras coisas. Já estou melhor, já não me importo tanto de dar o braço a torcer mas é verdade: tenho o meu pequeno lado de diva. E também é verdade que, se sinto que as minhas reacções não são indiferentes a alguém e se, por algum motivo, me sinto provocada, então, sim, sinto um prazer que não controlo (melhor: que não quero controlar) de fazer sofrer, um sofrimentozinho que quero que seja bobo, coisa pouca, mas que doa lá onde doem as incertezas. É verdade, gosto de tirar o tapete. Gosto. Às vezes, depois vou lá e dou a mão, digo a verdade, que era mesmo só for the fun of it. Outras não.
Também sou horrível a fechar portas pois, quando as fecho, estão fechadas para todo o sempre. E nunca mais me lembro, nunca, nunca mais -- porta fechada, fica fechada forever.
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E podia continuar por aqui a falar verdades, cada uma mais privada (e, mesmo, íntima) que as anteriores. Muitas são assim desde sempre. Outras foram ganhando corpo com a idade. Fui mudando ao longo do tempo, toda a gente muda. E isto são apenas vertentes de mim.
E, em vez de ter dito isto, poderia ter falado nas cores ou pedras preciosas que prefiro, ou poderia ter-me descrito fisicamente, ou poderia ter falado de autores preferidos, ou poderia ter falado da minha profissão, ou da minha família, ou do quanto gosto de cozinhar ou de fotografar ou de pintar ou de fazer tapetes de arraiolos. E tudo estaria certo.
Portanto, de facto, qual a minha definição? Quem sou eu?
Não sei dizer. Mais: acho que, quando chegasse ao fim, o que tivesse escrito estaria desactualizado. Eu seria, então, já outra.
Por isso, não me alongo mais. Passemos, então, ao vídeo. Lá, explica-se isto da impossível definição.
Who am I? A philosophical inquiry - Amy Adkins
Throughout the history of mankind, the subject of identity has sent poets to the blank page, philosophers to the agora and seekers to the oracles. These murky waters of abstract thinking are tricky to navigate, so it’s probably fitting that to demonstrate the complexity, the Greek historian Plutarch used the story of a ship. Amy Adkins illuminates Plutarch’s Ship of Theseus.
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Usei fotografias de Kate Moss (da autoria da dupla Mert and Marcus) porque a acho versátil e disponível para ser vista segundo os mais diversos ângulos e não é por acaso que os fotógrafos adoram fotografá-la.
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E agora, se ainda não viram como é que a Matemática se aplica ao Sexo, deixem que vos recomende a visita do post já a seguir.
(NB: Estou cheia de sono, não consigo reler o que escrevi nem garanto que o que saiu faça sentido; se encontrarem erros ou omissões, por favor relevem; ou melhor, se estiverem para isso, avisem-me, está bem? )
Depois dos blind dating, dos speed dating e, mais recentemente, do slow dating. eis que chega ao meu conhecimento uma nova moda: o shhh dating.
Leio e acho que tem pernas para andar.
Nunca me vi numa dessas, de me ir encontrar com algum desconhecido na perspectiva de ver se dá. Não sei se, caso estivesse sozinha e com vontade de me emparceirar, recorreria a estes meios. Tenho a impressão de que a coisa se haveria de proporcionar de uma forma mais natural. Contudo, não sei: as circunstâncias, tantas vezes, criam as situações. Não me choca a ideia de, querendo companhia e não a arranjando de outra forma, tentar através destas 'cenas'. Presumo que isto se combine através de sites. Para quem esteja habituado a isso, às tantas já não deve custar nada mas, para os novatos, imagino que seja um stress.
Tento ver-me num filme desses e imagino a ansiedade em que estaria ao ir na direcção do desconhecido. Eu que, para mim, o primeiro filtro tem a ver com o aspecto físico, haveria de estar aflita: e se ele é horroroso? e se é feio todos os dias? e se tem ar entre o bimbalhão e o gorduroso? (confesso: aqui ocorreu-me o Assis). Haveria de ir a ensaiar mentalmente o plano B, maneira de fugir a sete pés antes que o pobre coitado se apercebesse que estava a fugir dele.
Mas, enfim, supondo que até não era assustador ou completamente desagradável e que eu me aproximava: de que se iria conversar?
Enfim, se já antes tivéssemos falado através do site, talvez a conversa decorresse com alguma fluidez mas, se nunca antes tivesse havido qualquer contacto, de que se iria conversar? Apresentarmo-nos um ao outro como naqueles almoços em conferências em que ficamos com gente desconhecida e em que há sempre um despachado que resolve fazer a despesa e apresentar-se, sugerindo que todos façam o mesmo? Que falta de naturalidade, credo... E se o sujeito se saía com um quaisqueres, hádem, faria-se ou coisa do género? Fazia o quê? Levantava-me sem dar explicações? Despejava-lhe o copo de água na cabeça? Dizia que tinha que me ir embora, que tinha outro compromisso?
Portanto, este novo conceito de uma pessoa conhecer várias pessoas através de um casting apenas de olhar, colocando-se um junto do outro em silêncio, apenas trocando olhares, talvez sorrisos, ao longo de noventa segundos, parece-me ajuizado. Depois, anotam o nome daquele cujo olhar cativou e, então, sim, podem voltar ao contacto e passar às palavras. Agora se, ao primeiro contacto visual a coisa não funcionar, o encontro morre logo ali.
De resto, confirmo o poder do olhar por parte de quem nos agrada. Se não agrada, um olhar insistente é desagradável, é uma melguice, uma afronta, uma invasão de privacidade. Agora se fisicamente a coisa agrada, um olhar bem aplicado é um acto de sedução, especialmente se conseguir transportar aquela irresistível mistura de devoção e insolência.
Acho que já uma vez aqui o contei: há cerca de vinte anos, um psicólogo, o Dr. Arthur Aron, fez uma experiência: punha duas pessoas frente a frente com a indicação que deveriam estabelecer contacto visual enquanto respondiam a 36 perguntas, perguntas estas que eram progressivamente mais pessoais. A seguir deveriam ficar a olhar-se durante quatro minutos. Pois bem: tiro e queda.
Presumo que só resulte para quem, à partida, perceba ter a tal química. Se me puser em frente do Assis ou do Abreu Amorim ou do Diogo Feio ou do Passos Coelho ou da Teresa Leal Coelho - e isto só para referir alguns - acho que nem pintados. Aliás, acho que abalava a correr completamente espavorida e nunca mais parava com medo que alguém me obrigasse a repetir a experiência.
Como apaixonar-se por um desconhecido - ou isso ou como aumentar a intimidade com quem já se conhece
TED Sydney
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A música é It's oh so quiet numa interpretação de Björk. As fotografias que usei para vos distrair do texto mostram Candice Swanepoel pela lente de Mert e Marcus e não têm a ver com a experiência em si mas, talvez, com o que se lhe segue.
Nunca sofri nenhum desgosto de amor mas não gosto de o dizer. Há coisas que apenas devem ser faladas depois de uma pessoa ter oitenta ou noventa anos. Nessa altura podem ouvir-se confissões de um certo tipo com alguma ternura ou admiração. Antes disso, corre uma pessoa o risco de ser tomada por convencida ou mentirosa.
Hoje, ao ver um vídeo, o que abaixo vos mostrarei, pensei nisto: já assisti de perto a tantos fins de relacionamentos, às crises que precedem os finais que, tantas vezes, já se antevêem como inevitáveis, às dores de quem ama e se sente rejeitado, à frustração de quem sente que vive uma relação sem chama, em permanente apatia ou contagem decrescente. Mas eu nunca passei por isso. Talvez um dia o sinta (e já apaguei várias vezes o fim desta frase porque sobre as razões que poderão levar-me um dia a sentir isso eu não quero pensar).
Desde que me conheço que tive paixões e que fui objecto de paixões. Eram paixões infantis, as primeiras.
O Pipas que saía da mesa dele para se vir pôr de joelhos agarrado às minhas pernas, aos beijinhos nos meus joelhos, todo escondido para a educadora não o ver. E o Tó, de que eu tanto gostava e que tanto gostava de mim, e que eu, sedutora avant la lettre, gostava de fazer sofrer causando-lhe ciúmes com outros. Ou o Carlinhos, filho de uma colega da minha mãe, que fazia toda a espécie de maluquices para chamar a minha atenção e que eu estimulava, mostrando a minha admiração. Depois, aos 12 anos, o primeiro grande amor, o JP do meu coração. Um amor imenso, à rédea solta, ele um rebelde e, quanto mais rebelde, mais eu apaixonada. Os nossos corpos cresceram um com o outro. Descobria no meu corpo o efeito que o corpo dele provocava em mim. E eu nele. Ambos surpreendidos, tão meninos, tão apaixonados. Não falo de pequenas paixonetas que outros diziam sentir por mim, não falo dos bilhetinhos de amor que recebia, presentinhos inocentes. Eram-me indiferentes. Quebra-corações, dizia de mim a Menina Alzira, contínua no Liceu. E vinha dizer-me: o Raul, anda caído por ti e não tem comparação com o maluco do JP. Onde tens tu a cabeça, rapariga? O Raul era mais velho que eu, moreno, olhos verdes cor de mar, alto, lindo. Mas faltava-lhe qualquer coisa, faltava-lhe entregar-se de corpo e alma -- que eu sou assim, tenho que sentir que, sem mim, a vida de quem me ama perde o sentido. Quando jogava futebol o JP rebentava-se todo, ficava esfolado, andava à pancada com os adversários, ficava quase roxo de tão encarnado, a blusa encharcada colada ao corpo, o cabelo escorrendo, todo ele sujo. Quando marcava golo, procurava-me logo com os olhos e eu, nas bancadas ou no terra ao lado do campo, delirante de alegria como se ele tivesse ganho o Nobel. E, no fim, vinha ter comigo, contente, e eu derretia-me por ver que ele tinha feito tudo aquilo para, no fim, ver o meu amor por ele. Fazia tantas coisas loucas, tantas; volta e meia era ameaçado de expulsão do liceu, outras vezes ia passar noites na esquadra e isso tornava-o, aos meus olhos, o meu grande herói, e, depois, vinha ter comigo e era meigo, tinha uns lábios muito quentes, umas mãos macias e ternas. E era muito inteligente, um aluno brilhante -- um provocador de quem quase todos os professores gostavam muito mas que uns dois ou três odiavam.
Mas depois veio o poeta trovador, desestabilizou tudo. Ao contrário dos que escondiam as suas paixonetas porque sabiam que o meu coração tinha dono, este exibia a sua paixão, desafiava o JP, desafiava-me a mim. Foram tempos conturbados. Zangas devastadoras e reconciliações arrebatadas. Todos os dias. Um fogo que não se extinguia.
Mais tarde, zanguei-me com o JP e talvez aí, sim, tenha sofrido qualquer coisa. Mas não era desgosto, era raiva, raiva por ele ter ciúmes, raiva por não me vir implorar que o desculpasse por ser tão parvo, vontade de me vingar, e havia uma máxima a matraquear na minha cabeça: 'rei morto, rei posto', ou 'se é para ter a fama, vou mas é ter o proveito'. E, portanto, contrariada, comecei a namorar o trovador. Nessa altura, talvez tenha voltado a sentir um pouco de mal de amor mas era às escondidas. Via o descaminho que estava a levar a vida do JP e sofria por isso, queria impedi-lo mas o orgulho não mo permitia, queria que ele me puxasse para os seus braços e me beijasse e, em vez de lhe dizer isso, continuava a namorar com o poeta. Acabei por me desligar do JP, a vida separou-nos. Afeiçoei-me ao trovador, ele gostava tanto de mim que eu, sentindo-me tão amada, acabei por confundir o gostar de ser amada com amar.
Mas, por essa altura, já na faculdade, eu gostava de me sentir olhada, desejada. No verão, levemente bronzeada, gostava de vestir um vestido decotado branco e sentir os olhares em mim. E um certo vestido verde, de seda, curto, colado ao corpo. Ou jeans justinhos, blusas justinhas, o cabelo ondulando nas costas. Despertava paixões, sim, e gostava de fingir que as ignorava. E gostava de sentir que aqueles a quem eu atraía sentiam ciúmes uns dos outros e gostava de lhes mostrar que eu não estava nem aí. Enquanto isso, o meu namorado sentia uma paixão cega por mim, idolatrava-me, eu era a sua musa - e nunca percebeu que, mais que sua namorada de corpo e alma, eu era sobretudo a sua allumeuse, era aquela que o inspirava mas, de facto, com o coração inacessível.
Até que surgiu o outro. E aí foi o coup de foudre absoluto de quem já muitas vezes aqui falei. Conto isto porque este outro é o meu marido, ele sabe bem o que se passou. E os meus filhos também sabem.
Acabei por me decidir por ele, causando um brutal desgosto de amor ao trovador, desgosto que durou anos e que se manifestava publicamente. E, que não se pense que sou insensível, porque, claro, que também me custou causar esse sofrimento tão profundo. Mas as pessoas são como são e as circunstâncias também ajudam.
O texto vai longo pelo que acabo já.
Mas quero, antes, ainda dizer mais algumas coisas: não sou ciumenta e acho que isso é uma virtude nisto dos assuntos de amor. Quase toda a gente que vi em crises amorosas, é gente que padece de ciúmes ou vontade de controlar ou ser controlada. Nunca fui ciumenta, nunca controlei ninguém (da mesma forma que também nunca me armei em frágil, querendo que tomassem conta de mim - embora, por vezes, o seja e embora goste de colo, sempre que dele preciso). Tenho para mim que, nisto dos afectos, não quero disputar coisa alguma, muito menos o lugar no coração de alguém. Quem gostar de mim, será pelo que sou, tal qual sou - e não porque eu, a golpes seja do que for, afaste alguém do lugar ou me esforce por alcançá-lo. Não me faço passar por mais nova, por mais bonita, por mais inteligente, por mais culta, por mais simpática. Sou como sou. Se alguma vez tivesse sentido ou se vier a sentir que aquele que o meu coração ama já não gosta tanto de mim como eu quero ser amada, será, na hora: bye bye, há mais marés que marinheiros. Não quero sacrifícios, fretes, favores. E o pensar assim dá-me uma liberdade mental que me impede de ter ciúmes. Tenho também muito claro na minha cabeça que homem que valha a pena entregar-se a gente emocionalmente a ele tem que obedecer a alguns requisitos. Se os não tem, então o bye bye é logo à partida, nem vale a pena qualquer investimento emocional. Se, por exemplo, é vingativo, mesquinho, se faz contabilidade ao tostão sobre quem paga a conta, se é preconceituoso, fútil, armado em engraçado sem ter gracinha nenhuma, ou coisecas do género, então não vale a pena qualquer esforço. Também acho que não vale a pena uma pessoa afobar-se a procurar o outro. A vida, na sua imensa sabedoria, encarrega-se de colocar na nossa frente aquele que, como por magia, aparecerá para encher de amor a nossa vida. Virá com sorrisos, com as mãos cheia de amor, com abraços no olhar, com poemas ainda húmidos, acabados de colher, com irreverências sedutoras, com malícias nos silêncios, com a doçura que nos dobra o orgulho, com a tolerância que nos protegerá de nós próprios, com a teimosia que vencerá as nossas resistências. Só temos que estar disponíveis e deixar que a vida nos aconteça.
Não sei se esta é a receita para não se ter desgostos de amor mas, comigo, é isto que se passa.
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E este, aqui abaixo, foi o vídeo que me fez escrever este texto. A coreógrafa Talia Favia conta um rompimento amoroso através da dança, ao som de « Let It Go » interpretado por James Bay. Os bailarinos são Chaz Buzan e Courtney Schwartz.
Let it go - a breakup story
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As fotografias são de Mert and Marcus e as fotografadas, como é bom de ver, não têm nada a ver comigo (se eu fosse assim, era modelo como elas ou uma performer como a incomparável Madonna que figura na primeira fotografia).
A música lá em cima é I love the way you're breakin' my heart interpretada por Nicki Parrott.
Passa, e muito, das duas da manhã e agora é que aqui estou. Nem devia estar mas tenho isto de não querer deixar passar um dia sem vos deixar uma palavra minha (parece que me acho importante mas que hei-de eu fazer?, é uma mania ou um hábito, não sei, capaz de ser vício, sei lá). As sextas-feiras têm disto: ou por programas meus ou alheios, acabo por ter ocupações extra que dão nisto.
Tenho sono, muito, e não consigo ter ânimo para falar de sondagens, eleições, o que quer que seja. De resto nem sei se aconteceu alguma coisa de jeito neste nosso paísinho. Presumo que não.
Já fui saber se me tinha saído o euromilhões mas tive uma má notícia: saíu, sim senhor, mas foi para o Reino Unido. Bolas, o jeito que me dava.
Ao dar um rápido giro pela net, vi que os sexólogos afirmam que existe o ponto G dos homens, acho que se chama ponto P. Mas tão perdida de sono estou que agora, minutos depois de ter lido, já não encontro o artigo. Bolas. Mas, pronto, ao menos lembro-me que tem a ver com a estimulação prostática. Se estivesse acordada, isto dar-me-ia pano para mangas mas, a dormir como estou, só me ocorrem inconveniências. Por isso, deixa-me mas é ficar caladinha para não atentar contra a moral e os bons costumes.
Enquanto escrevo (e vocês, seus preguiçosos, todos a dormirem), estou a ver uma moça, na televisão, na SIC Mulher, com voz de betinha, toda habilidosa, a fazer quadros, caixas, individuais. Acho que o programa se chama O mundo de Sofia. Como gosto de fazer trabalhos manuais até me apetecia prestar-lhe atenção mas, se me ponho a aprender aquilo, ainda me passa o sono e eu quero ir daqui direitinha para a caminha.
Portanto, pedindo-vos desculpa por isto hoje não ter uma linha de rumo, deixo-vos com um poema que andava a ondular na minha cabeça.
Não sei que é isto comigo, em vez de me portar como uma avozinha, ando sempre toda por aqui dada aos amores, aos romantismos. De tarde, ou melhor: ao cair da noite, ao vir no carro com dois dos meus pimentinhas, vinha a ouvir a música habitual. Diz-me o mais velho, 'Ó Tá, põe lá outra coisa, não me apetece continuar com essas tuas músicas românticas'. Fartei-me de rir. Vinha a ouvir música sacra.
Há bocado, ao deitá-los, o mais novo foi chamar-me à sala dizendo que não conseguia dormir. Lá fui com ele até ao quarto. Disse o mais velho 'Ó Tá, é que ele não gosta do escuro e eu já não sei o que lhe hei-de dizer mais. Já lhe disse para fechar os olhos e pensar em azul, porque ele gosta tanto de azul. Mas ele não é capaz, diz que, quando fecha os olhos, só vê preto. Eu não, eu como gosto de verde, fecho os olhos, penso em verde e, pouco tempo depois, já tenho a cabeça cheia de verde'. Fiquei encantada com esta conversa. Não dei troco porque estava era a ver se adormeciam, que era tardíssimo e eles só na palheta mas esta, em condições normais, daria para mil devaneios, mil voos entre cores, flores, recortes de luz.
Bem. Não vos maço mais com esta minha converseta que não leva a lado nenhum. Deixo-vos, então, com o tal poema - aqui na versão inglesa - e dito pela voz mais cansada e poluída da história dos diseurs e que, por isso mesmo, é uma voz capaz de me levar por maus caminhos.
Soneto 17 (dos 100 Sonetos de Amor) - Pablo Neruda - dito por Tom O'Bedlam
I do not love you as if you were salt-rose
(No te amo como si fueras rosa de sal, topacio )
No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.
Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.
Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.
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Quanto ao mais: se a coligação de PàFs ganhar o País ficará de vez em cacos e eu acharei que mais valia era que os portugueses emigrassem todos de vez para ver se vinham para cá outros com mais tino, capazes de votar em quem os defenda.
Enfim.
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A fotografia lá em cima mostra a quarentona Kate Moss fotografada para a Vogue Paris pela dupla Mert Alas & Marcus Piggott
Não sei quem pintou aquelas cores tão bonitas do mural ali acima - mas é uma graça, não é?
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.
A ver se durmo até tarde para ver se mais logo consigo escrever alguma coisa que se aproveite -- o que, como é sabido, não é fácil para criaturas de miolo fraco como esta que aqui tendes perante vós.
Adiante.
Quanto ao mais: se a coligação de PàFs ganhar o País ficará de vez em cacos e eu acharei que mais valia era que os portugueses emigrassem todos de vez para ver se vinham para cá outros com mais tino, capazes de votar em quem os defenda.
Beatriz gostava de dizer coisas que não tinham muito a ver com o mundo que a cercava. Não sabia se era de dentro de si que vinham as coisas que dizia ou se vinham de um outro qualquer mundo. Mas falava com à vontade como se dissesse coisas normais apesar de, tantas vezes, ver alguma surpresa em quem a ouvia.
Mas, por isso, porque não gostava de ver surpresa em quem não a compreendia, evitava dizer essas coisas. Por isso, a maior parte das pessoas nem sonhava que havia essa outra que falava coisas vindas não se sabia de onde. Apenas quando sentia que, do outro lado, estava alguém que podia, de alguma forma, compreendê-la, dava largas às vozes que, de dentro dela, gostavam de falar com naturalidade de coisas estranhas.
Esta história passou-se há muitos anos. Beatriz escrevia num jornal.
Um dia, chegou ao jornal mais uma carta dirigida a Beatriz. Era frequente isso. Era alguém que dizia admirar a sua escrita. Beatriz não ligou muito, respondeu com delicadeza mas sem prestar muita atenção. Uns dias depois, nova carta. O certo é que, aos poucos, a aproximação aconteceu. Falavam de coisas estranhas e reconheceram-se como parecidos, tão idênticos os seus pontos de vista, os seus gostos culturais, as suas reacções, que dir-se-ia que eram iguais. Várias vezes ele disse que ela era borgiana. Ela contava sonhos, ideias à toa. E ele, depois de ela falar de cavalos que atravessavam a noite sem que nunca ninguém os conseguisse ver, falava-lhe dos tigres, e, se ela falava de outra coisa, ele enviava-lhe outros contos de Borges com rosas azuis, espelhos, labirintos. E conversavam, conversavam. E poesia. Muita. Beatriz lia-o com o prazer que advém das surpreendentes descobertas, das infindas surpreendentes descobertas. As ideias dele chegavam a Beatriz, muitas vezes, sob a forma de poemas.
Muitas vezes ele dizia que gostaria de a conhecer pessoalmente, mas ela nunca quis. Pressentia que a magia se quebraria. No entanto, um dia, sem querer, ela descobriu quem era o seu amigo, ficou a saber quem era a pessoa com quem se correspondia. Chamava-se Rui e era uma pessoa conhecida. A partir daí, as palavras que recebia por carta, passaram a ter um rosto.
Até que a vida começou a separá-los. Sentiram-se, então, cegos, perdidos um do outro.
Mas, quando isso aconteceu, Beatriz, que colaborava também numa galeria de arte, um dia conheceu lá um pintor. De imediato, sentiu qualquer coisa de indefinido, uma proximidade estranha, quase inquietante.
Um dia, estava ela a ver um cartaz, ele aproximou-se e pôs-se também a ver o cartaz. Depois, vendo uma frase que lá estava escrita, disse que aquilo lhe lembrava um poema de Florbela Espanca. E disse uma parte desse poema. Beatriz ficou muito admirada, era a última coisa que imaginaria, que aquele homem soubesse de cor um poema de Florbela Espanca. Riu.
Nesse dia, quando ia a sair da galeria, viu-o junto à saída e perguntou-lhe 'Só sabe poemas de Florbela Espanca ou sabe também de outros poetas?'. Ele, sem se admirar, quase como se estivesse à espera da pergunta, disse: 'Sei.'. Ela perguntou: 'Sim? De quem, por exemplo?'. Ele respondeu: 'Por exemplo de Jorge Luis Borges'. Ela nem queria acreditar 'A sério? Então diga lá um', esperando que ele dissesse que, assim de repente, não era capaz. Mas, estranhamente, sem hesitação, ele começou a dizer um poema. Beatriz ouviu sem querer acreditar. O poema falava de espelhos e ele dizia-o como uma toada. Depois, sorriu ao de leve, muito ao de leve. Beatriz quase não conseguia falar.
Depois disso, sempre que se encontravam, conversavam muito e Beatriz dava por si a pensar que o pintor parecia mesmo Rui, o seu ex-correspondente. Muitas vezes quase se assustava. Não soubesse ela quem era o Rui, e apostaria que ele e o pintor eram uma e a única pessoas.
Beatriz passou, então, a falar como antes escrevia a Rui. E o pintor, que se chamava André, respondia-lhe como antes Rui respondia, invocando Borges, invocando autores, trazendo referências históricas. Riam, conversavam, e, quando se distraía, Beatriz já falava com o mesmo à vontade com que, antes, escrevia a Rui. E André respondia muitas vezes usando as mesmas palavras, por vezes as mesmas exactas palavras, que Rui usava.
Beatriz pensava: Isto é um sonho. Isto é um jogo de espelhos. Um dia vou chegar e vou ter rosas azuis sobre a minha mesa de trabalho, uma dia vou subir galerias infinitas de uma biblioteca imensa onde ressoem as vozes deles dizendo poesia de Espanca, de Borges, vou entrar por um labirinto imenso e não vou saber quem sou eu, quem é um, quem é outro. Talvez veja a sombra negra de um tigre de olhos azuis a esgueirar-se entre espelhos, talvez me dilua em palavras, talvez voe levada por mil espíritos.
Beatriz passou a querer ouvir as palavras de André como antes queria ler as palavras de Rui. Aos poucos foram-se tornando inseparáveis.
Até que um dia aconteceu uma coisa ainda mais misteriosa que mudou completamente a compreensão que Beatriz tinha da vida.
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E, por falar em Borges:
Borges por él mismo - Borges y yo
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As fotografias de Kate Moss usadas para ilustrar a história são da autoria da dupla Mert Alas e Marcus Piggott
A Rêverie du soir Op.19 no.1 da autoria de Tchaikovsky é interpretada por Sviatoslav Richter
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.
De quantas histórias se faz a história de um homem?
De quantos louvores, de quantos abraços, de quantos passos em falso, de quantos amargos silêncios?
Por quantas vitórias, hesitações e medos tem que passar? Por quantas ilusões tem que se deixar levar, em quantos abismos tem que se perder?
A quanto orgulho tem que resistir, a quanta força tem que recorrer?
Quantas escadas tem que subir, quantas lutas tem que travar, quantos solitários degraus tem que descer?
Quantos livros terá que ler num sobressalto, por quantos momentos de perdição tem que passar, quantas perguntas tem que fazer?
Quantas lágrimas choradas em silêncio, quantas raivas sofridas em surdina, quantos risos não partilhados tem um homem que esconder?
De que vidas se faz a vida de um homem?
E se o seu olhar se fecha, sombrio, uma noite densa cobrindo o que um instante antes era sorriso e leveza, como se regressasse ao interior da sua memória, lá onde se guardam os demónios e os secretos tesouros? E se o seu corpo se mobiliza para dar a conhecer as suas recordações e as suas vontades e se as suas opiniões são expressas com ardor, como se uma chama contida a todo o momento pudesse explodir? E se a sua voz, depois, se modula para deixar espaço a um sorriso, a um inesperado poema? - o que dizer desse homem?
Quantas vidas cabem, afinal, na vida de um único homem?
A mulher olha com estranheza. Não conhece o homem. Quem é? De onde veio? Porque lhe parece tão familiar? Recua no tempo, talvez muitos anos antes, talvez numa outra vida. Recua. Talvez uma sombra deixada num espelho, talvez uma fotografia esquecida num livro. Talvez um sonho.
Enquanto ele fala, a mulher percorre o infinito labirinto da memória, da imaginação, reconstrói outros rostos onde pudesse ter encontrado aquele olhar. Depois olha as suas mãos, tenta perceber se já antes viu aquelas mãos. Já as terá, alguma vez, tocado? E escuta: conhece aquela voz? Já a ouviu, antes, contar segredos, rir, chorar, tocar as nuvens, arder em silêncio?
Mas não sabe. Sabe apenas que conhece aquele homem.
De que misteriosas sombras é feito o corpo de um homem?
Divaga, pensa que um dia, talvez num outro tempo, esteve sentada junto a este homem, sob árvores muito antigas, olhando o mesmo lago, olhando a superfície espelhada das águas. Tem vontade de lhe perguntar: Lembra-se? Lembra-se que ambos vimos aquele estranho pássaro cruzando o espaço, o seu reflexo numa outra cor, lembra-se que o canto saía do pássaro reflectido na água, não do que cruzava o ar? Lembra-se que a nós isso não causava estranheza porque sabíamos que muitas coisas vêem aqueles cujo olhar já se tocou em muitas outras vidas?
Enquanto o homem fala, pensa que talvez ele lhe respondesse: Lembro-me. E eu a si ouvia-a falar de tigres atravessando os muros, de palavras que voavam dos espelhos como pássaros infinitos, de livros transparentes, inventados. E, enquanto falava, nasciam rosas azuis aos seus pés e depois eu pegava em si e mergulhávamos os dois nas águas brancas, mornas, e eu ouvia-a dizer que os rios são de leite e que, ao pôr de sol, o leite se transformaria em mel. E, então, esperávamos que o sol se pusesse e ambos, dourados, olharíamos as palavras e os pássaros voando sobre o mel, e o céu seria um imenso espelho e as nossas vidas seriam muitas, infinitas, cruzando os tempos.
De quantos sonhos se faz a vida de um homem?
Quantos labirintos têm que ser percorridos até que um homem encontre o seu destino?
Quantos passos tem um homem que dar até que, por fim, encontre o lugar mágico que sinta ser o seu?
Quantas vidas, afinal, tem um homem que viver até que consiga viver a sua própria vida?
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Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
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Kate Moss foi fotografada pela dupla Mert Alas & Marcus Piggott
Nina Simone interpreta Human Touch
O poema é Ausencia de Jorge Luis Borges
O último vídeo tem Two English Poems de Jorge Luis Borges (lidos por Tom O'Bedlam)
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E, se me permitem, desçam, por favor, até ao post seguinte: o Cavaleiro Vhils espera por vós.