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quinta-feira, agosto 26, 2021

A alternativa é ficar com os pés no ar

 



Tenho uma confissão a fazer. 

O sofá que tínhamos na sala da televisão, in heaven, era antigo e já afundava. Eu virava as almofadas do assento para ver a sensação de afundanço diminuía mas a idade não perdoa em todas as raças e géneros, incluindo sofás. Portanto, resolvemos trocá-lo. 

Tratámos disso num dia em que andávamos a ver se encontrávamos uma mesa que estendesse até mais de três metros de comprido. Mas as poucas que faziam a proeza, partindo de um tamanho discreto, eram mal jeitosas. Por isso, quando fomos em demanda do sofá já o meu marido tinha esgotado a paciência. Qualquer um lhe parecia bem desde que se livrasse daquilo. Fico aborrecida pois não há vez em que a gente tenha que tomar uma decisão relevante que ele não esteja já numa impaciência que não consegue controlar.

Às tantas, vimos um que era da cor, do material e com o tamanho e tipo desejável: lavável, clarinho, largo e com dois assentos com sistema de relax. Ou seja, cabendo três pessoas à vontade, quando estamos aqui os dois, cada um pode rebater o seu lugar como quiser que amigo não empata amigo. O meu marido disse: é isto, está resolvido. E eu sentei-me nele para experimentar. A senhora fez a demonstração e achei o máximo. Pedi que ele testasse. Recusou-se. Disse-lhe: mas vamos comprar um sofá sem veres se achas confortável? Ele disse que não precisava de testar, que com certeza que era bom, que servia. Fiquei chateada. Entretanto, no meio da contrariedade, reparei que, quando em posição normal, eu não chegava com os pés ao chão. Disse-lhe isso. Não ligou patavina. Acho que disse que se arranjava um banco para eu pôr os pés. A empregada disse que não era preciso banco pois o sofá levanta a parte de baixo. Tentei perceber como me adaptaria mas o meu marido já queria tratar da encomenda, pagar o sinal, raspar-se dali para fora. O costume. 

O sofá já cá está. Se me encosto atrás não chego com os pés ao chão. O meu marido desata-se a rir. 
No outro dia, um conhecido nosso, ao almoço, falou do dono de uma empresa que conhecemos, uma empresa que tem dois nomes. Não vou dizer o nome tal e qual mas imaginem que é Rocha & Bela. Contava ele que Rocha era o nome do dono. E acrescentou que o Rocha casou com uma mulher muito baixa, dizia que era pouco mais que uma anã. O meu marido disse: 'A Bela'. O nosso interlocutor confirmou: 'A Bela'. 
Pois bem. Agora, ao ver-me com os pés no ar, o meu marido diz que não tem culpa que eu seja do tamanho da Bela.

Se o reclino fico óptima, o sofá transforma-se numa confortável chaise-longue. Só que, mal isto se estica, logo eu me deixo dormir. Uma luta para estar aqui, reclinada, e a escrever... não vos digo nada. 

E tenho outra questão. Em situação social, uma pessoa não se vai pôr toda esparramada no sofá. Nas, aí, fico como? A fazer sala e com os pés no ar...? O meu marido, disfarçando o ar de gozo, diz: 'Eu não tenho problema'. Caraças. Tenho eu. Se eu ainda tivesse esperança de crescer... agora assim... 

Só tenho coisas que me ralem.

Tirando isso, a televisão também deixou de apanhar sinal, ou seja, não há televisão. Não sei se a caixinha da TDT se estragou ou o quê. Presumo que a tenham tratado mal durante o processo das pinturas. 

O termos optado por pintar a casa toda, por dentro e por fora, cá para mim está ao nível da minha decisão de fazer artroscopia aos dois joelhos ao mesmo tempo. Tinha problema num deles e, convencida que aquilo era só fazer uns furinhos para espreitar lá para dentro, embora do segundo praticamente não tivesse queixas, assim como assim, já que tinha que ser anestesiada, viam-se logo os dois. Tudo na boa, sem pensar nas consequências. Quando acordei e vi que tinha um saco com sangue que escorria de um dreno em cada joelho e quando percebi que, para me pôr de pé, não havia um em bom estado em que me pudesse apoiar, é que percebi a burra que tinha sido.

Assim com isto. Parte das coisas fomos nós que retirámos para o estúdio e o que ficou os pintores encarregaram-se de mudar de sítio. Portanto, primeiro que tudo volte ao devido lugar tem sido o fim da picada. Agora a seguir vêm os das janelas. Portanto, toca a retirar tudo o que esteja perto. E a seguir toca a limpar tudo, outra vez.

Mas, trabalhos esforçados à parte, a casa está uma graça. Mais clara, mais luminosa, aspecto mais arejado. A minha filha está cá a fazer as suas decorações. Ela e os meninos também andaram nas pinturas. Subsistem na cor original da madeira os móveis mais antigos mas o aspecto geral é de leveza. Acho que com as janelas brancas ainda melhor vai ficar.

Como estou a trabalhar ao mesmo tempo, ainda não tive tempo de ir passear lá por baixo. E estou cansada. Mas quem corre de gosto não cansa. E fico feliz da vida por ver como os meninos também gostam de cá estar e como hoje gostaram de andar a lixar e pintar móveis.

O pior mesmo é o sono e, aqui no sofá, não ter posição. Ou me reclino e deixo-me dormir ou me sento normalmente e fico com os pés no ar. Sou eu e a Bela.

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Fotografias de Guy Bourdin

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Um dia feliz.

Divirtam-se. Descansem. Descontraiam.

sexta-feira, junho 07, 2019

Essa imensa teia que ninguém sabe quem tece



Por vezes abre-se-me um pouco de porta do que aí vem, nesga ligeira, e nunca como agora intuo terríveis tempos de incerteza envoltos em medos provindos de incertos. Uma nebulosa a envolver-nos, riscos vários, muitos, indefinidos, quase imateriais. 

Volto aqui a recordar os delírios quando criança com amigdalite. Anginas, ouvia dizer. A febre subia, subia e eu a ferver, transpirada, gritava apavorada. Os meus pais à minha volta e eu aterrorizada. Estava perante um compartimento, a divisão de uma casa, cheia até ao tecto de coisas indefinidas, pequeninas, e eu a ter que descobrir uma coisa ainda mais pequenina, ainda mais indefinida, a saber que era impossível, que não teria tempo para encontrar aquilo que era tão vital. Esse terror, essa situação impossível de resolver, toda essa angústia ficou guardada na minha memória: a impotência da luta contra uma infinidade de incertos.

Depois de uma reunião a analisar situações complexas e a antever um cenário impossível de controlar, ia no carro e, na rádio, transmitiam, em directo da Assembleia, o debate quinzenal. As pequenas questões. Os casos pontuais. Os deputados vivem numa bolha de fantasia, alheados das questões de fundo, apenas pegando nas notícias que dão que falar mas apenas durante um ou dois dias, coisa morta à partida pela irrrelevância, a petite histoire, o déjà-vu do cão que morde o dono ou, nos dias bons, o dono que morde o cão. Não passa disso. 

Não há um deputado que se erga naquele hemiciclo e pergunte: 
E se, de facto, já vivemos cercados? 

E se, de facto, estamos a caminho de ficar indefesos, totalmente indefesos, pequenos insectos presos numa teia infinita?
E não quero ser mais específica. Não posso. Não devo.

Mas... e se...?

Quantas vezes aqui digo: há que estar atento aos riscos, há que chamar a atenção, alertar, regulamentar, quantas vezes?

Mas ninguém me ouve. Não sou ninguém. Sou invisível. Existo para ver e ouvir, não para ser vista ou ouvida. E este meu lugar é nada, palavrinhas à toa, coisas avulsas e sem nexo. Não tenho púlpito nem rosto ou nome e assim é que está bem. Mas gostava que, entre as linhas, no subtexto, alguém percebesse que há preocupações que são sérias. Não são preocupações só nossas, do pequeno rectângulo, são do mundo, do mundo que está a ser conduzido não se sabe para onde nem por quem -- mas não é por nós, por gente como nós. Ou, se calhar, até é: nós agentes involuntários da nosso encarceramento.

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E, não querendo dizer mais nada -- mas estando precisada --, deito mão a outro antídoto.

fecho os olhos e imagino. Crianças brincando no quintal, roupa estendida ao vento, a cigarra, o grilo alegrando os campos, o cão ladrando ao longe. Calor e sol, reflexos azuis dos mares a sul, areia quente, conchas em que se ouve o mar, veleiros que deslizam na ténue e cintilante linha do horizonte, homens de pele tisnada e beijos com sabor a sol, pestanas levemente brancas de sal, marisco com sabor a maresia, um braço em volta da nossa cintura, uma cama fresca com lençóis brancos. Ideias felizes a alegrar o pensamento.

E dança. Voo suave, brincadeira, sedução, irreverência. Memória do mediterrâneo a fechar um dia longo e sem definição.


As fotografias são de Guy Bourdin

E abaixo há outro antídoto. Para quem esteja tão precisado como eu.

[E que me desculpe quem comentou mas hoje estou outra vez naqueles dias em que certas contingências me impedem de responder]

sábado, julho 08, 2017

Caminhos e destinos em vol d'oiseau




Tenho aqui ao meu lado três livros. Volta e meia abro um deles ao acaso, leio. Não é meada de que tenha que guardar a ponta do fio. Onde eu abra, está bom de ler.

Com jornais, não é bem isso mas quase. Em papel, desabituei-me de os ler. Mesmo na empresa, em que se assinavam uns poucos, acho que desistiram. Eu, pelo menos, deixei de os ver por lá. Na net, abro, espreito, sigo para outro. Mas, quando os lia em papel, lia do fim para o princípio. Em revistas, a mesma coisa. Não sei dizer porquê mas é assim. No outro dia, estava a ver a minha menininha linda a fazer exercícios num livro que lhe dei e que era qualquer coisa como 'desenvolve o teu QI'. É que ela adora fazer estas coisas, descobrir a sequência, a lógica, a peça que falta, a que está deslocada no contexto, coisas assim. O curioso é que, em cada página, fazia os exercícios de baixo para cima. 
Quando eu, mal fiz dezassete anos, fui viver longe dos meus pais, almoçava e jantava onde calhava, em especial nas cantinas universitárias. Sou de boa boca e onde os outros protestavam veementemente, comia eu de gosto tudo o que vinha parar ao prato. Contudo, durante todo esse tempo eu estava desejando chegar a casa para comer o meu petisco de eleição: pescadinha fresca, daquelas de anzol, marmota (acho eu que lhe chamam), com batatas cozidas, brócolos ou feijão verde e ovo cozido. Pois bem, se perguntarmos à minha lovely menininha qual a sua comida preferida dirá sem pestanejar: 'peixe cozido com batatas, brócolos e ovo cozido'. Nas coisas mais incríveis, mostra bem que herdou alguns dos meus peculiares genes.
Bem. Seguindo.


Eu a ler cada vez mais sou assim como vos conto. Páginas soltas, salteadas. Os livros que aqui tenho agora são Caminhos e Destinos, a memória de outros II, de Marcello Duarte Mathias; O homem fatal de Nelson Rodrigues e, ainda, a Poesis da Maria Teresa Horta. Memórias, apontamentos, crónicas soltas, poesia. 

Cada vez me sinto mais afastada da leitura aturada. Nunca na vida poderei discutir uma obra com quem quer que seja pois nunca na vida seria capaz de me pôr a ler, página por página, fazendo investigação séria para estudar influências ou apurar referências implícitas, criando anotações, ou, se caso disso, procurando o texto na língua original. Perceber a geneologia, a genética da escrita ou a gramática, o corte e costura havidos antes do autor ali chegar são matérias que não me interessam. 

Talvez eu tenha sido pássaro quando alguns dos meus actuais átomos por aí andavam, antes de se terem juntado e formado esta que aqui vos escreve. É que o que me cai bem é o vol d'oiseau, o saltitar de ramo em ramo, página aqui, página ali, o descer à terra para picar isto ou aquilo ou olhar ao longe e logo voltar a voar, outro livro, outros horizontes.


Admiro aqueles que se entregam a um livro como se estivessem numa missão de vida, meses a fio, horas e horas, mergulhados num poema, num texto -- abdicando de viver. Só por existirem missionários assim é que, depois, posso pegar em parte dos livros que leio. Contudo, prefiro os livros que apresentam trabalho limpo. Não gosto de ler textos sarapintados com números de chamada, com textozinhos pequenos a comentar isto ou aquilo. Não gosto. Sei que é material de estudo mas, para mim, é gossip, é fofoca literária, é ruído, é poluição. Se gosto de ler um texto, quero tê-lo imaculado, do produtor ao consumidor, nada de falatório miúdo na esquina da página. Quero lê-lo como se fosse a primeira leitora. A única, até. 

E, cada vez mais, gosto mesmo é de ler texto escrito ao correr da pena, escrita despojada, lembrança, pensamento, carta, quase como se fosse coisa de nada. Mas coisa escorreita, elegante, com riqueza de substrato, gramaticalmente a corresponder à melodia das palavras. E tem que vir com sangue na guelra. E qualquer coisa ali tem que surpreender: ou a beleza da sequência ou o inusitado da ideia.


E depois a poesia. O sopro, a carícia, o lamento, o rasgão, o murmúrio  o desejo. Leio poemas em blogs, leio nas páginas que abro ao acaso. A forma mais genuína e pura de dizer.

Ah, a beleza
da entrega aturdida
que em mim se comprazia

-- Vem minha reinventada!
Digo eu à poesia

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[Poema de Maria Teresa Horta, fotografias de Guy Bourdin e, de novo, Louis Armstrong em A kiss to build a dream on ]
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E, permitindo-me recomendar que desçam até à graça de uns certos bancos públicos, desejo-vos um belo sábado.

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quarta-feira, março 08, 2017

Eu, mulher


Não é por amanhã ser Dia da Mulher mas porque me falta assunto. 


Podia dar um giro pela blogosfera e fazer uma reportagem sobre o que chamasse a minha atenção mas não me apetece. Ou podia ver os jornais mas era capaz de me amofinar. Podia ver a televisão e comentar a primeira porcaria que me aparecesse. Ou poderia ficcionar. Mas estou com preguiça. 

Por isso, vou aqui colocar um vídeo que já aqui pus, que me lembre, umas duas vezes. Gosto muito do poema que aqui é lido, o Segredo. Num muro in heaven escrevi-o à mão e ao lado pintei uma mulher a tirar o vestido pela cabeça. Pena não ter uma mulher a dizê-lo. Podia dizê-lo eu, gravar e colocar aqui. Mas não o faço por razões mais do que óbvias. 

Para fazer contraponto à voz do Pedro Lamares, coloco aqui três fotografias de Guy Bourdin. Gosto bastante da obra de Guy Bourdin, acho que soube captar a graça e irreverênvia das mulheres que gostam mesmo de ser mulheres.


Eu gosto muito de ser mulher. Acho que nem conseguiria fingir ser homem. Sinto-me completamente mulher, nunca senti necessidade de me masculinizar, nunca tive vontade de ter nascido homem. Gosto do meu corpo de mulher. Gosto muito de louvar as mulheres. Acho que só gente muito estúpida é que pode achar que ser mulher é pouca sorte ou que mulher é gente que ainda se encontra num patamar inferior aos dos homens. Nem inferior nem superior. Ao lado.

Gosto da minha vida de mulher: de mulher-mulher, de mulher-mãe, de mulher-trabalhadora, de mulher-que-lê, de mulher-que-escreve, de mulher-que-ri, de mulher-que-gosta-de-provocar, de mulher-que-se-está-nas-tintas, de mulher-que-gosta-de-política, de mulher-que-gosta-de-comer-e-beber, de mulher-que-gosta-de-ser-gostada. E etc.



Não contes do meu 
vestido 
que tiro pela cabeça 

nem que corro os 
cortinados 
para uma sombra mais espessa 

Deixa que feche o 
anel 
em redor do teu pescoço 
com as minhas longas 
pernas 
e a sombra do meu poço 

Não contes do meu 
novelo 
nem da roca de fiar 

nem o que faço 
com eles 
a fim de te ouvir gritar


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Até já.

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terça-feira, setembro 03, 2013

Licencinha. Vou dar a voz a linhas trocadas, a vidas desencontradas. Jornalistas, políticos, duas escravas negras muito limpas e quatro amantes, pargos capatões, cornudos e putanas: falo-vos, pois, da inanidade da vida. [Falo e dou a voz a Ernesto Sampaio e a Adélia Prado]


A seguir a isto podem ler a minha resposta a uma questão de ordem prática que alguém hoje colocou num motor de busca tendo sido encaminhada até aqui: as camisas dos homens devem ter vinco nas mangas?

Mas isso é mais abaixo, a seguir a isto. Aqui, agora, a conversa é outra. É outra e muito diferente.

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Licencinha.

Hoje vou dizer umas coisas. Não levem a mal. Tenho um testemunho para dar. 

É certo que os meus amigos esperam, talvez, que eu diga coisas de outra natureza. Adivinho-vos. Esperam que eu me mostre indignada. Há casos para isso. Eu podia dizer que o nosso primeiro não sabe o que é a democracia, que não tem moral, que não tem amor à pátria. Podia e, se calhar, devia. 

Digo então umas palavrinhas simples. E breves, que a seguir quero passar a palavra.

Se ele, o nosso primeiro, pudesse, suspendia mesmo a democracia, seis meses chegavam-lhe - como a manelinha uma vez disse, mas ela, afinal, ao pé dele, não era má pessoa. Se ele pudesse não mudava a constituição: acabava com ela. Ele não gosta de leis, se não lhe servem diz que as muda, e diz isso porque ainda lhe resta um resto de decoro e intui que lhe ficava mal dizer que acabava com elas. Mas, de facto, onde ele se sentiria bem seria numa terra sem leis. Ele é o verdadeiro fora-de-lei. 

Agora que já todos lhe vimos os dentes, a forma raivosa como os range, sabemos que seis meses lhe chegavam para escaqueirar de vez o país, e, a seguir, vender os cacos a qualquer um. Os eleitores foram na conversa de barítono, na carinha sonsa com sorrisinho de pechisbeque. E ei-lo agora onde está. E de lá não sai. O pior é mesmo a rafeiragem, têm muitas defesas, resultam de muitos cruzamentos. Misture-se o ângelo com o miguel (o correia e o relvas, quero eu dizer), misture-se a mistura anterior com o zé luís e o dias (arnault e loureiro), e misture-se a pomada assim obtida com o marco e a rute (o antónio e a marlene), e a misturada anterior com a cristina e a maya (a ferreira e a do tarot), e, no fim, tudo com o tony e o jorge (o carreira e o jesus) e vai chegar-se a um híbrido que tem genes deles todos.  É isto que foi escolhido para primeiro. Dali só se pode esperar o pior. E, como todos os rafeiros, tem uma resistência que só vista. Resiliência, é capaz ele de dizer. 

Mas o País é o que é, basta a gente ver os cartazes destas eleições. Parece coisa do azerbeijão de há 50 anos. Gente que parece uma caricatura. Vestem-se como não dá para acreditar. Fazem poses para a fotografia como nem a fingir. Escolhem slogans que são de gargalhada. Fazem conferências de imprensa hilariantes. Em grande número não passam de anedotas. Supostamente isto será o que de melhor há em cada terriola, escolhidos para serem os representantes do povo.

É deste tipo de gente que nascem os nossos representantes. Nomeadamente, é gente assim que, de vez em quando, se junta para escolher o secretário geral dos partidos. E nós depois votamos nesses secretários gerais ou presidentes. O que é se poderá esperar? Porcaria. Só sai porcaria.

É este o povo que temos? Ou o povo é melhor e aqueles que aparecem nos cartazes são personagens de filmes cómicos?

Uma desgraça, de qualquer maneira.

Por isso, meus amigos, para não me estar sempre a repetir e a mostrar o desgostada que ando com tanta rafeirice, e enquanto não acontece por aí uma chuva ácida que derreta a porcaria que parece ter ungido os políticos deste país, passo a palavra a outros.

Um homem e uma mulher. Eles que digam qualquer coisa que não tenha nada a ver com isto. Um testemunho sobre coisa nenhuma.

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Licencinha, pois.

E desculpem qualquer bocadinho de prosa mais licenciosa. Não ando com paciência para me censurar a mim própria, quanto mais aos outros.

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O vasto mundo oferecia-lhe uma infinidade de destinos possíveis, mas ele sentia-se bem na sua pele de batoteiro, de tecelão de fumos. Com o presente negado e o futuro deserto, voltou a fechar os olhos e a recapitular a vida, todo entregue a um desses balanços que, segundo os psicólogos, precedem as metamorfoses ou os esticanços de pernil.

A prisão? Já conhecia. A guerra? Ia conhecê-la. O exílio? Também por lá tinha passado. Era, portanto, um homem. admirou-se largamente de si próprio e agradeceu, no seu foro íntimo, a ovação delirante de um público invisível.

Assaltou-o uma melancolia desconhecida, talvez fome, e pensou que - se a tivesse - não se importaria de trocar a pomba do Espírito Santo por uma galinha. Abandonada a pose de anjo, levantou-se e partiu.




Eu quero é o seio de Deus, quero encontrar Abraão e me insinuar junto dele, até ele perder o juízo e me fazer um filho que terá muitas terras e ovelhas.
Emancipada eu não quero ser, quero ser é amada, feminina, de lindas mãos e boca de fruta, quero um vestido longo, um vestido branco de rendas e um cabelo macio, quero um colchão de penas, duas escravas negras muito limpas e quatro amantes: um músico, um padre, um lavrador e um marido.







Pensavam que tinham um pequeno poder - os jornalistas -, e interpretando como sinais de deferência os restos de temor ainda inspirados pela sua função, a maioria deles não viam que já ninguém os respeitava. 

Pior: tratavam-nos como animais de circo - maus e agressivos na medida do necessário, mas sempre à espera de festas no fim. As dentadas, os golpes das suas garras, eram efeitos para a galeria: visavam apenas a conservação do antigo prestígio. Gritos e risadas acolhiam por vezes essas facécias, mas no fundo os espectadores não se deixavam iludir: sabiam bem que havia domadores e que os rugidos das feras apenas denotavam uma domesticação extremamente conseguida. No público, só pouquíssima gente ainda não tinha dado pelo enredo: a missão dos jornalistas era fazer valer o pessoal político; os políticos, em troca, faziam viver os jornalistas, não sem os chamar à ordem de tempos a tempos, exigindo-lhes o mais elementar dos reconhecimentos...



Quero comer o mundo e ficar grávida, virar giganta com o nome de Frederica, pra se cutucar na minha barriga eu fredericar coisas e filhos cor amarela e roxa, fredericar frutas, água fresca, as pernas abertas, parindo. Por dentro faço mel como colmeias, põe tua língua no meu favo hexágono.




Contudo, o 'métier' do Palha d'Aço proporcionava-lhe de vez em quando algumas pequenas satisfações, já que as grandes nada tinham a ver com as ruas e as suas intrigas, mas com o sol na pele, o correr dos rios, o murmúrio do vento nas árvores, quando o mundo toma de súbito uma dimensão inesperada.


Não tens voto nem vintém e ris de um certo modo repetido, até hoje, menos que poucas vezes. Tocas violão como ninguém toca mal como você, mas fremes. As asas de teu nariz ficam vibrando quando você faz música. Por aí começo quando quero entender minha paixão. As bordas do teu nariz, pulsando como um radar. Teu paletó de veludo cobre teu braço peludo. Me abaixo para pôr no ouvido o teu relógio de pulso, o que bate é teu coração. Me abraça, José, me abraso. Ai, com você me caso.


No que ele pensava, enquanto mais um dia sem outro objectivo que o seu próprio suor, era em como realidade e plenitude são uma e a mesma coisa; o resto é sombras e esquizofrenia, a horrível inanidade da vida. 

Naquela época, ainda não suspeitava que as coisas más haveriam de ser um dia coisas boas, nem que as matrizes chocas e os tomates podres da mocidade que via fornicar pelos cantos andavam a gerar uma raça de garotelhos desgraçados, de ridículos bonecos das Caldas mais feios e informes do que caracóis, de cornudos e putanas a quem um queijo da serra embasbacava! Atravessando o Rossio a caminho da Boa-Hora, não sonhava sequer que ainda teria de falar com lampreias ou que as enguias e os pargos capatões se tornariam pretensiosos ao ponto de o quererem abolir.




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A fala do homem, a itálico, sempre ao lado de fotografias (de modelos masculinos) de Mario Testino, é extraída de 'Feriados nacionais' de Ernesto Sampaio.




Sobre o escritor transcrevo da wikipedia: Ernesto Sampaio (Lisboa, 10 de Dezembro de 1935 – Lisboa, 5 de Dezembro de 2001), poeta, tradutor, bibliotecário, jornalista, actor e professor do ensino secundário, foi um dos grandes teóricos e exegetas do surrealismo.
Apesar de pouco conhecido dos leitores, é um nome indispensável para o conhecimento das margens da literatura portuguesa contemporânea, ao lado de Mário Cesariny, Herberto Helder ou António Maria Lisboa. Como jornalista trabalhou nas redacções do «Diário de Notícias» e, de 1980 até à sua extinção, no vespertino «Diário de Lisboa». Por altura da sua morte, colaborava no suplemento «Mil Folhas», do «Público», onde exercia a função de crítico teatral. Foi tradutor de Artaud, Éluard, Breton, Péret, Arrabal, Ionesco, Thomas Bernhard, Arthur Adamov, Walter Benjamin, Oscar Wilde, Eliot, etc.
Era marido da actriz Fernanda Alves, a quem sobreviveu apenas um ano e cuja morte lhe inspirou o seu último livro Fernanda.

A fala da mulher, sempre ao lado de fotografias (de modelos femininos) de Guy Bourdin, é extraída de 'Solte os cachorros' de Adélia Prado.



Sobre a escritora transcrevo um excerto da wikipedia: Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 19351 ) é uma escritora brasileira. Seus textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.
Professora por formação, exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora tornou-se a atividade central.
Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa.

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Alguns dos meus livros em curso de leitura ou a caminho disso

[entre eles os dois acima referidos]

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E, por hoje, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus caros Leitores, uma terça feira muito boa.

domingo, julho 15, 2012

Uma vez mais sobre o Relvas que felizmente ainda é ministro, o braço direito de Passos Coelho. E, numa de fuga (ao Relvas e ao calor), deslizo da indolência do sofá até à frescura no fundo do mar


Então e para o Relvas não vai nada, nada, nada...?!

Então não...? Toca a música...!


Pela segunda vez no UJM: 
Quim Barreiros e Os Pêlos do Coelhinho (referir-se-á ele aos pêlos do cada vez mais descabelado Passos Coelhinho?)

*

Relvas virou anedota generalizada. Pelos jornais, pelos blogues, pela televisão, por todo o lado, a galhofa é geral. 

Mas, mais divertido do que as anedotas (a das relações sexuais aos 13 anos obtidas por equivalência a outra actividade mais solitária, a do jantar sozinho no jantar de fim curso, a do dá licença? está licenciado, etc, etc, etc), são as imagens do próprio Relvas. 




A hilariante declaração do Relvas, numa biblioteca com uma televisão por trás, a dizer, antes de fugir, que sempre norteou a sua vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente (terá sido a assessora de imagem de Passos Coelho, também, surpreedentemente, nomeada para coordenar um grupo de trabalho para as TIC, uma tal Marta Sousa, a escrever-lhe aquela extraordinária sound bite?),

ou a imagem que sempre aparece dele na televisão em que, junto a uma porta, aquele sujeito insuportável, um autêntico papagaio televisivo, o deputado Carlos Abreu Amorim, se atira solicitamente sobre ele, num gordo abraço arrebatado,

ou, ainda, a imagem dele, dizendo as suas habituais faceirices, a rir - hélas, faltando-lhe um dentinho...,

tudo o que aparece do Relvas é digno de sitcom, é digno de rábula de revista, é digno de anedota, e de  anedota para todos os gostos, desde a anedota de mais fino recorte blogueiro até a piadolas de taberna.

Passos Coelho mantém-no como número dois do Governo e faz muito bem porque assim percebe-se melhor quem é Passos Coelho e de que material é feito este Governo. 

(Mas o drama português vai muito para além da mediocridade do Governo. Só que estou a escrever isto na noite de sábado para domingo e há que ter noção das coisas: numa noite de sábado para domingo não se fala de misérias tão deploráveis.)

*

Assim sendo, vou falar de coisas simples, ligeiras (... enquanto, nos bastidores do País, o Coelho, o Relvas, o Borges, assessores, consultores e escritórios de advogados trabalham afanosamente para passar a patacas as maiores empresas do País - ...mas, ok, agora, faz de conta que agora não me lembro disso...).

*

Se já ouviram a música dedicada ao inexpugnável Relvas, então, está na hora de mudar de registo.

Música de novo, por favor



Katie Melua - If you were a sailboat

*

Ora, então, o que tenho a dizer é que é uma saturação estar a maior parte do tempo restrita a um sofá, de pernas estendidas. Chega-se a um ponto em que já não há paciência.




Fotografia de  Guy Bourdin


Falta-me a paciência para ler, para ver televisão, para tudo. Não obstante, hoje esforcei-me e felizmente fui bem sucedida. Estive a ler um livro que me atenuou a moleza: 'Os amores difíceis' de Italo Calvino, um conjunto de saborosas histórias - e chamo-lhes saborosas por mero espírito estival. 





Fotografia de  Guy Bourdin  


Ou seja, apesar de na horizontal e com tanto calor como se tivesse um urso a dormir em cima de mim, gostei imenso daquelas histórias em que pequenos e irrelevantes acontecimentos acabam por ter um efeito enorme, senão brutal, na vida das pessoas.

De qualquer forma, acho que estou melhor (mal fora... já lá vão oito dias) e já começo a ensaiar passos mais longos, até por vezes já me sento quase normalmente (enfim, quase, pois ainda há algumas restrições).




Fotografia de Steven Klein 


Passo ante passo, com mil vagares, já me aventuro a outros poisos, já me sento à mesa (mantendo os devidos cuidados porque a mobilidade ainda não é perfeita). E amanhã já vou almoçar fora e já estou na disposição de ir passear (de carro, claro). Por isso, não tarda estou a voltar aos meus passeios pela beira do rio, contemplando os barcos, os pescadores, os peixes que nadam junto à superfície.




Fotografia de  Guy Bourdin  


Até lá, contento-me em olhar os peixes através de um aquário imaginário, imaginado-me eu própria dentro de água, nadando, sentindo a água fresca, o maravilhoso cheiro da maresia.

E, então, fecho os olhos, ouço os movimentos quase silenciosos dos peixes, sinto a frescura da água em volta do meu corpo e, quando dou por mim - para que eu, ainda convalescente, não me canse - já um cavalo me leva agarrada ao seu pescoço, como se fosse um ágil sailboat.




Fotografia de Steven Klein   


O mar é azul marinho, a temperatura é baixa, tão fresca, tão retemperadora, a luz é escassa, o meu corpo branco é quase o único ponto de luz e eu ali vou, feliz e expectante, levada por um veloz cavalo marinho.

E o cavalo voa dentro de água, voa sem se cansar e depois mergulha, mergulha, vai até ao sítio mais escuro e mais fundo onde só habitam vultos, deuses, sereias, corais, tesouros, e leva-me para os braços do meu amor que me espera num castelo verde, forrado de limos macios como veludo, com algas douradas como cortinas.

Que bom é o amor nos castelos do fundo do mar.

***

E é domingo, um dia para se estar muito bem disposto. Tenham, meus Caros, muita saúde e muita alegria.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Eu, mulher trabalhadora numa empresa privada, eu ex-professora, eu mãe de família (parte II) - Just like a Woman (na voz de Nina Simone) e acompanhada pelas mulheres de Guy Bourdin


Música, por favor.
Nina Simone - Just like a woman

Recebi comentários muito interessantes ao texto que ontem escrevi sobre a minha experiência como mulher trabalhadora nos tempos de hoje. Poderia responder a cada um individualmente mas prefiro, hoje, escrever um novo texto sobre o assunto pois, desta forma, complemento o meu relato e comento os comentários que tanto gostei de ler e que, aqui, agradeço.


Trabalho por conta de outrem, sou uma assalariada, sou uma mulher trabalhadora - mas sou uma privilegiada. Tenho um cargo de alguma responsabilidade, tenho um ordenado razoável (e do qual parte considerável me é surripiada logo à nascença, nem o chego a ver). O que tenho consegui-o por mim mesma, progredi profissionalmente graças, apenas, ao meu mérito profissional. Não beneficiei de favores de qualquer espécie. Sou uma mulher que vive do fruto do seu trabalho.

Trabalho, pois, como forma de subsistência mas, no entanto, trabalho também como forma de realização profissional. Respeito em absoluto as mulheres que optam por trabalhar apenas em casa mas essa nunca foi uma opção para mim. Desde que me conheço que pensava em emancipar-me, ter a minha independência e fazer um trabalho de que gostasse.

Quando eu estava a estudar na faculdade, a minha mãe alimentava o sonho de que eu fosse professora. Dizia ela que podia ter uma vida descansada, trabalhar apenas meio dia, estar numa escola perto de casa, ter muito tempo de férias, ter tempo para os filhos, para a casa.


De facto, quando concluí o bacharelato, 20 anos acabados de fazer, concorri para ser professora, na altura acho que se chamavam professores provisórios. Tinha uma média relativamente alta, fiquei logo na escola que tinha colocado em 1º lugar e pude escolher horário, ficando com horário completo, 22 horas por semana na altura.

Entretanto continuei a estudar na faculdade, casei, e tudo na maior das calmas.

No segundo ano, resolvi fazer a coisa ainda mais aligeirada pois estava no último ano do curso, com as últimas cadeiras e com um trabalho de fim de curso bem complexo e a precisar de tempo: escolhi horário completo mas um misto de horário nocturno a pegar com as últimas diurnas do fim de tarde. Também era directora de uma turma. E, portanto, se não estou enganada, o horário completo limitava-se a 16 horas por semana, uma maravilha.

Claro que tinha que preparar as aulas pois era a primeira vez que leccionava, claro que tinha que fazer e corrigir testes, e as reuniões de avaliação, e vigiar e corrigir exames mas, tudo junto, uma maravilha. Ainda não tinha filhos, estava casada de fresco e tinha uma vida que era um regalo. Acabei a licenciatura e no meu 3º ano lectivo como professora concorri para fazer estágio e fiquei colocada. Tudo na boa.

E no entanto.


E, no entanto, havia qualquer coisa no ensino que me parecia muito pouco para as minhas ambições. Era um meio muito fechado, as professoras e os professores eram um grupo que me parecia desligado, sem sentimento de pertença, sem motivação (e isto há quantos anos foi….!), uns muito acomodados, outros muito desinteressados, nada de trabalho em equipa e eu gosto de trabalhar em equipa, acho imprescindível o trabalho em equipa. Eu imaginaria os professores a preparem aulas em conjunto, a arranjarem maneira de que as matérias de uns se articulassem com as dos outros, eu imaginaria que os professores da mesma disciplina mas de turmas distintas conjugassem as matérias e os testes entre si, escolhessem em conjunto exercícios interessantes, que houvesse passagem de testemunhos entre professores de um ano para o outro, imaginaria trabalhos preparados em conjunto com os alunos, um verdadeiro comprometimento partilhado. Enfim, imaginava um ensino em que os professores cuidassem dos seus alunos de uma forma personalizada, dedicada, carinhosa, em que os professores se sentissem co-responsáveis por objectivos comuns. E que, detectando que havia lacunas na formação de alguns jovens, se organizassem para lhes ensinar essas matérias. Mas não era isso – mas nem pouco mais ou menos. E depois nas poucas reuniões de professores a que assisti, já nem me lembro se eram convocadas pelo conselho pedagógico ou coisa do género, as questões que se afloravam eram tão básicas, tão desinteressantes, nada a ver com o que eu idealizava. E depois havia rivalidades parvas, pequenas intrigazecas, coisinhas miúdas e espúrias para as quais nunca tive paciência. E havia muita acomodação, muita pose. Alguns professores mais velhos diziam para eu me deixar de ideias, que estivesse sossegada, que era ainda muito verdinha.


O ano de estágio então estava a ser um pesadelo. O professor que me estava a orientar fazia tudo ao contrário do que eu achava que seria pedagógico. Depois, havia uma panóplia de trabalho absurdo de preparação e planificação, uma coisa burocrática, despropositada, tudo conduzido com uma aflitiva mediania. 

Gosto de coisas que me estimulem, que constituam desafios para os quais eu tenha que me esforçar minimamente, gosto e aprender com quem é melhor que eu, gosto de sentir que estou a fazer o melhor possível e que posso contribuir com as minhas ideias e trabalho. Gosto de partilhar, gosto de ensinar tudo o que sei, queria que a escola fosse um espaço fervilhante de aprendizagem e saber mas ali era tudo tão limitado. Nada do que eu desejava se concretizava, nada.

Depois, quando ouvia os professores reivindicarem mais benesses, eu ficava calada, embasbacada. Eu achava que trabalhava tão pouco, mal percebia como poderia ter direito a tanto fazendo tão pouco.

Dar aulas era uma coisa a meio caminho entre trabalhar a sério e ficar em casa, ocupada com a lida da casa e sem maçadas de maior 


Digo isto sem ter nada contra a profissão. A minha mãe é uma professora reformada e tenho na família mais próxima mais pessoas que são professoras. Algumas das minhas amigas são também professoras. Sei, até porque conheço estes casos muito próximos, que há profissionais excepcionais mas, no conjunto, há uma inércia, uma acomodação, uma desmotivação, uma desarticulação que acho que minam a qualidade do ensino neste País.

E assim, pouco tempo decorrido de estar a fazer o estágio, respondi a um anúncio para uma empresa e, após umas quantas entrevistas, fui escolhida. Foi um desgosto que dei à minha mãe, ‘tens uma vida tão sossegada e vais abrir mão disso, nem sabes o que vais perder, vais arrepender-te, podes crer que vais’. Mas não hesitei nem por um segundo. Larguei o estágio e mudei de vida.


De repente, a minha vida mudou. Passei a sair de casa antes das 8 da manhã e a chegar a casa depois das 7 da tarde, passei a ter que fazer trabalhos relativamente aos quais nem sonhava que tinha conhecimentos que me permitissem fazê-los, passei a deparar-me com dificuldades que, por vezes, me pareciam intransponíveis, passei a ter que entregar trabalho feito (e sem margem para errar) em datas fixas, passei a ter que ir à luta, a descobrir com quem devia falar, quem me podia ensinar, passei a ter que usar o que tinha aprendido na faculdade mas em grande escala, a ter que tentar descobrir nas sebentas e livros soluções para os problemas complexos que tinha pela frente, passei a ter um chefe, a ter colegas e, mais tarde, a ter subordinados. Passei a trabalhar em equipa, a ser solidariamente responsável por resultados, passei a participar em reuniões de trabalho, reuniões duras, negociações complicadas, questões difíceis de dirimir. Mas isso enchia-me as medidas.

E, no meio desta reviravolta, tive os meus filhos e gozei a licença de maternidade e a licença de amamentação (amamentei os meus filhos ao peito, no caso da minha filha até aos 13 meses - em qualquer lado lá estava eu a dar-lhe de mamar, ela já a andar e falar, parecíamos mãe e filha ciganas), e andava com eles de um lado para o outro, ao colo, pela mão, em transportes públicos, e andava tantas vezes completamente estourada – e a minha mãe sempre a lembrar-me ‘o disparate’ que eu tinha feito: 'podias estar descansada, ser professora, e aí andas cheia de preocupações, cansada'.


Ao longo destes anos tive algumas vezes que fazer noitadas de trabalho, do género de chegar a casa às 4 da manhã, outras tantas vezes a ter que ficar fora de casa, idas ao estrangeiro, tantos momentos difíceis, com fusões de empresas pelo meio, reestruturações violentas, extinções de muitos postos de trabalho, discussões, desafios complicados – mas tudo tem valido a pena.

Houve vezes em que, em reuniões ou momentos de agitação ou discussão, diziam de mim que, daqueles homens todos, eu era a única que tinha tomates (os homens falam assim, vocês sabem…). Nunca me senti menos feminina por isso. Sou feminina, 100% feminina, disso não tenho dúvidas. Sou feminina na minha essência e na minha aparência (raramente uso tailleurs de calça e casaco e nunca com camisas de corte masculino. Pelo contrário usos frequentemente saia e sempre saltos altos).

Mas o facto de ser assim a nível profissional, não significa que descure as minhas verdadeiras prioridades. Muitas vezes, no trabalho, sabem que não quero ser interrompida – mas se a chamada for de alguém da família, aí interrompo tudo.

Ontem disse que nunca me senti prejudicada por ser mulher. Mas também nunca fui chamada à atenção para 'ser mulher' porque o sou. E sou-o na minha maneira de estar profissionalmente. Ouço as preocupações de toda a gente, sei dos problemas pessoais que têm, aconselho, ajudo no que posso. Actuo como mulher (tentando consensos quando aconselhável, trabalhando em equipa, estimulando a partilha, não tendo medo de arriscar). Uso da minha franqueza em qualquer situação mesmo quando isso causa embaraços, ou causa clivagens. Dizem, por vezes, que tenho anti corpos. Sei que os tenho mas nunca consigo calar a minha consciência - ela fala sempre mais alto do que qualquer conveniência. E nunca guardo rancores, ressentimentos. Defendo o que tenho a defender e sigo o meu caminho.


Tenho nas minhas amizades e na minha família mulheres que não trabalham e que acham que eu sou ‘de outro mundo’ porque aparento ser uma mulher normal e, afinal, trabalho como os homens costumam trabalhar. Mas sou mesmo absolutamente normal e, geralmente, quando estamos juntas, elas acabam por se esquecer desta minha ‘particularidade’. Sou capaz de falar de receitas de culinária, maçadas com a limpeza da casa, problemas médicos, coisas da escola dos miúdos, lojas onde se vendem coisas interessantes ou a bom preço, e faço tapetes de arraiolos e já antes fiz tricot ou crochet (porque gosto imenso de fazer trabalhos manuais), assuntos gerais que interessam a qualquer mulher. Faço tudo o que faz uma mulher que não trabalha fora de casa. A diferença é que faço tudo à pressa e, provavelmente, com menos rigor e perfeição do que se o fizesse com mais tempo. Habituei-me de tal forma a ter pouco tempo para fazer as coisas que, se tenho um dia inteiro para arrumar a casa, fico a empatar, parece que me sobra tempo. Ainda ontem tive que coser uma coisa. Cosi mas de pé, num instante. Se tivesse mais tempo, sentar-me-ia e faria as coisas com vagar. A minha mãe, antes de ter desistido de me educar, dizia muitas vezes que eu fazia 'tudo à pressa e sem preceito'. Mas eu achava que o resultado era o mesmo, portanto estava tudo bem.


E há coisas que nunca estão arrumadas como deveriam: os livros por aqui andam sempre, uns em cima da mesa, outros ao lado do sofá, uma pilha junto à cama, outros fora das estantes; o sítio dos meus sapatos: eterno motivo de paródia. Mas não considero que isso seja grave.


Foi desde sempre uma opção de vida. E sempre me pareceu perfeitamente compatível com a vida de família. Nem nunca senti a tentação de me masculinizar ou de aparentá-lo para melhor me impor. 

Em síntese: de acordo com a minha experiência, que cada mulher aja de acordo com a sua vocação, a sua vontade, sem tabus, sem inibições, sem medos. Que aja de acordo com a sua consciência, de acordo com os seus desejos, e com equilíbrio, com uma avaliação das verdadeiras prioridades a cada momento da sua vida. 


Quem opte por ficar em casa que o faça por gosto e não por impotência ou por desistência, que o assuma com orgulho e mantendo o interesse em aprender e descobrir sempre novos interesses; quem opte por trabalhar fora de casa, que o faça sem complexos de culpa, que não pense que está a descurar a família ou a casa porque é possível conciliar tudo.


A vida é curta. Não deve ser desperdiçada, não deve ser adiada. Que as mulheres vivam a vida como a querem viver. Que tomem as rédeas da vida nas suas próprias mãos.

Quanto aos homens, volto a dizê-lo: os que são inteligentes, sabem que as mulheres mais completas são as que são verdadeiramente parceiras (seja a nível profissional, seja a nível sentimental, seja a nível sexual ou social). Os que são pouco dotados julgam que as mulheres são seres inferiores, menos capazes, criaturas que nasceram indefesas, que precisam de ser cuidadas e que pouco mais podem do que ficar em casa, de roda do fogão e a coser meias; mas enganam-se nisso, como se enganam em quase tudo na vida. Problema deles, portanto.


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As fotografias são todas de Guy Bourdin (França, 1928 - 1991)

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E tenham, meus Caros, um belo Carnaval.  Obviamente não trabalho, é dia de folga e vou aproveitá-lo. Divirtam-se que eu tentarei fazer o mesmo.
  

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Quanto é que você vale? Quantos amigos tem? Quantos likes no facebook? - Veja se vale mais ou menos que Cavaco Silva, Ricardo Araújo Pereira, Nilton, Rita Pereira. (Não, não ligue a nada disso: sorria a sério, sem ser através de parêntesis).


Tenho aqui que fazer um statement. Pode parecer-vos, às vezes, que sou muito moderna.

Rihana por Annie Leibovitz

Mas, olhem: não sou. Pelo menos, não no sentido de ir atrás de modas. Zero. Pelo contrário, se meio mundo vai numa direcção, a mim já me dá vontade de ir em sentido contrário.

No entanto, qualquer assessment que me seja feito (ah, estas modernices… assessments para nos espiolharem a alma e verem os nossos gaps), revela que sou o que se chama uma early adopter. Ou seja, se a coisa me ‘cheira’, adopto-a mesmo que antes nunca ninguém o tenha feito – e refiro-me a metodologias, processos, empresas, produtos. E, na vida privada, a mesma coisa: adiro por mim, sem fazer a mínima ideia se já alguém aderiu antes.

Mas bastará que me digam que:
  • toda a gente tem uma bimby - de uma coisa eu tenho a certeza imediata: nunca a terei;
  • toda a gente leu o último Miguel Sousa Tavares - e eu mentalmente coloco-o no meu index pessoal;
  • toda a gente tem conta no facebook, e mais, que quem não tem conta no facebook, não existe - e eu fico com a certezinha absoluta que prefiro não existir a ter que me filiar no facebook.


por Serge Lutens


Por isso, meus amigos, fiquem a saber: não existo, não sei quantos amigos tenho, estou-me nas tintas para reatar contacto com colegas da escola primária que não vejo há 200 anos, não estou nem aí para me amigar com ex-namorados, muito menos com gente que conheço apenas vagamente. Sou um bicho do mato.

Hidden woman por Guy Bourdin

Leio num artigo duma empresa de consultoria internacional que finalmente parece haver convergência quanto a uma unidade de medida para o valor das marcas – LPM, ou seja, ‘likes per million’, que é como quem diz, o número de pessoas que accionaram o like no facebook da empresa que comercializa a marca, aferido pelo valor de receitas expresso em milhões de dólares.

Fico perplexa com isto. Será mesmo? Será mesmo que as pessoas que vão ver a página do facebook das empresas mais valiosas, mais valiosas segundo este critério (a Forever 21 com 5.000 LPM, a Burberry com um pouco mais de 4.000, a Starbucks com cerca de 2.500, a Levi’s com um pouco de 2.000, a Gucci com cerca de 1.900, etc, etc) vão lá todos pôr um pisco no like, como quem deixa uma moeda na caixa de esmolas?

E com as pessoas, não com as empresas, será que esta coisa também funciona? Ah eu tenho 300 amigos e 1.000 likes por mês…? E tu quantos tens?

Tenebrosa esta perspectiva. Ou não é teneborosa: é normal? Sou eu que fiquei agarrada a conceitos já inexistentes?

Quando vejo transcrições de páginas de facebook ou quando alguém me mostra a sua (página), o que vejo são coisas que me parecem futilidades, coisas sem nexo, sem interesse, frases incompletas, palavras pela metade, parêntesis em vez de sorrisos a sério, coisas que não aquecem nem arrefecem.

Por curiosidade, fui agora ver a página de Cavaco Silva. Lá me aparece ele em grande plano, atrás da D. Maria, e, ao lado, caixas com isto (e transcrevo tal e qual, ou seja, faço copy past):

Desejar curtir ou comentar nessa página?

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Páginas do Facebook semelhantes


Ricardo Araújo Pereira

434.961 curtiram isso


NILTON

356.339 curtiram isso


Rita Pereira

156.514 curtiram isso


No canto inferior esquerdo, por debaixo da fotografia oficial do presidente leio que (e volto a fazer copy past):

127.566
curtiram isso

828
falando sobre isso

Opções "Curtir".

Museu da Presidência da República.
Presidência da República Portuguesa

(Não, não vou falar do linguajar indigente..! Adiante.)

... Voltando à unidade de medida inventada pelos marketeers, é assim que, na página do facebook do Presidente da República, fico a saber que há mais pessoas a curtirem a Rita Pereira que Cavaco Silva (o que me parece compreensível), que Ricardo Araújo Pereira vale sensivelmente três vezes e meia Cavaco Silva e que o Nilton vale duas vírgula oito vezes mais que Cavaco Silva.

(Claro que estou apenas a ver os likes em valor absoluto, ou seja não calibrei pelos rendimentos de cada um não apenas porque não disponho dessa informação, mas também porque, neste âmbito, me parece descabido.)

Na dita página, vejo também a informação de que, quem queira opções à curtição com Cavaco Silva, pode ir curtir para o Museu ou para a própria Presidência da República Portuguesa. Uma bandalheira, seria eu levada a dizer – mas detenho-me porque reconheço que isso talvez pudesse ser considerado uma reacção pré-histórica.

(Uma mulher pré-histórica? pergunto eu) por Guy Bourdin

Mas, vocês aí que me lêem e que não são tão antiquados quanto eu, digam-me: qual o gozo ou qual a utilidade de se ter uma página de facebook? São mais felizes agora que eram antes de a ter?

Eu, por mim, vou continuando aqui, sem contabilizar amigos, nem likes, sem querer ressuscitar amizades ou amores que ficaram, e muito bem, lá atrás, nas calendas. Vou continuar a escrever estes grandes testamentos com que vos torro a paciência, a escrever frases em que tento não omitir o sujeito, o predicado, o complemento directo e o indirecto e o que mais venha a calhar (e oh meus amigos, desculpem lá mais este sinal de antiguidade… que já nada disto dá por estes nomes, pois não? A esta hora já alguns de vocês devem estar a rebolar-se no chão, agarrados à barriga, ‘olha m’esta… - verbo e predicado- …lol lol lol’).

:-)

Não me levem a mal: vou continuar a ser bicho do mato, antiquada, ciosa da gramática e das palavras escritas com todas as letras, com um gostinho antigo por sorrisos a sério, por 'gosto de ti' ditos com uma voz doce e não com o desenho de um dedo espetado.

(Uma mulher das antigas? pergunto eu) por Helmut Newton

Mas de uma coisa podem vocês estar certos – vejo as estatísticas diárias aqui do meu UJM e fico sempre surpreendida e muito agradecida. Escrevo porque gosto de escrever, é certo, mas fico mesmo contente quando vejo que tanta gente se dá ao trabalho de aqui vir todos os dias falar um bocadinho comigo. Sem likes, sem dedinhos no ar, mas muito presentes aí desse lado. Muito obrigada, meus amigos. De verdade.

 
..^..
 
Hoje até havia imensa coisa para comentar (os despautérios do Alberto João; a página de facebook do Jorge Silva Carvalho, esse grande maganão que fez o que fez, faz o que faz e ainda se ri que nem um descarado; o valor imoral do que Catroga, esse velho macacão que se pela por dinheiro, vai ganhar na EDP; as nomeações despudoradas para as empresas mostrando no limite da nitidez suportável a raça a que pertencem Passos Coelho e entourage, etc, etc) - mas quando é tudo tão medíocre, tão tristemente previsível, não me apetece enredar-me nessas tretas, apetece-me é fugir delas a sete pés, pôr para trás das costas, sacudir de mim como se sacudisse o cabelo.

Margie Gills por Annie Leibovitz
 
E tenham, meus Caros, uma boa quinta-feira, sentindo o calor humano dos vossos verdadeiros amigos.
 
 
PS: Não querem ir espreitar a fotografia que hoje coloquei lá no meu Street Photo & Co. ? Estava uma tarde tão linda. E, já agora, não querem também dar uma espreitadela no Ginjal? Está no mesmo comprimento de onda e há um Rachmaninov que vai mesmo a calhar.