Música, por favor.
Nina Simone - Just like a woman
Recebi comentários muito interessantes ao texto que ontem escrevi sobre a minha experiência como mulher trabalhadora nos tempos de hoje. Poderia responder a cada um individualmente mas prefiro, hoje, escrever um novo texto sobre o assunto pois, desta forma, complemento o meu relato e comento os comentários que tanto gostei de ler e que, aqui, agradeço.
Trabalho por conta de outrem, sou uma assalariada, sou uma mulher trabalhadora - mas sou uma privilegiada. Tenho um cargo de alguma responsabilidade, tenho um ordenado razoável (e do qual parte considerável me é surripiada logo à nascença, nem o chego a ver). O que tenho consegui-o por mim mesma, progredi profissionalmente graças, apenas, ao meu mérito profissional. Não beneficiei de favores de qualquer espécie. Sou uma mulher que vive do fruto do seu trabalho.
Trabalho, pois, como forma de subsistência mas, no entanto, trabalho também como forma de realização profissional. Respeito em absoluto as mulheres que optam por trabalhar apenas em casa mas essa nunca foi uma opção para mim. Desde que me conheço que pensava em emancipar-me, ter a minha independência e fazer um trabalho de que gostasse.
Quando eu estava a estudar na faculdade, a minha mãe
alimentava o sonho de que eu fosse professora. Dizia ela que podia ter uma vida
descansada, trabalhar apenas meio dia, estar numa escola perto de casa, ter
muito tempo de férias, ter tempo para os filhos, para a casa.
De facto, quando concluí o bacharelato, 20 anos acabados
de fazer, concorri para ser professora, na altura acho que se chamavam
professores provisórios. Tinha uma média relativamente alta, fiquei logo na
escola que tinha colocado em 1º lugar e pude escolher horário, ficando com
horário completo, 22 horas por semana na altura.
Entretanto continuei a estudar na faculdade, casei, e
tudo na maior das calmas.
No segundo ano, resolvi fazer a coisa ainda mais
aligeirada pois estava no último ano do curso, com as últimas cadeiras e com um
trabalho de fim de curso bem complexo e a precisar de tempo: escolhi horário
completo mas um misto de horário nocturno a pegar com as últimas diurnas do fim
de tarde. Também era directora de uma turma. E, portanto, se não estou
enganada, o horário completo limitava-se a 16 horas por semana, uma maravilha.
Claro que tinha que preparar as aulas pois era a primeira
vez que leccionava, claro que tinha que fazer e corrigir testes, e as reuniões de avaliação,
e vigiar e corrigir exames mas, tudo junto, uma maravilha. Ainda não tinha
filhos, estava casada de fresco e tinha uma vida que era um regalo. Acabei a
licenciatura e no meu 3º ano lectivo como professora concorri para fazer estágio e fiquei colocada.
Tudo na boa.
E no entanto.

E, no entanto, havia qualquer coisa no ensino que me
parecia muito pouco para as minhas ambições. Era um meio muito fechado, as
professoras e os professores eram um grupo que me parecia desligado, sem
sentimento de pertença, sem motivação (e isto há quantos anos foi….!), uns
muito acomodados, outros muito desinteressados, nada de trabalho em equipa e eu
gosto de trabalhar em equipa, acho imprescindível o trabalho em equipa. Eu
imaginaria os professores a preparem aulas em conjunto, a arranjarem maneira de
que as matérias de uns se articulassem com as dos outros, eu imaginaria que os
professores da mesma disciplina mas de turmas distintas conjugassem as matérias e os testes entre si,
escolhessem em conjunto exercícios interessantes, que houvesse passagem de
testemunhos entre professores de um ano para o outro, imaginaria trabalhos
preparados em conjunto com os alunos, um verdadeiro comprometimento partilhado.
Enfim, imaginava um ensino em que os professores cuidassem dos seus alunos de
uma forma personalizada, dedicada, carinhosa, em que os professores se
sentissem co-responsáveis por objectivos comuns. E que, detectando que havia lacunas na formação de alguns jovens, se organizassem para lhes ensinar essas matérias. Mas não era isso – mas nem
pouco mais ou menos. E depois nas poucas reuniões de professores a que assisti,
já nem me lembro se eram convocadas pelo conselho pedagógico ou coisa do
género, as questões que se afloravam eram tão básicas, tão desinteressantes,
nada a ver com o que eu idealizava. E depois havia rivalidades parvas, pequenas
intrigazecas, coisinhas miúdas e espúrias para as quais nunca tive paciência. E
havia muita acomodação, muita pose. Alguns professores mais velhos diziam para eu me deixar de ideias, que estivesse sossegada, que era ainda muito verdinha.

O ano de estágio então estava a ser um
pesadelo. O professor que me estava a orientar fazia tudo ao contrário do que
eu achava que seria pedagógico. Depois, havia uma panóplia de trabalho absurdo
de preparação e planificação, uma coisa burocrática, despropositada, tudo conduzido com uma aflitiva mediania.
Gosto de
coisas que me estimulem, que constituam desafios para os quais eu tenha que me esforçar
minimamente, gosto e aprender com quem é melhor que eu, gosto de sentir que
estou a fazer o melhor possível e que posso contribuir com as minhas ideias e
trabalho. Gosto de partilhar, gosto de ensinar tudo o que sei, queria que a escola fosse um espaço fervilhante de aprendizagem e saber mas ali era tudo tão limitado. Nada do que eu desejava se concretizava, nada.
Depois, quando ouvia os professores reivindicarem mais
benesses, eu ficava calada, embasbacada. Eu achava que trabalhava tão pouco,
mal percebia como poderia ter direito a tanto fazendo tão pouco.
Dar aulas era uma coisa a meio caminho entre trabalhar a sério e ficar em casa, ocupada com a lida da casa e sem maçadas de maior
Digo isto sem ter nada contra a profissão. A minha mãe é uma professora reformada e tenho na família mais próxima mais pessoas que são professoras. Algumas das minhas amigas são também professoras. Sei, até porque conheço estes casos muito próximos, que há profissionais excepcionais mas, no conjunto, há uma inércia, uma acomodação, uma desmotivação, uma desarticulação que acho que minam a qualidade do ensino neste País.
E assim, pouco tempo decorrido de estar a fazer o
estágio, respondi a um anúncio para uma empresa e, após umas quantas
entrevistas, fui escolhida. Foi um desgosto que dei à minha mãe, ‘tens uma vida tão sossegada e vais abrir mão disso, nem
sabes o que vais perder, vais arrepender-te, podes crer que vais’. Mas não hesitei nem por um segundo. Larguei o estágio e mudei de vida.

De repente, a minha vida mudou. Passei a sair de casa
antes das 8 da manhã e a chegar a casa depois das 7 da tarde, passei a ter que
fazer trabalhos relativamente aos quais nem sonhava que tinha conhecimentos que me permitissem fazê-los, passei a deparar-me com dificuldades
que, por vezes, me pareciam intransponíveis, passei a ter que entregar trabalho
feito (e sem margem para errar) em datas fixas, passei a ter que ir à luta, a descobrir com quem devia falar, quem me podia ensinar, passei a ter que
usar o que tinha aprendido na faculdade mas em grande escala, a ter que tentar
descobrir nas sebentas e livros soluções para os problemas complexos que tinha
pela frente, passei a ter um chefe, a ter colegas e, mais tarde, a ter
subordinados. Passei a trabalhar em equipa, a ser solidariamente responsável
por resultados, passei a participar em reuniões de trabalho, reuniões duras, negociações
complicadas, questões difíceis de dirimir. Mas isso enchia-me as medidas.
E, no meio desta reviravolta, tive os meus filhos e gozei a licença de maternidade e
a licença de amamentação (amamentei os meus filhos ao peito, no caso da minha filha até aos 13 meses - em qualquer lado lá estava eu a dar-lhe de mamar, ela já a andar e falar, parecíamos mãe e filha ciganas), e andava com eles de um lado para o outro, ao colo, pela mão, em transportes públicos, e andava
tantas vezes completamente estourada – e a minha mãe sempre a lembrar-me ‘o disparate’ que eu
tinha feito: 'podias estar descansada, ser professora, e aí andas cheia de preocupações, cansada'.
Ao longo destes anos tive algumas vezes que fazer
noitadas de trabalho, do género de chegar a casa às 4 da manhã, outras tantas vezes a ter que
ficar fora de casa, idas ao estrangeiro, tantos momentos difíceis, com fusões de empresas pelo meio,
reestruturações violentas, extinções de muitos postos de trabalho, discussões,
desafios complicados – mas tudo tem valido a pena.
Houve vezes em que, em reuniões ou momentos de agitação ou discussão, diziam de
mim que, daqueles homens todos, eu era a única que tinha tomates (os homens falam
assim, vocês sabem…). Nunca me senti menos feminina por isso. Sou feminina,
100% feminina, disso não tenho dúvidas. Sou feminina na minha essência e na minha aparência (raramente uso tailleurs de calça e
casaco e nunca com camisas de corte masculino. Pelo contrário usos
frequentemente saia e sempre saltos altos).
Mas o facto de ser assim a nível profissional, não significa que descure as minhas verdadeiras prioridades. Muitas vezes, no trabalho, sabem que não quero ser interrompida – mas
se a chamada for de alguém da família, aí interrompo tudo.
Ontem disse que nunca me senti prejudicada por ser mulher. Mas também nunca fui chamada à atenção para 'ser mulher' porque o sou.
E sou-o na minha maneira de estar profissionalmente. Ouço as preocupações de
toda a gente, sei dos problemas pessoais que têm, aconselho, ajudo no que
posso. Actuo como mulher (tentando consensos quando aconselhável, trabalhando em equipa, estimulando a partilha, não tendo medo de arriscar). Uso da minha franqueza em qualquer situação mesmo quando isso causa
embaraços, ou causa clivagens. Dizem, por vezes, que tenho anti corpos. Sei que
os tenho mas nunca consigo calar a minha consciência - ela fala sempre mais alto
do que qualquer conveniência. E nunca guardo rancores, ressentimentos. Defendo o que tenho a defender e sigo o meu caminho.

Tenho nas minhas amizades e na minha família mulheres que
não trabalham e que acham que eu sou ‘de outro mundo’ porque aparento ser uma
mulher normal e, afinal, trabalho como os homens costumam trabalhar. Mas sou
mesmo absolutamente normal e, geralmente, quando estamos juntas, elas acabam
por se esquecer desta minha ‘particularidade’. Sou capaz de falar de receitas
de culinária, maçadas com a limpeza da casa, problemas médicos, coisas da
escola dos miúdos, lojas onde se vendem coisas interessantes ou a bom preço, e
faço tapetes de arraiolos e já antes fiz tricot ou crochet (porque gosto imenso
de fazer trabalhos manuais), assuntos gerais que interessam a qualquer mulher. Faço tudo o que faz uma mulher que não trabalha fora de casa. A diferença é que faço tudo à pressa e, provavelmente, com menos rigor e perfeição do que se o fizesse com mais tempo. Habituei-me de tal forma a ter pouco tempo para fazer as coisas que, se tenho um dia inteiro para arrumar a casa, fico a empatar, parece que me sobra tempo. Ainda ontem tive que coser uma coisa. Cosi mas de pé, num instante. Se tivesse mais tempo, sentar-me-ia e faria as coisas com vagar. A minha mãe, antes de ter desistido de me educar, dizia muitas vezes que eu fazia 'tudo à pressa e sem preceito'. Mas eu achava que o resultado era o mesmo, portanto estava tudo bem.

E há coisas que nunca estão arrumadas como deveriam: os livros por aqui andam sempre, uns em cima da mesa, outros ao lado do sofá, uma pilha junto à cama, outros fora das estantes; o sítio dos meus sapatos: eterno motivo de paródia. Mas não considero que isso seja grave.
Foi desde sempre uma opção de vida. E sempre me pareceu perfeitamente compatível com a vida de família. Nem nunca senti a tentação de me masculinizar ou de aparentá-lo para melhor me impor.
Em síntese: de acordo com a minha experiência, que cada mulher aja de acordo com a sua vocação, a sua vontade, sem tabus, sem inibições, sem medos. Que aja de acordo com a sua consciência, de acordo com os seus desejos, e com equilíbrio, com uma avaliação das verdadeiras prioridades a cada momento da sua vida.
Quem opte por ficar em casa que o faça por gosto e não por impotência ou por desistência, que o assuma com orgulho e mantendo o interesse em aprender e descobrir sempre novos interesses; quem opte por trabalhar fora de casa, que o faça sem complexos de culpa, que não pense que está a descurar a família ou a casa porque é possível conciliar tudo.
A vida é curta. Não deve ser desperdiçada, não deve ser adiada. Que as mulheres vivam a vida como a querem viver. Que tomem as rédeas da vida nas suas próprias mãos.
Quanto aos homens, volto a dizê-lo: os que são inteligentes, sabem que as mulheres mais completas são as que são verdadeiramente parceiras (seja a nível profissional, seja a nível sentimental, seja a nível sexual ou social). Os que são pouco dotados julgam que as mulheres são seres inferiores, menos capazes, criaturas que nasceram indefesas, que precisam de ser cuidadas e que pouco mais podem do que ficar em casa, de roda do fogão e a coser meias; mas enganam-se nisso, como se enganam em quase tudo na vida. Problema deles, portanto.
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As fotografias são todas de Guy Bourdin (França, 1928 - 1991)
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E tenham, meus Caros, um belo Carnaval. Obviamente não trabalho, é dia de folga e vou aproveitá-lo. Divirtam-se que eu tentarei fazer o mesmo.