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domingo, dezembro 09, 2012

Isabel Millet, a mulher que, de novo, deu vida a Guilhermina Suggia, que está no céu a tocar violoncelo aos pés de Deus. Uma Imagem no Espelho.


Ontem saí mais cedo. Mas agora anoitece muito cedo. Trânsito, noite, falta de lugares para estacionar. Depois de um dia de trabalho, reuniões, avaliações, contratos para rever, telefonemas, eis que me afasto da torre de vidro para procurar um outro mundo.

Venho em contra corrente. 

Chego já perto das seis e meia e logo eu que gosto de ser pontual. Conheço o prédio mas não sabia que ali funciona uma escola de música.

Isabel Millet tinha-me enviado o convite de que aqui também vos dei conta.







Quanto entrei estava a ter início a sessão. Ouvia-se Guilhermina tocando violoncelo. O palco iluminado e, na  mesa principal, ao centro, uma mulher luminosa, sorridente, Isabel Millet. De um dos lados, o Maestro Leonardo de Barros. Do outro, a representante da Chiado Editora, uma mulher jovem e bonita de que não registei o nome, italiana, visualmente toda ela italiana.

O Maestro falou da sua relação com a autora do livro, falou do livro, mostrou fotografias e o seu sorriso e a sua afabilidade revelavam a ternura por Isabel Millet. A editora italiana falou do prazer em editar tão belo livro.

Depois Isabel falou da sua relação com Guilhermina.  A sua mãe foi Isabel Cerqueira, aluna, discípula e amiga de Guilhermina. Não tendo filhos, Guilhermina deixou a casa (justamente na Rua da Alegria, nº 665) em herança a Isabel Cerqueira. Foi, pois, na casa que tinha sido de Suggia que Isabel Millet, filha de Isabel Cerqueira,  cresceu. Quadros, móveis, cortinados, tudo naquela casa lembrava Guilhermina. A mesa onde comia, a cama onde dormia tinham sido as de Guilhermina. Até a empregada Clarinda continuou ao serviço dos Millet.

E foi de sua mãe, uma mulher reservada, algo triste, que Isabel também falou, de como lhe era difícil arrancar recordações sobre Suggia. Mas como ela as evocava, espontaneamente, e como se foram gravando na memória de Isabel que, agora, com este terceiro volume termina a escrita que dedicou à grande violoncelista e à sua casa. E foi assim, dando a voz a sua Mãe, que Isabel escreveu o livro. E dando também a voz a Guilhermina. E mostrando-nos cartas, fotografias, a agenda que, conta, é como uma ampulheta, o registo até ao fim.

A seguir Isabel Millet leu trechos do livro bem como Rute Cardoso, actriz na Casa Conveniente, vestida com peças de roupa de Guilhermina, um belo vestido longo e um casaco quente.



Rute (ou Ruth?) Cardoso lê excertos do livro, e quase parece Guilhermina Suggia


Com uma voz agradável, muito convincente, vestida de Suggia, Rute Cardoso trouxe as palavras da diva que, na penumbra, ouvimos encantados.

Isabel tinha também, para partilhar connosco, duas gravações em que se podia ouvir distintamente a voz de Guilhermina, em duas entrevistas.

Depois leu uma carta de Guilhermina dirigida a Pablo Casals, seu grande amor, pedindo-lhe, em tom humilde, que arranjasse maneira de ir assistir a um último concerto dele. Não chegou a ir, morreu dois meses depois.



Carta de Guilhermina suggia a Pablo Casals
A letra de uma mulher aberta ao mundo, ao futuro
(apesar de escrita a dois meses da sua morte)


je voudrais pas mourir avant de vous entendre, cher Maitre et de vous revoir.

Começa assim a carta, escrita em francês. Para mais fácil compreensão, Isabel Millet leu a carta em português.

Estive bastante doente ultimamente e apesar de me sentir um pouco melhor, não sei se continuarei por muito tempo a minha carreira.

(...)

Espero que compreenda a alegria que me dará ao dizer-me que poderei ir e que terei lugar em qualquer parte para ficar 10 dias perto de sua casa.

(...)

Creia-me sempre sua admiradora dedicada - lembra-se da menina de 11 anos que ia a Espinho para ter lições consigo?

Até breve, espero

Guilhermina Suggia


Seguidamente Isabel Millet leu a parte do livro relativa à morte da diva e, enquanto lia, com voz emocionada, interrompia de vez em quando para, sorrindo, referir particularidades relativas a Guilhermina.

Quando Suggia sentiu que a morte podia chegar a qualquer momento,mandou chamar a grande amiga inglesa, Mrs.Melville:

'Venha depressa', mandou dizer por telegrama.

Mandou chamar a manicura, para que lhe arranjasse e pintasse as unhas; mandou arranjar o cabelo e pediu que lhe passassem bâton nos lábios: já tinha mandado pôr de parte o vestido com que queria que a vestissem. Recomendou que lhe cobrissem as pernas, pois tinha-a por demais inchadas.

Preocupava-se com a cerimónia da sua morte, como se fosse, este, o último espectáculo que dava.

Aconteceu no dia 30 de Julho do ano de 1950, pelas onze horas da noite.

Um pouco antes, havia pedido que lhe deitassem o violoncelo, o Montagnana, a seu lado; pois não era, ele, o prolongamento do seu corpo e da sua alma?

O espírito de Constantino elevar-se-ia, unindo-se ao seu no último momento, pois todos os violoncelos possuem uma alma física e uma alma etérea.

Constantino era o cavaleiro das altas planícies, aquele que trespassava as montanhas e a levava à profundidade das águas.

Pediu, em seguida, a Clarinda que trouxesse uma garrafa de champanhe e servisse todos quantos estavam presentes. E que se servisse também a si própria, e a ela, Guilhermina Suggia.

E celebrou, assim, este grande acontecimento.


Isabel Millet leu, por fim, uma notícia saída tempos antes e que, naquele contexto, vinham muito a propósito:

A violoncelista, a divina, a única, a incomparável, criou para seu uso uma constelação e também uma janela aberta para a terra inteira. Só lhe faltam as asas de anjo para poder subir ao Céu e tocar violoncelo aos pés de Deus.



A seguir, Isabel Millet fez servir champanhe.

Apresentei-me, claro, conversámos um pouco, e pedi que me autografasse este novo livro, o terceiro da trilogia Imagem no Espelho, o 'Rua da Alegria Nº 665', a casa de Guilhermina Suggia.



Isabel Millet autografa o livro para mim


Isabel Millet contou-me que a mãe ainda leu o primeiro livro e que gostou, ela que gostava de tão poucas coisas, tinha gostado do livro da filha e Isabel Millet sorria, enternecida, por ter sentido o reconhecimento da parte da mãe, Isabel Cerqueira. 'Já não viu os seguintes. Mas está aqui...' e eu disse que sim. Sabe bem ter a mãe por perto nos momentos importantes da nossa vida.



Os dois livros anteriores da triologia Imagem no Espelho e o último,
autografado para mim, com a dedicatória escrita ao lado da fotografia de Isabel Cerqueira


Ao pegar no livro para autografar para mim, Isabel folheou-o e escolheu a página onde iria descrever a sua dedicatória. Escolheu a página em branco ao lado da fotografia da mãe, Isabel Cerqueira, uma mulher também muito bonita. Sensibilizou-me que o tivesse feito.

Quando saí de lá vinha emocionada. Aquela sala, aquele ambiente, que diferença para o mundo cá fora. Ali tudo era afabilidade, doçura, a ternura dos amigos de Isabel Millet, a sua filha, uma cultura tão interiorizada, um amor à música, à escrita. Tudo tão em contra corrente.

Ali nada era espuma, artificialidade. Se todo o mundo fosse assim, tudo seria tão melhor.


*

Aos que não viram ainda o post abaixo, permito-me sugerir que o visitem para ouvirem uma gravação com a grande Suggia no violoncelo.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

sábado, dezembro 08, 2012

Imagem no Espelho. Rua da Alegria Nº 665, a casa de Guilhermina Suggia. O terceiro livro de Isabel Millet sobre a vida da violoncelista. E o Kol Nidrei interpretado pela grande Suggia. (Momentos de prazer em tempos de guerra)




(...)

A voz de Guilhermina é o seu violoncelo. Os seus dedos - cinco inciados dos mitos gregos - são os portadores da revelação. E o grande auto da vida interior executa-se ritualmente prendendo os homens ao mundo virtual da sua consciência, dos seus símbolos de magua e de extaseamento arrebatador.

Maga, pitonisa ou musa, imagem mediumnica das eternizações orquestrais, cálice branco de sons vagos, errantes que se ocultam sob uma lágrima ou um crepúsculo de amor; evocadora de todas as queixas, de todos os gritos e de todos os extases que a alma das coisas guarda em si no seu segredo musical, Guilhermina Suggia é toda a música do mundo num corpo fragil de mulher.

João de Meira
Diario da manhã
26 de outubro de 1926

Extraído do livro 'Imagem no Espelho III - Rua da Alegria, nº 665', a casa de Guilhermina Suggia, da autoria de Isabel Millet.

A Isabel Millet e ao seu novo livro, voltarei amanhã.

*

A vós, Caros Leitores, desejo um belo sábado.

sábado, dezembro 01, 2012

Hoje, quando eu estava na minha torre de vidro, uma gaivota veio, debaixo de intensa chuva, ver se me convencia a sair de lá para ir voar com ela






Hoje choveu muito, constantemente. Tive um dia relativamente calmo. Grande parte do tempo estive no meu gabinete que, como anteriormente já aqui o referi,  é todo branco e com paredes de vidro. Para introduzir alguma dissonância, junto à mesa de reuniões, tenho um quadro antigo a óleo, com moldura antiga e, num recanto desnivelado, por detrás da minha secretária, tenho uma página do Expresso de há uns anos, que emoldurei. Tem desenhos muito engraçados, a preto e encarnado, e frases sobre a imaginação, a ilusão, a fantasia, a fuga à realidade, o sonho, o brilho, a alegria, a luz – coisas assim. 

A escolha da cor e do mobiliário do meu gabinete não foi minha tal como não é de cada pessoa individualmente, uma vez que todos os gabinetes são iguais. Foi um gabinete de arquitectura que desenhou os interiores do edifício e o mobiliário, e que estabeleceu todos os layouts. 

É tudo branco e transparente. A zona central é um grande open-space. Ao todo não deve haver mais de uma dezena de gabinetes individuais. Mesmo os coordenadores de área estão no open space. Ao princípio as pessoas temiam a barafunda ou a falta de privacidade mas, afinal, não há barafunda nenhuma e todos se habituaram a gerir a sua forma de estar no meio dos outros.

No open space não há divisórias ou móveis altos. Por isso, parece um enorme espaço arejado, claro, muito luminoso. Poder-se-ia pensar que ficaria com ar de laboratório, tudo branco. Mas não. As pessoas vestem-se da cor que querem e isso, parecendo que não, traz muita cor ao espaço. Uma vez tive uma reunião com alguém que nunca lá tinha estado e, como sempre, a reacção foi de admiração, tão grande, tão bonito, tanta luz. Mas depois perguntou-me: as mulheres aqui têm que se vestir de roxo? Fiquei muito admirada, pensava que estava a brincar comigo. Mas não, estava a falar a sério. De facto, eu tinha uma blusa nesses tons, entre o arroxeado e o violeta. Olhei lá para fora, para o open space, e, curiosamente, nesse dia a maioria das mulheres estava vestida nos mesmos tons. Tinha sido uma curiosa coincidência. 

As pessoas que vão lá pela primeira vez ficam agradavelmente impressionadas, tudo tão claro, tão silencioso. É que também não há telefones, pelo que não se houve quase barulho nenhum; e quase não há papel. Ao princípio as pessoas, ao verem que praticamente não há armários, iam tendo um ataque de nervos, onde guardamos as nossas pastas? Mas habituaram-se. Claro que também não há lugar para que cada um ponha vasinhos, jarrinhas, bonecada. Apenas algumas pessoas têm pequenas molduras ou desenhos feitos pelos filhos e arranjam maneira de os ter na sua secretária. 

Os vidros são espessos e não se ouve o barulho da rua mas hoje, tal devia ser a força da chuva, ouvia-se bem. O dia esteve muito escuro. Já que não posso respirar o ar da rua (por segurança e eficiência energética, não existem janelas que se possam abrir), ao menos gosto de usar a luz natural. Mas hoje não foi possível, tive que acender a luz logo de manhã.

Se estivesse em casa, com um casaco de malha quente, à lareira, a ler um livro, abençoaria esta chuva que alimenta as terras e lava as almas. Assim, ali, vejo a chuva que cai lá fora como uma mudança de cenário. 

Num dia tranquilo, sem muitas reuniões, o tempo passa com leveza: vejo e respondo aos mails, toca o telefone, atendo, faço chamadas, entram-me no gabinete, resolvo assuntos, ou vêm pedir-me opinião ou ajuda, ou vêm contar-me coisas não porque sejam relevantes para o trabalho mas porque têm necessidade de falar, de se fazer ouvir, de ouvir uma palavra de apreço. 

No dia a dia do trabalho, mais importante ainda que um ordenado adequado, o que as pessoas mais valorizam é o reconhecimento. E, no entanto, é o que mais escasseia.

Quando em ambiente informal, em que podem conversar à vontade, as pessoas falam nas suas mágoas; e, ouvindo-as, percebemos que as mágoas  residem, sobretudo, na falta de valorização que sentem por parte dos outros, fiz aquilo e nem uma palavra, faço aquilo com todo o cuidado e ninguém dá valor, fazer ou não fazer é a mesma coisa. Pelo contrário, se alguém elogia, que alegria, que orgulho. Uma palavra de estímulo e reconhecimento é a medalha que as pessoas ostentam com vaidade, uma vaidade justa e positiva. Ele disse que estava muito bem feito, ele disse que confia no que faço, que nem precisa de conferir. O bem que palavras assim podem fazer. Tão fáceis de dizer e, no entanto, tão raras. 

Parece que as pessoas estão mais despertas para a crítica negativa do que para a positiva, pelo menos as pessoas portuguesas. Quando trabalho com pessoas de outras nacionalidades constato como estão mais disponíveis para o elogio, para a demonstração de apreço. Os portugueses, em geral, não valorizam o que têm de bom nem demonstram, por palavras e actos, o reconhecimento pelo bom trabalho ou pela correcta atitude dos outros.

(No entanto, aqui neste meu blogue, não me posso queixar disso. Há leitores que me acarinham muito e a quem muito agradeço o apoio que me transmitem).

Mas, voltando ao dia de hoje na minha gaiola de vidro. Chovia muito e eu ouvia, ainda que com um som vagamente remoto, o som das bátegas de água na minha janela. Gosto de ver a água a escorrer nos vidros, gosto de ver as árvores lá em baixo a dançarem ao som do vento e da chuva. 

E então, estando eu a olhar a rua, vi uma gaivota. Não queria acreditar. Uma gaivota ali?




Levantei-me para confirmar mas ela desapareceu. Fiquei à espera, senti que voltaria. Voltou. Um voo largo. Debaixo de um céu carregado e de uma chuva intensa, longe do mar, num local onde só existem edifícios eficientes e assépticos, executivos e técnicos qualificados, uma inesperada gaivota voava, aparecendo e desaparecendo. Voava à volta da torre transparente. Longas asas brancas, peito ligeiramente pintado de mel e cinza, ali andava ela. Queria levar-me com ela, desafiava-me. Pudesse eu abrir uma janela e talvez ela entrasse para me levar ou talvez saísse eu a voar com ela. 

Estão a ler as minhas palavras e talvez estejam a pensar que é imaginação minha, que até aqui estive a falar a sério e que, ao chegar ao fim do texto, me deu para ficcionar, que resolvi enxertar aqui uma gaivota. Mas não. Estou ainda a falar a sério. 

Acho que há uma gaivota que me acompanha, esteja eu onde estiver. Há um pinheiro que é o meu alter-ego, como uma fantástica leitora uma vez me disse, e há esta gaivota que é, talvez, a minha consciência ou a minha alma.


*

Ondas de luz


Testei números
E experimentei fórmulas
Que na sombra do mundo imaginei.

Adivinhas no olhar de crianças,
Rastos de deuses,
Magias de loucos,
Restos de dias,
Sonhos de partidas,
Começos de auroras…

Peneiro no entardecer devagar:
Penumbras remotas
Ao fundo do mar
E ondas de luz
Na praia,
Livres as gaivotas…


Évora, 2012-09-24

José Rodrigues Dias

*

A música lá em cima é All that I wanted de David Fonseca.

*

Hoje quero dar-vos conta de um anúncio. Isabel Millet, autora de um livro sobre Guilhermina Suggia de que aqui vos falei por ter gostado bastante, enviou-me a seguinte mensagem que vos transmito com o maior gosto:

Venho aqui dizer que o lançamento do meu 3º livro sobre Guilhermina "Rua da Alegria nº 665", será no dia 7 de Dezembro, Sexta-feira, às 18h00, na Escola de Música Vecchi Costa, Rua D. Luís I nº 19 - 1º andar. Fica perto de Santos. Vou passar um CD com gravações históricas de Suggia e duas entrevistas, uma de 1945 e outra de 1949. Espero que apareçam! Um GRANDE ABRAÇO!


Aqui fica endereçado o convite que muito agradeço e daqui envio a Isabel Millet os sinceros votos dos maiores sucessos.

*

Antes de me despedir, convido-vos ainda a fazerem uma visita ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje, para assinalar os 77 anos da morte de Fernando Pessoa, tentei partir para abraçar o mundo; mas fiquei. As minhas palavras acompanharam a Mensagem ao som de Froberger que hoje se despediu do Ginjal.

*

E agora é que é. Tenham, meus Caros, um belo fim de semana. 

Parece que vai estar frio. Por isso, não se esqueçam, abracem-se se tiverem a quem e/ou agasalhem-se porque o frio é bom quando estamos quentinhos. E tomara que todos se possam agasalhar (nestes dias de inclemência tenho tanta preocupação pelos mais pobres, que vivem em casas degradadas)


terça-feira, novembro 13, 2012

Estarei certa quando penso que a Frau Angela Dorothea Merkel veio cá às compras? A Fraport e a ANA não terão sido tema de conversa enquanto ela e o embasbacado Passos Coelho degustavam o consommé de aves e o cabrito assado? Não...? Veremos. Adiante. Sobre Guilhermina Suggia, Isabel Millet diz-nos aqui, no Um Jeito Manso, que acaba de sair o terceiro livro da sua trilogia dedicada à violoncelista. Chama-se "Rua da Alegria nº 665", a morada da casa onde Suggia foi viver com o Dr. Carteado Mena quando voltou para o Porto. Muito obrigada e boa sorte, Isabel Millet!


Cheguei tarde a casa. Quase não vi televisão e, cá para mim, não perdi muito. 




Enquanto escrevo, vejo agora uma Angela de casaquinha branca, apressada enquanto andava com Cavaco Silva, provavelmente sabendo que ele ia divergir das suas posições, e depois, nas calmas, toda apoiante das políticas restritivas defendidas 'doentiamente' por Passos Coelho.

Agora vejo o Álvaro que parece que descolou deste Governo, ou desaderiu da realidade em que se insere, ou resolveu fazer um número qualquer que ainda não percebi. Atira-se contra a UE, espadeira contra Bruxelas. Não sei qual é a dele. Nem sei se alguma daquelas coisas é a sério ou se é apenas mais um pastel de nata que lhe anda a sair da cabeça. É tudo de uma tal falta de consistência, tudo desarticulado, não se percebe se há uma ideia por trás do que dizem. Este Álvaro, então, parece que ou não está bom da cabeça ou partiu para a oposição sem perceber que está dentro do governo.

Seja como for, também ainda não percebi bem o que veio a Popota Merkel fazer a Portugal: se veio apoiar Passos Coelho, se veio mostrar-se perante o mundo como sendo apoiada pelos pobres e mal pagos intervencionados ou se, muito pragmaticamente, veio tratar de negócios. Cá para mim, deve ter sido um misto das três mas, sobretudo, da terceira. Vamos ver quem é que vai comprar a ANA. Vamos ver se não será, por acaso, a Fraport, um dos três concorrentes. Não é a empresa que está a oferecer o melhor preço pelo que talvez estivesse a precisar de um empurrãozinho (será que a palavra no diminutivo leva til...? Não me parece, mas não me parece nem de uma maneira, nem de outra), mas de um empurrãozinho especial, um chancelerino empurrão. Eu apoio-te, Pedrinho, eu apoio-te, eu incentivo o investimento alemão, e já sabes que somos generosos nas contrapartidas. E descansa, filho, que eu estarei politicamente ao teu lado para deixarem que isso desconte no défice, aqueles tipos de Bruxelas são uns bananas mas uns bananas maçadores, mas deixa que eu dou um empurrãozinho. E até te ajudo, olaré se ajudo, a fazer um banco de fomento, o jeitão que isso nos vai dar, ajudo, então não ajudo? Mas já sabes o que tens que fazer, Pedrinho, tu vê lá, tu facilita. Mas, enfim, isto sou eu a divagar (pois, não acredito que ela o trate por filho).

O país está em saldos, visto de fora é um pequeno rectângulo com uma enorme tabuleta a dizer SALDOS.




Um país de corda na garganta, em que tudo está à venda: as empresas privadas aflitas de tesouraria, as casas, as herdades, a companhia de aviação, os aeroportos, os correios, a água, a televisão, tudo. E os alemães têm liquidez. E têm-na também os chineses, os angolanos, os brasileiros, os colombianos. Não interessa a proveniência do dinheiro, não interessa nada. Passos Coelho, António Borges, Carlos Moedas, Miguel Relvas, Vítor Gaspar querem é despachar tudo, tudo.

Visto de fora Portugal é um país agradável, com um bom clima, um povo hospitaleiro (ainda no outro dia, um alemão que veio trabalhar para Portugal e trouxe a família - simpatiquíssimo, ele, como geralmente o são os alemães civilizados - me dizia que estava encantado, que toda a gente é muito simpática, que já convidaram os filhos para festinhas de aniversário e que os meninos chegaram a casa a perguntar o que quer dizer 'obrigado' porque, na escola, as pessoas estão sempre a dizer 'obrigado'), em que o povo protesta a cantar Lopes Graça, em que, nas manifestações, as meninas se abraçam aos polícias, em que os ordenados baixam, as pensões de reforma baixam, os subsídios de desemprego baixam, em que toda a gente empobrece mas empobrece alegremente, mascarando-se, tocando tambor, fazendo filmezinhos de brincadeirinha e outras brincadeirinhas assim. O local ideal para se investir, o local ideal para se vir tomar conta do que se comprou.

Cá para mim foi disso que a Angela Dorothea veio tratar. Veio às compras.

Mas, aqui chegados, a esta indigência - a esta indigência desavergonhada, um país a portar-se como uma prostituta de beira de estrada, a vender-se barato e sem impor quaisquer condições - uma coisa vos digo: antes aos alemães que aos outros. Mas, enfim, é uma tristeza termos chegado a isto. 




No dia em que nenhuma empresa for portuguesa, no dia em que as equipas de gestão das empresas forem todas estrangeiras, no dia em que sejamos todos tratados como imigrantes na nossa própria terra, o que será de nós?

*

Bom, mas agora não quero falar mais de coisas que me aborrecem tanto, que me preocupam tanto. Vou, antes, falar de uma boa surpresa que hoje tive. 


Suggia e os gatos


Ao abrir os comentários, tinha um comentário de Isabel Millet, a autora do livro Guilhermina e Pablo de que falei aqui há tempos, num texto a que dei o título de  Guilhermina Suggia e Pablo Casals, o violoncelo em todo o seu fulgor e um love affair dos antigos.

Fiquei mesmo surpreendida e mesmo contente. Se forem até lá poderão ler as suas palavras tão agradáveis. Para os mais apressados, permito-me transcrever a parte em que anuncia o lançamento do terceiro livro: 

O terceiro livro foi agora editado. Intitula-se "Rua da Alegria nº 665". É esta a morada da casa, no Porto, para onde Guilhermina e o Dr. Carteado Mena foram viver, quando casaram. Foi nesta casa que Suggia reuniu um grupo de alunos, de que fazia parte a minha mãe e assim se conheceram. Quando Suggia morreu, em 1950, deixou esta casa em herança à minha mãe e foi aí que nasci. Este último livro é mais extenso, pois contém mitas fotografias, cartas, documentos, críticas, artigos, alguns dos quais a cores. Acho que a editora fez um bom trabalho! O lançamento está marcado para o dia 20 de Dezembro, Quinta-feira, às 18h00, no Porto, na escola de música Guilhermina Suggia, na Rua D. Manuel II, perto do Museu Soares dos Reis. Tenciono passar duas entrevistas de Suggia, inéditas.

Haverá um lançamento também em Lisboa, em data ainda não agendada.


Escrever um blogue como eu o faço tem muitos aspectos gratificantes. Desde logo porque, gostando eu tanto de escrever e de partilhar, não podia ter melhor espaço do que este, onde vos falo das minhas ideias, dos meus livros, das músicas de que mais gosto, da minha casa, dos meus gostos, dos meus amores, onde crio histórias que partilho convosco em tempo real. Depois, ao certificar-me de que não cometo erros ao escrever, acabo por descobrir coisas novas, aprendo muito. E, finalmente, porque conheço tantas pessoas, pessoas tão generosas, tão simpáticas, com quem tanto aprendo, que partilham comigo as suas ideias, as suas vidas, as suas dores, as suas esperanças, as suas actividades. Só por isso já esta aventura de aqui escrever já valeria a pena.

Hoje, ao ter lido aqui as palavras da autora de um livro de que eu tinha falado, fiquei mesmo surpreendida, mesmo emocionada. E agradecida, porque nisto de alguém escrever umas palavras dirigidas a uma outra pessoa há sempre muita generosidade. Daí eu ficar sempre tão sensibilizada com todas pessoas que fazem a gentileza de aqui me deixar as suas palavras, nos comentários.

*

Hoje, enquanto estava na fisioterapia, na parte em que não sou eu que faço mas, sim, que me fazem a mim, estando eu, sossegada a ler, comecei um livro interessante, um dos que vos falei aqui no outro dia, Óleo sobre Tela, e tinha resolvido transcrever aqui um pouco de um dos contos para relacionar com alguém de quem já aqui falei noutro dia, Tamara de Lempicka. Mas dado que isto já vai longo e dado que daqui a nada são 2 da manhã, já não o farei (nem vou passar uma vista de olhos pelo que escrevi, pois estou cheia de sono; por isso, se houver muita gralha, por favor, relevem, está bem?). Talvez amanhã.

*

Ainda não é desta que me vou embora... Agora ainda vou convidar-vos a ficarem um pouco mais na minha companhia. Hoje, no Ginjal e Lisboa, continuo com Rameau, magnífico, podem crer, e as minhas palavras hoje estão fogo, nem queiram saber, uma coisa mesmo caliente, e tudo porque um poema de Eduardo Pitta me levou para ali.

***

E nada mais por hoje. desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira!