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sábado, março 23, 2024

Dois meses.
E a vulnerabilidade de Kate Middleton.

 

Há uns anos a minha mãe andava cansada. O meu pai, que mal andava, tinha partido uma perna e tinha sido operado tendo, depois, sido internado numa clínica de reabilitação. Era verão, estava um calor dos diabos, e a minha mãe ia vê-lo todos os dias. Ao fim de semana e uma ou duas vezes durante a semana eu ia buscá-la a casa e íamos as duas vê-lo. Nos outros dias, ela ia de autocarro cuja paragem ainda era um pouco longe. Com temperaturas muito acima dos trintas e tais, era natural que se sentisse cansada. Por isso, não me preocupei assim muito com o cansaço, aconselhei-a foi a não ir todos os dias ou a ir de taxi. Como sempre, não me dava ouvidos e eu aborrecia-me pois temia que se desidratasse, que se esgotasse, não percebia porque, pelo menos, não ia de taxi. Pedia-lhe também que fosse ao médico para ter a certeza que estava tudo bem. E ela protelava. 

Mas um dia ela achou que o cansaço não era normal. Foi ao médico, um médico mais velho que ela e de quem era amiga de há muito -- as consultas demoravam para cima de uma hora, creio que chegaram a duas, ele chegou a cantar (e os outros doentes à seca na sala de espera...) --, e ele mandou-a fazer análises. Não vou entrar em pormenores mas, intuitivo e experiente, de análise em análise, teve uma suspeita e mandou-a fazer uma colonoscopia. Não sei porquê, talvez porque andássemos tão focados no estado complicado do meu pai ou porque não nos ocorreu que alguma coisa muito grave pudesse acontecer com a minha mãe, a verdade é que ela achou que não era preciso eu ir, que ia com a sua vizinha e amiga, sempre presente e disponível. Eu trabalhava nessa altura e tinha querido ir mas a ideia que tenho é que não estava à espera que dali pudesse sair algo de dramático.

Contudo, quando, no dia em que foi fazer o exame, ela me ligou, nervosíssima, a dizer que era melhor eu ir já lá a casa pois tínhamos coisas a resolver, fiquei em choque. Não me quis adiantar mais nada mas percebi imediatamente o que se passava.

Quando lá cheguei, estava lá a amiga que já tinha sido operada umas quantas vezes a cancros e que já tinha várias peças a menos. Um exemplo vivo de que o cancro já não é sentença de morte. A minha mãe estava nervosíssima, preocupadíssima, mas não em pânico. Além disso, o cancro estava em estadio inicial, era o menos grave dentro do que era, e, portanto, as perspectivas eram animadoras, digamos assim.

Imediatamente, a família -- que, como tenho revelado, tem ligações ao mundo da medicina -- pôs em marcha os contactos e quase imediatamente uma cirurgia começou a ser planeada num hospital privado. Felizmente a minha mãe tinha não apenas ADSE como um bom seguro de saúde e, portanto, todo o processo foi muito ágil e sem restrições financeiras.

Mas se a minha mãe estava muito apreensiva, eu, por dentro, sentia-me deveras aflita. O meu pai que, entretanto, teve alta da clínica e estava em casa, acamado, muito dependente, e a minha mãe, que eu julgava saudável, estava com cancro. Contudo, esforçava-me, ao máximo, por não demonstrá-lo para ver se transmitia alguma tranquilidade já que a minha mãe estava igualmente preocupada por ter que deixar o meu pai em casa sem o seu cuidado. Não foi fácil, de facto, toda a logística que teve que ser montada para que o meu pai ficasse bem, acompanhado. Eu ia lá levar todas as compras, transmitir-lhe boas notícias da minha mãe, descansá-lo.

Mas esse esforço, para mim, era o menos. Lembro-me, sobretudo, do medo que senti quando ela foi fazer uma ressonância magnética para ver se o cancro não estava espalhado ou quando fui com ela à consulta com o anestesista ou quando fui levá-la ao hospital para a cirurgia ou quando fui à consulta para saber se havia células cancerosas no tecido linfático que tinha sido retirado juntamente com parte do cólon. Sentia-me em pânico. 

Mas o médico tranquilizou-nos, que estava tudo bem, que tinham retirado tudo e que não havia receios. Disse-lhe, sorridente: 'Disto não vai morrer'.

De facto, ficou bem. Os anos passaram, fazia exames, e estava tudo bem. 

Mas a mim custou-me a ultrapassar o medo que trazia dentro de mim desde a surpresa do diagnóstico de cancro da minha mãe.

Quando, há pouco tempo, se percebeu que se calhar algo de grave estava, outra vez, a acontecer com ela e quando a TAC o confirmou, senti-me esmagada. Andava há cerca de um ano e picos convencida que ela padecia de uma hipocondria extrema e queria que ela se tratasse da ansiedade que isso lhe causava. Na verdade, apesar de ter noventa anos, eu estava convencida que ela ainda teria vários anos de vida pela frente. 

Quando tivemos a certeza de que estava outra vez com cancro e que este estava tão avançado que já não teria muito tempo de vida, já ela estava muito mal, já sem andar, quase sem conseguir falar, sem forças. Portanto, não lhe chegou a ser dito a ela o que tinha pois, apavorada que andava sobretudo com os tratamentos, achando que todos os seus males resultavam dos comprimidos que tomava para o coração, achámos que não deveríamos atormentá-la com este diagnóstico. Contudo, logo depois, por mero acaso, soubemos que, afinal, há cerca do tal ano e picos ela tinha sido insistentemente alertada para o que muito provavelmente tinha e que deveria fazer mais exames e tratar-se, o que não fez e ocultou de todos.

A partir daí viveu pouco mais que um mês. E foi um tormento, um declínio agudo, galopante, rápido, doloroso. Ela sabia o que tinha embora, inicialmente, nesta fase final, continuasse a parecer ignorá-lo. No fim, já falava do assunto, embora nunca tivesse verbalizado a palavra cancro, e mostrava-se aterrorizada com a perspectiva de ir morrer. E isso a mim devastava-me. 

Cada pessoa lida com a finitude à sua maneira. 

A equipa médica e a psicóloga aconselharam-nos sobre a forma de lidarmos com a situação mas devo dizer que foi um período tão intenso e assustador que, apesar de breve, ainda hoje ando a processar.

A minha família e amigos e mesmo a equipa médica tentavam fazer-me ver que, sendo certo que ninguém é imortal, longa vida já a minha mãe tinha tido e que, apesar de tudo, a sua decisão  tinha sido inteligente pois, na idade dela e já com algumas limitações cardíacas, certamente não iria poder suportar terapêuticas agressivas. Assim, viveu autónoma e razoavelmente bem até pouco antes de morrer.

Mas saber que ela tinha um cancro que avançava exuberantemente e que não havia nada a fazer e que cada dia podia ser o último foi uma coisa horrível para todos os que lidaram de perto com a situação e, para mim, talvez ainda mais. 

Pouco tempo antes um amigo e colega tinha sabido que um cancro que ele julgava resolvido tinha reaparecido com agressividade, obrigando-o a radioterapia que, como não resultasse, obrigou, de seguida, a passar para a quimioterapia. Isso fez-me muita impressão. Conversava com ele muito abertamente sobre isso, ele falava dos seus medos e de como ficava abalado e doente depois das sessões. E eu, tão solidária e triste com a doença do meu amigo (e, por via disso, a sentir que tinha a obrigação moral de continuar a trabalhar para lá do que queria pois não ia abandoná-lo nem à empresa numa altura em que ele estava tão fragilizado), não fazendo a mínima ideia de que a minha mãe tinha um cancro dentro dela, comentava isso com ela. E ela nada deixava transparecer. Perguntava-me muitas vezes por ele mas eu pensava que o interesse dela era sobretudo por saber que eu queria deixar de trabalhar mas tinha decidido esperar até que isso fosse possível. Se soubesse o que se passava com o seu estado de saúde, jamais teria conversado com ela sobre isso pois imagino que ficava cheia de medo e, ao mesmo tempo, deveria fazer um grande esforço para eu não perceber.

Faz hoje dois meses que morreu.

Continuo a não encaixar a sua ausência num horizonte temporal coerente. Por vezes parece-me coisa muito recente. Acontece-me pensar que está na hora de lhe ligar ou ter muito presentes algumas observações suas e até me parece quase mentira que já cá não esteja. Mas, noutras vezes, parece-me que a minha mãe viveu numa outra dimensão da minha vida, uma dimensão que já não existe. 

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Imagino o susto e a aflição que igualmente Kate Middleton, jovem mãe de três filhos pequenos, tem atravessado. Vê-la magra, branca, enervada, a falar da sua situação fez-me relembrar os meus medos, os medos da minha mãe. Ou as aflições de uma amiga a cuja mãe foi diagnosticado um cancro também terminal, tinha a senhora cinquenta e tal anos. Ou o susto e ansiedade de uma outra pessoa da minha família. Ou o que se passou com os meus tios. Ou com o meu sogro. Ou com uma tia do meu marido. Ou, há dias, uma amiga a quem foi extraído um nódulo canceroso, supostamente não tendo ficado nada lá que dê preocupação. Ou tantos outros casos. Uns felizmente foram interceptados a tempo e as pessoas ficaram com uma história com um final bem sucedido para contar. Mas é sempre um susto, uma agonia.

Espero que Kate e todas as outras pessoas que estão a atravessar este período de luta em que ainda não se sabe quem vai levar a melhor, se as células benignas, se as células malignas, tenham boa sorte e voltem a respirar de alívio e a viver serenamente.

A vida é curta, bem o sabemos. Mas não precisa de ser curta demais nem de envolver sofrimento.

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Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Boa sorte. Paz.

sábado, março 16, 2024

Onde se fala das manhas do e-Balcão, de um arroz de salmão com mistura mexicana, das ceninhas que envolvem a Kate e demais realeza e dos desatinos do Marcelo

 

Não tenho muito para dizer nem sobre o que se passa no mundo nem, tão pouco, na minha simples e little vidinha.

Posso talvez dizer que começa a ser um padrão: faço uma exposição via e-Balcão e, no dia seguinte de manhã, ainda estou a acordar, liga-me um funcionário das Finanças. Sério. Uma vez mais. Aquilo da impugnação, que ele me tinha aconselhado, afinal não mereceu aprovação por parte dos colegas, ele acha que impugnação é que deveria ser mas não é ele que manda, e, portanto, arquivaram-na e deram o assunto por concluído. Mas já tinha visto que eu tinha mandado uma coisa via e-Balcão e iam responder, se calhar, indeferir mas que eu depois podia reclamar e aí a coisa já ia para um patamar acima e até pode ser que lá mais acima arranjem uma solução. Disse-me ele. Quando, mais tarde, vi a caixa do correio, lá estava um mail da AT dizendo que o assunto tinha sido concluído e que poderia saber como no Portal. Fui ao Portal. Lá estava: concluído. Abri para ver o pormenor: vão examinar e depois logo respondem. 

Espertos, eles. Em vez de colocarem em análise, que é o que, de facto, aparentemente está, até para alguém, lá do serviço, monitorizar quanto tempo os assuntos estão em análise, não senhor, ligam para a pessoa a dizer que vão ler o que mandaram e, mais rápidos que a própria sombra, dão o assunto por concluído. Não me parece lá muito bem.

Houve uma outra coisa que também não correu lá muito bem. Pensei que o tempo estava a levantar e insisti para que estendêssemos a roupa lá fora, no estendal a céu aberto. O meu marido achava que não, que ainda nos arriscávamos a que ficasse mais molhada do que estava ao sair da máquina. Não fui nisso, achei que com aquela pontinha de vento, quando chegássemos a casa, estaria ela seca.

E fomos caminhar. Como se costuma dizer: fui de corpinho bem feito. Nem chapéu de chuva nem impermeável. À fresca e na base da confiança. O meu marido foi mais prevenido. 

Ora bem. Quando estávamos no ponto mais longínquo do passeio desata a chover. Mas a chover... Cheguei a casa toda molhada. Eu e o cão. O meu marido tinha um impermeável, nem por isso. Mas a roupa, no estendal, pingava. Felizmente, o meu marido não me atirou com o tema à cara.

E todo o resto do santo dia foi assim, uma chuvinha contínua não tão forte mas maçadora, molha tolos.

Como não me apetece falar dos assuntos do dia, conto apenas como é que, à falta de melhor alternativa, fiz um arroz de salmão que calhou sair tão bom que comemos ambos mais do que devíamos.

Num tacho coloquei azeite. Cortei grosseiramente duas cebolas que lá coloquei, deixando fritar um pouco, não muito. Juntei salsa e coentros e fui envolvendo e frigindo. Depois juntei umas quatro cenouras médias às rodelas grossitas. Agora não descasco as cenouras, só lavo. Como não tinha tomates frescos, coloquei uma latinha das pequeninas de tomate inteiro. Envolvi, deixei que os sabores se misturassem. Juntei um bocado de água e um pouco de mistura mexicana congelada (tem cenoura, milho, feijões e mais não sei o quê). Misturei ainda quatro bolas de espinafres congeladas. Juntei uma folha de louro e uma haste de alecrim fresco. Juntei um pouco de sal e mais um bocado de água. Depois de levantar fervura, baixei. Ficou ali a cozinhar até perceber que a cenoura estava cozida. Nessa altura juntei água a ferver para, no conjunto ficar com sensivelmente o dobro da quantidade de arroz. E juntei o arroz. Misturei tudo e, por cima, coloquei três lombos de salmão. Juntei também uma maçã, com casca (mas sem o caroçal) aos cubinhos. Depois de levantar fervura, baixei. Quando o arroz ficou cozido, desliguei. Estava feito.

Dá para duas refeições, no mínimo. Se depois de comermos a segunda vez ainda sobrar um bocado de arroz, mexo ovos e, com salada, ficaremos bem.

Tirando isso, que mais?

Só se for para dizer que aquilo lá para os lados da Kate Middleton parece que está complicado. Depois da chatice da cirurgia misteriosa, dizem que aos intestinos, órgão plebeu por natureza, e depois das bocas dos internautas e da population em geral, agora publicou uma fotografia de família que as agências de imprensa mandaram retirar por ter sido mal engenhocada, obrigando a pobrezinha a fazer sair um comunicado a confessar-se amadora na manipulação de imagens, fazendo com que já se pergunte se a monarquia vai aguentar tanto mistério e tanta coisa destas.

O pobre do rei a fazer tratamentos por causa do cancro que se lhe descobriu, a Kate nestas alhadas, o William não se percebe se a tratar da mulher e dos filhos ou a encontrar-se com aquela que dizem ser a sua amante, e Camilla, sem estar para dar mais pão para malucos, foi passar férias a Espanha. Portanto há quem se interrogue se há alguém ao volante. Como se eles, os royals, fizessem alguma coisa para além de aparecerem e serem simpáticos. E eu, republicana até à medula, dou por mim a interrogar-me: é melhor isto ou um Marcelo que só faz o que lhe dá na bolha, aparentemente marimbando-se para a Constituição, para o decoro e para o bom senso?

E, pronto, nada mais tendo a declarar, vou pregar para outra freguesia.

Bom fds, malta.

segunda-feira, novembro 29, 2021

Kate Middleton, Letizia de Espanha, Ursula von der Leyen -
- feridas, com hematomas, desfiguradas, vítimas de violência conjugal

 


É tema que já aqui veio várias vezes. É daqueles que receio sempre não saber abordar por não ser capaz sequer de imaginar o que é uma mulher viver sempre amedrontada na sua própria casa tendo que conviver com um homem que a mantém em permanente estado de alerta, sempre com medo de lhe provocar alguma reação que o deixe zangado, sempre com receio de que, a partir de uma qualquer insignificância, se gere uma situação de violência, seja ela física seja psicológica.

O que será viver sempre no fio da navalha, sempre com medo de uma agressão? Sempre com receio de que os filhos testemunhem uma situação que forçosamente os marcará, Receio de que alguém testemunhe a humilhação a que está sujeita. Receio pela própria integridade física. Receio pela integridade dos próprios filhos. Receio de não aguentar. Receio de não ser capaz de escapar. Receio. Receio e vergonha. Vergonha de assumir a situação, vergonha de que os outros tenham pena, vergonha.

O que será viver assim? Como se consegue viver assim? Como se consegue sobreviver assim, debaixo de uma ansiedade escondida, de um permanente terror?

Nem imagino o que será o carrossel emocional de viver com um homem que ora se faz de infeliz, que arranja desculpas para as suas reacções, que ainda quer receber apoio e comiseração por parte da sua vítima, que pede desculpas e até chora e que, dias depois, por um nada, se vira do avesso, amua sabe-se lá porquê, amua e não diz porque está amuado, um homem que desconfia de tudo, que se vitimiza, que tem ciúmes de tudo e de todos, que inventa pretextos para violentar e agredir aquela a quem dias antes jurou amar para sempre. Nem imagino.

Nem imagino como se consegue tentar ganhar coragem para denunciar a situação sabendo que ele pode vingar-se, pode fazer mal aos filhos, pode fazer chantagem, pode fazer-lhe ainda pior se souber, pode agredi-la ainda mais ao sentir-se acossado. Nem imagino a coragem que é preciso ter quando ele não quer sair de casa e ela não tem para onde ir. 

Nem imagino como se consegue suportar a proximidade física de alguém de quem se teme que um dia lhe cause uma dor irreversível, fracturas, ferimentos, denunciadores hematomas, de alguém que quem se teme que seja capaz de lhe tirar a própria vida. Como se suporta partilhar a intimidade com alguém que deveria estar preso?

Como se consegue dormir e continuar a trabalhar, fingindo que se leva uma vida normal, quando a angústia é uma garra que aperta o coração e destrói a alma?

Como se consegue sobreviver quando já se ultrapassaram mil barreiras psicológicas e já se denunciou a situação e, no entanto, ninguém levou a sério nem tomou as devidas providências?

Como se consegue arranjar coragem para continuar a descobrir forças para proteger os filhos e a família, para que não sofram, para que não vivam aterrorizados? Como se consegue?

E como se consegue continuar a ter esperança quando há polícias que não agem rapidamente e juízes que desculpabilizam os agressores e ainda fazem recair sobre as mulheres-vítimas parte da responsabilidade pela violência? 

O que devemos fazer para, como sociedade, não aceitarmos mais situações testas? O que devemos fazer para criar condições para que qualquer mulher que tenha sido ou receie ser agredida saiba como agir para viver em paz e sossego, livre de ameaças e maus tratos?

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As fotografias foram editadas por Alexsandro Palombo, ao que parece sem ter pedido autorização às respectivas figuras públicas. No entanto, estou em crer que não se importarão. Kate Middleton, Ursula von der Leyen, Letizia, Kamala Harris, Christine Lagarde e outras aparecem em nome de tantas mulheres anónimas de quem só se ouve falar quando são assassinadas pelos companheiros.

Esta série, 'She reported him,' não é a primeira. Já antes tinha feito uma idêntica cujas fotografias foram afixadas nas ruas para denunciar a indiferença com que deixamos que estes crimes continuem a acontecer entre portas. Angela Merkel, Brigitte Macron e outras apareciam igualmente com os rostos desfigurados. 

Todos os anos várias mulheres morrem às mãos dos seus algozes. Mas as que morrem são os casos limites. Por cada mulher que morre, muitas outras sofrem em silêncio, escondendo as agressões, disfarçando os hematomas, sorrindo como se não fosse nada, apenas uma queda sem importância..

Nesta campanha Alessandro tenta chamar a atenção para que não basta incentivar as mulheres a denunciar a situação: há que garantir que o Estado as consegue proteger, amparar, dar-lhes sustento enquanto viverem sob resguardo.

Para quem esteja interessado, poderá ver o artigo no qual tomei conhecimento desta campanha: Kate Middleton défigurée par des hématomes, l’image choc d’une campagne contre les violences conjugales

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Agora que falo nisto, a quem subscreva a Netflix quero sugerir a Maid. É daquelas séries que quem vê nunca esquecerá.

É uma série curta e excepcional baseada em situações reais vividas pela autora do livro sobre o qual se fez a série. Não é uma série negra, não é escancaradamente dramática. É contida, é terna, transporta esperança e mostra como a coragem é uma coisa cheia de riscos e retrocessos mas na qual brilha, ao fundo, uma luzinha que indica o caminho de saída. 

E Margaret Qualley, como Alex, a jovem mãe que foge a um companheiro violento e com problemas de alcoolismo e que, para sobreviver e pagar o seu sustento e o da filha, suporta, com brio, todas as vicissitudes de um trabalho exigente e mal pago, é verdadeiramente excepcional. 

Maid

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Sorte. Boa disposição.

terça-feira, junho 18, 2019

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância






Ao longo do dia, andei de umas para outras sem que nada, durante todas aquelas vastas horas, me tivesse agradado especialmente. Muita reunião, muito roadmap, muito business plan e business case, muita mitigação, muita coisa nessa base e sumo que é bom e eu gosto, pouco e, o que há, fraquinho, fraquinho. Pior: no intervalo, nada. Um compacto de cenas desinspiradas.

Vão rareando as pessoas que me fazem rir ou com quem se consiga ter uma conversa variada sobre temas pouco sérios. Quanto mais pessoas conheço mais me convenço que as pessoas muito sisudas e que só sabem falar de trabalho, por muito que aparentem ser eficientes e ultra zelosas, são, na realidade, umas perfeitas nulidades, fazendo muito bem coisas que geralmente não servem para nada. Acresce que são chatas, muito chatas.

Tenho saudades dos longínquos tempos de grande irreverência, de muito mau comportamento. Tenho saudades de quando me diziam que o meu colega e grande amigo tinha saído do gabinete a apertar a portinhola, isto depois da secretária ter de lá saído segundos antes toda afogueada e sorridente. Tenho saudades dos relatos mirabolantes de um colega que contava histórias inverosímeis e que, quando eu o confrontava: 'Não acredito em nada disso, deve ser tudo mentira' me respondia com ar divertido e gaiato: 'Tudo não, que exagero. Tem um fundo de verdade'. Tenho saudades de quando a minha secretária me contava que tinha pressionado outro meu colega e amigo, dizendo-lhe: 'Se está à espera de ser velho para deixar a sua mulher e vir viver comigo, tire daí o sentido, ou é agora, enquanto somos novos, ou esqueça'.  Tenho saudades daqueles dias divertidos em que a arquitecta que ia comigo ver as obras, saia étnica até aos pés, me dizia: 'Viste como os gajos não tiravam os olhos das minhas pernas? É que a saia é transparente e eu ponho-me em contraluz para os gajos ficarem vesgos'. Tenho saudades daquele presidente, amicíssimo, um mestre, que contava que a vizinha da moradia contígua, no Estoril, era italiana, fogosa e andava nua no jardim... e que ele inventava desculpas para não ficar na casa da cidade, onde vivia com uma namorada vinte e cinco anos mais nova, para ir pernoitar ao Estoril e, mal lá chegado, saltar a cerca e pernoitar com a italiana, sexagenária como ele. Tenho saudades daquele outro colega que, quando chegava à ponta do corredor, dava um salto batendo os pés de lado como se a seguir fosse dançar como o Fred Astaire.
Um paradigma do homem sadio, criado para confiar totalmente nos seus próprios impulsos, graças a uma intensa e jubilosa vitalidade imune ao medo, à má consciência, à malícia e aos expedientes e muletas morais da lei e da ordem que os acompanham.
Eram todos assim, eu a única mulher no meio de um bando de doidos. Mas uns doidos inteligentes, competentes, arrojados, irreverentes, bem sucedidos no seu trabalho, na sua vida. Divertíamo-nos à brava. Só um é que se levava a sério e, portanto, ninguém tinha paciência para ele. Uma vez metemo-nos todos numa bravata que, como todas as bravatas, comportava riscos. Esse tal apertadinho teve medo, acobardou-se, saltou fora. Todos os outros mantiveram-se unidos até ao final, apesar das ameaças, apesar de sabermos que haveríamos de pagar pela nossa insolência (e coragem e coerência). E pagámos, de peito feito, alegres da vida.

O ambiente profissional que conheço, aqui e ali, hoje não tem disso. É tudo muito calculado, muito bem comportado,  muito politicamente correcto, ninguém ousa uma piada mais brejeira, ninguém ousa pisar o risco. Hoje ninguém tem tempo para maluqueiras, anda toda a gente muito ocupada a cumprir objectivos, a atingir os kpi's e a mostrar-se muito eficiente junto do chefe.

Até certa altura, não estava ainda tudo automatizado, não havia mails desde que despertamos até que nos deitamos, não havia telemóveis a levarem o trabalho até nós: e, no entanto, não havia qualquer necessidade de trabalhar até às quinhentas, e, durante o dia, nem sei como, havia tempo para falar de livros, para falar de cinema, para anedotas, para fofocas divertidas, para risotas boas.

Quando penso nisto parece ficção. Ou coisa que aconteceu num outro mundo, numa outra época.

E não sei como é que isto se perdeu. 

Aliás, sei. Houve uma época tenebrosa, dos yuppies, gente muito pseudo-eficiente, gente muito ao sabor de modas, gente que não sabia nada de nada a não ser papaguear jargões em consultês, gente que muito menos sabia da vida, e que apareceu a querer normalizar a diversidade.
Lembro-me de um que apareceu nem sei de onde. Tinha trinta e picos e portava-se como se fosse um grande magnata. Fumava charuto e um dos meus amigos, à socapa, gozava com ele, dizia que parecia aquele bebé, o Baby Herman, semblante autoritário, charuto na boca e... de fraldas. Vi-o depois naquilo dos empresários qualquer coisa de Portugal, que iam refundar Portugal, acho que se chamava Compromisso Portugal. O João Miguel Tavares é que, nessa altura, mesmo andando ainda de fraldas, devia ter aproveitado as causas. Aqueles lá tinham causas. Muito parvalhão acreditou nos el dorados que prometiam amanhãs que cantavam, muito parvalhão lhes deu palco, muitas entrevistas. Muito se assistiu à sua pesporrência fútil e bacoca. O Baby Herman por lá andou a fazer não se sabe bem o quê. Certamente alguém o fez Comendador. Deve ter falido a empresa mas isso não interessa, a memória da malta é curta. 

Mas, enfim, é assim. Os tempos mudam e nem sempre mudam para melhor. E somos todos nós, colectivamente, que deixamos que isso aconteça. Vamos deixando, vamos contemporizando. E, quando damos por ela, o mundo mudou, alagado em mediania... e, quando queremos mudar-nos daqui para um lugar melhor, percebemos que perdemos o pé.

Mas, na volta, sempre assim foi desde o princípio dos tempos: toda a gente sempre a achar que tudo isto não passa de um devir a caminho da nulidade.
Nenhum de nós alcançará a terra prometida: morreremos todos no deserto. O intelecto, como alguém já disse, é uma espécie de doença: incurável.

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Pinturas de Kim Heungsou na companhia de Yiruma com Maybe. Em itálico, excertos de O wagneriano perfeito de Bernard Shaw (incluindo o título)

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Já agora, a propósito de Bernard Shaw, o discurso em louvor de Einstein 
-- e que bom quando as pessoas gostam de rir, de se rir


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E, que nem de propósito, abaixo uma evocação de um mundo transacto, um mundo que já nada tem a ver com este nosso mundo -- um mundo de reis, rainhas, príncipes e princesas, duques e duquesas, caleches e penachos a enfeitar as belezas. Bem podem as ruas protestar e os noticiários falar de brexits, de autodeterminações, de crises políticas, ambientais, sociais que, numa outra dimensão, num tempo que parece pretérito, os soldadinhos vestidinhos com os seus fatinhos bonitinhos continuam a bater o pezinho e a subir as escadas quase aos saltinhos e as realezas continuam a desfilar cheias de capas e capelines. Uma real gracinha.


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E, no meio disto, tudo de bom para vocês: peace and love.

segunda-feira, outubro 15, 2018

O que valeu à Lady Louise é que ia com cuecas da avó.
Imagine-se se aquele golpe de vento revelava um descarado fio dental...



Como não podia deixar de ser, o casamento de Eugenie de York teve alguns momentos fortes. Um casamento das realezas é sempre um acontecimento mediático. Mesmo os republicanos não viram a cara quando uma princesa sobe ao altar. Está certo que todas as noivas, no dia do seu casamento, são umas princesas mas aquelas em cujas veias corre um sanguezinho azul são outra coisa. Não me perguntem porquê porque a minha sabedoria não chega para muito mais nestas matérias.

O pior mesmo foi o vento que ia levando os chapéus, os cabelos, os vestidos e as composturas pelos ares. Os polícias bem tentaram impor algum respeito, ali todos apertadinhos a guardarem o desfile, mas aquela maltinha estava ali mesmo para dar ar à pluma e, com ventinho, a coisa ainda corre mais de feição.


A noiva, que é uma simpatia, ia linda e, para começar, o vestido teve um elemento de surpresa que deixou toda a gente enternecida. Aos doze anos, Eugenie foi operada a um desvio da coluna e o vestido foi desenhado para que a grande cicatriz fosse gloriosamente mostrada. 


Gestos destes fazem mais pela autoestima de quem se envergonha das suas marcas do que mil preleções. É um lugar comum dizer que a beleza de uma pessoa é a que vem de dentro -- e ou se tem ou azarinho, nada a fazer, não há maquilhagem que disfarce a feiura interior -- mas acho que é mesmo verdade. Uma pessoa que se sente bem consigo própria olha em frente, emana uma luz que transporta a beleza. Rugas, cicatrizes, flacidez, peso a mais ou a menos, nada importa quando as pessoas se sentem seguras e disponíveis para ser felizes. Mas, enfim, não são horas para altas filosofias.

Adiante, pois.

Outro momento alto foi a chegada da mãe da noiva que vinha acompanhada pela outra filha. 


Sarah é uma labareda e não me refiro apenas à cor do cabelo. Sarah é excessiva, heterodoxa. Desafiou a disciplina férrea da família, portou-se mal, muito mal, andou às cavalitas de um amante, deixou que ele lhe lambesse os pés. Os tablóides iam dando cabo do coração da sogra com a fogosidade da mulher daquele filho, ele próprio danado para a brincadeira. Mas consta que o ex-marido continua a ser amigo e cúmplice da mãe das suas filhas. Sarah chegou de verde, exuberante, curvilínea, correu a cumprimentar alguém, correu a recuperar o caminho. Apesar de marginalizada pelo inner circle, Sarah mantém-se igual a si própria. Não consegue passar despercebida, nem tenta. E faz ela muito bem.

Claro que o desfile de toilettes e chapéus foi outro acontecimento. Um espanto. Monarquia à mistura com top models e com um toque de Hollywood -- uma inspiração. Ponho-me a ver isto e fico sem vontade de ir comentar a remodelação governamental ou outros funfuns e gaitinhas. Há lá tema mais perfumado do que um royal wedding?
O ministro não sei quê ou a nova ministra que é e não esconde ou a outra que disse o que os outros não disseram ou sei lá que mais... Bahhh. Que discreto charme é que isso tem? Nada. Bola. Usam capelina, elas? Fraque ou casaca, eles? Não...? Então, esqueçam. Não quero saber. O Costa que arrume a casa à vontade que eu não tenho nada a dizer. Acho que faz bem. Também ando numa de remodelações como ontem já disse.

O chapéu de Naomi Campbell era um espectáculo. Aliás todo o outfit era um espectáculo. E ela, linda. Cada vez está mais bonita. Uma verdadeira cougar. Os anos passam por ela com o único propósito de a deixarem melhor. Uma pantera real.

Mas, de tudo, aquilo de que mais gostei foi do chapéu de Poppy Delevingne. Que maravilha. Toda ela estava elegante e divertida. Aquele vestido. Caneco. Lindo. Ousado e lindo. O que eu adoraria poder usar um dia um chapéu assim. Do vestido não digo o mesmo porque teria que ter meia dúzia de quilos a menos e, claro, no mínimo cem anos também a menos. Só tenho pena é de, quando me casei, não haver nada disto. Se fosse hoje, a ver se não ia a bombar numa toilette de deixar todos de olhos em bico.


Por contraste, a mana Cara. Não poderiam ir mais diferentes. A rebelde Cara, que já namorou várias beldades, apareceu com sugestiva toilette masculina e... igualmente divertida.

Mas o momento mesmo inesquecível não foi o da chegada das cunhadas Kate e Meghan e os seus reais e esvoaçantes maridos,




... não foi a graça das crianças que acompanhavam os noivos, príncipezinhos e princezinhas, louros e realmente bonitos (entre os quais, o pequeno George, o possível futuro rei lá do burgo e a mana Charlotte que já revela que herdou o olhar malicioso da sua avó e, tal como ela, também uma real apetência pelo exercício do flirt),


... não foi o da chegada nonagenária Rainha e do seu companheiro de uma vida, ainda ambos bem autónomos, sem bengalas, ainda com energia para aguentar estas cenas que, parecendo que não, cansam, olá se cansam,


... o momento alto foi a subida da escadaria quando Lady Louise Mountbatten-Windsor, que ia a acompanhar as crianças, mostrou mais do que seria suposto. Um desafio. O vento não lhe deu descanso. 


As fotografias e o vídeo (da Madame Figaro) que tenho são mínimos mas talvez dê para ver: umas cuequinhas sem gracinha nenhuma, completamente ao léu. Uma graça de tão desengraçados aqueles culotes. A nobre Lady Louise de cueca à mostra para o mundo inteiro ver. Tanta etiqueta, tanta aula de protocolo, tanta regra, tantas nove horas... e afinal Lady Louise é uma jovem mulher como qualquer outra, usa cuecas e tudo. 

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Bem. E agora que já cumpri com a minha função de serviço público, vou ver as fotografias e os filmes que fiz de manhã e a seguir ao almoço, a ver se se aproveita alguma coisa. Temo que não, estava uma ventania, a voz nem se deve ouvir. E as fotografias não sei. Só se algum flamingo salvar a coisa.

Ou isso ou, se nada prestar, a ver se me ocorre alguma coisa apropriada de que possa falar. E claro que não vou falar das análises do Cagalhoças nem das lições majestáticas do Ex-Vice nem da brutal armadura dos óculos da Judite. Nada disso hoje me assiste. Temos pena.

Só lamento é que não esteja a chover. Nada me inspira mais do que estar aqui e ouvir a chuva a bater na janela. Agora assim. Uma monotonia. Só me apetece mesmo é falar de casamentos reais ou de outras reais pepineiras.

terça-feira, julho 10, 2018

No dia em que a Câmara dos Comuns quase vinha abaixo, na gargalhada, com o elogio de Theresa May ao prestimoso Boris, o famoso Johnson de cabelinho à f...-se, os bifes preferiram foi pôr os olhos nas reais toilettes dos convidados no baptizado de pequeno Príncipe Louis Arthur Charles.
[Mas eu, depois da reportagem, prefiro é deleitar-me com John Bercow, o extraordinário Speaker]


Para que não digam que sou uma aluada (isto os mais brandos, claro, que os outros apodar-me-ão simplesmente de mentecapta -- e estarão todos certos), hoje vou dar uma de comentatriz. 

(Reparem no valentão que dizem ser da Juve Leo
à pancada com um inimigo imaginário. É mesmo mau, ele)
Aqui da parvalheira não tenho muito a dizer. 

Parece que prenderam mais oito juve-leos, alegadamente implicados na saudosa sessão de trolha na Academia de Alcochete. Mas sobre o tema falarei quando chegar o dia. 
O primeiro milho é para os pardais. Sou mais pela caça grossa. Sei esperar.
Tirando isso, não me ocorre mais nada que hoje tenha merecido simultaneamente a atenção da comunicação social tuga e a minha.

Claro que o tema do dia é aquele que, desde há dias, polariza as atenções mediáticas de todo o mundo. Mas, como sempre que alguma coisa me assusta, só falo quando o susto passou. Entretanto, deixo o palco para a bateria de psicólogos, mergulhadores, técnicos da protecção civil et al. que são altamente especializados em resgates de grutas, mormente os que metem mergulho e crianças e que todos os canais de televisão portugueses contratam à mão cheia. Tal como, nos concursos de talentos, sempre pasmo com a quantidade de gente que canta bem, agora pasmo com a quantidade de gente que em Portugal já resgatou crianças e treinadores de futebol de grutas alagadas. 

Mas, dizia eu, não vou falar disso. Não percebo nada do assunto e só quero que tudo acabe em bem. Portanto, nada mais a dizer.

Agora notícia mesmo foi a debandada dos malucos do Brexit do governo da espantadiça e esparvoada Theresa May.
Nada daquilo me assiste e fazem bem os eurocratas em assistirem de galeria à pangalhada que é tudo aquilo. 
Aquela tropa fandanga manipulou os eleitores (com a santa ajuda da defunta Cambridge Analytica), levando os bifes a votar a favor do Brexit e, quando se foi a ver, ninguém fazia ideia daquilo em que se tinham metido. Lembremo-nos que, no dia seguinte, o Google quase foi abaixo com a malta toda a perguntar o que era o Brexit. 

Depois, foi o que se sabe. Para começo de festa, parte da comandita que mais entusiasmada com a campanha andou mal se viu com a obrigação de pôr a cena em prática, deu de frosques. E no governo, então, tem sido uma festa: uns puxam para um lado, outros para outro, outros para nowhere e outros não fazem a mínima.

Hoje meio mundo comenta o simbolismo da debandada do maluco do Boris, aquele Johnson do cabelinho à fornique-se. Eu, por mim, acho que é irrelevante. Não se lhe conhece trabalho que se veja ou ideia que se aproveite. Mas foi ele e mais dois mangas. Acham que a May é muito tiazinha e muito abécula e que os da União Europeia fazem dela gato sapato. Tretas. Sabem todos que a maioria da população não quer sair. Portanto, aquilo já não é um teatro forçado: é, na verdade, uma ópera-bufa.

A única coisa digna de registo a este propósito foi a gargalhada geral do Parlamento quando a tia May resolveu fazer o elogio póstumo dos debantantes, nomeadamente do Boris. Ela a elogiar-lhe a paixão e os outros na maior das galhofas. Uma cena. E das boas.

Mas bom, bom mesmo, foi aquela intervenção do Speaker, moço que já aqui esteve e de quem nunca me canso. O que eu gostava que um dia ainda tivessemos um bacano destes na nossa Assembleia tão bonita mas tão desinteressante. 


A House dos ex-manos bifes pode ser acanhada e sem condições que se apresentem (lembra ao diabo estarem ali todos apertadinhos, uns contra os outros, perna com perna, com os papéis ao colo?) mas é uma festa, um teatro shakespereano.

Mas, enfim, acredito que os britânicos não estiveram nem aí para as macacadas da Théthé e de sua trupe, e quiseram foi ver como se aperaltou a realeza e seus mais chegados súbditos para se apresentarem no baptizado do pequeno Prince Louis, um bebé fofo e querido.


Aqui a comentatriz conta:

Camilla, aquela a quem se imaginam altos dotes em artes não confessáveis -- para tão liminarmente ter passado a perna à Lady Di -- apresentou-se como sempre, com o seu habitual ar meio bardajão-chic e sempre na boa, embora o chapéu quase se lhe enfiasse todo pela cabeça abaixo, uma coisa quase na base do chapéu do D'Artacão.

O eterno putativo candidato a Rei Charles apareceu na boa, como sempre e, também como sempre, a parecer quase da idade da mãe (que, para se preservar para o programa do resto da semana, não deu as caras). E tem a mania de assertoar o casaco e mais valia que não.


A Duquesa de Cambridge, mamãe do três principezinhos, apresentou-se muito bem, muito elegante, muito sorridente -- e desta vez não reciclou nenhuma prévia toilette, deixando as triquitriquiteiras do costume sem fofocas sobre o tema. Dá-me ideia foi que repetiu o toucado mas, como ninguém fala disso, é porque não faz mal. E é bem bonito e um dia que me case a sério, troca de votos com missa cantada e tudo, não me importava nada de me apresentar de virginal e alvo vestido com uma coisa assim na cabeça, com flores de laranjeira e tudo.


O seu marido, o simpático William, cada vez com menos cabelo, apresentou-se de pai amoroso com os dois mais velhos pela mão, a bela e danadinha Charlotte toda coquetezinha, cada vez mais menininha bonita, e o little George sempre com aquele seu delicioso arzinho britanicamente enfadado.


Pippa, a mana do rabo bem desenhado, a tal, se bem se lembram, que quase roubou o protagonismo à mana-noiva-real Kate aquando do casamento dos herdeiros, apresentou-se elegante e pudicamente grávida, a barriguinha discreta sob um vestidinho haut couture. O marido é que se apresentou um pouco esgalgado e com ar precocemente ralado.



O mano de ambas apresentou-se como sempre se apresenta, dandy e bem humorado. A seu lado uma bem humorada amiga com um vestidinho muito Zara, vagamente compensado por um chapelito algo fashion.



Carole Elizabeth, a avó materna de Louis, apresentou-se elegante e decidida as ever, ao lado do seu marido pacholas que mostra muito ter sofrido com aquela mulher e filhas (o filho não lhe deve ter dado trabalho de monta)


A duquesa de Sussex, Meghan de seu nome, apresentou-se elegante, num verde seco discreto e com um chapéu sóbrio e vaporoso que só me dá vontade ter um igual. Dizem que tem as pernas finas demais mas eu acho que lhe ficam bem -- e whatever. Se fosse a peneirenta da Letizia, não faltaria nada para a vermos aparecer com belo pernão, depois de enchertar umas barrigas nas pernas. Mas parece que a duquesa não é dada a isso. Pelo menos so far. O ex-dirty Harry apresentou-se vagamente enfastiado, domesticado comme il fault.


Agora uma coisa é certa: para os batizados os homens da fina flor usam fatos azuis. 

Nos anos mais recentes só fui a dois mas não me lembro de ter visto os homens todos de uniforme azulão -- mas uma coisa deve ser a nobreza britânica e outra a portuga. Ou whatever.

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E termino trazendo aqui, uma vez mais,  John Bercow. 
Love, love, love.

Primeiro dando uma valente desanda no dito Boris Troloró


E a seguir dando um valente chega para lá no azeiteiro-pimpão Trump

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Até já. Tenho aqui um outro tema para tratar:
O sexo entre lésbicas é melhor do que o sexo heterossexual?
Consta que sim.
Mas isso tem tanto que se lhe diga que tenho que arregaçar as mangas.
Ora, com o calor, obviamente já me despi de preconceitos.
Portanto, sem ter como arregaçar as mangas, tenho que ver como deito mãos à obra.
Portanto, se não adormecer antes, já cá apareço para vos contar como é que é.
Senão, paciência.

quarta-feira, junho 20, 2018

Nem sei se são eles que são ousados ou se são elas que os usam de forma ousada





Para que saibam. estou a pé desde muito cedo. Noite, noite. Quando estava a sair, estava o sol, provocantemente encarnado, a erguer-se do seu leito de água, deixando no rio um reflexo luxuoso. Se eu fosse outra, levantar-me-ia todos os dias a esta hora para assistir a tão deslumbrante visão. Se não estivesse com os segundos contados, tê-lo-ia fotografado com a minha mini-mini-máquina. Assim, só tenho a minha palavra. 


Depois disso já fui e vim, uns seiscentos quilómetros a correrem sob os meus pés, mais reuniões e calor. E ainda tenho que ir ver um trabalho para uma reunião amanhã, depois de outra reunião que começa ao rebentar do dia. Portanto, o dia começa bem e assim irá até ao fim, tal como todos os abençoados dias desta semana magana.


Portanto, estou assim como talvez consigam imaginar. Sem vontade de ainda ir trabalhar a estas lindas horas, com preguiça e a inventar pretextos para aqui estar. Enquanto isso, estou a ouvir a Norah Jones, que, sinceramente, não suporto grande movimentação -- e, feita cabeça de vento, a deliciar-me com chapéus. Quem por aqui me acompanha sabe que I love, love, love chapéus e só tenho pena de não conseguir ocasiões para poder apresentar-me com altas produções como as que aqui vos mostro








Quando Portugal ainda não tinha sido tocado pela febre das grandes superfícies comerciais, se calhava ir a uma cidade mais 'avançada' (e antes ia com assaz frequência), não resistia a dar uma circulada no Printemps, nos grandes armazéns Lafayette, no Selfridge ou, mesmo, no El Corte Ingles. Queria trazer sempre coisas para os meus filhos e ali encontrava sempre. Tinham roupinhas lindas da Mothercare quando por cá não havia nada que se comparasse. Agora até estou a lembrar-me de uma vez que trouxe coisas fantásticas de Londres para a minha filha. Perdi a cabeça. Pois, conservadora como era e na idade em que as miúdas querem andar iguais umas às outras, para meu super desgosto e absoluta incompreensão, odiou aquilo tudo e acho que nunca vestiu nada. O meu filho não ligava patavina e vestia o que calhava. Mas, para rapaz, as coisas eram sempre mais normais.


Onde eu inevitavelmente encalhava, quando ia a esses grandes arnazéns, era nos chapéus. Caraças, que loucura. Adorava. Se o meu marido estava comigo, ficava desatinado, já queria que eu trouxesse um qualquer e saísse dali para fora. Mas eu não estava ali para comprar mas sim para me ver com eles. Experimentava os mais espampanantes, a grandes capelines, os discretos com púdica rede.

E, quando chega esta altura, não podendo estar em pessoa naquele sagrado lugar onde todas as ousadias são bem aceites, desloco-me até às fotografias dos mais espectaculares chapéus do mundo, os de Ascot.

E este ano, depois de muito escolher, optaria por este aqui abaixo. Mas, lá está, nem sei dizer se seria por achá-lo o mais lindo de todos ou, apenas, por achar que ficaria lindamente com uma expressão desafiadora como a desta lady que tão bem o sabe usar. Até porque, para quem o não saiba, uma expressão humilde atrofia qualquer chapéu.


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E agora vou trabalhar e a ver se ainda cá volto com um tema muito escaldante

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domingo, maio 21, 2017

Eu é mais chapéus


Para ajudar à festa, a coisa da televisão digital deve estar passada pois não fixa a imagem. Bem, não sei de que é. Antes esse aparelhómetro do que a televisão. Por isso, nem o telejornal vi. Por mim podia ficar ali assim mas o meu marido desligou, diz que não é maluco.

Estive a espreitar as notícias nos jornais e também não descortinei coisa que me apetecesse comentar. Muita banalidade ou déjá-vu. Ou se não é já visto é expectável. Coisa de uma pessoa ficar de boca aberta não me lembro de ter visto.

Portanto, com vossa licença, voltarei aos meus assuntos domésticos.


Não havia na vila, tivemos que ir mesmo à cidade. E na cidade também não foi à primeira. No supermercado só baldalhões. Ia sobrar muita, acaba por se estragar. Vimos um armazém que, ao contrário de alguns em Lisboa que inventam nomes poéticos ou pseudo-americanos para disfarçarem a origem, este não, este fazia-se mesmo anunciar como grande armazém do amigo chinês. Pensámos: tem tintas, de certeza. Pois não tinha. Pronto. Fomos à cidade. 

No fim, estava a apetecer-me ir comer uns petiscos mas fui interceptada nos meus intentos: que não, o meu parceiro queria ainda ir dar uma demão para amanhã dar a segunda e fazer mais não sei o quê. 

Já o fez e já vi que o degrau de entrada da cozinha está todo pintalgado. Não pôs plástico. Diz que é tinta de água, que sai bem. E, se lhe digo muito mais, ainda afina. Portanto espero para ver. No fim, ainda acabo eu a raspar aquilo. Faz tudo a despachar, sem cuidado, mas acha que eu é que gosto de embirrar. A minha esperança é que se encha de brios e deixe tudo limpo. Um muro que pintou  de verde, hoje de tarde, está toda manchado. Já me ofereci para ir lá fazer pinturas, para disfarçar, mas disse-me para eu me deixar de ideias. Enfim. O costume.

Portanto, com isto tudo acabámos de jantar já perto das dez. Também o normal. 

Da cidade chegam boas notícias e isso é que é preciso. Os que estão de boa saúde, aproveitam o bom tempo, os convalescentes convalescem em sossego. Não tarda já está tudo junto e na boa, chatices e sustos para trás, no passado.

E, assim sendo, já que amanhã de manhã tenho cá o homem da serra eléctrica que vem ver comigo afinal por onde é que se corta a azinheira (os cedros e pinheiros do outro lado já foram levemente aparados), não posso deixar-me estar para aqui nisto, senão daqui a nada é madrugada e acabo por nem ao fim-de-semana dormir de jeito.

De tarde, depois de vos ter contado as agruras azuis-alentejo, ainda conseguir ler um bocado. Sobre arquivos de escritores. O de Carlos Oliveira. O de Pessoa. Li trechos sobre os quais pensei que deveria transcrever algumas partes para aqui ficar com elas e para vos mostrar. Mas agora estou com preguiça. Só se for mais daqui a nada.

Pensei que, se eu um dia der em escritora (e não vale a pena rirem porque nunca se sabe, há talentos que apenas se descobrem perto do ocaso da vida; porque não eu, um dia que tenha tempo para me pôr a escrevinhar com tino...?), não vou ter arquivos nenhuns em papel. Não escrevo em papel, parece que não desenvolve tão bem como aqui. Os meus arquivos serão estas coisadas que para aqui vou alinhavando todas as noites. Não há arcas nem baús nem tesouros escondidos. Paperless. Desmaterializada. Tudo a céu aberto.

Agora vou é dizer-vos uma outra cosa: estive a ver as fotografias do casamento de Pippa Middleton, a mana da Kate. Claro está que o tema me deixa indiferente pois não sou dada a seguir os royals, quanto mais as irmãs das royals. Mas há um tema ao qual não sou indiferente: os chapéus. Love, love hats.


Assim de repente não estou a ver, nas minhas redondezas, alguém que esteja para se casar para eu ter pretexto para. Mas lá que bem que me apetecia ter motivo para usar um chapéu do género destes aqui, lá isso gostava. Um dia destes começo a usá-los para ir para o trabalho. Que frustração esta. Tanto que eu sou dada a usar chapéu e cá não há maneira de pegar a moda.

Aquele último, ali acima, com uma flor exuberantemente aberta ao mundo, é espectacular. Já estou a ver-me com ele. Mas onde, senhores, onde...? Terei que me recasar para organizar uma festa à maneira onde faça sentido usar uma obra de arte na cabeça...?

Bem. Adiante que se faz tarde.

Tirando isso, sobre o casamento da mana Pippa que casou com um milionário -- another one, lots of milionários lá por terras de Sua Majestade -- gostei também de ver os royalitos Charlotte e George, ambos umas fofuras de principezinhos.


Quanto ao Prince Harry, não apareceu com Meghan, a sua namorada plebeia e mestiça, e isso certamente desapontou muito boa gente. A mim nem por isso. Estou é mais ralada com a cena da árvore porque já sei que vai ser uma luta.


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Bem, para não dizerem que vieram aqui para nada, deixo-vos com um padre inexperiente a fazer o seu primeiro casamento.


E um casamento a sério


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E talvez até já com coisa que se apresente.

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