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domingo, janeiro 18, 2026

Komorebi

 

Acabei de ter uma grande alegria. Aprendi uma coisa e percebi que, na volta, não sou maluca de todo.

Vou contar-vos. 

Tenho um hábito, coisa muito minha, que me leva a ficar a olhar para os muros, para as paredes, para o chão, e que me deixa encantada. É como se o mundo dito real, palpável, se desdobrasse em vários outros, ao mesmo tempo efémeros e imarcescíveis. 

Se tenho comigo o telemóvel, fotografo. Senão, muitas vezes vou a correr buscá-lo. Dantes usava a máquina fotográfica, mas tantas se estragaram que desisti. O telemóvel serve bem. Então fotografo o que me encanta. 

Mesmo à noite, quando vamos passear com o cão, deixo-me ficar para trás para fotografar. Fotografo a sombra que a luz dos candeeiros projecta nos muros, fotografo as árvores contra o céu escuro, quase a sombra que as árvores nocturnas espelham no céu. 

Esta fotografei há pouco, achei-a linda

O meu marido apressa-me, não lhe parece bem que, à noite, as ruas vazias, e isto já para não falar no frio ou na chuva, eu atrase a marcha, me demore, me deixe ficar sozinha. Dantes perguntava o que é que eu estava a fotografar. Agora já se deixou disso. Quando perguntava, muitas vezes eu respondia: 'Nada'. E não era para ser antipática, era mesmo porque achava que ele não ia achar muito lógico se eu dissesse  que estava a fotografar sombras. 

Tenho incontáveis fotografias disso: a sombra que as coisas fazem. A sombra fugaz. Daí a instantes, a posição relativa das coisas face ao sol (ou ao foco de luz) estará diferente, as sombras estarão diferentes ou inexistentes. Ou se o vento agitar as coisas, a sombra perderá a sua nitidez. Adquirirá então movimento, tornar-se-á fluida, ainda mais lábil.

Não comentava com ninguém, ou até escondia, este meu encantamento. Achava que, se falasse nisso, as pessoas achariam que eu não era boa da cabeça e eu teria dificuldade em rebater, se calhar é mesmo pancada. Se me dissessem que eu estava a enaltecer uma coisa banal, uma coisa a que qualquer pessoa normal não atribuiria qualquer relevância, iria pôr-me a falar da beleza poética do que é imaterial, do que não deixa rasto? Estaria a enterrar-me ainda mais, não é?

Mas eis que agora me aparece um vídeo em que se dá um nome a isto. Komorebi. A luz do sol filtrando-se através das árvores. Ou seja, não apenas não é maluquice minha como até tem um nome. Adorei o vídeo: fala-se sobre o assunto, fala-se da beleza das sombras etéreas, intangíveis, móveis, belas, fala-se do que se pode contemplar em silêncio, do que se pode sentir dentro de nós. 

A beleza do Komorebi: como os japoneses veem a luz filtrada

Komorebi é uma palavra japonesa que descreve a luz solar a filtrar-se pelas árvores.

Neste vídeo, exploramos a beleza do komorebi e como os japoneses veem a luz filtrada não apenas como algo que vemos, mas como uma experiência serena de tempo, natureza e presença.

Das florestas e ruas da cidade à arquitetura, jardins de chá e vida quotidiana, o komorebi revela uma forma delicada de perceção do mundo. Ele lembra-nos que a beleza não exige atenção. Ela espera por ela.

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E bora lá votar.

E um belo dia de domingo

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Sylvia e Ted nas palavras de Frieda, a filha

 

Em tempos vi um filme chamado Mourir d'aimer. Na altura, pensava que não seria possível morrer de amor. E, com o meu lado racional, ainda penso que o amor será o bode expiatório, não a causa directa. Uma depressão não tratada, talvez. Ou um acidente, alguém que, num acto desesperado, quis chamar a atenção mas a quem a coisa correu mal. Acresce que, com o meu lado racional, tendo sempre a pensar que é absurdo alguém subalternizar-se a ponto de que, se a pessoa amada não retribui o seu amor, achar que não vale a pena viver.

Mas, lá está, já a minha mãe, muito dada a ser levada pelas emoções, por vezes me dizia: "Não sei, parece que és demasiado racional...". Ela tirava conclusões a partir de impressões e eu tentava colocá-la no trilho da razão.

Contudo, se há coisa que tenho vindo a aprender é que as algumas das nossas certezas se vão metamorfoseando. Por isso, não posso dizer de certeza absoluta que Sylvia Plath morreu de baixa auto-estima, ciúme exacerbado, depressão profunda ou apenas por sentir que viver sem o seu bem-amado Ted Hughes não fazia sentido. Tinha dois filhos, uma menina de 3 anos e um menino de 1, mas eles não foram suficientes para a prender à vida. Uma história tristíssima.

Tenho também a ideia de que quem vive muito próximo das palavras mais facilmente encontra narrativas em que a dor de perder um amor é de tal forma romantizada que pode justificar toda a espécie de actos extremos. A poesia gosta de mágoas, de desespero, de paixões fatais.

Mas quem sou eu, o que sei eu para opinar sobre um tema tão complexo?

A filha de Sylvia e de Ted entretanto cresceu. E é ela que aqui está, conversando sobre os seus pais, mostrando as suas cartas e objetos que em tempo foram tão íntimos. 

O Amor Extraordinário de Sylvia Plath e Ted Hughes

Neste episódio de Uma Vida Menos Ordinária, Frieda Hughes convida-nos a ir a sua casa para conversarmos sobre as cartas, o amor e o legado duradouro dos seus pais – os gigantes da literatura Sylvia Plath e Ted Hughes. Frieda oferece-nos um olhar íntimo sobre as cartas que Plath escreveu a Hughes logo após o casamento, enquanto estudava em Cambridge, bem como uma incursão no álbum de fotografias da família. Entre estes itens de grande importância histórica, vislumbramos também as alianças de casamento de Ted e Sylvia, receitas de família e o adorado baralho de tarot de Sylvia. Estes artigos e muitos outros foram oferecidos num leilão da Sotheby's de há uns anos, "A sua própria Sylvia: Cartas de Sylvia Plath para Ted Hughes e outros artigos, propriedade de Frieda Hughes"

Desejo-vos uma boa semana

sexta-feira, junho 20, 2025

Podem desmentir-me se quiserem

 

Isto é uma catedral

Gosto agora muito de me sentar no jardim ou no campo, em especial à tardinha, a olhar para o ar, para o céu, para as árvores. 

No jardim há agora um perfume novo, creio que a mistura de várias flores. É um perfume floral, isso sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, doce e íntimo. Os pássaros também gostam. Descem e vêm passear perto de mim, entretendo-se a debicar o que encontram na terra. 

Se estou sob as árvores gosto de as admirar, vendo-as de baixo. Não existiam e foram-se tornando a maravilha que são. E gosto de ver as flores através da luz. Ou a luz através das flores. Parece o mesmo mas não é. 

As nuvens também me cativam. São efémeras como uma aragem. Não têm a noção do tempo nem do espaço, são livres como uma partícula elementar, como uma palavra solta ao vento, como espíritos vogando por aí.

Isto é um deus, e creio que daqueles que não são particularmente santos
(honi soit qui mal y pense).

Muitas vezes tenho um livro comigo mas, se o livro não tem nada que me impressione (e impressionar no sentido em que a luz impressiona a película, nela gravando imagens, sombras, movimentos), fecho-o e deixo-me estar.

Isto é um milagre. Inexplicável. Fruto da inspiração de uma inexistente divindade

Tenho saudades de fotografar com as minhas máquinas fotográficas. Foram-se estragando e, depois, para quê continuar?, já tinha milhares de fotografias. Faz sentido continuar a acumular fotografias? Não vou voltar a vê-las. O que gosto é do momento em que capto a imagem. A partir daí já não me interessam. Agora uso o telemóvel. E vou apagando pois estou sempre a precisar de mais espaço.

Isto é uma obra de arte. Fortuita. Com a vantagem de não ser um Miró 

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Já contei muitas vezes que, quando fazemos as nossas caminhadas nestes dias de calor, mal transpomos e entrada do nosso jardim, sentimos a frescura que nele se acolhe. A temperatura está uns graus abaixo da temperatura fora dele. São as árvores, as trepadeiras, as flores, é o carinho que retêm.

In heaven a mesma coisa. Vou andar lá em baixo e, no meio das árvores, é outra a geografia. 

Em qualquer dos casos, o tempo suspende-se. 

Hoje estava sentada no meio das flores, o cão deitado, os passarinhos a cantar. Pensei que poderia ficar assim saecula saeculorum. Talvez bastasse não me mexer. O mundo à minha volta a girar e eu ali, parte do tempo, imóvel como o tempo, uma partícula imaterial suspensa na infinitude do espaço.

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E para que não protestem com o teor da conversa, para quem prefere temas mais concretos, aqui está um vídeo que poderia muito bem servir de inspiração a quem tem a responsabilidade de melhorar os espaços públicos.

THE MINI FOREST - Rewilding using the Miyawaki Method

Terrell Wong is about to plant 100 trees in her small Toronto backyard, a dense mini forest based on the Miyawaki Method. What at first seems like a simple act soon evolves into a complex story about dirt, lawns, fungus, wildlife, native species, and finally the human brain. An anti-lawn anthem from director David Hartman, The Mini Forest explores this innovative form of afforestation and the importance of restoring the native woodlands that once covered so much of Canada and the World.


Uma boa sexta-feira

sexta-feira, maio 23, 2025

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

 

Dia de intervalo, de pausa, de descanso, de folga. Hoje não quero dissertar, pensar, reflectir, equacionar. Zero, por favor. 

Durante o dia quase não conversámos sobre o que se passou pois não gostamos de falar sobre percepções que não temos como fundamentar. Pelo contrário,  somos racionais, tendemos a ser analíticos, frequentemente assentamos os nossos raciocínios em números. Ora, no caso vertente, tudo o que aconteceu desafia a lógica, a razão, a objectividade. 

Ouvi, há pouco, no Eixo do Mal, o Luís Pedro Nunes dizer que em Rabo de Peixe, terra em que mais gente usufrui de subsídios de subsistência, ganhou o Chega, partido que faz campanha contra os subsídios. Ou seja, os subsidiados votaram em quer acabar-lhes com os subsídios.

E li que em pequenas aldeias em que grande parte da população emigrou, que estão meio desertificadas e sem mão de obra local e que sobrevivem graças aos imigrantes, votaram contra o Chega porque não gostam de imigrantes. Se calhar, preferiam viver em terras desertas, solitárias, sem trabalho, só com velhos à espera da morte. 

E o meu marido viu uma reportagem, numa vila piscatória, em que um homem dizia que, se não fossem os imigrantes, não arranjava gente para poder sair com os barcos e, ao mesmo tempo, que tinha votado no Chega porque estava farto dos imigrantes. Ouve-se isto e só podemos concluir que, para pessoas assim, a lógica é uma batata.

Portanto, num tal quadro de irracionalidade, mais vale pendurar os neurónios ao sol, a ver se arejam, se se vitaminam, e, ao mesmo tempo, dar tréguas ao que sobra da minha inteligência.

No entanto, deixem que junte ainda uma informação. No outro dia, a minha filha dizia que muita gente só tem contacto com a 'informação' -- e vamos pôr aspas e mais aspas a embrulhar a 'informação --, através das redes sociais. E, enquanto falávamos, disse: 'Deixa cá ver como é a presença deles no Instagram'. E lá está: branco é, a galinha o pôs. É que os números falam por si. André Ventura está em todas, gera conteúdo, dá tração ao algoritmo, e, como resultado, tem 581.000 seguidores. Os outros estão a milhas. Por exemplo, Luís Montenegro tem apenas 59.900 seguidores. Pedro Nuno Santos ainda menos, 40.500 seguidores. 

Uma investigação, creio que da CNN, que contratou uma empresa israelita especialista nestas coisas, divulgou que no X, ex-Twitter, cerca de 50 % das contas que promovem o Chega e minam com comentários negativos o PS e o PSD são falsas. Mas, entre falsidades e verdades, o que se pode concluir é que se as televisões andam permanentemente com o Ventura ao colo, nas redes sociais são as vozes dos apoiantes do Chega, sejam eles verdadeiros ou falsos, que se fazem ouvir. E quem não aparece esquece. 

Mas, retomando a minha trégua, antes que os meus fusíveis se queimem todos a tentar encontrar uma solução para isto, hoje resolvi que era holiday. Tenho esperança que, depois da borrasca, venha a bonança e é com essa esperança (uma esperança abstracta e congénita) que vou ter que me alimentar.

E, nesse comprimento de onda, viro-me para as leituras. Como sempre, navego em águas marginais. 

Só o que é diferente satisfaz a minha necessidade de alimento intelectual ou estético. O meu prazer na leitura é encontrar o que me deixe a pensar, o que me divirta ou me enterneça, o que me faça pensar: 'olha, está bem visto', o que me interrompa porque está tão bem escrito que me apeteça fazer uma vénia.

Agora são estes:

Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny (organização, introdução e notas de Laura Mateus Fonseca com um belo prefácio de Bernardo Pinto de Almeida)

A longa estrada de areias - Pier Paolo Pasolini

Hojoki - reflexões da minha cabana - Kamo No Chomei

Tenho constatado, no Instagram (where else?), que há muitos clubes de leituras. Vejo que as pessoas se juntam para comentar o que leem. Mas o que vejo é que comentam livros banais. E, de certa forma, compreendo-as. É que estes livros que estou a ler, por exemplo, seriam diminuídos se um conjunto de pessoas se pusesse a dizer banalidades sobre eles. Mesmo que não fossem banalidades... É que são livros para a gente ler com vagar, apreciar, quando muito ler uns trechos para outra pessoa ouvir também. Mas é para a gente sentir prazer com eles. Só isso. Não é para explicar, descodificar, perceber. Não, não.   

Enfim. Que sei eu? Se calhar sou eu que sou atípica, bissexta, escalena, um número primo, uma letra de um abecedário ainda por desenhar. 

Termino transcrevendo uns versos de Pastelaria, do Cesariny

(...)

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

(...)

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mas vou ainda catrapiscar melhor para depois repiscar um pouco mais (talvez até abusivamente, não é...?), deixando agora apenas o que me dá jeito:

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

Que afinal o que importa é não ter medo

Que afinal o que importa é rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta

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 E hoje o que me apetece ouvir (e ver) é isto:

Bruce Springsteen - Dancing In the Dark


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Boa sexta-feira

quinta-feira, março 27, 2025

O que é um optimista? - É alguém que tem sempre esperança.
E o que é a esperança? - A esperança é a coisa com penas que, empoleirada na alma, canta a melodia sem palavras e nunca pára

 

Simples, não é? 

Claro que os pessimistas não sabem do que estou a falar. Se calhar nunca sentiram esta coisa sem penas empoleirada na alma a cantar melodias sem palavras, e que nunca se cansa.

Está mau tempo? -- O tempo bom não tardará, ouviremos a coisa a sussurrar, sem palavras

Esta pessoa fala sem parar, esgota a nossa paciência? -- Já vai cansar-se, cantará ela, na sua suave melodia.

O populismo e o extremismo pró-fascista estão a alastrar como uma mancha de óleo putrefacto? -- Haveremos de encontrar o antídoto e toda a gente se mobilizará para limpar os estragos, dirá a coisa com penas.

Parece que já não há pessoas interessantes, tão interessantes que a gente deixe tudo para as ouvir? - Deve haver, estão é resguardadas. Mas haveremos de convencê-las a partilhar as suas ideias connosco. Dirá ela, e nos acreditaremos.

Temos dores e sentimo-nos desalentados? - Isso há de passar. E até parece que já nos sentimos melhores.

A esperança é o combustível que move os optimistas, é o oxigénio de que precisam para viver. A esperança não regateia, não cobra, não censura. A esperança está lá. Um ombro amigo, uma mão que se oferece, um sorriso que alenta, a flor que traz a luz quando a nuvem espreita. 


Helena Bonham Carter lê 'Esperança' de Emily Dickinson 
| 365 Poems for Life by Allie Esiri


“Hope” is the thing with feathers -
That perches in the soul -
And sings the tune without the words -
And never stops - at all -

And sweetest - in the Gale - is heard -
And sore must be the storm -
That could abash the little Bird
That kept so many warm -

I’ve heard it in the chillest land -
And on the strangest Sea -
Yet - never - in Extremity,
It asked a crumb - of me.

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Dias felizes para si que me lê

quarta-feira, fevereiro 05, 2025

Segredo

 

Em minha opinião, uma das grandes vozes da poesia. Muitas vezes aqui a tive. É clicar aqui e, depois, ir por aí abaixo, abrindo, lá em baixo, as 'mensagens antigas'. 

O seu prazer em ser mulher, a defesa acérrima do pleno direito das mulheres, pleno direito a todos os títulos, incluindo ao pleno direito sobre o corpo, o uso pleno da palavra ao serviço da poesia, da condição da mulher, do prazer, do amor, da paixão -- tudo isso me encantou desde sempre.

E, depois, a sua intrínseca liberdade. A liberdade do uso íntegro da palavra. Sem medo, sem hesitação, sem inibição ou vergonha. E sem que, com a sua liberdade, embandeirasse em arco. Sem arrogância. Como uma coisa natural. 

Sempre a admirei, não apenas como poeta mas também como mulher.

Estava frágil, em casa, com receio de sair. Além disso, quem se alimenta do amor total a um homem, como ela amou o seu Luís, e da companhia desse homem se vê privada, fica forçosamente debilitada. Chegou ao fim.

Esta terça-feira de manhã tive uma daquelas minhas premonições que até a mim me assustam. Tinha que sair e estava à pressa mas quis ligar o computador. Cá para mim pensei: 'deixa cá ver quem é que morreu...'. E, ao pensar isto, fiquei incomodada. Enquanto o computador ligava, arranjei uma desculpa para um pensamento tão estúpido: pensei que desde já há algum tempo que não aparecia a notícia da morte de alguém do mundo das artes. Mas estava mesmo incomodada, só me chamava estúpida por estar com pensamentos tão parvos. Quando abri um dos jornais, apareceu logo a notícia: Maria Teresa Horta tinha morrido. Só me apeteceu desligar logo o computador. Má notícia. Caraças. 

Enfim. 

Fica-nos a sua magnífica poesia. 

Por exemplo:

Segredo 

de Maria Teresa Horta


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta in 'Minha Senhora de Mim' -1972

sábado, dezembro 14, 2024

O que é a poesia? Para que serve?
Ajuda a cair? Ajuda a voar? Ajuda a pensar? Ajuda a ser?

 

O meu marido não lê poesia. Não lhe dá para isso. Poucas pessoas daquelas com quem me dou leem poesia. Creio que são pessoas demasiado pragmáticas, talvez habituados a uma vida apressada. Ou talvez não. Talvez não se deem tempo para o silêncio, talvez não se deem oportunidade de se apropriarem das palavras e as ajustarem ao seu corpo, à sua mente, ao seu coração. Quando leem um livro, procuram um enredo ou um ensinamento naquilo que leem. Não lhes apetece ler poucas palavras que, em si, pouco dizem. Não dão tempo a que as palavras se expandam para ocuparem espaço dentro de quem as lê.

Eu também nem sempre estou disponível para a poesia. E também sou muito niquenta. Muito do que se publica como poesia parece-me um disparate, quase uma afronta. Mas muitas vezes o problema é meu.

No outro dia li um livro de um poeta premiado. Fui lendo e ia pensando: 'Caraças? Mas o que é isto...?'. Parecia-me uma coisa vazia, sem sentido, sem beleza, sem apelo.

Há dias voltei ao mesmo livro. E dei-me tempo. Aquelas palavras falaram comigo. Li de outra maneira. Afeiçoei-me aos poemas.

E depois há outro aspecto, a forma como se lê (mesmo que em silêncio). 

Quando ouço ler, também muitas vezes não gosto de ouvir. Um tom muito empolado, muito arrastado, muito forçado, a pretender a grandiloquência causam-me enjoo, sou forçada a desligar, não consigo ouvir. Uma pessoa que gosto muito de ouvir é a Helena Bonham Carter. Há entre ela e as palavras que escolhe ler uma simbiose virtuosa. Por exemplo, o poema abaixo. Que maravilha.

Helena Bonham Carter lê Love after Love de Derek Walcott

quarta-feira, dezembro 04, 2024

Maria Teresa Horta na lista da BBC das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras
- Uma notícia surpreendente e fantástica --

 

Admiradora que sou de Maria Teresa Horta, considerando-a das melhores poetas portuguesas e uma mulher lúcida, franca, inteligente e informada, claro que fico muito contente.

Transcrevo parte do artigo do Expresso cujo título puxei para título deste post:

A lista "BBC 100 Women" deste ano inclui nomes de pessoas mais conhecidas, como a atriz norte-americana Sharon Stone, a artista britânica Tracey Emin, a sobrevivente do caso de violação em França Gisèle Pelicot e a iraquiana Nadia Murad, vencedora do Prémio Nobel da Paz.

As brasileiras Lourdes Barreto, ativista pelos direitos das prostitutas, e a ginasta Rebeca Andrade e a bióloga Silvana Santos também estão na lista, que teve em conta a imparcialidade e a representação regional.

A BBC salienta que, ao longo do ano, as mulheres "tiveram de se esforçar muito" para encontrar novos níveis de resiliência e enfrentaram "conflitos mortais e crises humanitárias" em Gaza, no Líbano, na Ucrânia ou no Sudão e testemunharam a "polarização das sociedades após um número recorde de eleições em todo o mundo".

A equipa do BBC 100 Woman elaborou a lista com base em nomes recolhidos através de pesquisas e sugeridos pela rede das 41 equipas linguísticas do Serviço Mundial da BBC, bem como pela BBC Media Action. Todas as protagonistas femininas deram o seu consentimento para aparecerem, e não são apresentados por uma ordem específica.

A escritora portuguesa Maria Teresa Horta tem sido amplamente premiada ao longo da sua carreira literária, destacando-se, só nos últimos anos, o Prémio Autores 2017, na categoria melhor livro de poesia, para "Anunciações", a Medalha de Mérito Cultural com que o Ministério da Cultura a distinguiu em 2020, o Prémio Literário Casino da Póvoa, que ganhou em 2021 pela obra "Estranhezas", e a condecoração, em 2022, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Nascida em Lisboa em 1937, Maria Teresa Horta frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi dirigente do ABC Cine-Clube, militante ativa nos movimentos de emancipação feminina, jornalista do jornal A Capital e dirigente da revista Mulheres.

Como escritora, estreou-se no campo da poesia em 1960, mas construiu um percurso literário composto também por romance e conto.

Com livros editados no Brasil, em França e Itália, Maria Teresa Horta foi a primeira mulher a exercer funções dirigentes no cineclubismo em Portugal e é considerada um dos expoentes do feminismo da lusofonia.

Sendo presença bastamente presente neste meu espaço, aqui fica o link para todos os posts em que falo dela

E muitos parabéns à Maria Teresa Horta!

quarta-feira, outubro 16, 2024

Tomar o destino nas mãos.
Fazer reviver um solo morto
Mudar o clima
Sentir como suas as palavras: I am the master of my fate. I am the captain of my soul.

 

Hoje, por aqui, chove que dá gosto. Por isso, talvez não seja o melhor dia para falar da falta de água, de solos desidratados, sem vegetação e, logo, sem vida animal, terras desertificadas, populações em êxodo. Mas sabemos que é essa a progressão em curso -- a menos que saibamos perceber a natureza, respeitar e guardar o que a ela dá, aprender a o milagre da regeneração.

Transformar terras áridas em solos férteis é daqueles projectos que penso que deveriam ser amplamente divulgados, financiados, acarinhados.

O vídeo abaixo explica bem o que está a ser feito por aquelas bandas, a alegria que traz à população, a esperança que traz, o futuro com que poderão sonhar. Querendo, podem pôr-se legendas em português, embora apenas de autotradução automática, ou seja sem grande qualidade. Ainda assim, faço questão em partilhá-lo.

A genius way to restore dead soil

Soil is vital for plant growth, supports biodiversity, filters water, and keeps ecosystems balanced. But in Kenya, worsening droughts have left the soil damaged and dry, threatening both nature and local communities.
In our 20th Planet Wild mission, we're supporting a surprisingly simple method to help transform these barren lands into thriving ecosystems. 
A special thanks to Dr. Rob Thompson / University of Reading for providing us with additional footage.
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Invictus

I am the master of my fate. I am the captain of my soul.


sábado, setembro 14, 2024

Celebridades, poemas reunidos, um diário incontínuo, mulheres e homens corredores

 

Estava na farmácia, deambulando por entre os expositores, tentada por mil promoções -- protectores solares, cremes para prolongar o bronzeado, sprays para hidratar o cabelo, colagénio sob todas as formas -- quando entrou um homem jovem, bonito, de óculos escuros. Olhou para mim, sorriu e cumprimentou-me muito bem.

Disse-lhe boa tarde, disfarcei mas fiquei ali parada, a fazer de conta que estava a ver os produtos e a puxar pela cabeça. De onde é que ele me conhecia para me cumprimentar assim? Conhecê-lo-ia eu também?

Depois chegou a minha vez. Fiquei num balcão. Depois chegou a vez dele e ficou num outro balcão, um pouco afastado. A funcionária foi lá para dentro à procura do que eu tinha pedido e aproveitei para olhar de soslaio para o jovem. Estava a ser atendido por uma técnica que se derretia em sorrisos. Ouvi então a voz dele. E, de súbito, fez-se-me luz: um conhecido, super-super-conhecido cantor! Na volta, cumprimentou-me por achar que eu o tinha reconhecido. 

E, como quase sempre, quando a gente os conhece da televisão, ao vivo constata que têm uns palmos a menos. Não que seja baixo, não é, nem isso interessa para nada, só que não é tão alto como o imaginava. Mas não foi por isso que não o reconheci. Não reconheci simplesmente porque sou despistada. E provavelmente estas pessoas muito conhecidas pensam que toda a gente os reconhece.

Também acontece cruzar-me com uma outra pessoa muito conhecida que passa por aqui a correr. Ao contrário de muitos e muitas corredoras que por aqui passam, cumprimenta sempre com um sorriso. Acho simpático. Mas na primeira vez também só o reconheci já ele devia ir a uns bons quilómetros. Tinha-me parecido que o conhecia e não me lembrava de onde.

Quando para aqui vim morar, estranhava muito que toda a gente se cumprimentasse. Agora também eu já faço o mesmo. 

Claro que isto é exequível quando nos cruzamos com poucas pessoas. 

Por exemplo, hoje almoçámos no centro de Lisboa. Deixámos o carro no parque subterrâneo ali perto e andámos um pouco numa das mais movimentadas avenidas da cidade. E obviamente ninguém cumprimenta ninguém. Aliás, ninguém olha para ninguém. Uma pessoa daria em maluca se cumprimentasse toda a gente com que se cruza num lugar assim.

Depois de uma vida inteira a viver e a trabalhar em lugares hiper movimentados e a ter que andar todos os dias no meio do trânsito, agora isso já nos incomoda. Aliás, temos sempre vontade de fugir a sete pés da confusão urbana quando nos vemos metidos nela...

Por fim, a seguir ao almoço, e já eram três e tal da tarde, como estava um calorão dos diabos, em vez de passearmos por ali, acabei por procurar o fresquinho de uma livraria. 

Comprei os 'Poemas Reunidos' de Pedro Mexia e o 'Diário Incontínuo' do Mário Cláudio. 

De tarde, já estive a ler o poemário do Mexia e agradou-me sobremaneira. É uma poesia muito honesta e, de certa forma, intensa. Hesito na palavra 'intensa'. É que, por vezes, a poesia dele pode até parecer leve. Mas eu leio-a como muito sentida, muito despojada, reduzida ao essencial, por vezes bastante pesada. Muito íntima.

Lembro-me sempre de um meu amigo, grande leitor, que não pegava em poesia e que, para me provar que a poesia é coisa fútil, fazia o exercício de ler um poema como se fosse prosa. E, lida assim, palavras corridas, o melhor poema parecia não mais que um farrapinho de prosa, uma textozinho triste. Ao ler, não fazia as pausas, não deixava que as palavras respirassem, não dava espaço ao silêncio que é essencial para que se sinta a emoção que o poema encerra.

Também já folheei, embora apenas muito pela rama, o diário de Mário Cláudio. Se calhar, também vou gostar de ler. Gosto cada vez mais de ler coisas que a gente sente como muito autênticas. O desfiar dos dias geralmente é assim. Talvez se pareça mesmo com as páginas de um blog (como a Susana o referiu).

E fico-me por aqui. Vou ver se consigo deitar-me mais cedo. Devia mudar o meu ritmo que desafia as ortodoxias circadianas. 

No outro dia, nestas minhas irregularidades do sono, acordei a meio da noite e era de madrugada e continuava sem dormir. E, para meu espanto, por diversas vezes, ouvi passar várias pessoas a correr. Não era várias ao mesmo tempo. Não. Passava um. Passado um bocado eram dois pois ouvia a passada da corrida e percebia que falavam um com o outro. Passado um bocado, outro. Senti-me estupefacta. Ainda nem deviam ser seis da manhã, eu ainda à espera de adormecer, e ali andavam, frescos e enérgicos. 

No outro dia também me surpreendi com outra coisa: fomos passear o cão já a noite estava a cair (o que não é difícil pois os dias estão a mergulhar na noite a um ritmo cada vez mais acelerado) e, às tantas, passou por nós a correr, com calção curtinho, blusinha de alças, um daqueles aparelhos de medições de sinais vitais no antebraço, uma mulher numa velocidade que nos deixou de boca aberta. Às tantas até seria atleta. Eu teria algum receio de andar a passear ao cair da noite sozinha mas aquela mulher não estava nem aí, parecia um carro de corrida.

E, pronto, nada mais tenho a acrescentar. E desculpem se é só isto.

Desejo-vos um bom fim de semana.

segunda-feira, agosto 19, 2024

Pelos seus olhos, muitas mulheres se derretiam. Mas não eram apenas os olhos, era o olhar. E não era apenas o olhar, era tudo.
. Muitas caíram-lhe nos braços e só a custo conseguiram libertar-se.
Depois veio o AVC e perdeu a vontade de viver. Os filhos dividiram-se. Queria morrer, o mundo já não lhe interessava, a vida que tinha já não lhe era querida.
Aqui dizendo tudo: Je n'aime que toi

 

Há um livro extraordinário. O Leopardo. Tem personagens fabulosos. Não sei se Alain Delon é o mais carismático. Mas é o mais bonito. 

Foi ele que disse aquela frase de que tantas vezes me lembro, com vontade de contrariá-la. É preciso que tudo mude para que tudo permaneça na mesma.

Muitas vezes parece que há quem faça de tudo para que nada se altere atirando poeira para os olhos dos saloios (e não somos todos uns saloios?) para que pensemos que estão a ser desenvolvidos esforços para mudar as coisas. 


Lembro-me do Alain Delon em vários filmes. Uns olhos lindos. Aqui, um tour d'horizon sobre a sua careira.

Alain Delon: a look back at the actor's prolific career

Alain Delon, the celebrated actor who starred in a string of classics such as Plein Soleil, Le Samouraï and Rocco and His Brothers, has died aged 88. Identified with French cinema’s resurgence in the 1960s, Delon lent his beautifully chiselled features to parts that included cops, hitmen and romantic leads, working for some of the country’s greatest directors 
 
 French screen star Alain Delon dies aged 88 
 Mesmeric and beautiful, Alain Delon was one of cinema’s most mysterious stars

Em 2029 teve um AVC e tudo mudou. Quando uma vez o vi, lembrei-me do meu pai que, quando percebeu que não voltaria à vida que tinha antes, dizia que queria morrer. Alain Delon também o dizia. 

Antes do AVC fez este trabalho onde lê um poema.

Alain Delon - Je n'aime que toi 


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Uma boa semana a todos

sexta-feira, junho 28, 2024

António Costa no Conselho Europeu. Salve.
Num patamar cá em baixo, muito em baixo, muitos jornalistas e comentadores-minions das televisões portuguesas.
Como antídoto contra a mediocridade de grande parte da comunicação social, a poesia de Manoel de Barros

 

Estou contente com a eleição de António Costa para a Presidência do Conselho Europeu. Penso que a sua inteligência, a sua capacidade de trabalho, a sua energia, a sua boa atitude, a sua determinação e a sua visão serão muito úteis na gestão das suas novas funções. Estou em crer que vai dinamizar e recentrar as atribuições e as responsabilidades do Conselho Europeu.

Mas com tanto comentário em todo o lado a toda a hora nas televisões, maioritariamente com observações entre o ressabiado, o invejoso e o cínico por parte de gentinha que dá ideia que é contratada apenas pela sua mediocridade, já não consigo dizer muito mais. Tem sido uma overdose. Uma pessoa foge e, para onde quer que fuja, lá estão as vizinhas na má-língua. Dá ideia que quem contrata comentadores quer lá ter gentinha maledicente, parva, gentinha que se dá ares de importante, de superior, e que parece que está ali apenas para menorizar quem tem dois dedos de testa.  Claro que aqui e ali lá aparece alguém decente. Mas é uma minoria e, lamento, não justificam o sacrifício da estucha que é ouvir os outros.

Além do mais, levei a segunda dose da vacina contra a pneumonia e estou com o braço muito inchado, encarnado, quente, ultra dorido. Estou com gelo mas, sinceramente, estou bastante incomodada. É que não é apenas no lugar da picada: vai até ao cotovelo. Um desconforto grande. Nem consigo mexer o braço. Caraças. Levei a vacina à hora de almoço de quarta-feira e à noite até estive febril. Quando me deitei, até batia o dente. Um disparate. Agora febre não tenho mas mal mexo o braço. Dói-me, está inchado, quente. A enfermeira avisou que isto podia acontecer mas como avisam sempre e, até agora (vacina contra a gripe,  contra a covid), nunca tal tinha acontecido, nem pensei nisso. Afinal vai lá, vai... Portanto, tenho andado assim e, portanto, não consigo inspiração e disposição para mais que isto.

Agora o que me sabe bem é ouvir palavras humildes, genuínas, bondosas. Poesia de Manoel de Barros.

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Maria Bethânia lê Manoel de Barros - Ruína


Carolina Muait | Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo | Manoel de Barros


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Boa sorte a António Costa

Dias felizes a todos

quinta-feira, junho 27, 2024

Adélia Prado, o feliz Prémio Camões 2024

De vez em quando fico mesmo contente com o Prémio Camões do ano. Este ano foi uma dessas escolhas felizes. Como bem sabe quem por aqui me acompanha, Adélia Prado tem uma voz que muito me agrada. Gosto de escritas desarrumadas, espontâneas, em que as vísceras e as mãos e tudo fala para que as palavras se ajeitem, seja em prosa seja em poesia. Parece que escreve o que lhe ocorre, sem preocupação em 'fazer bonito'. Se calhar até é uma escrita burilada, não faço ideia, mas sente-se que as palavras vieram motu proprio, ninguém as chamou. Escolheram-se umas às outras, e imagino que ela pare para perceber se fazem sentido e, se à primeira vista, parecem não fazer, acredito que ela as deixe lá estar na mesma pois, se não faziam sentido, passarão a fazer.

Já aqui o tenho confessado. De leitora assídua de poesia, agora ando mais distante. Parece que, na actualidade, a poesia perdeu a genuinidade, perdeu o viço, há muita banalidade, muita coisa disparatada sem ponta por onde se pegue.

O meu marido, pouco ou nada dado a poesias, há pouco ia a passar e ouviu na televisão a notícia do Prémio Pessoa. Perguntou-me: 'Essa não é aquela de que gostas muito?'. Disse-lhe que sim. Ele confirmou: 'Uma que escreve umas coisas que não fazem sentido...?'. Confirmei. 

Justamente. A beleza de uma escrita assim está na capacidade de escrever o que os outros não dizem, na originalidade de escrever o que a mais ninguém ocorreria dizer, ou, pelo menos, dizer dessa forma.

Tenho na minha secretária um livro dela. Tenho na mesinha ao lado do cadeirão que está ao lado da janela uma pilha de livros e um deles é dela. Tenho no parapeito da janela ao lado do sofá em que estou outra pilha de livros e um deles é dela. De vez em quando parece que sinto vontade de ler uma coisa inédita. É que posso ler muitas vezes o que ela escreveu que me parece sempre inédito.

Que Prémio Camões tão bem dado, tão feliz.

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No meio da noite

Acordei meu bem pra lhe contar um sonho:
Sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escudo.
Não fosforescia nem cheirava nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
«A ressurreição já esta sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão úmidos vão brotar sinos».
Doía como um prazer.
Vendo que não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei repetir singela.
A palavra destacava-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou
— O que foi? — ele disse:
— As buganvílias…
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela a dormir de novo.

Adélia Prado, Bagagem

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Documentário Adélia Prado: uma mulher desdobrável


Adélia Prado - a vida é mais tempo alegre do que triste



Adélia Prado, a simplicidade de um estilo


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Salve Adélia Prado

quinta-feira, abril 25, 2024

abril que te quero abril

 


Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

[Sophia]

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25 de Abril sempre

quarta-feira, abril 24, 2024

Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não

 

(...)

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das água
para onde vais? Ninguém diz.

(...) 




segunda-feira, março 18, 2024

Despediu-se da vida o Poeta.
Mas nós, que ainda estamos vivos, não nos despedimos da sua poesia.

 

O que é a poesia? Poder-se-ia redigir como se fosse prosa e continuar a ser poesia? Tem a ver com a forma como se lê? As pausas, a melodia da ligação entre as palavras? Ou não, é poesia mesmo quando espera, silenciosamente, que alguém a leia? Ou o que a distingue da prosa são as ideias destiladas, marcadas pelo silêncio e pela intemporalidade?

Não sei.

Que venha alguém defini-la. Eu não sei.

Soube da morte de Nuno Júdice e fiquei abalada. Não sabia que estava doente. Li que morreu de cancro, no hospital. Quem morre assim, creio eu, morre sempre da mesma maneira: a debilidade a tomar conta do corpo, o tempo a esvair-se. Estaria provavelmente no corredor que quase me apetecia apelidar de corredor da morte, aquele em que já não se trata da cura mas, tão-só, do bem estar, do bem-estar possível, do alívio... Provavelmente a família passou pelo mesmo que eu, e provavelmente toda a gente que acompanha doentes nestas circunstâncias, querendo transmitir alguma esperança ou optimismo mas não sabendo como, pois estamos formatados para não mentir, muito menos aos nossos pais ou àqueles que amamos. E ele provavelmente a ver que os familiares queriam encontrar palavras de ânimo e a saber que essas palavras já não faziam falta.

Quando morre uma pessoa que está nessas circunstâncias, aqueles que os amam pensam: 'descansou', 'já não sofre mais'.

Terá acontecido também com ele. Descansou. E o descanso de um Poeta é sempre inegavelmente merecido pois, ao longo da vida, um Poeta semeia, planta, apara, oferece ao mundo poemas que são flores que não morrem, que para sempre acompanharão os que ainda cá estão e todos os outros que vierem a seguir.

Numa sexta-feira, dia 22 de agosto de 2008, pelas 10:26 da manhã, Nuno Júdice escolheu a imagem abaixo e publicou o poema "Domingo no campo". Escolho-o ao acaso entre tantos mas deixo o caminho para muitos outros: A a Z

E leio devagar, devagar, devagar.


Aos domingos, quando os sinos tocam

de manhã, o que neles se toca é a manhã,

e todas as manhãs que nessa manhã

se juntam, com os dias da infância que

nunca mais acabavam, as casas da aldeia

de portas abertas para quem passava,

as ruas de terra batida onde as carroças

traziam as coisas do campo, os cães que

corriam atrás delas, uma crença no sol

que parecia ter expulso todas as nuvens

do céu, e a eternidade desses domingos

que ficaram na memória, com o ressoar

dos sinos pelos campos para que todos

soubessem que era domingo, e não havia

domingo sem os sinos tocarem a lembrar,

a cada badalada, que os domingos não

são eternos, e que é preciso viver cada

domingo como se fosse o primeiro, para

que o toque dos sinos não dobre por

quem não sabe que é domingo.

posted by Nuno Júdice @ 10:36

sexta-feira, março 08, 2024

O mistério da lembrança de tempos felizes

 

Tenho estado a tentar decifrar documentos antigos, imagino que bué antigos, mas em que não encontro nem nomes nem datas nem locais. Se, pelo menos, tivesse os envelopes talvez conseguisse ter alguma pista. Assim, zero. 

Neste caso, o papel usado é espesso e tem marcas que apenas são visíveis em contraluz. Vejo distintamente THOMAR. Se calhar é a marca do papel. Dá ideia que a folha que agora estou a ver foi cortada, não obedecendo a medidas standard. Numa parte do papel, na margem (digamos assim mas que, na prática, se trata apenas da zona em que o papel foi cortado), leio ASSO. Ou seja, deduzo que seja papel de almasso, escrito assim, na grafia antiga. Vejo também um símbolo que deve ser o logotipo.

Pela semelhança com outros de que me lembro de ouvir a minha mãe dizer que eram coisas que vinham da avó dela (minha bisa), o que foi descoberto na quarta-feira pode ser uma de duas: ou poemas que o filho, anarquista deportado, lhe enviava ou parte integrante da correspondência entre ela e os primos. Mas posso estar enganada, pode até ser coisa mais antiga. Não faço ideia.

Quem escreveu, dobrou o papel em três na vertical, mantendo as partes unidas. Ficaram, pois, seis 'tiras' verticais.

Mostro duas dessas 'tiras':



Gostava de saber quem escreveu estes poemas, a quem os enviou, quando, onde. Não percebo porque é que nunca na minha família ninguém deu importância a estas memórias e só agora eu esteja a tomar conhecimento de tudo isto. Só que agora todos os que me poderiam elucidar já morreram. Foram-se todos, várias gerações de permeio, ramos da família que caminharam para o desconhecimento mútuo. E, no entanto, estas folhinhas sobreviveram, estão aqui na minha mão.

Aquela velha questão do sentido da vida dá uma volta sobre si própria quando a gente pensa no des-sentido de tudo quando se constata quão efémeras são as pessoas e quão duradouras são as suas palavras escritas.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Poesia. Paz.

domingo, fevereiro 18, 2024

Ele teve medo de enlouquecer e ela teve que se explicar de uma vez por todas

 

Não vi os debates. Não estava em casa. Estava a tomar conta dos meus meninos enquanto os pais foram jantar fora. Quando me lembrei e eles sintonizaram no canal, estava a pombinha Raimunda a fugir com as penas do rabo à seringa. O tema da Rússia é mortífero para o PCP. Disfarçam a sua incapacidade em demarcarem-se dos crimes de Putin com uma conversa pífia; e com o Raimundo, dadas as limitações que tem exibido, a coisa fica ainda mais confrangedora.

O debate seguinte nem o cheirei.

E, de resto, apetece-me descansar a cabeça. 

Quando Bethânia e Caetano convergem com o espírito livre de Clarice Lispector o resultado só pode ser sublime. E é o que me apetece ouvir.




Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Elevação. Paz.

domingo, janeiro 28, 2024

Falamos junto à luz


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen, em ‘Dia do Mar’


De tarde, chamados pela luz suave e dourada, pelo prenúncio de primavera que nos trouxe temperaturas muito aprazíveis, e, sobretudo, pelo menos pela parte que me toca, pela necessidade de oxigénio, fomos para a beira do rio.

O prazer de andar e conversar num dos lugares bons da cidade, a diversidade de gentes com que nos cruzamos, o sol sobre o rio, a boa companhia, tudo isso é remédio certo para lavar a alma.

Em tempos fotografava pessoas. Adorava. Sentia-me sempre uma observadora clandestina e, ao mesmo tempo, transparente. Já conseguia antecipar os movimentos das pessoas, as suas expressões. Estava de tocaia e, quando a ocasião se proporcionava, disparava. E, aparentemente, ninguém dava por nada.

Tenho muitas centenas ou, melhor, provavelmente, milhares de fotografias de pessoas. Mas depois temia sempre publicá-las pois receava que estivesse a pisar o risco da privacidade. É certo que há mesmo a modalidade de fotografia de rua e muito do que era a sociedade em tempos mal documentados se conhece através do trabalho de fotógrafos de rua. Mas, por via das dúvidas, encolhi-me. E, se não posso mostrar, para quê estar a fazer?

Portanto, agora tento evitar a presença de pessoas. Contudo, por vezes, é impossível deixá-las de fora. Mas, como sempre costumo dizer quando aparecem pessoas nas minhas fotografias, se alguém se reconhecer aqui e não quiser cá estar, bastará que mo diga.

Fomos lanchar ao CCB, depois fui lá tratar de um assunto e, de seguida, fomos passear para a beira do rio. 

O que abaixo partilho é parte da arte de rua que por aqui se pode ver. Escultura de homenagem ao pessoal clínico em tempos covid, a escultura Central Tejo, os big e engenhosos trabalhos da Joana Vasconcelos (se é arte ou gigantes trabalhos que incorporam design e montagem isso não sei), o mural em que vários artistas homenageiam o 25 de Abril, os belos murais de azulejos com poemas de Sophia, o próprio edifício do MAAT que é escultural.

A última fotografia não foi feita hoje nem é em Lisboa. É em Setúbal, no belo PUA, e é uma homenagem a José Afonso. A minha filha estava lá à frente mas, com o corrector, retirei-a. Não ficou perfeito mas como a escultura é algo 'incerta' a modos que disfarça.

Em dias como estes, é bom sair de casa, andar a passear, a laurear, a flanar, a desopilar, a vadiar, a turistar, a espairecer, a espanejar, a dar ar à pluma. Mas, para quem não possa fazê-lo, aqui fica um cheirinho.


























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E vi este vídeo de que gostei e que gostaria de partilhar. Já não é Green Renaissance mas Reflections of Life e são sempre tão tranquilos, transmitem serenidade, a vida a ser vivida com vagar, o contacto com a natureza, o prazer de existir de forma simples.

BELONGING - Finding Connection

Quando somos incompreendidos e sem apoio, é fácil sentir-nos sozinhos, como se não nos encaixássemos no mundo que nos rodeia. Mas algo lindo começa a acontecer quando entendemos que nossa singularidade não é uma falha, mas um motivo de comemoração.

À medida que aprendemos a valorizar e a partilhar os nossos dons individuais, reconhecendo a beleza das nossas diferenças, encontramos uma ligação renovada com o mundo - semelhante à harmonia encontrada na natureza, onde cada elemento contribui para a beleza geral da paisagem.

Inspirando-nos no mundo natural, entendemos que abraçar as nossas diferenças é um presente que podemos oferecer ao mundo, tornando-o um lugar mais bonito para todos que nos rodeiam.

A resposta reside em colmatar lacunas, cultivar a empatia e revelar a vibrante tapeçaria da nossa experiência humana partilhada através do reconhecimento e da celebração da diversidade.

Filmado em Singapura

Com Kathleen Yap


Desejo-vos um bom domingo
Saúde. Serenidade. Paz.