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quinta-feira, dezembro 02, 2021

Parece que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira




Tenho estado a ver vídeos sobre treino de cães. Depois de convivermos durante quase treze anos com uma boxer obediente, meiga, dócil, agora estranhamos este cachorro que tem nos genes a vida no campo, a condução de rebanhos, a largueza e a posse de espaços. A nossa cãzinha nunca nos rosnou, nunca nos mostrou os dentes ou tentou morder. Esta fera peluda tem tanto de amorosa, brincalhona, e querida como de irrequieta, teimosa e, quando sente o seu espaço ou as suas posses ameaçadas, de agressiva.

Não apenas não estávamos habituados como não nos passava pela cabeça que um cachorro nosso, tratado com todo o mimo, pudesse ser assim. 

Por isso, resolvi instruir-me. Depois de estar há algumas horas a ver vídeos acho que amanhã já saberei lidar melhor com as reacções deste bicho maluco. Não é que sejam frequentes estes comportamentos mas, para nós, são inesperados.

Adiante.

Estivemos no campo. A casa gelada, gelada, um frio húmido e cortante. Muito tempo sozinha e temperaturas baixas à noite dão nisso. As casas são como as pessoas: sem convívio, tornam-se frias.

A terra está a rebentar de cogumelos. Muitos, gordos, uns mais exuberantes, outros disfarçados por entre a folhagem ou sob a caruma. O silêncio é apenas entrecortado pelo canto dos pássaros. A caruma está macia, molhada. De longe a longe vê-se um fio de fumo por entre as brumas da serra. A paz. Se há lugar onde me sinto visceralmente ligada à terra é ali, in heaven. As cores douradas e rubras do outono, os musgos, a natureza a seguir o seu curso em plena liberdade.

Estávamos a caminhar por lá, vi um coelhinho pequenino e fofo, deitado de lado, olhos abertos, morto. Ainda bem que o nosso ursinho peludo não o viu. Fez-me impressão. Tenho ideia que há por aí uma doença que dizima os coelhos. Não sei se terá sido isso ou outra coisa. Sozinha teria muita dificuldade em resolver a situação. Viemos para casa e o meu marido foi sozinho, com uma pá, levantar o frágil corpinho e levá-lo para longe, para onde a nossa fera não o alcançaria. 

Estive a ler mais algumas Crónicas do Zonas de Baixa Pressão António Guerreiro. Gosto muito, é inteligente, acutilante, é como se a sua inteligência fosse uma lâmina afiada que não poupa tolos, parasitas, estúpidos, gente convencida, vulgar. Uma inteligência que é, ao mesmo tempo, um radar que localiza ideias, ensinamentos, excertos, instantes. Lê-lo é um prazer. Tenho vontade de assinalar frases para reler depois ou para as trazer aqui mas são tantas que acabo por achar que não vale a pena, mais vale ter sempre o livro à mão, abrir ao acaso e ler. É sempre bom.

Ao fim da tarde, regressámos e fomos a casa da minha filha. A casa já com as decorações de natal, luzinhas acolhedoras. Os meninos contentes. O mais novo, apesar dos chuviscos, ainda andou com o seu afilhado à trela, no pátio. Apesar do tardio da hora, ainda lanchámos na varanda, ao ar livre. É larga e abrigada. Já era de noite e chovia ao de leve mas ali estava-se bem. No fim, a bola peluda nem queria vir, só a correr e a saltar, na maior alegria com os meninos.

As cidades já estão todas natalícias. Olho estas iluminações tão bonitas com alguma nostalgia. Vai ser o segundo natal condicionado. Sempre pensei que nos teríamos visto livres do bicho neste verão uma vez que a população já estaria quase toda vacinada. Afinal, a imunidade que cai ao fim de poucos meses e as novas variantes continuam a trazer as populações no fio da navalha. 

E muitas pessoas convenceram-se que, tendo a vacina, tudo estava bem. Ainda não há muito estive num evento com umas centenas de pessoas. É certo que o espaço era amplo e arejado mas, ainda assim, a concentração era considerável. Raras eram as que estavam de máscara. Devo dizer que, a dada altura, veio uma pessoa ter comigo, alegre, abraçou-me e beijou-me, um beijinho em cada lado, ou seja, face a face, a centímetros de distância. Não tive como evitar. Tive sorte, não calhou. Mas foi um risco daqueles...

E sei de muitas reuniões presenciais em salas sem janelas em que estão todos sem máscara. Não sei o que passou pela cabeça das pessoas para acharem que o risco tinha passado.

Sei que não deve haver alarmismos. Mas há pessoas que, perante a ausência de advertências, relaxam. E uns servem de exemplos ao outros, especialmente os maus exemplos. 

E os casos começam a multiplicar-se. Portanto, estamos outra vez em Dezembro e de novo a curva começa a empinar. Os casos são menos graves mas um caso menos grave pode contagiar alguém a quem a doença bata com força.

Natal assim -- com distâncias de permeio, sem que possamos estar todos, muitos, em volta da mesma mesa, aconchegados à lareira, os miúdos encavalitados uns nos outros e nós, por perto, a vê-los -- parece que não é Natal. Pelo menos, não é bem Natal. 

E apetecia-me um Natal e um Ano Novo à vontade, sem medos, sem máscaras. E apetecia-me estar de férias, não ter horários, não ter compromissos. E apetecia-me não ter preocupações.

Raios partam a porcaria do corona. Quem o inventou, inventou bem inventado. 


E é isto. Tenho ideia que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira. Portanto, menos mal. Já não falta muito para ser fim de semana. 

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Pinturas de Nazmi Ziya Güran na companhia de Bernardo Sassetti & Mario Laginha & Pedro Burmester com 3 Pianos "Souvenirs pas de deux"

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Um dia bom
Força. Coragem. Esperança. 

segunda-feira, junho 15, 2015

Clara Ferreira Alves e José Sócrates -- ou quando uma comentadora mostra a sua inconsistência. Foi no Eixo do Mal e parece que lhe deu uma coisinha má. [E ainda, também a propósito do Caso Marquês e do Preso 44, João Garcia e Rosário Teixeira; e Miguel Sousa Tavares e o Estado de Direito]






Ser-se comentador não deve ser fácil, especialmente para quem leve a coisa a sério. É preciso a pessoa manter-se informada, preservar a sua identidade apesar de ouvir opiniões de um lado e de outro, conseguir discernimento para ver um pouco mais além e ter ideias minimamente originais. Caso contrário, é vê-los feitos papagaios, repetindo-se uns aos outros, ou reproduzindo as notas com que os spin doctors presenteiam os media e amigos.

Devo dizer que costumava ter Clara Ferreira Alves em boa conta. De forma geral, gosto de ler o que escreve e até, salvo alguns excessos despropositados em que manifestamente embala e fala como se estivesse a representar para seu próprio prazer como auto-expectadora, gostava de vê-la no Eixo do Mal.

Mas há um tempo para tudo. Tempo demais a escrever o mesmo tipo de crónicas ou a aparecer no mesmo programa deve causar uma erosão anímica (para não dizer mental -- que é mais que compreensível que aconteça).

São anos a mais a opinar, a opinar por obrigação, sobre assuntos que umas vezes lhe devem interessar mas também sobre outros para os quais não deve estar nem aí.

De vez em quando, parece que já escreve ou fala em piloto automático, já sabe o que produz efeito, e, então, parece que já nem se dá muito ao trabalho de se documentar sobre os assuntos. Dá ideia que já vai na desportiva, acreditando que os anos de tarimba e o inegável carisma devem ser suficientes para ultrapassar alguma impreparação.

No outro dia, a entrevista no Expresso ao Houellebecq -- que li em papel mas que está disponível online --  foi uma desilusão das grandes. Partilho completamente a análise que Mestre Plúvio publicou sobre o assunto. Clara Ferreira Alves parecia estar a exibir-se perante a criatura. Claro que está mais do que na cara que Houellebecq estava morto de tédio, a fazer um frete dos valentes, nada naquela Clara lhe deve ter suscitado qualquer interesse para que despertasse do spleen em que se habituou a afogar-se. 

Uma jornalista armada em expert, cheia de teorias, pronta para fazer a festa sozinha, quase a querer demonstrar que sabe mais da obra dele do que ele próprio, foi nitidamente mais do que ele foi capaz de suportar. Cansado de existir, cansado de gente petulante, cansado de divulgar o livro, cansado de falar sobre o que deveria valer por si, cansado da situação em que vive, via-se que estava era deserto por que ela lhe desamparasse a loja. A entrevista foi uma autêntica desgraça.
E ainda eu não me tinha refeito deste passo em falso de Clara Ferreira Alves, eis que, no Eixo do Mal deste sábado, a vejo em mais uma prestação para esquecer.


(Aqui ainda o Nuno Artur Silva não tinha ido para a administração da RTP; agora é Aurélio Gomes, um charme e uma simpatia, que conduz o programa)


Instada a pronunciar-se sobre a situação vivida por Sócrates -- a insistência na prisão preventiva depois dele ter recusado a pulseira electrónica e sobre os últimos episódios -- Clara foi fiel a ela própria: que o que se passa tem sido um espectáculo mediático, logo desde a prisão e, que, por medo dele, fazem de tudo para o lincharem na praça pública, e as fugas de informação, e tudo o resto que se sabe, e aí foi ela disparada a dizer mal da Justiça e de tudo o que veio por arrasto (e, até aí, a conversa estava consistente com as posições que se lhe conhecem).

E, como se já estivesse sem travões, aí continuou a bela da Clara. Falando das paixões que Sócrates desperta (mas como se isso não se aplicasse a si própria) e dizendo que ele é uma verdadeira rock star, mesmo na prisão, aí continuou ela, desabalada, e, às tantas, de carrinho, já se pronunciava sobre a relação de Sócrates com o dinheiro, já se interrogava sobre se Sócrates, sendo leviano com o dinheiro como era, devia ter sido primeiro ministro numa altura em que o país estava quase na bancarrota, e que mau que era pedir tanto dinheiro ao amigo, e já falava de adjudicações directas e mais não sei o quê.

Ou seja, tendo começado por dizer que todo o processo tem decorrido de uma forma inaceitável, levando a que Sócrates seja condenado na opinião pública mesmo que, de facto, não exista ainda sequer acusação formulada, acabou ela própria a condená-lo sem provas, fazendo fé no que lê no Correio da Manhã e no Sol, e mais do que isso, até já a fazer juízos políticos retroactivos.

Mas a inconsistência não se ficou por aqui.

A seguir falou Pedro Marques Lopes (que, por acaso, até não estava naqueles dias que levam Mestre Plúvio a dizer, com aquela língua afiada e a graça que se lhe conhece, que, por efeito feromónico da vizinhança prolongada vem menstruando cada vez mais sincronizado com Clara Ferreira Alves) que falou com lucidez, denunciando o perigo deste poder justicialista que pode mandar uma pessoa para a prisão sem a acusar de nada, que pode mantê-la presa durante o tempo que entender, que vai alimentando a opinião pública de forma a justificar a prisão e a destruir a vida da pessoa, etc.

E aí, a bela da Clara, entusiasmada, foi atrás do Pedro e já se indignava contra quem condenava Sócrates sem provas, contra isto de as pessoas já darem por provado tudo o que vai saindo para os jornais do costume, etc, etc, e por pouco já parecia ela a mais indignada das pessoas por haver alguém que acredite nisso tudo e condene Sócrates antes sequer dele ter sido acusado (como se não tivesse, ela mesmo, acabado de fazer isso).

Juro: ouvi tudo aquilo perplexa. Que inconsistência: uma coisa e o seu contrário ditas com igual veemência, convicção, como se as suas intervenções fossem consistentes.

Eu sou tolerante com muita coisa, esforço-me por compreender as circunstâncias, o contexto, a cultura, o que for que possa justificar as atitudes das pessoas, mas, juro, tenho muita dificuldade em ter paciência para a inconsistência. E parece que cada vez há mais gente inconsistente: num dia anunciam uma coisa, dois ou três dias já aí estão, lampeiras, fazendo o contrário, ou prometem fazer alhos e, com a maior cara de pau, fazem bugalhos, ou começam uma intervenção dizendo uma coisa e, se for preciso, acabam-na a dizer o contrário. Não tenho paciência. Perco a confiança: como é que se pode acreditar no que dizem se, de seguida, as poderemos ver a dizer ou fazer exactamente o contrário?

Não dá. Risco-as do meu interesse, o meu radar deixa de as assinalar. Desisto delas. Desligo-me. Por isso, Clara Ferreira Alves: bye bye.

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Já agora, sobre o disparate que é este Processo Marquês (e de que as últimas saídas para os jornais, com aquelas indigentes perguntas, dando a ideia que a investigação anda aos apalpões, a atirar barro à parede, sem uma linha de rumo, sem se perceber como é que aquele labirinto ridículo pode acabar), transcrevo, do Expresso, um excerto da última crónica de João Garcia (que passou a Director da Visão) intitulada 'O Tudo ou o Nada':


A caricatura feita a Rosário Teixeira é a do magistrado que pergunta ao suspeito quem lhe fez o fato, como o pagou, de onde veio o dinheiro, onde comprou o tecido e depois pede o levantamento bancário das contas do alfaiate e da retrosaria num 'follow the money' que tem dificuldade em parar. De seguida abre um processo relativo aos sapatos e por aí segue alegremente.

É o que está a suceder na 'Operação Marquês', que passou por Paris, já anda na Venezuela, na Parque Escolar, em casas do Algarve, na urbanização de Vale do Lobo, em viagens a Veneza, na quinta que pôs Duarte Lima nas bocas do mundo, e tudo mais que lhe levantar suspeitas, numa viagem por contas bancárias que parece não ter fim. O caso que envolve José Sócrates não parece estar a ter outra estratégia.

(...) Num processo mediático e que tanta controvérsia suscita, cada dia que passa é um dia a menos para a credibilidade da Justiça.


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E também, já que estou numa de Expresso, transcrevo um pequeno excerto do artigo de Miguel Sousa Tavares a que, muito justamente, chamou 'O Preso 44 e o Estado de Direito':


Uma coisa é a convicção, mesmo que esmagadoramente sustentada pela opinião pública, de que ele é culpado; outra coisa é a prova de tal. Mas, face ao que se tem visto, a questão primeira é saber se José Sócrates alguma vez terá direito a um julgamento isento. E, se for o caso, a uma condenação baseada, não em suposições ou manchetes do 'Correio da Manhã', mas nessa coisa comezinha, chata e difícil de produzir, porém essencial, que se chama provas. O Estado de Direito não é um chá das cinco.

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Caso queiram assistir ao referido Eixo do Mal, deixo aqui o vídeo do programa. A intervenção de Clara Ferreira Alves sobre este assunto começa para aí aos 25 minutos. E daí para a frente é o que se verá.

O Eixo do Mal - vídeo  de 13 Junho 2015



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Talvez porque Clara Ferreira Alves fala sempre com certezas absolutíssimas, como se não duvidasse da sua superior presciência e sagacidade, lembrei-me da gata-Einstein (assim chamada porque deita a língua de fora tal como Einstein aparece numa fotografia célebre), uma gata que se chama Melissa, e que a sua dona, a fotógrafa Alina Esther, gosta de registar na sua pose preferida. É ela que aparece em duas fotografias neste post.

A música, como um sopro de oxigénio, é o Mário Laginha Trio* interpretando o Prelúdio n.20 op.28 de Chopin

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Sobre o funâmbulo francês Philippe Petit, que foi entrevistado para o Expresso por Pedro Mexia, e sobre o que é caminhar sobre o vazio e sobre o que isso tem a ver com religião e sobre as minhas vertigens falo no post abaixo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira. 
Saúde, sorte, amor e dinheiro para os gastos é o que desejo a todos.

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domingo, fevereiro 01, 2015

Leves arabescos vão formando imponderáveis laços pelas nuvens - e mais ninguém existe, mais ninguém.








a ânfora da noite a derramar as suas
golfadas de penumbra no terraço,
os perfumes do vinho, a luz das velas,
cintilações do olhar, também alguma

borboleta mais louca a combinar-se
com surdinas de jazz aos ziguezagues,
e as palavras trocadas, as confiantes,
as incautas palavras, foz do douro,

tantos de tal, inventa-se a penumbra
entre rosas vermelhas de surpresa
e doces risos nela a ressoar
que em leves arabescos vão formando

imponderáveis laços pelas nuvens,
e mais ninguém existe, mais ninguém.






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O poema é 'uma invenção da penumbra' de Vasco Graça Moura in 'O Caderno da Casa das Nuvens'

As fotografias são de Patty Maher

A música é Music Around Circles - Marco Martins e Bernardo Sassetti

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Descendo até à Volúpia de ser o Sonho de Alguém, já a seguir, poderão ouvir Nina Simone nas palavras de Vasco Graça Moura ambos acompanhados pelas fotografias nuas de James Houston.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um domingo muito feliz.

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sexta-feira, outubro 11, 2013

Alice Munro, Nobel da Literatura 2013. "Uma boa mulher" que escreve livros à sua "amada vida". Contos. Palavras simples. O que se esconde por baixo da fina capa da realidade. O prazer de desvendar segredos comuns. O prazer de trabalhar com palavras. Os livros.


Abaixo destes, poderão ver um post barra pesada, daqueles que até dói a escrever e ainda mais a ver as imagens.

Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra. É gostosa. Pelo menos para mim é pois vou falar de uma coisa de que muito gosto: livros.


A música é a condizer com a leveza com que me apetece escrever: 
Jardim de Inverno pela Susana Félix com Pierre Aderne
com participação especial de Mário Laginha




*

Estive a escrever sobre isto num mail para um escritor. Eu acho que é porque, para mim, os sentidos vêm em primeiro lugar mas talvez haja quem ache que é porque eu seja fútil. Seja. Tal como nas coisas que têm a ver com a orientação sexual ou com a minha preferência por morenos, há coisas que são porque são, não carecendo de explicação.

Falo agora, então, de livros. Não é a primeira vez. É um tema que muito me agrada. E já verão onde quero chegar.

Livros, portanto. Começo logo pela capa. De alguns nem me aproximo. Nem me ocorre qualquer dúvida. Se aparecem fotografiazinhas de carinhas larocas, céuzinho azul-cueca, nuvenzinhas para adorno, castelos misteriosos, sangue no canto da boca, punhais, anjos vaporosos ou vampiros com ar sexy, ou invólucros em tule e salpiquinhos de brilhantes ou pozinhos prelimpimpim, é como se tivessem sarna, passo ao largo.


Admito que possa acontecer que, por um acto isolado de mau gosto do editor, do próprio escritor ou de algum designer ou departamento gráfico mais pimba, a coisa tenha saído assim por um infeliz acaso. Azarinho. Vejo as capas e passo tão longe que nem faço ideia de quem se trata.

É, pois, a capa que começa por me atrair ou afastar. Depois, se a capa chamou por mim, vejo o autor. Se o autor for um Valtinho qualquer desta vida, ou passo à frente ou, receando estar a ser preconceituosa, dou uma oportunidade. Geralmente não a agarram.

Detenhamo-nos, então, naqueles cuja capa me atraíu e cujo autor não me afastou. Pego logo no livro. Tenho que o ter na não. Não consigo decidir-me sem o sentir. Sinto o peso do livro, o toque do papel, a textura. Leio a contracapa, as badanas, espreito. 

A paginação é importante. Se a letra é garrafal, meia dúzia de linhas com margens de lés a lés, só se for um objecto artístico é que tolero. Caso contrário cheira-me a barrete. Muita parra e pouca uva.

O mesmo acontece com o oposto: se a letra é miudinha, compacta, páginas densas, opacas, desisto também. Ainda não preciso de óculos para ver ao perto mas para lá caminho. Ler tem que ser um acto de prazer não de esforço. É como escrever. Escreve-se por prazer ou por necessidade, não por punição, não por sacrifício ou dever.

Estão a ver como é que eu sou. Imaginem: se sou assim com os livros, o que não será com os homens. Aquela coisa de que o que conta é o íntimo, ter bom coração, ser um bom companheiro, etc, comigo não dá. Pode ser música celestial para os meus ouvidos se estiver com disposição para irmãzinha da caridade – mas infelizmente, nunca é o caso.

Por isso mesmo, comigo é assim: primeiro o exterior, depois os interiores e, só depois destes muito bem avaliados, é que passo à fase do íntimo. Homens bonitos, alegres, inteligentes, malandros, que saibam estar, que tenham um andar que me agrade, que isto aquilo e o outro e, só depois então, depois de terem passado por todos esses crivos, é que passo à avaliação dos atributos subjectivos. Aí costumo ser mais tolerante. Excepto, claro, se forem patifes encartados.

Adiante. Livros.

Tendo passado então nas provas anteriores, passo à fase da leitura ad hoc. Folheio, leio aqui e ali. Se me cheira a historieta de cacaracá, pouso o livro e sigo viagem. Se for uma conversa avulsa, sem ponta por onde se pegue, idem. 

Por exemplo. Acho que já sou capaz de ter comprado um livro do Gonçalo M. Tavares porque estava em saldo ou coisa do género e achei que, pela bagatela que era, valia o esforço de um dia destes me dar ao trabalho de tentar perceber porque é que é tão conceituado. Mas todos os outros livros dele parecem-me intragáveis, charadas para quem gostar do género. Faz-me lembrar aqueles espectáculos de dança ou teatros em que os actores se rebolam pelo chão, dão gritos e fazem parvoíces sem propósito ou interesse.


Adiante.

Tudo isto vem a propósito do que escrevi nesse tal mail e vem também a propósito do último livro da Alice Munro.



Alice Munro, Prémio Nobel da Literatura 2013
Amada Viva



Aquela capa chamou-me logo a atenção. Um lettering simples, umas cores sóbrias e, ao mesmo tempo, luminosas. E depois a vinha virgem ao rubro, as suas belas cores de outono, sobre vedação de madeira. Tanto que eu gosto da vinha virgem. A minha ainda está verde. A beleza das coisas simples, já aqui o tenho referido: uma atracção irresistível para mim. Quando vi que era de Alice Munro ainda mais me agradou.

Hoje, mal soube do Nobel, pensei logo que, quando chegasse a casa, iria fotografar o livro, transcrever um excerto. Mas qual quê? Que é feito dele? Já revirei os livros todos que aqui estão em montes à minha volta, já revirei os que estão numa pilha tripla ao lado de um cadeirão, já espreitei entre o sofá e a parede, não tivesse ele caído. Nada. Não aparece. Posso tê-lo levado para ler in heaven e por lá ter ficado mas não me lembro. Na estante não está que é recente e ainda não foi registado e, logo, ainda não foi arrumado no sítio devido. Que maçada, o tempo que eu já aqui gastei às voltas.

Mas paciência. Não encontro esse, mas tenho aqui 'O amor de uma boa mulher'. Vou fotografá-lo entre as minhas almofadas.



Alice Munro, O amor de uma boa mulher

da Relógio D'Água numa tradução de José Miguel Silva



Vou transcrever, ao acaso, um excerto para que, quem não a conhece, fique com um cheirinho - apenas para poder formar uma ideia do género (ainda que muito ao de leve, claro).

(...)

Poderia alguém inventar algo tão diabólico, e com tantos pormenores? A resposta é sim. A imaginação de uma pessoa doente, a imaginação de um moribundo, pode acolher todo o tipo de lixo e organizar esse lixo da forma mais convincente. A própria Enid se viu, enquanto dormiu naquela sala, invadida pelas mais imundas e repugnantes fantasias. Qualquer pessoa pode albergar nos recessos da sua mente este tipo de mentiras, quais morcegos pendurados nas esquinas, à espera de poder tirar partido de uma qualquer escuridão. Ninguém pode dizer, 'É impossível alguém inventar tal coisa'. Repare-se como os sonhos são elaborados, camada sobre camada, de tal modo que a parte de que nos conseguimos lembrar é apenas a ponta do icebergue.

Aos quatro ou cinco anos, Enid disse à mãe que tinha entrado no escritório do pai e o vira atrás da secretária com uma mulher sentada no colo. Tudo o que conseguia recordar dessa mulher, agora como então, era que usava um chapéu com muitas flores e um véu (um tipo de chapéu já na época antiquado), e que a sua blusa estava desabotoada, mostrando um dos seios, cujo mamilo desaparecia dentro da boca do pai de Enid. Contou à mãe isto, estando perfeitamente certa de o ter testemunhado. Disse-lhe, 'E o Papá tinha metida na boca uma das frentes dela'. Ainda não sabia a palavra para seios, embora soubesse que vinham aos pares.

A sua mãe disse, 'Enid, que estás para aí a dizer? O que é isso, uma frente?'

'É como um gelado de cone', disse Enid.


(...)


Alice Munro 

nasceu em Ontário, no Canadá, a 10 de Julho de 1931. 

Publicou a sua primeira história, The dimensions of a shadow, em 1950, quando era ainda estudante universitária.
Tem publicadas doze antologias de contos, incluindo Fugas (publicada pelo Relógio D'Água), e um romance,
Lives of Girls and Women

Recebeu inúmeros prémios literários, incluindo o Governor General's Literary Award, o Giller Prize, o Rea Award for the Short Story, o Lanna Literary Award, o W.H. Smith Literary Award e o National Book Critics Circle Award. os seus contos foram publicados no The New Yorker, The Atlantic Monthly e The Paris Review.


A esta lista junta-se agora o Nobel da Literatura 2013


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Relembro que o que, mais abaixo, poderão ver, é um murro no estômago, um aperto no coração. Se estiverem preparados, desçam, por favor, até ao post seguinte.

Entretanto, relembro que, no meu Ginjal e Lisboa, recebi a visita das palavras de Luiza Neto Jorge. Com ela trouxe um arcanjo que debica onde não deve mas, claro, isso já são devaneios meus. A música que se lhe segue é um outro grande momento: Kate Aldrich e Daniela Dessì interpretam a Norma.


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E, por hoje, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira. 
Thanks God, it's Friday!!!!!!


terça-feira, setembro 04, 2012

O dia em que Cristiano Ronaldo, nick CR7, se declarou sozinho e triste; o dia em que os da Troika informaram os Parceiros Sociais que o Programa de Ajustamento é da responsabilidade do Governo; o dia em que regressei ao trabalho; o dia em que regressei à Fnac; o dia em que regressei ao Ginjal - ou seja, um dia muito importante


Intróito a despropósito


Num dia marcante voltei ao trabalho. 



CR7, um rapaz de afectos, aqui com o famoso clã Aveiro

Marcante porque foi o dia em que o filho da Srª D. Dolores Aveiro e irmão das manas Aveiro, Elma e Cátia de seu nome, desabafou que se sente sozinho no balneário (ah, estas cenas masculinas nos balneários...), que os colegas o fazem sentir assim e que, por isso e por outras razões que não queria adiantar, se sente triste. E mais: assim não quer continuar no Real Madrid, talvez porque há-de haver, noutro lugar, quem lhe faça mais miminhos.



CR7, um rapaz de afectos, aqui entre Rita Pereira e Irina Shayk


E com a tristeza do CR7 toda a imprensa espanhola se entusiasmou e esqueceu a crise.

Fazem-se apostas: quer mais dinheiro? recebeu melhor oferta?

Ou seja, ninguém coloca a hipótese que o jovem se sinta mesmo carente de gestos de carinho por parte dos colegas no balneário. As pessoas são mesmo maldosas.


Mas marcante também foi a 'cena' da troika com os parceiros sociais: ao que estes vieram de lá a relatar, os senhores da troika disseram que o programa de ajustamento é da responsabilidade do Governo e não deles.

Pumba: tiraram o tapete ao Passos Coelho.

A esta hora deve estar reunido o núcleo duro (o inteligente Passos da Manta toda Rota, o engenheiro civil promovido a fiscalista e guardião do programa da troika Moedas, o calinas Gaspar que ainda não acertou uma, quiçá até o grande ideólogo que dá pelo nome de Vai estudar ó Relvas, e talvez até o Leal a toda a prova Portas) a tentar engendrar uma saída airosa para esta. É que já não lhes bastava os remoques do Cavaco, as crónicas assassinas da Manuela Ferreira Leite, as facadinhas do Professor Marcelo, o ódio visceral do Pacheco Pereira, os abanões do Capucho e por aí vai, agora até os da troika não querem ter nada a ver com o rapaz de Massamá e companheiros.


E, por falar nos da Troika, gostava que alguém me esclarecesse sobre uma dúvida que me assalta sempre que vejo as imagens de televisão. Sempre que se refere a vinda dos homens da troika, mostram o grupo acompanhado por uma morena alta com uma rosa vermelha ao peito, uma rosa grande e farfalhuda como uma alface (que aqui, nesta fotografia, não aparece) e um senhor pequenino, sorridente, com ar muito diligente. 




As imagens mostram-no ao lado do senhor desprovido de cabelo, que é altíssimo. E o senhor pequenino, metade do outro, ali vai sorrindo, quase saltitão de tão feliz. Quem é? Alguém me sabe dizer? Não é por nada, é mesmo só uma fútil curiosidade.

*

Texto propriamente dito

Música, por favor



Mário Laginha Trio*- Prelúdio n.20 op.28 de Chopin
Piano-Mário Laginha; Contra-Baixo-Bernardo Moreira; Bateria-Alexandre Frazao



Mas adiante. Dizia eu que tinha regressado ao trabalho e agora vou falar de coisas que me interessam mais.

Não estou ainda completamente recuperada e, segundo o médico, o processo ainda durará mais algum tempo, mas já me sinto suficientemente à vontade para conduzir, para superar um dia normal de trabalho e, sobretudo, já não suportava mais estar longe da minha actividade e das minhas rotinas.

E uma das minhas rotinas passa por frequentar livrarias à hora de almoço. A Fnac estava diferente, mais espaçosa, mas não gostei, pareceu-me um bocado vazia e gosto de ver as livrarias cheias, muito cheias de livros, e se eles até parecerem um bocado amontoados, melhor, e se cheirarem muito a livros ainda melhor, e se até cheirar um bocadinho a pó em cima dos livros, melhor. 

Claro que a Fnac não é bem uma livraria tamanho é o comércio desbragado que por ali se passa mas eu, que as comecei a frequentar antes de cá chegarem, especialmente em Les Halles, Paris, e ficava pasmada com tanta gente, tanto livro - e as pessoas até lá podiam entrar com cães, e tudo aquilo me parecia tão civilizado - fiquei com esta fidelidadezinha de que me custa abdicar.

Também fiquei um bocado decepcionada com a oferta a nível de poesia pois é rara a vez que não descubro algum livrinho que me parece muito razoável e hoje nenhum me despertou atenção. Fiquei na dúvida relativamente ao do Fernando Pinto do Amaral mas folheei e tudo me pareceu demasiado banal. Nada de poesia hoje, portanto.

Fiquei-me por um cartão para a máquina fotográfica, pelo livro do Paul Auster, o Diário de Inverno, e, seguindo uma muito oportuna sugestão aqui deixada há dois dias num comentário, também o Contos Completos de Lydia Davis, em tempos mulher de Paul Auster, conforme se refere nesse comentário.

Andei também à procura de Um Deus passeando pela brisa da tarde de Mário de Carvalho, seguindo uma sugestão de um outro comentário mas não encontrei. Espreitarei na Bertrand ou tentarei outra Fnac. Não encomendo já porque gosto de os escolher à mão, um pouco como quando se vai ao mercado escolher peixe. Um livro com aquele título tem que ser um livro muito especial e quero ser eu a pegar nele antes de o fazer meu.

Depois de tanto tempo sem comprar livros não foi famosa a colheita mas, enfim, pode ser que, tal como acontece com o vinho, quando é pouca a abundância, melhor é a qualidade.

E, para que a rotina ficasse ainda mais completa, ao fim da tarde aventurei-me pelos meus caminhos naturais, pela beira do rio. Para lá ainda fui bem, enquanto lá andei ainda menos mal. O pior foi o regresso, já com alguma dificuldade. E agora aqui estou, a sofrer com os meus excessos, com as pernas elevadas a ver se as coisas vão ao sítio. Mas perdoa o mal que faz o bem que sabe, não é assim que se costuma dizer?

E, portanto, num fim de tarde envolto em fumo, o rio e Lisboa quase invisíveis, um cheiro a queimado, aparentemente devido a incêndios nas zonas de Mafra e Torres Vedras (será? chegava até tão cá abaixo?), lá voltei ao local de todas as magias. E se as magias hoje estavam no ar, deus meu...



.      Parece uma subtil, quase invisível, renda ao fundo mas é a Ponte 25 de Abril envolta em fumo, nesta tarde extraordinária       .


Cheguei e fiquei logo rendida, esmagada. Em dias assim, em que a beleza é quase demais, tenho que parar, tenho que ali ficar quase como se estivesse recolhida em oração. Só depois posso avançar.

O céu estava assim, em fogo, o sol espreitando, impúdico, exagerado. E percorrendo os céus, livre, livre, livre, esta gaivota. Descia e passava rente ao rio, depois subia, afastava-se, parecia ir até à ponte mas logo regressava, sobrevoava os telhados e voltava, assim. E eu olhava esta gaivota como se ela fosse coisa inventada, saída da minha louca imaginação.

Mais à frente, num pontão, um casal de namorados. Envoltos no fumo como se estivessem envoltos em tule, ali estavam, ternos, disponíveis um para o outro, e abraçavam-se, beijavam-se e brincavam. Eram uma silhueta que se recortava num fundo de grande beleza, o rio brilhante, Lisboa encoberta, o céu desvairado.



E, no maior silêncio, no meio de um cenário imobilizado, um barquinho passava rebocando um outro barco


E eu passava, fotografando, ah que saudades eu tinha de passear por aqui ao fim do dia, junto a estas casas que o tempo embeleza, junto ao rio que corre nas minhas veias, sob este céu que é imenso e tão leve.

Hoje não se sentia a maresia, apenas fumo. E o rio estava também quase vermelho, quase como se fosse um rio de sangue dourado.

Pudesse eu entrar nele, nua, e ali ficar na suave corrente.



Que bom ter-se 20 anos e a vida cheia de sonhos por desvendar; que bom é ter-se muito mais que 20 anos e ter ainda tantos sonhos para realizar, que bom é ter-se a idade que se tiver e ter tantos sítios de sonho para atravessar


Mais à frente, um jovem sentou-se e a rapariga que o acompanhava continuou e entrou por outro pontão. Ele ficou a vê-la, parado a vê-la, sem se mexer. E ela andava, ágil, uma garça, uma graça. E ele observava-a. A seguir fotografou-a. Não se via a cara dela mas aposto que se estaria a rir e aposto que ele estaria em êxtase olhando a sua amada num cenário tão incrivelmente belo. Gostava que eles vissem esta fotografia em que eles para sempre serão jovens, jovens flutuando num tempo imenso, mágico.


Depois regressei, passei pelas paragens de autocarro. A esta hora tardia as pessoas saem apressadas dos barcos, as mulheres trazem sacos de plástico nas mãos, talvez sejam compras, comida para o jantar, os homens trazem pequenas malas, talvez com mudas de roupa. Depois sentam-se com ar exausto nos bancos, outros ficam de pé, encostados. Gente humilde. Olha-se e imagina-se o esforço que fazem para subsistir. São oito e tal, daqui a pouco a esta hora será noite, e estão a regressar a casa, depois de terem usado vários transportes. É esta gente que suporta aumentos gravosos no preço dos transportes, no IVA, no IRS, nas taxas moderadoras, que perde abonos de família, que receberá uma miséria se perder também o emprego. É sempre nestas pessoas que penso quando vejo a arrogância do Borges clamando pela necessidade de baixar os ordenados ou quando vejo a palermice do Passos Coelho a dizer que as pessoas querem é regabofe. Gentinha imoral esta que nos governa.



Paragem de autocarro num dia de cores ardentes


Mas, com as cores vibrantes de hoje, as paragens de autocarro estavam feéricas e as pessoas eram silhuetas abstractas, figurantes luminosos, e eu gostava também que eles se vissem assim, dignos, belos, eternos, percorrendo o espaço, chegando até vós como se tivessem voado.


*

E por hoje é isto. Mas quero ainda desejar-vos, Caros Leitores, uma terça feira cheia de beleza.

domingo, setembro 02, 2012

Eu, a minha frágil condição humana, as casas em que eu vivo e os grandes anjos que sinto em volta dos meus passos - a propósito da entrevista a Paul Auster no Expresso deste sabado



Para nos acompanhar, uma valsa especial, por favor


Mário Laginha sobre Chopin, Valsa nº 2 Op. 34
Interpretação do próprio Mário Laginha, Bernardo Moreira e Alexandre Frazão.
 Fotografias de Zeev Parush

*


Eu não penso que seja uma pessoa interessante ou que tenha tido uma vida notável. Quando penso em mim, penso no que significa ser humano, e não na minha história. Penso em como é viver dentro de uma mente, de um corpo, as coisas que acontecem a uma pessoa no decorrer da sua vida, as mudanças de sorte, os altos e baixos, o sofrimento físico e mental, o prazer físico e mental. Tudo está profundamente integrado.

As neurociências e a psiquiatria concluíram que a memória e a imaginação têm funções praticamente idênticas no cérebro. Há uma sobreposição. De facto, recordar é uma forma de imaginar. É um exercício confuso, inexacto, cheio de sombras.

O enquadramento é extremamente importante. E os espaços, todo o tipo de espaços, interessam-me muito. Em especial os domésticos, a forma como nos ajustamos a eles, como vivemos num pequeno quarto ou numa grande casa. A vida em cada um é necessariamente diferente.


Estes excertos fazem parte da interessante entrevista que Luciana Leiderfarb fez a Paul Auster e publicada no Actual do Expresso, na sequência da publicação do livro autobiográfico Diário de Inverno.

Transcrevo-os porque se referem a temas que me interessam.

Sobre esta questão da identidade (que, na verdade, nós próprios desconhecemos), do que a condiciona, do que a influencia muito tenho, ultimamente, reflectido. Bem, reflectido não será bem o termo porque não sou especialmente dada a grandes reflexões. Mas é um assunto que aflora ao meu pensamento.

Quando há quase dois meses fui internada para me submeter a uma intervenção cirúrgica, ao ser levada na cama do hospital, corredor fora, despojada da minha condição habitual de cidadã pedestre, amiga de dar caminhadas junto à água, e subitamente transformada numa indefesa paciente, percebi como é tão frágil a nossa condição, tão indecentemente frágil.

Felizmente o mal que me afectava, apesar de ultimamente me vir provocando incapacidade a nível da mobilidade, não era grave, embora fosse suficientemente incomodativo para levar à decisão da intervenção. E o que eu julgava ser resultante de uma queda dada muitos anos atrás veio, afinal, a revelar ter uma outra causa, causa essa ainda por desvendar e que tem vindo a ser objecto de análise. Tudo se passa dentro do meu corpo, de forma silenciosa, e eu não o controlo nem sequer conheço. Ou seja, há uma parte de mim, que me condiciona, que actua com vontade própria, sem lealdade, e sem capacidade de comunicação comigo própria. Se quero saber que realidade é a que existem dentro de mim, tenho que fazer com que outros, mais conhecedores do que eu, me vejam através de máquinas ou analisem o meu sangue ou o que entendam por bem analisar. Eu, que sou eu, desconheço-me.

Nesse dia, ali na antecâmara do bloco operatório, o médico que me ia aplicar a anestesia perguntou-me se eu estava tranquila e eu disse-lhe que me fazia impressão ir levar uma injecção na coluna. Então, ele sorriu, disse que não ia custar nada mas que me ia dar uma coisinha para eu ficar zen. Acto contínuo adormeci. Quando acordei estava já na sala de recobro, com o cirurgião assistente ao meu lado. Relatava aquilo que, segundo ele o cirurgião já me tinha explicado (e de que eu não tinha qualquer ideia), o que tinham feito, o que tinham visto, e fartou-se de rir por eu ter dormido tanto (supostamente aquela anestesia tira a sensibilidade mas não a consciência). Entretanto, eu não sentia as pernas e assim ainda fiquei por um bom bocado mais. A enfermeira dizia para eu mexer as pernas ou os pés mas eu nem fazia ideia onde eles estavam. 

Durante as duas horas que durou a intervenção os médicos espreitaram para dentro do meu corpo, cortaram, repararam, fizeram o que quiseram e eu não dei por nada. Eu, que sou tão voluntariosa, ali estive, inerte, absolutamente passiva e com o meu corpo à disposição do que quisessem fazer dele (e falo do meu corpo como se o meu corpo não fosse eu, como se houvesse um outro 'eu' acima do meu corpo; e, na verdade, com uma injecção ou umas gotas, nem sei, esse meu 'eu', isto é, a minha vontade, foi tão facilmente anulada).

E depois, aos poucos, recomecei a sentir as pernas mas tudo era estranho. De repente, eu tinha voltado a mim mas na condição de acamada, dependente, a soro. As enfermeiras apareciam e viam a temperatura, davam-me comprimidos, uma infecção na barriga, viam os drenos, depois veio o médico e eu ali, deitada, submissa, muito longe do que era antes (do que era ou do que julgava ser). No dia seguinte, de manhã, as enfermeiras, eficientes, apareceram para me lavar. Fiquei muito admirada, não estava nada à espera daquilo, mas elas disseram que eu não me podia levantar sem o médico autorizar e, num ápice, viravam-me, passavam-me com uma esponja, limpavam-me, viravam-me. Reconheci-me, então, eu própria, como um objecto desconhecido, um objecto que gente desconhecida podia facilmente manusear.

Umas horas depois o cirugião apareceu de novo e, com a ajuda das enfermeiras, levantaram-me e mandaram-me andar. E, quase incompreensivelmente, o meu corpo, ainda que a medo, deu uns passos. E passadas umas horas fui para casa, pé ante pé, muito devagar, totalmente apoiada, mas fui.

Por isso, achei interessante a expressão de Paul Auster sobre viver dentro de uma mente ou de um corpo.

E por isso e por tudo o mais, vou seguindo a minha vida, agradecida, abençoando o dom de estar viva e de poder ir pensando nestas e noutras coisas, assistindo ao milagre da renovação da vida, testemunhando a maravilha que é a natureza apesar de todas as incógnitas e mistérios.

Poderia dizer que vou seguindo o meu caminho das pedras.



.                                                                                                                                                                    .


Passo, assim, para a outra afirmação de Paul Auster ao referir a influência do espaço que habitamos na nossa própria vida.

Por estas alturas, in heaven, o terreno que piso é assim, pedras, pedras e mais pedras, terra seca, vegetação natural muito seca. 

Para tentar ter sombras e as árvores que tanto amo, inventei canteiros altos para lhes poder meter dentro muita terra. E inventei canteiros que são bancos e mesas e que cobri com imagens de outras mulheres e onde mandei escrever poemas de que gosto.



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Quando agora me sento aqui já tenho sombra. Junto à figueira, e sob a sombra dos grandes cedros que crescem no canteiro, senta-se comigo Jeanne Hébuterne tal como Modigliani a pintou, senta-se Sophia, senta-se Herberto Hélder, senta-se Eugénio de Andrade. 

As coisas não têm que ser apenas o que são, não temos que encarar com fatalismo as circunstâncias que nos envolvem; nós podemos moldar, ou, pelo menos, tentar moldar as circunstâncias.

Este calor antecipa o Outono e as folhas caem, secas, os figos caem, deixando no ar um aroma doce, orgânico.

Mas o espaço que habito não é apenas aquele que os meus pés pisam. O meu espaço é também aquele que a minha vista alcança. E, quando olho ao longe, para lá da minha casa, vejo a grande serra, maternal, azulada.



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E eu sou o meu corpo mas sou também o que os meus olhos vêem, o que a minha mente pensa, o que o meu coração sente e sou o que foi feito assim mas também o que eu e o espaço e os outros me fazem. 

E, é verdade, eu acho que não seria eu tal como sou sem os espaços que habito, sem a largueza que a minha vista alcança, mas esta largueza fui eu que a procurei, e procuro todos os dias ao olhá-la pois podia estar lá e eu não olhar para ela e, então, seria como se não existisse.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Mandei serigrafar este poema de Sophia nuns azulejos que cobrem um pequeno recanto de onde se avista a serra serena. Estas palavras vivem dentro de mim, tal como os anjos que me acompanham, tal como um desconhecido deus que talvez se compadeça de mim e da minha frágil condição, tal como os ventos que fazem rodopiar as folhas que caem para que outras nasçam, tal como os imensos espaços que habito e que são cheios de céu e de lonjura.

*

E tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo neste quente início de Setembro.

quinta-feira, julho 14, 2011

100 Maneiras e Festival ao Largo - a arte na culinária e na música numa noite feliz em Lisboa

Não faz parte dos meus hábitos andar a dizer onde vou, o que faço – excepto se tiver que ver com museus, jardins ou, então, com alguma coisa especial.

Mas vou abrir uma excepção.

Não sou grande apreciadora de andar em restaurantes. Sou forçada a frequentá-los diariamente para almoçar pelo que, em jantares, festas, ocasiões especiais, aniversários, quase que pago para não me ir enfiar num.

Detesto barafundas, detesto estar à espera, detesto barulho, detesto pagar um dinheirão para não comer nada de especial. Se for em grupo ainda é pior porque geralmente há conversas cruzadas, confusão, muito tempo, uma maçada.

Mas, obviamente, há excepções.

Numa conferência do Tom Peters ouvi-o citar que há que saber perceber o que se quer vender. Dizia ele, citando um executivo da Harley-Davidson: "O que nós vendemos é a possibilidade de um executivo de 42 anos se vestir de couro preto, passear-se de mota pela cidade e sentir que impressiona as pessoas’.

Que orgulho, a minha rica motinha...! 

Ou seja, a Harley-Davidson, mais que um produto, uma mota, é um conceito. Quem anda numa Harley-Davidson paga para poder ser ‘o fulano que tem uma Harley-Davidson’. É carisma, é glamour no masculino, é toda uma experiência que passa por sentir que se desperta inveja, por sentir que se é o maior.

Um jantar num restaurante pode ser também mais que uma refeição, pode ser mais do que ‘ir jantar fora’.

Pode ser uma experiência, pode ser um prazer, pode ser descoberta.

Refiro-me, neste caso, em concreto ao O restaurante 100 Maneiras (o restaurante, não o bistrot) – e informo que não tenho participação nos lucros nem conheço ninguém que o tenha. É, pois, uma opinião desinteressada.

Elevador da Glória - une os Restauradores ao Bairro Alto

É no Bairro Alto, na Rua do Teixeira, onde foi o Olivier e, antes, o Porta Branca, muito perto do miradouro de S. Pedro de Alcântara, ali onde chega o belo elevador da Glória. O chefe é o bósnio Ljubomir Stanisic (que faz parte do júri do programa Master Chefe na RTP 1).

Não é barato, longe disso. Fica à volta de 50 euros por pessoa.

Apenas funciona para jantar e apenas com menu de degustação. O menu, segundo creio, varia mensalmente.
Deve ser feita marcação.

Tem uma decoração muito agradável, acolhedora, é pequeno, tem um ambiente óptimo, os funcionários são eficientes, competentes, simpáticos, muito bem dispostos.

Sentamo-nos e começam a trazer-nos, numa sequência perfeita, 10 diferentes ‘degustações’.

Fotografia ao estendal do bairro

Desde o estendal do bairro, com bacalhau desidratado, em pequenas folhas presas por molas da roupa, que se come com um molho óptimo, o amuse-bouche delicioso, a sardinha sobre tosta, o lombo de robalo com ovas de salmão sobre cama de risotto de camarão, o limpa palato de champanhe e gelado de lima, os rolinhos de borrego forrados a pistachio crocante sobre espuma de batata, tudo é uma delícia, mas uma delícia mesmo (e não estou a referir tudo, nem os acompanhamentos - que não tomei nota nem consigo lembrar-me).

A qualidade dos ingredientes, a arte na mistura de sabores, a confecção e o empratamento, as quantidades, tudo é perfeito. A arte na culinária.

Aqui vos deixo, para uma ocasião, esta ideia. Garanto-vos que vão gostar (pena que seja caro mas, para o que é, justifica-se plenamente).

A Casa Havaneza e a Brasileira do Chiado
(à esquerda, Fernando Pessoa, discreto, entre os clientes)

Sugiro depois um passeio a pé pela zona do Chiado, sempre tão agradável, e muito animada, agora no verão.

Ontem tive a sorte de apanhar o Mário Laginha e o Bernardo Sassetti no Largo do S. Carlos a ensaiarem para o concerto do dia seguinte no Festival ao Largo (os concertos são gratuitos).

Bernardo Sassetti, a plena fruição da arte
Mário Laginha, sensibilidade e bom gosto
A alegria destes dois, juntamente com Elizabeth Davis e Pedro Carneiro na percussão, o à vontade de um ensaio sem stress - que maravilha, que maravilha vê-los, muito bem dispostos e que arte, que arte. Que bom ouvir os pianos na noite. E ali, no aconchego do Largo de S. Carlos, que sonoridade, que felicidade.

Uma noite de artistas, a começar no Chef do 100 Maneiras e a acabar com o piano de Mário Laginha e Bernardo Sassetti. A noite em Lisboa pode ser agradável.

Vamos sair de casa de vez em quando, meus amigos, que as cidades são bonitas com vida, com gente feliz nas ruas - e Lisboa e, em particular, esta zona do Chiado são lindas!