E, antes disso, ainda acrescento que já peso menos dois quilos e picos, ou seja, já estou na média para a minha idade e altura, mas que a balança inteligente e sobredotada (comunica-me os resultados por telemóvel, faz gráficos e diz-me em que ponto da escala me situo em relação a cada indicador) diz que ainda tenho alguma gordura corporal a mais. Não é muito, creio que uns 4 ou 5% a mais (tenho o telemóvel a carregar noutro sítio, não me apetece levantar-me para ir ver o valor certo), mas não quero. Só que ver-me livre dela não está a ser pêra doce. O ChatGPT diz que tenho que fazer mais exercício ou consumir menos calorias. La Palice não diria melhor. Só que é uma dor de alma não poder comer o queijinho pelo qual me pelo, tenho que me limitar a um esquálido quadradinho de chocolate preto sem pingo de açúcar. E a fruta, que eu se fosse eu comeria às carradas, agora está mesmo limitada a 3 míseras peças por dia.
E o pior é que sei que, mesmo quando estiver no ponto, para assim me manter, terei que me manter assim, à míngua. Ora eu sou tudo menos vocacionada para me forçar a provações.
Enfim.
Bora mas é tangar.
No es por ti - Grupo Corpo (Lecuona)
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E agora é mal empregado colocar aqui um texto tão objectivo, tão exacto, como o que vou tomar a liberdade de transcrever na íntegra. Mas as coisas são o que são. O autor é Rui Bebiano, de que já antes aqui fiz referência, e escreve no blog A Terceira Noite que eu sigo religiosamente.
De forma simplificada, são dois os motivos principais que levaram à rejeição da moção de confiança e à próxima saída de Luís Montenegro do cargo de primeiro-ministro. O primeiro, mais invocado, tem a ver com práticas profissionais que colidem com o dever de exclusividade de quem detém cargos de responsabilidade no governo, por motivos acrescidos quem dele seja a figura principal. O segundo motivo, menos mencionado apesar de também importantíssimo, prende-se com o facto de a empresa envolvida, a Spinumviva, ser apenas familiar, não tendo sequer sede própria e corpos gerentes, dedicando-se basicamente ao tráfico de influências realizado sob a capa de «aconselhamento» em negócios privados.
Nada disto deveria ter acontecido, e, a ser revelado como foi, deveria ter conduzido de imediato à apresentação da demissão do cargo que LM ocupa. Todavia, não só tal não foi feito, como depois da triste novela pública vivida ao longo destes dias, o mesmo LM declarou pretender apresentar-se de novo a eleições e afirmou nada ter feito que «qualquer português não fizesse». Se assim acontecer, o PSD irá arrastar o país para uma situação de impunidade legal e ética premiada. Sabemos que em países como os Estados Unidos da América de Trump isto está a tornar-se trivial, mas, caramba, nós ainda vivemos no democrático país de Abril. Por isso de modo algum pode acontecer.
Estava a sonhar um sonho bom quando, de manhã, o telefone tocou. Estava a sonhar que uma amiga, que, no sonho, era igual à Linda Vater, estava a combinar comigo irmos a um clube de leitura. Dizia-me que era numa casa elegante, onde se conhecem sempre pessoas interessantes. Eu queria saber onde era e ela estava a explicar-me que era na Avenida da Liberdade, uma casa remodelada, com muita pinta. 'E eles não vão'?, queria eu saber sobre os nossos maridos. E ela dizia que, se o meu gostasse de clubes de leitura, que fosse, que o dela não apreciava, não ia. E eu estava na dúvida se um clube de leitura não seria uma valente seca também para mim. Mas, ao mesmo tempo, estava curiosa.
Então tocou o telefone, interrompeu o sonho, acordou-me.
Fiquei o dia todo a pensar nisto. Tenho pensado: e se eu convidasse amigos para virem aqui a casa falarem sobre livros? Não agora mas quando acabar esta cegada da pandemia. Cada amigo poderia trazer outro amigo, um de cada vez para não haver enchentes. Não seria engraçado?
Tenho duas amigas que frequentam essas coisas dos encontros de leitura. Não sei se lêem em voz alta ou se discutem livros. Convidaram-me várias vezes. Agora que escrevo, tenho ideia que combinam ler um livro e vão para lá mostrar serviço. Nunca fui e nem consegui dizer-lhes a verdadeira razão. Digo aqui: acho que a maior parte das pessoas que falam sobre livros só dizem vulgaridades. Um bom livro não tem muito que se diga sobre ele, pelo menos não assim, em público, sem pudor.
Mas, ao mesmo tempo, se eu convidasse amigos que não têm a mania de se armar ao pingarelho, talvez a gente se juntasse aqui e talvez algum, em meia dúzia de palavras, dissesse o que jamais eu esquecesse umas palavras tão insólitas que me ficassem gravadas na memória. Talvez até ficasse com vontade de ir ler ou reler o livro.
Ou, então, juntávamo-nos uns seis ou sete para falar, por exemplo, do Murphy do Beckett. E o tempo passava e ninguém dizia palavra que fosse sobre o livro. E, de repente, um desatava a rir e todos desatavam a rir, uma gargalhada pegada. E estaríamos a rir das maluquices do Murphy.
A seguir, eu servia sumo de abacaxi com lima, pedras de gelo e umas folhas de manjericão. E não se falava mais no assunto.
Bem.
O dia foi cheio, a começar cedo. Tinha a agenda aliviada. Numa de me poupar, agendo muito menos reuniões. Recebi mais um dos relatórios médicos. Estava nervosa quando abri. Já vou com medo. Parece que tenho medo de descobrir que me aconteceu mais alguma. Mas parece que não é mau de todo. Confirma-se a sequela no coração, pois claro, e li umas frases que me assustaram. Fui ao google e vi que aquilo aparece em quem teve enfartes ou que está sujeito a stress. Pensei logo que tenho que evitar a todo o custo sujeitar-me a reuniões em contínuo. Mas é raro o dia em que não me pedem uma ou duas ou três reuniões.
Claro que poderia dizer que não dá, que tenho outros compromissos. Mas não consigo.
Tive um colega, um bom amigo, inteligente e divertido, que uma vez me disse que eu tinha um grande problema. E acrescentou que não podia dizer qual era porque ia soar deselegante. Eu insisti e ele disse que teria que usar o inglês para não soar tão vulgar: 'Você é uma open-leg'. Desatei a rir. Quando alguém me pedia ajuda ou me pedia que resolvesse problemas alheios eu não conseguia dizer que não. Ora, como é sabido, os homens são muito tribais. Se o pedido vinha dos supostos adversários, o meu amigo achava que eu devia marcar posição, mandá-los à fava. E eu, pelo contrário, arranjava sempre maneira de acorrer.
Daí em diante, se estávamos em reuniões em que havia contenda, se eu tentava resolver os problemas de toda a gente, discretamente ele mostrava-me, meio às escondidas, o indicador e o médio afastados ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal de reprovação, como que a fazer o sinal de vitória mas ao mesmo tempo sob censura. Mas não era sinal de vitória coisa nenhuma. Significava apenas que ele achava que eu estava, uma vez mais, a 'abrir as pernas' -- e tinha que me esforçar para não me desatar a rir.
É mais um dos meus problemas congénitos. Nada a fazer.
A meio da manhã veio um telefonema diferente. Estava a ouvir com alguma desatenção pois pensava que que a intenção era pedir-me conselho sobre quem deveria participar num evento que, enquanto ouvia, me estava a parecer interessante. Afinal a conversa deu uma volta e o intuito era convidar-me para ser eu a oradora especialista no tema. Achei graça, disse que sim. Que não era preciso preparar-me, só ser eu, disse-me ele. Fiquei admirada. Claro que não vou preparar-me. Nem saberia como. Espero sair-me bem. Espero não dizer banalidades. Mais tarde haverei de contar.
A tarde esteve especialmente amena. Depois do trabalho vim cá para fora. A minha filha e os meninos estavam cá. Estão de férias. Depois da praia vieram cá ter. Estava-se muito bem. Uma tranquilidade imensa, uma luz dourada, os pássaros cantando na maior alegria. Fico sem fazer nada, apenas olhando, ouvindo, conversando, respirando. O meu marido chegou, entretanto, e nem dei por ele. Depois veio para o jardim fazer uma coisa e pediu ajuda a um dos meninos.
Esse menino depois pediu-me uma massagem. Sentei-me numa cadeira e ele numa cadeira à minha frente, abraçado às costas da sua cadeira. Depois até foi buscar uma almofada, para ficar mais confortável. Estava em tronco nu. Tamborilo os dedos nas suas costas, na cabeça. Fica zen, tempos sem fim. Até pensámos que tinha adormecido. Mas não, está apenas tranquilo, feliz da vida.
Quando estavam quase a ir-se embora, esse menino, em cima da árvore grande, chamou-nos a atenção para um ovinho caído no chão.
Quando íamos ver de perto, ele avisou-nos que não fossemos por ali. Olhei e as folhas que estavam caídas no chão pareciam-me lustrosas. Ele voltou a avisar que não pisássemos as folhas. 'Fiz chichi aqui'. Não estavam lustrosas, estavam eram molhadas.
Às vezes, à noite, ocorre-me que devem fazer pouco chichi pois raramente os vejo virem à casa de banho. Afinal é isto: vão atrás de uma árvore e lá vai disto. Boys being boys.
Cheguei muito tarde à sala. Hoje não vimos Netflix. Ainda assim, fui espreitar as coreanas. Não sei. Não engraço com séries ou filmes cuja língua não percebo. Parece-me tudo muito distante da minha matriz cultural. Não sei... não quero dizer que não só por ter dado uma espreitadela. Mas vou já dizendo que não me senti atraída. E eu sou de coup de foudre. Se a coisa não se dá, nem vale a pena ter esperança. Mas, enfim, as pessoas mudam e eu, apesar de ser mais bicho do que pessoa, na volta também mudo. E, de resto, consta que estou mais velha e, por isso, pode ser que me deixe de coisas.
Já há algum tempo que não ia espreitar as estatísticas das visitas a esta vossa humilde casa. Hoje lembrei-me de vir ver. O blogger disponibiliza número de visualizações por horas, por países, etc. O que mais desperta o meu interesse são as expressões que algumas pessoas escrevem nos motores de busca e que, por motivos que sempre me surpreendem, levam os algoritmos a encaminhá-las para aqui.
Se as pessoas escreverem 'quem é a autora do blog Um Jeito Manso', talvez a expressão mais recorrente, e vierem aqui parar isso parece-me natural. Agora que alguém escreva Meninas mostrando mais do que devia e venham aqui ter isso já me parece extraordinário, sobretudo porque gosto de escrever respeitando a concordância em género e número. Do que devia...?
Mas foi isso que aconteceu hoje. Acabei de experimentar e não vim cá parar; pelo menos, o link para este blog não me aparece na primeira página. Mistérios.
Outra curiosa é: mulheres sem cuecas. Não aparece nas estatísticas de hoje mas do último mês e por várias vezes. Por algum curioso motivo, quando alguns carentes vão ao computador à procura de qualquer coisa mais apimentada ou amalucada, os algoritmos pensam: Ora deixa cá ver onde é que este camarada vai encontrar material que lhe agrade... bem.... talvez no Um Jeito Manso.
Poupem-me. Mulheres sem cuecas aqui? Algumas vez...? E a corrente de ar que vos atingiria...? Não senhores, jamais. Zelo muito pela saúde dos meus Leitores.
Ou seja, estou com uma reputação algo duvidosa junto dos meus amigos algoritmos. Tenho que ver se, durante algum tempo, me porto bem para ver se eles me mandam para cá pessoas que escrevam no google: 'como nos tornarmos pessoas mais piedosas' ou 'como nos vestirmos sem chamar atenções' ou, ainda, 'mulheres que usam cuecas de gola alta, que nunca mostram mais do que devem e que gostam muito de gatinhos'. Isso, sim, é que era.
Mas, enfim, pode alguém ser quem não é...?
Nunca me hei-de esquecer do dia em que estava no cinema e, no intervalo, fiz o que fiz hoje: fui ver as estatísticas de "Pesquisar palavras-chave". E, para meu espanto, vi uma expressão extraordinária: Um boi vestido de GNR. Desatei a rir, claro, e ainda hoje, quando penso nisso, me rio. Qual a ideia de quem vai ao google (ou a outro motor de busca) tentar encontrar um boi vestido de GNR? Não atinjo. Nem atinjo por que razão o dito motor de busca o manda para aqui. Costumo eu, por acaso, ter aqui bois vestidos de GNR ou de polícias? Não tenho ideia. Vocês têm...? Eu não. Nem disso nem galinhas vestidas de comentadoras do eixo do mal nem de burros vestidos de mangas de alpacas nem de nada dessas coisas. Ora essa.
Uma outra recorrente tem a ver com a gafe da Ana Lourenço. Volta e meia aparece-me: 'Ana Lourenço broche'. Nas primeiras vezes fiquei admiradíssima. Hom'essa! Desconhecia o facto, apenas fiquei a saber depois de ver esta expressão a aparecer-me nas estatísticas. Ora porque é que os algoritmos encaminhavam as pessoas para o Jeito Manso? Acaso aqui se costuma falar de pregadores peitorais ou outras joias? Não tinha (nem tenho ideia). Só depois fui saber o que é que ela tinha andado a pôr ao peito. E percebi: tinha-lhe acontecido um daqueles lapsus linguae que a gente teme e, infelizmente, não controla.
E isto fez-me lembrar uma vez em que fui eu que cometi uma gafe das valentes e, ainda por cima, ao pé dos meus filhos e dos meus pais. Ainda hoje, volta e meia, quando tenho algum almoço mais de cerimónia ou responsabilidade (isto é, quando tinha, naquele pré-mundo que existiu antes do advento do corona), o meu marido me avisa: 'vê lá, não te ponhas a falar no Ney Mete-o-Grosso'. E, como sempre, inevitavelmente desato a rir pois lembro-me da vergonha por que passei.
Mas isto para dizer que a inteligência artificial tem coisas que a inteligência natural desconhece. Na volta, é certo e sabido que quem quer ver meninas mostrando mais do que devia ou mulheres sem cuecas ou bois e GNRs e coisas afins aqui, no santuário da Santa Ujota M., encontra coisa que, se não for assim, é assado. E se non è vero, è molto ben trovato.
E, portanto, nada mais a dizer: aos costumes digo nada.
E pode muito em ser que, um dia que a gente se veja livre do corona, saia por aí na desbunda, pele com pele, língua com língua, tudo no maior forrobodó, uma festa de de rebimba o malho. E pode ser que os anúncios prenunciem o que por aí vem.
Depois do Professor David Spiegelhalter revelar a tendência decrescente no número de relações sexuais praticadas (ver aqui e aqui), é agora o Guardian a vir alertar para que a Netflix está cheia de cenas a apelar ao amor e ao sexo por outras vias que não as que o Adão e a Eva inventaram.
Mais uma vez limito-me a papaguear terceiros porque não sei mesmo já que, como contei há dias, não frequento (ainda) o Netflix. Mas o Guardian, que não engana ninguém, anda a levantar a lebre: diz que parece que, pelas bandas do Netflix, gostam muito de robots, bots, AI e quejandos para satisfazer as carências amorosas e sexuais do pessoal.
From VR sexcapades in Maniac to amorous AI in Osmosis, the streaming service keeps bombarding us with disturbing tech hookups. Enough! (...)
E ali li que já há bordéis com humanóides, bonecas 'inteligentes' (e ponham aspas nisso), nomeadamente em Barcelona, e que em Amesterdão, na rua das luzes encarnadas, terá aberto em Março deste ano um cinema 5D no qual, ao 3D, vai ser adicionado o cheiro e o tacto.
O Guardian tem, contudo, o cuidado de dizer que há coisas que não são de agora. Mas assinala o que é diferente e é para isto que o artigo chama a atenção.
Depictions of coitus with artificial beings is not an entirely new area of pop-culture fascination. The cyberpunk novels of William Gibson, Jude Law’s bittersweet robot gigolo from Kubrick and Spielberg’s AI, plus the romantic entanglements of the two heartbroken Blade Runners, Harrison Ford and Ryan Gosling, all come to mind. What is new, though, is a deeply antisocial trend about the depiction of artificial partners. Increasingly, robots, VR personas and digital proxies are not seen as cradles of consciousness, but as mere objects of (mostly male) sexual desire.
E continua:
Yet those examples seem to be the exceptions. So is our fascination with AI now turning into a fear, induced by deep fakes (digitally manipulated videos) and vicious AI deployed by nameless agents from all around the world? Are we just flirting with the idea of sexual gratification with someone (something) you don’t have to cuddle up to, make breakfast for or call up the next day, but can simply switch on and off depending on your desires?
Um dos casos que o Guardian refere é Osmose.
The opening scene of the French-language thriller Osmosis sees Agathe Bonitzer perform the same feat, albeit in classier surroundings. Her virtual sexcapade takes place at once in a luxurious hotel bathroom and the offices of her company Osmosis, which aims to revolutionise the art of sex and love itself. Agathe is getting off through a nanobot-controlled brain transplant that builds up a mental image of one’s soulmate and embeds a friendly neighbourhood AI named Martin in the subjects’ heads that leads them to their ideal match. The show then goes on to contemplate whether this mindreading-AI-driven manipulation is a viable business model in a society so oversaturated with digital devices and virtual selves – and we find that for streaming television, it certainly is.
Não conhecendo eu o Osmosis fui cuscar. Aqui está o trailer:
E é isto. O admirável mundo novo.
Eu, cá para mim e com vossa licença, prefiro coisa mais corpo a corpo sem bots ou AI's a atrapalhar. Assim, por exemplo, como a Dança Sinfônica pelo Grupo Corpo:
E, se é para ser virtual, virtual por virtual, prefiro coisas mais simples -- como, por exemplo, estes xilreios
Mas isso sou eu e eu, cuidado, não sou exemplo para ninguém.
Não consegui desenvolver porque o sono me apeou pelo que, de novo, aqui estou para a mesma lide.
Poderia dar o meu testemunho mas hesito porque acho que quem frequenta a blogosfera tende a preferir temas pesados, confissões de alta solidão, de peso a mais, varizes a explodir, costas curvadas de tanta escoliose, abandonos, dor de corno, cabelo espigado, unhas partidas, calos e joanetes, ataques de bílis. Por isso, sei bem que aparecer eu aqui sem dramas desse calibre, automaticamente me desabilita de ser levada a sério.
Mas, pronto, arrisco. Quem dá o que tem a mais não é obrigado e eu dou o conhecimento de uma realidade que mais ou menos conheço: a minha. Note-se: não por me achar exemplar mas por facilidade, escuso de me pôr a inventar.
Não por mérito, esforço ou resultado de terapia, mas sim por simples genética nunca fui dada a aflições ou inquietações. Não tento aprofundar o conhecimento de mim própria nem dos outros e isso, desde logo, tira-me ralações de cima.
Seja por isso ou por alguma deformação cerebral, a verdade é que não apenas não guardo ressentimentos como não me dá para carpir sobre o que poderia ter feito e não fiz ou para gostar de quem não gosta de mim (talvez porque me estou nas tintas para quem não gosta de mim) ou para querer o que não consigo alcançar -- e, portanto, a verdade é que não guardo memória de períodos da minha vida em que me tenha sentido infeliz. Sou uma pessoa simples e dos simples, como se sabe, é o reino dos céus (. Talvez não por acaso, parte do meu tempo seja vivida aqui, in heaven).
Uma vez, teria eu uns quarenta e poucos, na conversa com uma pessoa, disse-me ela que quem, aos quarenta, diz que o corpo não começou a dar de si e a dar toda a espécie de problemas, está a mentir. Calei-me caladinha mas pensei que a mim o corpo parecia igual ao que estava aos trinta: não me dava problemas de maior.
Agora já não digo o mesmo. Não que me pregue grandes partidas mas porque o seu formato já não é o mesmo do que era há décadas. Olho para vestidos ou blusinhas que vestia aos quarenta e tal e pasmo: eu cabia ali dentro? A minha cinturinha era daquele little tamanhinho?
Era tamanho 36. Depois fixou-se no 38. Julguei que assim ficaria para todo o sempre. Mas não.
Com a menopausa, o corpo parece que alargou, que ganhou volume. Mais: as rugas começam a aparecer (e tanto mais quanto somos de rir amiúde) e os músculos começam a perder a elastecidade própria da juventude. Mas isso não me aflige. A menos que nos vamos retocando, preenchendo, repuxando ou enxertando o corpo vai ganhando as marcas do tempo. As coisas são o que são.
E, corpo à parte, no resto também tudo tranquilo.
Nunca fui ambiciosa no sentido de ter fisgado algum lugar pelo que, se isso antes não era tema, muito menos o é agora. Nem no sentido de ter um carro de luxo, um barco de alto calibre, um palacete no vale do Tejo, um jactinho com piloto de carne e osso, lindo e atlético, os filhos casados com os herdeiros do Aga Khan. Nunca tive pretensões a nada que não pudesse obter sem esforço ou que não dependesse directamente de mim pelo que nunca me senti frustrada por não o alcançar.
Sou despreocupada e feliz como sempre fui. Não quer dizer que o seja sempre -- mas sou-o na maior parte do tempo. E sou mais agora do que era quando era mais nova. A minha qualidade de vida emocional tem aumentado ao longo do tempo.
Tenho fúrias destemperos, irritações. Toda a gente as tem e eu não sou excepção. Mas passam sem deixar rasto. Tenho preocupações como todas as pessoas as têm, algumas bem pesadas, mas não as procuro nem me deixo afundar nelas.
E, cada vez mais, dou valor a tudo o que de bom me rodeia.
A natureza, a beleza, os afectos, um bom livro, uma música bonita, o silêncio, o perfume que paira no ar, os sorrisos -- tudo isso me traz serenidade e felicidade.
E as estatísticas comprovam que este é o padrão. É a chamada curva em U da felicidade.
A linha da felicidade em função da idade -- versão simplificada
A mesma coisa mas juntando 7 grandes estudos que, como se vê, coincidem no padrão
Orégãos a secar na sala de jantar
Na juventude e no estado adulto, até se atingir a dita meia-idade, há um crescendo de preocupações que, pelo que se vê nas estatísticas, não deixa saborear a vida. A felicidade tomba, o nível de satisfação vai escorregando por aí abaixo. Será a preocupação com o trabalho, a dificuldade em conciliar vida profissional e vida pessoal, as dificuldades com filhos pequenos ou adolescentes. Ou dificuldade em pagar a casa ou em arranjar um trabalho de que se gosta. Coisas assim. Muito compreensível.
Contudo, a partir da meia-idade, a felicidade e a qualidade de vida melhoram para a maioria das pessoas.
Prova-se ainda que as pessoas que se sentem felizes vivem mais anos. A felicidade dá saúde, afasta a sombra do fim que se avizinha.
Mais: está provado que as pessoas com 50, 60 ou mais anos encontram mais facilmente novas companhias do que quando tinham 20, 30 ou 40.
Portanto: a meia-idade é uma altura de viragem mas os melhores anos não estão para trás: estão, sim, por vir.
Claro que, olhando o segundo gráfico, o mais detalhado, dá para perceber que, de vez em quando, à medida que a idade caminha no sentido da longevidade, alguns declives, algumas quebras na linha crescente da felicidade podem acontecer. Podem ser perdas, doenças. É natural. Mas logo se recupera; e a tendência, sempre, é que a satisfação com a vida vá aumentando. A vida é uma coisa boa -- e isso é a sabedoria (que a idade nos vai trazendo) que nos ajuda a perceber.
Lá fora, Pedro Mexia Cemitério de Elefantes, Dalton Trevisan
+ o meu biquini
E é isto que tenho a dizer sobre o mito urbano da 'crise da meia-idade' ou outras tretas que formatam negativamente a vida das pessoas.
E bora mas é atirar os maus astrais para trás das costas -- o que não quer dizer que sejamos uns frescos e fofos, descerebrados e levianos. Ou seja, estarmos de bem connosco e com a vida não significa que não estejamos alerta e não nos ergamos de cada vez que pinte uma injustiça, uma trapalhada, uma pinóia que tresande.
Inteiros e erguidos na defesa dos valores que defendemos, contra tudo e contra todos -- assim devemos ser e estar. A nossa consciência sempre limpa.
Sobre a minha própria boca o que tenho a dizer é que nem sempre passo uma corzinha ou um brilhozinho nos lábios. Se o faço opto por pouco espalhafato. Não gosto de me ver com cores gritantes. Tenho lábios de bom tamanho pelo que, se os pintar de vermelhusco ou rosa pintarolas, fico a atirar para o vulgar. Pelo menos, parece-me. No entanto, mudo a cor consoante a roupa que visto. Se predomina o encarnado, claro que não vou usar batom cor-de-rosa. E vice-versa.
Também da Fashion Week haute couture Primavera-Verão 2018, aprendi que podemos ser ainda mais open minded:
En parfaite harmonie avec son total look pink, Kaia Gerber portait un rouge à lèvres fuchsia sur le défilé Valentino haute couture. Et si la nouvelle règle pour porter son rouge, était la coordination avec ses vêtements flashy ?
A Red Red Rose de Robert Burns (lido por Tom O'Bedlam)
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Por exemplo, também não sou fã do azul, cueca ou não cueca. Até porque seria estranho dizer que ia passar um rouge azul. Claro que à Rihanna tudo fica bem mas quantas de nós, mulheres, nos podemos dar ao luxo de ser Rihannas?
Ou um lipstick em amarelo descarado...? À Jennifer Lopez claro que fica bem e nem precisa de vestir um trapinho a condizer. Mas vá que amanhã apareço no trabalho armada em J. Lo. Seria a gargahada geral no mundo do trabalho. Ná. Não me presto a isso. Sou muito conservadora. É como com unhas: incapaz de as pôr verdes, azul submarino ou escama de sereia.
Daffodils de William Wordsworth lido por Jeremy Irons.
Contei-o na altura: estávamos a preparar a janta. Eu estava a fazer umas coisas, depois interrompi para deitar um olho ao mais velho que estava a tomar banho sozinho enquanto a minha filha ficou a tratar da salada, depois ele foi para o quarto para se limpar e vestir e a minha filha foi para a casa de banho, ajudar no banho do mais novo.
Voltei à cozinha e, vendo uma tigela com os tomates cherry, de lá gritei à minha filha: 'Olha lá, lavaste os tomatinhos?'.
Para nosso espanto, acto contínuo, responde o pimentinha mais velho lá do quarto: 'Claro!'
Desatámos as duas numa risota e ainda hoje, quando vemos 'tomatinhos', nos rimos.
Lembrei-me disto (confesso que a despropósito) ao ver, no The Guardian, a fotografia abaixo, uma fotografia magnífica. Explico o que é, transcrevendo:
Villagers put tomatoes under the sun, creating a blanket of deep red, to dry them in Hejing county in the Mongolian autonomous prefecture of Bayingolin. (Photograph: Xinhua)
Estamos na altura do tomate maduro e eu, que sou uma meditarrânica dos quatro costados (apesar de ter um avô que parecia nórdico e de um outro que sempre achei que tinha uns certos traços asiáticos), gosto de o comer de todas as maneiras: em salada com cebola temperada com azeite e orégãos, em sopa de tomate, em ovos mexidos com tomate, em arroz de tomate, em ensopado de enguias e sei lá que mais.
E se gosto de ver campos de tomates ou ir atrás de atrelados cheios de tomates... Lembro-me também do meu avô cultivar tomates alongados, uma coisa meio rara naquela altura, e entrelaçar com a rama umas résteas que não eram de cebolas ou alhos mas de tomates, que ele deixava suspensos numa casa pouco iluminada que havia no quintal e onde ele guardava alfaias, cebolas, alhos, batatas e onde tinha também as galinhas a chocar ovos. Lá se aguentavam os tomates ao longo de meses, tendo nós tomates frescos e maduros todo o ano. Também o meu pai, quando lhe deu para ter uma horta, entusiasmo que não durou muito, cultivou uns pés de tomateiro nuns canteiros. Armava-os com umas canas fininhas, tal como armava os pés de feijão verde. E eu gostava de ver as frutinhas a crescerem e gostava de os ir apanhar para sentir aquele belo perfume. Ainda hoje, se compro tomate de rama, quando os arranco, cheiro-os para ver se trago de volta aquele perfume tão bom dos tomates recém-apanhados.
Claro que, apesar de gostar imenso de tomate, não gosto a ponto de me imaginar mergulhada num banho deles como acontece em Espanha, Buñol. Mas, enfim, vendo a alegria dos banhistas completamente tingidos pela bela cor da tomatina não posso dizer que daquele sumo não beberei.
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E, por falar em encarnado (e já nada a ver com tomates, claro está), que entre a música do mestre Ernesto Lecuonano colada ao corpo do casal do Grupo Corpo que aqui interprta uma coreografia de Rodrigo Pederneiras
Ou o Encarnado da bela trilogia de Kieślowski
E os belos rouges de chez-moi ao pôr-do-sol
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E uma bela terça-feira a todos quantos por aqui me acompanham
Alguns testes, daqueles que se encontram em sites com testes de personalidades ou nos sites femininos (lugares que, volta e meia, me acolhem, em especial quando a realidade me dói ou me cansa) dizem que a minha cor é o encarnado, a cor da paixão, do vibrante e intenso fogo.
Outros dizem que é o amarelo, a cor da luz, a cor dos que, mesmo sem querer, atraem e iluminam o que os rodeia.
Não sei de nada disto: não faço ideia se há rigor nestas conclusões ou se isto tem a ver com psicologia ou com estatística -- ou se é treta pura e dura.
O que sei é que, indubitavelmente, estas são, de longe, as cores que predominam no que pinto ou nos bordados que faço (ou melhor: no que pintava ou bordava pois, como é sabido, tenho andado a ser infiel para com essas duas minhas fontes de prazer) ou com que, em geral, mais me identifico.
E o que também sei é que, este ano, posso com tranquilidade dar bom uso aos meus felizes outfits em encarnado já que é a cor mais fashionable deste verão.
Claro que, dizendo isto desta maneira, terei que contar com a vossa perspicácia para darem o devido desconto pois, como é bom de ver, visto o que calha, consoante a disposição ou as circunstâncias por onde terei que passar durante o dia. Mas, se uns dias posso ir na base do angelical, branco e azul claro, por exemplo, outros dias irei inflamável da cabeça aos pés.
Agora uma coisa posso eu aqui jurar a pés juntos: nunca na vida devo ter usado fato preto e camisa branca, daquelas camisas de corte masculino com colarinho, punhos. Nunca. Ou saia preta e camisa branca. Ou calças pretas e camisa branca. Que me lembre, o mais parecido foi calça fina em antracite com quase imperceptíveis riscas finíssimas, apenas um risco fino, em pérola, com blusa fina em seda também cor pérola clara e, bem entendido, um colar comprido de pérolas. Mas, de resto, parece que se não há um toque de cor já não sou eu. Ou seja, provavelmente, quando vesti o acima descrito, tive que usar um rouge abusador nos lábios.
Ora bem. Adiante. Vamos a coisas concretas.
Leio na Harpar's Bazaar que o verão vai ser red-hot e os exemplos que até aqui viram comprovam-no. Olho e caio logo de amores, imaginando-me assim, sem tirar nem pôr.
Penso que já vos contei que tenho dois pares de sapatos encarnados e que a primeira coisa que me lembro de querer quando comecei a ter voto na matéria foi um par de sapatos encarnados. E, de cada vez que ia com a minha mãe comprar sapatos, era uma peregrinação a ver se encontrava sapatos encarnados. Para mim o sonho começava quando me era anunciado que íamos comprar sapatos. Sapatinhos de veludo encarnados. Lindos, lindos. Geralmente, para minha frustação, não os encontrava (ou, então, a minha mãe combinava-se com o vendedor para ele dizer que não tinha). E lembro-me de um vestido num tecido macio em vermelho escuro com uma golinha de renda branca. E o meu vestido do baile dos finalistas também em encarnado, desta vez em encarnado-tijolo, sem costas até à linha da cintura e com um folho plissado a toda a volta do amplo decote, um escândalo que me fazia sentir uma perigosa princesa (daquelas tresmalhadas).
Mas, portanto, a moda deste ano sanciona este meu gosto.
(No entanto, calma aí, nada de exageros).
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Claro que, a esta hora, já algumas leitoras mais recatadas devem estar a torcer o nariz.
Acessórios em red-hot? Credo, que coisa mais incendiária... Diz-se santa mas, com gostos destes, a UJM não conseguiria ser admitida em nenhum convento!Está bem, está.
Pois bem. Torçam o nariz à vontade que a mim nada me demove dos meus gostos. Além disso, há pior.
Por exemplo, o fato de banho aqui abaixo. Pode ser original mas a mim nem que me pagassem milhões eu era capaz de ir para a praia nestas figuras.
No entanto, há que ver sempre o lado bom das coisas: se algum dos meus leitores tiver pena de não ser parecido com o Tony Ramos e quiser passar por ser altamente felpudo, pode recorrer a este modelito.
E, para os meus Leitores homens, em geral, aqui fica, desde já um sério aviso. Se quiserem render-se aos ditames da moda, não vão na conversa daqueles estilistas que parece que gostam de vestir os homens como se fossem abichanados, camisinha estrelicada preta às bolinhas prateadas ou às estrelinhas às cores, calcinha justa à peixe-peixe (isto é, curtas, a deixar o tornozelo de fora), sem meias, sapatinho bicudinho marado.
Nada disso: aqui a vossa Sta UJM abomina isso. Homem que se quer homem (seja qual for a sua orientação sexual) deve vestir-se à homem e não à bichona maluca.
E nada de irem na conversa de que rendas é o que está a dar na moda masculina. Se algum costureiro vos disser isso, fazem o favor de o mandar ir dar banho ao cão. Se vos sei nestas figuras, de uma coisa podem estar certos: aqui não entram. Podem crer. E olhem que não brinco em serviço. Era o que me faltava estar aqui a escrever e aí, desse lado, um marmanjão vestido de calçonete e camisinha de rendinha rosa bebé ou azul-cueca. Era, era...!
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Aquele tango está lá em cima apenas porque sim. E também porque gosto daquela música e daquela forma de dançar e porque a bailarina (do Grupo Corpo) está vestida de encarnado. Ou seja, parece-me que há fundamentadas razões para aquela escolha.
Contudo, quem não aprecie o género poderá optar por fazer acompanhar-se na leitura da minha pobre prosa desta música bem mais pia:
Estava aqui, posta em sossego, sentada a ler este último livro com as entrevistas da Paula Rego e pus-me a pensar no que ela diz quando evoca a maldadezinha implícita que existe em alguns meios portugueses. Histórias velhacas que são contadas como histórias infantis ou, vá, como coisa normal. Percebo-a mas, felizmente, as minhas vivências não passaram por aí.
Se eu quiser contar histórias malvadas e que se tenham passado comigo terei que me esforçar um bocado.
No entanto, esforçando-me, ocorrem-me algumas. Contudo, não gosto de pensar nelas pois foram excepções numa vida sempre tranquila e feliz.
E, de resto, as piores histórias não foram comigo. Apenas testemunhei.
Nao percebo qual o gozo que dá recordar coisas que, na altura, incomodaram e que não são exemplo de nada ou não servem de lição para coisa nenhuma. Não li o Meças, apenas folheei. É temática que não me interessa. Gente que se passa ou que é má como as cobras ou que sublima um desencanto congénito agredindo os outros pode não ser uma raridade mas não deve ser vista como aviso ou como cúmulo da degenerescência. É apenas uma pouca sorte em forma de gente.
Quando me ocorreu pensar nisto, comecei por pensar na história dos canários que o meu pai sempre contava para ilustrar a minha teimosia. Queria mostrar como eu andava sempre com ideias que não lembravam ao diabo, não descansando enquanto não as levava por diante. Mal ele vinha com isso, logo eu tentava dissuadi-lo de contar. Uma história horrível. Além disso, não fazia sentido ele ir buscar aquilo pois eu tinha toda a razão do meu lado. Mas acho que ele se divertia com o meu horror.
Eu conto.
Uma vez, era miúda, talvez seis ou sete anos, não sei bem, pensei que gostava de ter um casal de canários. A razão era simples: achava-os lindos, de um amarelinho mimoso, e cantavam muito bem. Tourada. A minha mãe não queria, dizia que os pássaros faziam imensa porcaria e que ia ser uma prisão, não podíamos ir de férias. O meu pai também não queria, antevia que havia de sobrar para ele. Mas a mim parecia-me impossível continuar a acordar sem ser ao som de pássaros a cantar. Pedi, pedi, pedi. Uma luta. Por fim, tanto os macei que, contrariados, lá acabaram por ceder. Na varanda, uma gaiola, lá dentro um poleiro, um sítio para as sementinhas, um sítio para a água. E o belo casal trinando, uma felicidade. O que eu gostava de os ver e ouvir.
A minha mãe arreliada: teve que pôr uns plásticos por baixo, havia cascas de alpista e salpicos de água por todo o lado. E o meu pai lá limpava a gaiola, lá tratava dos passaritos.
Até que, um dia, uma surpresa: apareceram uns ovinhos. Não me lembro quantos. Aqui a minha memória começa a toldar-se. A canária deve ter chocado os ovos. Lembro-me da minha alegria, vinham aí mais passarinhos, haveria de ser uma orquestra.
E um dia apareceram os filhotes.
Ia-me dando uma coisa. Ninguém teve o cuidado de me prevenir. Imaginava que seriam uns berlindinhos amarelinhos e fofinhos e afinal eram uns bichos medonhos, sem penas, uns olhos grandes, escuros, alienígenas, assustadores. Os bicos pareciam uns monstros. Dava-me medo ver aqueles seres tão feios, que me pareciam quase em carne viva.
Os meus pais tranquilizavam-me: logo, logo, vão nascer as penas, vão ficar com uns olhinhos normais, vão ser como os pais. Quando acordava, a medo, ia espreitar. Horrorizava-me ver aqueles pequenos seres mas ia na expectativa de vê-los transformados em canários normais. Até que um dia, não me lembro quanto tempo depois (dois? três dias?), na gaiola apenas os canários pais. Espantada fui chamar a minha mãe, 'Mãe, mãe, os bebés fugiram!'. E a minha mãe perplexa, sem perceber. Tinham desaparecido. O meu pai também sem encontrar uma explicação. Até que o meu tio disse com naturalidade: 'os pais comeram-nos, é costume neles'. Bem. Não podem imaginar. Devo ter tapado a cara, tal o horror. A minha mãe a mesma coisa. Disse: 'Nem sou capaz de encarar o diabo dos pássaros'. Nunca mais olhou para eles e eu também não. Nunca antes tinha sentido uma coisa assim: horror, nojo, medo. O meu pai todo chateado, 'eu não disse que isto ia sobrar para mim?'. Só que a minha mãe disse que não queria lá mais aqueles monstros. Eu ainda menos. Nem queria passar na varanda para não encarar tamanhos facínoras. Lá foi o meu pai com a gaiola. Não me lembro se foi devolver à loja. Acho que nunca quis saber. A minha mãe dizia sempre 'diabo dos canários'.
Como dizia, o meu pai, para mostrar como eu sou de ideias fixas, não dando sossego a ninguém enquanto não tenho aquilo que quero, ia buscar isto: 'não descansou enquanto não lhe arranjámos uns canários e, depois, por fim, nao descansou enquanto não nos vimos livres deles'. Injusto da parte dele ao omitir que os canários que me arranjou eram canibais.
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Enquanto escrevia, pensando em horrores, lembrei-me também de um holandês que morava lá, um homem solitário. Um dia uma agitação. Talvez umas duas semana morto em casa até que, pelo cheiro, os vizinhos desconfiaram. Eu, miúda, vendo os bombeiros a entrarem pela escada, pela varanda. Na rua os miúdos numa excitação -- eu aflita, pensando nele, alto, simpático, silencioso, a apodrecer. Os vizinhos também a espreitar. Eu ouvia o que diziam quase em surdina, talvez para os miúdos não ouvirem: 'coberto de bichos'. Imaginava horrores. A minha mãe em casa, não deu por nada. Era verão, uma tarde dourada, e eu andava pela rua, nas casas e jardins dos outros miúdos da rua. Nessa noite, assustada, pensava no que tinha ouvido de dia. Horrorizada. Desde aí, a ideia da solidão, de alguém morrer sozinho, assusta-me. Não gosto de pensar no medo e horror que senti nessa tarde.
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Mas, mais do que isso: não gosto de pensar nestas coisas.
Não leva a lado nenhum. Uma pessoa sente-se mal.
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Portanto, também em amarelo e com uma letra talvez a atirar para o triste mas, ainda assim, um tango
Se fue
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Até já.
A ver se me ocorre alguma coisa divertida.
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Afinal não. Caí no sono. Depois de acordar, comecei a pensar que já não dava. Tenho que madrugar, dia longo e sobrelotado. Depois pensei que, se me tivesse deixado de pensamentos, até teria dado mas, assim, já não dava mesmo.
Não queria deixar-vos com histórias macacas mas acabou saindo assim. Portanto, deixo os conselhos do Primo para mais logo ou depois e me vou. E queria responder aos comentários mas terá que ficar também para mais tarde. Bom mesmo para evitar isto era se eu pudesse dormir a sesta a seguir ao almoço. Mas teimam em não pôr uma cama no meu gabinete e dá nisto.
Olho como se já os tivesse visto. Talvez numa pintura. Hopper, talvez.
Não. Talvez não propriamente Hopper. Estes que vejo não estão suspensos no tempo, no meio do vazio. Vejo que se mexem.
As gaivotas também devem estar curiosas. As palmeiras são mais coloridas do que habitualmente mas isso não quer dizer nada já que o céu também está pouco real, tão liso, tão azul.
Olho-os sabendo que eles não me vêem. De resto, sou invisível.
Estão em camadas. À medida que as camadas estão mais altas, mais se aproximam do azul. Apanham sol, parecem estar silenciosos. Mas pode ser que estejam a conversar. Também não vêem as gaivotas. Pelo menos não vejo que algum olhe para o céu.
Mais à frente, já vai entre as árvores douradas. As pessoas são agora pequenos pontos que se perdem naquele espaço branco que se move devagar.
Depois aparece inteiro e é imenso, um gigante com desenhos coloridos no dorso. Torna pequena a grande cidade que bordeja o rio. Ele próprio é uma cidade móvel com pessoas minúsculas lá dentro. Tento vê-las mas já não consigo. Perdem relevância à vista da dimensão deste gigante dos mares.
Do lado de cá, um casal olha a fotografia no telemóvel, indiferente à estrela da noruega que ali vai, saindo do rio, a caminho do oceano.
Passa sob a ponte, o Padrão dos Descobrimentos parecendo agora um brinquedinho de pedra pousado na beira do rio. Na esplanada, ao sol, as pessoas conversam, bebem um copo, olham o rio. Ninguém vê a cidade branca que ali vai a deslizar sobre as águas azuis.
Depois torna-se cada vez mais pequeno, um ponto branco que cruza o horizonte.
Esqueço-me, olho o rio noutra direcção, olho as pessoas, sinto o sol na minha pele, desfruto o calor bom deste outono tão ameno, sinto-me agradecida, serena. O tempo passa devagar e essa lentidão perfumada de maresia faz-me muito bem.
Quando olho de novo, tentando ver se ele ainda está visível, sinto que estou a ter uma visão. Dezenas de velas deslizam agora ao longo da linha do horizonte, parecem pássaros azuis com asas feitas de sombras do mar. Não sei se foram ali para se despedir do gigante ou se, agora que ele partiu, vêm brincar em liberdade sobre as águas cintilantes.
Depois fomos comer um gelado. O meu com dois sabores, Amarena Fabbri e figo. Sentados na esplanada, olhando quem passa, conversando, degustando os sabores, deixámos que a tarde esfriasse para ganharmos coragem para recolher a casa.