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sábado, junho 13, 2026

Ora bem, falemos então do canal de denúncias

 

Ok, ok, eu falo. Mas já lá vou. 

Antes, retomo o tema da Prestação Social Única e de toda a celeuma que a rodeia. Eu poderia ir tentar descobrir com que linhas a ministra Palma Ramalho coseu a dita prestação, como a chuleou, como cerziu e acolchoou e, no fim, engomou a dita prestação. Poderia, sim, mas não me apetece. Aquilo ainda vai ser discutido, há de ser alinhavado de novo, e muita água há de passar sob as pontes. Li, mas admito que sejam as vizinhas do costume, que a Palma Ramalho, sister de Madame Rebelo Pinto, quer pôr as pessoas com cancro a trabalhar. Não acredito. Nem acredito que queira pôr os desvalidos e desgraçados a tirar o trabalho aos outros. Não morro de amores pela ministra mas não a considero burra nem parva nem estúpida de todo e, por isso, mais depressa acredito que seja fofoca de vizinhas assanhadas.

Como disse, concordo a mil por cento que se faça de tudo para acabar com algumas coisas como, por exemplo:

  • a baixa produtividade
  • o baixo nível de escolaridade de parte do tecido económico
  • a subsídio-dependência 
  • a avença-dependência 
  • o parasitismo 
  • a economia paralela. 

Tudo junto torna a economia portuguesa uma coisa a tender para o poucachinho, e os portugueses, alguns deles deles, a portarem-se como chico-espertos, invejosos, mesquinhos.

Recordo: 

a) A nível da produtividade portuguesa

Olhando para os dados oficiais mais recentes partilhados pela Pordata e pelo Eurostat, Portugal encontra-se na 19.ª posição do ranking de produtividade do trabalho entre os 27 Estados-membros da União Europeia. O fosso para a média: O valor gerado por um trabalhador em Portugal (cerca de 48 mil euros) equivale a apenas 65% da média da União Europeia.

É importante notar que este ranking não significa que os portugueses "trabalham pouco". Pelo contrário, Portugal tem das semanas de trabalho mais longas da Europa. O problema é o valor gerado nessas horas devido à falta de modernização tecnológica das empresas e à forte presença de setores económicos assentes em mão de obra barata (como a hotelaria e o comércio tradicional).

b) A nível da economia paralela

Portugal apresenta níveis de economia paralela superiores à média da Europa Ocidental e das economias avançadas, integrando o bloco do Sul e de Leste europeu onde a informalidade é mais expressiva.

Estudos de economistas associados ao FMI e ao Center for Economic and Policy Research (CEPR) colocam a média histórica e atual de Portugal na casa dos 17% a 24% do PIB, servindo habitualmente de barómetro para as comparações internacionais rígidas.

Conjungando estes dois aspectos, parece-me óbvio que há medidas que têm que ser postas em prática ao mesmo tempo:

  • é preciso puxar a força de trabalho para trabalhos de maior valor acrescentado 
  • e é indispensável criar mecanismos de combate à economia paralela.

Tem que haver uma aculturação, muito levada a sério, de que trabalhar é dignificante e contribuir com impostos e contribuições sociais faz parte da dignidade do ser um cidadão de pleno direito.

Tem que ser rejeitado pela sociedade, mas rejeitado a uma só voz, com veemência, que haja trabalho informal, dinheiro recebido debaixo da mesa, muito menos que haja quem esteja a receber subsídios e, para não os perder, trabalhe recebendo 'por fora'. E isso é um crime duplo e não pode passar incólume.

Contudo.

Calma aí.

Vamos lá a pôr as coisas em perspectiva.

Claro que estou a falar naquilo tudo e a pensar que, face ao momento de charneira sociológica e tecnológica que atravessamos, não tarda vai haver muito mais desemprego, e, provavelmente, desemprego entre as camadas até agora consideradas de grande valor acrescentado. E isto é um outro filme. Um filme que até hoje nunca vimos.

Ainda hoje vi uma entrevista com Dario Amodei a alertar para os riscos potencialmente hecatômbicos relacionados com a adopção maciça da IA. Não são apenas os riscos existenciais (caso haja governos e empresas que avancem sem avaliar os riscos, passando por cima de todas as linhas vermelhas, e tenhamos armamento autónomo, independente da vontade humana) mas também os riscos de desemprego numa dimensão astronómica. Diz o Elon Musk: tem que se pagar subsídios a toda a essa mole humana. Mas, como também ouvi dizer, e concordo, quando não se tem trabalho, acaba-se a trabalhar para o diabo. 

Como se ocuparão todos esses bons profissionais que, de um momento para o outro, se veem sem trabalho? E de onde vai vir o dinheiro para tantos subsídios. Aí já ninguém vai falar de ciganos ou de chico-espertos pois muito provavelmente estaremos a falar de programadores, técnicos de IT em geral, engenheiros, arquitectos, advogados. E esta é a grande discussão. A grande discussão que deveria estar a acontecer.

Mas a malta tende a não querer encarar os grandes problemas -- ou porque são tão grandes que a sua mente não os consegue abarcar, ou porque têm medo e preferem fazer de conta que não os veem. Portanto, estando um pedregulho gigante a vir na direcção da malta, em vez de se arranjar uma estratégia para não ficarmos todos esmagados, a malta olha para os pés e queixa-se que tem areia da praia entre os dedos.

Portanto, vão desculpar-me por não responder a todos os comentários ou nem vou documentar-me sobre a proposta de lei da PSU, nem me alongo mais sobre isto: não quero contribuir para ocupar o espaço público com um tema que me parece normal (fundir vários subsídios e ter regras claras para a sua atribuição bem como mecanismos de controlo na sua aplicação, parece-me, em abstracto, um bom propósito). Bem podem vir para aqui falar na Folha Não-Sei-das-Quantas ou da Não-se-Quantas-Liberal ou de ciganos ou cheganos ou do que quiserem, ou bem podem todos os canais ter comentadores para todos os gostos a falar entusiasticamente do assunto -- não vou dar muito mais para esse peditório.

Mas não me vou sem abordar o tema do canal Denúncia que dá nome a este post. O nome dá coceira, bem sei. Ouve-se e pensa-se logo em bufaria. Mas vejamos o assunto por outra perspectiva: se as pessoas sabem que está a passar-se qualquer coisa de condenável ou repulsivo devem calar-se? Tornar-se cúmplices?

Nas empresas há o canal de denúncia e é muito relevante. É por essa via que as pessoas denunciam casos de assédio sexual ou moral, casos de corrupção, casos de deslealdade profissional, etc. Quando trabalhava, vários casos chegaram até mim. Claro que, em primeiro lugar, os casos eram 'despistados' por uma comissão que fazia uma pré-análise. Geralmente as denúncias são anónimas pois as pessoas têm receio de retaliações e é natural que as tentemos proteger. Muitas vezes, quem faz uma denúncia não é um bufo nojento mas, sim, uma pessoa corajosa. Mas, porque a maior parte das denúncias são anónimas, a primeira investigação para aferir se há ali matéria de facto ou se é obra de colega vingativo pode ser complicada. Geralmente, só depois de já haver um 'caso' devidamente estruturado é que as coisas chegavam até mim e até outro colega que comigo analisava as denúncias. Na sequência de denúncias dessas, por exemplo, uma directora foi despedida com justa causa na sequência de uma denúncia. Um responsável de serviço mudou de funções na sequência de uma denúncia em que a suspeita era grande mas em que não se conseguiu provas suficientes para despedimento. Outros casos traduziram-se em admoestação e aviso por escrito. Outras denúncias ficaram pelo caminho: nada de concreto se conseguiu apurar e mais parecia coisa de ajuste de contas. Pessoas experientes sabem 'pegar' nos assuntos de forma a não alimentar denúncias ocas e, pelo contrário, para aplicar justiça em casos muitas vezes falados à boca pequena e sobre os quais nada se fazia.

Extrapolando para o tema em apreço, que haja um canal nacional para que se possam denunciar situações abusivas de gente que anda a gozar com o pagode, recebendo dinheiro de subsídios quando não precisa deles e quando, ainda por cima, trabalha 'clandestinamente', sem pagar pingo de impostos ou de contribuições, parece-me normal. E confio que haja gente com moral sólida para analisar o que lá for chegando (ie, nada daqueles capangas que movem inquéritos retaliatórios contra juízes que não lhes agradam e que estão feitos com a imprensa sensacionalista). 

Contudo, volto a dizer, face à real dimensão dos problemas da economia portuguesa:

  • a baixa produtividade + a impensável dimensão da economia paralela + (já para não falar da desgraçada demografia invertida)
  • e à ainda maior dimensão da gigante ameaça (ou desafio, conforme se queira ver o assunto) que já começa a desenhar-se, da Inteligência Artificial.

 tudo isso não passa de amendoins. Peanuts, para os intelectuais.

quinta-feira, junho 11, 2026

Prestação Social Única --- e trabalho voluntário obrigatório

 

Não li a proposta do governo nem tenho prestado atenção a todo o cacarejar que se levantou em torno do assunto. Cansam-me as vozes que falam de tudo, mostrando desconhecer a realidade.

Como não conheço a proposta não vou pronunciar-me sobre ela. O que quer que venha a fazer-se deve ser bem pensado. E quando digo 'bem pensado' é isso mesmo: avaliado sob todas as perspectivas e apenas decidido depois de muito conscientemente se ter sopesado prós e contras.

O que posso dizer é a experiência de casos de que, em tempos não muito longínquos, ouvi falar.

Um caso diz respeito a uma empregada doméstica. Trabalhava num registo completamente informal e não queria de outra maneira pois estava a receber subsídio de desemprego e, portanto, não podia ter uma actividade remunerada 'oficial'. E assim, recebia 'limpo' mais do que se trabalhasse a descontar. E, segundo me contaram, ela dizia isto com a maior naturalidade.

Outro caso diz respeito a uma pessoa que uma empresa quis contratar. Ofereciam um bom ordenado, um bom subsídio de almoço, seguro de saúde. Pois bem, essa pessoa não aceitou pois disse que 'não lhe compensava'. Estava a receber o subsídio de desemprego e a trabalhar num lugar em que recebia 'por baixo da mesa', enquanto no bom ordenado que lhe estavam a propor, como era todo legal, isto é, sujeito a IRS e TSU, o líquido era inferior ao que recebia de subsídio mais o outro que vinha pela porta do cavalo. Na altura, contaram-me que não era caso único, muito pelo contrário.

Relembro ainda as várias vezes em que a senhora que nos ajudava, primeiro com o meu pai e, depois, embora de forma mais ligeira, com a minha mãe, me dizia que outras pessoas de idade lhe pediam também apoio e ela dizia que já não podia aceitar mais compromissos, mas que andavam sempre atrás dela. Quando eu perguntava se ela não arranjava alguém que a ajudasse e a quem, de certa forma, desse ormação, respondia-me que não, pois, segundo ela, 'o café ali em cima está cheio de mulheres que não fazem nada, passam o dia todo ali na conversa e a fumar, umas que vivem dos subsídios de inserção e subsídio disto e daquilo, e não estão para se maçarem a trabalhar, já se habituaram a receber o dinheiro sem fazerem nenhum'. Eu, na brincadeira, dizia para ela não ser má língua. Ficava brava comigo, dizia que jurava por tudo o que havia de mais sagrado que era a mais pura das verdades, que eu podia ir lá ver com os meus olhos.

E poderia enunciar outras situações do mesmo género, pessoas que dizem que trabalhar a descontar 'não lhes compensa' face aos subsídios qu erecebem mais o que fazem 'por fora'.

E agora até me fez lembrar uma outra situação que não tem a ver com isto dos subsídios mas que, no fundo, tem a ver com a mesma mentalidade. O filho de um conhecido foi um aluno muito bom, tenho ideia que o melhor do curso, depois fez o mestrado numa universidade do exterior, depois começou a doutorar-se, e tudo em temas ligados à cultura, à sociologia da arte, coisas assim. Durante a frequência universitária ligou-se mais ou menos a um partido. E um dia escreveu um artigo crítico no jornal da faculdade, dizendo mal das políticas culturais do governo da altura e, já não me lembro como, esse artigo depois foi citado num jornal dito de referência. Curiosamente, a seguir, foi contactado pelo secretário de estado no sentido de lá ir ter uma conversa. Foi e, lá, foi-lhe oferecido um cargo de assessoria a troco de uns euros valentes. Apesar de ser crítico do governo e de este ser de uma cor diferente da do partido em que mais ou menos militava, aceitou. Algum tempo depois, viu um anúncio para ir organizar e dinamizar o acervo cultural de uma importante institução financeira. Foi à entrevista. Dias depois, o pai, todo revoltado com essa instituição, contava-me que lhe tinham oferecido um ordenado da treta, que nem chegava aos dois mil euros, que mais que isso ganhava ele na Secretaria de Estado 'para não fazer nada', e que, portanto, obviamente tinha recusado. Fiquei estupefacta. Ele e o filho achavam normal que o rapaz ganhasse uma avença para não fazer nada. No fundo é a mesma lógica: a de que possa fazer sentido receber-se dinheiro só porque sim, sem ter que dar nada em troca.

Como disse, não conheço a proposta da Prestação Social Única e do trabalho voluntário 'à força'. Mas, independentemente disso, acho que as virgens ofendidas que batem no peito por dá cá esta palha deveriam conhecer melhor o mundo da economia paralela antes de pregarem com tanta veemência. 

E também acho que o que houver a fazer para moralizar minimamente esta sensação de que algumas pessoas têm de que podem receber subsídios, acumular com trabalho feito à candonga, sem pagar impostos ou contribuições sociais, porque lhes 'compensa mais' do que fazer trabalho normal, legítimo e declarado, deve ser feito. 

quarta-feira, abril 29, 2026

Em Portugal o ascensor social está mesmo bloqueado? Como desbloqueá-lo? Como fazer crescer o País e a confiança das pessoas?

 

Há pouco, ao fazer uma pesquisa a mails antigos, encontrei uma fotografia de um menino talvez com cerca de um ano, dá ideia que estava a levantar-se sozinho mas ainda com cautela. O primeiro dos meninos, um fofo, espertíssimo. Muito pequenino e já dizia coisas que revelavam a sua inteligência. O tempo passa. Não tarda faz dezoito anos. E, como ele é e com a abertura que revela a conhecer novos mundos, temo que se sinta impelido a ir para fora. Com a minha menina temo o mesmo: é independente, gosta de abrir asas, é voluntarista. Se souber de oportunidades que não identifique por cá pode passar-lhe pela cabeça ir experimentar a sua sorte lá fora.

Há isto, em especial no mais velho, de achar que por cá não vai ter facilidade em conquistar a autonomia, em ganhar dinheiro para ter a sua casa e a sua vida.

E, na realidade, há um sentimento na classe média (e, mais ainda, na classe mais baixa) de que ninguém consegue verdadeiramente progredir a menos que circule pela via da fuga aos impostos.

Face ao sentimento de uma certa impotência que se sente nos mais jovens (e fruto disso é a forma como têm votado), resolvi, uma vez mais, recorrer à Inteligência Artificial. Pretendi, também neste caso, ter uma certa análise comparativa. O que se passa para que haja esta sensação? Como compara a carga fiscal em Portugal com outros países? O que poderia ser feito para se sair desta situação?

Fui colocando questões e fui obtendo respostas. Transcrevo o que me parece interessante. Abaixo as palavras do Gemini.

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A sua análise toca no ponto nevrálgico da economia portuguesa: o fenómeno do "ascensor social bloqueado". A sensação de que a classe média é taxada como se fosse rica não é apenas uma perceção abstrata; ela tem fundamentos matemáticos claros quando comparamos o esforço fiscal com o custo de vida e a qualidade dos serviços.

Para fundamentar isto, vamos olhar para três métricas críticas:


1. A Armadilha da Progressividade Precoce

Em Portugal, as taxas elevadas de IRS (Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Singulares) começam a incidir em níveis de rendimento muito baixos comparativamente à Europa do Norte.

  • Portugal: Se ganhar 6.000€ brutos/mês, entra no penúltimo escalão (45%). O Estado trata este rendimento como "muito alto".
  • Holanda ou Suíça: Esse mesmo valor é considerado um salário de classe média ou média-baixa. Nesses países, para chegar à taxa máxima, teria de ganhar o dobro ou o triplo.
  • O Resultado: O Estado português "confisca" a capacidade de poupança da classe média antes mesmo de ela conseguir acumular capital.

2. A Dupla Tributação (O "Imposto Oculto")

O que torna a situação portuguesa única (e dolorosa) é o que chamamos de insuficiência do retorno público.

  • O Modelo Nórdico: O cidadão paga 40% de imposto, mas tem "custo zero" em saúde, educação e creches. O seu rendimento líquido é para lazer e poupança.
  • O Modelo Português: O cidadão paga 35%-45% de imposto, mas como o SNS não responde a consultas de rotina e a escola pública tem falhas de pessoal, ele tem de pagar por fora:
    • Seguro de saúde privado.
    • Consultas e exames no setor privado.
    • Explicações ou colégios para os filhos.
  • A Conta Final: Se somar o IRS (35%) + IVA (23%) + Seguros de Saúde + Copagamentos, a carga real sobre o rendimento disponível de um profissional qualificado em Portugal é, muitas vezes, superior à de um sueco ou dinamarquês, com a agravante de ter um salário base muito menor.

3. O Castigo à Poupança (Capital)

Sobre os juros sobre o capital: 28% sobre os juros. Este é um dos pontos mais críticos para a falta de liquidez:

  • Em países como a Holanda, existem isenções de impostos sobre o património até certos valores para incentivar a poupança.
  • Em Portugal, a taxa é plana e alta (28%). Para um pequeno aforrador, isto é punitivo. Se a inflação for 3% e o banco pagar 3%, o aforrador perde dinheiro após pagar o imposto, porque o Estado taxa o lucro nominal, não o real.

Estudo Comparativo: Esforço Fiscal vs. Poder de Compra

Variável

Portugal

Suíça

Dinamarca

Salário Médio Bruto

~1.500€

~6.800€

~6.200€

Taxa IRS para 3.000€

Alta (Entra no topo)

Baixa

Média

IVA (Padrão)

23%

8.1%

$25%

Retorno em Serviços

Baixo (requer privado)

Eficiente (Pago via seguro)

Muito Alto (Público)

Conclusão: É Percepção ou Realidade?

A sua análise está fundamentada. Portugal sofre de um desfasamento entre a sua estrutura fiscal (desenhada para um país rico) e a sua produtividade (de um país de rendimento médio).

O sentimento de "não sobrar dinheiro" deve-se ao facto de a classe média portuguesa estar a financiar dois sistemas em simultâneo: o Estado (via impostos) e o Privado (via seguros e serviços diretos), porque o primeiro não entrega a qualidade mínima necessária no dia a dia.

Isto cria um ciclo de estagnação: sem liquidez, a classe média não investe; sem investimento, a economia não cresce; sem crescimento, os salários não sobem.

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Nota: O sistema fiscal português atual não é obra de uma única pessoa, mas sim o resultado de uma reforma profunda ocorrida entre 1988 e 1989, que procurou modernizar Portugal para a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE).

No entanto, há nomes e contextos políticos fundamentais que explicam por que é que o sistema tem esta estrutura "voraz" para a classe média:


1. O "Pai" da Reforma: Miguel Cadilhe

O grande arquiteto do sistema fiscal moderno foi Miguel Cadilhe, Ministro das Finanças dos governos de Aníbal Cavaco Silva (PSD).

  • O Objetivo: Antes de 1989, Portugal tinha um sistema caótico e arcaico. Cadilhe criou o IRS (rendimento de pessoas singulares) e o IRC (rendimento de empresas), que entraram em vigor a 1 de janeiro de 1989.
  • A Inspiração: A ideia era simplificar, seguindo modelos europeus, e baixar as taxas nominais que eram altíssimas, mas que ninguém pagava porque a fuga ao fisco era generalizada.

2. A Introdução do IVA (1986)

O IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) foi introduzido por exigência da adesão à CEE. Substituiu o antigo "Imposto de Transações".

  • O Problema: Sendo um imposto sobre o consumo, ele é cego à riqueza. O "pobre" e o "rico" pagam os mesmos 23% por um computador ou pela eletricidade. Como Portugal tem salários baixos, o IVA retira uma fatia muito maior do rendimento disponível do que num país com salários altos.

3. A "Mão" de Vítor Gaspar e a Troika (2011-2014)

Se Cadilhe criou a estrutura, foi Vítor Gaspar (Ministro das Finanças de Passos Coelho) quem "apertou o garrote" de forma definitiva durante a crise da Troika.

  • O "Enorme Aumento de Impostos": Em 2013, houve uma reestruturação dos escalões de IRS (passaram de 8 para 5), o que empurrou a classe média para taxas muito mais altas muito mais cedo.
  • A Herança: Embora os governos seguintes (PS/António Costa) tenham revertido algumas medidas e voltado a desdobrar os escalões, o nível de receita fiscal nunca baixou significativamente. O sistema habituou-se a este nível de arrecadação.

Por que é que o sistema se tornou "perverso"?

A intenção original de 1989 era boa, mas o sistema falhou por três razões históricas:

  1. Baixa Produtividade: Os legisladores criaram escalões a pensar que Portugal iria convergir rapidamente com os salários europeus. Como os salários estagnaram, o IRS que era para ser "para ricos" começou a apanhar a classe média-baixa.
  2. O Facilitismo do IVA: Como é difícil controlar a economia paralela, os governos sucessivos (de esquerda e direita) preferiram manter o IVA alto e o IRS retido na fonte. É dinheiro "fácil" e garantido para o Estado, mas retira liquidez imediata às famílias.
  3. A Máquina do Estado: Portugal mantém uma estrutura de Estado desenhada para um país rico, mas com uma economia de país remediado. Para sustentar hospitais, escolas e pensões num país envelhecido, o Estado "seca" quem ainda trabalha e produz (a classe média).

Resumo Político

  • PSD (Anos 80/90): Criou a estrutura moderna (Cadilhe/Cavaco).
  • PS (Anos 2000 em diante): Consolidou o uso do IVA e da carga fiscal para financiar o modelo social.
  • Troika (2011): Maximizou a eficiência da cobrança, eliminando quase todas as hipóteses de "respiro" fiscal.

O resultado é este sistema "Frankenstein": temos a modernidade europeia na cobrança (as Finanças em Portugal são das mais digitalizadas e eficientes do mundo), mas uma ineficiência de terceiro mundo na entrega de serviços públicos de rotina.

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O que fazer? De que reforma está Portugal precisado? 
O que poderia ser uma reforma relevante para relançar o País, para reter a nossa juventude e para atrair jovens de outros países?


1. A Reforma Fiscal: "Taxas Moderadas, Base Alargada"

Em vez de focar na idade, focamos na criação de riqueza.

  • O Modelo de 3 Escalões (Simplificação): Substituir os atuais 9 escalões por apenas três:
    • Isenção: Até aos1.000 € (Proteção da base).
    • Taxa Classe Média (15%): Para a vasta maioria dos portugueses (até aos 5.000€/mês). Isto daria uma liquidez imediata e brutal às famílias.
    • Taxa de Topo (30%): Para rendimentos muito elevados. Note-se: 30% é o que a classe média paga hoje; aqui passaria a ser o teto máximo.
  • Eliminação da Retenção na Fonte Excessiva: Ajustar o sistema para que o Estado não "peça emprestado" dinheiro aos cidadãos sem juros durante um ano. O dinheiro deve estar no bolso das pessoas todos os meses.
  • Unificação da Taxa de Capital: Baixar a taxa sobre juros e dividendos de 28% para 15% (alinhada com o escalão da classe média), incentivando o pequeno aforro.

2. De onde vem o dinheiro? (O Equilíbrio das Contas)

Esta é a pergunta de "um milhão de euros". Para baixar impostos sem criar um buraco no orçamento, é preciso atuar em três frentes:

A. O "Dividendo do Crescimento"

Ao baixar o IRS para 15% para a classe média, o consumo aumenta. Esse dinheiro volta ao Estado via IVA. Mais importante: empresas que hoje não conseguem contratar porque os salários líquidos são baixos, começam a expandir-se. O aumento da atividade económica compensa a descida da taxa (Curva de Laffer).

B. Reforma do Estado: Menos "Gasto", Melhor "Investimento"

  • Extinção de Observatórios e Entidades Redundantes: Portugal tem centenas de institutos públicos e fundações que consomem milhões com utilidade marginal.
  • Privatização/Concessão de Gestão: O Estado não tem de gerir companhias aéreas ou empresas de logística. O foco deve ser o regulador.
  • Digitalização Real: As Finanças já são digitais, mas a Justiça e a Educação não. A redução da burocracia poupa milhares de horas de trabalho e milhões de euros em papel e processos lentos.

C. Combate à Economia Paralela

Portugal tem uma economia informal estimada em 25% do PIB. Com impostos mais baixos e justos, o incentivo para "pedir fatura sem número de contribuinte" diminui. Se a taxa é justa, o cidadão prefere a segurança da legalidade.


3. Saúde e Social: Do Estado Prestador ao Estado Garante

O equilíbrio das contas também vem da eficiência na entrega.

  • Concorrência na Saúde: Em vez de injetar milhões no SNS para gerir listas de espera, o Estado contratualiza com o setor privado e social por resultados. Se o privado faz uma cirurgia mais barato e mais depressa que o hospital público, o Estado poupa dinheiro e o cidadão ganha saúde.
  • Ensino Dual e Financiamento por Aluno: O dinheiro segue o aluno. Isto obriga as escolas (públicas e privadas) a serem eficientes para atraírem financiamento.

Comparação de Impacto: Modelo Atual vs. Nova Reforma

Medida

Modelo Atual (Sufocante)

Nova Reforma (Desenvolvimento)

IRS Classe Média

Entre 25% e  45%

Fixado em 15%

Liquidez Mensal

Baixa (Estado retém muito)

Alta (Famílias decidem o gasto)

Investimento

Fugaz e dependente de subsídios

Estrutural e focado no capital

SNS

Monopólio estatal ineficiente

Sistema misto focado no utente



O Plano de Ação: O "Contrato de Confiança"

Aconselharia um plano a 4 anos, onde a descida dos impostos é feita de forma gradual mas irreversível:

  1. Ano 1: Redução imediata do IRS para a classe média e simplificação de escalões.
  2. Ano 2: Implementação do sistema de liberdade de escolha na Saúde (Vouchers/Cheques).
  3. Ano 3: Reforma da Administração Pública e eliminação de gastos supérfluos.
  4. Ano 4: Consolidação com a descida pontual do IVA para bens essenciais e energia.

Conclusão: O dinheiro para financiar isto vem de uma economia que respira. Atualmente, Portugal tenta tirar 40% de um bolo pequeno. O plano propõe tirar 15% de um bolo que, com estas medidas, crescerá exponencialmente. O equilíbrio vem do fim do desperdício estatal e da entrada de milhares de trabalhadores na economia formal que hoje fogem ao fisco por este ser "confiscatório".

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O sistema fiscal, a nível do IRS, manteria a progressividade, mas com uma lógica de "escada" muito mais suave e justa, evitando o chamado "salto para o abismo" que acontece hoje em Portugal.

No modelo que desenhámos, a progressividade funcionaria por fatias (ou escalões marginais). Isto significa que a taxa mais alta incide apenas sobre o valor que ultrapassa o limite, e não sobre o salário todo.

O Exemplo Prático: Um Salário de 3.500 € Brutos

Vamos ver como se dividiria o imposto para alguém que ganha 3.500 €:

  1. A 1.ª Fatia (Até 1.000 €): Paga 0%. (O Estado garante o mínimo de existência).

  2. A 2.ª Fatia (De 1.001 € até 3.000 €): Paga 15% sobre esses 2.000 €. ($2.000 \times 0,15 = 300$ €).

  3. A 3.ª Fatia (Acima de 3.000 €): Paga 30% sobre os 500 € restantes. ($500 \times 0,30 = 150$ €).

  • Total de IRS: 450 €.

  • Taxa Efetiva: 12,8%.

  • Líquido: 3.050 € (sem contar com Segurança Social).


Por que é que este modelo é superior ao atual?

1. Elimina o "Medo de Ganhar Mais"

Atualmente em Portugal, muitos profissionais recusam aumentos ou horas extras porque o salto de escalão é tão agressivo que o aumento bruto quase desaparece no imposto líquido. Com apenas 3 escalões largos, o esforço compensa sempre.

2. Protege a Classe Média (A "Zonal de Conforto")

A grande inovação aqui é o intervalo dos 15%. Ao esticar este escalão até aos 3.000 € ou 4.000 €, estamos a dizer que a classe média tem o direito de reter o fruto do seu trabalho. É aqui que se cria a liquidez que mencionaste: dinheiro para investir, poupar ou consumir sem sufoco.

3. Simplicidade e Transparência

Um sistema com 9 escalões (como o atual) é opaco. Quase ninguém sabe quanto vai pagar realmente. Um sistema de 3 fatias é previsível. A previsibilidade é o que atrai investidores e convence os talentos a ficar.


Como garantir que o Estado não entra em colapso?


Mencionaste a preocupação com o equilíbrio das contas. Para passar do sistema atual para este, o "segredo" está na eficiência da despesa:

  • Menos Benefícios Fiscais, Taxas Mais Baixas: O sistema atual é cheio de deduções complexas (faturas de oficina, ginásio, etc.). Na reforma, eliminaríamos essas "migalhas" burocráticas em troca de uma taxa base muito menor. O cidadão prefere ter o dinheiro logo no salário do que andar a mendigar deduções no final do ano.

  • Crescimento do PIB: Se a classe média tem mais 500 € ou 1.000 € por mês, esse dinheiro circula. O Estado recupera uma parte via IVA (consumo) e outra via IRC (lucro das empresas que vendem mais).

  • Atração de Não-Residentes: Portugal deixaria de precisar de "regimes especiais" para estrangeiros (que criam injustiça entre quem cá está e quem vem). Com uma taxa de topo de 30%, Portugal passaria a ser, naturalmente, um dos países mais competitivos da Europa para qualquer profissional qualificado, independentemente da nacionalidade.

O Impacto Psicológico

A maior mudança não é financeira, é moral. O cidadão deixa de sentir que o Estado é um sócio maioritário que não aparece para trabalhar. Passa a haver um sentido de justiça: "Eu contribuo com uma parte justa (15%), e o Estado deixa-me gerir o resto da minha vida."

sábado, abril 04, 2026

Dois anos de governo AD e viva a mediocridade dos governantes
-- Como sempre, o meu marido não lhes dá descanso... --

 

Ontem, o Luís veio informar-nos que, após dois anos de governo AD, o País está melhor. 

Provavelmente só ele e os seus aficcionados é que deram por isso. Aposto que o pessoal, quando vai ao supermercado, quando enche o depósito, quando tenta arranjar uma casa ou quando não obtém resposta no SNS, pensa exatamente o contrário: o País está pior. 

  • Este governo conseguiu a proeza de diminuir em 2025 o PIB per capita dos portugueses de 82,4 por cento para 81 por cento do valor médio da UE e conseguiu também que a posição de Portugal no ranking do poder de compra passasse do vigésimo primeiro lugar para vigésimo segundo. Diria que a isto se chama andar para trás. 
  • O SNS piorou como nunca antes tinha acontecido, chegando-se ao cúmulo de ocorrerem partos em sítios inimagináveis, incluindo em plena rua. 
  • Os alunos sem aulas continuam mais do que muitos, sem que o ministro saiba dizer, ao certo, quantos são. 
  • Os preços da habitação dispararam. Portugal foi o País em que os aumentos na habitação foram maiores. O exemplo acabado do insucesso das políticas do governo para a habitação e a confirmação de que foram atingidos resultados opostos aos pretendidos é que 28 por cento dos contratos celebrados pelos jovens originam um taxa de esforço entre 40 e 50 por cento. 
  • O combate aos incêndios foi um desacerto total. A resposta às calamidades recentes revelou a total inoperância e ineficiência do governo. Mesmo as medidas de apoio que foram anunciadas não chegam aos destinatários apesar de todas as promessas do governo. 
  • As polícias voltaram a marcar protestos.
  • E os professores também voltaram a ouvir-se. 
  • A justiça continua inoperante, intrusiva, demorada e com agenda própria. 
  • O crescimento do País foi menor que o crescimento dos anos anteriores e, embora se mantenham os resultados positivos face ao orçamento, eles são menores do que no governo anterior. 
  • Para cúmulo dos cúmulos o governo não toma as medidas necessárias para responder à crise atual, que tende a agravar -se,  mas que o governo parece ignorar. Compare-se as tíbias medidas que o Luís anunciou -- tíbias, remissas, frouxas e de perna muito curta -- com as que Pedro Sánchez anunciou em Espanha. Face à inoperância deste Governo é de temer o pior.

Contra factos não há argumentos. Mas lá virão os aficionados do Luís dizer que o governo pode ter falhado nas situações mais críticas mas teve um desempenho positivo nas áreas da segurança e da imigração. Pois, pois .... 

Na imigração, a AD andou a seguir a agenda do Chega para resolver um problema sem grande dimensão mas muito amplificado pelo Chega. 

Na realidade, foi graças aos imigrantes que a economia cresceu e que vários sectores de actividade não pararam. Não esquecer os 3,2 mil milhões de euros positivos que resultam da contribuição dos imigrantes para segurança social. 

Hoje o problema é a falta de mão de obra imigrante para dar andamento a muitas obras. É o resultado da politica do governo. 

A seguir, para desviarem as atenções dos falhanços, vieram com a lei da nacionalidade. De facto, temos um problema gravíssimo com os dois mil e setecentos pedidos de nacionalidade por pessoas vindas do Industão (e, obviamente, estou a ser irónico). Já basta o que basta, tratem do que é importante. 

Quanto à segurança, o último RASI é elucidativo. Foram verificados 85.000 imigrantes e só 1 por cento estava irregular. Em contrapartida, os crimes relacionados com redes ilegais de imigrantes aumentaram 250 por cento. O governo foi avisado que era o resultado esperado da política que queria seguir mas não deu ouvidos a quem tinha razão. Os crimes relacionados com a droga e com a violência doméstica, isto sim um verdadeiro flagelo que é preciso combater, também aumentaram. Portanto, não se pode dizer que os resultados na área da segurança sejam os melhores. 

Enfim, é muito difícil encontrar algo de verdadeiramente positivo na actuação do governo e só alguém vindo de um planeta muito distante poderá dizer que o País está melhor. Atendendo a que estamos na época pascal (feliz Páscoa para todos) apetece-me escrever que presunção e água benta cada um toma a que quer. No caso vertente, o Luís toma carradas e carradas de presunção.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O notável discurso de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, em Davos

 

Presumo que já toda a gente tenha lido e/ou ouvido o discurso, escrito pelo próprio Mark Carney e que espantou toda a gente -- uma lufada de ar fresco, uma janela aberta para um mundo que pode ser melhor, um murro na mesa (ou na cara de Trump), um pensamento escorreito e uma escrita limpa -- mas, até para memória futura, faço questão de o ter aqui. 

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É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento crucial para o Canadá e para o mundo. Hoje, vou falar sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação.

Mas também quero dizer-vos que os outros países, em particular as chamadas potências médias, como o Canadá, não são impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Todos os dias alguma coisa nos lembra de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que ordem mundial sustentada por regras está a desvanecer-se e que os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, apenas a lógica natural das relações internacionais a reassumir-se. E, perante esta lógica, há uma forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas. Esperam que essa aceitação lhes traga segurança.

Mas não trará. Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.

Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.

Está na altura de empresas, países, retirarem os seus cartazes.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a proteção destas regras.

Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.

Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto: estamos a meio de uma rutura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infraestrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais de que os poderes médios dependiam — a OMC [Organização Mundial do Comércio], a ONU, a COP [Conferência das Partes] — e a arquitetura de resolução coletiva de problemas estão muito diminuídas.

Como resultado, muitos países estão a tirar as mesmas conclusões, que devem desenvolver maior autonomia estratégica: em energia, alimentação, minerais críticos, nas finanças e cadeias de abastecimento. Este impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se a si mesmo tem poucas opções. Quando as regras já não vos protegem, é preciso que se protejam a vocês mesmos.

Mas sejamos realistas sobre o lugar onde isto nos leva: a um mundo de fortalezas, mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a aparência de regras e valores pela busca desimpedida do seu poder e dos seus interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornam-se mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem retirar lucros eternos das suas relações, e os aliados vão diversificar para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções. E tudo isto traz de volta a soberania, só que é uma soberania que antes estava ancorada em regras, mas que estará, a partir de agora, cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão de risco clássica tem um preço, mas esse custo de autonomia estratégica, de soberania, também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada a conta de cada um construir a sua própria fortaleza individualmente. Padrões partilhados reduzem a fragmentação, as complementaridades são de soma positiva.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos adaptar-nos a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso. O Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o alerta, o que nos levou a modificar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que a antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e o nosso sistema de alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida.

A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb [Presidente da Finlândia] chamou “realismo baseado em valores”, ou, por outras palavras, termos princípios e, ao mesmo tempo, sermos pragmáticos.

Devemos manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU, respeito pelos direitos humanos. E devemos ser pragmáticos ao reconhecermos que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilham os nossos valores. Podemos envolver-nos amplamente, estrategicamente, mas com os olhos abertos. Devemos participar ativamente no mundo com ele é, e não esperar por um mundo como desejamos que seja.

O Canadá está a calibrar as suas relações para que a profundidade das mesmas reflita os seus valores. Estamos a dar mais importância a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isto representa e o que está em jogo para o que vem a seguir.

Já não estamos dependentes apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força. Estamos a construir essa força em casa.

Desde que o meu Governo tomou posse, cortámos impostos sobre rendimentos, mais-valias e investimento empresarial, removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial e estamos a acelerar mil milhões de dólares de investimento em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais. Até 2023, vamos duplicar as nossas despesas na Defesa e estamos a fazê-lo de forma a desenvolver as nossas indústrias nacionais.

Estamos também a diversificar no estrangeiro, e recentemente acordámos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão ao SAFE [Ação de Segurança para a Europa], os acordos europeus de aquisição e adjudicação de material de Defesa.

Assinámos outros doze acordos comerciais e de segurança em quatro continentes nos últimos seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, a ASEAN, a Tailândia, as Filipinas e o Mercosul.

Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a prosseguir geometria variável: diferentes coligações para diferentes questões, baseadas em valores e interesses.

Na Ucrânia, somos um membro central da Coligação de Vontades e um dos maiores contribuintes per capita para a defesa e segurança do país.

Sobre a soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e demos pleno apoio ao seu direito de determinar o futuro da Gronelândia. O nosso compromisso com o Artigo 5º é inabalável.

Estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO (incluindo os Nórdicos-Bálticos) para robustecer ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, incluindo através dos investimentos sem precedentes em radares de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno. O Canadá opõe-se fortemente a impostos alfandegários sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas em alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade para o Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um novo bloco comercial de 1500 milhões de pessoas.

Nos minerais essenciais, estamos a formar grupos de compradores, ancorados no G7, para que o mundo possa diversificar-se da oferta concentrada.

Na inteligência artificial, estamos a cooperar com democracias para garantir que não seremos forçados a escolher entre empresas hegemónicos e hiperescaladores [fornecedor gere grandes redes de centros de dados, projetados para suportar computação, redes e armazenamento].

Isto não é multilateralismo ingénuo, nem é depender de instituições diminuídas, é construir as coligações que funcionam, questão por questão, com parceiros que partilham terreno comum suficiente para agirem em conjunto. Nalguns casos, será a grande maioria das nações. E é criar um teia densa de ligações através do comércio, investimento, cultura, nas quais nos podemos apoiar para futuros desafios e oportunidades.

As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm mercado, capacidade militar, alavancagem para ditar termos. As potências médias não. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para sermos os que mais acomodam as suas exigências.

Isto não é soberania. É a representação de soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir uns com os outros para cair “nas graças” ou unirem-se para criar um terceiro caminho, com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-lo em conjunto.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias “viver na verdade”?

Significa dizer as coisas como são na realidade. Parem de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção.

Significa agir consistentemente. Aplicar os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando os poderes médios criticam a intimidação económica quando vem de um lado mas ficam em silêncio quando vem de outro, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que alegamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, criar instituições e acordos que funcionem conforme o que fica escrito.

E significa reduzir a alavancagem que abre espaço à coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de cada governo. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é a fundação material para uma política externa honesta. Os países ganham o direito a posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética, temos vastas reservas de minerais, temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Temos capital, talento e um Governo com imensa capacidade fiscal para agir decisivamente. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade plural que funciona, a nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável, num mundo que é tudo menos isso, um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

O Canadá tem algo mais: reconhecemos o que está a acontecer e estamos determinados a agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação, exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo connosco.

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Abaixo o vídeo. Não é exactamente o discurso integral pois falta a introdução, em francês, mas, enfim, está aqui mesmo quase tudo.

In full: Canadian Prime Minister Mark Carney's speech at the World Economic Forum in Davos

quarta-feira, novembro 12, 2025

Ver ao longe, planear, executar

 

Penso que ninguém suspeitará que tenho simpatias pelo regime comunista chinês. Não tenho, de todo. Aquelas reuniões unanimistas do partido, aquelas demonstrações sincronizadas de nacionalismo, aquele controlo das liberdades, aquele dirigismo impositivo em que parece que não há quem ouse pisar o risco -- tudo aquilo me causa uma repulsa que não tem solução.

Contudo, há um lado extraordinário na forma estratégica, planeada e focada como a China avança. Estará nos seus genes, estará na sua matriz cultural, estará cravado na sua pele tantos os anos de ditadura. Talvez. Mas temos que reconhecer que o desenvolvimento daquele imenso país é extraordinário. E falo em desenvolvimento económico, em desenvolvimento científico, tecnológico, social. O que era a China há umas décadas e o que é hoje... Só um centralismo poderoso e muito estável o conseguiria. Mas poderia havê-lo e terem ido numa outra direcção. E a verdade é que têm ido no sentido do progresso. E isso é inquestionável. Em quase todos os sectores da economia é a China que vai na frente. E mesmo a nível ambiental, onde há tempos, não estavam nem aí, agora se veem avanços assinaláveis. 

E têm atirado lanças um puco por todo o lado, e sempre de forma coerente, articulado, sustentado.

E não vale a pena colocarmos o nosso arzinho superior, focando-nos só no lado negativo das coisas. Claro que há um lado negativo. Aliás, muitos. Só que, se estivermos sempre a pensar que somos os maiores, só conseguimos aquilo que se vê, sempre a ficar para trás.

Os vídeos que aqui partilho são apenas exemplos numa área muito concreto. E, sobre o mesmo assunto, mostro dois vídeos para que se veja que não há unanimidade nas opiniões. Contudo, o que se vê, perante os escolhos que vão surgindo ou perante os possíveis riscos, novas soluções vão sendo estudadas e levadas à prática.

Compare-se a ambição destes projectos com a chachada que é a gestão da coisa pública em Portugal em que o governo nem consegue arranjar uma solução para as mulheres não parirem nas ambulâncias ou nos passeios, em que se compram helicópteros para a emergência médica que não conseguem pousar nos hospitais, em que se chega a esta altura do ano com 100.000 alunos ainda com pelo menos um professor em falta.

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Como a China está a transformar o seu maior deserto em novas fontes de vida

Outrora conhecido como o "Mar da Morte", o Deserto de Taklimakan é agora o centro de um dos projetos de restauro de terras mais ambiciosos do mundo.

Estendendo-se por 337.000 quilómetros quadrados na Região Autónoma Uigur de Xinjiang, na China, o Taklimakan é o segundo maior deserto de areia movediça do planeta. Durante décadas, as suas dunas expandiram-se implacavelmente, engolindo estradas, aldeias e terras agrícolas.

Mas hoje, essa história está a mudar.

Neste vídeo, levamos-te até à beira do deserto para veres como a China está a reagir – não apenas detendo as areias, mas transformando-as em novas fontes de vida e rendimento.

Como a China está a transformar o Mar da Morte numa floresta verde!

O Deserto de Taklamakan — conhecido como o “Mar da Morte” — é uma das paisagens mais inóspitas da Terra. No entanto, num esforço ambiental inovador, a China cercou-o com um enorme cinturão verde de 3.046 quilómetros, parte da maior floresta artificial do mundo. Este projecto, que dura há décadas, visa travar a desertificação, proteger milhões de pessoas e garantir infra-estruturas vitais em Xinjiang.

Neste documentário, exploramos o funcionamento da Grande Muralha Verde da China: desde arbustos resistentes à seca e florestas de choupos gigantescas, a sistemas de irrigação movidos a energia solar e barreiras de engenharia que contêm as dunas movediças. Examinaremos também os desafios — escassez de água, taxas de sobrevivência das plantas e equilíbrio ecológico — que poderão determinar o futuro desta audaciosa experiência.

Será esta a vitória definitiva contra o deserto, ou apenas um oásis temporário num mar de areia?

A Grande Muralha Solar da China: Transformar o deserto numa potência verde

Através do vasto Deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, norte da China, uma "Grande Muralha Solar" de 400 quilómetros, composta por painéis fotovoltaicos, está a transformar esta terra árida num símbolo do compromisso da China com o desenvolvimento das energias renováveis. Além de produzir energia limpa, protege o Rio Amarelo da areia do deserto, salvaguardando as comunidades locais e possibilitando uma agricultura verde e sustentável.
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Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, agosto 26, 2025

Os sucessos do Montenegro
-- A palavra ao meu marido --

 

Depois das tragédias na saúde, da catástrofe dos incêndios, do pavor da habitação -- e fico-me por aqui que só estes três enormes problemas são bem reveladores da incapacidade e incompetência do governo -- soube de duas notícias que me causaram causaram preocupação. 

A primeira é o valor da inflação. As medidas do governo não funcionam, a inflação vai aumentando e o nosso posicionamento na Europa não é nada confortável. De facto, julgo que até os laranjas empedernidos devem achar que o valor que deixam no supermercado, no mercado ou na mercearia é cada vez maior, e parece injustificável. Vai mal a tal história da inflação, muito mal.

Uma outra notícia deveras preocupante é ter diminuído significativamente o número de alunos candidatos ao ensino superior, tendo esta diminuição impacto significativo nos jovens com menos recursos. Um País nunca crescerá de forma integrada e coerente se não tiver gente educada e com boa formação pelo que estas notícias são muito preocupantes e consequência seguramente de problemas no ensino e na falta de recursos das famílias. Podemos dizer que temos aqui mais um "enorme sucesso" do governo.

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

O Musk a reservar para Trump o papel de avôzinho? O Trump a engolir um sapalhão e a fingir que até gosta?
What?
E que reviravolta mundial é esta a que assistimos? Qual o papel da Europa no meio disto tudo?

 

Ando perplexa com o que está a passar-se. Há um lado pragmático em Trump que, por vezes, me parece que faz algum sentido. Mas, ao desprezar as leis, ao ignorar a história e a geografia, ao desprezar todos os que não são mais fortes que ele, ao demonstrar ser um narcisista intragável, é perigoso.

Em tempos trabalhei com equipas de outras nacionalidades. Já o contei: aqueles com quem mais gostei de trabalhar foi com alemães. Por vezes levavam-me ao desespero ao quererem planear tudo ao mais ínfimo detalhe, ao quererem ter planos de contingência para cada pequeno imprevisto, Antes de começarmos a pôr em prática o que quer que fosse, 'perdíamos' tempos infinitos a arquitectar soluções para tudo o que pudesse acontecer. Mas eram rigorosos simpáticos, leais, e, uma vez tudo equacionado, a execução era eficiente, sem espinhas. Não se trabalhava fora de horas. Tudo rodava sobre rodas.

Também gostei imenso de trabalhar com um holandês. Era divertido, brincalhão, viajado, incorporava histórias hilariantes nas conversas. E era inteligente, bon vivant. Também gostei bastante de trabalhar com ele.

Também trabalhei com espanhóis, franceses, israelitas, australianos, japoneses, italianos.

Mas agora quero falar de um americano. Fisicamente parecia um atleta. Devia medir dois metros, tinha um físico incrível, tinha um cabelo liso de um louro acinzentado, uns olhos azuis acinzentados claros. Andava sempre com uma mochila ao ombro mesmo quando isso ainda não era moda. Também se apresentava muitas vezes de ténis quando isso era heresia. Não gostei muito de trabalhar com ele. Havia qualquer coisa de excessivamente pragmático, de rudimentar, de muito básico. Era inteligente, muito, e desempenhava funções muito relevantes. Mas ignorava constrangimentos, ignorava a resistência humana às mudanças de fundo, ignorava os pequenos impedimentos. A ideia dele era atingir um objectivo e não queria saber de mais nada, Não lhe interessava conhecer o tema ao pormenor, muito menos queria perder tempo em levantamentos. E estava-se nas tintas para interagir com a malta que integrava as equipas. Eu era a interlocutora dele e isso para ele bastava. Temas que, para serem escalpelizados levariam horas, eram para ele coisa para um quarto de hora. Mais do que isso era estarmos a envolver-nos nos problemas em vez de nos focarmos nas soluções.

Eu ficava siderada. Claro que perante um problema há 3 alternativas. A 1ª é não fazermos nada, a 2ª é tentarmos resolvê-lo a bem, com o envolvimento e a compreensão de todos. A 3ª é à bruta.

A abordagem dele era a 3ª. Dizia que estávamos a deixar de ganhar o que devíamos por não termos implementado um conjunto de processos e tecnologias. E que, se quiséssemos resolver à 'moda portuguesa', seriam projectos para cerca de 3 anos. Segundo ele, deveríamos ter toda a mudança implementada no máximo em 6 meses. Se as pessoas estrebuchariam, se haveria despedimentos e chatices, desmotivações e coisas do género era para o lado em que ele dormiria melhor.

E nem tinha paciência para ouvir os meus argumentos. Pelo contrário, dizia que era nessas preocupações que os portugueses desperdiçavam a produtividade.

Repare-se que eu percebia a abordagem dele e, numa perspectiva meramente económica, reconhecia a razão dele. 

Só que a minha abordagem, a abordagem portuguesa (e europeia), incorpora preocupações humanistas, queremos o bem estar daqueles com quem trabalhamos ou com quem nos relacionamos, queremos ter a certeza que estamos a fazer a coisa certa e, por isso, fazemos levantamentos, fazemos estudos, avaliamos alternativas. Falamos com as pessoas, marcamos reuniões -- ou seja, segundo ele, perdemos tempo.

O que vejo no Trump e no Musk e nesta rapaziada é isto. É a cultura empresarial, pragmática, economicista. Indiferente ao resto.

E tal como o belo Mark nos aparecia naqueles escritórios forrados a madeira com belos sofás de veludo com jeans, ténis e mochila ao ombro, assim Musk de boné com o filho às cavalitas, enquanto Trump ali está a assistir ao que se passa na sua 'sala oval', sem piar.

Uma questão cultural? 

O fim dos tempos?

O que está a passar-se? 

Há um lado bom dentro de tudo o que está a passar-se? Ou isto é um filme de terror?

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Lawrence: In Oval Office, Elon Musk shows the world Trump ‘is not the boss of me’

Lawrence O’Donnell details the display of the presidential subservience to Elon Musk in the Oval Office as they made baseless claims of waste, fraud and abuse without any evidence and turned their backs on starving children in Sudan.



quarta-feira, fevereiro 05, 2025

É que é tudo tão estúpido que até quase dá vontade de rir

 

Podemos ficar estupefactos, estarrecidos, perplexos com o monte de decisões parvas, absurdas, ridículas, ingratas, mesquinhas, maldosas, podemos pensar que não dá para acreditar, mas a verdade é que está tudo a acontecer, está mesmo.

O que vale é que, pelo menos, quem faz paródia não é atirado pela varanda ou envenenado.

Trump's Destructive Weekend | Canada Is Booing Us | Tariffs Will Cause "Pain" | Going Back To 1913

Buckle up as Stephen Colbert goes through the laundry list of disastrous moves made over the weekend by President Trump, which included slapping tariffs on Mexico and Canada and giving Elon Musk access to the Treasury Department's payments system. 



domingo, agosto 04, 2024

De onde vêm as fibras mais caras do mundo?

 

Em tempos visitei fábricas em que se produziam fibras sintéticas. Perceber o processo produtivo desde a entrada das matérias primas (derivadas do petróleo) até à saída de fibras macias e coloridas pode ser surpreendente.

Acompanhar o controlo de qualidade e ver o que acontece ao que é rejeitado bem como ver o que acontece aos resíduos líquidos, carregados de químicos, é outra surpresa. Lembro-me de uma grande fábrica fora de Portugal, uma que era considerada um modelo de eficiência e sustentabilidade, e de vir de lá com os cabelos em pé o que me valeu alguns dissabores digamos que diplomáticos.

Outros tempos.

Muitas vezes ignoramos completamente como é feito aquilo que usamos. E, pensando bem, se calhar é melhor assim. Há situações em que a ignorância não nos faz perder nada. Seja como for, é bom que, pelo menos, se saiba que, antes do produto acabado chegar às nossas mãos, muitas vezes há um longo processo produtivo que dá trabalho, e sustento, a muitas famílias.

Mas hoje, aqui, não trago processos industrializados, ou, pelo menos, fortemente automatizados. Trago as origens e o processo seguido desde a origem, seja no mundo animal seja no vegetal, até que algumas das fibras mais caras do mundo cheguem até nós. E se as fibras sintéticas, em que há feroz concorrência, tendem a ter preços baixos, já as fibras naturais podem chegar a preços verdadeiramente exorbitantes apenas ao alcance dos poucos que podem pagar produtos de luxo.

How The World's Most Expensive Fibers Are Made | Insider Art

Communities around the world rely on harvesting some of the rarest known fibers to make a living. But for most, it's not an easy task. Fragile fibers like lotus silk and vicuña wool are so rare that they can cost more than gold. Here's how some of the world's most expensive fabrics — like French Leavers lace, Icelandic eiderdown, and cashmere from Himalayan goats — are made.


Desejo-vos um feliz dia de domingo

terça-feira, junho 11, 2024

Falemos, com alguma objectividade, de coisas concretas

 

A propósito da parvoeira e da chico-espertice do so-called choque fiscal da AD (na verdade, meros trocos em cima do que o PS tinha feito) e sobre a qual o PS está a fazer outra parvoíce ao não deixar o PSD fazer o que quer, e a propósito também da deriva absurda da AD ao pretender dar uma escandalosa borla fiscal a quem tenha até 35 anos (ganhem o que ganharem), fiz um pedido ao ChatGPT. 

Abaixo, transcrevo o que ele me devolveu. Não validei os números pelo que se alguém quiser fazer uma análise idêntica para fins concretos e de responsabilidade deverá conferi-los, recorrendo a fontes oficiais. 

O que aqui tenho está em inglês pois parece-me que, ao ter que consultar fontes oficiais (OCDE, UE, etc., como vi que 'ele' consultou) há menos risco de erros de o ChatGPT se baralhar por deficiente tradução/interpretação.

Quando os saloios da AD acham que vão atrair ou reter pessoas que estão a viver fora ou que, estando cá, equacionem emigrar, seria bom que, antes, fizessem uma análise global.

Por exemplo: 

  • Trabalhando cá, como é que o salário médio português compara com alguns dos principais países que acolhem a nossa emigração?
  • Como são os impostos cá e lá? É que uma família que se mude tem que pensar como fica quando tiver 36 anos.
  • Com que salário anual se atinge a taxa máxima de IRS?
  • Como é o PIB e o crescimento nesses países? (Isto é, são países ricos? Há crescimento económico?)
  • Qual o imposto sobre capitais (Juros de depósitos a prazo ou de títulos de dívida pública, etc) nesses países?
  • (Por mera curiosidade, como comparam os impostos sobre os resultados das empresas, vulgo IRC?)

Eis as respostas que o ChatGPT me forneceu (e que, repito, não me dei ao trabalho de validar)

Portugal

  • Average Annual Salary: €22,628
  • Income Tax Rates: 14.5% to 48%
    • Maximum Rate Applied At: €80,882
  • GDP per Capita: €22,440
  • Average Annual GDP Growth Rate: 2.2%
  • Capital Gains Tax: 28% for individuals, 25% for companies
  • Corporate Tax Rate (IRC): 21%

Analysis: Portugal has a lower average salary and a high top tax rate, impacting those with incomes above €80,882. Despite lower living costs, disposable income is limited, affecting the overall quality of life. 

Ah pois...

Vejamos, agora, os países para os quais os portugueses mais emigram ou emigraram.

Spain

  • Average Annual Salary: €28,375
  • Income Tax Rates: 19% to 47%
    • Maximum Rate Applied At: €300,000
  • GDP per Capita: €29,700
  • Average Annual GDP Growth Rate: 2.4%
  • Capital Gains Tax: 19% to 23%
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: Spain offers higher salaries with a top tax rate impacting those earning above €300,000. With moderate living costs and good public services, the balance between income and taxes is favorable, enhancing the quality of life.

France

  • Average Annual Salary: €39,300
  • Income Tax Rates: 0% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €160,336
  • GDP per Capita: €38,500
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.3%
  • Capital Gains Tax: 30%
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: France provides high salaries with the top tax rate starting at €160,336. Despite high living costs, comprehensive social services and public benefits contribute to a high quality of life.

Germany

  • Average Annual Salary: €49,200
  • Income Tax Rates: 0% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €274,613
  • GDP per Capita: €46,200
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.8%
  • Capital Gains Tax: 26.375%
  • Corporate Tax Rate: 15% + 5.5% solidarity surcharge

Analysis: Germany has the highest average salary among the listed countries, with the top tax rate affecting incomes above €274,613. High disposable incomes and efficient public services result in a high standard of living.

United Kingdom

  • Average Annual Salary: €37,600
  • Income Tax Rates: 20% to 45%
    • Maximum Rate Applied At: €174,500 (£150,000)
  • GDP per Capita: €44,300
  • Average Annual GDP Growth Rate: 1.4%
  • Capital Gains Tax: 10% or 20% (18% or 28% for property)
  • Corporate Tax Rate: 25%

Analysis: The UK offers high salaries with the top tax rate starting at €174,500. High living costs, particularly in London, are offset by good public services and infrastructure, maintaining a high quality of life.

Summary

  • Portugal and Spain: Moderate quality of life with progressive tax systems and lower income levels. Spain offers a better balance due to a higher threshold for the top tax rate.
  • France and Germany: High quality of life with robust social services. Germany's higher salary and tax threshold provide more disposable income.
  • UK: High quality of life with high incomes and living costs. The UK offers a balanced approach with higher tax thresholds and comprehensive services.
Penso que está claro, não está?

Portugal tem salários bem mais baixos do que os países que tradicionalmente mais portugueses atraem, é um país bem menos rico, carrega nos impostos sobre rendimentos das pessoas que é um disparate e um abuso.

Portanto, é nisto que os governantes (sejam eles quem forem) têm que se concentrar: estimular fortemente o crescimento económico, incentivar fortemente a subida de salários, reduzir a taxação de IRS da classe média, taxando mais apenas os verdadeiramente ricos (vide valores acima) com vista a libertar liquidez para as famílias.

Em contrapartida, (a serem verdadeiros os números acima), bem pode taxar mais as empresas, em especial as que têm lucros mais elevados pois, aparentemente, Portugal, entre estes países, é quem taxa menos.

Mas há outros índices a ter em atenção, nomeadamente o Índice de Felicidade. E mais uma vez transcrevo a resposta que obtive e, de novo, a serem verdadeiros os valores que o Chat me devolveu, dá que pensar:

Based on the latest World Happiness Report, here are the happiness index scores for Portugal, Spain, France, Germany, and the United Kingdom:
  • Portugal: 5.9
  • Spain: 6.5
  • France: 6.7
  • Germany: 6.9
  • United Kingdom: 6.8​ 

These scores provide a comparative measure of subjective well-being across these countries, reflecting factors such as GDP per capita, social support, healthy life expectancy, freedom to make life choices, generosity, and perceptions of corruption. 

De notar que o valor mais elevado é obtido pela Finlândia que tem 7,8

Ou seja, também aqui, Portugal está abaixo dos países que acolhem grande parte dos nossos emigrantes. E este indicador é daqueles que, por ter um âmbito muito abrangente, mais diz sobre a qualidade de vida num país.

Podia elencar outros indicadores que traduzem a qualidade de vida (quer a real quer a percepcionada) mas isto é um blog, não pretende, de forma alguma, dar-se ares de compêndio...

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Em gestão há uma metodologia que se designa por Balanced Scorecards. As empresas identificam objectivos que pretendem atingir (transpondo para a realidade nacional, suponhamos que, em Portugal, se pretendia ter um índice de felicidade de 7 no prazo de 3 anos, um salário médio equivalente a 80% da média dos salários médios dos países acima referidos no prazo também de 3 anos, uma taxa média de IRS para salários até 150.000€ anuais equivalente à média dos referidos países também no prazo de 3 anos, etc., etc, etc...). Então, para cada objectivo, traçar-se-iam iniciativas para lá chegar, e métodos para as monitorizar bem como indicadores para ir avaliando periodicamente a sua prossecução.

Claro que, ao detalhar iniciativas, iremos ter iniciativas múltiplas seja ao nível da formação académica e profissional, seja ao nível das medidas sociais para incentivar a renovação demográfica, medidas para proporcionar estímulos lúdicos que ajudem a percepcionar uma melhor qualidade de vida, etc.

Ou seja, de forma integrada, monitorizável e mensurável, seria possível pôr o país a caminhar rumo aos mesmos objectivos, de forma convergente, inteligente, inequívoca.

Deixaria de ser uma realidade ao gosto de cada comentador, cuja avaliação é na base das bocas. Pelo contrário, passaríamos a trabalhar num registo de seriedade intelectual, de objectividade.

E teríamos a certeza que o que estaríamos a fazer não seriam medidas avulsas, de utilidade duvidosa, injustas, absurdas.

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Sobre o (grave) problema do SNS e da Saúde em geral, a ver se falo no assunto amanhã ou, senão, um dia destes. Contudo, vou já adiantando que a resolução do (grave) problema em causa não é tema para médicos.