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quarta-feira, maio 20, 2020

Filmes, o devir do tempo, a ambiguidade, memórias





Tenho aqui nesta sala três estantes com dvd's. Penso que aqui tenho belos filmes. A estante que está aqui mesmo ao meu lado, uma das três, é uma estante pequenina que, com desenho meu e a meu pedido, o meu pai me fez. Já o contei várias vezes mas, quando vejo coisas feitas por ele, sempre sinto aquele orgulho que é um misto de orgulho e de surpresa. Toda a vida ouvi a minha mãe dizer que ele era o oposto do irmão. Enquanto o cunhado é habilidoso, cuidadoso, perfeccionista nos trabalhos que faz, a minha mãe achava que o meu pai não tinha jeito nem gosto em nada que fosse bricolage ou afins. O jardim do meu tio sempre estava relvado, com muitas flores, muito bem cuidado, com uma estufa com espécies delicadas enquanto o nosso era meia bola e força, sempre pensado pelo meu pai para ser fácil de manter. Contudo, ao reformar-se, para surpresa geral da família, dedicou-se a trabalhos que deixavam toda a gente espantada.


Com o rigor que punha nos seus projectos e desenhos a nível profissional, assim se dedicava ele aos seus trabalhos de marcenaria. Projectava com rigor, fazia cálculos e medições, adquiria os materiais com precisão e depois passava à execução seguindo à risca os projectos. Passei a ser sua cliente habitual. A minha mãe gostava pois ele estava entretido. Ia para o seu espaço de trabalho e ali estava horas a fio. Ali ao lado da salamandra está um dos trabalhos que mais o pressionou: o meu carrinho das tintas que tem duas prateleiras em baixo e, na de cima, compartimentos para as bisnagas e para os pincéis. 

Bem, mas falava eu nos filmes que aqui tenho. Gosto de passar os olhos por eles. Recordá-los. Quando os meus filhos deixaram de vir connosco ao fim de semana aqui para o campo por acharem que era uma seca, nós vínhamos ao sábado à tarde e íamos ao domingo também à tarde. Eles jantavam e almoçavam em casa dos meus pais. Depois casaram e também não achavam graça a virem para cá. Vinham de vez em quando mas, claro, não tão frequentemente quanto à cidade. Tínhamos, pois, o tempo por nossa conta quando aqui estávamos. Víamos os filmes que nos apetecesse e, aqueles a que o meu marido não achava especial interesse, via-os eu ao sábado à noite, até às tantas.

Não sei como mas recordo esses tempos como tendo uma disponibilidade que hoje não tenho.

Aliás, agora nem é só uma questão de indisponibilidade: agora até o leitor de dvd's se avariou. E, ao pensar que temos que ver se o aparelho tem arranjo, ocorre-me que, às tantas o que fará mais sentido será subscrever a netflix ou o hbo.


Houve tempos em que tinha filmes em cassettes e, agora que escrevo cassettes, nem estou certa de que esse era o nome certo. Tapes não é. É capaz de ser mesmo cassettes, mas grandes, não como as pequeninas dos carros, com música. Temos ali na arrecadação gavetas com cassettes com filmes. Havia duas tecnologias e lembro-me das discussões lá em casa sobre qual a mais universal. Agora nem consigo lembrar-me dos nomes dessas tão importantes tecnologias. Uma coisa que passou à história. Agora, se calhar, são os dvds que passaram ou vão passar. No outro dia, ao arranjar espaço no roupeiro aqui do quarto, dei com uma maleta antiga. Lá dentro tinha duas disquettes. Não faço ideia do que lá esteja. Já não há computadores onde usá-las e provavelmente foram escritas com recurso a programas que hoje também já não existem. E, com esse devir, o que em tempos foi relevante não apenas perde relevância como é forçado ao esquecimento eterno pois deixa de haver onde sequer visionar o que contém.


Claro que isto é conversa de pessoa vcc (= velha como o caraças) pois gente nova julgará que a tecnologia actual foi criada por deus nosso senhor ao oitavo dia.

Outra coisa, por exemplo. Embora não tenha nada a ver com tecnologias. O móvel que tenho à minha frente, onde a televisão está em cima, é um móvel antiquíssimo que veio da casa dos avós e de duas tias do meu marido. Ainda lá está dentro o serviço de chá de que elas tanto gostavam. Na parte de baixo de uma das prateleiras há camarões onde as chávenas estão penduradas pela asinha. Umas peças de louça lindas, creio que bem valiosas, verdadeiras relíquias. Apesar de frágeis, têm atravessado o tempo. Elas, que tão bem cuidaram destas peças, já se foram e as peças ainda cá estão. Provavelmente sobreviver-me-ão. Mas, ao falar nisto, interrogo-me sobre o sentido de tudo isto. Com o medo de as partir, nunca as uso. Acabo por nem me lembrar delas. Será a melhor forma de as preservar?


Depois, encho-me de um pragmatismo. Penso que, se as usasse, na volta, onde é que elas já iriam. É como uma caneca grande, de cerveja, de que o meu marido gostava. Gostava. No passado. Hoje a minha filha resolveu fazer um bolo de caneca. Ou a receita estava enganada, com tempo a mais, ou outra coisa qualquer correu mal. A caneca rebentou, a parte de baixo do bolo queimou-se e encheu a casa de cheiro a esturro e, a parte de cima do putativo bolo de limão, embora não queimada, ficou sólida e compacta como um calhau. Mas, no meio da animação que é o dia inteiro, já ninguém se espanta ou liga muito a minudências desse tipo. Mas, de certeza, se fosse uma chávena do século passado já haveria desgosto.

E estou com isto tudo porque estive a ver o vídeo abaixo e gostei de ver a Isabelle Huppert a observar as caixas dos filmes e a recordá-los. É uma mulher interessante, ela. Sorri enquanto fala, irradia luz. É daquelas mulheres irresistivelmente interessantes. Gosto dos seus personagens ambíguos. A ambiguidade assenta bem numa mulher. Eu, pelo menos, acho isso. Já os homens não, os homens devem ser tudo menos ambíguos. A ambiguidade num homem leva uma mulher ao desespero.


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Isto de só escrever tarde e más horas leva-me a produzir textos aos ziguezagues. Sei que mudo e desmudo de assunto enquanto escrevo mas não tenho tempo ou disposição para apagar e recomeçar direitinho. Espero é que não fiquem almareados ao ler estas palavras escritas ao sabor da ondulação do pensamento.

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As fotografias foram feitas aqui em casa, in heaven, e acho que vêm bem ao som de Chet Baker e Bill Evans.

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Uma boa quarta-feira.

quarta-feira, agosto 14, 2019

História encerrada
(?)


O que lerão mais abaixo vem no o seguimento de Manuel, o grande executivo, caíu numa armadilha 
que se seguia a Confissões. Meias confissões. Algumas omissões.
que já vinha no seguimento de Logo quando o cerco estava a apertar-se...
que veio a seguir a Manel contrata Clara que, por sua vez, 
vinha no seguimento de  Como definir o que não pode ser dito?
que já se seguia a A oradora-surpresa 
que foi, afinal, o início disto tudo


Não tardará terei que parar. Há fins de histórias que não podem ser revelados. E há histórias que não têm fim porque há nelas coisas que são eternas. Mas, enquanto não me interrompo (ou não sou interrompida), vou tentar avançar um pouco mais. No entanto, pouco mais há a contar.

Ou, pelo contrário, será que está tudo por contar?

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E foi assim que fiquei a saber que, de vez em quando, cada vez menos espaçadamente, o Manel era intimidado: quando menos esperava, como que aparecendo do nada, alguém lhe mostrava o vídeo em que lá estava ele naquela fatídica bem regada e louca noite de sexo com a correspondente de um órgão noticioso estrangeiro. Começou a ter ataques de pânico, mal dormia. Questionava-se sobre se estaria na altura de contar à mulher. Tremia de medo da reacção dela. Dela e dos filhos. E de toda a gente. Como poderia ter ele caído numa daquelas? Mil vezes lamentava o que tinha acontecido. Mil vezes se objurgava. Mas foi protelando a confissão, iludidamente na esperança de que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Mas não era apenas um pesadelo, era, na realidade, também um cerco.

Até que um dia, numa reunião com os representantes jurídicos de um sindicato bancário relacionado com uma operação de refinanciamento, no fim, um dos advogados pediu se poderia dar-lhe uma palavrinha. Nem lhe passou pela cabeça o que iria acontecer. Quando estavam os dois sozinhos, o advogado, por acaso de um outro país, disse-lhe (em inglês, que era a língua que adoptavam nestas reuniões): ‘Sabe o que se passa, não preciso de fazer uma introdução nem de lhe mostrar. Sabe que a prova está por todo o lado. Não se assuste. Saberemos ser discretos. A sua protecção é a nossa segurança. E não queremos nada de mais, queremos apenas que nos mantenha informado. Até à data em que tivemos acesso a todos os seus mails e documentos, sabemos tudo. Como já tem o seu computador protegido e reforçaram a segurança na vossa rede interna, já não queremos ir por aí. Daria mais trabalho e, como pode imaginar, não gostamos de correr riscos. Agora queremos manter-nos actualizados por outra via. E é simples: coloca os documentos ou informações relevantes numa pen e deixa-a onde lhe dissermos. Uma vez por semana. Mesmo se não houver nada de especial, deixa na mesma. Como sabe, teremos maneira de confirmar.’
O Manel contou-me que se sentiu a fraquejar. Apavorado. Quando alguém se sente seriamente ameaçado e sem escapatória, fica geralmente sem forças. É o que acontece, tantas vezes, em casos de assalto, ataque, violação. A vítima perde a força até para gritar, até para reagir. Paralisa. Assim estava ele. 
Nem sabia que lhe tinham apanhado o conteúdo do computador. Ficou a saber naquela altura. Sabia, sim, que tinha havido uma série de tentativas de intrusões na rede informática da empresa e que algumas equipas de experts tinham sido chamadas para reforçar os controlos. Mas não sabia que justamente o seu computador tinha sido pirateado. Nem sabia como é que alguém tinha descoberto isso (e, disse-me a Clara: 'Podes ficar descansada que. pelo menos por mim, não ficou a saber'). Tal como não tinha querido acreditar que a cilada em que tinha caído não era acto isolado de uma mulher perigosa. Tinha estado no centro de uma bem urdida operação e, até ver pela primeira vez o vídeo, nem sequer tinha desconfiado de nada.
O advogado, certamente habituado a manobras similares, não deve ter estranhado o estado de total apatia e torpor em que Manel mergulhou, tendo apenas dito o local em que ele deveria deixar a pen no dia seguinte ao fim da tarde e qual a respectiva chave de encriptação.

Confirmei: ‘E isto foi o Manel que te contou isto, certo?’

'Foi', e Clara pareceu hesitar, mas apenas por uma fracção de segundo. Depois falou com firmeza. ‘A duras custas mas foi. Acabei por conseguir que confiasse em mim. Percebe-se que é uma pessoa fechada, muito reservada, e, com tudo o que lhe estava a acontecer, sentindo-se cercado, acossado, ainda mais desconfiado ficou. Compreensível. Foi com muito esforço e muitas, muitas horas de conversa -- e de silêncios meus, para que ele não pensasse que eu queria saber alguma coisa -- que, aos poucos, foi desabafando. De início, por meias palavras, mudando de assunto, desvalorizando o que dizia, como se fossem hipóteses académicas. Só nos últimos dias, porque verdadeiramente atormentado, com vontade de confessar à mulher o que tinha acontecido e decidido a pedir a demissão, é que me contou tudo. Tudo. Tudo, tal como te estou eu agora a contar a ti.’

'E entregou quantas pens?’, perguntei.

Clara reagiu com firmeza,´Nenhuma.'

Não facilitei, 'Foi ele que te disse ou és tu que achas?'

Clara tentou disfarçar um leve tom de irritação: 'Não percebes. Ele estava decidido a enfrentar as consequências. Percebeu muito bem que a desistência do Fundo teve a ver com o que lhe estava a acontecer. Já tinham a informação toda que queriam, para quê continuarem com o disfarce da due diligence? Nunca estiveram interessados. Estavam interessados era na tecnologia, no mercado, nas operações. Quando se apanharam com tudo deixaram-se de conversas. Quantas vezes já vimos disto? E o Manel percebeu que agora estavam era contar com ele e resolveu portar-se como um homem. Foi no dia em que teve o enfarte.’

Não sou de muitas complacências: ‘Como um homem? Deixa-me rir. Estás muito benevolente, ó Clara. Então furou todas as regras de segurança, deixou que entrassem no computador dele e se servissem à vontadinha, depois, como se não bastasse, deixou-se envolver numa cilada que nem um patarata das berças… e vens dizer que resolveu portar-se como um homem…? Estás a brincar. Como um homem de calças na mão, queres tu dizer.’

Clara encostou-se à parede e, por um brevíssimo instante, fechou os olhos, como se querendo ver-se livre desta história. Mas logo voltou a si, abreviando a conclusão: ‘Deixa. esquece. Acabou. A coisa já escalou. Por isso, por agora vai parar. E o que os outros sacaram, já está sacado, nada a fazer a não ser diplomaticamente -- e, do que sei, está em curso. Mas isso já nos transcende. E ele agora tem é que se pôr bom e tomara que consiga recuperar. Aquilo não foi coisa pouca, como sabes. Coitado. Já vistes como um homem normal de repente vê a vida desgraçada?’ E respirou fundo. Cansada.

Olhei para ela sem dizer nada mas, apesar de não o demonstrar, também eu estava com alguma pena dele. Uma pessoa que se veja presa numa situação destas sente sempre medo, sente que a sua liberdade de movimentos está cerceada, é angustiante, há uma permanente sensação de que uma ameaça está a rondar por perto, de que a vida que se tinha antes acabou e de que a que se está a desenhar estará sempre presa por um fio. E se a isso se juntar o arrependimento, então a coisa fica verdadeiramente difícil de suportar. E se, em cima, para cúmulo dos cúmulos, acontecer um sério acidente de saúde, então a coisa fica, de facto, complicada. A sensação de queda num abismo. Pobre Manel.

No entanto, fosse como fosse -- e independentemente da pena que sentia dele -- estava era, sobretudo, incomodada por saber que ela não estava a dizer toda a verdade.

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Não sei se escolhi bem a Isabelle Huppert e o Clive Owen para serem a Clara e o Manel. Olho para eles e fico na dúvida.

Também chego a este ponto sem explicar porque gosto de aqui ter o Malandain Ballet Biarritz. 

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E não sei ainda se esta história vai ter continuação. Talvez tenha. Talvez não tenha.

terça-feira, agosto 13, 2019

Manuel, o grande executivo, caíu numa armadilha


O que lerão mais abaixo vem no o seguimento de Confissões. Meias confissões. Algumas omissões.
que já vinha no seguimento de Logo quando o cerco estava a apertar-se...
que veio a seguir a Manel contrata Clara que, por sua vez, 
vinha no seguimento de  Como definir o que não pode ser dito?
que já se seguia a A oradora-surpresa 
que foi, afinal, o início disto tudo


Retomo. Tentando manter alguma distãncia, tentando não expôr demasiado o que supostamente deve ser mantido na penumbra, vou ver se adianto um pouco mais desta história que, a bem da verdade, não se pode dizer que seja exactamente uma bela história.

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E encontrámo-nos. Eu e Clara. Como sempre, por mero acaso. Clara contou-me o que eu já sabia desde o início: alguém do país P 
(não posso dizer qual país; e ‘alguém’ também não será exactamente uma pessoa mas talvez um grupo de pessoas de uma empresa desse país, integrada na estratégia expansionista desse país) 
tinha obtido informação confidencial, completa, da nossa empresa. Tinham em seu poder o plano estratégico, o plano operacional, o project finance, relatórios de investimentos, estudos de mercado, análises detalhadas de custeios, os pricings nas diferentes geografias, os desenhos técnicos, etc. Tudo.

Do que se sabia, o computador do Manel tinha sido pirateado. Contrariamente às recomendações, não estaria encriptado. Também contrariamente a todas as recomendações teria usado as redes wifis abertas dos aeroportos e dos hotéis, o que, é mais do que sabido, é autêntica via verde para os hackers se servirem à vontade. Nada que espante quem acompanhe estas cenas: com receio de não se desembaraçarem sozinhas quando estão em solo estrangeiro, muitas pessoas aliviam nas medidas de segurança e são, sem o saberem, um apetecível alvo para quem procura informações críticas. E se só isso já seria grave demais, o pior foi o que ainda aconteceu em cima disso. 

A palavra a Clara: 'Nada de novo. Dos livros, estás a ver. Numa das viagens, uma mulher ao lado dele. A lição bem estudadinha, coincidências, afinidades, ele surpreendido com tantos pontos em comum. Mutuamente agradados, apresentam-se: ele diz quem é, onde vai, o que vai fazer. Ela diz que é correspondente. Mostra entusiasmo. Podia até preparar um artigo sobre as andanças dele pelo mundo dos negócios. Ele diz que não, que não tem interesse. Ela diz que tem, que ele tem até muito. Ele fica cada vez mais agradado. Morde o isco. Só se for não sobre ele mas sobre a empresa, coisa geral, sem pormenores. Ela acha bem, diz-lhe que seria bom em termos de imagem, sairia um artigo numa plataforma de referência lida em todo o mundo. Ele acede. Tudo a bem da empresa, disse ele. Sabes como é. Qual o homem que resiste à perspectiva de adulação por parte de uma mulher interessante? Nem tem a ver com ser bem ou mal casado. Sabes: aquela vontade de aproveitar o tempo, em fazer parar o tempo que passa, aquele prazer em experimentar uma aventura, o gosto em aflorar o interdito, o querer voltar a sentir o coração a bater como na adolescência. Sabes. A adrenalina de quem atravessa continentes, de quem enfrenta desafios. O consolo de um abraço apaixonado. Sabes como é.'

Eu ouvia-a em silêncio. Falava com tal paixão no olhar, tentava de tal maneira conter a emoção na voz que pensei que Clara falava dela própria.

Talvez percebendo o que eu estava a pensar, continuou mas em tom neutro, sorrindo, creio que simulando alguma complacência: 'Tudo by the book: trocaram contactos. Jantaram. Foram para um bar. Continuaram a conversar. Ele é um bom conversador. Ela pediu para gravar, para o artigo. Ele não viu mal. Havia jazz. Beberam. Ouviram, quase in love. No dia seguinte, à noite, quando ele já tinha cumprido a agenda, voltaram a encontrar-se. Repetiram. Uma boa companhia, ela. Animada. Ele todo inchado com o interesse dela. Continuou a conversa, continuou a gravação. Só que a noite acabou no quarto dele. Estava-se mesmo a ver, não é?'

Eu ouvia sem surpresa. Por mais avisados que estejam, é só aparecer quem queira que parece que caem sempre. E Clara tinha razão: quanto mais reservados, mais vulneráveis.

Conclui eu: 'E, portanto, deixa-me lá adivinhar: dias depois ele recebeu um porno-vídeo com aquela noite caliente?'

Ela fez que sim com a cabeça. 'Sim. Previsível, não é? Claro que ficou para morrer. Apavorado. Arrependido. Sem perceber o que lhe tinha acontecido. Ela tinha credenciais de correspondente. Tudo tão credível. Qual o propósito? Seria uma doida? Seria perigosa? Ficou atormentado temendo as consequências, tentando adivinhar se haveria próximos episódios de um filme que poderia ser de terror.'

Encolhi os ombros, sem qualquer pena: 'Caem que nem uns patos e depois, quando percebem que caíram na esparrela, ficam com medo. Totós. E depois que haja quem, na penumbra, vá atrás a limpar a porcaria que fazem. Estúpidos.'

Clara concordou, sorrindo de forma que pareceu irónica: 'Isso, na penumbra. Saber toda a espécie de histórias e fazer com que as histórias se esfumem.'

E continuou: 'Dias depois, numa outra viagem, num aeroporto de escala, um fulano qualquer dirigiu-se-lhe falando em înglês, dizendo-se partner de uma consultora que em tempos tinha trabalhado na empresa, que o conhecia, que até tinha tido reuniões com ele. O Manel desculpou-se, que conhece tanta gente, que talvez, quem sabe. O outro explicou que estava a preparar um business plan para um grupo internacional, que andava a colher informações. E, de repente, como se tivesse recebido uma notificação no telemóvel, pediu desculpa, olhou. E, vendo, fez um ar espantadíssimo. E disse: 'Esta é boa, um vídeo, diz que é urgente, deixa cá ver. E pôs o vídeo em play e, fazendo-se espantado, mostrou-o ao Manel. Estás a ver, não estás...?'

Estava a ver, claro. Não era difícil. 'Deixa-me adivinhar. Estarrecido, completamente aterrorizado, o Manel viu-se de novo como protagonista de um vídeo do mais escabroso que se pode imaginar...?'

'Bingo', confirmou a Clara.

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Não garanto que Clara seja completamente parecida com Isabelle Huppert e o Clive Owen, por acaso, nem é nada parecido com o Manel. Mas como nem a Clara é Clara nem o Manel é Manel, talvez faça sentido assim

E continuo com o Malandain Ballet Biarritz, desta vez com Marie Antoinette. Soa-me bem enquanto escrevo. E as coreografias são tão boas e dançam tão bem.


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E talvez continue.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Manuel contrata Clara


No seguimento de Como definir o que não pode ser dito? que, 
por sua vez, 
já vinha no seguimento de A oradora-surpresa


Hoje pensei que o melhor seria parar. E agora ainda estou hesitante. Sei bem o que se passou com o Manel. Poderia passar já à descrição disso mas a questão é que acho que não devo fazê-lo. Por isso, sendo isso central na narrativa em que me meti, agora não sei bem como sair daqui. Por muito que tente ficcionar, alguma coisa poderá transparecer que seja inoportuno e, não podendo escrever à vontade, fico tolhida. Acreditem ou não é o que se passa. Há histórias que não são exactamente histórias.

Vou tentar mas, juro, não sei o que vou escrever. Pode até acontecer que escreva mais do que devo e que, chegando ao fim, apague tudo. Nao está fácil. A sério.

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A empresa contratou a Clara. É uma profissional de mão cheia, sabe da matéria e sabe como comunicar da melhor maneira. Tem ainda a perspicácia de saber adaptar a teoria geral às circunstâncias concretas com que lida. Toda a gente gosta de trabalhar com ela. Não há conselhos dela que sejam à toa, não há dinheiro que se lhe pague que não se dê por muito bem gasto.

De vez em quando aparecia por lá. Se calhava cruzarmo-nos, cumprimentávamo-nos com naturalidade embora com a distância de quem apenas se conhece superficialmente. 

O Manel nunca mais me falou no assunto. Passou a ser um tema profissional lá dele. Profissionalmente continuou como sempre: consciencioso, metódico, analítico e falando apenas do estritamente necessário. Além do mais, reservado como é, pouco deixa transparecer de humores ou estados de alma. Ao contrário de alguns que, de vez em quando, vão até à copa e ali ficam a dar dois dedos de conversa, grupo no qual me incluo, ele não. Bebe café no gabinete e muitas vezes nem sabemos se está no gabinete ou noutro país. A secretária é como ele pelo que ninguém a interroga.

Nos dias em que a Clara lá ia, creio que uma hora por semana, excepto se ele estava fora, a secretária  ia buscá-la à recepção e levava-a até ao gabinete dele. 

Um dia que não sabia que ela lá estava e precisando de uma opinião dele -- e não tendo validado com a secretária se ele estava disponível -- bati ao de leve como sempre faço e abri um pouco a porta, espreitando a ver se podia entrar. Estavam sentados na mesa de reuniões que está junto à janela. Percebi que conversavam animadamente, sorrindo. Quando me viram, interromperam a conversa. Ele, educadamente, levantou-se para me convidar a entrar, ela mostrou-se surpreendida por me ver mas cumprimentou-me simpaticamente. Eu disse que não era urgente, que iria depois, e saí. 

Nesse dia à noite ela ligou-me, quis saber porque não tinha eu entrado, disse que eu tinha parecido pouco à vontade. Expliquei-lhe que por acaso até fiquei mas não por ela, que ele é que é muito discreto, que não gosta de ser interrompido quando está com alguém e que, portanto, não ia interromper a conversa deles tanto mais que o meu assunto era interno, não para ser falado perante uma pessoa de fora. Mas, já que ela ligava, aproveitava para perguntar se já tinha conseguido alguma coisa. Senti que a minha voz, involuntariamente, estava a deixar transparecer alguma impaciência.
'Uma enguia', disse ela. E quase me pareceu sentir que estava a desculpar-se. No entanto, confirmou a suspeita. 'Que há coisa, há, e fizeste bem em reportar. Agora que ele tenha dito alguma coisa, nem pensar. Nada. Escorrega por todos os lados. Quer conselhos em abstracto. E se acontecer isto, o que aconselharia que se fizesse? E é seguro usar o wifi nos aeroportos e hotéis? E pode deixar-se o computador no quarto de hotel? E como é que se pode perceber se alguém está com segundas intenções? E ri como se fosse curiosidade abstracta, como se estivesse apenas a querer mostra-se consciencioso, talvez até apenas para me agradar.  E faz questão, a toda a hora, de dizer que é descuidado, que é muito ingénuo, que confia em toda a gente, que acha que não tem nada de relevante que alguém queira apanhar. E muda de conversa, graceja, ou fica parado a olhar para mim. Mal eu tento espetar o palito no bolo perguntando alguma mais direccionada, ele foge, muda de conversa. Mas, se eu faço perguntas sobre as suas viagens, sobre como é fazer viagens tão longas, andar por tantos países e lidar com tanta gente tão diferente, aí ele fica agradado com o meu interesse e põe-se a contar. Sabes? É notoriamente daqueles tipos solitários, nunca deve falar com ninguém. Por isso, acreditando que o meu interesse é genuíno, desbobina, desbobina. E tem graça na maneira de falar, sabes, o tempo passa num instante porque o tipo, curiosamente, revela-se um bom conversador.
E eu: 'E não saem do mesmo sítio, não? Só conversa? E, entretanto, sabe-se lá o que está a acontecer... Não será de se passar para outra abordagem...?'
'Calma. Tenho estado num registo muito pro, chego ao fim da minha hora, mais coisa menos coisa, vou-me embora. Mas vejo que ele fica sempre com pena, por ele ficava ali a desbobinar durante muito mais tempo. Para a próxima, deixo-me ficar, faço-me de distraída, como se estivesse presa à conversa', disse ela.
'Escuta. Ando a notar uma mudança de atitude nos fulanos que supostamente estão interessados em comprar uma daquelas nossas empresas lá no cu de judas', e disse-lhe o país. 'Como se o interesse estranhamente estivesse a esmorecer. Cá para mim, é por aí. Como se isso tivesse sido o pretexto e agora já não precisassem do pretexto.
E ela: 'É muito isso que, como sabes, costuma acontecer. E já te disse, cá para mim ele tem a ver com isso.'
'Pois, mas, olha lá, se é isso, é grave e não sabemos quão grave. E tem que ser estancado antes que seja tarde demais. E ele afastado.', disse eu.
'Calma, mulher, dá-me tempo. E já estamos a seguir outros vectores. Calma. Mais uma ou duas conversas. E, já te disse, estamos no terreno.'
Não fiquei tranquila com a conversa. Aquele não era o ritmo habitual dela. Faz sempre o trabalhinho de casa bem feitinho, é especialista na empatia espontânea, nas afinidades que se descobrem inesperadamente e que tanto facilitam a aproximação. E se o próprio não tem redes sociais, tem a mulher, têm os filhos, os irmãos, e as pistas e as dicas vão parar às mãos de quem delas precisa sem que tenha que haver algum esforço. Portanto, como é que ao fim de três ou quatro conversas de uma hora cada, ainda estava no mesmo sítio?

Ná. Não estava a perceber. O que é que estava a passar-se?

Aquela não era a Clara que eu achava que tão bem conhecia.

(Mas será que conhecemos, verdadeiramente bem, alguma pessoa?)


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Estou a usar a Isabelle Huppert como Clara e o Clive Owen como Manel. Felizmente não preciso de me representar a mim.

Não sei porque estou a colocar aqui os bailados da companhia Malandain Ballet Biarritz. Se disser que é apenas porque gosto não sei se soará convincente.

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Tentarei continuar com esta 'história' mas, acreditem, não sei se conseguirei.

terça-feira, agosto 06, 2019

Como definir o que não pode ser dito?


[No seguimento de A oradora-surpresa]

Como prosseguir esta narrativa sem abrir demasiado o jogo? 

Não pensei ainda bem nisso. Só sei que tenho que ter alguma cautela. Costumo escrever sem pensar muito mas agora, pela sensibilidade do tema, não pode ser bem assim. A ver se consigo ou se, chegada a certo ponto, terei que interromper. Logo se vê. Se interromper, interrompo e só vos peço que não estranhem.

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Quando saí da conferência, já no carro, avisei a Clara que tinha dado o seu contacto ao Manuel. E escuso de dizer que os nomes deles não são estes. A Clara riu, 'Boa!', e eu também.

Mal tinha eu acabado de desligar, eis que chega uma chamada do Manuel.
‘Oi, Manel, então? Que é que conta?’
E ele a disfarçar (são tão imaturos, os homens): ‘Interessante, não foi? Temas oportunos… O que achou?' 
E eu: 'Gostei. Também achei interessante: um dia bem passado e algumas novidades. Mas vamos ver o que dizem os resultados do inquérito aos participantes.'
E ele, como se esse não fosse o tema do telefonema: 'E aquela doutora trouxe uma visão nova. Quem é que terá tido a ideia de a convidar?’  
E eu: ‘Concordo: a beldade que, pelos vistos, deixou os homens de cabeça à roda, é boa naquilo. Agora como é que ali foi parar não faço ideia, só sei que me pediram para acertar com ela alguns aspectos logísticos e, se quer que lhe diga, nem sei bem porque me pediram a mim, na volta, por ela ser mulher, aquelas cabecinhas pensadoras acharam que combinações com mulheres têm que ser feitas por mulheres. Enfim, é o que é... Mas, olhe, por sinal, até acabou por não me custar nada, achei-a, de facto, bem simpática.’ 
E ele, como quem não quer a coisa: ‘Ok. Olhe, estava aqui a pensar, não seria de lhe dar um toque a dizer que me deu o contacto dela para, caso eu, um dia destes, resolver ligar, ela não estranhar?’  
E eu: ‘Sim, está bem, eu dou um toque, na boa, fique descansado.’  
E ele, a disfarçar: ‘É que há várias coisas que ela ali disse que parece que se aplicam um bocado às minhas andanças, na volta ainda preciso é de algumas explicações…’ e sorriu fingindo que aquilo era uma graça, como se, de facto, o que quisesse fosse apenas conhecê-la melhor e estivesse a fingir que era outra coisa.  
E eu a pensar: 'Está bem, está, dança que o teu dançar tem graça'
O caso é que ele anda em negociações que envolvem empresários de outro país e não só o sector é crítico como tudo o que se relacione com esse tal outro país -- como dizê-lo? -- deve ser tratado com pinças.

Dias depois, encontrei-me com ela, casualmente, num pequeno restaurante de uma grande superfície. Mostrámo-nos surpreendidas com o encontro fortuito e logo ali, enquanto almoçávamos, mostrámos uma à outra o que tínhamos comprado nos saldos. Duas conhecidas que se encontram por mero acaso e mostram os seus bons achados. Banal.


E, entretanto, pusemos a conversa em dia. Naturalmente falámos por meias palavras e em voz baixa, mantendo o tom solto de quem troca informações sobre blusinhas, perfumes, pechinchas.
Diz-me ela: ‘Olha, sabes?, confirmei a nossa intuição. Cá para mim ele está mesmo na mão de alguém. Não tenho ainda provas... mas, olha, não devem tardar. No meio de piadas e veladíssimos piropos, e, olha lá, o tipo até tem graça, veio com conversas vagas, pediu conselhos abstractos, tudo a fingir que não era com ele, sempre como quem não quer a coisa, sempre que era para o caso de alguma vez vir a acontecer uma coisa a alguém, frisando que era informação geral para um just in case, sempre tudo intercalado com gracinhas charmosas, tudo meio a brincar. Ou seja, embora disfarçando, fazendo-se de descontraído e até a fingir que estava a fazer um charminho, cá para mim é uma questão de tempo até eu perceber o que se está a passar.' 
Sorri. Conheço a peça.
Certeira, ela continuou: 'Conta-me lá outra vez: como é que ele é? Com a mania que é engatatão?’ 
Reavivei-lhe a informação: ‘Viaja muito. É rara a semana em que não sai. Tenho-o por desconfiado e reservado. Geralmente meticuloso. Gosta de analisar ao detalhe o que tem em mãos. E não é pessoa que alardeie conquistas ou feitos. Faz-se, até, de humilde, gosta de se fazer passar por alguém que não tem ‘manha’. Mas também tem fama de não saber ceder a flausina que se lhe insinue. Contam-se-lhe alguns namoricos, já sabes, nestas coisas não é fácil distinguir o que é do que parece.’  
Ela não se admirou, ficou por um instante a pensar e depois concluiu: ‘Digo-te: são um perigo, tipos assim.’  
Confirmei: ‘Os piores’. 
Ela quis ainda saber: ‘E domina os gadgets ou é só fogo de vista?’ 
Fiquei na dúvida: ‘O que não faltam são outros mais info-excluídos que ele. Por isso, por aí não é dos piores. Mas, na verdade, acho que se limita a usar o básico e dificilmente tem entendimento para muito mais. Agora, como deves ter reparado, é só do bom e do melhor. E tem, por exemplo, uma coisa que não aprende nem por mais uma. Mas isso é ele e acho que quase todos os outros: tem que estar sempre ‘ligado’ porque se não vir os mails durante mais do que o tempo de voo, receia que as empresas se afundem’. E encolhi os ombros. Há causas perdidas.  
Ela também. ‘Típico.’
Depois combinámos algumas coisas mas naquela nossa forma, que só nós entendemos, e despedimo-nos da mesma forma alegre e descontraída com que nos tínhamos encontrado.

Nessa tarde, acidentalmente, cruzei-me com o Manel no escritório.
Ele, como quem não quer a coisa: 'Simpática, aquela doutora... Como é que ela se chama...?' 
'Quem?', fiz-me eu de sonsa.  
'Aquela que foi à conferência...' 
'Ah, a Drª Clara. Sim, também me pareceu. Já falou com ela?' 
E ele, blasé mas sem conseguir esconder a hesitação: 'Sim... Batemos umas bolas... nada de especial. Mas por acaso até acho que tenho alguma coisa a aprender com ela. Tenho estado a pensar e estou capaz de a convidar a dar um salto até aqui... O que acha? Acha que ela está para isso...?' 
Fiz-me eu de 'nem aí': 'Ah, isso não faço ideia. Não sei se ela dá explicações ao domicílio... Em que contexto lhe pediria isso?' 
Aí ele hesitou. 'Pois, essa é a minha dúvida. Mas se calhar até podíamos contratá-la. Porque não...? O que acha...?'  
Continuei a fazer-me de desinteressada no assunto: 'Sim, talvez. Porque não? Ausculte-a. Logo vê.'
E assim ficámos.

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[E a ver vamos se haverá continuação]

Talvez um dia destes explique porque estou a usar fotografias da Isabelle Huppert como Clara

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sábado, novembro 19, 2016

Ela


Eu conto.
                                                    Ou melhor, tentarei contar.
(É que não é fácil).




Contextualizo.

Tive uma semana de cão. Mas não de cão de madame. Cão de rua, rafeiro mesmo. Trabalho e mais trabalho, problemas, dureza, rudeza, crueza, confusão, furdunço, uma crise pegada de manhã cedo até tarde na noite. Na quinta à noite, por volta da meia-noite, enviei um mail a dar uma desanda das antigas, bruteza pura e sem revisão para a prosa seguir esquinada mesmo -- se é para ser far west, então contem com o meu poder de fogo. Na sequência, comecei esta sexa-feira em ponto de ebulição, capaz de fuzilar quem se me atravessasse à frente, fosse por que razão fosse. 

No entanto, logo pela manhã apareceu-me um arcanjo alto, sorridente, muito louro, olhos azuis muito claros e a tocar uma daquelas músicas de que os meus ouvidos tão sedentos têm andado. Tudo certo, perfeito. Irrepreensível, os olhos faiscando de energia e simpatia. Começou por dizer que não tinha feito o que eu tinha pedido mas, sim, o que lhe tinha apetecido. Em condições normais, estando eu capaz de estraçalhar qualquer um e, ainda por cima, logo de manhã, tinha ido porta fora na hora ou, se lhe fosse concedida a possibilidade de permanecer, seria para ser trucidado. Mas a um arcanjo descarado e sorridente algumas graças podem ser concedidas -- e em boa hora o fiz. Surpreendeu-me e agradou-me.

Pensei: um bom augúrio.

Contudo, logo depois a coisa complicou-se e os telefonemas choveram. Exaltei-me ao telefone, disse que a coisa só lá ia se rolassem cabeças. Rua. Gente assim é na rua e sem contemplações. Tentaram acalmar-me, que talvez não fosse a melhor solução. E eu com pouca paciência. Disse, farta, farta disto!, e perguntei: que raio de porra é esta? E senti a adrenalina a borbular-me nas veias. Quando saí do meu gabinete, o pessoal que está no open space ali perto fingiu que estava a trabalhar, como se não tivessem ouvido a minha fúria.

Saí de lá a chispar. E só pensava: farta, farta disto. Fui almoçar a um sítio descansado e em boa companhia. Passeei abraçada. E, no fim, já me sentia melhor.


Quando voltei de tarde, já para outro local, ia a pensar: que crise haverá hoje? se está como tem estado, a coisa não vai correr bem. Mas, bem lá no fundo, a minha proverbial condescendência parecia querer estar de volta.

Pois não foi precisa. Parece que o meu mail da meia-noite tinha produzido efeito. Ou que alguma nuvem negra se tinha dissipado. De repende, a normalidade. Uma acalmia até estranha.

Pensei que alguma coisa de muito misteriosa devia estar a acontecer. Passei por um, por outro, por outro. Nem sinais de crise. Tudo sereno e sorridente. Pus-me por ali, gracejei, gracejámos, uma inesperada bonança.

Ocorreu-me: algum milagre aconteceu, quiçá uma pomba branca tenha pousado no inexistente beiral da minha casa. E concluí: estou é a precisar de ir ao cinema, jantar fora, laurear. Pensei também: vou sair cedo.

Eis senão quando, por volta das sete da tarde, estava a começar a desligar o computador, vejo à porta do gabinete um ex-colega que já não via há quase um ano. Disse que tinha sabido que eu andava com muito trabalho, que não estava a ser fácil e tinha resolvido passar por lá para me dizer olá, para me dizer que soubesse eu que muito estava ser feito, que lhe tinham contado e que ele estava contente, que tinha querido ir lá dizer-me isso.

Juro que nem queria acreditar. Por um lado queria sair cedo e aquela visita estava a atrapalhar-me os planos mas, por outro, depois de uma tarde tão pacífica, aquela visita para me apoiar trazia-me um amparo suplementar -- e, ultimamente, tanta falta por vezes tenho sentido dele.

Mas, pronto, apesar das palavras amáveis e amigas, ainda saí a horas de, mal entrada no carro, ligar a desafiar para pegarmos um cineminha. Já depois, os dois no carro, escolhemos: ou era o do soldado corajoso ou o Ela, com Isabelle Huppert. Talvez por me saber exausta: guerra não.


E assim fomos ver o último filme de Paul Verhoeven.



E eu não sei que diga do filme. Talvez que saí perturbada, sem saber que pensar.

A primeira metade, à parte a violência da cena de violação, foi leve, daquelas simpáticas comédias românticas francesas em que os actores são BCBG, e foi mesmo, por vezes, bem divertida.

Mas a segunda vai em crescendo, uma violência, recordações violentas, uma atracção violenta, sexo violento. E a mim custa-me imenso presenciar violência. Mas não é violência a toda a hora nem violência gratuita. Há gentileza e sedução. Psicologicamente há naquelas cenas, que são estranhamente credíveis, alguma perplexidade (pelo menos para mim; perplexidade ou inquietação, não sei bem dizer). Isabelle Huppert magnífica como sempre. Independente, segura, sedutora. Mas não apenas se aproximou da linha vermelha como a pisou.

Nas cenas de violação, encolhi-me na cadeira quase como se fosse eu que estivesse a ser violentamente rasgada.

O violador (que actuava de cara tapada) é o homem que ela, sem saber que é ele, deseja e seduz. Inquietante o que se passa depois. O violador é um homem encantador. E ela é encantadora. Mas, ao mesmo tempo e sem perder o seu encanto, incomoda a namorada do ex-marido e, sem qualquer incómodo por isso, tem sexo com o marido da melhor amiga.

Não vou descrever mais o filme porque acho que deve ser visto. Também não o vou comentar porque há coisas, mesmo em mim, que estão para lá do meu entendimento. Não sei o que diga nem o que pense.


Haverá mesmo, em todos nós, em maior ou menor grau, alguma dose de pscipopatia? - é o que eu gostava de saber.

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Isabelle Huppert, Laurent Lafitte e Anne Consigny


Elle  - Trailer (2016) - Paul Verhoeven 




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E agora vou dormir. Passa das duas da manhã e estou só a deixar-me dormir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores um belo sábado.
Be happy.


domingo, junho 07, 2015

Ema






Ema senta-se à janela e, se alguém entrasse nessa altura, pensaria que é uma mulher serena. Imóvel, ela olha o rio que corre lá em baixo; o tempo parece ter uma outra dimensão para esta mulher cujo olhar voa transportando inacessíveis sonhos; de vez em quando, fecha os olhos e quem a observasse com mais atenção perceberia um leve altear do peito; quase respira fundo, quase denuncia uma leve inquietação. 

Depois Ema retoma a leitura, passa as mãos pelas folhas do livro -- e há sensualidade na forma lenta como as suas mãos afagam o papel, tal como há quando olha vagarosamente o rio ou quando as narinas quase imperceptivelmente procuram os cheiros das árvores ou do corpo amado. E assim, nessa dança, ocupa o seu tempo: o olhar a levantar-se do livro e a dirigir-se ao rio, de novo ao livro. De vez em quando, encosta a cabeça, absorta, o olhar perdido.

Depois levanta-se, apoia-se no peitoril da janela. O cabelo solto, a blusa descaindo, deixando um dos ombros levemente à vista. O calor pesa-lhe. Afasta levemente o cabelo das costas, puxa-o para um dos lados. 

Carlos assoma à porta, sorri-lhe; Ema devolve-lhe o sorriso. Traz-lhe um copo de sumo gelado, um toque de gin, e beija-a no rosto. Ema sorri, olha-o e é amor que há no seu olhar. Carlos beija-a no pescoço, do lado em que o cabelo foi desviado. Ema fecha os olhos, deixa-se beijar. Depois toca-lhe o cabelo, uma carícia suave, e aproxima o seu corpo do corpo de Carlos, oferece-se. Beijam-se enquanto a aragem faz esvoaçar ao de leve os cortinados.

Mais tarde, Ema diz que vai passear junto às margens do rio. Carlos pensa que é quase noite, que a aragem está a esfriar, que são perigosos os recantos que se escondem junto às águas mas não diz nada. Há muito que aprendeu que Ema precisa de se evadir e que jamais a poderia ter se a prendesse ou vigiasse.



Ema sai, os cabelos voam à sua volta, pensa que deveria ter trazido um casaco mas não volta atrás. Quando se aproxima das margens, começa a correr, e um cão corre a seu lado. Ema corre como se tivesse dezoito anos. Ou oito anos. Sorri. Lembra-se como corria ladeira abaixo quando ia da casa da avó para a escola, íngreme a descida, o corpo sem freio, quase a voar. Alguns cabelos brancos, algumas rugas, ela sabe-o bem, mas os anos não lhe tiram a necessidade de sentir o vento na cara nem o gosto da liberdade.




Depois, quando o sol já se pôs, Ema desliza pelos labirintos feitos de canas e murmúrios, desce até às pedras, à areia, descalça-se, deixa que a água molhe os pés. O cão segue-a inquieto, gane, tem medo. Mas Ema não escuta lamentos, não quer saber de prudências. Um outro vulto se move por perto, Ema não tem medo, sabe que o entardecer junto ao rio atrai os seres livres, os espíritos insubmissos. 

Quem passe por perto nada verá. Talvez ouça apenas vozes, risos. Depois uma música, talvez flauta, e, a seguir, em voz baixa, uma toada, uma voz de homem que diz poesia.

Quando já anoitece, Ema retoma o caminho para casa, o cão mais descansado ao seu lado. Ema sorri. Depois pára, põe a mão sobre o coração. Ao retomar o caminho limpa os olhos mas o rosto está tranquilo.

Quando entra em casa, Carlos diz-lhe que está frio, que deveria ter mais cuidado. E diz-lhe que Pedro está na sala, à sua espera.

Ema sorri e corre a abraçá-lo. 'Pedro! A esta hora...? Não pensei. Que bom... Vieste.'. Pedro fica sempre levemente embaraçado com a exuberância da alegria de Ema quando o vê. Ela abraça-o com um afecto efusivo enquanto ele mantém a contenção. Carlos pergunta se ele quer ficar para jantar. Ema interrompe 'Claro que sim!'

Ema corre para a cozinha, rapidamente prepara uma refeição. Ao jantar, conversam os três animadamente, amigos, e todos os temas são abordados com bonomia. De vez em quando, Ema provoca Pedro, goza com a sua falta de jeito para arranjar uma mulher, diz-lhe 'Tanta inteligência, tanto brilhantismo, tanta citação, tanta conversa, e depois, na prática, zero...'. Pedro disfarça algum incómodo, Carlos repreende-a com o olhar. Ema ri.




Depois de jantar, Carlos vai dar uma volta pelos limites da propriedade, fechar portões e portadas. Ema e Pedro continuam a conversar e há uma cumplicidade entre eles, e falam de livros, de todos os livros que leram, dos que gostavam de ler, da paixão pela leitura que é mais do que paixão, que é vício, e do que pensam dos tempos que correm, e relembram histórias do passado, e falam do campo, e dos filhos, do que os filhos fazem, do que os filhos gostavam de fazer, e os olhos de ambos brilham quando falam dos filhos, e conversam, e conversam com vontade que o tempo não acabe para poderem continuar a conversar para sempre.

Ema enternece-se porque Pedro, nessas alturas, ele perde o olhar fechado e sombrio que tantas vezes tem e olha-a como se sentisse que nunca nenhuma outra mulher o compreendeu e aceitou desta maneira. Mas Ema sabe que ele sabe que o que sente não é correspondido, sabe que Ema ama Carlos, que Ema ama a sua liberdade.

E Pedro pensa que Ema não suspeita sequer do que ele sente nem do efeito que a sua feminilidade e sorriso exercem nele. E, por tudo isso, Pedro pensa que um dia deixará de aparecer porque não suporta viver uma paixão não correspondida. Mas, ao mesmo tempo, sabe que voltará sempre. Voltará para ouvir a voz de Ema, ver o sorriso de Ema, espreitar o decote de Ema, sentir o perfume que se desprende do cabelo de Ema, sentir o calor do rosto de Ema quando o beija e abraça para o cumprimentar. Voltará pensando que um dia deixará de voltar.

Carlos regressa quando Pedro se está a despedir.

Depois Ema espreita pela janela. O rio escuro lá em baixo parece imóvel. Ema aspira o ar fresco. Está feliz.



Liga então o computador. Escreve um texto no seu blog, escolhe uma música, imagens. A seguir abre a caixa de correio. E lê um mail de alguém que se assina com um nome desconhecido e que lhe diz que tem que parar de a ler porque não quer alimentar a paixão virtual que sente por ela (Por isso vou parar até um dia. Já não tenho fôlego para paixões dirigidas a quem não conheço, para paixões impossíveis, só porque gosto da sua maneira de estar na vida e das coisas que diz).

Ema ri e responde-lhe que tem pena de o perder como leitor. Depois desliga o computador, olha uma última vez pela janela, passa carinhosamente as mãos pelos livros e vai dormir.

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As fotografias são de Isabelle Hubbert que interpretou Emma Bovary no filme Madame Bovary de Claude Chabrol baseado na obra homónima de Gustave Flaubert.




Os nomes das personagens da ficção dominical que acabei de escrever -- a Ema (chamada a Bovarinha), o Carlos e o Pedro -- foram repescados de Vale Abraão, um filme de Manoel de Oliveira com argumento de Agustina Bessa-Luís.




A música lá em cima é She -- porventura mais conhecida na interpretação de Elvis Costello mas que me apeteceu ouvir interpretada por Charles Aznavour.

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Fotografia de Alexander Yakovlev
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E, se me permitem a sugestão, desçam até ao post seguinte, até ao Porto, uma cidade linda e que a Harper's recomenda como um dos dez destinos ideais para uma visita neste verão.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

E que -- esteja eu numa de ficções, rêveries ou tropelias e gostem mais ou menos do que escrevo -- continuem aí, desse lado, a fazer-me companhia. 

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segunda-feira, junho 09, 2014

Viver ou amar. Ler ou fazer amor. Esperar ou procurar.



Da Leitora JV recebi um comentário que me parece merecer algum destaque e, por isso, tomo a liberdade de o transcrever aqui para depois, sobre ele, me pronunciar.





Olá UJM,

Falou em pianistas e deu-me um pretexto para lhe falar de um filme francês que deu ontem na RTP2, A Pianista (2001).


O filme começa com um mulher (a protagonista), com cerca de 40 anos, a chegar a casa. 

A mãe, que vive com ela, chateia-a por causa de um vestido que ela comprou e elas brigam, a mãe bate na filha e esta dá de volta e puxa-lhe os cabelos. Depois, já calmas, a mãe queixa-se de que ficou com uma pelada e a filha diz num tom absolutamente carinhoso "maman, je suis désolée, je t'aime". Abraçam-se e fazem as pazes.

A protagonista é uma pianista, professora no conservatório. Muito rígida. Muito fria. 

Vê um aluno a olhar para revistas pornográficas no quiosque e chateia-o terrivelmente na aula seguinte. Mas vai àquelas cabines em que se vê vídeos pornográficos quando se põe uma moeda e cheira o lenço com o sémen de alguém que esteve lá antes. Vai ao cinema de rua, à noite, aproxima-se de um carro onde 2 jovens estão a fazer sexo e, excitada, urina ali mesmo. E corta a vagina, acho que para reprimir os desejos sexuais.

No meio disto tudo, há um rapaz, bonito, louro, extraordinário pianista, que se inscreve nas suas aulas no conservatório porque a ama. Diz-lhe que a ama e pede-lhe para saírem da aula e irem passear. Ela pode fazer todas aquelas coisas que antes referi, mas não tem de entregar-se ao primeiro que lhe aparece.

A rapariga que ela escolheu para tocar no recital é uma tosca, chorosa, nervosa. Antes de um ensaio tem uma crise de diarreia e o rapaz que gosta da protagonista ajuda-a a descomprimir. Esta fica com ciúmes e poe vidros partidos no bolso do casado da rapariga, que corta a mão toda e deixa de poder tocar no recital. 

Pensávamos que só a professora é que tinha pancada, mas o rapaz percebe que foi ela que fez aquilo e vai ter com ela à casa de banho e beijam-se. Mas ela tem mesmo uma pancada sexual muito grande, não me vou por aqui a contar tudo o que acontece entre eles. 

A dada altura ela tenta "atacar" sexualmente a mãe, que dorme numa cama encostada à dela. E acaba o filme a espetar uma faca entre o coração e o ombro.

Não há dúvida de que as pancadas da mãe, da professora e do rapaz são um pouco maiores do que as das maioria das pessoas, mas tirando a parte dos vidros no casaco da rapariga, nada no filme me parece repulsivo, compreendo a dor daquela mulher. Todos temos inibições, complexos, "issues" e tudo depende da forma como as coisas evoluem e como lidamos com eles. Este aspeto da sexualidade é muito problemático: uns nunca tiveram sexo e queriam ter, outros têm demais, etc.

Ontem dizia-me, UJM, para sair, para andar de mãos dadas pela cidade. Mas devo procurar tudo isso? Deve uma rapariga ter complexos por não haver nenhum rapaz que declare o seu amor por ela, se também ela nunca esteve apaixonada por nenhum? Deve mostrar-se disponível? Não pode só fazer a sua vida, sem se pressionar a si própria, sem fechar as portas a nada, mas sem forçar as coisas? Não devemos deixar as coisas correr com naturalidade? E se - como às vezes acontece (com a Susan Boyle, por exemplo, que nunca tinha sido beijada) - nada chegar nunca a surgir, não podemos encarar também isso com naturalidade? Mesmo que não se seja assustadoramente feio...? :)

Abraço,

JV
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Estimada JV,

Ontem, enquanto estava a escrever, estava a ver e, sobretudo, a ouvir o filme 'A pianista' com a magnífica Isabelle Huppert. Como estava a escrever, ia olhando, volta e meia parava de escrever para olhar com atenção, depois ia seguindo o filme apenas pelo som (e o que eu gosto da língua francesa) e vendo de relance. Frequentemente pensava cá para mim: 'ganda pancada...', referindo-me à torturada professora de piano. Mas que há pancadas assim a torto e a direito não tenho dúvidas. Podem não ser tanto, como diz, mas, se não assim, são variantes. A cena que aflora mas não descreve, via-a com atenção para ver no que aquilo ia dar. Deu no costume, claro: em nada, em crise, em não conseguir chegar ao fim, ao despedaçar emocional. 

Sei de casos assim, em que a mulher, por viver sozinha com a mãe, acaba por viver reprimida, recalcando frustrações, alimentando revoltas surdas. Serão excepções. Não sei. Mas sei que acontece.

A professora de piano notoriamente era uma filha emocionalmente não emancipada e uma perfeccionista, uma amante da pureza (da música), da ordem, da harmonia. Mas ninguém consegue viver uma vida inteira de perfeição, pureza e harmonia. Se não há, pelo menos de vez em quando, algum excesso, algum rasgão na capa de perfeição que cobre a carne, alguma quebra, então, começará a crescer em surdina um desajustamento que, quando surgir a oportunidade, exporá o sangramento interior.

Dou-lhe razão: a vida deve acontecer naturalmente, sem constrangimentos impostos, sem interiorizar questões que são de outros, sem forçar nada. 

A realização de uma pessoa faz-se de muitas coisas - de conhecimento, de dádiva, de partilha, de procura, de conquista, de afecto retribuído, etc, etc - mas não é forçoso que tenham que existir todos estes condimentos em simultâneo. Acredito que uma pessoa pode atravessar a vida entregando-se de corpo e alma a factores que a motivem e que excluam aspectos de que outros não prescindem.

Mas acho que a vida é mil vezes melhor se não for vivida em solidão ou isolamento. Claro que solidão e isolamento não são sinónimos e não são forçosamente negativos. Podem, até, ser procurados como forma de alcançar a felicidade.

Contudo, a minha experiência não é essa e, por isso, falo do que conheço. 

Eu acho que a vida é melhor se tivermos a segurança de um afecto junto a nós, se tivermos o conforto e a alegria de poder dar o nosso afecto a quem lhe saiba dar valor.

Mas isso não se arranja por decreto ou por anúncio (salvo raras excepções, como é o caso, por exemplo, de Agustina que arranjou marido por anúncio num jornal). 

Não é drama não ter nunca tido uma paixão, nem nunca ter recebido uma declaração de amor. Não é drama não ter sentido o frémito interior que acompanha um beijo dado com sentimento.

Sobretudo, o facto de isso não ter ainda acontecido não deve ser causa de ansiedade pois, a todo o momento, pode acontecer.

Agora o que eu acho é que se uma pessoa viver fechada em casa ou no estrito círculo de conhecimentos em que nada de novo acontece, ou seja, se conviver muito pouco, se não partir à descoberta de novos locais, se não usufruir da natureza e dos lugares onde o convívio naturalmente acontece, então menos hipóteses terá de acontecer.

É quase como aquilo de ganhar o euromilhões: só sai a quem apostar. Claro que as probabilidades associadas ao euromilhões são ínfimas e as probabilidades de acontecer um grande amor são razoavelmente acessíveis.

Se me fosse permitido aconselhá-la, diria que a sua forma de ver as coisas é, a meu ver, correcta: não procure ansiosamente, não se entregue ao primeiro com medo de que seja o último, não aja com a precipitação e falta de jeito típicas de quem está receosa de nunca encontrar um amor. Mas não se feche sobre si própria porque o tempo passa depressa e se tiver a sorte de descobrir alguém que a complete, compreenda, enalteça, acarinhe, empolgue, e que seja uma boa companhia e um apoio incondicional, não a deixe passar.

E, se essa oportunidade chegar para ficar, não complique, não aja com conflitualidade ou desconfiança. O amor deve ser uma coisa natural, simples, é uma coisa que funciona melhor se não for recheada com ciúmes, exigências desnecessárias, recriminações.

Exigente e cultivada como o é - apesar da sua tenríssima idade - não pense que há por aí génios a pontapé que possam ombrear com os seus conhecimentos e interesses. Mas, sabe?, não têm que ser génios nem gostarem das mesmas coisas para que a coisa funcione. Importante, importante é que a pessoa de quem se gosta seja boa pessoa, boa onda.

Gosta muito de ler, não é? 

Pode pegar nos livros e ir estender-se ao sol na Gulbenkian ou à beira do rio a ler, pode ir sentar-se numa espreguiçadeira à beira Tejo ali entre o Terreiro do Paço e o Cais Sodré, pode ir ver museus e levar um livro e instalar-se em frente a um quadro. E pode ser que um dia alguém se deite ou sente ao seu lado.

Pode mil coisas e tudo na boa, descontraída, coração aberto. 

Pode ser que se sinta realizada assim como está e, se ficar assim, continuar a sentir-se muito bem. 

Mas, se puder estar ainda melhor, sem qualquer esforço ou drama, então será ouro sobre azul. Só isso.

(E não é pouco...)

E, de resto, assim ou assado, sozinha ou bem acompanhada, o que lhe desejo, JV, é que tenha toda a sorte do mundo e que se sinta feliz e agradecida pela vida que for vivendo.


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. O primeiro vídeo é o trailer do filme 'A pianista' um filme realizado por Michael Haneke, e interpretado por Isabelle Huppert e Benoît Magimel


. O segundo vídeo mostra Rod Stewart e Chrissie Hynde interpretando As time goes by.

. As fotografias de paisagens solitárias, o planeta sem nós, foram obtidas aqui

. As fotografias de Marilyn Monroe são de vários fotógrafos e mostram-na a ler. Sendo uma mulher belíssima, inteligente e culta, por inseguranças interiores sempre arruinou as suas próprias expectativas. Adorava ler e são inúmeras as fotografias que a mostram a ler. Escolhi-a para ilustrar as minhas palavras por nenhuma razão especial, queria mulheres a ler e lembrei-me que se há mulher que tenha sido fotografada a ler essa mulher foi a bela Marilyn.


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