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segunda-feira, junho 29, 2026

Louco, excessivo e indomável

 

Não há muito, estava numa situação profissional daquelas que eram preparadas ao milímetro e que costumava, a seguir ao jantar, fechar com festança. 

E, naquela vez, abriram-se uns grandes cortinados e, para espanto de todos, eis que aparece alguém completamente inesperado naquele contexto: José Cid. A exclamação foi colectiva. 

E arrancou a música. E, para minha absoluta surpresa, ao fim de um bocado, desbloqueada a surpresa de todos, constatei que quase toda a gente conhecia as letras e cantava com ele a plenos pulmões. Foi uma noite de cantoria e de dança. Uma festa de boa disposição. Ele cantou, cantou, cantou. Canta bem. Tem musicalidade na voz, a voz progride sem esforço e alegria. Contagia. 

Tem agora 84 anos e não dá para acreditar na vitalidade deste homem.

Nunca tive nenhum disco dele e, se me pedirem para elencar os meus cantores preferidos, tenho a certeza que me esqueço dele. E, no entanto, reconheço o seu valor e reconheço que há canções suas que toda a gente conhece.

E agora esta entrevista mostra o que ele é: um homem livre, bem disposto, com muita energia, um romântico (já vai em quatro casamentos). O tempo voa enquanto o ouvimos a conversar.

Quando vejo pessoas com esta idade e ainda tão joviais fico encantada. Era bom que toda a gente envelhecesse assim. E escrevo isto e forço-me a corrigir pois, olhando-o e ouvindo a sua conversa fluida, ágil, alegre, não consigo pensar que ele é um velho.

Não sei se posso dizer que é um homem do povo. Mas podia ser Visconde de Lagos e não quis, a sua praia não é essa.

Convido-vos a ver pois é uma graça. E Luís Osório conduz bem as entrevistas, a conversa prende. Espero que gostem.

"Vencidos" com José Cid | RTP Antena 1

É louco, excessivo e indomável. Compôs canções que tornou imortais, incompatibilizou-se com meio mundo, mas é um homem livre que, tendo 84 anos, parece jovem. José Cid conversa com Luís Osório e não ficará pedra sobre pedra.

Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

terça-feira, junho 16, 2026

Luís Osório conversa com Helena Sacadura Cabral

 

Repito-me: gosto de conversar e de ouvir conversar. Mas não de quaisquer conversas. Por exemplo, durante o dia não consigo ver televisão. Já nem a ligo. Esmiuçar desgraças, ouvir falar de paranóias, tudo exacerbado, as pessoas parece que só se acham interessantes se se apresentarem como vítimas de qualquer coisa, parece que não há cão nem gato que não tenha sofrido de bullying na escola, ou que não tenham ficados completamente carentes para o resto da vida por terem perdido o avô ou a avó que eram especiais, e toda a gente faz terapia, e toda a gente anda a encontrar-se a si própria. Tudo um chorrilho de banalidades e parvoíces para as quais não há pachorra. Claro que tem tenha perdido um avô ou uma avó, ou todos, ou pai ou mãe ou ambos, sente um grande desgosto. Mas fazer disso a bandeira com que se anda na rua ou exibir tal facto como se fosse o alfa e o ómega da sua vida...? Achar-se especial ou digna de piedade por isso? Ou achar que os outros são todos maus e que só o próprio ou a própria é que é o bom, a vítima...? Pá, a sério, já não se aguenta. Não há entrevista ou podcast ou o raio em que alguém não acabe a chorar ou, igualmente pífio, a fingir que se faz de valente. 

E a gente, quando ouve isso, percebe que geralmente é gente parva, que não se enxerga, que põe a culpa de tudo nos outros, no cão e no gato, na prima, na mãe, no pai, nos irmãos, nos amigos, nos colegas, no sprofessores, parece que julgam que toda a sociedade conspira para não dar à prima-dona a atenção que ela acha que merece. Um saco. Dantes considerava-se que gente assim é irresponsável, gente que atira as 'culpas' para cima dos outros é gente em quem, de forma geral, não se pode confiar. Era assim. Agora não, agora põe-se uma medalha ao peito. 

E juntam-se em entrevistas e podcasts e para ali estão neste desfiar de palermices, de vacuidades, de parvoíces. Se calhar é gente que padece do mal de precisar de validação, parece que precisam que os outros andem sempre a dizer-lhes que são os maiores, que estão muito bem, que são muito lindos e talentosos, provavelmente contam likes e entretêm-se com essa contabilidade que, na prática, vale zero.

O mundo tem vindo a derrapar para a estupidez e esta vertente da carência, da vitimização e da necessidade de validação é uma das provas da fraqueza crescente da sociedade.

Posso ter esta visão um bocado crua por ser um caso diametralmente oposto disso. Não contabilizo likes, detesto bajulações, incomodam-me as conversetas de elogio e não preciso de validação de ninguém para me sentir confiante em mim mesma. Naquilo em que não me sinto confiante, se for tema que me interessa, preparo-me para adquirir o que me falta para estar na boa, segura de mim mesma. E, se não é tema que me interesse, passo adiante. Nunca, nem quando era criança nem quando era adulta, me interessou saber a opinião deste, daquele ou do outro a meu respeito. E mesmo que me chegassem ecos de discórdia ou desapreço era para o lado em que dormia melhor.

Claro que nem todas as pessoas são iguais e o facto de eu ser assim não faz de mim melhor ou pior. Uma coisa é certa: retira-me angústias, ansiedades, medos, sofrimentos. Gostem ou não gostem, estou sempre na boa. Por isso, posso não ser melhor ou pior mas sei que estou bem, não me queixo. Nunca me queixo. Nunca me queixei.

E gosto de conversar ou ouvir conversar pessoas que afinam por este diapasão. Gosto de ouvir gente desempoeirada, gosto de ouvir falar de boas memórias, de cenas divertidas, de bons projectos para o futuro. Gosto de me rir. 

(Aliás, gosto à brava de me rir. Ainda hoje, estava a ler um livro e desatei a rir-me à gargalhada. A cena do livro era simples. Mas deu-me uma vontade de rir que me fez rir à gargalhada por um bom bocado).

E falei do género dos coitadinhos, das vítimas, mas depois há os outros, igualmente insuportáveis: os que riem muito, os que se acham os mais engraçados, os mais originais, os que dizem disparates em catadupa achando-se divertidos, os que fingem que não se levam a sério mas que contam toda a espécie de frioleiras como se fossem happenings mas, ao mesmo tempo, fingindo que se auto-depreciam, e todos riem, riem muito, riem mostrando que têm a cabecinha mais vazia que um saco de vento. É outra fauna, mas igualmente insuportável. Se calhar, mesmo esses, se forem ao programa da Júlia, acabam na choradeira, mostrando que têm um coração em chaga. 

Não há pachorra.

Talvez porque penso assim estive aqui a ouvir, na maior leveza e boa disposição, a conversa entre o Luís Osório e a Helena Sacadura Cabral. 91 anos de leveza, ela: o que é mau, põe para trás das costas. O que aconteceu, está acontecido. Em alguns casos claro que houve e há dor, mas é uma dor com a qual convive bem. 

[Um àparte*: no meio, fica a saber-se que o Paulo Portas é mais um que tem uma empresa com a mãe na qual mete todo o tipo de despesas... Provavelmente é através dessa empresa que factura à TVI o seu comentário dominical e, com este esquema da empresa, poupa-se a muito IRS-zinho. E falo em esquema como poderia dizer 'conceito', aliás um conceito que atravessa toda a nossa sociedade que cultiva o hábito de driblar, legalmente, o fisco. Posso estar a extrapolar erradademente e, se for o caso, já cá não está quem falou. Mas, como um amigo meu dizia, dando um toque no nariz, tenho um faro que geralmente não me engana.

Mas, enfim, foi uma sinceridade da mãe, e a mãe sabe que está a agir na maior legalidade (porque a lei portuguesa gosta de deixar nesgas de portas abertas para quem quiser fazer interpretações criativas), pelo que não me alongo. Acaba por ser apenas mais um triste déjà-vu.]

De resto diverti-me, foi uma conversa bem disposta. E a boa disposição em vez da lamúria, o assumir das responsabilidades integrais em vez de atirá-las para a mãe, para o pai, para o chefe, para o ex-marido, para o piriquito ou para a vizinha do andar de cima, é sempre uma lufada de ar fresco. 

E continua com boa pele, com bom ar, roupas alegres, belos anéis e adereços, e ri que é um gosto e certamente há de fazer a sua escola para crianças desfavorecidas e há de continuar a levar alegria a todas as suas conversas e a reconhecer a existência dos iões apesar de não os ver. 

Por isso, salve Helena Sacudura Cabral! Vida longa e feliz para si!

"Vencidos" com Helena Sacadura Cabral | RTP Antena 1

No final da entrevista, Helena Sacadura Cabral disse a Luís Osório: uma conversa perfeita, precisamente o que imaginava. A conversa passa agora a ser de todos. Não perca as confissões de uma das mulheres respeitadas do país.


Desejo-vos uma bela terça-feira
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*  Nota

Agradeço a vossa atenção para o comentário que a Caríssima Helena Sacadura Cabral teve a amabilidade de aqui deixar, referindo que não, a empresa não serve para o que eu acima aventava. Aqui fica a ressalva. 

quarta-feira, maio 20, 2026

Em terra de Más Influências, ya, tipo, tás a ver, viro as costas às famosas Bruna Magalhães e Mia Fernandes e junto-me aos cotas Luís Osório e Violante Saramago Matos que falam devagar e usam um vocabulário tão decente que talvez haja quem já o considere vintage

 

Aqui no campo, podemos ver todos os canais através da internet, mas, por preguiça, por vezes deixamo-nos estar nos básicos. Eu estava com o computador a ver a conversa que mais abaixo partilho e, na televisão, numa daquelas viagens rápidas em zapping, o meu parido parou no 5 para a Meia Noite no momento em que duas jovens convidadas conversavam com uma outra que nos pareceu residente. As duas, que nunca tínhamos visto nem ouvido falar, foram apresentadas como tendo um Podcast muito famoso. Até já foram ao programa (ou ao podcast?) da Júlia Pinheiro, disseram como sendo a inegável coroa de glória... e, por toda a conversa, parecia que meio mundo corre para não perder o que elas dizem. Isto tudo no meio de risos, conversas sobrepostas, tontices. O meu marido virou-se para mim: 'Já tinhas ouvido falar nelas?'. Nunca. Ele pediu: 'Procura lá aí, para ver se se percebe'. Fui ao youtube e procurei. Abri um vídeo e, ao fim de um minuto, o meu marido sentenciou: 'Pronto. Já chega.' e acrescentou: 'Porra.'

Se eu quiser reproduzir o que elas disseram naquele minuto não sou capaz. Não estou com défice de memória pelo que admito que não consigo porque elas, simplesmente, não disseram nada. Só me ficou que, em cada três palavras, aparece a palavra 'tipo' pelo menos quatro vezes. Pelo meio, 'ya'. Tipo, ya, tipo, ya, tás a ver, tipo.

Riem, interrompem-se, comem -- e não dizem nada.

Para ter a certeza de que não estou a ser injusta, voltei agora a ver mais um pouco e nem um minuto voltei a aguentar. Palavrão da pesada, mas ponham da pesada nisso. Uma vulgaridade, asneiras a granel misturadas com tipo e com ya e com tás a ver. E não passa disso, uma cansativa indigência. A todos os títulos, uma miséria.

E, uma vez mais, parece que há muita gente a consumir uma porcaria sem ponta por onde se pegue. Sinceramente, não sei que retrocesso civilizacional é este. 

Elas são a Bruna Magalhães e a Mia Fernandes e o podcast chama-se Más Influências -- uma coisa que, se vivêssemos tempos normais, ao fim do primeiro episódio, por falta de audiência, deixaria de ver a luz do dia. Agora não. Nestes tempos em que reina a estupidez, estas duas criaturas têm audiência e são convidadas para programas de televisão como se fossem pessoas com alguma coisa para dizer. E não têm. 

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Felizmente, há o reverso. Foi de gosto que vi e ouvi a conversa entre o Luís Osório e a Violante Saramago Matos, a filha de José Saramago. Ele faz uma pergunta e deixa-a falar, dá-lhe espaço e tempo, ela escuta-o, pensa -- e nós podemos respirar, escutá-los, olhá-los. Há todo um tempo, uma história, um vocabulário, memórias intelectuais e emocionais, um saber pensar, um saber falar.

Claro que, ao olhá-la, me ocorre o lugar comum de que 'o tempo passa a correr'. Aqui está a filha de Saramago já com 78 anos, já com mais 2 anos do que o pai tinha quando recebeu o Nobel... Ainda o tenho presente, as suas palavras, e aqui está a sua filha já a pensar que o fim se aproxima. Inclemente, o tempo. 

Falam no Ensaio sobre a Cegueira, livro que ela tem na cabeceira. Para mim também um livro fundamental, daqueles momentos em que se cava um buraco sob os nossos pés para que a literatura desenhe uma nova fundação.

Não é daquelas conversas que se ouça em dois ou três minutos -- não, é para se ouvir com tempo. Falam de muita coisa, incluindo da demagogia do Durão Barroso, para mim uma alforreca com que nunca pude, e da sua mulher, muito melhor que ele e que por ele se apagou, a Margarida Uva por quem sempre tive muita simpatia.

"Vencidos" com Violante Saramago Matos | Antena 1 /  Luís Osório

José Saramago só tem uma filha e dois netos. A filha chama-se Violante e é uma mulher extraordinária e discreta. À conversa com Luís Osório. Saramago como nunca o ouviu.


Desejo-vos um bom dia

quinta-feira, maio 07, 2026

Quando amamentar não é uma coisa natural para a mãe

 

Para mim, amamentar sempre foi um acto natural. Mal acabados de nascer e já as enfermeiras, na maternidade, os estavam a pôr a mamar. Ainda adormeciam, tinha que estar a mexer-lhes nos pés para ver se os mantinha despertos, tinha que ajeitar o bico do peito na sua pequena boca para que percebessem que tinham que puxar o leite.

Devo dizer que, embora adorasse tê-los junto a mim, naquele momento tão íntimo e tão intrinsecamente natural, passava por momentos francamente dolorosos.

De início, quando o leite 'subia', eu ficava febril, tinha arrepios. E o peito ficava todo encaroçado, doloroso. E, também o início, os mamilos ficavam gretados. Chegavam a sangrar. As dores eram fortes mas eu aguentava-as estoicamente para não perturbar a paz que sempre achei que deveria envolver o momento.

Eu tinha pomadas mas queria que, em mim, tudo fosse bio, não queria correr o risco de o leite ser de alguma forma contaminado e, portanto, evitava pomadas ou produtos ou métodos que não me pareciam naturais. Sempre achei que deveria portar-me como os bichos se portam na natureza, sem medicamentos -- aliás, levado ao extremo de até evitar 'artifícios' como bombas de leite (que tanto me teriam aliviado...). Era muito fundamentalista, reconheço agora, ao ver que nada disso faz mal. Mas não queria correr qualquer risco e, portanto, fui, em todas as vertentes, muito ortodoxa. Segundo eles, fui-o até eles serem grandes. Se calhar, acham que ainda sou... 

Mas se para mim tudo isto era tão natural a verdade é que algum tempo depois fui confrontada com uma situação oposta. Para meu espanto, uma amiga, recém mamã, revelava a mais inacreditável falta de intuição para lidar com a criança. Não sabia pegar-lhe ao colo daquele jeito aninhado que é habitual numa mãe que pega num recém-nascido. E, para amamentar o bebé, em vez de a encostar ao seu corpo, colocava-o sobre a perna e virava-lhe a cabeça da criança para que, com a boca, ela alcançasse o bico do seu peito, o que, obviamente, não funcionava. Eu olhava aquele disparate e nem percebia que despropósito era aquele. Pegava na criança e exemplificava. Ela olhava com atenção. Quando passava a criança para os seus braços, para que replicasse os meus gestos, esticava-os e ficava outra vez com o bebé longe do seu corpo. Nunca consegui perceber aquela dificuldade. Ensinei-a não sei quantas vezes, ensinei-a apesar de achar que devia ser intuitivo -- mas não consegui ser bem sucedida. O bebé, quando se via ao meu colo, aninhava-se e procurava o meu peito -- coisa que espantava muito a minha amiga, que mais parecia achar que era a criança que me preferia a mim do que reconhecer que ela é que não tinha jeito nenhum.

Foi sempre de tal maneira que, quando vinham cá a casa, o bebé pedia-me sempre colo e, quando se iam embora, agarrava-se ao meu pescoço e, já com um ou dois anos, já a falar, chorava agarrada a mim a chamar-me mãe, coisa que me deixava sempre desconfortável pois imaginava o desgosto que eu teria se aquilo se passasse com algum dos meus filhos. Mas a minha amiga parecia não se importar, dizia simplesmente: 'Desde que nasceu, que sempre te preferiu.'. Mas não era. Era ela que não tinha pingo de instinto de maternidade. 

No entanto, nunca a julguei ou critiquei pois vi, constatei sem sombra de dúvida, que não era intencional, era mesmo uma questão intrínseca, não era capaz de ser de outra maneira. 

Lembrei-me disto ao ouvir o postal do dia do Luís Osório. A natureza é assim mesmo. Nem todos os seres são iguais.

A mãe que não sabia amamentar | Postal do Dia | RTP Antena 1

Uma história bonita com vários protagonistas. Uma mãe que não sabia amamentar, vinte mulheres que a ensinaram e um filho que nasceu de uma relação com o mítico chefe de um bando.


Não tenho imagens do caso que o Luís Osório fala mas tenho o de um caso levemente semelhante.

Orangotango aprende a amamentar observando uma tratadora a amamentar o seu filho

Depois de observar a tratadora de animais Whitlee Turner a amamentar o seu filho Caleb duas vezes, Zoe conseguiu amamentar o seu próprio bebé.

Desejo-vos um dia feliz