Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, abril 24, 2024

Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não

 

(...)

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das água
para onde vais? Ninguém diz.

(...) 




quinta-feira, setembro 20, 2018

Irresistíveis tentações




No primeiro dia fui logo a uma livraria. Estava sem tempo mas não consegui deixar de ir. Estava sem disponibilidade para passarinhar calmamente, para folhear, espreitar, tomar-lhe o pulso. Ao entrar, olhei o relógio e hesitei: entrar para quê, sem tempo? Mas foi mais forte. Ainda assim trouxe o livro do Manuel Alegre, 'Todos os Poemas são de Amor' e o da Hélia Correia, 'Um Bailarino na Batalha'. E trouxe-os só porque sim, só porque não podia deixá-los lá ficar e porque, de certeza, iria gostar mesmo que nem de tudo ou não muito de tudo. 

No dia seguinte, cruzei-me com a mulher com andar de passarinho em terra. Hélia Correia que, quando escreve, escreve como se desenhasse palavras no céu e que, quando fala, fala com assertividade e luvas de combate, quando anda, vai hesitante, o corpo pouco afirmado. Forço-me a pensar: 'Também já não é uma miúda, já vai para os setenta'. Mas não é isso, é mesmo aquela sensação de que não estará muito habituada a andar com os pés em terra, como se o seu mundo fosse o das brumas imateriais. Pensei: 'Hoje é que devia ter aqui o livro'. Mas fiquei a pensar: 'Se o tivesse, iria maçá-la? Teria o direito de ir interromper o seu caminho? Acho que não. Que futilidade absurda a minha se me achasse com o direito a interromper o seu andar para lhe pedir que escrevesse o seu nome...'

Regressei, pois, à minha vida na cidade, nas torres cristalinas, regressei àquele mundo em que os problemas se sucedem, em que há sempre coisas para decidir, assuntos para encaminhar, agendas para compatibilizar. Não há tempos mortos. Por isso não tenho tempo para pensar na aridez que são esses momentos quando comparados com os passeios no meu bosquezinho atapetado, tão perfumado, tão feliz para os pássaros que lá habitam e para mim.

Felizmente, de vez em quando, uma inesperada conversa sobre um poema ou sobre uma estranha opção na tradução de uma antiga expressão vem atenuar a falta de ar puro. Mas é insuficiente. E, então, fui de novo à livraria. Sempre com pouco tempo mas, desta vez, forçando-me a algum vagar, mesmo que breve vagar, para olhar com olhos de ver.

E vi 'Ru' de Kim Thúy. Não conheço, nunca tinha sequer ouvido falar. Foi a capa. Foi o que li na contracapa. Foi ter lido que Ru -- que em francês quer dizer 'riacho' ou 'torrente' -- significa 'canção de embalar' em vietnamita. E foi, ao espreitar-lhe a alma, ter gostado do que li. E ter gostado da paginação. Sou sensível a coisas assim. Como nos perfumes sou sensível ao nome ou ao desenho do frasco. Trouxe.

E também 'O regresso' de Hisham Matar. Ignorante, chegada do campo, sem conhecer autor, sem saber de novidades, só chegada a desenho de capa. Este tem passarinho abstracto e umas cores simples que logo puxaram por mim. E depois história real, coisa em cru. Gosto de coisas cruas. Trouxe.

E mais. Outro.
Um delírio. Só coisa imprevista, só coisa tentadora. Três semanas fora e tudo isto, assim. Surpresa atrás de surpresa. Não necessário novo de nascimento. Novo de coisa inusual ali no meio de tanta letra vazia. 
Desta vez  'Dicionário do Diabo' de Ambrose Bierce, prefaciado pelo casto abade de Belém, que Deus me perdoe que até gosto do que ele escreve, mas parece que quando lhe cheira a pecado, logo estende a sua platónica bênção. 'O Dicionário do Diabo é um manual de guerrilha contra o conformismo', escreveu Mexia. E a encadernação? E as ilustrações? Preciosas. Pois bem: trouxe.

E quando pensava que já estava saciada e que o melhor era parar de olhar já que, como se sabe, quem muito olha sempre acaba por ver, um outro: 'Confabulações' de John Berger. A capa: muito boa. E que não fosse. John Berger. Só ele vale um delíquio. Abri e aquela vertigem de quando estou à beira de ceder à tentação de me despenhar já se fazia sentir. Tudo o que li me fez amar este livro. Claro: trouxe.

Enquanto ia pegando neles, objectos preciosos, ia pensando que nunca conseguirei deixar de procurar novos livros. É um luxo supremo, o de nos rodearmos de palavras, de ideias, de mentes livres, da melodia misteriosa que se desprende das páginas, do gosto bom de ter um objecto material, um objecto que tem origem numa árvore. 

E trouxe ainda mais dois. Mas a conversa vai longa e eu estou cansada. A vida não é fácil e o dia que já entrou também não o será. Pode ser que me apareça alguém que me fale de poetas ou posso eu ver espaço para falar de silêncio, de bibliotecas, de luz. Seja como for, se calhar não faz muito sentido eu, em vez de ir descansar, continuar aqui a escrever como se não houvesse amanhã.


.................................................................................................

Nós fomos noite e noite até ser dia
nós fomos noite e a noite fomos nós
fomos a noite e os corpos e esses nós
com que a noite se atava e desfazia

fomos a noite e o que sobrava dela
e o que sobrava dela foram luas
que circulavam à volta de uma estrela
ora nas minhas mãos ora nas tuas.

[de Manuel Alegre]


Houvera noites cheias de estrelas muito baixas, tão baixas que dir-se-iam ao alcance da mão. Depois, a lua regressara e, aos poucos, ia ocupando o céu com a sua luz. Fazia, pois, meio mês que vagueavam. E, como os homens tinham garantido que estavam sem semente para deitar, que a fadiga e a fome os transformavam em eunucos de toda a confiança, dormiam todos na frescura, desenhando, sem o saberem, uma flor, um girassol.


[de Hélia Correia]


Apesar de todas essas noites em que os nossos sonhos escorriam pelo soalho inclinado, a minha mãe continuou a ambicionar um futuro para nós. Arranjou um cúmplice. Ele era jovem e sem dúvida ingénuo, pois ousava exibir alegria e desenvoltura no meio do monótono vazio do nosso quotidiano.


[de Kim Thúy]


Ali estava ela, a terra. Cor de ferrugem e amarela. Da cor da pele acabada de sarar. Talvez eu pudesse finalmente ser libertado. a terra tornou-se mais escura. Rebentos de vegetação verdes cobrindo levemente as colinas. E, de repente, o mar da minha infância.Os exilados romantizam tantas vezes a paisagem do seu país natal! Eu preveni-me contra isso.


[de Hisham Matar]


Política, n. Um meio de subsistência a que recorre a franja mais degradada das nossas classes criminosas. Uma luta por interesses disfarçada de disputa por princípios. A gestão dos negócios públicos para obter vantagens privadas.

Político, n. Uma enguia no lamaçal basilar sobre o qual a super-estrutura da sociedade organizada é erigida. Quando se contorce, confunde a agitação da cauda com o estremecimento do edifício. Comparado com o estadista, tem a desvantagem de estar vivo.


[de Ambrose Bierce]


Na semana passada, quando te estava a ver e a ouvir atuar, Yasmine, tive um impulso de te desenhar. Um impulso absurdo, porque estava demasiado escuro; não conseguia ver o bloco de desenho nos meus joelhos. Houve momentos em que rabisquei sem olhar para baixo ou sem tirar os olhos de ti.


[de John Berger]

................................................................................................

Só um bocadinho de John Berger para eu matar saudades


......................................

As pinturas que fui buscar para aqui ter entre os livros são de Hai Ja Bang e viémos ao som de Händel - Yet can I hear that dulcet lay - com Bejun Mehta

.......................................

quarta-feira, setembro 19, 2018

As palavras que não te disse







As palavras que não te disse estão aqui
caladas há tanto tempo não se calam
trago-as em mim e sem falar te falam
estão dentro do silêncio e cantam para ti.

Palavras nunca ditas e no entanto
não param de dizer-te o que não digo
palavras para ti e a sós comigo
palavras que não digo e são o canto.

Palavras que não disse e tu esperavas
não sei se ainda esperas ou se é tarde
o que nelas ardia ainda arde
não são de mais ninguém essas palavras.

Palavras que te digo sem dizê-las
palavras onde pulsam várias vidas
e são a escrita mesmo se escondidas
e são o canto mesmo sem escrevê-las.



[Poema de Manuel Alegre in 'Todos os poemas são de amor'
Fotografias de Robert Mapplethorpe]

segunda-feira, março 05, 2018

Chamo-lhe Deus porque ele é o tudo e é o nada
eternidade que não dura sequer o eu dizê-la
ei-lo na espuma na lua no reflexo
de repente um esticão a cana curva-se
é talvez um robalo de seis quilos
isto é a pesca
o meu falar com Deus ou com ninguém
sozinho frente ao mar.


Um único pescador. O Tejo todo* para um único pescador. Não admira. Frio, vento, chuva. As fotografias não o mostram. Protegi a máquina, dei luz, tentei que ficassem nítidas. Mas estava mau.

Frente ao rio, resistente à ventania e à violenta chuvada, o pescador ergue-se contra os elementos da natureza. Espera o momento.

E, então, o pescador sentiu picar. Sobressaltou-se: vinha peixe. Arqueou a cana, puxou a linha, chegou-se atrás para dar folga. Puxou, enrolou a linha. Até que a coisa saíu da água. Um bicho do além. Um alien. O pescador chamou os amigos que se acolhiam no armazém e ali preparavam o petisco do almoço. Olhem! E avançou na direcção deles. Dois homens acorreram à entrada para espreitar a pescaria.

Riram, brincaram com o frustrado pescador. Ele assumiu. Mas que era grande, que só visto.

(...)
Por isso quando vou à pesca eu não vou só à pesca
procuro o peixe e o sentido ou talvez a ausência dele
toda a minha atenção se fixa e se concentra
há um robalo que não há e que só eu pressinto
não é ciência nem técnica é algo mais
de pé no meio do canal
lançando e recolhendo a linha
como quem escreve sobre as águas
a mesma pergunta interminavelmente
enquanto caem estrelas e as palavras
como elas fulguram em seu arder.


Um pouco mais à frente, outro habitante da beira do rio preparava também o almoço. 

Media o pitéu, equacionava a melhor forma de lhe ferrar o bico. Semi-cerrava os olhos antecipando o prazer. Peixinho fresco, coisa boa. 


Eu não sei se os teus olhos se gaivotas 
mas era o mar e a Índia já perdida 
as ilhas e o azul o longe e as rotas 
minha vida em pedaços repartida. 

Eu não sei se o teu rosto se um navio 
mas era o Tejo a mágoa a brisa o cais 
meu amor a partir-se à beira-rio 
em uma nau chamada nunca mais. 
(...)

Cá para mim, a ponderada gaivota estava a ajuizar se havia de ir ali à frente buscar umas cenouras, um nabo, uma batatinha, umas espigas de trigo e fazer uma bela caldeirada. Parecendo que não ali há de tudo.


Ou talvez não. Pensando bem, não me parece que a gaivota tivesse pinta de lunática a ponto de se deixar iludir dessa maneira. Provavelmente, quando olha aquela pintura, pensa com as suas penas: 'Ceci n'est pas une carotte'.

Ná. Cá para mim ela estava era a pensar se o peixinho haveria de marchar assim, au naturel, ou se haveria de ir ali adiante buscar uma hortaliça genuína para dar gosto a uma boa marinada.


Fosse o que fosse, a gaivota ali ficou, olhando de volta, bicando ao de leve, observando a iguaria. Depois levantava a cabeça, olhava em volta.

Se calhar estava a digerir o que tinha lido na parede do outro lado. Na volta, não era uma gaivota pragmática mas uma gaivota filósofa. Ou uma gaivota blogger, que vai quase dar ao mesmo já que a quase todos os bloggers, pelo menos de vez em quando, dá-lhes para botar prosa, elencar argumentos, dissertar sobre profundos pensamentos, fazer-se de filósofo.


Isto a gaivota.

Um pouco mais à frente, um menino azul pensava na sua vida. Também desconfiado. Na volta não percebia a hesitação da gaivota. Se calhar estava expectante: 'Come? Não come? Daqui a nada vem um gato e acaba-lhe com a hesitação...'. Ou pensaria: 'Se a gaivota fosse simpática, ia pendurar o peixe no anzol do pescador... Assim os amigos já não gozavam com ele...'. Os meninos da beira do rio costumam ser assim: dados a sabedorias e a afectos sem igual.


.......................................................................................

O título do post é um excerto do Quarto Poema do Pescador e, a seguir à primeira fotografia, está um excerto do Segundo Poema do Pescador. Em letra mais pequena, a seguir à fotografia da gaivota, está um excerto do poema As Sete Penas do Amor Errante. Todos de Manuel Alegre.

Maria Bethania interpreta Pescaria

Fiz as fotografias debaixo de chuva, de manhã, no Ginjal


(* O Tejo todo é como quem diz. Melhor fora se dissesse: O Tejo daqui até onde se avista).

................................................................................

[E agora, Caros Leitores, queiram aceitar o meu convite e desçam ao longo do rio, rente às decadentes e belas paredes do Ginjal, lugar de onde se tem a melhor vista de Lisboa]

.........................................................

sexta-feira, junho 09, 2017

Alegre Camões





Para as letras portuguesas o Prémio Camões é um prémio maior. Através da atribuição do Prémio Camões conheci Raduan Nassar ou Dalton Trevisan. Fiquei felicíssima quando o prémio coube a Hélia Correia ou Manuel António Pina.


Confesso que hoje, ao regressar a casa, no carro, ouvindo Manuel Alegre a ser entrevistado sobre um prémio atribuído mas, tendo perdido o início da conversa e não percebendo que prémio era, nunca me ocorreu que fosse o Prémio Camões. Certo que o ouvi falar em poesia camoniana mas, ainda assim, não tocou em mim qualquer campainha.


Não quero com isto dizer que ache que a decisão foi injusta (e quem sou eu...?) ou não aprecie a sua poesia. Aprecio alguns dos seus poemas e, a esses, aprecio bastante. Contudo acho-o um pouco irregular e, sobretudo, penso que nele a toada poética lhe é tão natural que, com alguma frequência, se encosta ao efeito fácil e os poemas lhe saem algo falhos de significado, apenas revestidos a efeito fácil.

Mas uma coisa não lhe nego e talvez isso não seja negligenciável: Manuel Alegre sabe apelar à emoção -- aliás, mais do que apelar, ele sabe provocar a emoção -- porque usa com mestria a palavra para que, dentro de nós, ressoe o sentido eco, vibre a insinuante melodia.

De resto, confesso também que, entre a poesia em que existe uma harmonia elegante e aquela em que abunda uma sucessão desconexa de palavras com pouco conteúdo e nenhuma simetria fonética, prefiro a primeira.

Dito isto, percebe-se que não fiquei com aquela esfuziante disposição que aqui me faria atirar jubilosos foguetes como aconteceu quando alguns dos anteriores foram contemplados.


Mas, apesar disso, porque é um trovador e porque venera a democracia e a liberdade e porque ama e embala com ternura a língua portuguesa, porque tem uma bela voz que ora envolve as suas palavras em veludo ora as empunha(va) como armas erguidas ao vento, acho que temos que estar contentes por ser um português a ganhar o prémio e por esse português ser ele.

Há tempo para que outros o ganhem; nomeadamente, espero que um dia seja Maria Teresa Horta a premiada já que, para mim, de entre os poetas de língua portuguesa vivos, é talvez das maiores. Mas, por ora, não quero pôr-me com reticências ou comparações -- que são sempre espúrias -- e sinceramente festejo a atribuição do Prémio Camões 2017 a Manuel Alegre. 


_____________

As Mãos - poesia dita por Manuel Alegre sobre música de Carlos Paredes



[Lá em cima, no início, era Dois Sonetos de Amor]
______________


Senhora das tempestades e dos mistérios originais 
quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo 
trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais 
e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo. 
  
Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse 
trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte 
teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse 
quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte. 
  
Escreverei para ti o poema mais triste 
Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades 
quando me tocas há um país que não existe 
e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades. 
  
Senhora do sol do sul com que me cegas 
a terra toda treme nos meus músculos 
consonância dissonância Senhora das vozes negras 
coroada de todos os crepúsculos. 
  
Senhora da vida que passa e do sentido trágico 
do rio das vogais Senhora da litúrgica 
sibilação das consoantes com seu absurdo mágico 
de que não fica senão a breve música. 
  
Senhora da hora solitária do entardecer 
ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma 
onde tu moras começa o acontecer 
tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma. 
  
Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes 
Setembro te levou para as metrópoles excessivas 
batem as sílabas do tempo no rolar dos meses 
tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas. 

[Excertos de 'Senhora das Tempestades' de Manuel Alegre, Prémio Camões 2017]

  
____________

Trova do vento que passa 


(Poema de Manuel Alegre, música e interpretação de Adriano Correia de Oliveira)



_____________

[Fotografias feitas a semana passada ao fim na praia]

________________________

E parabéns ao Manuel Alegre, um poeta que honra a língua portuguesa. 

___________________________

quinta-feira, novembro 27, 2014

Comunicado de José Sócrates a partir da prisão de Évora, "há cinco dias fora do mundo". O animal feroz que enjaularam e que dá pelo nome de Preso 44 está a acordar e, pronto para a luta, diz que "este processo só agora começou."


No post abaixo já falei das notícias que dão conta da fortuna que a família de José Sócrates tinha numa conta numa offshore e, supostamente, à pala da qual estão sob investigação no âmbito do Processo Monte Branco. Fiz as contas e retirei as minhas conclusões. (Os vasos comunicantes entre a investigação e o jornalismo linha branca continuam em grande estilo mas, enfim, nem foi sobre isso que falei).

Mais abaixo ainda, apresentei as minhas explicações aos Leitores que têm deixado comentários e que eu, mal agradecida, tenho deitado fora. E, em contrapartida, deixo-lhes um desafio.

Mas tudo isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Desde que cheguei ao computador que estou com vontade de espairecer e tinha aqui uma na manga que era uma gracinha. 

Mas pus-me a ver os comentários, a varrer alguns, a proceder à devida desinfestação e o tempo foi passando.


Quando agora, finalmente, vinha fazer o gosto ao dedo, dou uma espreitadela pelas notícias e toda eu sorri. Ah menino lindo!


Mas, porque não há machado que corte a raiz ao pensamento, vamos com música, por favor.




E que vi eu?

Pois bem: um comunicado de José Sócrates ditado ao bacano do seu advogado, o Dr. João Araújo enviado à TSF e ao Público.




Li as palavras e o que me ocorreu foi que um lobo saído da noite uivou e uivou bem alto.

O que eu gostei de ler o que ele escreveu... E, também, o que eu gostei que ele o tivesse escrito!

Há quem os prefira mansarrões, cabeça baixa, sempre batendo com a mão no peito, sempre dizendo ámen, nunca levantando cabelo, sempre nas tábuas. Eu não. Eu gosto de gente que não se acobarda, que vai à luta, que se levanta, ergue a cabeça, olha sem medo, marra de frente. Assim, acho eu, são os líderes, os que têm carisma, os que sabem o que querem e não se deixam ficar pelo caminho.

Transcrevo pois, embora as suas inesperadas palavras estejam por todo o lado, não quero deixar de as ter aqui no Um Jeito Manso - embora preferisse que estivessem escritas sem respeitar o malfadado Acordo Ortográfico (mas, enfim, isso agora não interessa).



«Há cinco dias "fora do mundo", tomo agora consciência de que, como é habitual, as imputações e as "circunstâncias" devidamente selecionadas contra mim pela acusação ocupam os jornais e as televisões. Essas "fugas" de informação são crime. Contra a Justiça, é certo; mas também contra mim.

Não espero que os jornais, a quem elas aproveitam e ocupam, denunciem o crime e o quanto ele põe em causa os ditames da lealdade processual e os princípios do processo justo.

Por isso, será em legítima defesa que irei, conforme for entendendo, desmentir as falsidades lançadas sobre mim e responsabilizar os que as engendraram.


A minha detenção para interrogatório foi um abuso e o espetáculo montado em torno dela uma infâmia; as imputações que me são dirigidas são absurdas, injustas e infundamentadas; a decisão de me colocar em prisão preventiva é injustificada e constitui uma humilhação gratuita.



Aqui está toda uma lição de vida: aqui está o verdadeiro poder - de prender e de libertar. Mas, em contrapartida, não raro a prepotência atraiçoa o prepotente.


Defender-me-ei com as armas do Estado de Direito - são as únicas em que acredito. Este é um caso da Justiça e é com a Justiça Democrática que será resolvido.

Não tenho dúvidas que este caso tem também contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.

Este processo só agora começou.

Évora, 26 de Novembro de 2014

José Sócrates»

____



Poderia eu agora pôr-me a tecer comentários às palavras de José Sócrates mas, dado que já passa e bem das 2 e meia da manhã, limito-me a partilhar convosco as palavras de Proença de Carvalho no programa Pares da República na TSF sobre a Detenção de José Sócrates. 


Peço que ouçam. Peço que ouçam a comparação que ele faz com a Justiça antes do 25 de Abril, achando que regredimos. Proença de Carvalho não é socialista, não é soarista, não é um perigoso esquerdista, não é uma carpideira ou uma viúva de Sócrates. Muitas vezes me tenho referido a ele como uma eminência parda do regime mas, senhores, como gostei de o ouvir. Maria de Lurdes Rodrigues também fala, e fala muito bem mas, enfim, para os meus leitores mais cépticos pode não ser tão interessante, podem achar que não é isenta, que fala assim porque também passou por uma do além e porque foi ministra dele. Mas, então, ouçam, por favor, as palavras de Proença de Carvalho. Quem não tiver muito tempo, depois das suas palavras que vão mais ou menos até ao minuto 10 e picos (que são imperdíveis!), salte, por favor, ali para o minuto 18 e picos e deixe-se ficar a ouvir.

Carreguem aqui por favor e ouçam com atenção. As nossas opiniões são formadas com melhor conhecimento de causa quando ouvimos a opinião de quem sabe do que fala.


____


A música lá em cima é Manuel Freire interpretando a Livre com letra de Carlos de Oliveira e música dele próprio. É acompanhado pelo mestre Fernando Alvim.

____

Relembro: descendo há mais dois posts e eu tenho agora tanto sono que nem vos vou maçar a dizer sobre o que são.

____


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.



sábado, outubro 19, 2013

Estou triste . [E tenho aqui comigo o Manuel Alegre, o Mário Viegas, o Cine Povero] . Eu tinha grandes coisas para vos dizer; porém não tenho tempo. Vou-me embora.


No post abaixo dou a palavra aos leitores-admiradores de Valter Hugo Mãe que me têm deixado comentários tão impressivos que faço questão de lhes dar honras de primeiro plano.

E, já agora, deixem que lhes diga: estejam à vontade, comentem o que quiserem para que se conheça melhor qual o público-alvo da grande estrela (tinha escrito grande estrela dos livros e das cassetes piratas mas os leitores em causa poderiam não perceber a alusão e a ironia).

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Posso não ser uma radical de esquerda (que não sou), posso não ser tão lutadora quanto devia (que não sou), posso estar afastada da vida política activa (que estou, sempre estive) - mas sou realista, sei fazer contas, sou patriota, sou solidária. Sou Portuguesa e quero continuar a ser orgulhosa de o ser. 

||||||||




Numa altura em que a viabilidade de Portugal se encontra ameaçada, em que a dignidade dos portugueses está a ser espezinhada, é tempo de protesto. A revolta deve ser manifestada. 

Somos muitos. Se todo um País se levantar, não é um punhado de gatos pingados que lhe pode fazer frente. A nossa passividade e delicadeza está a ser-nos fatal. Demonstremos a nossa preocupação e desagrado. Deixemos que percebam que por cima de nós não passarão.


Quando há pouco abri o YouTube para pesquisar uma coisa, apareceram-me uns quantos vídeos que 'o YouTube escolheu' para mim. Para minha surpresa, dei com um filme maravilhoso do Cine Povero de quem aqui já mostrei outros. É poesia dita mas é muito mais que isso.

Este de hoje não poderia ser mais actual.


A minha tristeza precisa de grandes gritos ao ar livre. 

Precisa de correr. 

Apertar muitas mãos encher as ruas de muita gente. 

Precisa de batalhas. 

Precisa de cantar.




Eu também continuarei a lutar.

*




Aconselho a leitura do texto explicativo o Cine Povero juntou ao belo filme que colocou no YouTube.


Transcrevo aqui o poema 'Estou Triste' de Manuel Alegre na íntegra:



Eu tinha grandes coisas para vos dizer
Porém não tenho tempo. Vou-me embora. Deixo-vos
com a vossa tristeza
mergulhada no vinho quieta envilecida.
Minha tristeza é mais pura
não se esconde no vinho não se esconde.
Precisa
de grandes gritos ao ar livre. De
partir à pedrada o copo
onde a vossa tristeza apodrece.
Precisa de correr. Apertar muitas mãos
encher as ruas de muita gente.
Precisa de batalhas
Precisa de cantar



*

(As fotografias foram obtidas na internet e não consegui identificar a sua fonte original)

*

Relembro que, descendo até ao post seguinte, poderão deleitar-se com os comentários com que os fãs do Valtinho me têm presenteado. Não se costuma dizer que o que é bom é para se ver? Ora bem, não quero guardá-los só para mim.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito feliz.
E tomara que, não tarda, nossos sejam todos os caminhos.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Cavaco provou que está vivo, disse umas coisas aos jornalistas, nomeadamente que teve um encontro frutuoso com o Seguro; Gaspar diz que não garante nada, nem dívida nem coisa nenhuma; e um admirador de Relvas ia encontrar-se com ele num quarto de hotel nos Açores (mas não o deixaram). Ainda não sei se o Obama ganhou e os socialistas europeus ameaçam Durão Barroso com uma moção de censura, estão fartos dele ser o passivo neste affair da crise. Face a tudo isto, não digo grande coisa e prefiro mostrar-vos os meus últimos livros (Al Berto, António Osório, Ian McEwan, Milan Kundera, Poetas para Vasco Graça Moura, Gina Picart, Clara Sánchez, David Dinis e Hugo Filipe Coelho)






Num dia em que já se levantavam vozes pedindo uma prova de vida de Cavaco Silva ou, então, que fosse declarado incapacitado, eis que, inesperadamente, o senhor saíu do recato a que se tinha votado e disse umas coisas aos jornalistas. Ia inaugurar um hotel, fizeram a gentileza de o convidar e ele fez a gentileza de se mostrar vivo. Pareceu-me um bocado parado, por momentos pensei que a minha televisão estivesse com um desfasamento entre a imagem e o som, o senhor abria a boca e não saía nenhum som. Mas depois, quando arrancava, a imagem estava sincronizada com a fala; talvez fosse apenas que estava destreinado de falar.

Tirando isso, nada de especial aconteceu. 

Seguro foi a Belém e Cavaco diz que o encontro foi muito frutuoso (ou seria frutado...? - desculpem, esta foi influência de ter visto uma reportagem sobre um perfumista, um nez português). 

O Tozé, por seu lado, diz que está pronto para governar. Ora bem, temos homem. 

Vítor Gaspar, por seu lado, para não o acusarem de não acertar uma, agora, logo à partida, diz ele próprio que não acredita em nada. Diz que não garante que nada disto corra bem, que o regresso aos famosos mercados vai ser quando tiver que ser, que não precisa da Constituição para escaqueirar o Estado Social e que controlar a dívida não é para já, nem sabe para quando será, talvez dentro de algumas décadas. Porreiro, pá, diria o outro.

O melhor do dia foi para o homem que parece que foi de propósito aos Açores para se meter com o Relvas. Parece que foi de véspera, instalou-se no mesmo hotel, num quarto mesmo ao pé do de Relvas e, imagine-se, terá tentado entrar no quartinho do senhor doutor ministro. Para lhe fazer uma visitinha? Apenas para lhe deixar uma lembrancinha? Gastou o dinheiro do avião e do hotel só para ir visitar o Relvas ao quarto?! Querem lá ver que o Relvas arranjou um amigo especial? Um amigo colorido, será?! As fotografias mostram um homem com as calças um bocado descaídas e, como o estavam a agarrar e, na fotografia está de costas, vê-se o início do rabiosque. Foi preso, tenho pena. Dizem que insultou o senhor doutor, coisa mais chata. E é tudo o que tenho a dizer sobre o caso.

Lá por fora, o que retive é que os socialistas europeus se preparam para apresentar uma moção de censura a Durão Barroso. Não percebem o que tem o homem lá andado a fazer. A UE a desfazer-se, a Alemanha a pôr e dispor, e ele ali, cherne de águas profundas, na moita, caladão. Não percebem qual é a dele. Ninguém percebe.

*



E, como não sei ainda quem é que vai ganhar as eleições nos EUA (seria possível que pudesse  ganhar um sujeito como o Romney?!), vou antes mostrar-vos os meus últimos livros.

Estive aqui a fazer uma instalação para os fotografar. Sabem que sou dada a coisas artísticas e, por isso, instalei-os em cima de peças de roupa que hoje vesti. Juntei ao conjunto, para a fotografia, uma pequena estola de pseudo pele tigreza para dar um certo toque selvagem. Tenho destas coisas.



Os tons de Outono e os meus últimos livros 


Passo então a reportar, dando uma de professor Marcelo - a ordem é a dos ponteiros do relógio e a escolha de um pequeno excerto de cada um dos livros é totalmente aleatória.


Óleo sobre tela de Gina Picart

Aqui passo os meus dias e as minhas noites. Não espero nada, não espero ninguém. Habito esta casa sem saber até quando; já não me pergunto, limito-me a permanecer. Pinto o céu, as rochas, o mar e as vastas extensões de areia até onde chega a minha vista. Pinto para mim.


Mel de Ian McEwan

Chamo-me Serena Frome (rima com plume) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta para os serviços de segurança britânicos. Não regressei incólume. Dezoito meses depois de ingressar fui despedida, tendo caído em desgraça e destruído o meu amante, embora não reste dúvida de que ele teve um papel activo na sua ruína.


Os monstros também amam de Clara Sánchez

A minha filha achava que eu era um velho louco e sem remédio, obcecado por aquele passado que já não interessava a ninguém e do qual não era capaz de esquecer nem um dia, nem um pormenor, nem um rosto, nem um nome, mesmo que fosse um nome alemão comprido e difícil, e no entanto era frequente ter de fazer um grande esforço para me recordar do título de um filme.


Diários de Al Berto

Perturbam-me estes versos que avançam, as sombras das mãos, suaves como o perfume das ilhas. E não consigo dormir. Fumo cigarro atrás de cigarro, conto e reconto os nós da madeira das portas, e não consigo dormir. Nada me pertence aqui, no entanto tenho medo destes móveis, destes objectos, como se fossem meus e não soubesse que destino dar-lhes.


O concerto interior, evocações de um poeta de António Osório

Começo por lembrar Beppa, como lhe chamava meu Pai, e era invenção sua, corruptela amorosa de Giuseppina. Entre as minhas figuras femininas, ocupa o primeiro lugar. Sem nunca ter vindo a Portugal, antes de se casar em Florença na Basílica di S. Lorenzo, tirou um curso de puericultura num instituto dessa cidade - tenho ali o diploma. Por isso, depois de eu nascer em Setúbal, fui tratado como exigiam essas imperiosas normas (alimentação rica em cálcio, verdura e fruta, pouco sal e mínima gordura).


A arte do romance de Milan Kundera

CS: Mas os romances não são todos necessariamente psicológicos? Isto é, debruçados sobre o enigma da psique?

MK: Sejamos mais precisos: todos os romances de todos os tempos se debruçam sobre o enigma do eu.


Resgatados, os bastidores da ajuda financeira a Portugal de David Dinis e Hugo Filipe Coelho

6 de janeiro de 2011, quinta-feira

Impaciente, José Sócrates saíu do seu gabinete para a sala lateral. Aproximou-se do computador que estava em cima do móvel e carregou no teclado. O ecrã negro encheu-se de números e letras, dados financeiros quase encriptados. Em baixo, um cursor piscava, pedindo um comando que ele nunca tinha de memória. Entre as suas qualidades não se contava a de lidar com computadores. Chamou a secretária e pediu-lhe que o pusesse a funcionar.


A vista desarmada, o tempo largo - Antologia, Poetas em homenagem a Vasco Graça Moura

                      Que porque Vasco

                      Vai um abraço e a consoante muda
                       e espero que me acuse a recepção
                       com p e pau e uma vogal mamuda
                       e até um til com barbas e brasão.
                       E se alguém perguntar
                       tu lhe dirás
                       que porque como ele contra acordo
                       estás
                       até o ver no chão
                       que nem
                       um tordo.
                       E mais dirás canção
                       que porque Vasco e porque tem
                       a língua de Camões no coração

                                                                Manuel Alegre


*

O primeiro clip é de bailado e mostra-nos O Lago dos Cisnes interpretado pelos divertidos Trocks, isto é, pelo grupo Les Ballets Trockadero de Monte Carlo.

O segundo é uma animação representando auma das músicas da banda sonora de O piano.

*

Pronto, fico-me por aqui - passa da 1:30 da manhã e continuo sem perceber se as tendências apontam no sentido do Obama ou se há verdadeiro risco de ganhar o outro. Ficava giro o mundo, com uma esperteza como o Mitt à frente dos EUA, ficava, ficava...

Mas, antes de me ir deitar, vou ainda convidar-vos a virem comigo até ali ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras brincam com palavras, em volta de um poema de Maria Teresa Horta dedicado a Vasco Graça Moura. A música é uma maravilha, Isis de Jean-Baptiste de Lully.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um dia muito feliz (apesar do vendaval que se anuncia e que já se passeia aqui na minha janela). 

sexta-feira, outubro 19, 2012

Numa noite fria de névoa, num hotel, dançando com luzes e ouvindo a trova do vento que passa (e hoje não quero saber do Passos Coelho nem do Gaspar nem do Portas)





Aqui onde estou está frio, húmido. Quando há pouco cheguei ao hotel estava uma noite agradável, uma névoa fresca, daquelas noites em que é agradável uma pessoa perder-se na noite, sair a passear pela beira do rio (aqui também há um rio) e deixar-se ir, sem saber por onde, deixar-se ir apenas. 

Mas não fui. Para isso teria que ter quem depois me trouxesse de volta e me trouxesse abraçada porque a noite está fria para se andar sem um aconchego nos ombros, sem uma palavra quente nos ouvidos.

Vim, portanto, para o quarto e aqui estou. Estou a ouvir o noticiário da meia noite e meia. A mesma tourada de sempre. Neste momento ouço que apenas um interessado se confirma na privatização da TAP. Em qualquer parte do mundo decente, alguém que estivesse a negociar com apenas um interessado, desistiria da venda. Aqui não, vai-se em frente. 

Ouço também que o Gaspar-não-acerta-uma, quando foi ter uma reunião com os deputados para lhes explicar a orgia fiscal, levou quadros que tinham os cálculos engatados. Olha! Qual o espanto? Já houve alguma vez em que ele tivesse acertado?

Mas não me apetece falar de nada disto. Tretas, amadorismos, parvoíces.

Só que não estou com grande cabeça para escrever sobre outras coisas. Poderia falar da Sylvia Kristel mas também não quero. Há uns anos li a sua autobiografia e fiquei com muita pena. Alguém que em tempos víamos como uma mulher tão sensual e tão cheia de uma luminosidade inocente e, afinal, teve uma vida tão sobressaltada, fez más escolhas, foi infeliz. E depois foi a doença. Fico com pena. Mas não quero agora falar de coisas que não têm remédio e que me dão pena.

Também não tenho aqui os meus livros nem as minhas fotografias. Por isso, vou aqui apenas colocar um vídeo com um grupo de que gosto bastante, o Quixotic Fusion, gente que dança com luzes.





Mas está mesmo a apetecer-me poesia. Fui à procura e encontrei esta que me apetece ouvir. A Trova do vento que passa, porque É preciso um País. É a voz do poeta diseur Manuel Alegre e a guitarra de Carlos Paredes.




+

E nada mais que daqui a nada tenho que me estar a levantar para mais um dia intenso. 
Tenham, Meus Caros, uma bela sexta feira!

quarta-feira, agosto 22, 2012

Noites quentes (e o corpo: o movimento, a música, a fotografia, a poesia)


Para ouvir enquanto se desliza devagarinho pelo texto abaixo.
Depois, por favor, voltar cá para ver.

(Pode, é claro, inverter-se a ordem dos factores)


Grupo Corpo 
Coreografia Rodrigo Pederneiras, Música Ernesto Lecuona 





.                                                                                                                                                                                                                   .



                                                                Respira. Um corpo horizontal,
                                                                tangível, respira.
                                                                Um corpo nu, divino,
                                                                respira, ondula, infatigável.

                                                                Amorosamente toco o que resta dos deuses.
                                                                As mãos seguem a inclinação
                                                                do peito e tremem,
                                                                pesadas de desejo.

                                                                Um rio interior aguarda.
                                                                Aguarda um relâmpago,
                                                                um raio de sol,
                                                                outro corpo.

                                                                Se encosto o ouvido à sua nudez,
                                                                uma música sobe,
                                                                ergue-se do sangue,
                                                                prolonga outra música.

                                                                Um novo corpo nasce,
                                                                nasce dessa música que não cessa,
                                                                desse bosque rumoroso de luz,
                                                                debaixo do meu corpo desvelado.




.                                                                                                                                                                                                   .


                                                                         Há um tempo para estar só
                                                                         há um tempo para estar nu
                                                                         há um tempo que falta para ser
                                                                         o bastante uma coisa e outra
                                                                         há uma ponte em direcção ao tu

                                                                         que é necessário atravessar e que
                                                                         é necessário, coragem, minar
                                                                         e há um ponto sem chão
                                                                         nem ponte em que só é preciso
                                                                         abrir os braços e voar




.                                                                                                                                                                                                                   .



                                                                  Teu rosto de desastres e tormentas
                                                                  e risos lágrimas e sol e vento
                                                                  teu rosto de marés e vagas lentas
                                                                  em que o prazer é quase sofrimento

                                                                  e o sofrimento é como rosa roxa
                                                                  florindo devagar em tua boca
                                                                  se a minha mão te chicoteia a coxa
                                                                  e no teu corpo há uma égua louca.

                                                                  Começam então as tuas doces queixas
                                                                  e vais para um país onde desmaias
                                                                  quando o sol no teu rosto acende flechas.

                                                                  E eu temo que te percas e não saias
                                                                  do abismo em que te abres e te fechas
                                                                  de cada vez que te levanto as saias.




.                                                                                                                                                                                                                   .


                                                                          Acicato o meu desejo
                                                                          traço em volta
                                                                          a vã lisura

                                                                          Dedos leves na cintura
                                                                          despido o fato e o fio
                                                                          tecido pela fissura

                                                                          Nos lábios resta o sabor
                                                                          a sal de gosto aberto
                                                                          na pele cujo suor tem o odor do incerto

                                                                          Quebro a cela
                                                                          do meu corpo
                                                                          ao golpe da tua anca

                                                                          Derramo o prazer
                                                                          na boca
                                                                          onde a sede se desmancha




.                                                                                                                                                                  .



                                                                      Avançar desfazendo
                                                                      os nós dos nomes
                                                                      aceitando a oferta nua
                                                                      na sua abolição

                                                                      Passa uma ave de sombra
                                                                      entre as virilhas do sol
                                                                      e sob a cálida abóbada
                                                                      a duração redonda
                                                                      nos seus anéis de pólen
                                                                      flui sem ecos

                                                                      A amêndoa do estio
                                                                      consagra
                                                                      a lentidão clara
                                                                      do sossegado desejo
                                                                      de não ser nada

:  :  : 

                                                                      Na serena encantação as paredes resplandecem
                                                                      e na realeza do instante o espaço doura-se


**


[As fotografias são da autoria de James Hickey que, para o caso de estarem interessados, tem estúdio nos Estados Unidos.

Os poemas são respectivamente de Eugénio de Andrade (título: 'Apenas um Corpo'), Rui Caeiro (sem título), Manuel Alegre (sem título), Maria Teresa Horta (título: 'Cela') e António Ramos Rosa (títulos: 'Passa uma Ave de Sombra' e parte final de 'Decantação da Casa')]

**

A partir de mais uma noite quente, vos envio, Caros Leitores, os meus votos de um belo dia. 

(E agora toca a refrescar...!)