Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, março 16, 2016

Dos Passadiços do Paiva a Lisboa, num dia longo, longo, quase tão longo como este post quilométrico


Tenho que começar que referir que, por me ter posto a responder aos comentários, já estou atrasada e, portanto, a partir daqui vai ter que ser sempre a abrir. Esta terça-feira saí cedo de casa e regressei por volta das 9 da noite: um dia dos valentes, quase sem interrupções. E agora que já jantei (felizmente, ontem à noite tinha deixado já a sopa feita e o peixe pronto), já estive a escolher a roupa para amanhã já que ainda de madrugada tenho que me pôr a caminho -- porque centenas de quilómetros me separam do local onde vou passar parte do dia -- e não consigo às cinco e tal da manhã estar a ensaiar toilettes. Ou seja, esta quarta-feira vai ser outro dia dos jeitosos e, por isto tudo, que ninguém me leve a mal se hoje não conseguir dizer nada de jeito ou se, para me poupar, o post de hoje for mais imagens do que paleio. 

Agora estava a escolher música para me acompanhar enquanto escrevo e andei por Mozart, por Schumann, por Vivaldi e nada me estava a agradar, queria uma coisa mais básica, uma coisa levezinha, lenta, uma voz calma, (apetece-me sossego) e, vá lá saber porquê, apeteceu-me ouvir You belong to me na voz sussurrada da Carla Bruni. Não tem a ver com isto mas, então, fazer o quê se é isto que agora me apetece ouvir?


Há bocado estava numa sala atapetada, móveis do melhor que há, numa sala toda envidraçada que dava para uma das colinas de Lisboa. E, com os meus interlocutores à minha frente, fui observando, por trás deles, a evolução da luz sobre o belo casario de Lisboa.

As casas acompanham o declive da colina, e as paredes e os telhados vão-se sucedendo como numa aguarela de Carlos Botelho. Aos poucos foi entardecendo, a luz esvaía-se, as luzes foram-se acendendo e, por fim, era de noite, só as luzes. Parecia um cenário em mutação. E eu ia-me lembrando de que um dia antes eu via umas outras colinas à minha frente mas não colinas, serras verdes, diluindo-se no azul e nas brumas. Enquanto ouvia as discussões ou participava nelas pensei que não sei se sou a mesma quando mudo de geografia. Parece-se que o meu mundo de vez em quando sai da rota habitual e entra numa outra onde continuo a viver normalmente mas numa outra vida. Depois mudo de órbita e volto a entrar no mundo anterior, sempre normal mas outra.

Um bocado estranho, isto. O que me vale é que não sou dada a grandes divagações senão ficava a magicar nisto, ia à procura de filosofias onde pudesse encaixar esta 'cena' ou desatava a folhear livros a ver se descobria uma certa página onde um qualquer maluco tivesse passado por uma experiência paranormal do mesmo género. Como sou esta simplória que aqui têm, deixo esses arroubos para gente erudita e fico-me pelos meus pensamentos mal alinhavados.

E, portanto, vou mas é deixar-me disto e vou ao que aqui me traz hoje. Ou melhor, ao que está pendente desde ontem: os Passadiços do Paiva. As fotografias são demais, eu sei mas passem por elas a correr se vos chatear. A questão é que, com a pressa com que estou, é-me mais fácil ir colocando do que pôr-me a olhar a ver qual deixo e qual não deixo.

Pois bem. Manhã cedo, eis-nos a caminho. Uma das entradas é na Praia Fluvial do Areinho e foi por lá que nos fizemos à escalada. Talvez se tivéssemos entrado pelo Espiunca a coisa fosse mais branda. Mas não faz mal, ficámos a saber que somos uns atletas -- e isso, como diz o outro, 'não é mau; não é mau'


A água é límpida e fresca. Mas, embora apeteça ficar já por aqui, iniciamos a expedição. Primeiro vai-se por uma estradinha de terra batida mais ou menos ao longo do rio.


Encontrámos grupos, jovens, e um ou outro casal mais como nós. Ou seja, que ninguém ache que isto não é para i: é para toda a gente (desde que tenha boas pernas e bom coração).

Depois começa o passadiço. É um corredor de madeira, com tábuas laterais também em madeira. O perfume aqui é doce, muito agradável: é o cheiro da madeira macia, é o cheiro dos pinheiros, dos eucaliptos, da urze. Tão bom, tão bom.

O passadiço vai-nos levando ao longo do rio e começa a subir.


Por onde vamos andando, a paisagem vai variando. Ora mais escarpada, ora mais florestada, ora campos verdes onde ovelhas meditam, tranquilas na sua sã existência.


Uma nascente canta e salta, a água transparente, e elas felpudas, brancas e tranquilas, sem entusiasmos como o meu.


À medida que vamos caminhando, começamos a reparar no que nos espera. Como uma fita que mal se vê, o passadiço desliza ao longo da encosta, subindo, subindo. Cherchez le passadiço na fotografia aqui abaixo.


À medida que a subida começa a apertar, penso que espero bem que aquilo esteja bem preso à rocha. Acho que deve estar porque não abana, parece bem preso, mas, de qualquer forma, fotografei para mostrar ao meu filho. Digo que isto deve ser uma obra de engenharia complicada e o meu marido diz que coisas destas se fazem desde sempre. E, de facto, isto faz-me lembrar as escadas de madeira para os templos budistas. Ou se não for para os templos budistas é para uma coisa qualquer do género.


Já estamos cá em cima, o rio já lá bem em baixo, uma paisagem linda que só vista, o sol a aquecer, as pernas já a sentirem-se. Fotografei aquele passeante aqui abaixo para se ter uma melhor perspectiva do que se vê.


E há troços em que quase parece que estamos suspensos sobre as águas mas já quase mal se ouve o bater nas pedras pois já começamos a estar perto do céu.


E há varandins onde apetece ficar sem pensar, sem dizer nada, só ouvir, sentir os cheiros, não pensar. Penso: num dia de frio e neblina deve ser bom aqui estar -- trazendo um termo, beber um chá, sentada num degrau e contemplar o que é esta terra que habitamos.

Mas está sol e calor e eu limito-me a beber água e a continuar a subir.


E subimos e subimos e continuamos a subir, mais degraus do que o Bom Jesus ou esses santuários que foram postos lá bem em cima para testar a fé dos crentes.  Parece que estamos a subir para uma casa na árvore. O coração começa a bater mais apressadamente. Não se sabe se é paixão pela beleza da paisagem se é de tanto e tanto e tanto degrau.


E subimos e subimos, o rio cada vez mais estreito lá em baixo, um fio de azul no meio do verde e nós a subir, a subir.


E a ponte de pedra lá em baixo já parece um arquinho e vêem-se zonas de verde transparente e há fundões e perigos e parece que somos pássaros e que podemos voar


Os pássaros cantam, estonteados, tanto oxigénio deixa-os libertos de peias, o perfume das árvores e dos arbustos é intenso e o rio é azul quando as águas correm e branco quando saltam sobre as pedras.


E estamos alto, muito alto, e agora chegamos a uma estradinha cá em cima, nós já no céu, cansados, alegres como os pássaros, e o cansaço passa logo, as pernas já estão outra vez mais leves e a beleza é tanta, tanta, que penso que não sei como vou passar sem ela.


E então entramos noutro troço, diferente, a água cor de esmeralda, o rio estreita-se, há desníveis, pequenas rochas no leito e a água irrequieta, feita espuma, e as rochas da encosta por vezes cobertas de amarelo, e tudo tão eterno.


Os matizes do verde, do azul profundo, as rochas brancas, o canto dos pássaros. Como transmitir tudo isto a quem não tem a possibilidade de aqui vir?


O passadiço começa descer para junto ao rio que aqui é verde, requintado.  

E aqui o meu marido começa a dizer que o melhor é voltarmos para trás senão não vamos ter pernas para fazer o percurso inverso. O passadiço inteiro são 8 quilómetros e, na ponta, há táxis para levar as pessoas de volta ao carro mas resolvemos não nos estafarmos para lá da conta.


Esqueci-me de dizer que, pelo caminho passámos pela Garganta do Paiva, de onde a água jorra branca e fragorosa,


E há uma varanda de onde se vê esse jorro de água e de onde a vista é maravilhosa; e há escadas e mais escadas e há árvores que dão sombra e eu fotografo e fotografo, encantada com tanta, tanta beleza.


E depois regressamos e a descer já não há memória do cansaço, só há uma leveza de alma. E espero que tenha ficado dentro de mim uma reserva de beleza que me ajude a atravessar outros dias, dias mais cinzentos onde a minha vista não alcança lonjuras e onde não há pássaros que cantam com uma alegria que vem do princípio dos tempos.

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Não vou conseguir rever o que escrevi pois estou com sono e daqui a nada tenho que estar a pé. Se as vírgulas estiverem a levantar voo ou as palavras se tiverem perdido entre as margens do Paiva, relevem, por favor.
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Quem queira testemunhar o deslumbramento que senti quando cheguei à Serra da Freita e vi aquelas belas vistas e me cruzei com animais em plena liberdade, a minha visita à Serra da Freita e seus lugares mágicos, às Igrejas, Santas e Freiras  da Vila e, finalmente, à bela vila de Arouca, é só seguir os links.

E, se o fizerem, espero que fiquem com vontade de lá ir. porque eu já estou com vontade de lá voltar.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

terça-feira, março 15, 2016

Arouca, a vila, tão bonita, tão bem cuidada. E o bem que lá se come (e tanto!).


Nos posts lá mais para baixo falei da Serra da Freita e dos prodígios que alberga e antes já tinha mostrado vistas deslumbrantes e animais em plena liberdade e, depois, falei de igrejas, santos e irmãzinhas em Arouca. Mas ainda não mostrei a vila em si. Não quero ser maçadora mas, às tantas, com tanta fotografia e tanta conversa, estou mesmo a ser.

E, aliás, estou com vontade de ir já ver as fotografias da minha expedição aos Passadiços do Paiva para escolher algumas para aqui. Mas parece que cometo uma injustiça se omitir referência à elegância e à tranquilidade desta bela vila. Por isso, mesmo correndo o risco de molestar a vossa paciência, vou mostrar algumas das fotografias que lá fiz.

Numa moradia, na avenida principal, vi várias esculturas junto à entrada. Penso que seja uma moradia particular. Mostro apenas estas mas há lá mais umas quantas e todas bonitas.



Há vários edifícios do género deste aqui abaixo, muito elegante, coberto de azulejos. Olho e imagino que tenham chão de soalho e que o sol encha de sol a sala e os quartos e que seja muito bom lá estar a ouvir os pássaros.
Esta segunda-feira acordei com um pássaro a cantar, trinados exuberantes, coloridos.

Para quem, como eu, já só compra carne (e pouca, cada vez menos) nos talhos do supermercado, é com curiosidade que vejo o destaque dado a um talho como este aqui abaixo, situado no rés-do-chão de um edifício tão bonito na avenida principal. Penso que os talhos aqui devem ser lojas importantes.


A propósito de talho: as pessoas aqui comem uma tal quantidade de carne...! Ou então é cá em casa que se come pouca.

No domingo à noite, vi que havia arroz de miúdos e este é o género de comida que me dá logo vontade de provar. Custava 5 euros a dose e eu pensei que viria uma travessita com um arrozinho com fígados, moelas e um ou outro coração e que era o indicado já que à noite gosto de comer pouco,. Pois bem. Quando vi nem queria acreditar: veio um tachão de barro, cheio! Um belo arroz malandro, escuro, com miúdos que não acabavam e, imagine-se, até com várias patas de galinha! Claro que sobrou metade, no mínimo. Mas que bom que estava, que bom, cheiroso, saboroso. Deu-me pena lá deixar aquela comida toda mas já não consegui - mas, senhores, haverá alguma alma que consiga bater-se, sozinha, com uma tachada daquelas...?

Esta segunda feira, depois da expedição aos passadiços, voltámos a Arouca e fomos a outro restaurante. Desta vez, optámos os dois pelo mesmo: vitela no forno, com batatinhas também assadas e feijão verde. Havia meias-doses e uma dose; pedimos uma dose para os dois.

Pois, já se sabe: uma quantidade brutal! Um tabuleiro de barro, cheio! Muito boa, aquele saborzinho bom da comida de forno, mas, senhores, tanta carne, tanta, e tantas batatas. E, à parte, uma tigela cheia de arroz. E, para nosso espanto, a meio da refeição, o dono veio perguntar se estava tudo bem, se queríamos que ele trouxesse mais um naco ou que mandasse grelhar uma posta. Que não, que estava muito bem assim, dissemos espantados. E ele, que víssemos, que estivéssemos à vontade, que ele trazia. No fim, ainda vários bocados de carne no tabuleiro, eu incapaz de comer mais e com vergonha que, depois daquela conversa, ainda deixássemos comida no tabuleiro. O meu marido lá se esforçou mas, mesmo assim, ainda lá ficaram bocados de carne e não sei quantas batatas. E o arroz quase todo. Não dá para acreditar o que aquelas pessoas devem comer...!

Mas uma outra coisa chamou a minha atenção. À entrada do restaurante havia uma cesta com livros e uma espécie de jarra com folhinhas de papel com poemas. Fiquei intrigada -- mas por pouco tempo pois na parede de entrada estava este cartaz:


Achei a ideia muito interessante e aqui a divulgo. O País seria outro se a população tivesse outros hábitos de leitura. A escrita é uma porta de entrada para outros mundos.


Aliás, Arouca é uma terra que, por apostar na cultura e na divulgação do património natural, religioso e cultural irá certamente atrair muita gente para a conhecer, e isso, se for feito de forma inteligente, é bom para as terras, desenvolve-as sob todos os pontos de vista.


No domingo encontrámos muita gente na rua. Esta segunda-feira já nem tanto mas é uma terra viva, com muitos jovens (a escola que se encontra nessa avenida é enorme, vista de fora, muito bonita, tem uma escadaria larga e os edifícios são um espanto; terão sido arranjados ao abrigo do Parque Escolar?), com fábricas em redor, com as terras muito cuidadas.


E as casas estão bem preservadas, vê-se que há gosto e cuidado e que há valorização da sua história. E os jardins estão muito bem tratados, as árvores estão floridas e há muitos amores-perfeitos nos canteiros, e eu não pude deixar de me lembrar que o meu pai, até não há muito tempo, plantava sempre amores perfeitos no canteiro do jardim da frente da casa e havia assim como estes, amarelos descarados mas, também, em cor de vinho, um vermelho profundo, quase negro e outros roxos, lindos. Eu preferia os roxos, de veludo.

Tinha uma professora de português de quem gostava muito, já falei dela aqui, a Profª Joana Meira, e, eu que nunca fui de gestos desses pois temia que parecessem bajulação, mais que uma vez lhe levei pequenos bouquets de amores-perfeitos. Acho que ela merecia isso e muito mais. Foi a melhor professora que tive.


E, só para terminar, repito-me: toda a vila vive como que num berço ao sol pois está rodeada de montes onde as casas estão dispostas em socalcos, pelas elevações acima, entre árvores, com igrejinhas pelo meio, tudo tão bonito que quase parece uma paisagem a fingir, perdida no tempo. Mas não, são casas vivas, numa paisagem cheia de luz.


E agora vou ver se escolho algumas fotografias dos passadiços. Mas não deve ser tarefa fácil porque as fotografias são mais que as mães e, of course, antes de escolher, tenho que vê-las o, e só de pensar nisso, a esta hora, já me parece missão quase impossível. Ou seja, a ver se consigo fazer um post ainda hoje ou se fica mesmo para amanhã. 

Agora já estou em casa. Tirámos apenas um dia de férias o que, junto com o domingo (porque no sábado tínhamos afazeres, obrigações e devoções), nos pareceu uma temporada à maneira. Mas a verdade é que, com isto tudo e com o dia que me espera esta terça-feira, não sei se vou conseguir ainda fazer agora um daqueles estirões. Mas, vá, vou deixar-me de conversas e vou à luta.
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E, continuem, por favor que, por aí abaixo, há agora as igrejas e os santinhos.

E, para quem queira depois, como eu fiz, visitar os passadiços, faça favor: é aqui.

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Arouca -- Igrejas, santas, freiras, doces conventuais




Alguém me há-de um dia explicar porque é que, sendo eu tão pouco dada a rituais religiosos, a crenças, a santos e santinhas, gosto tanto de igrejas.

Chego a uma aldeia, vila ou cidade, ponho-me a passear e, mal vejo alguma igreja ou capelinha, logo lá entro. Não tenho companhia nestas minhas incursões e ainda bem senão logo haveria de me sentir censurada por andar eu por ali a inspeccionar tudo, a fotografar e, mais do que isso, a respirar aquela frescura silenciosa, sem perceber que local é aquele e porque é que as pessoas gostam tanto de ali se acolher.

Em Arouca comecei por entrar na Capela da Misericórdia, que é uma maravilha. Não sei se ainda lá fazem missas, creio que não pois não há bancos. Mas é de uma tal riqueza cromática ... A fotografia lá em cima e esta agora a seguir são de lá.


Contudo, creio que o edifício mais relevante de Arouca deve ser o Convento (Convento ou Mosteiro? Agora não me lembro). É um edifício enorme, muito bonito, e que tem uma igreja com uma talha dourada impressionante.

Tive, no liceu, péssimos professores de história. Queriam que decorássemos a matéria. Ora eu não sou capaz de decorar o que quer que seja. Ou melhor, acho que nem é que não seja capaz: a questão é que não tenho paciência, não quero, não me apetece. Por isso, da minha parte havia uma rejeição total. E, de resto, sempre me senti atraída pelo que não se percebem bem, coisas abstractas ou por provar. Ora, estar a estudar reis, dinastias, guerras de há cinquenta mil anos, estilos góticos ou rococós, torres, ogivas e o escambau... nunca quis saber de nada disso.

Hoje tenho pena mas ainda não subi ao patamar seguinte que é o de tentar recuperar o tempo perdido. Continuo a achar que um dia hei-de interessar-me e aprender alguma coisa. Talvez seja como com os cigarros. Não me preocupava com deixar de fumar porque sabia que, no dia em que resolvesse deixar de fumar, deixava. O problema é que esse dia nunca mais chegava.

Mas chegou. E desde esse dia nunca mais fumei.

Tenho esperança que um dia resolva: vou aprender história -- e devore todos os livros que há cá em casa e nos quais nunca toquei (são pelouro do meu marido). Também lhe posso pedir explicações mas acho que ele se ia passar por se estar a esforçar e ver que eu não estava a ligar patavina.


Portanto, não sei comentar nada a propósito destas fotografias, nem dizer se o estilo é assim ou assado. Zero. Só sei que acho bonito, grandioso.

Quando lá estou, de nariz no ar, a olhar para aquelas magníficas construções, parvamente, penso cá para mim: tanta riqueza deve valer uma pipa de massa. E depois, já com medo de que os meus pensamentos voem e vão pousar na cabeça de algum padre da linha pafiana, escondo o que pensei não vá algum ainda se lembrar de passar a patacos alguma destas riquezas aos chineses ou aos angolanos.




Descobri a imagem de pedra, que mostro na fotografia abaixo, num nicho de pedra de uma moradia e também achei bonito.

Também tenho santos cá em casa, em especial Santos Antónios (será que se põe no plural assim? Parece que não me está a soar bem, é capaz de ser Santo Antónios. Será). E tenho crucifixos e Nossas Senhoras (a mesma dúvida; devia mudar a frase para ultrapassar esta dúvida). Ao princípio, esta minha pancada fazia espécie a quem me conhecia, incluindo à minha família: parecia não bater certo. Nem os meus filhos baptizei e, afinal de contas, este gosto por santaria. Pois não sei o que diga. Se tudo em mim batesse certo até a mim me chatearia já que não gosto de gente perfeitinha, onde tudo bate certo. Assim, não me chateio comigo pois não compreendo grande parte das minhas coisas -- e acho que isso é simpático.


E também gostei da Rainha Santa Mafalda no jardim de Arouca, um jardim muito agradável. Aliás, gostei mesmo muito de Arouca. Fica aconchegada entre montes, imagino eu que protegida dos ventos e banda pelo sol. Uma vila muito arranjada, muito afortunada.


E, havendo um convento, há doces conventuais: barriga de freira, morcela doce (o que terá isto da morcela a ver com freiras? Não percebo), etc. Por exemplo, à frente de uma pastelaria perto do convento, no passeio, está uma irmãzinha da caridade, pum. (Sem ofensa. É que, quando eu era miúda, na praia costumávamos fazer uma roda, de mãos dadas, dentro de água, e dizíamos isso: 'irmãzinhas da caridade, pum' e dávamos um mergulho; mas, na verdade, não sei de onde veio essa brincadeira). Achei piada à ideia da freirinha ali no passeio, à porta da pastelaria, ou melhor, achei uma ideia com pinta.

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Lá em cima, o vídeo das senhoras a cantarem a Nossa Senhora do Almortão foi filmado em Idanha-a-Nova, em colaboração com a Biblioteca Municipal de Idanha e com o apoio do Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas.
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Escolher as fotografias dos passadiços é um esticão quase tão violento como foi subir aqueles milhares de degraus (que fazem parecer o Bom Jesus uma brincadeira de crianças). Já fiz uma pré-selecção mas deve ter resultado para aí em mais de 20. Não posso massacrar-vos dessa maneira, tenho que crivá-las ainda mais. Só que, vocês nem imaginam, aquilo é tão lindo, tão espectacular que me dá pena não vos mostrar. Tenho que ver se me organizo para ver como é que hei-de fazer. Senão vocês, com um post gigante, chegam ao fim ainda mais cansados que eu quando cheguei ao top of the world.

Por isso, se não for hoje, fica para a amanhã, ok?

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E, entretanto, pelo sim, pelo não, desejo-vos já uma óptima terça-feira.

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segunda-feira, março 14, 2016

Pedras parideiras, água jorrando de frechas, animais em liberdade, serras multiplicando-se horizonte afora, uma beleza imensa.
Arouca. Serra da Freita.




Este post vem na continuação do outro lá mais para baixo, onde mostrei um belo cavalo, uma cabra dourada em contra-luz, um boi a cortejar uma vaca e uma paisagem linda, de fazer ajoelhar os incréus. 


Quando regressei, e estava a preparar-me para continuar a reportagem, vi na televisão as imagens da nova equipa do CDS constituída pelas velhas caras irrevogavelmente portistas e não resisti à tentação de aqui tecer considerações. Mas, agora, estou de volta à bela Serra da Freita, às suas cores e macias elevações e aos prodígios que por lá há.


Já por cá tinha andado, ainda com os miúdos. Adolescentes, então, sempre impacientes com a duração das viagens e o não haver nada que fazer, uma seca tanta curva serra acima, e nós, impacientes com a impaciência deles acrescida do facto de não haver sinalizações para lado nenhum, nem desfrutámos bem.

Depois vão-se metendo outros passeios e as coisas vão caindo no esquecimento. Mas no outro dia, ao ler as elogiosas palavras a propósito destas montanhas mágicas e prezando eu muito a opinião do Fernando Ribeiro, autor de A Matéria do Tempo, blog de que sou leitora fiel, pensei que estava na altura de voltar. E, portanto, este domingo por cá andámos, de novo. Não há tempo para viagens de degustação, têm que ser passeios curtos mas de alta dosagem. E, decorridos estes anos, o que tenho a dizer é que está tudo diferente e para melhor, tudo bem sinalizado, tudo melhor protegido, o património acarinhado. E a beleza a mesma, intacta.


Não é daquelas serras, como a do Gerês, densamente florestadas. Não, aqui há muita rocha, muita pedra à vista, muito xisto, rochas que cintilam à luz do sol, e mato curto, árvores apenas de vez em quando. De facto, por vezes, há zonas de grande arvoredo, e vi cedros imensos, belíssimos, ou esguios pinheiros ou estranhamente pálidos eucaliptos -- mas não é a maioria. 


A principal beleza não está pois, nisso. A grande beleza está na morfologia da serra, na forma como as vertentes se adernam, como se juntam, como parece que o planeta é feito de seios, ombros macios, regaços acolhedores, colos suaves. E as cores diluem-se, misturam-se, fundem-se com o nosso olhar embevecido. 


Um dos lugares maravilhosos é Mizarela. A rocha ali abre uma fenda e, dessa abertura na rocha, jorra um poderoso jacto de água que canta e mergulha, despenhando-se por ali abaixo. É a Frecha da Mizarela. 


Há qualquer coisa de majestoso nisto. Um alvo véu, feito de água, com que a serra se embeleza. Eu, que sou dada a estados de êxtase, olho maravilhada e, depois, com reverência, fotografo, tentando guardar a memória do que os meus olhos vêem. 

Por isso, sinto-me sempre chocada quando vejo chegar grupos de pessoas, de pau de selfie em punho e que, sem qualquer devoção, se limitam a fotografar-se a si próprias com a paisagem por trás. Estas pessoas estão onde eu estou e, no entanto, diria eu, não vêem metade do que eu vejo pois, vão onde forem, parece que apenas se querem ver a si próprias. Mas, enfim, tantas são as pessoas que fazem isso, selfies, com ou sem pau, que tenho que assimilar o facto de que é desta forma que o género humano está a evoluir, narcisos sem glória.


Num lugar mais adiante, fica um outro lugar de prodígios: as pedras parideiras. Agora há miradouros, passadiços, casas onde se explicam as coisas, e, coisa rara neste país, tudo muito bem sinalizado.

As rochas formam cavidades de onde nascem pedrinhas. Ouvi que os antigos lhes chamavam 'as joguinhas'. É um fenómeno raro. No entanto, ouvi algumas pessoas com vontade de levar de lá estas pedras únicas. Há ainda um comportamento vândalo em parte da população portuguesa, dá ideia que ainda não aprenderam a venerar a terra em que vivem.


E há as pequenas aldeias, pequenos amontoados de pontos brancos, abrigados num privilegiado lugar de remanso na montanha, assentes em verde, banhadas pela afável luz dourada da tarde. Olho e penso que em lugares assim as pessoas devem ser muito felizes, parece uma parcela de céu, de paraíso, um lugar mágico de leite e mel sobre a terra.


Penso isto e logo me forço a pôr os pés em terra firme. Quem aqui vive, em lugares em que a única estrada é estreita, com acessos difíceis, longe de tudo, deve passar por momentos difíceis, deve sentir-se, muitas vezes, isolado, carente de companhia, de movimento, de livrarias e cinemas, talvez até de supermercados, sujeito a frios cortantes, a terras enlameadas, dificuldades a sério.
É aquela diferença entre a visão crua e, por vezes rude, de John Williams em Butcher's Crossing e a bucólica visão de Emerson.
Mas, tudo sopesado, eu que vivo uma vida climatizada entre os melhores edifícios do país, com acesso a todas as mordomias, e com todas as facilidades que uma vida urbana proporciona, não sei o que é melhor, não sei mesmo, cada vez sei menos. Talvez, por isso mesmo, cada vez mais procure a proximidade de lugares assim, lugares de recolhimento e beleza em estado puro.


Depois começou a entardecer. O céu começou a ficar rosado, os contornos dos montes a diluir-se, tudo ainda mais belo. Um pássaro enorme voou junto a nós, belo demais para ser verdadeiro. O silêncio era total, religioso.


Quase não se viam os montes ao longe e o céu desenhava linhas de água acobreadas onde só havia um espaço infinito habitada por suaves neblinas.

Quero parar a cada quilómetro, o meu marido impacienta-se. Peço-lhe que não tenha pressa, que veja, que se sinta feliz por testemunhar uma coisa assim. Beijo-o. Condescende, então, 'isto é bonito, sim' e beija-me também.


Quando regressamos, a luz começa a caprichar nos dourados, por todo o lado encontro recantos onde o entardecer petulantemente pousa sobre as casas. Sento-me então, numa varanda, e olho a formosura do casario banhado por um sol que se põe, penso na elegância do caos que gerou lugares assim. E sinto-me em paz, feliz.


Queria ainda mostra-vos umas igrejas lindas, de uma riqueza artística e cromática quase escandalosa. Mas fica para amanhã, agora já estou com sono.
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Relembro que se quiserem saltar directamente para outras imagens da bela Serra da Freita, podem clicar aqui.

Caso queiram intercalar com a minha opinião sobre os primeiros passos da nova líder do CDS é só deixarem-se deslizar até ao post já a seguir.

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