Acordei com uma dor num dos pulsos. Não sei se dormi em cima da mão dobrada, se quê. O meu marido perguntou se não poderia ser da mudança de tempo? Questionei o ChatGPT se a mudança de tempo influi nas articulações. Pensava eu que me ia mandar dar uma volta ao bilhar grande com uma pergunta tão antiquada. Afinal, os antigos é que têm razão. Influi, sim senhor. Pode a diferente pressão atmosférica ter efeito na pressão interna nos líquidos sinoviais ou coisa que o valha,
Subsistiu a dúvida sobre a mudança de tempo pois creio que tem estado igual, instável. Fomos passear para a praia e estava uma humidade tal, nem percebíamos se estava a chuviscar, se era o mar que estava a pulverizar-nos, se era, simplesmente, a humidade ambiente.
A minha mãe perguntou se esta dor incomodativa e inexplicável não será da ginástica em suspensão que é bem puxada. Não sei, creio que não. Contudo, no fim, na altura dos alongamentos, repuxamos os dedos e a própria mão e, na volta, também pode ser isso.
Mas não interessa.
Esteve cá hoje a anterior proprietária da casa. Admira-se sempre com o ímpeto das coisas. Nunca na vida tinha visto a árvore das limas de tal forma carregada. Tantas que não se sustêm, caem que se fartam.
A cameleira alta que ela nem estava a perceber.
A árvore grande, que veio da Madeira e da qual não sei o nome, deixou-a pasmada, nunca imaginou que, em tão pouco tempo, crescesse desta boa maneira.
Depois não reconheceu aquela que a minha amiga me ofereceu e que designava por árvore da baunilha até perceber que, afinal, é uma borboleteira. Não conhecia. Expliquei-lhe o que era e que ia dar florzinhas tão lindas que atraíam as borboletas.
Como sempre, vejo que tem pena. Diz que o seu novo jardim não tem nada a ver com este. E eu disse-lhe que também gosto muito dele e que, se fosse eu a fazê-lo, não ficaria tão bom com está.
É sempre um vendaval de energia e boa onda. Estou-lhe muito agradecida. Foi ela e o marido, em conjunto com a irmã, que conceberam esta casa em que vivo. Escolheram o desejo, os materiais, tudo. E agora vivo cá eu. E parece que a casa foi feita para mim. Acho isto uma coisa fantástica. O acaso, a sorte. Poderíamos não ter vindo ver a casa quando estava à venda, poderiam os valores ser incomportáveis, poderiam mil coisas ter acontecido. Mas tudo convergiu. No caos que é a miríade de possibilidades desta vida, de vez em quando acontecem acasos virtuosos. Este foi um deles.
Diz que, para a próxima, me vai trazer um frasquinho de doce. Muito simpática.
Perguntou-me como tenho ocupado o meu tempo. Perguntou se tenho pintado. Não sei porquê, sempre achou que sou artista. Contei-lhe tudo o que tenho feito, incluindo que me deu para escrever a ver se um dia acontece o milagre de uma editora querer apostar em mim. Ficou admirada, disse que isso era uma coisa fantástica, que ela também gostava de ter uma ocupação assim que a motivasse a sério mas que não sabe a fazer o quê, que, para escrever, não se ajeita.
E, não sei como, entre isto, aquilo e o outro, e conversas e telefonemas, o dia passou-me sem eu dar por isso. Quando dei por ela era de noite e ainda não tinha feito algumas coisas que tinha querido fazer. Às sete já tinha anoitecido. Quando agora mudar a hora, será às seis. E isso é um bocado chato. Mas, enfim, todos os males fossem estes.
Tirando isto, só coisas ainda mais irrelevantes que as acima referidas.
Daqui a nada são duas da manhã e é agora que estou a começar a escrever aqui.
Ao fim de não sei quantos dias repletos de anormalidade eis que consegui um dia parcialmente normal. Um dia não, uma tarde.
A manhã não foi. Quase toda ao telefone. Tentar falar com um médico num hospital é tarefa do outro mundo. O telefone toca, toca e ninguém atende e, depois de muito tocar, a chamada esgota-se por si. Recomeço. A mesma coisa. Quando alguém atende e tenho oportunidade de dizer o que quero, a chamada é transferida e toca, toca, toca e ninguém atende e, depois de muito tocar, a chamada auto-desliga-se. E recomeço.
Ao fim de horas, consigo.
E quando transmito à minha mãe o que a médica disse percebo que já não está nem aí, já mudou de ideias.
Portanto, da manhã não reza a história. Mas a tarde foi razoável.
Acabei a revisão da minha """obra""" (e ponham lá aspas na obra que eu tenho os pés na terra e tenho bem noção do caminho que ainda tenho para andar).
E já escrevi também a sinopse, coisa que estava meio bloqueada pois queria revelar sem revelar e não estava a fluir.
Mal acabei, enviei para o meu marido.
Entretanto, atirei-me ao seguinte que é da pesada. Quando falei do primeiro o meu filho perguntou-me se eu não ia envergonhá-lo. Assegurei-lhe que não. Mas deste segundo não poderei dizer o mesmo.
Quando há pouco quando foi deitar-se, lembrei o meu marido que já lá tinha o livro para ler. Disse-me que estava mais interessado no segundo.
Estava eu aqui no sofá a reler o que já tinha escrito, coisa pouca, umas vinte e tal páginas, e não conseguia parar de rir. Ele queria que eu lesse em voz alta mas não lhe fiz a vontade. Nem pensar. Lê no fim ou quando a coisa já tiver mais forma.
A verdade é que já fiz completamente a agulha e agora já só me apetece atirar-me a este. Tenho que encontrar a forma mais correcta de o conduzir.
Digo já. O primeiro é ficção com alguma realidade ficcionada à mistura. O segundo fia mais fino, é um livro de memórias, umas verdadeiras e outras nem tanto. Ora como é que uma pessoa como eu, mais torrencial que metódica, escreve um livro de memórias?
E em segundo plano na minha mente está a preocupação da publicação. Ideias não me faltam, incluindo derivações diversas, cada uma mais destravada que a outra.
Na volta ainda me meto é a criar uma editora própria. Mas não quero. Não tenho pachorra para coisas maçadoras, estou mais numa de criar. Conheço uma pessoa que tem uma editora e sei as trabalheiras que às vezes tem. Aliás não conheço uma, conheço duas. Géneros opostos mas em qualquer dos casos é gerir empresas. Podem ser pequenas empresas mas são-no. Não quero. Já tive a minha dose.
Contudo, há muito que aprendi que nunca se deve dizer nunca. Na gaveta é que não ficarão.
(Digo eu de que).
Portanto, bola para a frente. E depois logo se vê.
Como prometi há pouco, no post já a seguir a este (quando avisei sobre os riscos de mergulhar com orifícios a descoberto), aqui estou. Já ontem tinha dito que queria falar de duas situações. Referia-me a preciosidades que vou descobrindo nos mails que estou a apagar. E, para que vejam a sanha de que estou possuída, de ontem para hoje apaguei mais cerca de quatro mil mails.
Pois bem. Um dos tópicos tem a ver com BlackBerry. E tenho a confessar que, até ver uma resma de mails sobre o tema, já nem me lembrava de tal coisa. Mails em que se questionava sobre funcionalidades, mails em que se avaliava quais as vantagens, mails em que se tentava perceber o pricing, mails em que se ajuizava sobre quem deveria ou não ter.
[Toda a gente queria ter. Era luxo de que qualquer cagão que se prezasse não podia prescindir. Se calhar ainda haverá algum exemplar cá em casa (mas nada de sorrisinhos maldosos, ok?)]
E, no entanto, uma coisa ora tão importante por que ruas agora anda? Da amargura...? Não faço ideia. Nunca mais ouvi falar. Caiu no esquecimento, acho.
O outro tema é mais picante: o roubo de uma carpete. Ontem foi com surpresa que o recordei. E hoje um outro tema se lhe juntou: o do roubo de mobílias do refeitório. Também me tinha esquecido.
Conto.
No Grupo ao qual estava ligada era habitual haver compra de empresas, venda de empresas, fusão de empresas, reestruturação de empresas e tudo isso a que as empresas têm direito. Claro que, pelo meio, para acomodar a dinâmica na gestão do portfolio, mudávamos de instalações. Obras, decorações... confusões. Uma das vezes foi coisa cabeluda mesmo. Duas empresas mudaram-se para o site onde já estava uma outra onde os que lá estavam, por terem espaço em barda, se tinham espalhado por vários edifícios. Por isso, não apenas a empresa que lá estava teve que se rearrumar para deixar edifícios livres como as que iam tiveram que se repensar para ver como se encaixar em espaços muito diferentes daqueles de onde vinham.
Ao todo, centenas de pessoas envolvidas. Acresce que ali sempre foi tudo em grande estilo. Para cada coisa, vinham os arquitectos. E os arquitectos conceberam transformações esculturais nuns casos, artísticas e criativas noutros. Uma coisa à maneira.
Pela segunda vez estive responsável pela operação que continha reorganização de serviços, obras, decorações, arrumações, gestão de orçamento e, pior, gestão de sensibilidades. Uns não queriam o gabinete que lhes estava destinado, outros tinham que ter a secretária (de duas pernas) ao lado, outros queriam conservar a anterior mobília, outros diziam que não cabiam ali todos, outros que não tinham luz natural em quantidade suficiente, outros que iam perder a privacidade. Enfim. De tudo um pouco. Pelo meio, aproveitei para provocar alguns-inhos que gostavam de se armar em campeões. Meses de stress para acomodar requisitos de toda a espécie. Escuso de dizer que adorei.
Pelo meio, coisas que, na altura, pareciam de decisão pacífica. Da grande e sóbria sala de reuniões veio não apenas a mobília como a gloriosa carpete de lã, feita à medida na Bélgica. Metros de comprido, metros de largo. As coisas vieram chegando à medida que podiam para não deixar tudo para os dias da grande mudança. A grande carpete, um pesado e gigante rolo, ficou envolvida em plástico, guardada num dos compartimentos de arquivo fechados à chave, ao comprido no corredor entre estantaria, num outro edifício. Sem problema. Não era tema.
Quando veio a mobília da sala grande de reuniões, puseram-se os quadros, vieram os jarrões, a televisão e demais aparelhagem e, claro, foram buscar a carpete para finalizar a decoração da sala gigante.
Passado um bocado, vieram ter comigo em transe. Esbaforidos, estonteados. A carpete tinha desaparecido. Bye bye carpete de lã belga. Eles mesmos diziam: um homem sozinho não conseguia pegar nela. Além disso estava num compartimento fechado à chave. Não queria acreditar. Aliás, ninguém queria acreditar.
Fiz questão de lá ir conferir. Não que acreditasse que eles podiam ter cegado. Se diziam que não estava é porque não estava. Mas não conseguia perceber como desaparecia uma carpete tão enorme. Lá fui escoltada por um bando de incrédulos. A sala onde supostamente estava era uma sala grande no fundo de um corredor comprido. Garantiam-me que só a responsável por aquele arquivo e a Segurança é que tinham a chave. Perguntei se não faziam limpeza. Sim. O pessoal da Segurança abria algumas salas, elas limpavam, ele ia fechar. O responsável pela Segurança era um dos que estavam na escolta. Não via como tinha acontecido. Todos diziam que tinham que ter sido dois homens. Inspeccionavam o edifício. Por onde tinham saído? Tinham que ter posto uma uma carrinha grande ao pé da porta e saído do parque. Falou-se com os da portaria. Ninguém tinha visto nada estranho.
Mandei um mail para que instaurassem um inquérito. O mail que vi era o mail em que um dos RH me informava quem é que tinha sido instruído para tomar conta da ocorrência e tentar apurar os factos.
Pois bem. Hoje vi outro mail, um mail em que o responsável pela Segurança informava que o processo do roubo do refeitório já estava na Judiciária.
Lembrei-me, então. Uma macacada das antigas, temporalmente adjacente ao rouba da carpete.
Na altura havia um refeitório grande, grande demais, antiquado, desconfortável, parecia uma daquelas cantinas operárias do tempo da outra senhora. Esse edifício foi espoliado e passou a ser o destino de uma das empresas que vinha. E o refeitório foi feito de novo num outro espaço. Fizemos ali um refeitório moderno, com espaço de lazer, com sofás, televisão, grandes vasos, e, na zona de refeições, mobiliário confortável e elegante. Claro que todo o mobiliário foi desenhado a feito por um gabinete especializado em ergonomia e optimização de espaços. Tudo construído à feição e por desenho para encaixar ali como uma luva.
Só que... quando as obras ficaram concluídas e se partiu para os finalmentes... faltavam mesas, diversas cadeiras e uns bengaleiros artísticos. Não queríamos acreditar. Tinham chegado de fábrica, acondicionados e tinham ficado guardados a sete chaves num armazém ao pé do refeitório. Mais uma vez ficámos estupefactos. Tinham que ser vários homens, tinham que ter usado carrinhas, tinham que ter dado nas vistas ao sair na portaria.
E, no entanto, nada... Não havia pistas, não havia suspeitas.
Resolvemos que, mais do que um tema disciplinar, estávamos perante um caso de polícia. Apresentámos queixa. Houve buscas, muita gente foi ouvida. Judiciária em acção. Ninguém sabia de nada, ninguém tinha visto nada.
Até que, um dia, recebi uma denúncia anónima. Perguntavam se alguém sabia o que é que o Fernandinho andava sempre a fazer por lá, fora de horas, ao fim de semana.
Claro que não sabia quem era o Fernandinho. Partilhei a suspeita. Disseram-me quem era o Fernandinho. Afinal sabia quem era. Toda a gente o conhecia. E toda a gente foi categórica. Nem pensar. É uma criança em ponto grande. Um pobre diabo. Nem pensar.
Ajudava os jardineiros, ajudava nas pequenas mudanças, ajudava em pequenos arranjos, ajudava nos arquivos, pequenos trabalhos de estafeta. Sempre prestável. Quando alguém precisava de qualquer coisa chamava-se o Fernandinho. Um pouco apatetado, desengonçado, desconjuntado, não sei se coxeava um pouco, mal se percebia o que dizia. Mas corpulento, cheio de força. Diziam que vivia com os pais. Que inclusivamente os pais às vezes iam lá ter com ele. Teria uns trinta e tal anos, talvez. Era tratado como um caso social.
Chamaram-no. Apertaram com ele. Ficou nervoso, chorou por desconfiarem dele. Não sabia de nada, não tinha visto nada. E, no entanto, cirandando sempre por lá, alguma coisa devia ter visto. Apertaram mais. Que não, que não, todo choroso, não, não, que acreditassem nele, que era sério.
Resolvemos não falar disto à polícia. Tivemos pena. Não podia ter sido ele e o mais certo é que, mesmo que tivesse havido coisa, ele não tivesse tido a malícia de desconfiar.
Até que um belo dia, mal cheguei, quase me puxaram pelo braço, que fosse com eles, queriam que visse uma coisa.
Quando cheguei à entrada do edifício onde tinha estado guardada a carpete não me deixaram entrar. 'Não vê nada?'. Olhei para a porta, olhei à volta. Nada. Apontaram para a escada. Na altura havia caixotes, cartões, plásticos um pouco por todo o lado. Disseram: 'Veja bem'. Aproximei-me e olhei para onde estavam a apontar. A carpete debaixo da escada. Meio dobrada, meio disfarçada sob cartões... mas de maneira a ser vista. Juraram: 'Ontem não estava cá.'.
'Ná...'. Todos a olharem uns para os outros. 'Ná...'.
Um, meio bruto, disse: 'Vou ter uma conversa com o Fernandinho'. 'Tem que saber de alguma coisa', disseram todos.
E aí o Fernandinho desmanchou-se, chorou baba e ranho, pediu desculpa. Confessou.
E contou que as mobílias foram para o grupo desportivo lá do bairro dele e que os pais tinham ajudado, que ele lhes tinha dito que eram coisas que tinham sobrado. E que a carpete também era para lá. Perguntaram-lhe se era para vender. Chorou, chorou. Não se percebeu se era para vender ou mesmo para o grupo desportivo. Mas disse que queria devolver tudo, só não tinha devolvido porque sabia que seria apanhado, só tinha conseguido trazer a carpete.
Na portaria juraram a pés juntos que nunca tinham desconfiado dele pois ele andava sempre por lá, até parecia que vivia lá.
Reunimo-nos para decidirmos o que fazer. Quantas mais coisas já ele teria furtado antes? Como podíamos voltar a confiar nele?
E, no entanto, resolvemos não fazer nada. Pensámos que se o despedíssemos, seria a desgraça dele. Teríamos que ter cuidado, não o deixar andar por lá, atribuir-lhe algumas funções em que estivesse mais controlado. Mas lá continuou. Envergonhado, coitado. Mas tratado com respeito.
Passados uns anos houve outra vez grandes mudanças. A empresa à qual ele pertencia foi vendida. Não faço ideia o que será feito dele.
Eu também me mudei. E esses tempos parecem-me longínquos, quase irreais.
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Fotografias respectivamente de Torie Hilley, Saverio Gatto, Jagdeep Rajput, Miroslav Srb, Andy Evans, Emmanuel Do Linh San, Jennifer Hadley -- todos finalistas do The 2022 Comedy Wildlife Photography Awards
Fui conhecer a peixaria em que, supostamente, o peixe vem do mar, comprado na lota. Contudo, hesitei bastante pois o que lá vi daria para grelhar ou para uma caldeirada e eu estava com ideia era num belo peixinho cozido. Quando estava a vir-me embora, a peixeira falou-me nuns chocos muito frescos. Abriu o frigorífico e mostrou-mos. Vi-os e deixei-me tentar pois pareceram-me mesmo a escorrer frescura.
Fi-los cozidos com tinta. À parte, cozi batata normal, batata doce, feijão verde e uma cebola. Cozi os chocos sem colocar sal. Cozeram rapidamente. Depois de cozidos, retirei o pequeno saco da tinta, os olhos e os dentes. De resto, aproveitei tudo. Cortei-os, temperei com cebola crua, salsa e azeite. Estavam óptimos. Mérito deles pois sabiam a mar. Uma pessoa depois fica com a língua preta... mas paciência. Depois vai ao sítio.
Fiz duas máquinas de roupa e algumas arrumações. O meu marido esteve outdoor: limpou a caruma e as folhas secas.
A caminhada foi ampla. Tínhamos tempo. A temperatura estava baixa mas, como havia sol, o frio ficava disfarçado de agradável.
Encontrámos várias pessoas. Tenho ideia que, desta vez, de bicicleta apenas um casal. Os outros todos a caminhar.
A pessoa mais curiosa foi um rapaz muito alto e magro que vinha ao telefone, falando numa língua que não reconheci. Creio que seria nórdico. Trazia ao colo, numa daquelas cadeirinhas, um bebé que ia virado para ele, quase espalmado. Só se viam as perninhas e o gorro com dois pompons. O meu marido achou que devia ser um boneco, por ser tão pequeno e ir tão espalmado. Mas não faria sentido um homem daquele tamanho andar a passear um boneco. Quando passou por nós sorriu e disse bom dia. Em português mas com um sotaque curioso que fez soar o bom dia quase imperceptível e divertido.
É muito frequente cruzarmo-nos com pessoas que estão a caminhar ou a cuidar dos seus jardins e que percebemos que são estrangeiras e que, agradavelmente, nos cumprimentam na nossa língua.
Contei ao meu marido que ontem, quando vinha a chegar a casa me tinha cruzado na rotunda lá mais ao fundo com aquela mulher jovem que costuma caminhar apressadamente, de calções e top de alças e com um bebé no carrinho. Com o frio que estava ela ia, na mesma, de calções curtinhos. Não com o top de alças (por vezes praticamente apenas um soutien), mas uma tshirt de manga curta. Não sei como aguenta o frio assim vestida. O meu marido diz que se calhar no país dela as temperaturas são muito mais baixas.
Numa casa muito bonita, espectacular mesmo, uma obra de arquitectura de se lhe tirar o chapéu, onde antes já vi um homem a apanhar sol na sua espreguiçadeira mas nunca uma mulher, hoje vi-o a ele com uma mulher. Estavam curvados a plantar flores junto a um dos lados. Estavam encostados, numa cumplicidade partilhada, ambos dispondo pequenos pés de flor.
Numa outra rua, passaram por nós duas mulheres a caminhar a muito bom ritmo. Não eram especialmente jovens mas estavam vestidas de uma maneira jovem e tinham o cabelo apanhado de uma forma displicente e também juvenil. Conversavam de forma muito viva, como se falassem de alguma coisa que as indignava. Falavam em francês. Tão focadas iam no tema que nem nos viram.
Cheirava a lareira junto a uma das casas e gostei imenso de sentir esse cheiro. Fiquei mesmo com vontade de acender a nossa.
Quase todas as casas têm pelo menos um cão. Há cães de todas as raças. Hoje vi um belíssimo, com um porte imponente. Não percebo nada de raças. O meu marido disse que lhe parecia um pastor belga.
Passou por nós, uma rapariga com um grande pastor alemão. A rapariga quase voava, tal a força com que ele a puxava. Quando regressávamos a casa, voltámos a cruzar-nos com ela. Ia na mesma, sem conseguir impor a sua vontade, simplesmente a voar atrás dele.
O nosso ursinho ficou no jardim. Quando puder sair, virá connosco.
Há bocado fez uma coisa que só vista. Aliás, ao fim do dia voltou a ficar com as pilhas todas e as rotações a mil. Fez trinta por uma linha.
Antes de o pormos para dormir, o meu marido leva-o à rua. Por vezes, vai e vem com sono. Mas ultimamente esperta e volta a ser o fim da picada para conseguirmos que fique sossegado e calado. Vira e revira a sua caminha, tira a mantinha, tira o peluche que a minha filha trouxe. Aparece tudo virado do avesso no meio da cozinha. Ouvimos aquele estrafego à mistura com os seus latidos. Hoje estava de mais, ouvia-o raspar e raspar.
Acho que já o contei: da cozinha para o corredor há uma porta mas para a sala não. Então fizemos uma barreira com uma mesa de cabeceira virada com as costas para a cozinha e um aquecedor (porque a mesa de cabeceira é mais estreita que a passagem) e, para ele não ter força para empurrar o aquecedor, atrás põe-se o saco de 15 kg de ração. Quando o saco estiver menos cheio temos que encomendar outro, senão não resulta.
Foi o que aconteceu hoje. O meu marido foi-se deitar e eu vim para a sala. E ouvia-o a fazer aquela barulheira toda. Mas o truque é não irmos lá nem dizermos nada porque ele acaba por se cansar e adormecer. E estava eu aqui a começar a escrever isto quando deixei de o ouvir. Pensei: finalmente cansou-se. Eis senão quando senti uns passinhos e... me aparece ele aqui, todo animado, a dar ao rabinho. Até me assustei. O saco da ração não devia estar a fazer suficiente pressão no aquecedor que ele tanto o empurrou que conseguiu abrir uma pequena abertura entre o aquecedor e a mesa de cabeceira. Não me perguntem como é que ele conseguiu caber por tão estreita abertura porque não consigo perceber, dir-se-ia impossível.
E mais outra: agora tenho que chamar o meu marido para me ajudar a raspar-me da cozinha pois a irrequieta criatura, mal me vê a dirigir-me para a porta, até salta para se empoleirar em mim e, mal abro a porta, esgueira-se para o corredor. E o pior é que depois não se dá apanhado... O meu marido diz que não posso deixar que ele faça o que quer. Mas a verdade é que não consigo impedi-lo. O meu marido dá-lhe com o pé e ele quase voa. Não é um pontapé, é um empurrão com o pé. Mas claro que não consigo fazer isso, Recearia magoá-lo. Não há explicação para as coisas que ele faz, um pequeno terrorista. Mas uma graça, uma inteligência. Só que teimoso, teimoso, teimoso.
Tomara que tenha as vacinas todas para ver se se cansa com as caminhadas. O que vale é que depois dorme até de manhã.
Enfim. Nada mais tenho a dizer sobre este sábado tranquilo. E desculpem ter tomado o vosso tempo com coisas tão de nada.
Perguntaram às meninas como é que tinha sido. Tinham-se preparado para a velhice? Quem perguntou foi um estudante de medicina, certamente um jovem. Ouvi a pergunta e pensei na minha mãe que, aos oitenta e sete, fala das velhas como se estivessem numa fase da vida da qual ela ainda está longe. E, na família, acho que também ninguém pensa nela como sendo velha. Talvez os meninos, se indagados, ficassem na dúvida e dissessem que se calhar já é um bocadinho velha, mas mesmo só um bocadinho. Velhas são as mulheres acabadas, desalentadas, aquelas mulheres que parece já carregarem a morte às costas. Mulheres ou homens, bem entendido.
Ainda hoje. Fomos buscá-la de manhã. Tínhamos muita coisa para fazer mas nada que ela não acompanhasse: fomos ao Leroy, depois ao supermercado, depois a um horto. Só depois viemos cá para casa. Enquanto eu fazia o almoço, já ela se atirava a um cortinado para lhe subir a bainha.
Por causa da covid, essa peçonhenta malapata que se arrimou a todos os lugares de todo o mundo, almoçámos debaixo do alpendre. Como o tempo esteve bom, esteve-se bem. Até adiantei o toldo que o sol estava de feição e não apenas encadeava como aquecia para além da conta.
Logo de seguida, começou o pessoal a chegar. Todos sempre na rua, todos de máscara. E, quando foi o lanche, a mesa grande toda aberta e uns sentados, outros levantados, o pessoal tirou a máscara mas, tirando esses momentos, tudo mascarado. Não se pode facilitar agora que a miudagem voltou à escola. E, para adoçar o lanche, a minha mãe trouxe bolo de cenoura revestido a chocolate que fez no sábado às noite. E trouxe caixas de gamboada para toda a gente -- e que boa está, bela, lustrosa, gulosa, boa, boa. É como marmelada mas melhor. Feita com as minhas bem nutridas gamboas. Comi um pouco de pão de abóbora e nozes com requeijão e um pouco de gamboada -- e é acima de muito bom. (Das calorias a gente fala depois, quando estiver de mal com a vida. Agora é mesmo só para falar do bem que sabe).
E, antes e depois do lanche, a minha jovem mãe já estava a fazer as bainhas num outro cortinado. Por mais que eu lhe dissesse que não havia qualquer urgência, que, quando trouxer a máquina de costura, logo arranja, disse que ia já adiantando e que, depois, logo reforça. Não houve como dissuadi-la. Sente-se bem estando ocupada. E, senhores, como a percebo.
A seguir fomos todos dar um passeio pelas redondezas. Uns de bicicleta, um valentão a correr, outros a pé. De vez em quando encontrávamo-nos e os atletas abrandavam, para retomar o fôlego. E a minha mãe, na maior, a passear, obviamente a pé, mas a acompanhar o passo da malta mais jovem. E sempre na boa, na conversa, jovial.
De manhã, no horto, escolheu uma flor para pôr no vaso debaixo da escada que dá para o jardim, ao lado do vaso do hibisco. E, quando viu um vasinho com uma planta com umas folhas radiosamente coloridas e me disse 'olha, as tuas avós é que tinham sempre destas flores', resolvi logo trazer. Perguntei: 'Mas é de vaso ou de chão?' e ela disse: 'elas tinham no chão, podes pôr no canteiro das rosas'. E assim será.
Do supermercado, também trouxe uma broa de milho que diz que um entendido em padaria lhe disse que aquela era a melhor que já tinha comido. Portanto, agora que à noite a fomos levar -- como já tinha um compromisso para esta segunda-feira, não deu para dormir cá -- levou a broa de milho, o vaso com as florzinhas amarelas, e mais um saco de gamboas para ela, para o meu tio e para distribuir pelas amigas, e mais um ramo de louro e, ainda, hortelã porque diz que gosta de perfumar a sopa com hortelã. E descobriu que na horta também há lúcia-lima, erva-cidreira, erva-príncipe, salsa e hortelã-pimenta.
Primeiro foi a mudança, depois as arrumações, sempre tudo à pressão, apenas duas semanas de férias, tudo sempre sem tempo para assentar, e logo depois o recomeço do trabalho, o dia inteiro a trabalhar. Portanto, ainda não houve tempo para andarmos a investigar tudo o que há na horta. Também não somos entendidos, não estamos despertos para o reconhecimento das espécies.
De ervas de cheiro e chás ainda só tinha identificado a hortelã. Fiquei tão, tão, contente por saber que há lá mais. Ao passarmos por elas pensávamos que eram ervas vulgares. A minha mãe, não, a minha mãe é entendida. E eu já estou desejando ir lá apanhar umas folhinhas para fazer perfumadas infusões
Quando se foram embora, os meus filhos levaram romãs. Figos da índia, apesar de serem óptimos, ninguém se afoitou a levar, aqueles picos são mesmo diabólicos. Viram na internet que, se metidos em água a ferver, os picos caem e, na realidade, ao experimentarem, verificaram que os picos caíram quase todos. Mas não todos, e é coisa em que não dá para arriscar. Aqueles picos são tramados. E os figos, fiquei também agora a saber, são danados de calóricos, mais ainda que os figos normais. Não fazia ideia. Gulosa como sou, tenho andado a comê-los como gente grande.
Os meninos, claro, numa alegria, a jogarem às escondidas, a rirem, a perseguirem-se. Felizes por estarem juntos. Falam muito alto, zaragateiam, brincam, correm, andam de balouço, fazem toda a festa.
E nós com eles.
Mas, bolas, já me desviei: a questão do post era outra, era a idade. Como é que uma pessoa se prepara para ser velha?
Mas alguém se prepara para a velhice...? As meninas do vídeo abaixo dizem que não, claro. E se eu perguntar à minha mãe responderá o mesmo. Tal como eu. Tal como os meus filhos. Tal como os meus netos. A gente vai vivendo, um dia a seguir ao outro, todos os dias uma coisa nova, todos os dias a recomeçar. Não precisa de ser nada de especial. Pode ser um pensamento, uma coisa que se lê, alguém que se viu na rua, uma página de um livro, um programa na televisão, um sorriso ou uma palavra. Todos os dias são novos dias. Até que um dia se dá por ela e se percebe que já se viveram muitos dias. Nem percebemos como. E percebemos também que não sabemos se teremos outro tanto para viver.
O meu marido, nestas conversas, que não alimenta nem lhe interessam, tende a ser fatalista. Fatalista digo eu. Na volta, simplesmente realista. Eu digo muitas vezes que sei lá se não vou viver até para além dos cento e vinte anos. Toda a gente já farta, tudo a rogar pragas, 'estupor da velha que nunca mais desanda' e eu, na maior, fresca e fofa, feliz da vida, cheia de ideias, toda entusiasmada com tudo, como se estivesse a conhecer o mundo pela primeira vez. Claro que, se digo coisas destas, o meu marido nem diz nada. Já está por tudo. Mas é assim que penso, que a vida é uma coisa maravilhosa e que, assim tenha saúde para o festejar, levarei a vida como um deslumbramento inaugural, cada dia uma porta aberta para o dia seguinte. Até um dia me surpreender com algo nunca visto ou sentido e, na maior tranquilidade, mergulhar num sereno mar de luz.
Mas, enfim, não vos maço mais. Estou vidrada nas Avós da Razão e, portanto, é com elas que termino o o post e o dia. Ouçamos o que elas dizem, vejamos como estão tão longe de ser velhas e acabadas, partilhemos o seu gosto de viver.
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August Macke está aqui apenas porque sim tal como a Natalie Merchant também.
Gosto deles e isso chega.
Tal como gosto de todos os meus Leitores mas hoje, em especial, dos que já não se pode considerar que sejam uns teenagers mas que estão longe de ser velhos.
Passei o sábado inteiro a desencaixar e A arrumar. Só nós dois. Há trabalhos que não podem ser delegados. Só nós -- e, em alguns casos, eu -- sabemos onde é para pôr isto e aquilo.
Almoçámos à hora do lanche e jantámos à hora da ceia. A comida foi sempre a mesma: borrego assado no forno com batatinhas que, em boa hora, tinha cozinhado na véspera de manhã e que veio para cá ainda a ferver, o tabuleiro embrulhado em papel de alumínio e depois numa toalha de praia, dentro de uma sacalhão. Já seria perto da meia noite quando me sentei para descansar um pouco. Mas, mal aterrei, aqui neste sofá, o mesmo em que antes me sentava mas agora numa saleta diferente, adormeci. O meu marido foi para a cama, convencido que o meu sono seria de uns minutos, mas acabei por acordar só depois das duas. Incapaz do que quer que fosse a não ser procurar o caminho para o quarto, acabei por nem conseguir vir aqui descansar a cabeça, escrever qualquer coisa. A minha mãe diz que eu sou de exageros, que quero fazer tudo em pouco tempo. O meu marido há pouco disse-me que eu imprimo um tal ritmo ao que faço que, às tantas, se não descanso, fico esgotada. Ele próprio anda estafado. Talvez tenham razão. Mas a verdade é que me apetece estar descansada sem olhar à volta e ver mil coisas para fazer. A mim o que mais me cansa é ver coisas para fazer (ou, aliás, corrijo: talvez ainda pior seja não ter nada para fazer, razão pela qual, quando não tenho o que fazer, invento e, às tantas, já estou, de novo, a deitar por fora; enfim...).
Este domingo acordei, bem dormida, já eram quase dez da manhã. Abri os estores do quarto, da sala. Não dei pelo marido. Circulei pela casa à sua procura. Fui ao jardim chamar por ele. Nada. Liguei-lhe: tinha ido à cidade buscar coisas à casa antiga. Temos que esvaziá-la mas falta-nos tempo. Como madruga, resolveu ir buscar mais um carregamento. Entretanto, olhei para o lado e vi as janelas da outra casa com as portadas abertas. Fui à pressa vestir-me. O meu marido está farto de me avisar que uma coisa é morar num apartamento, no último piso, sem vizinhos em frente ou no campo em que, não tendo nós lá outras pessoas, de vivalma só os passarinhos, lagartixas, gatos e etc, e outra, bem diferente, é morar numa casa com vizinhos dos lados ou em frente. Há jardim de permeio mas nada que não se veja. Aliás, no outro dia, creio que talvez na véspera da mudança, quando a casa estava a ser pintada e o pessoal e o pessoalzinho se limitavam ao jardim, estava eu de calçaozito e túnica, olho para a casa do lado e vejo uma senhora a olhar para mim. Quando viu que eu a vi, fez-me um aceno e eu, muito surpreendida, retribuí. A minha filha ficou muito admirada e, sabendo-me míope, duvidou que a senhora me tivesse mesmo acenado. Mas eu acho que sim, juraria que até sorriu. O meu marido também viu a senhora, quando vinha a chegar. Presumo que seja a mãe da dona da casa e que, enquanto a filha trabalha, vem tomar conta dos netos. O meu marido a única observação que teve a fazer-me foi, outra vez: 'tens que ter cuidado com a forma como te vestes'. Se calhar, tenho.
Ontem, quando estávamos a jantar, eu estava, como quase sempre que ando atarefada, apenas de cuecas, aliás com as únicas que tinham aparecido, ou seja, umas que ele, ao prudentemente preparar um saco com uma muda de roupa, encontrou antes de sair de casa. Umas um bocado fora de contexto. É que eu já tinha guardado as cuecas que entendi serem de trazer. Do resto, das que ficaram para trás, logo hei-de fazer uma escolha. Só que não consegui descobrir o saco com as que eu trouxe e, portanto, dei graças por ele ter tido a brilhante ideia de me trazer aquelas. Mas, dizia eu, estava naquela bela figura, a jantar a lindas horas, as luzes acesas e os estores levantados. E nisto ocorreu-me que se os vizinhos fossem à janela teriam uma insólita visão. Claro que me levantei de súbito para baixar os estores.
Enfim, todos uns novos hábitos que tenho que adquirir.
Também tenho a dizer que a estante grande que era para ter chegado antes da mudança se atrasou, supostamente chegará com uma semana de atraso. Portanto, parte das caixas de livros não pode ser ainda arrumada: as dos lusófonos não portugueses e as de poesia.
Os portugueses, ficção, estão quase. Fiquei surpreendida com tantos livros que tenho de alguns autores. De alguns não estranho, já mais do que sabia: Eça, Camilo, Aquilino, Agustina, Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis, Fernando Namora, Saramago, Miguel Torga, por exemplo. Sem espanto. Outros gostei de rever: Abelaira, por exemplo. Mas Pedro Paixão - tantos livros. É tão controverso, ele. Mas a verdade é incontornável: é autor com quem simpatizo, é pessoa de quem gosto. Pode ser meio louco (ou doido varrido, sei lá [deve ser malapata do nome]) mas a verdade é esta: simpatizo com ele. Ao ver a fiada de Pedros Paixão espantei-me. É que uma coisa é a gente ir comprando e ir encavalitando e outra é tirá-los, de seguida, da caixa. Aí a gente vê a extensão do apreço.
Tenho também a dizer que dos 'estrangeiros' a coisa ainda deve ir nos vinte por cento. Uma dificuldade... não há explicação. Caixas empilhadas e encostadas umas às outras. Para descobrir onde anda a caixa que se percebe que falta tem que se andar por cima da pilha, tem que se arrastar caixas ou pegar nelas em peso. Naquelas que foi o meu filho que embalou, pediu à filha para escrever o que se fez para todas, o nome do primeiro e último autor da caixa. Só que a minha menina mais linda escreveu isso, numa bela letrinha, mas em ponto pequeno e na lateral da caixa. Com elas coladas umas às outras, em pilha, tive que me armar em hércules para conseguir levantar e torcer as caixas para conseguir ver que autores nelas se escondem. E as de poesia foram lá parar, não sei como, só mesmo para atrapalhar. Mas para verem a complicação: já ia no Erich Maria Remarque, no Ernest Hemingway, no Ernst Jünger e por aí adiante quando dei com uma caixa que tinha o David Lodge. Lá tive que mudar uma prateleira inteira para encaixar os D's que faltavam antes dos E's. Passado um bocado, quando ia retomar, nova caixa: Doris Lessing e por aí vai. Fiquei parva com a quantidade de Ds que por aí têm andado a escrever livros.
Enquanto eu andava nisto, andava o meu marido a prender as estantes umas às outras e à parede e a calçá-las. São grandes e vão ficar pesadas, assim é mais seguro.
Estou é ainda em dúvida com as estantes para os livros de arquitectura, que são muitos, ou de arte. A ideia era colocá-las nas estantes que cá estavam, na parte esconsa desta sala onde estão os estrangeiros. Mas só agora vi que parece que as prateleiras são baixas e fundas. Não sei, tenho que experimentar. Hoje, de cada vez que ia tentar avaliar, dava cabeçadas no tecto. Ainda não me habituei a andar numa zona inclinada. O meu marido, então, é num candeeiro que eles cá deixaram, um muito bonito. Não tinham onde pô-lo, perguntaram se eu me importava. Claro que não, fica ali tão bem. Como não sou extraordinariamente alta, é problema que não tenho. Mas já se percebeu que vai ter que ser levantado senão ele e o meu filho vão andar sempre naquilo, sempre à cabeçada.
No outro dia, o Leitor Amofinado estranhava a opção por uma casa construída por outras pessoas. Percebo-o. Mas nunca me senti atraída por uma casa feita de propósito para nós. Apenas uma vez esteve para acontecer, projecto praticamente prata da casa, mas, como contei, não aconteceu. E não me importei, apesar da casa me parecer um espanto. Parece que não me atraem casas novas. Tal como em tudo, sei que não vou descobrir a pólvora, que será estultíce da minha parte pretender que farei melhor que os outros. Porque é que a casa que eu e alguém a meu lado engendrássemos haveria de ser melhor do que outra casa que alguém pensou antes de mim? Acho que há tanta, tanta casa, que me parece absurdo estar a consumir mais recursos a construir uma casa nova. E não é só isso: é que uma casa usada incorpora boas ideias alheias, coisas que outros pensaram e que eu, humildemente, vou poder aproveitar.
Temos é que saber encontrar a casa que está à nossa espera. É que a escolha de uma casa, como referi, tem que ser como com um qualquer outro amor. A gente tem que gostar logo, tem que gostar de tudo, tem que sentir orgulho nela e em tudo o que a rodeia, tem que querer estar sempre lá, juntinhos, tem que sentir que aquele é o ninho que nos vai acolher forever. Com esta casa foi assim: a minha nora enviou o link, todos pensámos que valia a pena ver, a minha filha disse que achava que aquela, sim, era especial. Vimos, gostámos, eu gostei de tudo, tudo o que via me parecia a meu gosto, nem mais nem menos. O meu marido e o meu filho, com o seu olhar técnico e avaliador, aprovaram, gostaram. Quando saímos da visita, tomámos, de imediato, a decisão: era aquela. Esta. Resolvemos fazer uma oferta em baixa, um bom bocado em baixa. Passado pouco tempo veio a resposta: tinham aceitado. E depois foi o tempo necessário para se tratar de tudo. E, agora que aqui estou, depois das pinturas, depois de feita a parte principal da mudança, o que posso dizer é que adoro andar a surpreender-me com as boas ideias que os anteriores donos tiveram.
As minhas coisas encaixam aqui às mil maravilhas. Claro que, para que a mudança fosse ainda mais radical, eu ter-me-ia desfeito de móveis e demais tralha e compraria móveis novos, brancos, neutros, simples. Mas, lá está, isso seria daqueles esbanjamentos para os quais não me sinto atraída. Assim, mantive (quase) tudo mas tudo disposto de uma maneira totalmente diferente. De repente, tudo ganhou novo sentido, tudo bate certo, parece um puzzle cujas peças se juntam de maneira virtuosa, parece que, por um qualquer misterioso desígnio, tudo o que adquiri antes se destinasse a poder vir para aqui. A alegria que isso me dá não sei explicar. Parece um renascimento, As coisas renascem e eu renasço com elas.
Claro que há ainda o jardim. Sim, bem sei: amor exigente, requerendo atenção e carinhos. Nestes dias ainda nem tive tempo de sair a desfrutá-lo. Mas, sim, é também uma belezura. Eu não o teria concebido melhor. Pelo contrário, há aqui aperfeiçoamento ao longo de anos. Enterneço-me pensando no carinho com que o conceberam e viram crescer. Logo em frente da porta da cozinha, há um pequeno canteiro onde está uma roseira. A ver se ela gosta de mim. E há um terraço que está coberto por uma buganvília em flor. E sobre o portão, há como que uma trepadeira com coberta de pequeníssimas rosas encarnadas.
Traz-me felicidade, isto.
E é verdade: nesta casa, vou ter um lugar onde escrever. Tomara ter tempo e que as palavras desçam e venham ao meu encontro.
E os meus filhos gostam muito da casa e os meninos, os meninos, então, adoram. Quiseram logo saber onde seria o seu quarto. E eu, vendo a alegria deles, senti que também, de imediato, reconheceram a casa como o lugar de família onde nos encontraremos, onde adorarão estar. Ainda não trouxe cá a minha mãe: ainda não há condições, muita confusão, desarrumação, muita falta de tempo. Mas, no fim de semana, cá a terei. Creio que também vai gostar. Quando viu as fotografias que estavam no site preocupou-se com o chão, diz que eu deveria ter-me informado com a dona anterior sobre o produto que usava para ter um chão tão bonito, receia que não vá eu usar um produto que o estrague. Coisas dela, gosta de se preocupar com problemas que podem acontecer. Nisso é o meu oposto. Também fez duas almofadas para pôr nas cadeiras lá de fora. Ainda não as vi mas vi o tecido. Devem ter ficado bem bonitas. Fico contente. Há sempre muito dela e do meu pai nos lugares que habito e esta casa não vai ser excepção. Aqui ao meu lado, está um pequeno móvel de madeira, com portinhas de vidro, que ele me fez. E é assim que gosto de viver: em casas com vida, rodeada de coisas que têm memórias minhas e dos meus e que, no seu silencioso íntimo, guardam memórias alheias, casas onde gosto que aqueles de quem gosto se sintam bem.
Não apenas continuo sem ver noticiários como a minha cabeça anda por outras paragens. Tempo de decisões, tempo de mudanças. Aquilo que vinha antevendo, talvez desejando, começa a aproximar-se. Mas, como geralmente acontece, nem tudo acontece como se espera e os imprevistos, volta e meia, convergem e tudo se junta e atropela deixando pouco tempo e pouca disponibilidade mental para processar tudo, para avaliar se há margem para algum recuo (ou se tal é desejável) ou se o melhor é não pensar e mergulhar de cabeça. Por norma, sou dada a atirar-me sem pensar duas vezes mas, neste caso, estou em crer que tenho que avaliar bem as decisões, tenho que acautelar algumas situações. Mas tudo a mudar ao mesmo tempo e tudo na sequência de meses de confinamento é uma verdadeira overdose.
Portanto, os dias correm rapidamente e, dentro deles, há vários turbilhões, alguns completamente independentes uns dos outros mas que, por coincidirem no tempo, se influenciam reciprocamente e me deixam exausta. Talvez por tudo isso e talvez por outras coisas ainda, anda a acontecer-me uma coisa nova em mim e da qual já aqui falei: dormir mal. Adormeço mal, acordo a meio da noite e não volto a adormecer rapidamente, acordo cedo, com sono e cansada, e passo o dia a pensar que seria bom se conseguisse dormir um pouco.
Ainda por cima, o dia esteve cinzento, ventoso, frio. Voltei a vestir um casaco. Os meninos também pouco saíram, estava mesmo mau tempo. A minha filha fez umas pulseiras muito bonitas e dá boas ideias. Do lado do meu filho chega-me também apoio, incentivando-me no sentido que eu andava a querer mas que agora, à beira de se concretizar, dada a proporção -- que se agigantou -- me traz apreensiva.
E, quando aqui chego, espreito as notícias e, pelo meio do mais do mesmo, vejo a parvoíce a ganhar terreno, a malta feita carneirada, rebanho de cabeçudos e palermas que berram porque o primeiro da fila berrou, Como sempre, há, depois, os do costume a vestir a asneirada de nobres causas e a insultarem os que não se revêem na carneirada.
Por exemplo, por eu estar a dizer isto, já sei que o mais certo é que me apareçam os comentários do costume com afirmações estúpidas, acusações ou sugestões alarves. Já no outro dia o disse e volto a dizer: só publico o que revele ter sido escrito por pessoa de bem. Comentários escritos por gente malcriada, embirrante ou estúpida vão rapidamente para o lixo.
Isto a propósito de agora ir tudo de arrastão, estátuas deitadas a baixo ou vandalizadas e, soube há pouco, até o E tudo o vento levou saíu da lista do HBO. Coisa mais parva.
Gente ou coisas que foram importantes no seu tempo, um tempo em que a consciência das coisas era outra, em grande parte gente que hoje já ninguém sabe bem quem foi, vê-se agora apeada do seu pedestal, atirada às águas, pintalgada, ofendida. Dizem que foram racistas, colonialistas, esclavagistas. Não sei, em parte dos casos não faço ideia nem tenho curiosidade em ir perceber. O que acho é apenas uma coisa: absurdo. Se vamos por aí, apagamos a história, apagamos a memória, transformamos o passado dos países em buracos negros. Gente que se monta a cavalo em ondas mediáticas, que vai para as ruas fazer justiça pelas próprias mãos, gente que concentra a sua energia não a construir um futuro inteligente mas a encarneirar e a vandalizar símbolos do passado é gente que é um atraso de vida. Não gosto de censores póstumos, ajustadores de contas póstumas, vingadores póstumos -- gente que desvia a atenção dos problemas presentes e que se esquece de ajudar a construir o futuro, concentrando esforços a desenterrar a memória de seres de que a história não guardou grande registo ou, pior, a deformar ideias ou a olhar para elas à luz dos tempos presentes. Não gosto nem tenho paciência.
E hoje nada mais tenho a acrescentar. Só se for que é curioso que Espanha tenha desistido de tentar encontrar o crocodilo do Nilo nas águas do Douro e que, às tantas, até já se admita que não é crocodilo, é lontra. Na volta ainda é apenas alguém que se deixou engordar durante o confinamento e que aproveitou para ir banhar-se no rio.
Também posso acrescentar que não consigo imaginar-me a, diariamente, voltar a perder horas no trânsito ou a ficar horas fechada em espaços sem janelas. Pode acontecer que, estupidamente, isso tenha que acontecer. Mas será com angústia e raiva que o viverei por constatar que se estará a desbaratar um capital de aprendizagem que deveria ter acontecido. O pior de tudo é a gente que passa pelas coisas incapaz de aprender as lições que a vida se encarrega de lhes enfiar pelos olhos adentro.
Natalie Merchant, de quem já estava com saudades, interpreta Ophelia
E não me perguntem porquê pois não saberia encontrar grandes explicações para a falta de relação que tudo isto tem entre si, nomeadamente, com a cereja em cima do bolo, o Defeat de Kahlil Gibran dito por Shane Morris
Tenho trabalhado muito. Ao fim de semana, trabalho pesado. Serrar, arrastar troncos. Durante a semana, dose pesada para além de sol a sol. Sem parar. Na sexta-feira cheguei a casa muito tarde. Adormeci de um sono pesado logo depois. Este sábado aqui, in heaven, dormi durante uma hora a seguir ao almoço. Depois foi de novo trabalho pesado, até à noite.
Entre muitas outras coisas, o meu marido abateu um pinheiro grande. Estava muito junto a outro e, face à legislação, achámos melhor não arriscar. Além do mais, apesar de alto, estava franzino. Presumo que o outro, agora livre de concorrência, se desenvolva mais. Resisti muito a esta decisão que, no íntimo, considero um pouco criminosa. Tenho muito respeito por árvores. Mais do que respeito, tenho veneração. Mas neste caso tento convencer-me que foi uma boa decisão.
Para quem não esteja bem a ver uma operação deste tipo, talvez não seja óbvio perceber o risco que comporta. Pelo tamanho, estava fora de questão cortá-lo directamente pela base. Ao cair destruiria muita coisa. Então, o meu marido atou uma corda de nylon bem forte à parte de cima, que ia ser cortada, e eu fui para bem longe segurar a corda. Encostou, então, a escada ao tronco e serrou o tronco. Não foi nada fácil porque cortou bem alto e não é fácil serrar um tronco grosso com o braço esticado ao alto. Entretanto, eu estava a puxar, com toda a força, para garantir que não caía para cima dele. Quando cortou completamente, empurrou e eu dei um puxão com toda a força e o grande tronco despenhou-se lá de cima, tombando com grande fragor na terra. Preparava-me eu para soltar a corda quando o ouvi gritar por ajuda: Rápido!, gritava ele. Olhei e só não desatei a rir porque não sabia como é que aquilo ia acabar. Com a força da queda do tronco, a escada tinha-se soltado e ele estava lá em cima abraçado à árvore e com um pé a prender a escada. Fui a correr mas, como estava muito longe e com arbustos pelo meio, ainda demorei um bocado. E ele, lá de cima: 'Rápido!. Quando cheguei ao pé, nem percebi como é que ele conseguiu segurar-se. Lá encostei a escada ao tronco e lá ele desceu. Depois cortou o grande tronco, que ainda teria uns três metros, pela base.
Há bocado, aqui no sofá, ainda nos rimos com a figura dele abraçado à árvore, lá em cima. Um Tarzan. Só tive pena de não ter fotografado. Quando ele estava a gritar 'rápido!' eu deveria ter tido: 'aguenta que eu vou buscar a máquina para captar o momento para a posteridade e, olha, quando eu apontar, diz o teu melhor cheeeeeseeee''. Mas, pronto, fui boazinha.
Enfim. Peripécias da vida no campo. Felizmente, até ver, sempre sem gravidade.
E a gente limpa e limpa e limpa as árvores e elas crescem, crescem, crescem, a aparecem rebentos por todo o lado. Não se dá conta. Que milagre é este é coisa que não se percebe. Como é que esta fina camada de terra pedregosa assente em rocha consegue alimentar todas estas árvores, arbustos, flores e musgos é fenómeno para o qual a minha mente não encontra explicação.
Ao anoitecer, enquanto arrastávamos o resultado das podas, enormes e infinitos ramos de cedros e de pinheiros e de aroeiras, ouvia-se o canto dos pássaros. É fantástico como gostam tanto de cantar ao cair da noite. Imagino que algumas drogas produzam um efeito semelhante ao que sinto em momentos assim, quando estou num contacto tão íntimo com a natureza, caminhando no crepúsculo, aspirando o ar limpo e perfumado: uma felicidade agradecida, uma paz imensa.
Felizmente o jantar foi o resto do almoço, não deu trabalho. A seguir ao jantar, fiquei, outra vez, cheia de sono. E o domingo vai outra vez ser um dia de trabalhos. E a semana, idem.
Felizmente aproxima-se uma semana que vai ter um feriado e, só de pensar nisso, já me parece que vai ser mais fácil de aguentar até lá.
Este domingo o meu marido levantar-se-á bem cedo como é seu costume e irá fazer o seu passeio matinal, certamente entre as penumbras e os orvalhos, verá cores e ouvirá sons que eu, a dormir, não saborearei. Depois dir-me-á que não sei o que perco. Sei, sei. Mas prefiro estar aqui, agora, a usar a noite para escrever e, portanto, quando ele madrugar, estarei eu a sonhar sonhos bons. Depois irá queimar todo aquele imenso amontoado que juntámos. E eu, quando me levantar, também tenho muitos trabalhos para fazer lá fora.
E cá dentro também. Tenho que varrer e limpar a casa, lavar as casas de banho, limpar a cozinha. Devia varrer lá fora mas não vou ter tempo, fica para outra vez.
E hoje não peguei no tapete de arraiolos e, quando peguei no Escritor Fracassado, apesar de estar a gostar bastante, ao fim de umas quantas páginas, estava a dormir. É o lado que me custa desta vida de trabalho que anda a deixar-me pouco tempo para o lazer.
Mas c'est la vie. E está bem assim.
[As fotografias foram feitas este sábado in heaven; e, lá em cima, é Natalie Merchant com Verdi Cries]
E, a propósito de 'sem gravidade ', tenho aqui um vídeo fantástico. Há algum tempo que mal vejo os mails. Não tenho podido. Mas há bocado estive a ver uma série deles, alguns com mais de uma ou duas semanas. Os meus Leitores a quem estou a dever respostas não se zanguem: não é falta de interesse. Acreditem que é falta de tempo mesmo. Ainda não respondi mas já os li a todos. Um continha este vídeo que agora partilho convosco. Algumas imagens são de Portugal. Vejam porque é mesmo extraordinário. E eu, que vou daqui para a cama, só espero sonhar que sou eu que ali vou.
E muito obrigada ao Leitor que mo enviou pela permanente simpatia e generosidade.
Gravity is Overrated | Weightless
[Sem gravidade -- só a alegria de voar sobre a beleza dos lugares]
Bem. Vou já avisando: não sei se é antídoto se é intensificador. Mas já lá vou. Antes, uns ligeiros preliminares.
Quando tenho reuniões em dose cavalar ou maçadas ou dias longos demais, chego aqui ao sofá e ponho-me a ver coisas para rir. Aliás, para ser mais precisa, não foi de imediato: antes ainda tentei informar-me; mas as notícias são de tal calibre que votei vencida. Desisti e passei para o que me faz rir.
Tenho isto de me rir. Ainda hoje estava numa reunião a ouvir uma criatura com quem, decididamente, não vou à bola. Estava a dizer coisas que deveriam arreliar-me e, que, há tempos atrás, fariam com que me saltasse fortemente a tampa. Pois hoje foi o oposto: dei comigo a gozar o pratinho, a rir de gosto. O sujeito até se enervou: 'Não ria!'. Mas não pude evitar. Aquilo pareceu-me quase hilariante. E agora, enquanto escrevo, ainda me dá vontade de rir: a cara dele, desconcertado, quase a atirar um olho para cada lado.
Hoje foi de tudo. Até um songamonga parece que tirou o dia para me afeliar: entrou-me no gabinete com uma conversa de coitado, a apelar ao sentimentalismo, todo vítima. E armado em parvo, com reivindicações de não querer fazer isto e aquilo à conta daquela coitadice. Noutras alturas, tentaria convencê-lo, acharia que era minha obrigação dar-lhe a volta. Agora desceu em mim aquele pragmatismo que já veio foi tarde. Não quer fazer, não faça. E logo instruí os outros que não forcem, que se ele não quiser, deixem. Os outros perplexos. E eu a pensar: deve estar a querer dinheiro para se pôr a milhas e não vou ser eu a estragar-lhe os planos.
Mas depois não tive com quem comentar. Apetecia-me imitá-lo, imitar-me a mim, desconstruir a cena. Apetecia-me ouvir palpites, gozações, talvez até conselhos. E nada: não tive palco nem espectadores. Uma frustração.
Faltam-me parceiros para a risota, é isso. Falta de gente divertida. Há agora uma excessiva concentração de gente preocupada com a vida, revoltada com o mundo, injustiçada face a incertos, focada nos seus próprios objectivos e nas suas próprias razões. Gente auto-centrada é gente chata. Só sabem falar de trabalho, falar a sério e deles próprios. Um desinteresse. Não há espaço para oxigénio ou para flores. muito menos para gargalhadas francas.
O que sinto falta dos tempos em que a minha secretária me vinha contar como tinha o seu domingo a bordo do barcalhão do namorado de uma amiga, por acaso a secretária de um colega meu, justamente o dito namorado. Dizia-me ela: 'Tudo nu. Nem queira saber. Não fazia ideia. Ela convidou-me, insistiu. Fui. Mas não me avisou. Tive que me despir também. Não me deu jeito nenhum. Não imagina, o senhor director a falar comigo ali de pila ao léu. Eu a tratá-lo por Sô Tôr e ele ali, felpudo, tomates e pila à vista. Passei o dia inteiro a esforçar-me para não me apanharem a olhar para as pilas. Nunca mais vou. Eu com as mamas meio penduradas e a ver que alguém ainda vinha oferecer-se para as levantar. Não imagina o que foi aquilo. Champanhe e marisco, champanhe e fruta. Já tudo ria, minha gente, tudo jogado pelos cantos, na maior pouca vergonha' -- e eu, curiosa, a fazer perguntas e ela, uma pândega, a contar os pormenores e, às tantas, as duas já perdidas de riso, eu a chorar de tanto rir com o picante e o amalucado das situações que ela, uma verdadeira comediante, relatava.
Ou os que achavam que um outro era um leva e traz e, à socapa, o tratavam por concièrge. À frente dele, por ser todo poderoso, todos a fingirem que o respeitavam e, por trás, 'viste a concièrge?'. E depois ele, quando estava só comigo: 'São uns gozões... mas a ver se se metem comigo... ah metem metem... Respeitinho é bom e eu gosto. Eles sabem com quem é que podem meter, está bem, está...'. E eu a conter o riso. Por fim já era a Claudette. 'Sabes onde anda a Claudette?'. E, por fim, já era: 'Ela passou por aqui? Viste-a?' e eu já sabia que era dele que estavam a falar. O meu marido, sabendo disso, passou a tratá-lo por 'a tua amiga'. E contavam anedotas brejeiras que, depois, quando ele estava presente, davam lugar a toda a espécie de trocadilhos e sub-entendidos que me deixavam à beira de desatar a rir à gargalhada.
Mas, enfim, na volta é assim que o mundo vai evoluir: cada vez mais chato, mais perigoso, mais desengraçado, sem espaço para brincadeiras, para galhofas. Um mundo afogado em sensaborias, depressões, problemas que não se aguentam de chatos que são.
Mas, pronto, o que queria dizer é que, à falta de coisas interessantes, me desloquei para os vídeos da risota. E o google, sabendo que ando nesta disposição, avança logo com algumas sugestões infalíveis. Charlie Chaplin à cabeça. Ponho-me aqui a ver e a rir (e o tapete, no chão, abandonado). Como os mails: abandonados. Não dá. O meu tempo deveria ser objecto de estudo pois não deve estar sujeito às leis da relatividade. Não estica, não se encolhe, nada. Regra geral, gasta-se. Passa.
As vezes que eu já cabeceei enquanto escrevo estas tristes linhas. Uma soneira. Ainda quero ir ver que filmes bons há aí, se é que os há, que ando com vontade de ir ao cinema, e ainda queria fazer mais umas fiadas no tapete.
Estou a precisar de férias. Há que séculos que as não tenho. Enfim. Dado que acredito piamente naquilo da teoria da relatividade, vou relativizar o meu sono e vou passar para o turno da bordadagem. O tapetinho me aguarda.
Pronto, já estava a divagar. O que queria mesmo era partilhar convosco o vídeo que me fez até gritar, aflita de vertigens. Não sei se isto me cura, se me agudiza. Mas é uma graça.
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As pinturas são de Josef Šíma e são acompanhadas pela Natalie Merchant com Kind and Generous
.............................................. Be happy, minha gente.