Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, janeiro 31, 2018

Santa Mana Joana, a enchedora do chouriço infinito


Tenho cá para mim que a nossa mediática Santa Mana Joana estava bem era a encher chouriços. Mas não chouriços quaisquer. Tinham que ser chouriços infinitos.


Desde que a conheço nestas funções só a vejo a injectar confusão no pipeline da justiça. Como o pipeline da justiça é como o tal chouriço infinito, a gente só vê entrar. Sair é que nada. Processos que começam em grande aparato, a Sábado ou a Sic ou o Correio da Manhã logo ali à bica a verem as buscas, as detenções, as entradas e saídas para interrogatório, tudo no maior gás a entrar para o pipeline e depois o tempo passa e passa e passa e passa... e novos processos entrando, entrando... e, caraças, sair é que nada. Uma prisão de pipeline que até dói.

Já nem falo no caso Sócrates que já nem sei em que pé é que aquilo está. Foram metendo malta lá para dentro que nunca mais acaba. Até o Bava lá foi parar apesar de parecer não ter nada a ver com o amigo rico, com o motorista Perna ou com a ex-Fava. Um Marquês carregadinho de suspeitos seja lá do que for. Tudo o que alguma vez respirou o mesmo ar que Sócrates respirou caíu no alçapão das desconfianças da trupe da Santa Mana Joana. E enfiados para dentro do pipeline também o BES e o Salgado e mais nem sei quem e mais o Zé das Medalhas e mais mil outros cujos processos, às tantas, se emaranham uns nos outros. Um pipeline fervilhando de entropia. E isto já para não falar nas cantinas e nas messes, nas armas roubadas antes e depois, nas cartas de condução, nas farmácias e nos médicos que passam atestados falsos e em dois bilhetes da bola que parece que levaram o Centeno para a bancada dos convidados e agora mais o Magalhães que comprou 400 euros de livros e revistas e mais um Conde de que nunca antes tinha ouvido falar mas que parece que fez parte de um dos governos do Sócrates e que fez com que aquela rapaziada andasse a ver os extractos do cartão de vários anos à pesca de peculática literatura, e mais uns outros que foram ver o jogo da selecção e ainda os das transferências do futebol e as mulas que traficavam cartas-cheques e uma que até tinha uma balança de precisão em casa e mais o juíz Rangel e a mulher, que não sei se é ex, se ainda dura e que não sei se perdoaram o IMI ao filho do Vieira ou se eram apenas amigos do Veiga e do Santana Lopes, não o politólogo humilde mas o mano empresário. Tudo ao molho e fé em deus para dentro do pipeline. Tanta eficiência assim nunca antes se tinha visto -- clamam os Amorins e os Hugalexes desta vida, presumo que secundados pela peixeira seguidora do ex-irrevogável (que, esse, esfrega as mãozinhas de contente) e de outros baldaias, ferrões e demais neo-devotos.


Não sei como é que isto vai acabar. Provavelmente o Vale e Azevedo ainda será chamado à colação bem como o Rendeiro e nem sei mesmo se não exumarão a Dona Branca, o Alves dos Reis e o Zé dos Passarinhos, já que nada garante ao Rosarinho Teixeira que não têm pezinho metido no enrolo e, portanto, por via das dúvidas, arrolam-se.

Claro que tão ocupada anda nesta azáfama laboreira, não sobra tempo à Santa Mana Joana e aos seus eficientes colaboradores para olharem para os assassinos de mulheres nem para tentarem desvendar os mistérios da Tecnoforma, dos submarinos, dos vistos Gold, das barracas do Menezes de Gaia  e dessas insignificâncias, até porque mexer nisso poderia fazer saltar por aí alguns salpicos e a Santa Mana Joana tem ar de ser menina de querer deixar obra asseada. Um pipline cheiinho e tudo lá bem fechadinho, nem uma caganita de coisa a sair de lá. Lá dentro tudo ensarilhado, resmas e paletes de processos, milhares e milhares de dossiers e de escutas todas carregadinhas de vírus, mas tudo lá bem fechadinho. De cada vez que chega uma denúncia das boas, a Santa Mana Joana solta a franga que há dentro dela e manda avançar a matilha. É aos cem de cada vez a entrarem por casas, escritórios, ministérios, tudo a arrebanhar computadores, telemóveis, bilhetes da bola fora de prazo, papéis de rebuçado, talões da Zara, meias esburacadas, pêlos púbicos e o mais que apanharem à mão e que possa, um dia mais tarde, vir a ser material de prova. Já nem devem ter onde guardar tanta tralha suspeita. Chouriços e chouriços de provas para engrossar os vidais processos que se querem labirínticos, infinitos e disparatados. 

Claro que para se entender no meio deste asilo de doidos só mesmo um super-judge, o afamado saloio de Maçães, amigo do outro poeta do povo que desconfia dos que cabritos vendem e cabritos não têm. 


E eu, no meio disto tudo, só pergunto uma coisa: o que tem o nosso Presidente dos afectos a dizer de tudo isto? Não lhe apetece ir tirar uma selfie ao lado do bojudo pipeline que tão afincadamente a Santa Mana Joana vem enchendo? Ou estou a ser injusta e ele, inteligente como é, está é a  pensar na forma mais airosa de dar um basta neste forrobodó?

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Para dar alguma graça a esta ensarilhada prosa que enfeitei com fotografias que fiz in heaven no fim de semana passado, permitam que chame Angèle para que nos traga a Loi de Murphy

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E a quem ache que tudo isto é triste e melhor fora ir cultivar o espírito, elevando-o até temas actuais de cultura geral pois, então, recomendo que consulte a douta enciclopédia para a qual deixo ligação directa.

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E caso vos apeteça mudar de agulha, queiram descer até terrenos mais calientes:
'Apanha-me', um texto altamente impróprio para virgens de qualquer espécie
Avisei.

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Apanha-me





Não sei o que fizeste para merecer isto mas pronto, faço-te a vontade. E depois não venhas dizer que sou má. Não sou... Não sou nada... Sou boazinha... Tens é que fazer por merecer. E nunca fazes... Pronto, está bem. Às vezes fazes. Mas menos do que devias. Confessa. Menos do que devias. 

Mas vá lá, hoje estou naqueles dias em que o meu coração tudo agradece, até o facto de bater. Por isso, aproveita. Não consigo oferecer resistência. Mas olha, não abuses. É que, se abusares, quando eu voltar a estar má, vou vingar-me. E olha lá... Sabes bem que quando quero ser má... Ui... Cuidado comigo... Mazona, mazona, mazona.

Não rias. Estou a falar a sério. Maldades mesmo. Físicas, psicológicas. Fazer sofrer, por exemplo. Fazer parecer que sim e, afinal, não. Ou ainda não. Ou... só se... Não te rias. Estou a falar a sério.

Olha, se queres, estás à espera de quê? Não me tens aqui, à tua disposição...? Vá, ousa.

De frente, de lado, de costas, por baixo, por cima. Como queiras. Aqui me tens. 

Vá. Dispara... Aqui me tens. Disponível. Não acreditas...? Acredita... Estou por tua conta. Soft, softzinha.

E como me queres? Imóvel? De olhos fechados? A olhar para ti? Séria? Sorridente? Diz. Faço todas as tuas vontades. Não rias... Todas. Não me ouves? Todas.

Olha, escolhe. Diz. Só tens que dizer. Queres que me volte, que me mexa, que simule? Ou queres só a verdade? A verdade que tanto oculto... queres?

Diz. Só tens que dizer. Como preferes?

Olha. Já sei. Espera. Queres-me com cabelinho curto? Espera.

Vês? Ainda está molhado. Cheira bem, cheira a violeta. Cheira. Cheira-me. Gostas?

Vês como eu estou hoje...? Faço tudo por ti, já te disse.

Olha para mim. Olha-me nos olhos. Descobre o que estou a pensar. Descobre o que quero. Vem. Estás a ver-me? Apanha-me. Apanha-me se fores capaz.

Se calhar não és. Não há muito quem. Só os muito bons. Não sei se tens competência para isso. Tens...? Não sei...

Se tens, prova. Prova lá. Vá... Prova...

E olha... não dizes nada...? Eu a pôr-me bonita para ti e tu nada...? Fico triste, ouviste? Por exemplo, gostas da blusa? Ou cobre-me demais? Se calhar estou muito tapada. Não gosto de me ver tão tapada. O que achas?

Não dizes nada. Fico zangada. Olha, só para te chatear, vou tirar a blusa. E não te queixes. A culpa é tua.

O que achas? Preferes assim...? Ah gostas... ? Mas, olha, não deixo que me vejas de frente. Isso querias tu... Não senhor, agoras estás de castigo. Só queres ver-me a alma? Ah... E queres que eu acredite...?

Chato. O que é isso...? Mas querem lá ver...? Nem penses.

Mantém as distâncias, vá... vá lá...


Filma-me. Fotografa-me. Apanha-me.

Mas, faz favor, sê profissional... 

(Chega-te para lá. Não espreites.... Isso não vale... Ouviste? Ai!)

[Ris. Ris, meu malandro. Mas olha lá, oh meu patife, cuidado com o assédio, vê lá se queres que te denuncie, ouviste?]

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Texto inspirado na canção Filme moi de Alice et Moi.
Susan Sarandon dá corpo à coisa.

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terça-feira, janeiro 30, 2018

Três acidentes de percurso e quatro manas olharapas




Se me recordo de tudo o que aqui já recordei fico a pensar que, na volta, sou um cromo (cromo no feminino, bem entendido). No entanto, se me vir ao espelho, acho-me normal. E, dizendo isto, não sei qual a imagem que melhor me representa. Não quero induzir os meus leitores em erro nem vender gato por lebre mas, na verdade, não sei bem como me caracterizar. Maluca, excêntrica, normal - ou talvez um misto, de tudo um pouco.

Portanto, ficamos assim (que não interessa aprofundar muito mais até porque muito mais abaixo apenas há núsculo, tendões, ossos, vísceras, coisecas nessa base -- ou seja, miudezas sem nada de especial).

Isto porque, no meio de tudo o que já fiz, disparate que até ferve, há alguns que podem parecer coisa de cabeça no ar. E, na volta, é isso mesmo.

Conto. Tinha uns sapatos em bordeaux escuro, salto bem alto, corte clássico; e tinha outros, num tom parecido, a pele numa textura um pouco diferente, com um corte mais elegante e salto igualmente alto.

Um dia, estava eu a falar no corredor com um colega, já depois de duas reuniões, calha olhar para os pés, pensativa, e... caneco!, um sapato de cada nação. Quando me viu estupefacta a olhar para os pés desatou a rir. 'Não acredito...', gemi eu. Consolou-me: 'Deixe, ninguém vai dar por nada.'. Ai não... Fui ao gabinete, peguei nas chaves do carro e aí vai ela, direitinha a casa a trocar um dos sapatos pelo par do outro.

Moral da história?

Um desatino. Volta e meia vou no carro, no pára-arranca, e dá-me uma daquelas dúvidas assassinas: 'Será que não venho com sapatos trocados?'. Tento espreitar e não consigo: os pés estão lá em baixo, fora do meu ângulo de visão. A minha vontade é ligar os quatro piscas, situação de emergência, encostar para sair e inspeccionar bem a coisa. Mas não sou maluca a esse ponto e, portanto, lá vou toda a viagem a pensar no que me espera. O que vale é que, mal me distraio, me esqueço porque, quando digo 'toda a viagem' não é bem 'toda a viagem', é só enquanto os meus neurónios não partem para outra.

Mas a quem nunca aconteceu, posso afiançar: é traumatizante.

Claro que nada tão angustiante como deve ser a de um homem que esteja em público e verifique que tem a braguilha aberta -- e fique na aflição de ter que escolher entre dar o flanco e atirar-se impudicamene ao fecho das calças ou fazer-se de lelé, fingir que não está a dar por nada, e continuar airosamente de cueca ao léu.


Já contei a cena do meu colega que passou por uma cena do além e de que ainda hoje, sempre que me lembro, me desato a rir. Estavamos quatro sentados em volta de uma pequena mesa. Ele enorme, de pernas abertas, afastado da mesa. Chega-se uma ilustre desconhecida, segreda-lhe qualquer coisa bem no ouvido e deixa-lhe um papelinho.
Ah... não conto mais, não quero ser repetitiva. (Que cena mais hilária, aquela...).
Todos: 'O que é que diz o papel...?'. 'Diz lá, pá. O que é que diz o papel?'. E ele nada, mudo a olhar para o papel.
Pronto. Calo-me já. Não vou estar a contar as mesmas coisas.
Bem.

Há coisas piores. Há sempre coisas piores. Pode ser fraco consolo mas ajuda: há coisas piores, pode ser um mantra para uma hora difícil.

A deste escultor aqui abaixo que deixou cair a obra e a esborrachou toda deve tê-lo deixado mais desconfortável do que eu fiquei com um sapato de cada nação ou que o outro com a braguilha wide open.


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Claro que podia ainda falar daquele acidente no prestígio do País: a última macacada da Santa Mana Joana que, em vez de apadrinhar a investigação em coisas sérias, como para tal lhe falta o engenho e a arte, resolve derivar para a palhaçada e pôr-se a brincar às telenovelas mexicanas, agora envolvendo como suspeitos dois perigosos bilhetes da bola. Mas para esse peditório eu já dei e, de facto, na verdade só gabo a resiliência e o estoicismo de Centeno. Havia de ser comigo. Acho que até ia buscar, como assessora comunicacional, a minha cunhada que, quando está inspirada é mais apimentada que as peixeiras do Bolhão. A ver se não haveríamos de abater, com a pontaria da nossa língua afiada, muito comentador descerebrado e muito ex-paf que por aí ande perdido já a questionar se o prestígio do governo não está abalado. Tristeza, caraças. Por episódios como este, se conclui que há ainda um longo caminho a percorrer para sermos, de facto, gente grande.
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Mas pronto, para não me despedir só com acidentes, acabo com uma obra de arte. Melhor: com quatro obras de arte. Da imaginação de Alexandra Dillon saíram quatro manas olharapas com franjas artísticas a embelezar os sofisticados penteados.


Contudo, note-se que, quais ovelha Dolly ou macaquinhos Zhong Zhong e Hua Hua, há manas olharapas aos montes, todas almas gémeas, clones quase perfeitos


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E queiram continuar a descer que, já a seguir, temos Porto à moda dos bifes. Sempre bom. Seja qual a receita, é sempre bom já que a matéria prima é do melhor que há.

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O Porto visitável -- segundo o The Guardian


Ando para tirar uns dias de férias desde o princípio do ano e, por mim, por ele, pelos outros e pelo raio que os parta, ainda não foi possível. Parece que os astros convergem para que quando um pode o outro não e quando os dois podemos são outros os imponderáveis que vêm sobrepôr-se. Mas não faz mal que guardado está o bocado para quem o há-de pegar.

Um dos passeios que anda aqui encalhado na carteira é uma ida ao norte, Vila do Conde mais concretamente. Tenho um Leitor de lá e, do que vi na net, é uma terra muito bonita à qual estranhamente nunca fomos. De caminho, claro que iríamos ao Porto pois, sabido é por quem aqui me acompanha, é terra de nossa grande afeição. 

Tal como em Lisboa, há muitos contrários e para todos os gostos e eu gosto de terras assim, com recantos solitários e amplas vistas, bairros populares e lojas cosmopolitas, tascas do povo e restaurantes sofisticados, graffitis descarados, museus recatados, ruelas na maior estreiteza e amplas avenidas, cores de névoa e nostalgia e cores de alegria e inocência, jardins com pavões e um rio largo que se joga nos braços de um mar que é insolente demais. Assim vejo eu o Porto-- ao qual sempre me apetece voltar.

Por muitas vezes que lá vá, andar a pé por lá, descobrir lojinhas e paisagens, esculturas e pinturas, arquitecturas ou árvores principescas -- e tudo o mais -- é prazer que não vira hábito pois há sempre descoberta nova para fazer (e a redundância não é ocasional, é reforço).

E, no entanto, conheço é pouco. Parti para as recomendações do The Guardian, pensando que ia tirar tudo de letra. Mas está bem, está. Passeei pela página como saloia que nunca pôs o pé na cidade. Uma terra por descobrir. Tenho que ir conhecer o que desconheço para conferir se o que ali está merece o destaque (fiz, dali, aqui uma little selecção: Pedro Limão, Gostar de Ler, MyHomeinPorto -- três lugares que não conheço -- e o Museu Da Ciência e da História Natural que já conheço).  


E sugiro a todos que confiram também pois para dizer sim ou sopas nada como a gente procurar saber do que fala.

A local’s guide to Porto, Portugal


On the steep banks of the Douro, Portugal’s northern jewel gleams with culture, buzzing restaurants, bars and artisan shops, plus cool places to visit and stay (....)

Etc. etc. etc. (vem com moradas e preços)

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E, uma vez mais, o Porto Sentido na voz de Rui Veloso

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E um abraço sentido aos meus amigos do Porto.

[Alô, alô Margarida Meggy, tudo bom por aí?]

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segunda-feira, janeiro 29, 2018

'Texto' para a menina mais linda da sua Tá




O maninho de cinco anos já sabe que letras usar para formar palavras mas, claro, ainda não está apto a pegar no computador ou telefone dos pais e pôr-se a ler coisas destas. Os primos também acredito que não estejam para aí virados, um lê nas calmas e outro para lá começa a caminhar mas, bem entendido, preferem ver jogadas de futebol ou tutoriais de minecraft. O bebé, por enquanto, fica feliz a dizer adeus, a bater palminhas, a mexer em tudo e a andar de um lado para o outro. Mas a minha bonequinha mais linda, que gosta de enviar e receber mensagens, de jogar ao jogo das palavras e que se entretém a ler livros enormes, é bem capaz de olhar para uma página destas e pôr-se a ler os 'textos' que a sua Tá gosta de escrever.

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Por isso, minha menina mais doce e mais querida, a partir de agora, este texto é para ti. E escolhi uma música de uma menina que se chama Angelina e que tem uma voz de outro mundo. Aqui ainda tinha apenas oito anos. Nem dá para acreditar, pois não?

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Neste fim-de-semana, andei a passear pelos caminhos que conheces bem, a ver as árvores e o musgo e a ouvir os passarinhos. Também ajudei o avô, que andou a cortar ramos de árvores e mato e, depois, a queimá-lo. Mas, como sabes, ando sempre com a máquina fotográfica a ver tudo com muita atenção.

Para começar, logo junto ao muro grande perto da casa, fotografei o carrinho de mão que está cheio com os troncos que tu e o mano puseram lá dentro, no outro dia, quando estávamos a fazer uma queimada no campo de futebol. Depois querias trazê-lo sozinha mas estava muito pesado e a mãe não quis, disse que fazia mal às costas e tu ficaste amuada porque gostas muito de trabalhar. Eu percebo porque sou como tu. Mas não vale a pena a gente aborrecer-se porque há sempre muitas coisas boas para fazermos, não achas?

Olha. Como agora já podemos andar melhor pelo meio das árvores, consegue ver-se melhor. E sabes o que vi?


Estás a perceber o que é? Olha lá bem. Fotografei de cima.

É um ninho de passarinho. Fui lá espreitar a ver se via alguns ovinhos mas não havia nenhum. Já devem ter nascido os passarinhos bebés ou, então, a dona do ninho ainda não pôs os seus ovinhos. Quando lá fores vamos espreitar a ver se está na mesma, está bem?

E fui andando por ali, como tu também gostas de fazer, e fui fotografando. Por exemplo, fotografei o musgo que estava junto a um daqueles murinhos baixinhos.


E fotografei outra coisa. Vê lá se percebes o que é. Olha com atenção. Sabes o que é?


Sabes aquela jarra que está lá em cima do murinho ao pé do carrinho de mão? Como choveu, estava cheia de água e a água refecte o céu, as árvores e até o meu braço enquanto pego na máquina. E já viste os meus pés? Vê-se também o meu casaco.

E quem é que no outro dia também fotografou os pés? Quem foi, quem foi? Adivinha lá de quem são estes pés:


Tiras muito bem fotografias, sabes? Gosto muito.

Ah, é verdade, ainda não te contei. A horta está muito boa, tudo a crescer muito bem. A salsa e os coentros é que desapareceram, não sei porquê. Mas o resto está uma maravilha. Queres ver?


Ah, e ainda mais outra coisa. Numa árvore no caminho de dentro, descobri outro ninho. Queres ver?


Também não tinha passarinhos nem ovinhos mas tinha algumas penas. Se calhar, quando lá fores, vamos lá pôr uns baguinhos de arroz. Achas bem? Queres?

E agora vou dizer adeus. Qualquer dia deixo-te escrever aqui. Queres? Podes inventar uma história ou pomos fotografias feitas por ti e escreves sobre elas ou podes escrever sobre os manos ou sobre os primos ou sobre os pais ou sobre o que quiseres. Pode ser?

Beijinhos. Muitos. Mais de mil. Gosto muito de ti, minha princesa mais linda.

😍😽😘😍😘😽😍

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Centeno e os dois bilhetes da bola.
Nuno Artur Silva e as incompatibilidades televisivas.
[E, quanto a submarinos ou Tecnoforma (ou mesmo violência doméstica), nada a declarar...?]


A verdade é que quase nada tenho a dizer sobre isto. Há alturas em que o ridículo cobre como sarna quem toma decisões que são tão estúpidas que custa a acreditar a quem as ouve.

Não sei quem é que teve a brilhante ideia no primeiro caso. Talvez tenha sido mais uma das ideias avançadas da Santa Mana Joana, essa sumidade de rigor, isenção e boa gestão. Se foi, é mais uma medalhinha que poderá ostentar na lapela, a juntar a todas as outras relativas a fiascos, passos em falso e palermices que apadrinhou.
Buscas no Ministério das Finanças, uma farronca justiceira e esdrúxula que não lembra ao diabo: como se ali alguém tivesse roubado alguma coisa, como se Centeno ou a sua equipa fossem vulgares meliantes. E os jornais, as rádios e as televisões, tudo na brocanlhice, a notiviar a baderna. Se o ridículo matasse, a Santa Mana já se tinha finado há que tempos.

A propósito da ida de Centeno à bola com o filho o que posso dizer é que não conheço os contornos já que foi tema que nunca me interessou -- mas, caraças, nem preciso de conhecê-los. Algum animal pensante acredita que Centeno se deixou corromper com dois bilhetes de futebol? Tenho cá para mim que só um néscio muito néscio acredita numa dessas. Estou em crer que nem a Santa Mana Joana ou o Super-Judge Alex acreditam em tal (e isto só para evocar duas sumidades na arte de bem avaliar situações). 

Ainda a semana passada, numa reunião, estive com uns colegas que foram a uns dados jogos a convite de uma certa empresa. Não fui porque ir ao futebol é coisa que não me assiste. Mas se fosse um concerto dos bons e estivesse para aí virada, era bem capaz de ir. E estaria eu a ser favorecida, corrompida ou comprada ou whatever por aceitar um bilhete...? Se alguém achar isso o melhor é que vá dar banho ao cão e, de caminho, se encha do mesmo shampoo e se enfie no mesmo alguidar a ver se a estupidez e as pulgas lhe saem de cima. 
Acredito que quem não costuma receber coisas destas ache muito mal e acredite que é favor que acabará por, de uma maneira ou de outra, ser pago. Pois façam fé no que vos digo: nem pensar. Quem se corrompe a sério, vende-se por muito mais do que uns bilhetes para a bola. Por muito mais, meus Caros. E fará as coisas bem feitas. Ninguém saberá de nada, não existirão provas. 

Agora ir à bola e estar ali à frente de todos? Isso é corrupção...? Caraças é que é. Por muito injusto que possa ser para quem tem menos rendimentos e nunca recebe facilidades ou prebendas que tais, a vida é mesmo assim, carregadinha de injustiças.

Convites para isto, aquilo e o outro...? A toda a hora. Read my lips: a toda a hora.

Já o expliquei e explico outra vez: há uma coisa que são os patrocínios. Quem patrocima um evento ou um clube tem direito a bilhetes. Melhor: muitas vezes o patrocínio traduz-me justamente em comprar antecipadamente parte dos bilhetes daquilo que patrocina. Depois obviamente não ficam com eles na gaveta. Distribuem-nos por amigos, clientes, etc. Imagine se um cliente, ao receber um convite para um espectáculo, reage: 'Não aceito. Sou um puro. Não quero ser corrompido'. Era a gargalhada geral no mundo do trabalho. Quem pensa assim, que vá para um convento ou que ponha a cabeça de molho.

Já o disse anteriormente: convites para cenas dessas, para viagens, almoços, pequenos-almoços executivos, conferências e o que quiserem recebo dia sim, dia sim. Geralmente nunca aceito. Aliás: raramente aceito (e ponham raramente nisso). Mas não é para não ser corrompida porque não sou de me corromper. Acredito que um dia ficarei muito rica -- mas será porque me há-de sair um jackpot chorudo no euromilhões. Não é, pois, por receio de ceder à tentação e vir a favorecer de alguma forma o ofertante: é simplesmente porque gosto de ser eu a escolher as minhas companhias e os meus programas e nas minhas horas vagas prefiro larear a pevide e não ter que fazer sala ou conversa de circunstância ou simplesmente dar de caras com colegas ou conhecidos do mundo profissional.

Quanto a terem despachado o Nuno Artur Silva depois do que ele fez na RTP e com o pretexto esfarrapado que usaram só tenho a dizer que decisões dessas são próprias de gente cobarde. De gente assim sempe ouvi dizer que não valem um caracol furado, que é como quem diz que dos pequeninos e cobardolas não se faz a história. 


Não vou dizer mais nada mas recomendo a leitura do artigo de Pedro Marques Lopes: O Nuno Artur, o CGI e a vitória da calúnia e do nojo



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Não gosto de viver numa sociedade em que se governa ou decide em função da vox populi da carneiragem ou em que se governa ou decide em função do medo da opinião das lavadeiras de roupa suja, das alcoviteiras de serviço os das virgens ofendidas que pululam nas redes sociais. Não gosto mesmo nada.
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Vou mas é escrever mais um post para a minha fofa mais doce. Quero mostrar-lhe uma coisa. Se não conseguir acabar agora de noite (estou com muito sono), tentarei acabá-lo de manhã.

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Olha, minha menina mais linda, vê lá como é que esta bailarina toca a pandeireta...


Hoje, em casa dos meus pais, a minha princesa mais linda veio dizer-me um segredo. Tão baixinho falava que mal a percebi. Apurei o ouvido. De manhã, na cama dos pais, estivemos a ler os os teus textos. O meu filho disse: 'Atenção, que ela agora lê o que escreves'. O meu marido riu-se.

E eu fiquei apreensiva. Escrevo sempre com a mente em total liberdade. Afasto de mim qualquer ideia sobre quem lê ou sobre se gostam ou deixam de gostar. Ser-me-ia impossível ter vontade de escrever se estiver preocupada em agradar a gregos e troianos. Mas agora esta perspectiva de poder ser lida pela minha menininha...? Ui. Com sete anos e espertíssima, não sei não...

Estive a pensar escrever um 'texto' para ela mas vou antes mostrar-lhe uma menina grande que dança muito bem. Tenho lá em casa pandeiretas e no outro dia estiveram a tocar. Mas não se lembraram de tocar assim, como esta menina faz.
Olha, amorzinho mais lindo, para a próxima, a ver se és capaz de dar saltos assim e bater com a pandeireta com o pé, está bem...?
Mas sem caíres...! Se calhar é melhor bateres só no ombro, está bem...?


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domingo, janeiro 28, 2018

A lua in heaven, a mantinha das tias, o livro de Emma, as árvores e as cinzas





Acabei O Livro de Emma Reyes. 
No final do livro, desvenda-se o pouco que Emma desvendou sobre as suas origens. Talvez tenha sido neta de Rafael Reyes, presidente da Colômbia entre 1904 e 1909. Foi abandonada (Emma não contou quem era o pai mas dizia que o tinha procurado uma vez mas que ele não quis voltar a vê-la) e deixada, na maior pobreza e abandono, aos cuidados de uma mulher que, poucos anos depois, também a abandonou, a ela e à irmã. Tendo sido encontradas abandonadas, foram então levadas para um convento onde viveu durante cerca de quinze anos num regime de absoluta clausura e exploração. Sofreu horrores. No entanto, apesar do sofrimento a que esteve sujeita e do analfabetismo em que vivia, soube conservar o brilho do seu espírito. Um dia, no fim da adolescência, fugiu. Andou de lugar em lugar, de país em país, até que encontrou o seu lugar no mundo. Tornou-se pintora, expôs, foi amiga de intelectuais. Casou duas vezes, a segunda das quais com o amor da sua vida. Viveu até 2003.
Como já referi anteriormente, o livro é extraordinário. São cartas nas quais contou a um amigo algumas memórias desse tempo. Deixou indicação de que apenas deveriam ser divulgadas depois da sua morte e as receitas que obtivesse deveriam ser entregues a um orfanato colombiano. O livro apenas foi publicado em 2012. Em Portugal, em 2017.

Apenas chegámos aqui, in heaven, depois de almoço. A casa fria, como sempre. Andámos a ver as árvores que deveriam ser ainda mais levantadas. A grande azinheira que está perto da casa e que adoro e que preservarei até ao limite da minha resistência, esteve outra vez no centro da polémica. Desbaste-se, levante-se mas eliminá-la é que não. E acabou por levar um belo desbaste.

Lá em baixo, os grandes cedros -- começam no chão e o mato cresce por baixo, enovelando-se nos ramos. Nunca quis que se desbastassem os cedros, acho que assim, afunilando em direcção ao céu e com as suas saias rastejantes e ondulantes é que ficam lindos. No entanto, o meu filho arranjou-nos, de novo, um documento sobre como preservar as zonas de floresta e está mais do que claro que deveremos minimizar as possibilidades de incêndio e, para tal, pôr de lado alguns dos meus puridos estéticos.

Portanto, alguns dos cedros já estão de perna ao léu. E ao cortarem-se as fartas ramagens de baixo, logo apareceram moitas compactas de tojo que se acobertavam sob as intimidades das belas e perfumadas saias rodadas das árvores.


Entretanto, o lusco-fusco baixou e o frio tornou-se mais cortante. Viémos para casa que também estava gelada. Agora já não, agora a sala já está quentinha. Na salamandra crepita um fogo viçoso. Tenho o computador no colo mas, entre ele e as pernas, tenho uma manta quentinha que, vejo na antiga etiqueta, é 100% mohair, escocesa, Glen Cree. Era de uma tia do meu marido de quem já, em tempos, aqui falei. A cadeira de palhinha, o aparador sobre o qual está a televisão, a escrivaninha e um candeeiro nesta sala em que estou também vieram de casa dela. No aparador, penduradas em camarões, estão as suas chávenas de chá e nas prateleiras está alguma da sua louça mais bonita.

No processo de separação dos seus bens, que foi tenebroso e do qual nem gosto de me lembrar, no meio da confusão que foi aquilo, ficámos com algumas coisas que trouxémos para esta casa. O meu marido não queria nada porque não gosta de ficar com reminiscências seja do que for. Mas ela sempre tinha dito que as suas coisas eram para distribuir pelos sobrinhos e, portanto, contra a vontade dele, lá passámos uns infindáveis fins de semana a mexer nas coisas que ela tanto estimou e que revelavam o que era o seu gosto, sóbrio mas refinado. E se o meu marido não queria móveis, muito menos queria roupas. Mas, à sua revelia, trouxe alguns lençóis finamente bordados, algumas toalhas muito bonitas e esta manta quentinha, com um pelo prensado e com um toque macio e quente. Não sei quantos anos terá esta manta. Se fosse viva, essa tia teria quase cem anos. Era a mais velha de quatro irmãos, solteira, e vivia com uma irmã mais nova e com o cunhado, ambos mortos antes dela. Viviam na casa dos pais, avós do meu marido. A balança que tenho no móvel da sala de jantar também veio de lá mas dessa lembrava-se o meu sogro de a ver em casa dos seus avós, que passou para os seus pais. Portanto, destas coisas nunca sei se fora aquisições das tias do meu marido, se dos avós ou bisavós. 


Um primo do meu marido, dificultou um pouco esse processo de separação das coisas. Muito extrovertido, algo histriónico, transformava aqueles fins de semana num circo. De cada vez que descobria alguma coisa mais insólita chamava toda a gente, fazia uma festa, especulava, falava muito alto, ria; por ele, passava o resto da tarde a lembrar-se de coisas ou a efabular. O meu marido via o tempo a passar e aquilo a nunca mais acabar e dava mostras de estar à ponto de explodir. O irmão, que é em tudo o oposto dele, por seu lado via cada papel ao pormenor, cada peça quase à lupa, um vagar entediante. Era capaz de estar uma tarde inteira só com uma gaveta. O meu primo tinha acabado de se separar mas a ex-mulher, grande amiga da tia e, na verdade, de todos nós a que mais a assistiu no fim dos seus dias, também lá estava. As picardias entre ambos, volta e meia degeneravam e o ambiente ficava ao rubro. A minha cunhada, que tem por hobby desfazer-se de tudo (já contei como o meu cunhado uma vez não sabia do fato de banho e, ao chegar à quinta, viu o jardineiro a regar o jardim aperaltado com o dito fato de banho, generosa oferta da minha cunhada) despejava as coisas de qualquer maneira, dividia as coisas sem preceito ou lógica, desirmanando conjuntos ou despejando para o lixo o que calhava. Eu tentava que ela, antes de despejar o conteúdo de gavetas ou carteiras, ao menos desse uma vista de olhos mas o meu marido, que espumava de impaciência, mal me deixava falar pois queria era pirar-se dali para fora a toda a velocidade. No meio daquilo, eu tentava manter-me mais ou menos neutra mas também já não conseguia suportar mais fins de semana fechada numa casa enorme, com estantes, móveis, gavetas, arcas, infindáveis bibelots e num ambiente em que imperava a irracionalidade pois uns pareciam querer estar lá até ao fim dos seus dias e outros não se importavam de deitar para o lixo o que tinham sido os tesouros de pessoas que toda a vida tinham acarinhado os seus pertences.

Por acaso, soube há dias que esse primo do meu marido teve uma inundação em casa e que os belos móveis das tias ficaram completamente danificados. Como se tinha separado e estava a construir uma casa, mobilando-a de raiz, ficou com a maior parte dos móveis e escolheu os mais bonitos. Essa sua escolha acabou por gerar algum mal estar mas ele esteve-se nas tintas e ficou mesmo com as melhores peças. Se, afinal, tudo se estragou, valeram bem todas aquelas trocas de palavras em torno disso...


Ao pensar naquelas duas tias de quem gostei bastante, ou do marido de uma, um cavalheiro que amava a sua biblioteca e que punha uma capinha de papel vegetal a proteger cada livro, e naquela casa que parecia uma arca do tesouro escondida num andar alto de um prédio numa das mais emblemáticas avenidas de Lisboa, ocorreu-me a surpresa que tive hoje. Quando cheguei ao pé do bidão onde fizemos no domingo passado uma queimada que durou horas e onde foram derretidos montes e montes de mato, disse que devíamos tirar a cinza lá de dentro para a espalhar na horta (que está viçosa de dar gosto!). Não sabia era como transportar tanta cinza. O meu marido destapou-o e perguntou: 'Qual tanta cinza?'. Espreitei. Para aí um palmo de cinza, se tanto. Fiquei perplexa. Tantas, tantas, tantas ramagens, tanto, tanto, tanto mato, montes e montes e tudo reduzido a nada. Extraordinário.

É esse o destino de tudo o que é vivo: ser nada. Por isso, que seja infinito enquanto dure porque o destino é apenas um: pó.

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Ilustro este post com fotografias que nada têm a ver com o que escrevi. A lua hoje esteve branca e rendilhada crescendo num céu muito azul e eu, encantada, andei a fotografá-la por entre as árvores.

E, para fazer companhia à lua, a voz surreal de uma menina que canta como se já tivesse vivido muitas vidas. Eu às vezes penso que também já vivi muitas vidas.


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sábado, janeiro 27, 2018

Onde já vai a ternura dos 40 e eu ainda aqui, de sol a sol.
E ainda sem saber o que fazer quando tiver o tempo por minha conta.
[Presidente de Câmara é que não; isso é o que já sei de certeza absoluta]





Desde há cerca de ano e picos a minha vida deu uma reviravolta. Mais trabalho. Muito trabalho novo em cima do muito trabalho velho. Pensei que era coisa temporária, uma espécie de missão. Mas ainda dura e não faço ideia de quando acabará. Um excesso de trabalho que, anos atrás, jamais pensaria que, a esta altura do campeonato, tombasse desta forma sobre mim.

Lembro-me bem que, teria eu uns vinte e tal ou trinta anos -- e muito longe dessas minudências que dão pelo nome de pensão de reforma, penalidades por reforma antecipada e etc -- e imaginava-me a chegar à ternura dos quarentas já a equacionar mandar o trabalho das 9 às 5 às urtigas, dedicando-me, pouco depois, ao lado mais lúdico da minha existência. Pensava: no máximo, aos cinquenta despeço-me e vou ser presidente de uma autarquia.

Já o contei. O meu marido era amigo do presidente de um partido e, um dia, contou-lhe dessa minha excentricidade. O outro encarou a coisa com normalidade e disse-lhe: 'Ela que venha falar comigo'.  Para o meu marido a minha opção era natural tal como natural a disponibilidade do outro. No entanto, ao saber disso, desisti da ideia. Queria ser presidente de câmara mas sem ter que me misturar com partidos. Sou livre, intrinsecamente livre, e não consigo imaginar-me de outra maneira. Naquele dia percebi que me tinha esquecido de um factor determinante e que, de facto, era condicionante: ser presidente de câmara sem campanha eleitoral e sem apoios partidários é coisa que não existe. Como condições e compromissos com partidos era coisa a que não quereria alguma vez sujeitar-me, aquela minha vocação ficou por ali (embora, confesso, continue a sentir uma certa apetência por isso).
Pensei, então, vir a dedicar-me, um dia mais tarde, a outras actividades. Mas, enquanto vou e não vou pensando em quais, o tempo vai passando. Um alvo em movimento e eu que não estou a ir para mais nova.


E o trabalho caindo sobre mim, imparavelmente.
Gostava de conseguir chegar a sexta-feira à tarde e decidir sair mais cedo: 'olhem, já dei para este peditório, depois de almoço vou para casa dormir a sesta e depois logo se vê, ou vou ao cinema ou vou passear, aqui é que não me apanham'. Mas qual quê. Ou gostava de, de vez em quando, decidir que naquele dia apenas iria trabalhar de tarde, ficar no quentinho dos lençóis até às dez, depois ficar a fazer arrumações nas calminhas, almoçar devagarinho e, então sim, ir trabalhar lá para as três. 
Comecei a trabalhar aos vinte anos e penso que já deveria ter direito a um regime mais ligeiro. Mas isto não é como a gente quer. Há as circunstâncias. Se eu não for trabalhar durante uma manhã ou uma tarde ninguém me dirá nada pois, felizmente, ninguém me controla a esse nível. Mas o trabalho que se acumularia dificultar-me-ia ainda mais a vida no dia seguinte e, para além disso, há o exemplo e o sentido de responsabilidade.


Portanto, dia após dia, vejo o tempo a passar e eu agarrada a uma realidade que não me dá tréguas. E, para os meus Leitores que moram e trabalham em terras com pouco trânsito, talvez a praga do trânsito nem seja tema. Mas, para quem anda por Lisboa, horas fechada no carro no pára-arranca,  isto são anos de vida.

Esta sexta-feira consegui ter dez minutos livres depois do almocinho que foi bom e em boa companhia. Nesses minutinhos fui espreitar as promoções de uma livraria. Vim de lá com dois livros, 'Alguns preferem urtigas' de Junichiró Tanizaki e 'Homem na escuridão' de Paul Auster. Gastei 12€ e vim de lá toda contente. Estão aqui ao meu lado. E a vontade com que estou para lhes deitar a mão. Só que, com o sono com que estou, se lhes pego, logo farei conchinha com eles e, passados uns instantes, estarei nos braços de morfeu. Vou levá-los para ler in heaven quando estiver embrulhadinha, sentindo o calorzinho da salamandra.

Entretanto, vejo que os portugueses endoidaram para arranjar bilhete para os U2 e que, não sei onde, se esgatanharem para apanhar frascos de nutella (coisa que nunca provei mas que é capaz de ser boa). Realidades que me passaram ao lado e que, mesmo que tivesse chocado com elas de frente, me teriam feito desviar: fazer filas de horas ou dias para um bilhete ou andar à tareia com alguém por um frasco de nutella parece-me uma forma estranha de usar o tempo ou parecem-me objectivos de vida um pouco bizarros.

 [Pausa]


Mas, enfim, é sábado. Já pus a roupa a lavar e, enquanto a máquina ali está a andar às voltas, vim acabar este post que comecei ontem à noite mas que ficou a meio, tanto o sono em cima de mim.

Escolhi agora, para o ilustrar, fotografias da vida selvagem. Obtive-as no The Guardian. Estive a ver o que há de novo mas, de tudo, fiquei-me pelas fotografias.

Daqui a nada, vamos pôr-nos a caminho do nosso bocadinho de selva. Temos sempre muito que fazer por lá e isso motiva-nos de uma forma que talvez não seja fácil de perceber por quem não está nem aí. Andar a limpar caminhos, a desbastar arbustos ou a podar árvores, sentir o friozinho húmido dos campos, ouvir os pássaros, sentir os cheiros frescos e saudáveis de tudo aquilo, ver o gatinho branco a olhar para mim -- são, para mim, momentos bons da minha vida. Para mim a felicidade não é apenas uma nostalgia do passado: tenho a sorte de conseguir senti-la enquanto a vivo. E posso dizer sem dúvidas que me sinto feliz por partilhar a minha insignificante existência com coisas assim que, para mim, são puro encanto.


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E queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde poderão ver um presente que um Leitor me enviou. Chamei ao post Moad e perceberão porquê.

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Moad





Dia longo. Chego a casa tarde. Descalço-me, dispo-me, tiro os brincos e o colar, desmaquilho-me da quase invisível maquilhagem, escovo o cabelo. Depois, quando limpa do ar que, durante o dia, cobriu o meu corpo, já confortavelmente pouco vestida e descalça, chego finalmente ao meu canto do sofá, onde me abrigo entre almofadas.


Ligo o computador e vou espreitar os mails. De entre todos, prende-me um que tomo a liberdade de aqui o transcrever:
Mesmo que lhe  falte o tempo ou a oportunidade ou ainda a paciência não importa que o poema fique perdido no vazio.
Talvez alguma lua virtual e benfazeja lhe soletre os versos, ou aves sonâmbulas lhe ouçam a voz...
Talvez Moad (*) o recolha como se fosse um hino a venerá-la. 
E trazia um ficheiro de voz onde se ouve o Leitor LS a dizer o seu poema. Estive a ouvi-lo e gostava de o partilhar convosco. Mas aqui apenas sei inserir vídeos do youtube. Não sei como inserir no blog ficheiros de outro tipo. Mas, se não consigo ter aqui a voz do Autor, tenho as suas palavras que, agradecendo ao LS, também aqui tomo a liberdade de partilhar com todos os meus Leitores.


Nua caminhas sob o sol sedento
Da nudez da tua pele,
Te moves pela inquietação do vento
Com o teu corpo feito a cinzel.

Na claridade do teu rosto
Toda a estrela encandece,
É aí que o frio se aquece
E eternos os dias sem sol-posto.

Seguindo a curvatura dunar dos teus seios
a beleza ensandece
E é nessa doçura que se tece
A ânsia de todos os anseios

Sob a fímbria do teu púbis, no lugar mais recatado
Descansa a delicada, rósea flor.
Os néscios dizem que aí mora o pecado
E eu quero pecar, seja o pecado aquilo que for.

Singro o mar de tempestade
Do teu corpo deslizando sobre as águas,
É nele que busco a eternidade,
É nele que sublimo as minhas mágoas.

Neste sonho em que tu segues
Há um saber que não consigo,
Saber se és tu que me persegues
Ou se sou eu que te persigo.



(*) Moad - Ente mítico que habita a ondulação do mar e preside ao chilreio dos pássaros. As Sibilas afirmam que também pode ser vista, na forma de uma bela mulher, assombrando amores impossíveis.

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sexta-feira, janeiro 26, 2018

Se um dia me sair o euromilhões, vou a uma coisa destas e, no fim, digo:
para mim é tudo.




Nem que depois estivesse um mês em jejum (coisa que, parece, faz bem a tudo e até nos põe mais novos) para conseguir enfiar-me dentro das vestimentas ou que tivesse que render-me às evidências e ir a correr procurar um cirurgião estético para me esticar, repuxar, alevantar, preencher e lá o que é que eles fazem - mas havia de chegar ao fim de um desfile Chanel e, tête-a-tête com o Karl, haveria de dizer: Arremato tudo. Pode meter tudo em sacos que já mando um boy para levantar. Coisa assim. Eu feita milionária deslumbrada.


A cena é que acho que a roupa Chanel é completamente deslumbrativa e, com a carteira a rebentar de milhões, não deixava lá nada. Veuzinho com florzinha no alto -- delicioso. Vestidinho com brilhantes sedutivos -- delicioso. Casaquinho de cor virginal -- delicioso. Luva alta esgueirando-se braço acima - deliciosa. Seja. Siga para bingo. Tudo. Tout.
[Ah. Pardon. Permitam um petit recuozinho. Agora estava aqui a pensar que volta e meia, numa certa grande superfície, me cruzo com mulheres que parece que estão com a beiçola inchada, todas preenchidas até ao último poro. Olho e parece-me que vejo ali uma certa inestética deformação. Pensava, intrigada: 'Mas, mal põem o botox, vêm logo para aqui mostrar o lábio grosso? Acharão que estão mais bonitas? Que estranho...''. Estranhava mesmo. Mas, lá está, não aprofundo estas estranhezas porque acho que a vida tem mais graça se caminharmos sobre estranhações. Pois um dia destes acho que desvendei o mistério e, se assim for, deixo de achar graça pois fico é a pensar que devia haver um túnel de lá até ao carro. Ou seja, descobri que há um sítio lá onde fazem esses preenchimentos, enchimentos, aplicações de botox, etc. Ou seja, parece que já não é preciso ir a uma clínica xpto, toda cara, para levar injecções de paralisante muscular ou whatever: num centro comercial desta vida, toma lá, dá cá, e já se vem de lá sem código de barras no lábio superior, com lábios insuflados, bochechas do rosto espevitadas. Não sei se também põem suspensórios interiores em maminhas desconsoladas ou se enchem com não sei quê nádegas já pouco viçosas. Mas que põem a beiçola gorda, lá isso parece que põem mesmo]
Adiante.

Pronto.

Não ando in the mood for política ou para desconsolos da vida. Ando, sim, numa de frescuras e ligeirezas. Até tenho aqui ao meu lado um livro que se chama 'uma ideia de felicidade'. Claro que esta minha dissertação sobre os modelitos Chanel pode parecer contraditória com a receita de felicidade do Einstein: Uma vida calma e humilde trará mais felicidade do que a busca do sucesso ligada a constante agitação. Mas só é contraditória na aparência já que, vendo bem, os vestidinhos Chanel são do mais calmos e fofinhos que há e tivesse eu o jackpot do euromilhões na mão a ver se a minha vida não seria do mais tranquilinha que há, longe do trânsito, com um chauffeur ao dispôr, rapaz jeitoso com a faceta de diseur para poder dizer-me poesia nas horas vagas.


Bem. Estive a rever a colecção primavera/verão e concluí que estava com olho gordo e, na verdade, mais olhos que barriga. Não trazia tudo. Só as coisinhas mais bonitas. Deixava ainda lá muita coisa para as pendonas que por lá andariam armadas em gostosas.

Mas, vá, já chega de tretélé e confiram mas é se não é de comer e chorar por mais.


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E queiram continuar na descidura que aí mais para baixo há mais uns dois posts no mesmo comprimento de vague.

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Batom a condizer com o vestuário...?
Parece-me bem.
[A não ser que a blusa seja amarela-pintainho ou azul-cuequinha]


Ora muito bem. Abaixo já falei das tatuagens poéticas ou aforísticas lançadas pela Dior. Vamos então, agora, passar para a boca. 

Sobre a minha própria boca o que tenho a dizer é que nem sempre passo uma corzinha ou um brilhozinho nos lábios. Se o faço opto por pouco espalhafato. Não gosto de me ver com cores gritantes. Tenho lábios de bom tamanho pelo que, se os pintar de vermelhusco ou rosa pintarolas, fico a atirar para o vulgar. Pelo menos, parece-me. No entanto, mudo a cor consoante a roupa que visto. Se predomina o encarnado, claro que não vou usar batom cor-de-rosa. E vice-versa.

Também da Fashion Week haute couture Primavera-Verão 2018, aprendi que podemos ser ainda mais open minded:
En parfaite harmonie avec son total look pink, Kaia Gerber portait un rouge à lèvres fuchsia sur le défilé Valentino haute couture. Et si la nouvelle règle pour porter son rouge, était la coordination avec ses vêtements flashy ?

A Red Red Rose de Robert Burns (lido por Tom O'Bedlam)


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Por exemplo, também não sou fã do azul, cueca ou não cueca. Até porque seria estranho dizer que ia passar um rouge azul. Claro que à Rihanna tudo fica bem mas quantas de nós, mulheres, nos podemos dar ao luxo de ser Rihannas?




Ou um lipstick em amarelo descarado...? À Jennifer Lopez claro que fica bem e nem precisa de vestir um trapinho a condizer. Mas vá que amanhã apareço no trabalho armada em J. Lo. Seria a gargahada geral no mundo do trabalho. Ná. Não me presto a isso. Sou muito conservadora. É como com unhas: incapaz de as pôr verdes, azul submarino ou escama de sereia. 


Daffodils de William Wordsworth lido por Jeremy Irons.



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Será que é desta que vou fazer uma tatuagem...?



Já contei algumas vezes. Dantes, quando não era moda, eu alimentava a esperança de me auto-convencer a fazer um botão de rosa num sítio sexy do meu corpo. Nunca cheguei a consenso sobre qual seria esse sítio. Nem sabia onde ir. Portanto, fui empurrando a rosa com a barriga.

Entretanto, isto das tatuagens banalizou-se e eu, que sou desalinhada por natureza, descurti. 

Mas esta de que agora tive conhecimento parece-me muito bem. Claro que teria que ser coisa não definitiva. Não quero fazer coisas deste género que sejam definitivas. Versos. Frases bonitas. Teria que ser pintura efémera. 

Senão, imagine-se que me apetecia escrever nas mãos o início daquele poema do Al Berto
visita-me enquanto não envelheço 

toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me 
... e que, às tantas, se me engelhava a pele das mãos e ficavam as palavras todos entrevadas...? Ná. Terão que ser laváveis. Todos os dias palavras novas.

Estou a escrever isto e a achar que é uma ideia fantástica, esta de todos os dias escrever o início de um poema diferente nas mãos.

Mas, para quem não saiba, aquilo de que falo aconteceu no desfile Dior. Citações de André Breton escritas no peito ou nas mãos. Lindo.
Au départ, il ne s'agit pas de comprendre, mais bien d'aimer.

L'amour est toujours devant vous, aimez !
L'imaginaire, c'est ce qui tend à devenir réel.