E, antes disso, ainda acrescento que já peso menos dois quilos e picos, ou seja, já estou na média para a minha idade e altura, mas que a balança inteligente e sobredotada (comunica-me os resultados por telemóvel, faz gráficos e diz-me em que ponto da escala me situo em relação a cada indicador) diz que ainda tenho alguma gordura corporal a mais. Não é muito, creio que uns 4 ou 5% a mais (tenho o telemóvel a carregar noutro sítio, não me apetece levantar-me para ir ver o valor certo), mas não quero. Só que ver-me livre dela não está a ser pêra doce. O ChatGPT diz que tenho que fazer mais exercício ou consumir menos calorias. La Palice não diria melhor. Só que é uma dor de alma não poder comer o queijinho pelo qual me pelo, tenho que me limitar a um esquálido quadradinho de chocolate preto sem pingo de açúcar. E a fruta, que eu se fosse eu comeria às carradas, agora está mesmo limitada a 3 míseras peças por dia.
E o pior é que sei que, mesmo quando estiver no ponto, para assim me manter, terei que me manter assim, à míngua. Ora eu sou tudo menos vocacionada para me forçar a provações.
Enfim.
Bora mas é tangar.
No es por ti - Grupo Corpo (Lecuona)
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E agora é mal empregado colocar aqui um texto tão objectivo, tão exacto, como o que vou tomar a liberdade de transcrever na íntegra. Mas as coisas são o que são. O autor é Rui Bebiano, de que já antes aqui fiz referência, e escreve no blog A Terceira Noite que eu sigo religiosamente.
De forma simplificada, são dois os motivos principais que levaram à rejeição da moção de confiança e à próxima saída de Luís Montenegro do cargo de primeiro-ministro. O primeiro, mais invocado, tem a ver com práticas profissionais que colidem com o dever de exclusividade de quem detém cargos de responsabilidade no governo, por motivos acrescidos quem dele seja a figura principal. O segundo motivo, menos mencionado apesar de também importantíssimo, prende-se com o facto de a empresa envolvida, a Spinumviva, ser apenas familiar, não tendo sequer sede própria e corpos gerentes, dedicando-se basicamente ao tráfico de influências realizado sob a capa de «aconselhamento» em negócios privados.
Nada disto deveria ter acontecido, e, a ser revelado como foi, deveria ter conduzido de imediato à apresentação da demissão do cargo que LM ocupa. Todavia, não só tal não foi feito, como depois da triste novela pública vivida ao longo destes dias, o mesmo LM declarou pretender apresentar-se de novo a eleições e afirmou nada ter feito que «qualquer português não fizesse». Se assim acontecer, o PSD irá arrastar o país para uma situação de impunidade legal e ética premiada. Sabemos que em países como os Estados Unidos da América de Trump isto está a tornar-se trivial, mas, caramba, nós ainda vivemos no democrático país de Abril. Por isso de modo algum pode acontecer.
Havia um ténue cheirinho bom a queimada. Quase parecia um cheirinho a lareira vindo de longe. Tudo bom, tudo bonito. Adoro lá estar. Adoro, adoro.
Mas tivemos que vir.
Lanchámos com parte da família. Chegar e abancar soube-me bem. Tínhamos pensado parar algures para não aparecermos de mãozinhas mas recebemos indicações de que era para levar nada, nada. Portanto, foi isso. O meu marido disse: 'Bom, se já lá há lanche, só se formos comprar menus do mcdonalds...'. Informei, não fosse isso causar algum mal-estar. Mas também fomos impedidos.
Portanto, de mãozinhas mesmo, foi mesmo apenas lanchar. E o lanche bem bom.
O pior foi o telefonema. A crise, o desespero, o alarme, o drama de sempre. Depois, ao tentar perceber o que se passava, já não era bem aquilo, era coisa que, a meus olhos, é menor. Ainda por cima, omite indicações que ajudam a dimensionar o que diz. Reporta as coisas descontextualizadamente, exageradamente. E, na cabeça dela é, como sempre, como todas as vezes, uma situação terminal. Para a equipa clínica deve ter valido zero pois não me ligaram e o médico nem a foi ver. Já devem estar a perceber o que se passa pois nos primeiros dias ligavam-me sempre.
A verdade é que, apesar de ser o mesmo todos os dias de há bastante tempo a esta parte, fico num stress, preocupada, sem saber o que devo fazer, sempre no receio de que desta vez seja a valer. Bem que a família me diz que agora já não sou eu que tenho que fazer alguma coisa pois por alguma razão ela agora está num sítio com equipa clínica diária. Mas como o médico não a vê todos os dias (porque já deve ter percebido que nada daquilo corresponde ao drama que ela pensa que é), fica ainda mais insegura, exponenciadamente aflita, com medo de estar a ser descurada. E então ainda mais empola e dramatiza, certamente para conseguir que o médico vá lá amanhã de propósito (como já aconteceu no fim de semana passado).
Bem posso tentar relativizar mas é uma pressão tão, tão, permanente, tão, tão, em crescendo, que a minha cabeça não tem tempo para se restabelecer antes do drama que se segue (porque não há um dia, um só dia, em que ela não pense que está em estado gravíssimo, sem retorno, e que aja como se quisesse convencer-me de que devo tomar imediatas providências -- mas quais...? quais, senhores...?).
Mas, enfim, adiante. Adiante. Adiante. Adiante. (Tenho que me puxar da fossa em que parece que estou a enterrar-me). ´
Entretanto, ligou-me há pouco uma amiga que, ao contar-lhe eu esta situação, me perguntou se não seria já uma forma de demência. Os meus filhos e o meu marido acham que é. Eu não. Mais me inclino para depressão, paranoia, coisa assim. O raciocínio dela e todo o discurso bem como a memória estão intactos, tudo funcional, surpreendentemente bem. Dizem-me todos que pode ser algum tipo de demência em que não controle as emoções nem consiga raciocinar para relativizar os medos.
Contou essa minha amiga que o pai, um dia, do nada, saiu-se com uma conversa desprovida de sentido deixando todos sem perceber o que era aquilo. E que, a seguir, se tornou agressivo, desconfiado, via coisas, imaginava coisas, tornou-se uma ameaça.
Ora isso corresponde ao tipo de demência que se identifica enquanto tal, ao passo que, no caso da minha mãe, se é demência, nunca de tal tipo ouvi falar.
Mas, pronto, vou parar com isto. Stop. Stop. Stop. Interrompam-me, digam-me que não volte a falar nisto, enfiem-me numa camisa de forças.
Vá, adiante.
Cá vou.
Já em casa, a jantarmos uma pizza que comprámos pelo caminho, vimos parte das notícias.
E não dava para acreditar no que via. Em Almada, o encontro dos festivaleiros laranjas. Tudo gente datada, fora de prazo. Montenegro, sorrisinho matreiro, a dizer insanidades, disparates atrás de disparates. Depois vi o Rangel a fazer olhinhos e trejeitos enquanto o Montenegro esparvoava. Provavelmente, também falou e imagino bem os trocadilhos, os esgares, a vozinha escaganifada. Ou seja, a barraquinha ainda deve ter sido maior. E, se calhar, enquanto falava, estava o Montenegro com aquele seu sorrisinho de quem não percebe nada do que se passa à sua volta pelo que mais vale sorrir a ver se disfarça.
Ouvi também o Moedas e é outro daqueles esganiçados que não dá para levar a sério. Cantam de galo mas não passam daqueles galinhos da Índia que fazem muito barulho mas a que ninguém, na capoeira, presta qualquer atenção.
Para cúmulo dos cúmulos, vi que apareceu por lá a célebre múmia que, de vez em quando, aparece a dar à mandíbula, parece que quer ganhar balanço para bolsar a azia em forma de palavras, com aquele arzinho ressabiado de quem não consegue conviver com a vida real. Falou, falou e não conseguiu dizer uma que se aproveitasse. Contudo, atrás dele, o Montenegro parecia satisfeito por ter recebido a visita daquela assombração e isso diz muito sobre ele. Se fosse eu corria a sete pés. Foge.
A seguir, a televisão mostrou o omnipresente Ventura a troçar, de alto, do Montenegro e do PSD no conjunto. Não sendo nada, o Chega, fruto de ser permanentemente levado ao colo pela comunicação social, consegue parecer que é alguma coisa. Um partido fascistóide, populista, vazio de propostas concretas, constituído por gente desclassificada, vários a contas com a justiça, e aí anda sempre nos écrans das televisões. Uma aberração parida sobretudo pelas televisões.
O IL a desfazer-se, o CDS inexistente, o Chega que não passa de um populista com um bando de saudosistas de outros tempos atrás, e, para ajudar à festa, um PSD que mais parece um conjunto de salvados de um naufrágio qualquer. Até a Marilú dos Swaps eu lá vi naquele circo que montaram em Almada.
Face a este pindérico panorama, teria o PS que se pôr a dormir na forma para não agarrar uma maioria confortável nas próximas eleições -- e isso não vai acontecer.
Tomara é que a abstenção, em especial por parte das pessoas que têm neurónios, não dê cabo da lógica.
As fotografias, como é bom de ver, foram feitas in heaven. Como poderão reparar, apesar de não serem um luxo, não as quis contaminadas pelo bafo do Cavaco nem pelo dos seus descompensados apoiantes. Por isso, coloquei-as fora dessa parte do texto.
Começo a duvidar se não serei descoordenada motora. Nunca antes tinha suspeitado, juro. Mas, na hidroginástica, vejo-me aflita para atinar com alguns exercícios. Tudo o que seja do género: levanta a perna esquerda para o lado esquerdo e acompanha com o braço direito que vai para a esquerda, depois leva a mesma perna esquerda para a frente e passa o braço esquerdo para trás das costas, depois a perna esquerda chuta alto para o lado direito e o braço esquerdo vai para a frente e para a direita. E troca. E aí já começo a baralhar-me. Qual braço e qual perna vai agora para onde? Ou então: segura com o braço esquerdo o braço direito, levanta o cotovelo direito por cima da cabeça e empurra com o braço esquerdo. E troca. E aí já eu não sei onde pára o braço esquerdo ou o direito e até chega a parecer-me que a mão direita se mudou para o braço esquerdo.
E como é música bem puxada para aquilo ser de tipo aeróbico, mal começo a concentrar-me para ver se atino (chego a fechar os olhos para ver se consigo raciocinar) já o professor ordena: e troca!
Outra que é do caraças é fazer exercícios com uns tijolos de espuma compacta. Fora de água é coisa de crianças, não pesam nada. Dentro de água viram um pesadelo. Com cada um em sua mão, abre os braços (debaixo de água) e leva-os até às pernas. E abre, e fecha, e abre, e fecha. Rápido, rápido. E segura neles à frente e levanta as pernas e junta-os por baixo das pernas. E passa a mão esquerda com o tijolo por baixo da perna direita e troca. E troca. E troca.
Muito difícil.
No outro dia uma camarada, com um tubo de espuma por trás das costas e as mãos sobre as extremidades, num exercício de levantar as pernas, deu mais balanço do que devia e ficou numa aflição, rebolando-se de barriga para o ar. Teve que ser ajudada. Aguentei-me sem me rir pois pensei que poderia ser comigo. E que não fosse. Há que respeitar as dificuldades alheias. Se alguém me filmasse naquela dislexia motora também haveria de ser bonito.
Uma coisa é certa: sempre pensei que, com o par certo, haveria de ser capaz de dançar um tango à maneira. Mas, ao fim de um par de aulas de hidroginástica, já perdi as peneiras. Não seria capaz de me sincronizar. Nem pensar. Não seria só o caso de o pisar. Haveria de, sem dar por isso, lhe passar rasteiras... e até cabeçadas lhe haveria de dar.
Já Aoniken Quiroga, o improvável tangueiro, é um mimo. A música funde-se com as células do seu corpo e ele desliza, rodopia e encanta com um destreza extraordinária. Muito bom. Talvez se ele me levasse ao colo eu conseguisse ter a ilusão de conseguir dançar um belo tango. Mas só assim.
Alejandra Mantinan y Aoniken Quiroga - Berlin - 2022 - Exhibicion - Tango Show Bailan: Y te parece todavia - Hector Varela
Vi o debate entre Jerónimo de Sousa e António Costa. Jerónimo de Sousa, com ar vendido, sem viço, com uma conversa que frequentemente roça o populismo, usa um discurso vago, oco, dizendo verdades inegáveis mas sem apresentar uma única solução. O PCP disfarça o estado de exaustão ideológica dizendo banalidades. Não conseguiu explicar porque é que chumbou o orçamento quando era um orçamento que ia mais longe do que alguma vez se tinha ido na defesa dos direitos dos mais vulneráveis e na concessão de regalias aos mais carentes. Não consegui explicar, claro. Enunciou pretensas medidas inexequíveis e ilusórias mas enunciou-as de forma gasta, sem vida.
A questão do salário mínimo, por exemplo. Claro que toda a gente gostaria que o salário mínimo desse um valente salto. Mas... e depois? Iria encostar-se ou ultrapassar os outros salários? Esses teriam que subir. Mas... iam encostar-se ou ultrapassar os seguintes...?
E as empresas iriam aguentar o embate dessa subida generalizada dos custos de mão-de-obra sem repercutir nos preços de venda? Provavelmente não. Com as margens de lucro esmagadas como andam por quase todo o lado... Mas os clientes iriam suportar o aumento de preços...? Bom, se calhar não.
É que, como António Costa referiu, grande parte dos possíveis beneficiários não são funcionários públicos ou trabalhadores de empresas altamente lucrativas. Grande número das pessoas que usufruem do salário mínimo trabalha em pequenos restaurantes, pequenos cafés, pequeno comércio. Numa altura em que todas essas pequenas empresas estão tão causticadas pela pandemia, como infligir-lhes ainda outro golpe...?
Subir o salário mínimo, sim, claro. Mas de forma gradual, de modo a que toda a cadeia económica consiga adaptar-se.
O PCP e o BE não percebem isto? Bom. Se não percebem isto, então, mais vale que se dediquem a outra actividade, não à política ou a qualquer função em que se exija algum sentido de responsabilidade.
E, se percebem isto e, ainda assim o defendem, então das duas uma: ou querem o mal do país ou acreditam que a malta não percebe a sua hipocrisia.
Agarrado a conversas velhas, sem vida, o PCP continua, pois, a sua trajectória descendente. Não tem nada a propor. Continua a exibir jargões gastos, bandeiras que não convencem ninguém.
Antes vi excertos do debate de Rui Rio com o Ventura, Rui Rio com a Catarina Martins, Catarina Martins com o Rui Tavares.
A única coisa nova nisto é o cabelo da Catarina Martins: agora está loira e com madeixas.
Tirando isso, mantém-se populista, demagógica. Mostra que a deslealdade lhe corre nas veias, em abundância.
Tal como Jerónimo de Sousa, usa argumentos hipócritas para defesa das suas indefensáveis atitudes.
Fui defensora e, depois, apoiante de uma solução à esquerda, apesar de já antes o PCP e o BE se terem aliado à direita para abrirem a porta a um governo de direita, um dos piores de sempre, o de Passos Coelho e Paulo Portas. Mas achei que traição tão grave acontece uma vez na vida. Acreditei que as probabilidades de voltar a acontecer eram mínimas.
Afinal aconteceu uma segunda vez. Sem outra justificação que não a de ceder ao facilitismo de querer agradar ao seus militantes mais fundamentalistas, Jerónimo e Catarina uniram-se ao Rui Rio, ao puto Chicão e ao execrável André Ventura, abrindo uma incompreensível crise. Idem ao IL mas esse não conta. Só conta, como já o disse, porque acho o Cotrim de Figueiredo uma bela figura de homem, ainda por cima sempre elegantemente vestido. E sabe falar e apresentar-se. Ora, na política, isso é importante mas não chega.
Mas, voltando ao PCP e ao Bloco. Tenho lembrado amiúde a propósito do comportamento destes dois partidos: Roma não paga a traidores. Portugal também não. Não perdoamos a traidores, ainda por cima traidores reincidentes. Da parte que me toca, e não passo uma simples e insignificante votante, não apoiarei novo acordo que envolva partidos nos quais o Jerónimo de Sousa, a Catarina Martins ou as manas Mortáguas estejam ao comando ou que tenham o cardeal Louçã na rectaguarda. É gente em que não é possível confiar. Lamento mas é coisa que não consigo ultrapassar. Não perdoo actuações políticas desleais, irresponsáveis, hipócritas.
Claro que Rui Rio também não é flor que se cheire: que não haja dúvidas sobre isso -- é errático, incoerente, é um troca-tintas, um tangas, não tem uma linha de rumo firme. Já deu mil provas disso. Não tenhamos pois dúvidas. Mas, a ter que contar com o apoio de algum partido, e se o Livre e o Pan (partidos relativamente neutros e em que, apesar de alguns excessos a absurdos, parece haver algum bom senso) não chegarem, preferiria que se desse uma littlee controlada hipótese ao Rui Rio do que esperar que a demagoga e populista Catarina Martins e o gasto e servil Jerónimo (servil perante a linha dura dos seus militantes) traiam uma vez mais os seus eleitores (e o eleitorado de esquerda em geral).
Claro que preferia que o PS atingisse uma maioria estável sem necessidade de ficar na mão de quem começa bem mas acaba a chantagear. Confio no António Costa e confio na sua capacidade para formar e gerir equipas competentes e sérias. Confio na sua visão humanista e europeísta, confio na sua capacidade de ajustar um rumo estratégico face às circunstâncias adversas que vão ocorrendo, confio na sua capacidade de introduzir temas inovadores e na sua capacidade de ouvir e articular partes contrárias.
Tenho andado a ler à vez: um pouco do Para quê tudo isto?, biografia de Manuel António Pina e um pouco do Como não morrer.
Comprei o segundo livro para a minha mãe. O bom efeito da nutrição na prevenção e tratamento de doenças é o género de livro de que ela gosta, ainda mais escrito por um médico. Depois de o ter comprado, cá em casa folheei-o e pareceu-me bastante interessante.
Pensei que seria interessante para nós, cá em casa. Então, lembrei-me de o oferecer ao meu marido pelo Natal. Ofereci-lhe também o Jerusalém, a biografia. E, então, no meio da confusão da abertura dos presentes, todos a darem presentes a todos, abre ele o pacote com o Como não morrer e eis que o vejo ficar com ar estupefacto e os filhos a rirem e, ao mesmo tempo, a acharem que era um presente disparatado. Não percebi porquê. Não sei se acharam que era alguma indirecta, assim como se fosse um livro que se dá a alguém que está quase a bater as botas, se quê... Se o livro fosse: Como morrer mais depressa eu ainda perceberia que houvesse desagrado e estupefacção. Agora... é justamente o contrário... Nem é um livro dedicado à terceira idade. Não. É um livro bem escrito sobre as principais doenças causadoras de morte e como a medicina tradicional as encaram vis a vis uma alimentação saudável e equilibrada e um exercício físico adequado para as prevenir e ajudar a combater. Vou lendo aos bochechos e, até ver, estou a gostar de ler. Até estou a pensar oferecer aos meus filhos. Acredito piamente que uma vida saudável e uma alimentação equilibrada são fundamentais. Não garantem a vida eterna -- e ainda bem porque a vida eterna deveria ser uma seca -- mas talvez ajudem a viver melhor.
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As pinturas de Odilon Redon não têm muito a ver com o texto mas também o Vejam bem do Zeca não tem e não é por isso que deixa de ser aqui muito bem vindo.
E, para provar que não há limites para o despropósito e para lembrar que são precisos dois para dançar o tango, trago aqui, uma vez mais, o belíssimo tango dançado por Al Pacino e Gabrielle Anwar no Perfume de Mulher.
E se é bom ver Al Pacino a dançar, imagine-se o que será dançar com ele...
Só para dizer que estou para lá de pedrada. Os dias têm sido demasiado matutinos o que desestabiliza esta noctívaga que vos escreve: um dia são os que estão a fazer um arranjo no jardim que chegam antes das oito, fazendo uma algazarra em que não se acredita, outro dia sou eu que vou fazer análises em jejum e, porque tenho reuniões a seguir, tenho que ir à hora a que as galinhas sacodem a noite, outro dia é o meu marido que está com espertina e mexe-se e remexe-se não me deixando dormir sossegada. Um karma.
Hoje foi um misto de quase tudo isso acrescido de uma reunião que começou à primeira hora e que durou até à hora de almoço, deixando-me exaurida.
Quando, finalmente, me calcei para ir para a caminhada, toca-me o telefone. O meu marido, que queria almoçar cedo para ir comprar umas peças e estar de regresso a horas de expediente, ficou passado, que eu despachasse o telefonema. Impossível. Ele ia de férias, tínhamos que pôr a conversa em dia. Conversa demorada, muita coisa a combinar.
Fiz sinal ao meu marido que fosse indo. Meia hora depois fui eu. Liguei-lhe. Caminhámos na direcção um do outro e ainda fizemos um pouco do percurso juntos.
Depois foi tudo a despachar, mails e mais mails, telefonemas e mais telefonemas -- até que chegou a trupe da minha filha e depois a do meu filho.
Como tinha concentrado tudo até essa hora e sabia que haveria de concluir algumas tarefas ao fim do dia, consegui ir com os meninos e as meninas grandes para o parque.
Quando se encontram, os meninos têm sempre coisas a contar: a minha menina linda, que anda com os olhos muito mais claros, contou que fez surf, que anda a ter aulas -- e demonstrou como é --, os primos, que sabem como é porque já tiveram aulas e praticam com o pai, rebateram, ela disse que não, depois comentaram a tshirt futebolística que o aniversariante recebeu e falaram de outras coisas que mal percebo. O menino mais pequeno, sempre tão querido e tão bonito, faz-me perguntas sempre oportunas e perspicazes e voltou a lembrar-me aquilo do super-herói.
Por enquanto, ainda ficam todos na maior alegria ao brincarem juntos no parque. Mas acredito que dentro de um ou dois anos, pelo menos os mais crescidos hão-de distanciar-se das brincadeiras mais infantis. Aliás, hoje, os três rapazes mais crescidos ou jogaram futebol ou fizeram uma coisa que não sei se dá pelo nome de slide mas que são coisas que já nada têm a ver com escorregas, baloiços ou coisas afins.
E depois voltámos a casa, lanchámos, cantaram-se os parabéns a você, ainda dançámos (os que são de pé leve), ou seja, estivemos juntos que é o melhor e mais importante.
Os meninos crescem e mantêm-se amigos, unidos, e acredito que se sentem amados e felizes.
Abraço-os, beijo-os. Estamos de máscara e ao ar livre pelo que os meus abraços e beijos são covid free. O meu marido lamenta-se: 'já não digo nada'. Não acha bem. A minha nora diz que um deles deve estar carregadinho de covid, que teve um menino com covid na sala. Mas preciso destes abraços e beijos e tenho cuidado pois abraço-os pelas costas e beijo-os na nuca. Penso que eles sabem que a sua Tá não passa sem eles, meus meninos mais queridos.
Quando, ao fim do dia, ficámos só os dois e arrumámos o que havia a arrumar, fui ligar à minha mãe e fotografar a minha exuberante brugmansia suaveolens que, desde que foi aparada, deu em over reacting desatando a parir uma chuva de flores que, ao fim da tarde, quando exalam aquele aroma alucinogénio, atraem abelhas e abelhões que se atiram de cabeça inebriados por aquele perfume sedutor.
A seguir, como não tinha que fazer jantar -- e a bem dizer, também não tínhamos fome para jantar -- pusemos The Crown e eu resolvi vê-la reclinada. E, claro está, imediatamente a coisa se deu. Quando dei por mim foi quando chegou uma mensagem. Disse: bolas, estava quase a dormir. O meu marido disse: quase...? estás dormir há meia hora!
Acho que exagerou. Mas que me tinha apagado, tinha.
Entretanto, já despachei o que me faltava. Não gosto de ir para fim de semana com pendências. Mas, confesso, estou que já não me aguento: não faço outra coisa senão estar para aqui só a bocejar. O meu marido, claro, já dorme a sono solto.
Pelo menos não precisamos de ir ao supermercado neste fim de semana pois fomos na quinta ao fim da tarde, e bem puxado foi.
O meu marido há pouco estava um bocado aborrecido comigo: que não vejo a tensão há vários dias, que ando outra vez a trabalhar demais, que voltei a ir para a cama tarde demais. Diz que parece que não aprendi nada. Não respondo pois receio que tenha razão. Mas não quero que seja assim, tenho que meter travão às quatro rodas.
Este sábado talvez seja relativamente tranquilo. Contudo, antes das oito devo estar a ser acordada e isso não é bom para mim pois preciso dos fins de semana para repor as baterias do sono. Mas, enfim, nada a fazer.
Ou melhor, o que há a fazer é, em vez de carpir, curtir -- estar na boa, partilhar a boa onda.
E, por falar em boa onda e em pé de dança, deixem que partilhe convosco um tango dançado com graça e entrega. Vejam, por favor, pois vale muito a pena: é inesperado e muuuuiiito divertido.
Vi na capa da Revista do Expresso que o MEC está fechado em casa desde Março. Pode estar-se bem em casa e não ter vontade de sair para o mundo. Eu gosto muito de estar em casa e cada vez mais. Deixei de ter vontade de frequentar os meios que frequentei até meados de março deste ano. Contudo, ao fim de poucos dias já me apetece dar uma volta, ainda que pequena. Claro que todas as semanas vou a casa da minha mãe. Mas, tirando alguma excepção, é ir, estar com ela, regressar. Claro, todos os dias fazemos uma caminhada. Mas é uma caminhada por aqui mesmo. Se calhar fazemos uns cinco quilómetros, mas é um percurso, todos os dias variável e aleatório, apenas nas redondezas. Não conta como 'sair'.
Hoje, ao fim da tarde, noite já estupidamente cerrada, fomos até à outra casa buscar o correio, ver se estava tudo bem, as janelas bem fechadas. Estava com receio que algum vidro estivesse aberto e, com esta chuva, seria complicado. E aproveitámos para ir à farmácia. E fui a supermercado lá perto comprar gengibre cristalizado e um produto para móveis de madeira de que gosto muito. Sou muito de produtos de limpeza. Gosto de produtos que limpem bem e tratem o que limpam e que cheirem bem. Um dia que tenha o tempo por minha conta hei-de aprofundar o meu conhecimento de produtos de limpeza. Gosto de os cheirar, mas agora com a máscara não dá. Vou pelo nome, pela imagem. E, para verdadeiramente variar a nossa rotina, fomos buscar comida feita: filetes de peixe galo com arroz de legumes e ovas de pescada cozidas com todos. Trouxemos as caixas. No entanto, os filetes e o arroz estavam muito bem servidos. Foi o nosso jantar. Guardei as ovas e respectivo acompanhamento numa caixa de vidro e ficará para outro dia.
Soube-me bem andar pela cidade, percorrer caminhos que durante tantos anos foram os meus. Gostei mas sem saudosismo. Foi apenas a sensação de andar por lugares conhecidos. Ou melhor: a sensação boa de andar a passear à noite, o tempo frio e húmido. Mas não sinto saudades. É uma página virada.
No entanto, uma coisa estranhei, uma coisa que me incomodou. Por aqui, andamos sem nos cruzarmos com quem quer que seja. De vez em quando há um carro que entra ou sai numa casa, ou algum jardineiro que sai de uma casa para pôr utensílios numa carrinha. Pouco mais. Quem está, está em casa. Para aí uma vez por semana vamos ao supermercado. É um supermercado pequeno e as poucas pessoas que lá andam, andam de máscara. Hoje, na cidade, senti muita diferença. Parecia que não havia covid nem dever de confinamento. Com os passeios cheios de gente, algumas pessoas sem máscara, senti algum desconforto. Desviava-me, com algum receio. Há pessoas que parece que ainda não perceberam. Acredito que, ao ar livre, as probabilidades de contágio são diminutas. Contudo, em ruas com muita gente a cruzar-se em permanência, há que ter cuidado e não vi esse cuidado em mais pessoas do que estava à espera. Somos animais de hábitos, é bem verdade. E rapidamente os adquirimos. Não há muito, apenas alguns meses, eu andava no meio da confusão, frequentava lugares cheios de gente e nem dava por isso. Estava tudo bem. Escadas rolantes com gente à frente, atrás ou a passar-me ao lado, restaurantes cheios, lojas cheias. Tudo me era normal. Agora cruzo-me com algumas pessoas, tentando manter o distanciamento, e parece que até tenho medo das que andam sem máscara e se preparam para, desinteressadamente, passar perto de mim. Se isto se prolongar, talvez me torne um bicho do mato, apenas habituada a conviver por via remota.
Tirando isso: choveu muito de noite. De dia também choveu mas já não chuva tão forte. Não sei se já contei que tenho um pequeno canteiro de flores mesmo debaixo da janela do meu quarto. Hoje estavam meio tombadas tanto o peso da chuva. São lindas mas, pelo que vejo, frágeis. A relva, sob a abóbada de buganvílias, está cheia de pétalas rosa, fúcsia, carmins: a chuva faz cair mais rapidamente as pétalas. Continuam tão bonitas. Encanto-me com a sua delicadeza e cor. Há um pequeno arbusto que não sabia o que era e que agora está com umas flores a despontar. São tão afirmativas e perfeitas que acredito que talvez sejam camélias. A ver se amanhã uso a app de reconhecimento. Também aqui começam a aparecer os cogumelos mas são mais trabalhados do que os que rebentam da terra in heaven. Os pássaros comem os bagos das romãs. Nas árvores ficam as cascas vazias. Há sempre melros (e também corvos? -- tenho que aprender a distingui-los) a debicar estes belos frutos. Tenho apanhado as que resistem. Hoje de manhã misturei kefir, dióspiro, baguinhos de romã, cajus, arandos e canela. Tão bom, tão bom. Começo o dia com alegria, comendo estas coisas. Depois, um café quentinho, cremoso. A alma quente.
Esta sexta-feira, a seguir ao almoço, resolvi ir arrumar os LP's. Comecei por fazer o que sempre faço, quando entro numa de arrumações. Tudo no chão, a fazer montes por género. Os do Zeca, os do Vitorino, os do Sérgio Godinho, os do Adriano. Os brasileiros: Gal, Bethânia, Chico, Gilberto Gil, Rita Lee, Ney, Simone. Os Beatle, Bob Dylan. Joan Baez. Janis Joplin. Paul Simon. Simon and Garfunkel. David Bowie. Etc. Blues, Jazz. A pilha maior: a dita clássica. Depois resolvi ir buscar um pano para limpar bem. Depois não encontrava um pano. Fui à cave à procura. Na cave, pus-me a arrumar coisas. Quando encontrei o pano de que andava à procura já era hora de ir trabalhar. Há bocado o meu marido foi ao sótão e, ao regressar, perguntou-me porque é que o chão estava pejado de discos. Como se não soubesse. Pode não ser adepto dos meus métodos mas conhece-os. A ver se este fim de semana limpo e arrumo tudo isso, incluindo também os cds. A questão é que sobra um cabo que não descobrimos onde se liga e, não sei se por isso, aquilo não toca. É mau, isso. Arrumar tudo vai dificultar virar aquilo ao contrário para ligar mas não gosto de ter coisas por arrumar.
Quanto ao Trump nem sei já o que dizer. Desconhece o que é a dignidade. Vai sair pela porta baixa. Vai acabar falido, miserável, sozinho. E o Bannon, aquela monstruosa e sinistra figura, agora ainda mais aterrador com aquele cabelame comprido, vai acabar no manicómio. Patifes e psicopatas. Não me apetece falar deles. Uma era sombria da história.
O que vale é que já estamos no fim de semana. Aleluia.
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Nestes dias em que escrevo sem ter nada que dizer, escrevendo apenas porque me apetece escrever, chego ao fim a sentir que o mais certo é estar a defraudar as expectativas de quem aqui venha esperando encontrar alguma coisa que se aproveite; e, por isso, a ver se compenso minimamente a paciência de quem tanto me atura, sinto vontade de oferecer alguma coisa que seja bonita, boa de receber.
Assim é hoje. Aceitem, pois, o Tango of Love de Eleni Karaindrou. Gosto de tangos e espero um dia ir aprender e andar pelos ares como estas mulheres que aqui rodopiam. Espero que também gostem -- da música, de dançar, de querer andar pelos ares, de voar nos braços de quem amam (mesmo que só em imaginação).
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As maravilhosas fotografias fazem parte das vencedoras do International Photography Awards™ 2020 e vêm ao som de, lá em cima, By the sea, tambémde Eleni Karaindrou
Foi como tinha dito: o que receava aconteceu. Talvez amanhã se deslinde e se tracem caminhos. Tomara. Mas, para já, a nebulosa paira sobre as coisas. E adensam-se as denúncias. Por algum motivo parece que quem calou queixas e acusações durante anos, de repente, encontrou alguém que os ouça. Mas ouvir coisas destas é um peso, uma responsabilidade. Não se pode fazer de conta que não fomos alertados. Temos que ir atrás, averiguar, ir até às últimas consequências. E, face a isto, não sei o que vai seguir-se. Quando mostro não saber como chegar às provas, recebo a seguir mensagens ou mails com novas pistas.
E surgem outros factos: provas de deslealdade. Coisas feias. Surgem-me apenas com as palavras 'para conhecimento'. Por vezes, ainda mais laconicamente: Pc. E, abaixo ou em anexo, o comprovativo de que há pessoas que são cobras venenosas, hienas traiçoeiras. Olho e, uma vez mais, fico sem saber como digerir. Não é que me surpreenda. Nada. Fico é a pensar: e agora? o que faço com isto?
Enquanto escrevo, vejo a Paula Moura Pinheiro na Visita Guiada, na Serra da Estrela, com convidados que, fellizes, sorridentes, relatam a ventura da vida que ali se encontra, relatam aspectos relacionados com as espécies. O senhor, um biólogo, fala, com felicidade, das lagartixas da montanha ou das plantas que lá nascem, cor de rosa. Como o percebo... Penso muitas vezes que há boas profissões. Estas pessoas não sabem o que é a vida peregrina em lugares em que as lagartixas apenas dão pelo nome de répteis e as flores seriam fleures du mal se houvesse ponta de poesia nos enredos com que se cosem.
Ao fim do dia, a querer desligar, o tempo esfriava. Resolvi apanhar a caruma sobre a relva, regar, fotografar as flores. Fui duas vezes lá ao fundo, muito devagar, tentando não fazer barulho, na esperança de dar com a raposa. No domingo, falando sobre ela, perguntei como é que se faz para atrair uma raposa. O meu filho respondeu: 'Arranjas uma galinha'. Não arranjei mas não vou desistir.
Estou cada vez mais convencida que há por aqui um pica-pau. Ouço um toc-toc-toc vindo das árvores, um toc-toc-toc firme, repetido. Também terei que tentar descobrir quem faz aquela espécie de martelar localizado nas árvores. E descobri uma romã oca. A romãzeira está carregada de romãs mas uma está oca. Tenho que me encher de coragem e, quando aqui chego ao fim do dia já sem pingo de energia, ir buscar a máquina e passar as fotografias para o computador. Deveria ilustrar o que estou a dizer com a imagem. Não percebo bem como aconteceu aquilo mas só me ocorre que os pássaros tenham comido, grão a grão, tudo, deixando apenas a casca.
À hora de almoço passei a ferro os cortinados brancos que ontem tinha lavado e deixado de molho em água e lixívia. Um tecido vagamente alinhado, difícil de engomar. Bem lhes dei com vapor, bem os humedeci. Grandes, franzidos, metros e metros de tecido. A bainha é bonita, tem uma fiada em ponto ajour, aberto. No fim, para não se amarrotarem, coloquei-os abertos sobre os sofás. Pareciam dois grandes véus de noiva. Até me fez lembrar o lindíssimo véu de noiva da minha filha, comprido, branco, com o peso elegante da renda, muito bonito. Pensei que se calhar será a nossa princesinha mais linda, cada vez mais a ganhar jeito de pré-adolescente, que um dia o usará. Mas depois deixei esses pensamentos para lá pois, parecida comigo como é na maneira de ser, ainda vai achar que casar não é sinónimo de a gente se fantasiar e ainda se casa vestida de calcinha branca justa, túnica curta transparente e com rendinhas. Mas depois refinei no pensamento e pensei que se a vovó aqui ainda estiver cá para opinar, talvez a convença a ir como quiser mas a pedir o véu emprestado à tia. Amiga de arrojar como ela é, ficaria um espanto.
Agora à noite, antes de jantar, estive a pendurá-los. Acho que já contei: teve que ser varão novo. Por defeito trazia argolas e eu fiquei toda contente, um pack completo. Mas, afinal, eram poucas. Os cortinados são grandes e com muito franzido, não são daqueles que ficam ralos. Por isso, convenci o meu marido a, no regresso, voltar lá para trazer mais uma embalagem de argolas. Depois dele as ter posto no varão, subi eu para pendurar os cortinados. Ficaram bem bonitos. Aqui as janelas vão até mais acima do que as da outra casa e, além disso, o varão também está mais acima do que é costume. Mas as janelas, estas em concreto, não vão até ao chão. Vão quase mas não chegam. Ficam com um parapeito interior onde nos podemos sentar. Então os cortinados não chegam ao chão mas ficam ligeiramente abaixo da janela. Gosto de ver.
Também resolvemos um dilema que tínhamos e que a anterior proprietária me confessou que nunca tinha conseguido resolver. Ao fundo, ao canto, a cozinha tem uma reentrância. Lá dentro, a toda a volta, prateleiras. Uma despensa com tudo à mão de semear. Como há a cave para as arrumações, ali é mesmo só para os produtos de primeira necessidade. E tudo completamente à vista, nada encafuado. Só que eu não gostava de ver aquela reentrância. Tudo branquinho e depois aquela coisa ali, uma abertura para prateleiras à vista. Mas não sabia o que ali pôr. No outro dia, quando cá esteve, perguntei à senhora. Disse-me que tinha tentado um estore, uma porta dobrável, várias soluções ao longo do tempo mas que nada era prático. Tinha desistido. Lembrei-me de um varão branco extensível e de um cortinado branco, opaco. Fui aos chineses e ficou tudo resolvido. Mal se dá por ele, fica na continuidade. E é super prático, é só afastar. Ao todo devo ter gastado uns vinte euros. Abençoadas lojas dos chineses.
E assim vão correndo os meus dias. Em breve vou voltar ao regime presencial, pelo menos em parte (isto se, entretanto, os números não vierem a aconselhar maior prudência). Também quero ver se me habituo a vir para aqui mais cedo para ver se vou mais cedo para a cama e para ver se arranjo energia para responder aos comentários. Sinto-me sempre em dívida. Tenho que ajustar os meus hábitos para conseguir chegar ao fim do dia com capacidade para falar com quem aqui deixa a sua opinião. Não levem a mal. E saibam que vos agradeço.
Mas o absurdo é que, antes de começar a escrever, tinha escolhido os dois vídeos abaixo e a minha ideia era escrever sobre mulheres que se chegam à frente, que dizem o que querem, que não se deixam ficar, que não se cortam, que ousam, que sabem divertir-se. Depois, sei lá como, distraí-me. Mas não faz mal, os vídeos ficam aqui na mesma. Acho-os um espanto. Espero que gostem.
Para que conste: ansiava por um dia de férias. Sozinha. Tinha uma em mente. E requeria horas seguidas por minha conta. Melhor se pudessem ser vários dias e não apenas um. Mas é o que é, um dia, e quando puder voltar a ser, será.
Senti-o levantar-se, tomar banho -- e pouco mais. Voltei a adormecer. Mas não acordei tarde. Sabia que o tempo ia ser curto para a aventura que, há tanto tempo, estava latente.
Por isso, nem me detive muito no pequeno almoço: uma banana, um dióspiro, três ou quatro amêndoas, um café.
E, depois, ala.
Comecei pelo meu quarto. Mais concretamente pela minha mesa de cabeceira. Poupei a gaveta de cima. Ficará para segundas núpcias. As três de baixo. Depois passei para a cómoda, mais concretamente para as duas gavetas de cima, as minhas. Dois gavetões.
Antes, fui à despensa buscar o rolo dos sacos grandes pretos, daqueles quase tipo contentor.
Não me pus com aquela de as coisas me fazerem feliz. Nada disso que não sou de filosofias quando o tema é arrumações: se estão em condições, se é provável que as volte a usar, então para um lado. Se já não me serve mas ainda está em bom estado e bonito e talvez as meninas grandes lhe venham a dar uso, para outro. E se algumas são tão pequenas e justas que talvez venham a servir, um dia destes, para a menina mais pequena, para outro. O resto, num saco para dar. O que não tem préstimo para ninguém: lixo.
Nisto uma coisa me deixou verdadeiramente espantada: como já fui tão magra. Olho para algumas peças e não percebo como foi possível lá ter cabido dentro. Mas no outro dia, ao ver fotografias de há uns anos, constatei como o meu corpo se modificou. Grande parte das pessoas acha que estou bem mas eu sei que devia ter menos uns três ou quatro quilos. A verdade é que, quando casei, vestia o 36, depois de os meus filhos nascerem passei para o 38, ali pelos quarenta e tal anos, em alguns modelos, já ia no 40 e, depois da menopausa, galgou para o 42 -- e já desisti, daqui não baixa. Se vou à nutricionista e corto drasticamente calorias e mudo completamente os meus hábitos, abdicando de muito do que gosto, volto ao 40. Mas como não nasci para sofrer e tenho muita dificuldade em abdicar do que gosto, passado algum tempo já regressei ao 42. Portanto, por muito lindos que sejam os meus vestidos, as minhas saiinhas bem justinhas, as minhas blusinhas bem cintadinhas, a verdade é que já não são para mim. Portanto, bye bye e coração ao largo.
Ao fim da tarde, já tinha também dado a volta ao roupeiro do closet. Aquele roupeiro é um quebra-cabeças. Quando a minha filha saíu, deixou imensa roupa, quase toda a que usava antes de começar a trabalhar. Não consegui desfazer-me da que estava em bom estado. Com o meu filho foi a mesma coisa: deixou praticamente cá tudo. E ainda tudo cá está. Depois a roupa que foi deixando de servir também ao meu marido e que estava boa, idem. Já teve muito mais peso. Quando os miúdos vêem fotografias dele com mais cabelo, o cabelo mais preto, e mais gordo desatam a rir-se, mostram uns aos outros, alta galhofa, quase sem acreditarem que aquele quase badocha é a mesma pessoa que o esbelto grisalho que tão bem conhecem. Portanto, fatos, casacos, blusões, sobretudos, parkas, etc, tudo impecável mas grande demais. Ou seja, este roupeiro que é grande, em vez de ter serventia, está transformado num depósito de peças de utilidade duvidosa.
Retirei peça por peça, vesti cada uma das minhas, avaliei o estado, avaliei a possível reutilização.
Custou-me bastante pôr de lado a roupa dele, casacos tão bons, coisas em tão bom estado, mal empregadas. Mas não foi fazer uma dieta de engorda para dar uso àquilo, não é?
Fiquei surpreendida como blusas minhas que tinha posto de lado por terem enchumaços e por me terem ficado largas ou apertadas, nem sei, e que agora, vestindo-as, me parecem bem. Fui buscar a tesoura de costura e retirei-os. Voltei a vesti-las e foi como se me tivessem saído na rifa.
No fim, havia um saco grande de coisas para o lixo onde se incluíam os enchumaços, cabides que se partiram ou que estavam meio mancos, roupa manchada pelos anos de prolongada quarentena e quatro sacos com roupa para dar. E um quinto com roupa que vou levar para o campo pois o nível de exigência lá é menor e roupa mais descontraída, solta, larga e confortável é sempre útil.
Quando o meu marido chegou, encontrou-me nesta faena. Assustou-se com aquela sacaria (e ainda nem se apercebeu do saco para levar para o campo; mas os roupeiros lá também estão a precisar de levar uma volta). Olhou para o monte de roupa dele que estava para conferir e declarou logo: lixo! Mas eu disse-lhe que, se eu tinha tido paciência para estar há bem mais de oito horas de seguida a arrumar roupa, seria incompreensível que ele não tivesse paciência nem durante um quarto de hora. Lá se esforçou. Mas não há dúvida: jamais voltará àquele peso. Deve ter pesado uns noventa quilos. É alto mas, ainda assim, agora que deve andar pelos setenta e tal (acho eu: ou será oitenta? -- não faço ideia) é que está bem.
Depois tomei um belo banho, vesti-me e fomos passear para a praia. Estava precisada de respirar e de esticar as pernas. De caminho, já levámos dois sacões para o depósito das roupas. Amanhã levamos os outros.
Estava uma noite tranquila, o mar quase silencioso, distante, a maré vazia. E a noite estrelada. Foi bom andar a passear ao fresco. Depois fomos jantar. Já não era cedo.
Contudo, quando cheguei a casa ainda fui arrumar umas coisas. Lembrei-me que o roupeiro do quarto do meu filho ainda tinha muito espaço livre. Por isso, levei para lá parte da roupa que acho que pode vir a ser do agrado das meninas crescidas. Assim, conquistei espaço no outro roupeiro.
Falta-me agora a pièce de resistance: o roupeiro grande que mandei fazer no que era o quarto da minha filha e que se tansformou no meu boudoir, na minha arca dos mil tesouros, a gruta onde a princesinha mais linda gosta de se embrenhar para ir buscar coisas para se produzir.
Precisava de mais uns dias de férias assim, sozinha em casa, para poder completar a empreitada.
Ah, é verdade: para arrumar as gavetas adoptei o método da Maria Kondo. Dantes sobrepunha as peças. Agora não, agoro, dobro-as dobradinhas e ponho-as ao alto: cabe muito mais, está tudo à vista. Ficam umas gavetas mesmo bonitas, arrumadinhas de dar gosto. Uma belezura.
Finalmente: podem achar que não sou boa da cabeça -- e não vou ser eu que vou tentar convencer-vos do contrário até porque, cá para mim, são bem capazes de estar certos -- mas a verdade é que gosto de fazer este género de arrumações profundas, que implicam reorganizar os espaços. Mas, como no outro dia disse à Susana, a minha motivação para estas coisas vai apenas para roupas, sapatos ou livros (embora, no caso dos livros, não me desfaça de nenhum) mas não para peças de decoração. Não estou a ver-me a pegar nas minhas clepsidras ou caixinhas ou quadros ou molduras ou mesinhas de apoio e pô-las à venda no OLX. Mas nunca se sabe. Há pessoas que dizem que a prova de que, no passado, fizeram bem as coisas é que, se fosse hoje, voltariam a fazê-las da mesma maneira. Eu nunca disse tal coisa. Eu faria sempre as coisas de outra maneira, tentaria fazê-las melhor. Com o tempo vou aprendendo e mal fora que a aprendizagem não me servisse para nada. Portanto, com o crescente gosto que tenho pela simplicidade, quem sabe um dia não começo mesmo a seguir o exemplo da Susana?
Com isto tudo, já são três da manhã e nem vou ter tempo de responder ou agradecer os comentários (mas li-os!). Estou um bocado estafada pois passei horas a subir e a descer a mini-escada para tirar e pôr os cabides nos varões de cima, ou agachada ou de joelhos para arrumar as gavetas de baixo. E este sábado tenho que me levantar cedo pois outro dia de trabalho me espera. As minhas desculpas.
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Ao som do Libertango de Astor Piazzolla dançado por dois homens, Sebastián e César, usei as fotografias do último post de Steve McCurry: Power of Gatheringde onde extraio algumas assisadas citações: This is the power of gathering: it inspires us, delightfully, to be more hopeful, more joyful, more thoughtful: in a word, more alive.
– Alice Waters The table is a meeting place, a gathering ground, the source of sustenance and nourishment, festivity, safety, and satisfaction. A person cooking is a person giving. Even the simplest food is a gift.
– Laurie Colwin
NB: Obviamente as fotografias não têm a ver com o texto, estão aqui por elas próprias.
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E a todos desejo um belo sábado.
Paz e amor. Saúde, sorte e dinheiro. E harmonia e beleza. Essas coisas, vocês sabem.
Só para dizer que continuo desinspirada para fazer compras de natal. Passo pelo comércio e ponho-me ao largo. Aversão ao consumismo, às barafundas. Sei que, à medida que o dia se aproxima, cada vez há-de ser mais difícil; mas ainda não desceu em mim a interiorização da necessidade. Só me apetecia chegar à véspera e ao dia e haver só a companhia uns dos outros, zero presentes. Mas os meninos não perceberiam pelo que, paciência, lá terá que ser qualquer coisa para cada um.
Também ando sem paciência para as cenas do PSD. No outro dia calhou ver aqueles três da vida airada, cocó, ranheta e facada mas foi coisa passageira, nem três minutos aguentei. Nada naqueles três é interessante. Fazem parte do passado. O meu mundo não é o deles.
Do resto, os outros partidos ou andam às aranhas ou a trilhar os caminhos do populismo ou, no caso do PS, a governarem na boa, sem qualquer oposição. E, assim sendo, porque as boas notícias não têm que se lhe diga e às indigências a gente deve poupar, não me detenho na matéria. Se a comunicação social não andasse com alguns ao colo, desapareciam por si.
Do Trump, esse narcisista em decomposição, também já mal consigo falar. Não gosto de falar de zombies, de parvalhões que já mal se aguentam de tão desintegrados que já estão. E do Bolsonaro, esse outro animal que os brasileiros resolveram eleger, também não vou falar. Não vale dois réis de prosa fiada. Ou de outros.
Nem tenho nada a dizer sobre a vinda do Bibi e do Pompeo para falarem um com o outro nem me apetece falar da campanha americana anti-China. Tudo uma cambada. Mas não é perto das duas matina que vou maçar-me com essa camarilha.
Podia, claro, ao menos falar do ódio ou desprezo inexplicáveis que algumas pessoas, do alto da sua ignorância ou pesporrência, sentem pela Greta mas falar disso poderia enervar-me e eu, santa paciência, tento poupar-me.
Podia falar de outras coisas. Por exemplo, dos loucos e loucas que assomam às janelas da blogosfera para inventarem narrativas destrambelhadas, para moerem a paciência a quem lhes cai no goto, para fazerem cenas patéticas. Gente demente que não sei se na vida real mostra a psicopatia que lhes corre nas veias ou se conseguem disfarçar. Mas não vou falar de stalkers, paranóicos e outros e outras totós. Até porque não há pachorra.
Ou podia ainda falar das secas que, parecendo que não, apesar da boa companhia e das conversas simpáticas, são os jantares e almoços de natal. E, em cima desses, outros. Ainda hei-de perceber o que dá na cabeça de tanta gente para desatarem a organizar almoços específicos como se os 'oficiais' não fossem mais do que suficientes. E mais os almoços de despedida para homenagear os colegas que resolveram que já mais do que deram para este peditório e que, segundo dizem, vão abraçar novos desafios. E vá de almoço. Se me vejo sem compromissos durante dois ou três dias de seguida até digo que é mentira.
Devia era ficar a dormir até às onze, depois ir caminhar na praia, depois petiscar, depois dormir a sesta, depois ler, depois ir caminhar no campo, depois regressar a la maison, beber um chá quente. Etc. Coisas assim. Uma vida regalada. Anseio. Ou ir de férias para uma aldeia aí perdida no meio das serras.
Vou é mas é ver se consigo acordar o meu marido para vir aqui dançar um tango comigo. I'm in the mood. Embora mais em sonho do que na realidade até porque já estou a dormir.
Já trouxe para aqui algumas companheiras para a dança: algumas das beldades que valorizam o Calendário Pirelli 2020 com fotografia de Paolo Roversi.
Looking for Juliet...? Não sei, não... Quero é dançar. Na boa. Nem que seja mulheres com mulheres. Até porque o tango era homem com homem.
Mas pronto, vá, para que não vos pareça insensível, aqui fica um cheirinho de amor em poema pelas meninas bonitas do Pirelli possuídas pelo espírito da Julieta -- e não se fala mais nisso.