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sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

sábado, junho 27, 2026

Casas com livros

 

Hoje, por cá, foi dia de ponta. E, ao dizer isto, de novo, só me apetece gozar comigo. A mesma pessoa que tinha reuniões de manhã à noite, que tomava decisões com impacto na vida de muita gente ou relativas a negócios de milhões, agora chama dia de ponta a uma vulgar sexta-feita em que as tarefas se reduzem a ir às compras, arrumá-las, pôr a roupa a lavar e estendê-la, trocar parte da terra de alguns vasos e adubá-la, regar, cozinhar para hoje e para amanhã, ir ao ginásio, passear o cão, rever umas prosas -- tudo coisas deste simples calibre. Mas a verdade é que foi o dia todo a fazer isto, fazer aquilo, ir aqui, ir acolá, sem tempo para me sentar ao sol a ler nem por um bocadinho.

Continuo sem um pingo de saudades da minha vida profissional. Gostei muito, sentia-me motivada todos os dias mas, ao fim de décadas, senti que já chegava, que precisava de me libertar das amarras dos horários, das obrigações, do stress de ter que estar permanenetemente a tomar decisões, da prisão que a responsabilidade constituía. E continua feliz, deslumbrada mesmo, com esta minha vida actual.

Mas antes, durante a semana, não almoçávamos em casa, pouco estávamos em casa. Portanto, tinha muito menos compras para fazer, menos refeições para preparar. Agora é uma coisa que me espanta e que, de certa forma, me complica com os nervos: passo a vida a ter que comprar fruta, legumes, iogurte, queijo, peixe, carne. E mil outras coisas. Uma canseira. E, vivendo num apartamento, não havia nada dos trabalhos que hoje temos relacionados com o jardim, e que são permanentes. E não tínhamos cão. Se hoje não o tivéssemos não teríamos os nossos dias tão preenchidos (a todos os níveis) como hoje temos, e adoro, mas o pretexto que nos dá para ir passear com ele é, ao mesmo tempo, um hábito que consome tempo (e, desejavelmente, calorias). 

Resultado: agora ao fim do dia, o meu marido foi buscar o jogo de futebol que só tarde e más horas percebeu que tinha dado.... e, para mim, o som dos jogos de futebol é melodia para adormecer. Dormi profundamente. Só espero que agora não me faça ter insónia na cama.

Mas tinha ideia de ter começado um livro e não consegui. Já tenho várias pilhas de livros espalhadas por vários cantos. Aborrece-me arrumar nas estantes livros que ainda não li, tenho sempre a sensação de que livro arrumado é livro desaparecido, sugado pelos restantes. Mas isso traduz-se em desarrumação.

Estive a ver a casa que aparece no vídeo que aqui partilho e gostei imenso. É o oposto da minha. A minha casa tem cores, é pouco monocromática, e tem alguns pequenso focos de bagunça. Esta que aqui se vê é uma casa tranquila, elegante, muito organizada. A biblioteca é fantástica. Não há nada que dê mais vida a uma casa do que os livros. Uma casa na qual não se veem livros revela que lá dentro há pessoas com a cabeça um bocadinho oca. Acho eu.

Uma bonita casa de campo inglesa repleta de livros e achados vintage | Tour pela casa

Entre numa casa de quinta da década de 1750, maravilhosamente restaurada, na Cornualha, onde a jornalista que se tornou instrutora de Pilates e amante de livros, Christen Pears, criou um lar acolhedor e cheio de personalidade, com design vintage, tesouros colecionados e milhares de livros.

Após anos a viver no estrangeiro, Christen e o marido regressaram ao Reino Unido e transformaram esta histórica quinta de 1750 num refúgio acolhedor e cheio de personalidade, com mobiliário escandinavo de meados do século XX, materiais reciclados, tesouros colecionados e renovações cuidadosas.

Desde a icónica parede com livros de bolso da Penguin e a lareira original do século XVIII à encantadora despensa, ao jardim florido e à deslumbrante biblioteca no celeiro, cada recanto reflete um estilo de vida mais lento e intencional.

Situada na zona rural da Cornualha, a propriedade inclui ainda casas de férias, um estúdio de Pilates, hortas e espaços concebidos para encontros, leitura e para se desligar do ritmo frenético da vida moderna.


Desejo-vos um bom sábado

sábado, junho 06, 2026

Colheita Feira do Livro de Lisboa 2026

 

Cá estão eles, conforme ontem tinha dito. 

Mas, antes de transcrever uma página de cada, explico porque os comprei.

  • Comprei o livro da Carla Pais e o do Nuno Duarte pois foram vencedores de prémios Leya e tenho curiosidade em perceber que género de livros estão os jurados a valorizar. Em concursos alguns anteriores, li-os e fiquei intrigada pois não consegui levá-los até ao fim, mal acabava de ler já me tinha esquecido do que tinha lido (e até tenho boa memória), e, enquanto os lia, não via interesse nem na história nem no rasgo literário. Claro que pode ser um problema meu, ou pode acontecer que, nessas vezes, eu estivesse a passar por uma crise aguda de exigência. Por isso, vou fazer nova tentativa com os dois últimos.
  • Comprei o '1984' pois acho que já o li mas, ao vê-lo no stand, ocorreu-me a dúvida se o teria. Como estava a um bom preço, pensei que mais valia trazer não fosse já não o ter cá em casa.
  • Comprei o da Lídia Jorge pois acontece que também tenho alguma dificuldade em manter-me interessada quando tento os seus romances. Como fez um grande discurso o ano passado no 10 de Junho, em Lagos, e está incluído neste livro de crónicas e não a conheço enquanto cronista, resolvi trazer.
  • Comprei o da Siri Hustvedt porque tenho simpatia por ela e porque gosto de ler memórias e tenho curiosidade em acompanhar a sua vida, não apenas enquanto mulher e viúva de Paul Auster, mas também enquanto pessoa autónoma e escritora.
  • Comprei o de Leonardo Sciascia porque o Paulo Portas o recomendou e, até ver, quando seguimos as suas recomendações, não nos temos dado mal.
  • Comprei o de Laura Agustí porque gostei da capa e porque fala de flores.

E agora a transcrição de uma página de cada livro. Fotografei e pedi à IA para passar a imagem a palavras. 

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(...) possibilidades: ou a senhora Roscio e o seu primo tinham sido surpreendidos em flagrante crime de adultério, como se diz nos processos verbais da polícia; ou Roscio não tivera qualquer suspeita, mesmo fundamentada, da sua ligação. No primeiro caso, devia reconhecer-se um comportamento muito estranho: ver, declarar friamente ao amante da sua mulher a intenção de o esmagar ali; depois, organizando a vingança, manter com o homem odiado um relacionamento cordial. No segundo caso, ficava por explicar como Rosello tinha sabido o que Roscio tramava contra ele. Havia, é verdade, uma terceira hipótese: que a senhora Roscio, inocente, tivesse sido seduzida, enganada, pelo primo, perseguida pelas suas assiduidades, e tivesse avisado o marido, ou, ainda, que o marido se tivesse apercebido disso. Mas, nesta última hipótese, assegurado da fidelidade da mulher, Roscio ter-se-ia limitado a modificar ou a romper as suas relações com Rosello. A sua compreensão e a sua tolerância para com as paixões humanas, perante esta ofensa irreparável, mesmo que apenas projectada, não podiam ter evoluído até ao ponto de procurar uma vingança irreparável.

Poder-se-ia, todavia, considerar que ele não tinha ido encontrar-se com o deputado comunista a não ser para verificar se este estava disposto à denúncia; que ele não tinha ainda resolvido exercer a sua vingança, e havia, aliás, claramente declarado ao deputado que devia ainda decidir que lhe diria tudo ou nada, segundo... Segundo o quê? Segundo o quê, sob a ameaça, Rosello mudaria ou não de comportamento?

Por conseguinte, ao ameaçá-lo abertamente, Roscio tinha-lhe posto uma condição? Era necessário, neste caso, voltar à primeira hipótese: a uma maneira mais estranha de se comportar, no estilo floreado continental, ou de cinema, da parte de um marido enganado mas apaixonado pela sua mulher, decidido a conservá-la contra todos e contra tudo. E embora Laurana julgasse severamente toda a maneira de viver governada pelas paixões, particularmente pelas do amor-próprio e da honra, não podia fazer de outro modo que o de sentir, na sua hipótese, uma falta de respeito pela memória de Roscio: era por isso que fazia todos os esforços por a demolir, por a aniquilar. Mas seja qual for a maneira como se encare o assunto, este tinha algo de equívoco, de ambíguo: mesmo que não aparecessem ainda muito claramente as relações de causa e efeito, as relações dos protagonistas entre eles, dos elementos de que dispunha com o mecanismo do crime. E no equívoco, na ambiguidade, Laurana sentia-se moral e sensualmente implicado. (...)

in 'A cada um o seu' de Leonardo Sciascia

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Na primavera, o jardim da minha mãe torna-se um espetáculo de calêndulas e outras flores, que crescem com vigor, e ela envia-me sempre fotografias para que eu veja como evolui cada uma das plantas. O jardim, quadrangular e quase tão amplo quanto a casa, tem uma secção dedicada à horta, onde o Francesco, o seu companheiro, planta curgetes, pimentos, tomates, beringelas, alhos e cebolas. Todos os anos acaba por semear mais do que o necessário, e a colheita é tão generosa que a minha mãe costuma repartir as verduras entre as amigas, para que nada se perca. Apesar das suas tentativas de convencer o Francesco a plantar menos, ele entusiasma-se sempre com a horta, como tantos outros reformados que encontram na jardinagem uma forma de se manter ocupados e produtivos.

Quando construíram a casa, a horta era uma das ideias-chave do Francesco. Instalaram mesmo uma cisterna para recolher a água dos telhados e poder assim regar sem depender da rede pública, um recurso especialmente valioso numa província seca como Teruel. Agora estão a pensar em ampliar a cisterna, devido ao aumento de restrições ao consumo de água.

A calêndula, que cresce com abundância no jardim, é uma planta bastante resistente, que não exige muito da terra e tolera bem tanto as geadas como as secas. Além de ser decorativa, tem aplicações práticas: as pétalas podem substituir o açafrão-das-índias como corante, e as propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes fazem dela uma base ideal para a confeção de cremes caseiros. Todos os anos, a minha mãe aproveita a colheita de calêndulas para fazer o seu próprio creme, e eu guardo os boiões vazios do que gasto durante o ano para que ela possa enchê-los com a sua produção artesanal. (...)

in 'Furor Botânico' de Laura Agustí

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(...) corre que se desunha, rapaz, se queremos que aprendas a ler em condições devemos correr atrás dele, quando não, será tarde demais, dizia-lhe isto porque nunca voltava inteiro das ausências, ficava sempre mais qualquer coisa perdida naquele vácuo para onde desaparecia enquanto o Victor lhe enchia o cachimbo com tabaco e o calcava no fundo, era como uma parede a que iam sendo retirados tijolos, seria chegado o dia em que desabaria, e nesse dia não haveria nada mais a ensinar e nada mais a aprender. Não tem filhos?, perguntou-lhe o Victor, e o Ângelo respondeu, tenho três, mas têm mais o que fazer do que aturar um velho rabugento, moram longe, um está na Alemanha, outro no Canadá, o terceiro é professor universitário em Coimbra, vê lá tu, e o Victor disse, o meu irmão vai para a Universidade, não sei se para Coimbra, e o Ângelo respondeu, pois faz muito bem.

O Vicente deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse, anda lá, vá, disse-lhe aquilo e ele foi como foram todos, mas o que o apoquentava desde esse dia não era ter ido, era ter sido o último a ir como se algo dentro de si dissesse, fica, fica, fica, a coisa má dos Tirapicos, uma espécie de desejo mórbido de ser preso outra vez, uma vontade de se vingar do flato do pai, ter um filho ladrão e também subversivo, talvez até comunista, porque não?, o que não faltava em Alcântara eram reuniões clandestinas do Partido, se quisesse mesmo muito poderia aderir, fazer parte, mas nesse caso seria o comunista mais estúpido de sempre porque estaria a arriscar a prisão e a tortura apenas e só por despeito a um velho agonizante, e não por acreditar naquilo, sabia lá ele em que é que acreditava, tudo o que conseguia distinguir era aquilo em que não acreditava, sempre era melhor do que nada, e não acreditava nos cabrões dos americanos que diziam que a grua tinha sido verificada na semana anterior. Deu outra vez por si de punho (...)

in 'Pés de Barro' de Nuno Duarte

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(...) escala, sem sabermos como sair deste imbróglio. A questão não é de deformação por uma espécie de justiça essencial como a que movia Maria das Dores, ou pelos sentimentos contrários que tenham a ver com poder ou ressentimento. O problema é da ordem do embate entre o antropológico e o tecnológico em cuja encruzilhada nos encontramos perplexos. Li num artigo assinado pelo jornalista José Vegar que «a quantidade de informação transmitida por telecomunicações durante todo o ano de 1986 poderia ser transmitida em apenas dois milésimos de segundos em 1996».

Vinte e oito anos depois, a estrela irradiante que é a pulsão comunicacional como é descrita? Não tem descrição possível. Um mundo inimaginável de imagens, números e sinais crípticos expande-se pelo universo e leva-nos na enxurrada. O que entra nessa cadeia infinita não se retira mais, ainda que se apague. Esta é a eternidade que criámos. A responsabilidade por colocar mensagens que tenham a ver com a verdade nesta cadeia transfiguradora deveria por isso inserir-se na Ética e na Moral. Mas onde bater à porta de semelhante igreja?

5.

O ano de 2024 que agora entra, se acaso a História continua a ter parecenças com a lógica de uma narrativa, depois dos nós que se ataram, sobretudo desde há dois anos, estas guerras devem começar a ter suas peripécias definitivas e seus desenlaces, ao longo dos próximos meses. É possível (...)

in 'O céu cairá sobre nós' de Lídia Jorge

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(...) que a criança se perdesse no seio dos homens de barba feita e pés valentes, fizera-se ali um lugar para ele por ter aquele dom de falar com as pedras e por trazer àquelas almas uma certa curiosidade envolta de misticismo. Era preciso acolher aquele enviado, vigiar todos os sinais que o corpo transmitisse. Cada palavra, dita ou por dizer, podia significar uma profecia de oráculo que decifrasse a vontade de Alá. Davam-lhe livros sagrados a estudar, a decifrar, a ler em voz alta num refúgio da mesquita a que apenas os homens cultos tinham acesso. Uma espécie de quarto recôndito que se fizera para ouvir e refletir sobre as palavras do Profeta e assim preparar o sermão da sexta-feira para os fiéis. Mohamed fizera-se homem dentro daquele lugar. A cumprir o desejo do pai e a cava fé da mãe, orgulhosa que ficava a olhar para ele como um salvador tocado pela divindade e, por isso, aliviada das possíveis agruras que a vida lhe pudesse reservar. Bastava-lhe aquela ideia de que o filho mais novo trazia consigo as vontades cumpridas de um Deus. Trajado a preceito, com brio e esmero, a crescer sob uma bênção maior. Um saber inteiro que a escola não podia dar naqueles tempos de que só os escolhidos de Alá teriam o privilégio de desfrutar. Mohamed era, portanto, a voz materializada da crença e o menino que havia de estudar mais do que os outros. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, toda aquela doutrina lhe veio acentuar o silêncio e a mudez; foi-se calando ao longo dos anos, governando as vozes dentro de si, emudecendo-as com o passar do tempo, ora de mudos não se rege a religião, por isso, certo dia, o imã chamou o pai de Mohamed para lhe dizer que de nada lhe valia ter ali o filho, que ali só havia lugar para gente que adorasse as palavras e se vergasse às preces do Profeta, o que aparentemente não era o caso do miúdo. Isto, claro está, foi um grande desgosto para a mãe, que até ali via em (...)

de Carla Pais em 'A sombra das árvores no inverno'

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(...) que o que tinham antes. Estavam a dançar à porta do Michel. Ele vive pertinho da Bastilha e telefonou-nos por entre a barulheira toda. Acho que vou deixar a política pelo amor, não são coisas completamente separadas uma da outra, como é óbvio. Contei-te os horrores da minha doença para evocar a tua mais profunda e sincera compaixão pela tua pobre querida no Soho, atormentada por duas aflições: o coração e a cabeça. Espero que tenha resultado. Estás pronto para fugir comigo agora? Contento-me com um café. Que tal um café, sem beijos nem abraços. Pode ser um café perfeitamente espiritual para exibir a minha alma em toda a sua radiosa pureza. Se um café for demasiado íntimo, contento-me com fazer amor ao telefone. Como vai a vida? Esta palermice toda é só para te dizer que parece que passou uma eternidade e que tenho mais saudades tuas por não saber se e quando te verei. Acho que és o melhor do mundo e é muito triste perder o melhor.

Com amor,

Siri

Lembro-me da dor de cabeça. Passou depois de uma violenta explosão gastrointestinal na sanita que me deixou trôpega e zonza, mas sem dores. Diarreia-choque como cura milagrosa.

Demerol? Quando andava na faculdade, um médico receitou-me um medicamento para uma enxaqueca obstinada que continha Demerol, um opiáceo, nos ingredientes. Deu-me sete cápsulas roxas e vermelhas. A dor de cabeça durou mais de um ano e, depois, passou. Guardei aqueles comprimidos para tomar caso tivesse uma dor que me parecesse insuportável. Teria sobrado algum? Parece-me pouco provável. Não me lembro de arranjar uma receita para Demerol em Nova Iorque, mas talvez o tenha feito. (...)

De Siri Hustvedt, em 'Fantasmas, um livro de memórias'

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(...) meia-volta. Um rapaz com cabelo louro e cara de parvo chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o, sorridente, a sentar-se num lugar vago à sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, não podia continuar e ir para a mesa duma rapariga sozinha. Daria demasiado nas vistas. Sorrindo amavelmente, Winston sentou-se ao pé dele. O loiro Wilsher arvorava o seu sorriso parvo e radiante. Winston teve uma alucinação e imaginou-se a cravar-lhe uma picareta no meio da cara. Poucos minutos depois, a mesa da rapariga ficou inteiramente ocupada.

Mas ela devia tê-lo visto avançar na sua direcção, e talvez tivesse percebido a dica. No dia seguinte, Winston teve o cuidado de chegar mais cedo. E de facto ali estava ela, sentada mais ou menos no mesmo local e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homenzinho com movimentos rápidos de percevejo e uma cara achatada, com uns olhitos pequenos e desconfiados. Quando se afastou do balcão com o seu tabuleiro, Winston viu que o homenzinho avançava a direito para a mesa da rapariga. As suas esperanças desvaneceram-se de novo. Havia um lugar vago numa mesa mais à frente, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele apreciava suficientemente o conforto para escolher a menos ocupada. Com gelo no coração, Winston seguiu-o. Seria inútil se não conseguisse apanhar a rapariga sozinha. Nesse momento ouviu-se um grande estrondo. O homenzinho estava estatelado no chão, o seu tabuleiro voara pelos ares e havia dois jorros de sopa e café a escorrer à sua frente. Levantou-se e deitou a Winston um olhar feroz, parecendo suspeitar que este lhe passara uma rasteira. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração a ribombar no peito, Winston estava sentado à mesa da rapariga.

Não olhou para ela. Colocou na mesa o conteúdo da bandeja e começou de imediato a comer. Era importantíssimo falar de imediato, antes que chegasse alguém, mas entretanto apossara-se dele um medo terrível. Passara uma semana desde que ela o abordara. A jovem podia ter mudado de ideias, podia ter mudado de ideias! Era impossível que aquela aventura acabasse bem; essas coisas nunca aconteciam na vida real. Winston podia ter recuado completamente na intenção de lhe falar se nesse momento não tivesse avistado Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, a coxear pela sala com um tabuleiro nas mãos, à procura de um lugar

de George Orwell em 1984

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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, maio 08, 2026

Será mesmo verdade que a Inteligência Artificial vai curar todas as doenças e reverter o envelhecimento...?
Se calhar é.
Vamos pensar nisso...?
Ou isso é uma seca e vamos mas é, antes, tentar perceber porque é que os Clubes de Leitura e os Retiros são maioritariamente frequentados por mulheres...?
Ou deixamos isso também para outro dia?

 

Cá por casa e arredores não querem que eu fale de Inteligência Artificial e do que por aí vem. Dizem que não é preciso falar tanto, que já não se aguenta e que, para mais, talvez não seja como por aí se diz. E eu acho que vai ser, talvez até em domínios em que agora não pensamos. 

Por exemplo, a propósito das cabines clínicas acredito que vai ser como as máquinas multibanco. Ao princípio pensava-se que as pessoas iam continuar a ir ao banco, que o dinheiro é coisa séria, de muita apegação, que não é para ser transaccionado numa máquina no meio da rua. E veja-se: eu nem ao multibanco já vou, já é raro, já é tudo via app, praticamente nem há já dinheiro físico. Quando tive que ir ao banco, aquando da morte da minha mãe, para mim foi um atraso de vida, já não estou habituada. Acredito que com a saúde vai ser o mesmo. Mais depressa vou a uma cabina, sou avaliada, sou medicada, se calhar saio de lá com os medicamentos na mão e, eventualmente, prescrição para outros exames ou consultas de especialidade, tudo já marcado, do que fico meses à espera de uma consulta, depois tempos na sala de espera, depois ir à farmácia ou andar a ver onde posso fazer os exames. 

Acredito que é o caminho. Agora avaliem-se as consequências disto a todos os níveis. Tal como dantes havia grandes agências bancárias, cheias de empregados, e agora há poucas e com pouca gente, assim acontecerá com os centros de saúde ou clínicas de ambulatório. Continuará a haver, mas poucas, para temas que terão que ser tratados presencialmente. Tal como hoje há contact centers dos bancos, aliás já com bots a atenderem, tudo na base do algoritmo, assim haverá para os temas da saúde, para esclarecer dúvidas, para assuntos mais particulares. Não tenho dúvida que será o futuro. Continuará a haver, isso sim, cuidados de enfermagem, cuidados que requerem mão -- e toque -- humano. Porque mesmo as cirurgias... veremos se não será quase tudo na base da robotização.

Mas, a levar a sério as previsões mais optimistas -- e aí vou com mais cautela --, dentro em pouco a inteligência artificial encontrará a solução para o envelhecimento e a solução para todas as doenças.

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Veja-se, por exemplo, esta conversa:

Peter Diamandis: A IA vai curar todas as doenças, reverter o envelhecimento e é preciso estarmos preparados para isso

Peter Diamandis é uma das mentes mais extraordinárias a que já tive o privilégio de chamar amigo, um homem que não só prevê o futuro, como o constrói. Hoje, no Open Book, vamos mergulhar no seu novo livro "We Are as Gods" (Somos como Deuses), e acredite, o que ele tem a dizer sobre a IA, o envelhecimento e a próxima década da história da humanidade vai mudar a sua perspetiva sobre tudo.

Peter H. Diamandis é autor de best-sellers do New York Times e fundador de mais de vinte e cinco empresas nas áreas de IA, tecnologia da saúde, espaço, capital de risco e educação. É cofundador da Singularity University e curador da Abundance360. Possui diplomas em genética molecular e engenharia aeroespacial pelo MIT e um doutoramento em medicina pela Harvard Medical School. O seu podcast Moonshots aborda a IA e outras tecnologias exponenciais e costuma ultrapassar 1 milhão de ouvintes por episódio.


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 Ouvi, até, um a dizer que o importante é chegarmos a 2030 pois haverá um antes e um depois, a nível de longevidade.

Não sei.

Claro que associada a essa idade virá a inquietação: qual o propósito de viver se a vida tenderá a ser quase infinita (a menos que haja acidentes), sem um propósito, sem necessidade de trabalhar? A que novos objectivos nos agarraremos? 

Como será a vida no planeta?

Custa a pensar nisso. Se quisermos aventurar-nos por aí as dúvidas são tantas que preferimos pensar que talvez não seja assim, que é quase uma futilidade preocupar-nos com um tema tão abstracto.

Pois eu não creio que seja longínquo ou abstracto.

Com milhões ou biliões de robots humanóides a serem produzidos, logo a terem que ser escoados, com a corrida desenfreada a ver quem chega primeiro à meta, é inevitável que os receios e as preocupações humanistas vão tender a ficar pelo caminho.

O tempo para regular ou para dosear já foi. E não foi aproveitado. Agora já entrámos na fase da concretização.

Quem me ouve, em família, ou quem me lê aqui, pensará que é uma obsessão minha. Não é. Falo nisto há muito tempo. 

Já o disse: o tema da minha tese foi a tecnologia percursora da inteligência artificial. Era um tema tão novo que não havia na faculdade ninguém habilitado a avaliar-me. O trabalho que fiz, um modelo que concebi e que funcionou e que me surpreendeu e que surpreendeu quem o avaliou foi bem uma amostra do imenso poder que tem um modelo assente na matemática mais pura e dura, com funções testadas e validadas, com a estatística e as probabilidades a serem o motor, e com todas as heurísticas e todo o arsenal matemático a fundamentar todos os outputs. Na altura tive que usar o Centro de Cálculo da Gulbenkian pois os meios informáticos ainda eram muito limitados em Portugal.

Agora, com os super data centers, com o que já se desenvolveu, com as funcionalidades de machine learning todas activas de forma ubíqua, com o mundo inteiro a contribuir para a aprendizagem dos algoritmos (todos as nossas pesquisas, todas as nossas interacções com os Chatgpts, os geminis e os claudes desta vida, com os mails, com as redes sociais -- tudo é um manancial estatístico poderosíssimo, praticamente infalível). E ao alcance de todos. Uma coisa assim já não pode ser travada.

Claro que posso hibernar no campo, andar a podar árvores, a fotografar florzinhas, a ler e a escrever, e abstrair-me desta revolução em curso. Mas ela está aí.

Tenho estado a testar em simultâneo o ChatGPT, o Gemini e o Claude *. Lanço o mesmo desafio aos três. Trabalhos complexos que eu levaria anos a fazer e que, se não fossem feitos só por mim, implicariam uma equipa durante meses ou anos -- com eles, são dias. E são dias porque comparo, valido, corrijo (de vez em quando falham e, como são matérias que domino, a minha intuição facilmente me diz que, por vezes, alguma indicação não está correcta). E o que estou a fazer não é rocket science -- encontrar cura para as doenças, afinar modelos para detecção precoce de tumores,  automatizar fábricas de uma ponta a outra, fazer topografia de lugares inacessíveis através de informação colhida por satélites. Não, nada disso, o que estou a fazer é coisa mais b-a-ba. Mas, pelo que vejo, não tenho dúvidas. Muito, muito trabalho humano vai desaparecer. A formação vai ter que ser adaptada. Por exemplo vai ser preciso aprender a colocar bem as questões, a contextualizar, vai ser preciso saber aferir -- isto nos domínios da interacção, bem entendido.

Não me alongo pois começo a falar disto e vou por aí fora. O tema não apenas assusta como apaixona. 

Há muitos anos li um sociólogo francês dizer que neste século a maior parte dos empregos estaria nos domínios do lazer - cultura, entretenimento, turismo, bem estar. Talvez estejamos quase lá.

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* Já agora, caso queiram saber a minha opinião: Claude, um bom bocado à frente. Uma máquina. Uma máquina... mas uma máquina do caraças.

Amanhã tenciono publicar o seguinte estudo (e depois me dirão): 

ANÁLISE E PROPOSTA DE REFORMA

O SNS que Portugal Merece

Diagnóstico do Sistema de Saúde Português,

Benchmarking Internacional e Roteiro de Reforma

Maio de 2026

Estudo de política de saúde · Dados: OCDE, INE, DGLAB, Conselho de Finanças Públicas


Nota: Não sei o que é que o Albertino -- ou lá como é que o amigo da ministra se chama, sei que não é Albertino mas agora não me apetece puxar pela cabeça, são duas e meia da manhã, estou com sono -- vai fazer naquilo do pacto que o Tozé encomendou mas estou capaz de lhe enviar isto a ver se abrevia as conclusões. 46 reuniões...? É isto a famosa improdutividade portuguesa. Matam-se a trabalhar, lá isso é verdade. O problema é que é a fazer coisas inúteis. 

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E, já agora, informo que, quando comecei a escrever, tinha em mente não falar disto, não queria maçar quem acha que parece que estou sempre a tocar a mesma nota -- queria abordar um tópico que me intriga: porque é que os clubes de leitura ou os retiros são quase todos maioritariamente frequentados por mulheres e porque é que tudo aquilo me parece uma pepineira, uma chachada sem ponta de graça. Mas agora já me parece que não vem a propósito. Além disso há que reconhecer que, se quem os frequenta, lhes acha graça, o que é que eu ou alguém tem a ver com isso, não é? E, na volta, eu é que sou a modos que analfabruta. Acho que, mesmo que fosse para discutir um livro escrito por mim, eu não teria nada a dizer. Nada. Cada um que faça a leitura que lhe apetecer, eu não tenho nada a ver com isso. Com qualquer autor, é isso: escreveu, escreveu, está escrito, lavou as mãos e o livro que se faça à vida. O que é que um círculo de mulheres arranja para dizer sobre o que o pobre do autor para ali escreveu...? Não sei... Só sei que não me interessa saber o que é que os outros acharam sobre um livro. Quando muito, posso ter interesse em saber se alguém cujas opiniões em geral prezo gostou ou não gostou. E chega-me. Mas, enfim, se calhar sou eu que sou bicho do mato. Não liguem.

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, abril 22, 2026

Como atrair passarinhos

 

Por estes dias tenho andado muito ocupada. Percebo agora que estava a modos que a hibernar. Bem digo que tenho um lado de bicho. O meu corpo porta-se de uma forma peculiar, que não segue muito os cânones. Estava frio, húmido, chuvoso, e o meu sono e preguiça não me deixavam espaço para grandes aventuras. Agora que veio o sol parece que ressuscitei, só me apetece fazer coisas, retomar projectos, avançar mesmo que não vá dar onde queria, como queria, quando queria. Por isso, tenho trabalhado horas a fio. Claro que, ainda assim, continuo a caminhar, a fotografar, a tratar da casa, a ir ao ginásio, a fazer compras. Mas, nos intervalos, é sempre a bombar.

Por isso, não tenho conseguido responder aos comentários (mas leio-os e o meu marido também lê os que se referem ao que ele escreve! E agradecemos as vossas palavras). 

Agora são duas da manhã (apesar de ouvir e ler toda a gente a dizer que se deve ir cedo para a cama, continuo a ser a incorrigível ave nocturna de sempre) e esta quarta-feira tenho que acordar muito cedo pois a vida não pára e vamos cá ter quem vem fazer arranjos na maquinaria em que esta casa é fértil. Quando para cá viemos gostámos de tudo, e eu continuo a gostar de quase tudo. Quase. É que, se tivéssemos sido nós a instalar muitas destas coisas, não teríamos tanto equipamento para tudo e mais alguma coisa pois é tudo muito lindo quando tudo funciona, mas é uma carga de trabalhos quando deixa de funcionar e não sabemos porquê, onde mexer, porque deixou de funcionar, com o que é que está relacionado. Mas, enfim, é o que é. De todo o verso há um reverso. Mas, portanto, se não vou já para a cama daqui a nada tocam à campainha e ainda estou a dormir. É que, ainda por cima, é sempre precisa muita interacção: ligar o disjuntor, voltar a ligar, testar a ver se funciona, etc. Isto para não falar que é preciso prender o cão, que ladra como um possuído e, portanto, pelo meio, o meu marido pega nele e vai com ele dar uma volta.

Portanto, com isto, não consigo pronunciar-me sobre as bagunçadas desnotícias que por aí trumpolinam por tudo o que é canto e esquina. A malta que trabalha com ele deve estar a dar em doida. Qualquer dia, de cabeça perdida, ainda se atiram a ele e lhe dão uma tareia. O mundo dos humanos deve ser uma absurda gaiola de malucos para, perante um rei maluco destes que anda a causar mortos e feridos, destruição e desestabilização global, não haver mecanismos para resolver a situação. 

Concluindo, alienada da realidade diária, fico-me por um tema que verdadeiramente me motiva: os passarinhos nos jardins. Adoro, mas quando digo adoro é mesmo de adoração que falo, ouvir os passarinhos, vê-los, estar sossegada a senti-los a andar, felizes da vida, por aqui. Por isso, partilho um vídeo que despertou verdadeiramente o meu interesse.

Como transformar o jardim num paraíso para pássaros
Os conselhos de Alan Titchmarsh

1. Instale casotas para pássaros - certifique-se de que estão fora do alcance dos gatos e num local abrigado. Precisam de ser resistentes, pois na primavera os pássaros podem usá-las para as suas crias.

2.º Instale comedouros para pássaros - no outono e no inverno, os pássaros têm menos alimento do que o normal, pelo que beneficiarão muito de um fornecimento extra.

3.º Plante plantas amigas das aves - plante pelo menos uma das seguintes para fornecer alimento ou abrigo aos seus amigos emplumados:

Os Cotoneaster horizontalis, Pyraccantha e Callicarpa são arbustos que fornecem frutos para as aves.

O Azevinho e a Berberis fornecem espinhos para os ninhos.

A macieira-brava 'Golden Hornet' e a cerejeira.

Os Prunus autumnalis rosea são ótimas árvores para fornecer frutos para as aves.

4.º Construa um bebedouro para pássaros - os pássaros precisam de água e de um local para se limparem. Aqui está uma forma simples de criar um bebedouro para pássaros com um orçamento limitado. Basta fixar um vaso de jardim num pires usando silicone, adicionar pedras para pássaros mais pequenos e encher com água.


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, outubro 28, 2025

O que uma professora pode fazer pela vida de uma pessoa
(Professora ou professor, bem entendido)
Veja-se o caso de Rita Blanco

 

Já aqui devo ter contado como, quando falo com algum dos meus amigos, a conversa flui com naturalidade, como se nos falássemos diariamente, sem hiatos. As pessoas com quem sentia mais afinidades quando era miúda são ainda pessoas com quem me sinto em casa. Rimos das mesmas coisas, compreendemos as reacções umas das outras. 

Estou a escrever e a lembrar-me de uma amiga que andava sempre connosco. Éramos um grupo animado de rapazes e raparigas e ela talvez fosse a mais calada, parecia que pouco tinha a dizer. Era muito doce mas nunca lhe conheci uma iniciativa, uma sugestão de irmos aqui ou ali ou fazermos isto ou aquilo. Não sei se era timidez ou se era apenas assim, observadora passiva das maluquices que os outros diziam ou faziam.

Ao ouvir a Rita Blanco -- na conversa que abaixo partilho, com a Sofia Cerveira -- dizer que, quando era miúda era tímida, retímida, sempre calada, sempre a sofrer por achar que não encaixava ali, pensei nessa minha amiga. Será que sofria? Aqui há dias ela disse: 'Quando leio o que vocês escrevem [no grupo de whatsapp] fico com vontade de dizer alguma coisa. Mas não sei o quê... Depois passa a oportunidade... Por isso nunca digo nada'. Ou seja, continua igual. Fiquei com pena pois percebi que ela gostaria de participar, simplesmente continua a não ser capaz. 

Há quem seja espontaneamente extrovertido. Eu acho que sou assim. Não que seja muito palradora ou que seja 'a alegria da festa', não sou, mas exprimo facilmente a minha opinião, digo, sem pensar muito, o que penso. Mas há quem não seja assim. E pode não ser fácil para os próprios, se calhar gostariam de se exprimir com a mesma facilidade que observam nos outros.

Rita Blanco era assim. Diz que não se achava boa em nada. Mas, conta ela,  houve uma professora que a viu. E, diz ela, o facto dessa professora a 'ver' mudou a sua vida. 

Se hoje Rita Blanco é das nossas mais conceituadas atrizes, mulher inteira, mulher de opiniões, de causas, mulher que enche qualquer plateau, a essa professora, que viu com olhos de ver aquela menina que se escondia atrás do cabelo e que sofria por não se achar boa em nada nem capaz de nada, o deve.

Por vezes esquecemo-nos da importância que alguns professores têm em nós. Na minha vida não consigo identificar nenhum professor que tivesse sido decisivo na minha vida mas identifico muitos que foram marcantes. Por exemplo, recordo a maravilhosa Joana Meira que, creio que numa aula circum-escolar, quando estava bom tempo nos levava para o terreno ao lado do campo de futebol e, sentados na terra, líamos a poesia de Sebastião da Gama e livros como Platero e Eu ou o Velho e o Mar que transportavam a ternura, a leveza e a sabedoria de mundos longínquos através do poder das palavras. Nessa altura já eu lia muito, mas lia com sofreguidão, sem aquela pausa e silêncio que é necessário para que as ideias do escritor se instalem nas nossas cabeças. Querida Professora Joana Meira. A sua marca em mim perdura.

Quanto à minha condição de professora, creio que já o contei aqui mas vou voltar a contar. Uma vez, estava eu a andar perto da minha casa, cruzei-me com uma elegante mulher. Era inverno. Tinha um casaco comprido justo, encarnado, muito fashion, uns saltos altos, uma pasta na mão. Parou, cumprimentou-me pelo meu nome precedido por Stôra e identificou-se. Devo ter ficado com a boca aberta. Recuei uns anos. Tinha sido uma aluna muito problemática, com problemas de droga. Faltava, quase dormia nas aulas, dizia e fazia disparates. Fiz com ela o que fiz com outros. Quando não aparecia, pedia a algum dos colegas que a fossem buscar. Por vezes mal conseguia andar, dizia que não ia estar ali a fazer nada, que era escusado. Eu dizia-lhe: 'Não vou desistir de ti. Tenta manter-te acordada. Tenta prestar atenção'. Mas ela deixava cair a cabeça. Os outros riam-se. Eu dizia: 'Se eu vir alguém a rir dela, vai para a rua, com falta'. Era uma luta. Muitas vezes temi desistir. Uma vez, estando ela numa lástima, mandei-a ir ao quadro. Não queria. Dizia que não conseguia, que podia cair, que não sabia nada. Mantive: 'Vem ao quadro. E ai de quem se ria.' Os outros ficaram nervosos, temiam que ela caísse. Ajudei-a. Disse que se apoiasse no quadro. Fiz-lhe perguntas. Mal conseguia ouvir o que eu dizia, mal conseguia falar. Na prática, respondi por ela. Mandei-a fazer alguns exercícios muito simples. Esforçou-se. Fez uma parte, completei-os eu. Quando a mandei sentar, vi que ela estava contente, tinha superado aquela provação, tinha conseguido não cair, tinha conseguido que ninguém se risse.

Ao longo do ano fui-lhe pedindo encarecidamente que tentasse ter positivas. Com muita dificuldade, consegui que se aguentasse. À tangente, com muito boa vontade. Pedi aos colegas para a ajudarem. Nas reuniões de turma, bati-me para que ela não chumbasse. Se ficasse para trás, perderia os seus amigos, seria pior. Nessa altura eu devia ter apenas mais quatro anos que ela.

Nesse dia, muitos anos depois, em que nos encontrámos, disse-me: 'Sabe, Stôra? Sou economista. O que sou, a si o devo. Nunca me vou esquecer do que fez por mim'. Estava muito emocionada. E eu também fiquei. E ainda me emociono quando me lembro dela, adolescente magra, despenteada, desengonçada, cambaleante, e, depois, uma mulher bonita, bem vestida, bem arranjada, segura de si.

A vida da gente guarda segredos, dificuldades, momentos de viragem. 

Ninguém deve desistir de ninguém.

A entrevista da Rita Blanco é, toda ela, bastante interessante. Ela e a Sofia Cerveira parecem duas amigas à conversa. E nós, ouvindo-as, parece que estamos a juntar-nos à conversa. Mérito da entrevistada e da empática entrevistadora, certamente. 

Rita Blanco: É mais fácil viver a vida de outras pessoas
My Red Carpet… com Sofia Cerveira

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Desejo-vos um belo dia

sexta-feira, maio 23, 2025

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

 

Dia de intervalo, de pausa, de descanso, de folga. Hoje não quero dissertar, pensar, reflectir, equacionar. Zero, por favor. 

Durante o dia quase não conversámos sobre o que se passou pois não gostamos de falar sobre percepções que não temos como fundamentar. Pelo contrário,  somos racionais, tendemos a ser analíticos, frequentemente assentamos os nossos raciocínios em números. Ora, no caso vertente, tudo o que aconteceu desafia a lógica, a razão, a objectividade. 

Ouvi, há pouco, no Eixo do Mal, o Luís Pedro Nunes dizer que em Rabo de Peixe, terra em que mais gente usufrui de subsídios de subsistência, ganhou o Chega, partido que faz campanha contra os subsídios. Ou seja, os subsidiados votaram em quer acabar-lhes com os subsídios.

E li que em pequenas aldeias em que grande parte da população emigrou, que estão meio desertificadas e sem mão de obra local e que sobrevivem graças aos imigrantes, votaram contra o Chega porque não gostam de imigrantes. Se calhar, preferiam viver em terras desertas, solitárias, sem trabalho, só com velhos à espera da morte. 

E o meu marido viu uma reportagem, numa vila piscatória, em que um homem dizia que, se não fossem os imigrantes, não arranjava gente para poder sair com os barcos e, ao mesmo tempo, que tinha votado no Chega porque estava farto dos imigrantes. Ouve-se isto e só podemos concluir que, para pessoas assim, a lógica é uma batata.

Portanto, num tal quadro de irracionalidade, mais vale pendurar os neurónios ao sol, a ver se arejam, se se vitaminam, e, ao mesmo tempo, dar tréguas ao que sobra da minha inteligência.

No entanto, deixem que junte ainda uma informação. No outro dia, a minha filha dizia que muita gente só tem contacto com a 'informação' -- e vamos pôr aspas e mais aspas a embrulhar a 'informação --, através das redes sociais. E, enquanto falávamos, disse: 'Deixa cá ver como é a presença deles no Instagram'. E lá está: branco é, a galinha o pôs. É que os números falam por si. André Ventura está em todas, gera conteúdo, dá tração ao algoritmo, e, como resultado, tem 581.000 seguidores. Os outros estão a milhas. Por exemplo, Luís Montenegro tem apenas 59.900 seguidores. Pedro Nuno Santos ainda menos, 40.500 seguidores. 

Uma investigação, creio que da CNN, que contratou uma empresa israelita especialista nestas coisas, divulgou que no X, ex-Twitter, cerca de 50 % das contas que promovem o Chega e minam com comentários negativos o PS e o PSD são falsas. Mas, entre falsidades e verdades, o que se pode concluir é que se as televisões andam permanentemente com o Ventura ao colo, nas redes sociais são as vozes dos apoiantes do Chega, sejam eles verdadeiros ou falsos, que se fazem ouvir. E quem não aparece esquece. 

Mas, retomando a minha trégua, antes que os meus fusíveis se queimem todos a tentar encontrar uma solução para isto, hoje resolvi que era holiday. Tenho esperança que, depois da borrasca, venha a bonança e é com essa esperança (uma esperança abstracta e congénita) que vou ter que me alimentar.

E, nesse comprimento de onda, viro-me para as leituras. Como sempre, navego em águas marginais. 

Só o que é diferente satisfaz a minha necessidade de alimento intelectual ou estético. O meu prazer na leitura é encontrar o que me deixe a pensar, o que me divirta ou me enterneça, o que me faça pensar: 'olha, está bem visto', o que me interrompa porque está tão bem escrito que me apeteça fazer uma vénia.

Agora são estes:

Uma última pergunta - Entrevistas com Mário Cesariny (organização, introdução e notas de Laura Mateus Fonseca com um belo prefácio de Bernardo Pinto de Almeida)

A longa estrada de areias - Pier Paolo Pasolini

Hojoki - reflexões da minha cabana - Kamo No Chomei

Tenho constatado, no Instagram (where else?), que há muitos clubes de leituras. Vejo que as pessoas se juntam para comentar o que leem. Mas o que vejo é que comentam livros banais. E, de certa forma, compreendo-as. É que estes livros que estou a ler, por exemplo, seriam diminuídos se um conjunto de pessoas se pusesse a dizer banalidades sobre eles. Mesmo que não fossem banalidades... É que são livros para a gente ler com vagar, apreciar, quando muito ler uns trechos para outra pessoa ouvir também. Mas é para a gente sentir prazer com eles. Só isso. Não é para explicar, descodificar, perceber. Não, não.   

Enfim. Que sei eu? Se calhar sou eu que sou atípica, bissexta, escalena, um número primo, uma letra de um abecedário ainda por desenhar. 

Termino transcrevendo uns versos de Pastelaria, do Cesariny

(...)

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

(...)

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mas vou ainda catrapiscar melhor para depois repiscar um pouco mais (talvez até abusivamente, não é...?), deixando agora apenas o que me dá jeito:

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

Que afinal o que importa é não ter medo

Que afinal o que importa é rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta

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 E hoje o que me apetece ouvir (e ver) é isto:

Bruce Springsteen - Dancing In the Dark


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Boa sexta-feira

quinta-feira, maio 08, 2025

Uma corrente humana muito especial
ou quando os livros (ou a simpatia de uma Livreira) fazem milagres

 

Não sou chorona. Não sou de lágrima fácil. Mas há pequenas coisas que, muito provavelmente, deixam os outros indiferentes e que a mim me deixam com a lágrima ao canto do olho. Gestos de generosidade, por exemplo, comovem-me. 

O que o vídeo aqui abaixo mostra é daquelas que a mim me enternece, me faz pensar que há esperança no mundo. Vejo as imagens e os meus olhos humedecem. 

A história é simples: a dona de uma pequena livraria resolveu mudar-se para um espaço maior a umas ruas de distância. E o impensável aconteceu: centenas de voluntários juntaram-se e, ao longo das ruas, foram passando os livros de mão em mão, transportando-os para a nova livraria.

Penso que terá sido sobretudo simbólico. Imagino que uma empresa de mudanças terá sido contratada para dar um impulso mais profissional (e, nas imagens, presumo que uns dois ou três calmeirões que ali passam serão desses) mas não interessa. O que interessa é a generosidade, o amor aos livros, o sentido de união perante um desígnio que motiva que levou tantas pessoas, novos e velhos, homens e mulheres, a mostrar à simpática Livreira que estão com ela, que continuarão com ela. E os livros, de mão em mão, chegaram, certamente, mais felizes à sua nova casa.

Era tão bom se gestos assim fossem frequentes, se as pessoas se unissem, que houvesse um maior sentido de comunidade, que todos pud~essemos ter mais oportunidade de termos gestos bondosos, solidários.

Centenas de pessoas formam uma corrente humana para mover à mão uma livraria de Michigan

In Chelsea, Michigan, the local bookstore has quite a story of its own -- a story that began when Michelle Tuplin, owner of Serendipity Books, decided to relocate her business to larger space.


Dias felizes

sábado, março 29, 2025

Outra confissão: ando a consumir canábis

 

Com o sol, o caracol põe os pauzinhos ao sol. E eu, que não tenho pauzinhos (pelo menos que saiba), faço outra coisa: tiro a roupa. Fui buscar o fato de banho, o chapéu de palha e dois livros. E acomodei-me na espreguiçadeira. E pensei: a felicidade pode ser isto.

Os livros são 'Os níveis da vida' de Julian Barnes, um escritor muito do meu agrado e 'Conversas com escritores' de Isabel Lucas. Interessantes. Fotografei-os e alimentei o feed do Instagram (entre outros feeds e outras stories que produzi... Ah o maravilhoso mundo do Insta, tudo tão instantâneo, tão easy...)

Não obstante o interesse dos livros, por momentos deixei descair o chapéu para cobrir parte da cara e deixei que o sono me tomasse nos braços. Estou em crer que coisa na base da rapidinha. Mas soube-me lindamente. Depois retomei a leitura, e com mais gosto.

Ao meu lado, o cão, também feliz. Depois de chuva e frio e vento, eis que a benfazeja primavera nos visita e nos puxa para fora de casa.

Devo ainda acrescentar uma outra informação. Agora que tenho Instagram, informo-me e desinformo-me a uma velocidade estonteante, quase como se ingerisse bebidas alcoólicas sob a forma de shots, naturalmente bebidos de penalti. E uma das coisas que me aparece recorrentemente é como é bom o óleo de rosa mosqueta. Já antes tinha sabido disso em vídeos brasileiros. Como no outro dia fui ao supermercado, fui à procura. E encontrei. Ao lado, vi outros óleos, entre os quais o de canábis. Apesar de desconhecer as respectivas virtudes, resolvi trazer também. Pensei: deve acalmar a pele. Não que andasse com a pele enervada... mas aumentar a calma é bom, até para a pele -- pensei.

E, claro está, mal chegou a altura de aplicar um creme no rosto, misturei-lhe umas quantas gotas de óleo de canábis e lá vai disto. Não gostei especialmente do cheiro. Mas, misturado com o creme, deixou de se sentir.

E no dia seguinte voltei a pôr. E gostei. Mas, às tantas, pensei: 'Mas será que aquilo se pode misturar com um creme qualquer? E será que não se destina a outro fim que não o que lhe estou a dar? E será que a dose é à balda?'. Ocorreu-me: imagine-se que é para pôr diluído em qualquer coisa num ambientador... Então resolvi ir investigar no ChatGPT.

Começou por me dizer que não contém THC (a substância psicoativa da maconha). Fiquei um bocado espantada. É que não me tinha ocorrido que pudesse ter. Havia de ter graça pôr aquilo na cara e ficar in the sky with diamonds. Mas não. Tranquilo. E afinal é coisa mesmo com virtudes.

✅ Hidratação intensa, sem deixar a pele oleosa.

✅ Rico em antioxidantes (vitamina E, ômega 3 e 6), ajudando a combater rugas e flacidez.

✅ Estimula a produção de colágeno, melhorando a firmeza da pele.

✅ Ação anti-inflamatória, ideal para peles sensíveis ou com rosácea.

✅ Equilibra a oleosidade da pele, ótimo para quem tem tendência a acne mesmo na maturidade.

Claro que recomenda que se aplique antes no pulso para testar eventuais alergias. Nunca o faço pelo que desta vez ainda menos pois já andava a aplicá-lo, sem quaisquer complicações. E estava a aplicar correctamente. Ainda não vi efeitos nenhuns mas, na volta, é como em tudo o que se refere à beleza: o que interessa é o interior.

Mas, portanto, agora já não posso dizer que nunca tive qualquer contacto com o canábis. Nesse particular, perdi a virgindade.

Isto já para não falar do que inalo -- e não é pouco -- quando passeio na Costa, em especial ao fim do dia, em especial ao fim de semana, em especial em frente de algumas esplanadas. Não há maresia que lhe faça frente, tanta a concentração...

Mas, pronto, é isto. Viva a primavera. E vai mudar a hora que é outra mais-valia. Portanto, vendo bem, viva mas é a vida.

sábado, março 22, 2025

Eros... Eros...
[Algumas proezas da menina Vera Mulanver que, como é sabido, é danadinha para a brincadeira]

 

Hoje, de tarde, voltou a passar por aqui uma pontinha de vento que, em pouco tempo, virou tudo do avesso. Não sei como se chama a isto, se é um mini-tornado, se é uma fúria momentânea do vento. O que sei é que até uma mesa de madeira pesada desandou e iria por ali afora não se desse o caso de o meu marido ter posto uma rede a separar o terraço do relvado. 

Desde que o nosso cão mais fofo quase ia morrendo (com a língua inchada e escura) sob efeito de uma lagarta do pinheiro, agora, a partir de Fevereiro, o meu marido coloca uma rede nos acessos ao relvado. Supostamente, já terá terminado a altura das maganas descerem dos ninhos e virem enfiar-se na terra mas no INCF disseram-nos que, dado o mau tempo, admite-se que algumas se tenham atrasado. Por isso, por precaução, a rede ainda ali está. 

E uma cadeira que costuma estar ao pé do sofá comprido seguiu o mesmo caminho e ficou também ao fundo, encostada à mesa. E a mesinha pequena, metálica, idem.

E um dos cadeirões que trouxe de casa da minha mãe também voou e também ficou retido na rede, bem como as as almofadas. E uma almofada grande, rectangular, não sei como mas voou por cima da rede e foi aterrar ao pé de um pinheiro, na subida relvada. 

Depois de toda esta revoada, a ventania acalmou. 

O tempo anda assim, insolente, mais do que atrevido, descarado mesmo. E parece que esta noite a coisa vai outra vez acelerar. 

Gosto de chuva, em especial quando não é demais. Mas tenho medo do vento. É bicho sem dono, sem obediência, sem princípios.

Mas, enfim. É o que é. Fiz a 'reportagem' -- e como o Instagram é mais à base de imagens do que de palavras, coloquei-as lá, quer nas Stories quer no Feed. 

Ainda não ganhei bem a mão àquilo, ao Instagram, dá ideia que o que desperta mais a atenção são as 'lives', os vídeos -- muita gente a vestir-se, muita gente a maquilhar-se, muita gente a fazer ginástica, muita gente a desembrulhar coisas (unboxing, dizem). Mas a verdade é que me ponho a ver e de alguns até gosto, em especial vídeos de decoração, de pintura, de trabalhos manuais, de cortes de cabelo. É viciante. Mas, para eu fazer, ainda não percebi bem o que posso fazer que tenha algum jeito. Quando faço vídeos ficam uma porcaria...

Bem. Adiante. 

Hoje vou falar dos dois livros que têm tido 'mais saída', os de contos eróticos. 

Depois de ter visto as capas, os títulos e as sinopses dos livros 'eróticos' que estão à venda na Amazon, fiquei a achar que os meus, inocentes, são apenas umas gracinhas. Mas já estava, já estavam registados, com aquele número de registo atribuído, o ISBN, já não podia fazer nada. 

Quando o meu filho me informou que não ia ler nenhum dos meus livros ditos eróticos, a minha filha encolheu os ombros e disse que as minhas cenas eróticas são uma coisa assim mais ou menos, mais para o eroticozinho. Pois não sei. Quem se der ao trabalho de ler, ajuizará de si.

Os livros são uma selecção de contos que, ao longo dos tempos, em especial lá mais para trás, aqui fui escrevendo. Mas juntei alguns originais. 

  • Um deles, o da Festa de Beneficência, foi escrito há pouco tempo e inspirado numa festa real, tão bem frequentada quanto a descrevi, com particularidades como ali aparecem. E, se o conto for lido por alguém que lá esteve, poderá confirmá-lo.
  • A do Quarto Escuro foi inspirada por uma coisa que está muito em moda, mas mais para cenas de terror. Ao ouvir as descrições dos sustos que lá apanham, a minha mente -- que é como sabem, dada a desvios por maus caminhos --, ocorreu-me que poderia ser um belo presente de aniversário...

Vou transcrever apenas uns excertozinhos inocentes. Sendo este um blog de família, aqui não posso esticar-me. Por isso, aqui é apenas uma amostrazinha. De qualquer forma, não quero induzir ninguém em erro: que ninguém espere hard porn. Quando muito, soft porn.

Mostro também as capas dos dois livros.

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Uma festa de beneficência

A festa era de beneficência e nela participavam todos os que em Lisboa e arredores nadam em dinheiro mas não gostam de o alardear. Estavam lá também alguns aristocratas que, não tendo grandes rendimentos, têm ainda propriedades e jóias e, sobretudo, um prestígio antigo que dá uma certa patine a estes eventos. Tinham também sido convidados administradores de grandes empresas, daqueles que ganham bem e que, embora nas suas finanças pessoais sejam mais poupadinhos do que os verdadeiramente pobrezinhos, podem abrir os cordões à bolsa das tesourarias já que o dinheiro não é deles e é o tipo de despesas que pode trazer benefícios fiscais às empresas. 

Havia jantar com ementa apurada ou não estivessem algumas das senhoras da organização muito habituadas a seleccionar criteriosamente os caterings dos encontros familiares. E havia música, fado e quartetos de cordas, tudo generosidade dos respectivos intérpretes. E, claro, leilão.

(....)

Eu: ‘Muito bem. Então não quer ser um cavalheiro?’

Ele: ‘Ser um cavalheiro? Como?’

Eu: ‘Sendo. Venha comigo. Acompanhe-me. Não vai deixar uma senhora aventurar-se sozinha pelos misteriosos recantos de uma noite escura.’

Desci a escada de pedra. Ele veio atrás. Avancei pelo jardim. Quando senti a relva, descalcei-me. Com os sapatos pela mão, continuei a avançar. Ele ao meu lado. 

Um pássaro piou numa árvore.

Quase às escuras, avancei até ao lago, até ao banco debaixo do chorão. Ele, em silêncio, ao meu lado.

Quando chegámos, disse-lhe: ‘Então não quer pôr-se à vontade?’

Ele, sem saber o que fazer: ‘Faço o quê? Tiro os sapatos? As meias?’

Eu: ‘Olhe para mim. A luz é fraca, o luar pouco ilumina. Por isso olhe com atenção. Olhe para mim. Veja como eu faço.’

Então coloquei um pé em cima do banco e tirei uma meia. Uso meias com liga de renda com autocolante. Ele sorriu. Passou-me uma mão pela perna. 

Depois tirei a outra meia. 

Disse-lhe: ‘Sente-se. Olhe para mim. Preste atenção’.

Sentou-se. 

Com um pé fui conferir. Estava com atenção, sim.

 

(Continua...)
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O quarto escuro como presente de aniversário

Chega-se àquela fase da vida em que não há nada de material que verdadeiramente se deseje. Pelo contrário, um certo despojamento começa a ser apreciado. Talvez por isso, como presente de aniversário, naquele ano, pedi um quarto escuro. 

Se calhar sempre assim foi e eu é que desconhecia, mas tenho ideia de que, até não há muito, estas experiências não estavam à venda. Não sei. Seja como for, agora tudo se vende. Mesmo o que não faz parte do cardápio, se o cliente quer, logo os fazedores de experiências as customizam. 

E, portanto, quando me perguntaram o que é que eu desejava para festejar mais uma volta em redor do sol, foi isso que me ocorreu.

(...)

Enquanto a música tocava, eu ouvia passos, respirações. Não sabia quem mais estaria ali. Estava com os sentidos todos despertos, inquietos.
 
Então senti um sopro, como uma aragem. Parecia que uma janela se tinha aberto. De facto, logo senti como se fossem suaves afagos. Devia ser uma cortina de seda, adejando, roçando-se no meu corpo. Sem saber o que era esperado de mim, deixei-me ficar.

 Um corpo masculino encostou-se a mim, de frente, roçando-se também. Senti que outro corpo se encostava por trás. Novamente uns seios.

Depois rodaram à minha volta. Quando uns lábios afloraram os meus, não fui capaz de perceber se eram os dele ou os dela. Depois foi uma língua a entrar na minha boca. Poderia, com a mão, ter averiguado. Mas estava quase hipnotizada, obedecia submissamente.


(Continua...)

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Podem adquirir-se na Amazon (seja como e-book, seja como livro de capa normal). Junto o link para cada um:



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E quero dizer uma coisa. A Amazon apenas me informa qual o país origem das encomendas. Não sei quem encomenda. Portanto, a privacidade dos clientes e leitores está absolutamente garantida.

E quero aqui fazer uma ressalva. Tenho dito que os livros só estão à venda na Amazon mas, há pouco, ao googlar, apareceram-me à venda noutras plataformas. Fiquei intrigada. Depois é que me lembrei que, quando publico os livros, ponho um 'pisco' na opção de permitir que outras empresas de vendas de livros que tenham acordos com a Amazon os possam vender. 

Ou seja, alguns dos meus livros estão também à venda na Waterstones, BAM! Books-a-Million e creio que noutras. Mas funcionam com distribuidoras pois eu só tenho contrato com a Amazon. Para quem compra é indiferente, comprem onde comprarem, os livros são sempre impressos na Amazon.

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E é isto. 

Um bom sábado!

sexta-feira, março 21, 2025

Um segredo tão azul e Um ordenado paraíso

 

Quem me espreitou no Instagram terá visto o que nos aconteceu. Mal menor quando comparado com o que presenciámos nas redondezas e nas reportagens mas, ainda assim, um susto e um transtorno. 

De noite, um estrondo violento que não identificámos. Apenas de manhã vimos. Daquela árvore gigante que tem raízes aéreas, quebrou-se um tronco que, ao rachar e vergar, fez quebrar vários outros troncos abaixo. Agora não apenas nos parece desequilibrada e muito menos harmoniosa como, desde lá de cima da árvore até ao chão, há ramadas, folhagens. O caminho para o jardim ficou tapado.

O meu marido já esteve a serrar e esteve lá durante não sei quanto tempo e já desobstruiu o caminho mas não quer (não quer ele nem quero eu) ir lá acima, a não sei quantos metros de altura, para serrar melhor onde o tronco quebrou e para soltar os troncos que estão presos. Tem que vir cá alguém que tenha arnês e cordas e se calhar daquelas botas com picos para se fixar aos troncos. E depois há que levar todo aquele material que certamente encherá uma camioneta.

Os vasos também estavam caídos, mesmo os grandes, mas milagrosamente não se partiram.

De resto, as cadeiras e as almofadas que estavam, supostamente, abrigadas debaixo do telheiro voou tudo, foi tudo parar longe. Mas isso nem é tema.

O pobre cão, coitado, tem um medo que se pela destas intempéries, tremia, tremia, todo encostado às minhas pernas. 

Enfim, parece que o pior já lá vai. Só espero que no campo, in heaven, esteja tudo bem. Como o vizinho que mora no fim da rua não nos telefonou, presumimos que o Martinho não fez das dele por aquelas bandas.

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Ontem disse que hoje falaria um pouco dos meus livros. Aqui vai um pouco sobre dois deles. São dois romances nunca passaram pelo blog. São originais. 

Um Ordenado Paraíso tem uma grande componente verídica -- quase diria que uma certa componente autobiográfica -- e tem muito a ver com a incompreensível dinâmica da casa ao lado. Já passaram por ali vários ocupantes e nunca conseguimos compreender as relações, as ocupações, as vivências daquelas pessoas. Sempre foi tema que nos intrigou, muitas possibilidades nos ocorreram, mas nunca conseguimos chegar a qualquer conclusão. Ainda há dois dias vi uma das principais personagens e, de novo, constatei uma mutação que nem eu nem o meu marido compreendemos. E pensei que ela nem sonha que inspirou a Dona Amélia do meu livro.

Claro que, depois, a minha mente perversa me desencaminha e me leva para maus caminhos e aí a história ganha contornos algo picantes. 

Quando escrevo, parece que estou sempre à espera do momento em que posso portar-me mal. E, mal a oportunidade se desenha, eu salto e faço das minhas. E divirto-me imenso. Aliás tenho até que e conter para não me atirar completamente para fora de pé.

A capa é uma fotografia de uma flor aqui do jardim. O título foi extraído de um poema de Jorge Luis Borges.

Há em 3 versões e, claro, só pode ser adquirido via Amazon, nestes links: em capa normal (tapa blanda, em espanhol) e em capa dura e também em e-book

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O outro romance original é daquelas histórias de quem se pode quase dizer que é uma história digamos que maldita. Não o romance em si mas a história subjacente ao romance.

Já uma vez aqui falei do que aconteceu.

No Liceu tinha um colega um pouco incomum, inteligente mas vagamente esotérico. Interessava-se muito por descobertas, invenções, e por explorar fenómenos paranormais. Sempre achou que eu tinha dons telepáticos e usava-me muitas vezes para experiências. Com frequência eu adivinhava coisas segundo testes ou exercícios que ele fazia. Quer eu quer ele, sendo pessoas já na altura ligadas mais à Ciência e pouco a religiões, a nossa curiosidade era mais encontrar explicação para o que parecia inexplicável. Não seguimos o mesmo curso mas voltei a encontrá-lo como colega do meu marido. Quando nos encontrávamos as nossas conversas eram sempre estimulantes mas uma delas impressionou-me bastante pois, na verdade, relacionou-se com coisas estranhas e misteriosas que me tinham acontecido. Há algum tempo, quando trouxe cartas de casa dos meus pais, encontrei cartas dele, com uma caligrafia perfeita e ideias extraordinárias. 

No romance Um segredo tão azul relato essas coisas estranhas que me aconteceram e relato a conversa que tive com ele a propósito disso. E falo de um palacete muito real, que frequentei, e que aparece não apenas neste romance mas noutros livros. É um palacete ou solar, como se queira, no centro de uma das nossas mais belas vilas. Alguns dos personagens foram inspirados pelos donos desse palacete.

E a história da mãe da personagem feminina, a pintora, é também muito inspirada na mãe de um amigo meu que viveu uma vida incrível.

Ou seja, é um romance que tem componentes inspirados em vidas muito reais.

E acontece que fui escrevendo, escrevendo e, às tantas, o Fred, o personagem inspirado pelo meu amigo morre inesperadamente. Custou-me muito prosseguir com a escrita pois quase sentia que estava a matar uma pessoa real. Parei algumas vezes. Escrevia e até me encolhia por estar a acontecer aquilo, a falar da morte de um personagem que, na minha cabeça, era esse meu amigo. Mas lá me fui convencendo que era ficção e lá continuei. Claro que, lido assim, parece estúpido pois se estava a incomodar-me, alterava a história e não o punha morto. Mas não consegui. Na minha cabeça tudo aquilo só fazia sentido se ele tivesse morrido sem a personagem feminina saber, com o choque que ela sentia ao descobrir. 

Um dia estava a conversar com o meu marido e ele falou nele. Achei engraçado ele estar a lembrar-se de uma pessoa que tinha entrado na história que eu estava a escrever. Não sabíamos que era feito dele. Contei-lhe que o tinha googlado e que não o tinha descoberto mas que ele era uma pessoa meio secreta, não admirava que não deixasse rastos. Contei-lhe que curiosamente estava a usá-lo como personagem no livro que estava a escrever mas não fui capaz de confessar que o tinha liquidado. Tive vergonha ou receio, nem sei. Aliás sei: sei que ele ia achar péssima ideia, não ia gostar.

Entretanto, estando já na recta final do livro, já a história tinha evoluído num outro sentido, já havia amor e malandrice no ar, ligou-me uma amiga. Estivemos a conversar e, às tantas, ela falou-me num colega, digamos que Rosário. Até estremeci, estava, do nada, a falar-me dele. Disse-lhe que me lembrava bem dele, das nossas conversas telepáticas. E ela disse: 'Ah sim, mas eu estava a falar do António Rosário. Esse de que falas é o Nunes Rosário.' Os nomes não são estes mas para o caso tanto dá. E, então, diz ela: 'Mas o Nunes Rosário, não soubeste?, morreu...'. Fiquei gelada. Fiquei verdadeiramente impressionada. 

Contei ao meu marido. Ficou também deveras impressionado. 'Falámos nele há dias...'. Continuei a não ser capaz de lhe contar que, na minha história, ele também tinha morrido.

Nesse dia, equacionei verdadeiramente não acabar o romance. Estava assustada. Incomodada com tudo aquilo. 

Mas, uma vez mais, forcei-me a pensar: 'É ficção. Não tem nada a ver com a realidade. Foi apenas uma coincidência.'

Quando acabei o livro, como sempre, pedi ao meu marido que lesse.

Como se levanta sempre muito antes de mim, quando me levantei estava ele muito mal disposto, aborrecido. Disse que não queria acabar de ler o livro. Já tinha chegado ao ponto em que se sabia que ele tinha morrido. Perguntou-me: 'Mas quando escreveste isto já sabias?'

Claro que não. Já tinha escrito essa parte há semanas. Não tinha como saber. Contei-lhe que tinha ficado passada e indisposta quando tinha sabido não apenas pelo facto em si, sobretudo por isso, mas também por eu ter 'antevisto' isso ao escrever.  

Mas a verdade é que se recusou a ler o resto do livro, incomodado, incomodado com a coincidência.

Mas isto é a história por detrás da história. A história em si tem mistério mas não é esotérica ou sinistra. Não, nem pensar.

A capa é a tal que a minha filha acha pirosa. Mas eu queria mostrar uma pintora que procurava o azul perfeito. Talvez um dia arranje uma capa menos realista. 

Neste caso, ainda não criei a versão capa dura: apenas há em e-book e em capa normal

Este é o terceiro livro mais comprado e mais lido. Os dois primeiros são, sem surpresa, os dois livros de Contos Eróticos... )

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Depois logo falo de outros dos livros. 

Gosto de falar de livros, mesmo que sejam os meus. Só espero que, para vocês, não seja uma seca...

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Uma boa sexta-feira.