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segunda-feira, agosto 22, 2022

Salada de verão made in heaven (com receita) e, uma vez mais, um susto nocturno, desta vez por conta de um urso desaparecido

 

Alguma preguiça em cima de mim. Estava na dúvida em fazer ossobuco ou choquinhos com tinta para o almoço. Mas havia ainda tantos leftovers que disseram: come-se o que houver, não é preciso fazer nada. E francamente foi o que eu queria ouvir. Apetecia-me uma refeição mais ligeira, nomeadamente a nível da confecção.

Então, improvisei. Fiz assim:

Numa taça grande coloquei o resto do arroz (basmati) e o frango assado desfiado (ambas as coisas sobras do almoço de sábado). Depois cortei três maçãs de alcobaça aos cubinhos pequeninos, três tomates grandes maduros também aos cubinhos (e ao cortá-los o suco ia escorrendo), depois cortei às tirinhas finas o conteúdo de um pacote de salada exótica (rebentos disto e daquilo), piquei finamente um bom molhinho de coentros, temperei com orégãos e azeites. Envolvi tudo bem. Por cima. coloquei um queijo fresco de cabra cortados aos bocados, três ovos cozidos picados e vários figos às rodelas. Voltei a temperar com um fio de azeite.

E estava saborosa, uma salada fria da qual não sobrou nada. A seguir comeu-se melão e alguns mais gulosos também uma sobremesa doce.

De tarde, acabei de ler o Sonechka da Ludmila Ulitskaya que, no outro dia, quando ao fim da tarde bateu uma saudade de entrar numa livraria de verdade e ver uma livreira de verdade, trouxe da Escriba

Vale um passeio de propósito a Almada para escolher uns bons livros e estar à conversa com a Rosa Alface, livreira de gema e de uma simpatia inexcedível. E dali poderão partir para o Parque da Paz para lerem um livro à beira do lago ou para a Casa da Cerca ou, claro, para um passeio a pé até ao rio com derivação para o querido Ginjal de onde se tem a melhor vista sobre Lisboa.

Li o Sonechka de seguida, agradada. Não há rodriguinhos, histórias mirabolantes, reviravoltas inesperadas. Há simplesmente boa escrita, uma história com personagens credíveis e cujo desenrolar de vida gostei de acompanhar. Não conhecia Ludmila Ulitskaya mas uma coisa é certa: vai estar sob o meu radar.

Depois, como me apeteceu continuar de enfiada, peguei na A Praia de Cesar Pavese. 

Estava calor mas não tão abrasador quanto no sábado. Penso que já o disse: até os arbustos do campo mostram as folhas enroladas e alguns parecem estar a querer secar. Uma coisa meio assustadora. A terra está seca, seca.

De manhã, quando foi dar a sua volta matinal pelo campo, o meu marido encontrou, a atravessar o caminho, lá em baixo, um esquilo. Até agora, das duas vezes que tinham sido avistados, sempre tinha sido cá em cima. Quando o pressentiu, o esquilo correu e enfiou-se por entre um cedro. E desse, saltou para o cedro do lado. Também é novidade: julgávamo-los amantes de pinheiros. De facto, nesta última semana não apareceram cá em cima tantas pinhas roídas quanto é costume. Na volta, dada a movimentação que agora tem havido por cá, resolveram procurar poiso mais tranquilo.

Claro que andei de cabeça no ar a ver se o descobria mas nem pouco mais ou menos. Os cedros são frondosos, impossível descortinar qualquer coisa cá de baixo e do lado de fora.

Para o jantar, resolvemos ir a uma das cidades mais próximas petiscar numa esplanada agradável onde se come bem. Para evitar os stresses do urso felpudo que é territorial e possessivo até em relação ao espaço da mesa à volta da qual nos sentamos, ficou em casa.

Não quisemos deixá-lo na rua não fosse meter-se em algum sarilho, enfiar-se nalguma gruta, cair da barreira, sabe-se lá, ou arranjar maneira de se escapulir para a estrada. Não é como a nossa querida cãzina que era tranquila, obediente, bem comportada. Este é temperamental, atrevido, teimoso.

Fomos cedo, por volta das sete. Dissemos-lhe o que sempre lhe dizemos: 'Fica a tomar conta da casa, está bem? Os donos já vêm'. Mas a dinâmica de saída desestabilizou-o porque não eram só os donos, era muita gente a entrar e sair, a entrar e sair. Depois de finalmente estar toda a gente cá fora e ele metido à traição dentro de casa, o meu marido viu que se tinha esquecido do álcool gel (coisa a que se afeiçoou) e um dos meninos também resolveu que queria ir beber água. Passado um minuto saíram de novo e, supostamente, o cão de guarda ficou dentro de casa. Eu, pelo menos não o vi sair. 

Depois de jantar, não viemos logo, fomos ainda dar um passeio até ao parque onde havia música e bailarico.

Quando regressámos, não sei que horas seriam, talvez umas dez ou dez e tal, não sei, esperávamos vê-lo logo ao pé da porta. Mal ouve o portão ou o carro ou mexer na porta, vem sempre sentar-se à porta à nossa espera. Desta vez não. Nada dele.

Chamámos. Nada. Na volta tinha caído num sono profundo e não nos tinha ouvido chamar. Chamámos alto. Nada. Fomos acendendo luz após luz, chamando, espreitando. Nem na cozinha, nem na despensa, sala de jantar, nem na sala da lareira, nem na sala de baixo, nem na da televisão, nem no meu quarto, nem nas casas de banho. Nada.

Todos já assustados, a chamar por ele, preocupados com o que estaria a passar-se, temendo que algo de grave se tivesse passado. 

Perguntei: 'Vocês viram-no de certeza, quando voltaram a casa?'. Sim, tinham-no visto, tinha ficado na cozinha. E eu, de facto, não o tinha visto sair.

Avançámos, então, para a parte antiga da casa onde, de novo, temos tido pernoitantes. A porta estava fechada. Estranho. Não é costume aquela porta estar fechada durante o dia. Chamámos. Nada.

Acendeu-se a luz. E lá estava ele, ao cima as escadas, encolhido, orelhas murchíssimas, imóvel, ar assustado. Não sabemos o que lhe aconteceu, como fechou a porta. E, claro, se a fechou, já não a conseguiu abrir que a porta é um pesadelo, enorme, de madeira maciça. Ali às escuras, no topo de umas escadas, sem acesso à zona da casa onde estão as portas da rua, e isto já para não dizer que também sem acesso à comida e à água, imagino como se sentiu infeliz.

Depois, quando subimos as escadas e fomos ter com ele, foi uma festa, todo agarrado a nós, o rabinho a dar a dar, só a pôr-se de pé para nos dar abracinhos e beijinhos, uma alegria. Parecia que ria a olhar para nós, todo contente. Respirámos de alívio e toda a gente lhe fez mil festinhas. A seguir, bebeu água como se não houvesse amanhã e comeu que se fartou. Pudera, tiraram-lhe um peso de cima, afinal, coitado do pobre infeliz, não tinha sido abandonado... Cãozinho mais fofo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Saúde. Boas ondas. Boas vibes. Paz

quinta-feira, setembro 24, 2020

Sobre a pulhice que a Joana Mortágua fez à Inês de Medeiros a propósito da maravilhosa vista dos bairros sociais de Almada.
E, ainda. o que dizem as velhas aos jovens que aos trinta e tal anos se portam como se tivessem mais de noventa

 


Ontem à noite a minha filha enviou-me o vídeo no qual a Inês de Medeiros gabava a boa vista dos bairros sociais de Almada. Não percebi porque mo mandava. Sem se pronunciar sobre o que ali estava, limitou-se a dizer que as redes sociais não falavam de outra coisa. Respondi que não conseguia formar ideia sobre 29" descontextualizados. E não liguei patavina.

Para meu espanto, hoje não se falava noutra coisa, até a televisão para lá foi, meio mundo a querer armar a barraca sobre tal solo. 

Li que foi a Joana Mortágua que o divulgou. E isso, do que li e ouvi, foi a única coisa que me pareceu mal. A deslealdade, a coscuvilhice, o mau carácter que a mana Mortágua aqui revela é que me parece repelente. Que mal tem dizer a verdade? É verdade que os bairros sociais de Almada, nomeadamente aqueles a que Inês se refere, têm uma vista espectacular. Porque não o poderia dizer? 

Algumas vezes já eu própria o referi: sorte a das pessoas que aqui vivem, a de terem uma vista destas. Claro que quem ali mora terá uma vida difícil, claro que as suas casas não são palácios. Em Almada nem em qualquer outro lugar do mundo. Mas têm uma vista extraordinária. É a mais pura das verdades. Acresce que, segundo leio, Inês de Medeiros, na intervenção da qual a intriguista mana Mortágua extraíu os 29" com os quais pretendeu apunhalar Inês de Medeiros pelas costas, garantiu que no concelho da Margem Sul não existe “um sistema de guetização”, estando o Executivo focado em lançar uma política “em sentido contrário”, com mistura de diferentes grupos sociais. Mas isso a menina Mortágua já não disse. Claro que não. Se tivesse divulgado o teor do que Inês de Medeiros defendeu, estragava o efeito da bomba que pretendeu largar. 

E o que tem a aprovação de um hotel em Porto Brandão a ver com aquilo? Sonsa, esta mana Mortágua, sonsa e enviesada, escalena. Tantas vezes eu também lamentei que lugares que são dos mais lindos do mundo não fossem de conhecimento alargado, não fossem divulgados, não fossem aproveitados para um turismo de qualidade. Quantas vezes andei ali pelo meio a fotografar aqueles navios abandonados, aquela vista fabulosa. Muito inteligente o ter-se aprovado a construção de um hotel de qualidade em Porto Brandão.

Estas  pretensas moralistas, estas intriguistas que se alimentam disto, revelam a toda a hora aquilo de que são capazes. Dantes, quando eu assistia a gestos destes, sentia o desprezo que ainda hoje sinto mas acreditava que, tal como eu, toda a gente as iria também desprezar pois, julgava eu, aquela velha máxima de que Roma não paga a traidores prevaleceria. Mas hoje já não fico tão tranquila pois o que constato é que as vilezas de que as meninas do BE são capazes colhem mais do que as ortodoxias do PCP. Se a nível legislativo não me apanham a votar nem num nem noutro, a verdade é que o PCP, sendo gente frequentemente facciosa e pouco aberta à mudança, é, na maioria, gente séria, leal, gente de carácter, gente de quem se pode dizer que what you see is what you get.

E sobre a sacanice da Joana Mortágua não digo mais nada, não me apetece. Sempre que estou perante gente que se põe em bicos de pés para exibir a sua veia populista, só me apetece virar-lhes costas, ignorá-las, votá-las ao mais absoluto desprezo, deixando-os a falar sozinhos.

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E passo a um outro tema que, se calhar, não tem nada a ver. Se calhar.

Pasmo muitas vezes com o conservadorismo de alguma gente nova. Tentando apresentar-se como moderninhas, causas fracturantes e o escambau, meninas muito avant garde, mostram muitas vezes que têm ideias quadradonas, que concebem estruturas de vida que não estão com nada, meninas que não têm noção do ridículo em que caem quando se armam em vizinhas e preparam insidiosas armadilhas a quem, de frente, fala sem premeditação. Meninas que se acham sábias, sabichonas, que gostam de dar lições. Não suporto. Cresceram velhas e o pior é que são mais velhas, mais descarnadas e cerebralmente mais esvaziadas do que muita velha carregada de anos biológicos mas com uma jovial leveza na alma e a cabecinha carregada de neurónios a bombar.

Olhem bem o conselho das Avós da Razão a uma jovem de 33 anos

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E um dia feliz para si

terça-feira, outubro 03, 2017

A grande vitória do PCP em Setúbal.
Perdão. Corrijo: a grande vitória da Maria das Dores em Setúbal.
E a grande derrota do PCP em Almada.
Perdão. Corrijo. O voto de confiança de Almada na Inês de Medeiros


Enquanto nas televisões e nos jornais todos se afobam a ver quem aparece com o comentário mais inteligente e todos têm explicações elaboradas para tudo o que aconteceu, eu, moça simplória, para tudo o que acontece tenho explicações simples.

A saber.

Setúbal.

Vitória do PCP coisa nenhuma. Vitória da Maria das Dores, isso sim. Por acaso, a Maria das Dores é do PCP mas podia ser do PS, do BE ou ser independente. Algures no tempo deu-lhe para ali e por ali se foi deixando ficar. Mas, cá para mim, é tão comunista como eu. Mas também não é grave porque, para o efeito, não faz grande diferença.


O que ela é é trabalhadora, empática, gosta de ter a cidade arranjada, vê-se obra. 

Em tempos passou por lá, por Setúbal, um burgesso, qualquer coisa Cáceres, não me lembro do nome do homem. Toda a gente abominava tal pessoa. Uma coisa na base do pato-bravo desqualificado que descaracterizou a cidade e deixou má memória.

Setúbal assolada por crises de desemprego, as fábricas a despejar gente para as ruas e, na autarquia, um matrafão que arrancava árvores, que empedrava tudo, que atafulhava a cidade do que a cidade não precisava.

Foi-se embora mas a fasquia inferior ficou bem definida. Uma coisa assim, jamais. De facto, a preocupação, ao votar, é que seja em alguém que seja o oposto dele. Depois dele, a malta só quer gente civilizada, de boas contas e boas maneiras, e capaz de sorrir.

Acontece que a Maria das Dores, pelo que se tem visto, é assim mesmo -- e, portanto, a milhas do tal bicho de má memória. E é bonita, bem arranjada, sorridente. Não sei como consegue ter sempre o cabelo tão bonito e ter tempo para aparecer sempre bem maquilhada e bem vestida. É agradável para a população ter uma presidente assim. E a cidade está bonita, cuidada, tem sido valorizada, e há eventos culturais, e ela tem sabido promovê-la e os turistas enchem a cidade, tornando-a vívida, alegre.

Portanto, sem pestanejar, as pessoas votam nela. E votariam se ela fosse de outro partido qualquer pois votam é nela. E era bom que o PCP percebesse isto. 

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Inês de Almada - a rive gauche a quem a merece


É o reverso do que aconteceu em Almada. As pessoas votavam no PCP porque, em regra, se admite que os comunistas são autarcas geralmente competentes e porque nunca tinha surgido candidatura alternativa com boa cara. De facto, os outros partidos sempre olharam para Almada como uma coutada comunista. Por isso, nunca lá punham ninguém de jeito. 

Desta vez o PS pôs a Inês de Medeiros. E ela é simpática, fala bem, olha-se para ela e espera-se que se porte bem, que traga uma maneira diferente de fazer política -- e o PS apresentou um bom programa. Portanto, uns eleitores, talvez aqueles mais conservadores, ainda se deixaram ficar -- mas os outros resolveram ver se é desta que aparece uma boa lufada de ar fresco. Tão simples quanto isto. 



E era bom que o PCP também o percebesse. Nem tanto a ver especialmente com o PS, nem com o efeito da Geringonça (que esvazie o papel do PCP) ou com qualquer outra razão metafísica.  Almada votou na Inês de Medeiros sobretudo porque existe saturação da pasmaceira comunista e uma vontade de ter orgulho na cidade em que se vive e de ver acontecer coisas novas (como a Isabela explica no seu blog).


A velha guarda que votava no PCP por razões ideológicas, recordando os duros tempos do fascismo, é cada vez menor. Agora, para quem não é dos tempos da 'longa noite fascista', das torturas de sono, das vidas clandestinas, etc, os comunistas são vistos como os da CGTP... e pouco mais. E, nas autarquias, são vistos como gente competente e honesta mas sem grande rasgo, sem asas, sem serem capazes de abrir caminhos de modernidade.


A minha mãe hoje dizia-me: 'Antes do 25 de Abril, o PCP ainda se justificava. Agora hoje...? Não. Já não se justifica'. E, no entanto, votou na Maria das Dores. Chamei-lhe a atenção para a contradição. Mas ela confirmou o que eu já sabia: 'Não. Não votei no PCP. Votei foi nela'. Tal como em Almada votaram na Inês de Medeiros.


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segunda-feira, setembro 25, 2017

Lisboa, a bela.
[E o que se vê dela. Mais concretamente: o que se vê do Panorâmico do Monsanto]


Open House Lisboa. Edifícios nem sempre acessíveis ao público abertos durante o fim-de-semana, com o apoio de simpáticos voluntários que nos contaram a história das construções, realçando os aspectos ligados à arquitectura.


Começámos pelo Panorâmico de Lisboa. Transcrevo do site:

Não existe vista sobre Lisboa como esta. Construído a uma altitude de 250 metros, este edifício inaugurado em 1968 já foi um restaurante de luxo, uma discoteca, um bingo, já albergou escritórios e um armazém de materiais de construção civil. Abandonado há mais de uma década, esta obra maior de arquitectura tem no seu interior painéis cerâmicos de Manuela Madureira e um mural de Luís Dourdil. Para já, o plano da Câmara Municipal de Lisboa é dotá-lo de condições de segurança para que possa ser visitado por todos, e assim se devolva este miradouro à cidade.
Uma construção espectacular, de onde se tem uma vista absolutamente deslumbrante -- e ao abandono. 

Do Panorâmico de Monsanto se faria um fantástico museu. Um museu, por favor. Um garnde museu. Se Philippe Starck está a viver em Portugal, vão buscá-lo, está perto. Ele poderá dar uma preciosa ajuda. Um museu  com restaurante, com ateliers, com residência de artistas, uma sala de concertos, uma biblioteca de artes. O edifício é enorme, dará para tudo.O que é que o Ministro da Cultura, o da Economia (na vertente Turismo), o Presidente da Câmara de Lisboa ou sei lá quem mais estão à espera, eu não sei. Façam qualquer coisa. E construam um hotel lá ao pé. Despachem-se. 


Neste post não estou a mostrar o edifício em si mas sim a vista que dele se tem. Uma vista absoluta que o tempo limpo permite que se estenda até às maiores lonjuras. Noutro post já mostro o estado em que se encontra, uma desolação. Mas agora o que quero que vejam é o que os meus olhos viram.



O Cristo-Rei, o Tejo, a Ponte 25 de Abril
(e mais um cruzeiro a entrar a caminho de Lisboa)



Ao fundo Palmela, a Arrábida. Junto ao Tejo, penso que o seixal.
No meio Almada e virado para cá, uma rua estreita rente ao Tejo, quase invisível, o Ginjal.
Do lado de cá, Lisboa, Lisabona, Lisbon, Lisbonne -- la ville blanche


O aqueduto das Águas Livres e, sobrevoando Lisboa, um aviãozinho

E eis que o aviãozinho desceu -- e cá está ele a aterrar

Uma cidade branca espraiada ao longo de rio largo e igualmente belo. E a outra margem, la rive gauche.


As Amoreiras que, em tempos, tanta polémica geraram. E afinal tão bonito que é.

A noiva. Os cabos da Ponte Vasco da Gama como se fossem véus brancos 

Para os meus Leitores benfiquistas, um miminho: o Estádio da Luz 

Do lado de lá, Cacilhas e o início do Ginjal e, do lado de cá, o Museu de arte Antiga


Uma das varandas de onde se vê o que vos mostrei

As alturas e a beleza da paisagem inspiram o corpo que parece ter vontade de ganhar asas

Não identifico esta paisagem pois as opiniões, aqui em casa, dividem-se.
Na verdade, não estou a perceber onde é embora aqui ao meu lado teimem que é óbvio. Para mim não é.

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segunda-feira, abril 25, 2016

25 de Abril 2016
Festa na rua, um mar de gente a cantar, a festejar a Liberdade
E um grande concerto dos UHF


Viver em liberdade é também isto: podermos encher as praças, ouvirmos música, cantarmos, dançarmos na rua. Nesta noite de primavera, há música na rua, há gente, muita gente, um mar de gente. As ruas estão cheias e convergem, como braços de rios, para a grande praça que se enche -- toda a praça e largos e escadarias em volta.

Estava quase a ser 25 de Abril e toda a gente vinha feliz para o receber. Há razões para festejar. Há um certo sentimento de esperança no ar. O País tem esta coisa de, volta e meia, patinar em seco, deixar-se ficar na cauda, tem esta fraqueza de, volta e meia, eleger umas fracas figuras que fazem fracas e fortes gentes. Mas agora que saímos de um período negro de quatro anos, queremos acreditar que estes quatro que aí vêm serão melhores e os que se lhe seguirem também. Queremos sentir confiança, e de confiança se faz a construção do futuro.

E o País tem, sobretudo, a felicidade de viver em liberdade
-- e pode até ser que a liberdade, volta e meia, seja a modos que condicionada, pode até ser que a comunicação social, a soldo de quem lhe paga, manipule a opinião pública, mas também é verdade que toda a gente pode opinar (como eu estou aqui a fazê-lo, e não tenho medo que me venham prender, nem, quando estou na rua a festejar, tenho medo que haja agentes no meio da multidão prontos a denunciar-me ou a quem se manifeste contra isto ou aquilo) -- 
e a conquista da liberdade é das mais valiosas conquistas que um povo, antes espezinhado e maltratado, pode ter alcançado. E isso devemo-lo ao 25 de Abril de 1974 e só isso é razão mais que suficiente para o festejar.

E, então, com a praça cheia de gente. 
a música rebentou no palco 
e a energia foi imensa, 
contagiante.

UHF - 25 de Abril de 2016 - Almada


Como me limitei a fazer fotografias, socorro-me de vídeos disponíveis no youtube colocando aqui os que se referem a músicas que os UHF interpretaram.

Vejam bem 

- UHF a cantarem Zeca Afonso

E se houver 
uma praça de gente madura 
e uma estátua 
e uma estátua de de febre a arder



Reparem nos pequenos rectângulos de luz:
em tempos as pessoas acendiam isqueiros para ondular ao som da música -- agora filmam com os telemóveis.
De forma instantânea, certamente muitos vídeos do concerto foram parar às redes sociais


Se há coisa de que gosto é de concertos de rua em datas especiais em que se juntam novos e velhos, ricos e pobres, gente de todas as raças e cores, em que a despreocupação é total e a espontaneidade impera, onde meio mundo canta e dança, de forma genuína, onde se junta a alegria do momento com a energia da música. 

Os UHF estavam em casa e o António Ribeiro não disfarçou a emoção por estar a festejar o 25 de Abril numa praça repleta com a gente da sua terra, milhares de pessoas. 


Pela minha parte, para além de festejar, dançar e tirar fotografias, tive uma missão que me auto-atribuí: não perder nenhuma criança. Tenho um certo pavor em meter-me com a criançada no meio de tanta gente mas é bom que eles sintam esta intensa vibração e saibam como é bom festejar colectivamente a alegria da liberdade. Portanto, para além dos demais adultos estarem, obviamente, também in control, eu não desgrudei deles nem parei de os contar de segundo a segundo. 

Para além disso, já antes de irem, estavam a falar nos churros e waffles e, portanto, a meio do concerto, lá fomos em cortejo, agarrados uns aos outros, pelo meio da multidão, milhares e milhares de pessoas, uma coisa impressionante, até a uma das caravana dos comes e bebes e, depois, em sentido inverso, para nos posicionarmos de novo de onde conseguíssemos ver o palco. Uma aventura.

UHF - Nesta imagem, pai e filho, em noite de festa em Almada


Estávamos nós estrategicamente posicionados quando ouvi alguém a pedir licença. Olhei e era um homem jovem numa cadeira de rodas eléctricas, um jovem que me pareceu não ter pernas. Logo a seguir uma outra cadeira de rodas: uma jovem também com o que me pareceu acentuada deficiência. Toda a gente abriu alas para que eles tivessem bom ângulo de visão para o palco. Eles sorriam, encostavam os rostos, beijavam-se, felizes. Os miúdos olhavam muito admirados. Eu não queria que eles se pusessem a olhar insistentemente mas depois pensei que é bom que vejam que todas as pessoas têm os mesmos direitos, que ninguém é menos que ninguém lá porque nasceu sem pernas ou se teve algum acidente e perdeu a mobilidade ou se teve paralisia cerebral ou qualquer outro problema e não consegue quase movimentar-se.

Depois de satisfazerem a sua curiosidade, não ligaram mais e voltaram a estar com atenção à música, a cantar e a dançar. E, claro, foram ao rubro com os Cavalos de Corrida, música que adoram e cuja letra sabem de cor.


A seguir, à meia-noite, como não podia deixar de ser, cantou-se o Grândola Vila Morena e só quem não ame a liberdade é que pode desvalorizar a importância desta data; só quem não ame a liberdade é que pode desprezar os que se juntam para, colectivamente, na rua, a festejarem. 

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade


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E depois, já dentro do dia 25 de Abril, rebentou o fogo de artifício. Espectacular, os meninos em delírio, uma emoção, o ribombar que se desfaz em luz, as cores que explodem em mil estrelas voadoras, o cheiro forte, a fantasia feita realidade, os riscos que se imaginam, a coragem que se sente, a sorte que se teve por escapar a tantos riscos, a felicidade, e todos juntos, em liberdade.


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Que a Liberdade e a Democracia nunca nos faltem.
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Um bom 25 de Abril para todos vós, meus Caros Leitores.
Que seja um dia muito feliz, este e todos os que se lhe seguirem.
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segunda-feira, abril 18, 2016

Solar dos Zagalos
- ou a prova de que somos um povo que não se dá ao respeito, uma gente que não sabe valorizar o que tem de bom, um País que, na maior passividade, despreza o que deveria abraçar, um País sem visão estratégica.
Parece que nascemos para sermos pobrezinhos e parvinhos. Que raiva.


Pronto. Antes dos gregos já tinha feito uma máquina de roupa, já tinha feito sopa e arroz de frango e já tinha jantado. Ainda antes disso, tinha andado na passeota (e já conto por onde) depois de ter ido ver o mar e, imaginem, ter ido almoçar ao sol, refastelada numa esplanada perto da praia, onde se comem belos pitéus gregos. Justamente: gregos. Agora, depois dos gregos e das gregas, já arrumei roupas e papéis, já arrumei tralha que parece que muda de sítio sozinha, já escolhi a farpela para amanhã, já pintei as unhas (cor transparente) e, portanto, já estou de volta ao batente.

De qualquer forma, quem não seja dado a acompanhar os meus passeios, pode saltar já daqui para a palavra de dois ilustres Leitores cujas palavras relativas ao tema 'as mulheres de Atenas' abrilhantam o Um Jeito Manso.

Agora vou, então, dar conta do que visitei hoje de tarde. Volta e meia, do nada, ocorre-me ir ver qualquer coisa. Desta vez nem sabia se estava aberto ao público e, a bem dizer, nem sabia bem onde era. Mas a internet no telemóvel e o gps no carro levam-nos a todo o lado.

Lá fomos. Solar dos Zagalos. A única vez que, já lá vão uns bons anos, quisemos visitá-lo estava fechado, não me lembro se encerrado para obras ou se naquele dia não era dia de estar aberto. Hoje tivemos sorte.



Um guarda à porta, e um senhor simpático a tomar conta. Quando chegámos, estava uma jovem com duas crianças. Depois não a vi mais. Penso que nem terá ido ao primeiro andar. Mais ninguém. Um espaço imenso apenas para nós. Um desperdício.

O solar é enorme, muito bonito, e está inserido num espaço amplo e ajardinado, com múltiplos recantos, com desníveis, muros, bancos, um lago, ampla vegetação.


Por dentro, praticamente vazio. Em algumas salas umas cadeiras absurdas, cadeiras baratas com estofo verde, despropositadas naquele contexto. Tenho ideia que em algumas salas até cadeiras de plástico havia. 

Em várias salas há necessidade de manutenção, humidades, salitres. Dá muita pena ver um edifício destes neste estado de quase abandono.

Tem uma exposição de cerâmica e, numa das salas de entrada, uma exposição temporária com uma meia dúzia de peças bonitas. E penso que essas salas são as únicas que estão arranjadas de uma forma coerente e com dignidade. 




Contudo, o resto é quase confrangedor. Dói ver salas com aquela beleza, tectos pintados, azulejos, belos soalhos, uma arquitectura digna, e tudo vazio, com ar decadente, alvo da indiferença do mundo.

Diria eu, que tanta coisa banal tenho visto promovida a coisa valiosa, que um país ou um município que tenha a sorte de ter no seu património um edifício como este, se deveria desdobrar em criatividade para poder ter um espaço destes sempre vivo, pujante de actividades.


Aqui deveriam fervilhar artistas, actividades culturais de toda a espécie -- sessões e workshops de dança, sessões e workshops de música de todos os géneros (jazz, rock, clássica, etc), de teatro, grupos de leitura, exposições de pintura, escultura, fotografia, cerâmica, aqui deveria haver um bar com produtos de qualidade, aqui dever-se-iam fomentar encontros, palestras. 

Não haverá alguém que se proponha explorar aquele espaço numa perspectiva cultural? Não haverá fundos para a reabilitação deste edifício? 


O próprio senhor que lá estava me disse que as verbas são curtas e que as prioridades serão outras. Percebo. Entre intervenções prementes a nível de saneamento básico ou intervenção social, entre apoio escolar ou reparação de vias públicas, talvez que a recuperação e a activação cultural do Solar dos Zagalos seja prioridade quase nula. Contudo, esta é sempre a lógica perversa da mula do inglês a quem se foi cortando a ração, cortando a ração, até que morreu, ficando o seu dono pior do que estava antes.


O investimento na cultura, acredito eu e já o disse aqui tantas vezes que temo ser maçadora, é um investimento virtuoso. Este é o tipo de investimento que, sendo bem planeado e toda a sua exploração bem acompanhada, vai pagar-se e ainda gerar receitas suplementares. O turismo será sempre, e creio que cada vez, mais uma actividade económica fundamental para o país. E refiro-me não apenas a turismo nacional que tenderá a crescer mas, sobretudo, ao turismo internacional que vai encarando Portugal como um destino de qualidade, seguro, civilizado.


O tecto da sala de cima : Leda e o Cisne

O turismo de qualidade centrar-se-á cada vez mais em torno de actividades culturais ou na procura de lugares com história, onde exista oferta de 'produtos' de qualidade e serviços abrangentes (lugares para dormir, lugares para comer, lugares para fazer compras, lugares para passear, transportes).


No caso concreto do Solar dos Zagalos, há todas as condições para ser um pólo de atracção cultural. Está perto de Lisboa, perto das praias, perto de um grande centro comercial, perto de hotéis, junto a uma via rápida que dá acesso a auto-estrada, a comboios, a metro de superfície, a barcos, está perto do Convento dos Capuchos que pode ser encarado como outro importante pólo cultural.

E é tão amplo o espaço que, provavelmente, poderia albergar uma residência para artistas ou até um turismo de habitação.



Parte do tecto da capela acima

Bem mais de metade do que ganho vai para impostos e não me ouvem aqui queixar-me disso. Acho que esta coisa pública tem andado a ser gerida com os pés (ou melhor: com as patas) e os obscuros interesses financeiros têm posto e disposto, e feito de nós --  e de todos quantos se apresentam como uns mansarrões --  autênticos gatos-sapatos. Mas os mais desfavorecidos, os desempregados ou os que, por circunstâncias da vida, mais vulneráveis estão não têm culpa disso e têm direito a uma vida digna e a ter as mesmas oportunidades que os que têm tido mais sorte. Por isso, se tenho que trabalhar mais de metade do ano para nem cheirar o que ganho, pois que seja.

Parte do imenso jardim: tirando nós, apenas um homem sentado num banco.
Uma desolação ver um espaço desde sem vivalma.

Agora uma coisa tenho que confessar: custa-me ver como são míopes e pouco espertos aqueles que, de uma forma geral, estão à frente dos destinos do País, aos mais variados níveis, custa-me ver a forma pouco inteligente como usam o dinheiro dos meus impostos, dos meus e de toda a gente.

Ainda não há muito tempo estive em Óbidos. Contei-vos. As ruas cheias de gente, as lojas abertas e cheias, os hotéis cheios, os restaurantes cheios. Óbidos soube apostar na cultura, nos seus monumentos, nas livrarias, nas feiras. E ganhou a aposta.

Mas casos destes não são frequentes. De forma geral, o poder de decisão está entregue a burocratas, a funcionários, a gente acagaçada ou a yes men -- não a gente com mundo, com motivação, com uma visão de futuro ou, simplesmente, com os ditos no sítio (e aqui, não me refiro apenas a cidadãos mas obviamente também as cidadãs que, de forma geral, até os têm em melhores condições que os seus congéneres masculinos).
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Apesar de tudo, recomendo vivamente uma visita ao Solar dos Zagalos, nem que seja para verem como tenho razão, que é uma pena que aquele espaço não seja revitalizado. Ou para verem se descobrem maneira de pressionar a Câmara de Almada nesse sentido. Ou se têm qualquer outra ideia. E, de qualquer forma, verão que é um lugar muito bonito e com uns jardinas onde se pode estar no maior sossego a descansar, a ler um livro -- ou a não fazer nenhum que também é bom.


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Lá em cima, a música era Elegie for Viola and Piano Op. 30 de Henri Vieuxtemps, numa interpretação de Robert Diaz (viola) e Robert Koenig (piano)
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Aconselho-vos, ainda, a descer até ao post seguinte e a lerem as palavras de quem sabe do assunto. Dou a palavra a dois Leitores que sabem das Mulheres de Atenas mais do que os que estiveram lá para contar. E se, depois de terem lido o que se segue, ainda pensarem que, a partir do que lá se viveu, se poderão fazer comparações para a realidade actual só vos digo que darei carta branca ao Leitor José Neves para vos dizer que não!!!! até ao fim dos vossos dias. Combinado?

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domingo, fevereiro 28, 2016

Arte na rua
[Post 3 de 3]


Dia frio, de chuva, vento, pouca gente na rua. Dia bom para passear, portanto. Manhã reservada à agreste beira do rio e, depois, à venturosa descoberta de um lugar abandonado onde floresce a pintura nas paredes que em tempos pertenceram a edifícios talvez garbosos. Mais bonitos, apesar de decadentes e aparentemente degradados, estão agora. Quem ali pinta parece trazer uma vida cheia de cor e calor ao cimento gasto, às janelas e portas que já não se abrem.












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domingo, junho 22, 2014

Receber o Verão na Casa da Cerca em festa, de frente para Lisboa, a Bela, ao som da música dos The Soaked Lamb. Haja saúde e alegria e que venham daí esses longos e quentes dias de estio.


No post abaixo dou a palavra a uma menina inteligente, a Mariana Mortágua, uma economista de fala clara, limpa, que ali invoca o espírito merceeiro da Dama de Ferro para ajudar a explicar aquilo a que a burrice de uma seita muito esquisita está a conduzir. Não deixem de ler porque é de leitura acessível e todo o texto é muito auto-explicativo.

E tendo falado disto, mergulho, no post seguinte, no verdadeiro mundo dos ricos. Com a minha costela sherlockiana não apenas quase desvendo o mistério do iate ancorado a meio do Tejo, como vos faculto o caminho para os interiores do barquito.

Bem, isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. E vai ser rápida porque são duas da manhã, estou cansada, e este domingo a alvorada é cedo porque vamos de excursão, com mantimentos já meio preparados (estive a cozinhar esta noite e amanhã é só meter tudo na geleira e em sacos - esta é a história da minha vida: andar carregada de um lado para o outro): vamos todos passar o dia ao campo.



Hello, Bang Bang, Goodbye


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Este sábado foi o dia mais longo do ano, o primeiro dia de verão. E nós fomos viver o solstício de verão em festa, pois claro.


O local é dos mais belos à superfície da terra pela vista. E é bonito também em si, isto é, não apenas pela vista. E, quando está cheio de gente, torna-se um local mágico. Refiro-me à Casa da Cerca em Almada, um local aprazível com uma vista soberba sobre Lisboa.


A família reuniu-se lá e alguns amigos juntaram-se-nos. Éramos um grupo grande entre muita gente que, na relva, junto às árvores, com uma vista fantástica, comia, bebia (havia lá imensas barraquinhas com petiscos, bebidas e bolos óptimos) e conversava e, depois, cantava, batia palmas e dançava.

Um good feeling no ar.

Estou agora a falar do concerto ao ar livre, no anfiteatro natural, dos The Soaked Lamb do qual faz parte, entre outros, o escritor Afonso Cruz.

Li que: uma vez que todos os membros da banda exercem outras profissões, as gravações tinham lugar aos domingos. Como o dono da casa preparava, ocasionalmente, ensopado de borrego, foi graças à ementa de domingo que a banda ganhou o seu nome.

A música é deliciosa (tal como seria, certamente, o ensopado de borrego), as interpretações deles um prazer, uma boa onda contagiante.

As pessoas estavam não apenas no pequeno anfiteatro, como espalhadas pelo jardim, deitadas no amplo relvado, e uma senhora ao nosso lado pintava aguarelas, grupos petiscavam, outros conversavam e muita gente dava o seu pezinho de dança (eu incluída, claro).

De todos os pimentinhas, o que me acompanha na dança - mas com uma pinta que só visto - é o bebé.

Que belo pé de dança se está ali a formar. Baixa-se, dança com o corpo todo, faz gestos com os braços, com as mãos, uma pintarola. E sempre a rir, um bacaninho palrador.

Cada vez mais, parece que as pessoas começam a ganhar o gosto em juntar-se, em festejar em conjunto as pequenas coisas da vida, em desfrutar a natureza.

Estar assim, num espaço aberto como este, de onde a vista é maravilhosa, a ouvir música, num ambiente descontraído, junto daqueles por quem sentimos mais afecto, revermos pessoas que não víamos há algum tempo, estarmos à conversa, na boa, sem poluirmos a conversa com temas desagradáveis nem falarmos de gente desqualificada, é do melhor que há.

Quando há pouco abri a caixa de correio tinha uma dúzia de mails com artigos, dicas, links para sites onde se fazem denúncias importantes. Mas a verdade é que a minha cabeça estava mesmo noutra. Tirando o artigo da Marianita, tirando um vídeo que hei-de divulgar amanhã e um inesperado mail de uma Leitora a quem responderei ambém amanhã, não consegui interessar-me por mais nada (nem, uma vez mais, consigo responder: já é tão tarde). Que me desculpem os que tão generosamente me enviam informações, munições, não me levem a mal. Mas há dias em que a nossa cabeça só quer frescura.

Talvez que esta minha reacção tenha o seu quê de alienação. Mas e daí? Há-de uma pessoa estar sempre arreliada, preocupada?

Se está num espaço lindo, a ouvir uma música que nos faz ter vontade de dançar, se está entre família e amigos e estão todos sorridentes, bem dispostos, não é isso uma coisa boa?

Eu acho que sim.

Isto ainda me dá mais vontade de lutar para que a vida seja uma coisa boa e não um tormento. Quando penso nas pessoas que não arranjam trabalho ou que ganham miseravelmente ou que receiam não ter dinheiro que lhes chegue até ao fim do mês e que, portanto, não têm paciência ou ânimo para estar em ambientes distendidos assim, ainda me sinto mais determinada a tudo dizer e tudo fazer para ajudar a que haja uma qualquer reviravolta nesta política perversa que rouba a alegria de viver a tanta gente.

Depois, já o sol se estava a pôr, regressámos. Almada já começava a iluminar-se e na velha Rua Capitão Leitão, cheia, já se assavam sardinhas e febras e já tocava alto a música para os festejos dos santos populares.

Haja alegria. Pelo menos enquanto a alegria não pagar impostos.


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E por aqui me fico. Relembro: abaixo há mais dois posts que talvez gostem de ler. E um alerta: não consigo energia para reler o que acabei de escrever (nem este nem os dois posts abaixo). É mais que certo que haja letras trocadas ou a mais ou a menos, vírgulas saltitonas e outras incongruências. Relevem, sim?

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo. E um bom Verão!
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