Não sei se é a lei da vida. Se calhar, é. Se calhar há mesmo que aceitar que não há corpos imortais. Se calhar há que reconhecer que muito aguentam alguns corpos, se calhar há que aceitar que há sempre aquele momento em que o corpo esgota a sua capacidade de gerar energia.
Morreu Jorge Palma.
A notícia fere-me.
Bem sei que, como acontece aos criadores cuja obra se acolhe no coração de muita gente, ficam as suas belas canções e a memória da forma como as interpretava. Bem sei.
Não duvido: ficam, ficarão talvez para sempre. Muita gente as interpretará de novo, muita gente entregará a sua emoção ao lembrar-se dele, ao dizer as suas palavras, ao tocar a sua múvica, e nós relembrá-lo-emos também com emoção, com pena que ele se tenha libertado já da lei da vida. Não duvido.
Na nossa memória, Jorge Palma junta-se a Luís Represas, ao Zé Pedro, ao Bernardo Sassetti, aos nossos melhores. Temos o privilégio de termos partilhado com eles uma parte importante do nosso tempo. Partiram antes de nós. Ficamos com o dever de manter viva a sua memória.
Mas com que saudade.
Somos feitos de pé da estrelas, todos. A esta hora Jorge Palma já flutua no espaço. Amanhã já habitará o corpo de um pássaro, as pétalas de uma flor, já será o sopro do vento, uma estrela do mar. Já estará a apontar-nos o caminho melhor do que qualquer estrela.
Não duvido.
E, no entanto...
O meu olhar tem razões que o coração não frequenta
Por favor diz-me quem és tu, de novo?
E toda a verdade em ti é coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar que a tua presença me arrasta?
Quem és tu, na imensidão do deslumbre?
Quando o tecto se escancara e se confunde com a lua
A apontar-me o caminho melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar que foste sempre a mais bela
Do melhor. Grande homenagem ao grande Jorge Palma. Todos ali a dar corpo à admiração e ao afecto que o País sente por ele. Comovente. Homens e mulheres, da nova e velha guarda, do fado e do rock, das baladas e do rap, dos amigos aos filhos -- todos à uma. Todos presentes para darem corpo ao hino 'a gente vai continuar'.
Uma maravilha. Uma grande ideia e um grande trabalho da Rádio Comercial. Para ver e rever. Para sempre.
Homenagem a Jorge Palma - A Gente Vai Continuar
“A Gente vai continuar”. Foi o que pensámos, quando decidimos homenagear, em vida, grandes nomes da nossa música. Este ano, Jorge Palma está a comemorar 50 anos de Carreira. A Comercial assinala assim a efeméride, com esta música. Os artistas disseram todos que sim, com entusiasmo de fãs, o André Tentugal realizou, o João Só fez o arranjo e o resultado é o que partilhamos aqui. Uma canção daquelas que já não é só de Jorge Palma, é de todos os portugueses. Uma letra de esperança, de inconformismo, que apela à coragem de seguir em frente, sobretudo em tempos de incerteza, dúvida e dificuldade. Nunca esquecendo que “a liberdade é uma maluca, que sabe quanto vale um beijo” e de como isso é, muitas vezes, decisivo e pode fazer a diferença. Enquanto houver estrada para andar… Parabéns, Jorge Palma. E obrigado por tanto.
"A Gente Vai Continuar", com arranjo de João Só e participação de Tiago Bettencourt, Aurea, Quatro e Meia, Nena, João Só, Tatanka, Héber Marques (HMB), Fernando Daniel, Mafalda Veiga, Tomás Wallenstein (Capitão Fausto), Rui Veloso, Virgul, Bárbara Tinoco, Ivandro, Miguel Araújo, João Pedro Pais, Syro, Carolina de Deus, Rui Reininho, David Fonseca, António Zambujo, Salvador Sobral, Ana Moura, Tim, Sérgio Godinho, Marisa Liz, Paulo Gonzo, Carolina Deslandes, Agir. Mariza, André Sardet, Carlão e os filhos de Jorge Palma, Vicente e Francisco Palma.
E abaixo a reacção de Jorge Palma à maravilhosa homenagem organizada pela Rádio Comercial à qual colegas, amigos e filhos se juntaram, sorridentes e agradecidos. Há coisas bonitas.
Queria que me olhasses nos olhos. Queria olhar-te nos olhos. Durante uns segundos. Talvez longos segundos. Até que não conseguíssemos despir-nos mais, porque toda a pele já tivesse sido arrancada, porque o teu olhar me queimasse, porque o meu me ardesse.
Olhar-te, olhares-me. Não é porque queira que uma luta de olhares resolva o que outras lutas não resolveram. Não sei porque é. Talvez queira adivinhar-te e, porque nestas coisas, deve haver reciprocidade, talvez queira que me adivinhes. Talvez queira que me contes. Ou que não seja preciso contares nada. Nem eu a ti. Talvez que seja como se nada do que aconteceu antes interesse. Porque tudo o que aconteceu fica zerado com um olhar.
Olha-me. Deixa-me que te olhe. Deixa que adivinhe as suas fragilidades, deixa que toque o nervo mais sensível do teu corpo, deixa que o meu olhar te anule as defesas e queiras chorar para que eu te perdoe, te console, te compreenda. E tu a mim. Deixa que o meu olhar e o teu não suportem mais a distância e exijam um abraço, exijam o fogo, a treva, o abismo.
Olha para mim. Toca-me com o teu olhar. Recebe toda a confiança e entrega-te todo a mim. Recebe-me. Sem condições. Não queiras nada de mim. Nada quero de ti. Quero apenas olhar-te, quero apenas que me olhes.
Quem és tu?
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Mais dois excelentes retratos, ambos focados no magnetismo e no mistério do olhar: a australiana Carol Foote fotografou The Pilgrim (série 'Faces of India') e o iraniano Alireza Sahebi fotografou Waiting (da série 'Contagion')
Jorge Palma, uma vez mais, deixa no ar a dúvida: Quem és tu, de novo?
Dia muito agradável, em especial pela tarde. Parte da família esteve cá de visita e também um casal que, não sendo biologicamente da família, é, na verdade, como se fosse. Já deviam ter vindo cá há muito tempo mas, pandemia oblige, ainda não se tinha proporcionado.
Hoje calhou e foi um misto de visita de amigos e de visita de médico. Vou descobrindo coisas sobre mim e o mais aborrecido é que não têm sido boas notícias. Até ver, nada de cair para o lado mas, também, nada que alegre. Mas, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar -- e aprendendo a viver com as circunstâncias que nos calharam na rifa. Não é bom? Paciência. É o que é.
Há um lado perverso nisto: enquanto a gente vive na ignorância, não pensa, não se preocupa. Quando se conhece e as coisas têm um nome, aí, as coisas ganham outros contornos.
Por exemplo, tenho para aqui estado a ler artigos e a ver vídeos sobre o que antes desconhecia e que, afinal, tem tanto a ver comigo.
Tirando isso, fiquei contente por terem gostado da casa. A minha menininha linda andou a fazer as honras, toda contente por andar a mostrar a casa. Desde o primeiro dia em que qualquer deles cá veio sentiram esta casa como um ponto de reunião. Não hei-de esquecer-me do menino que corria de divisão em divisão, rindo, e, mostrando a incredibilidade, exclamava: Não admito! Não admito isto! até que a mãe descodificou: queres dizer 'não acredito'? E ele, nem aí, acho que quer dizer 'não acredito'
Fico muito feliz por perceber que os meus meninos gostam muito de cá estar. Aliás, acho que toda a gente (os poucos que ainda cá vieram) gostam desta casa tão luminosa e acolhedora.
Hoje não reguei os vasinhos mas acho que também não devem precisar pois de tarde choveu uma chuvinha miúda. Felizmente depois levantou e pudemos estar cá fora. Os passarinhos, habituados à nossa pacificidade, não se afastam e cantam de dar gosto.
À noite pus a máquina a lavar. Agora, enquanto escrevia, senti qualquer coisa a resvalar na cabeça. Era uma das florzinhas que a minha menina me ofereceu e que prendi no alto da cabeça.
Escrevo sobre estas minhas coisas, coisas de nada, porque não encontro na actualidade temas que me pareçam especiais. Entre variantes deltas, números crescentes e a especulação sobre o acidente que vitimou um trabalhador que atravessava a autoestrada, pouco mais há.
Faz exactamente um mês que fui transportada de ambulância de uma clínica para um hospital, ficando lá em observação até à hora de almoço do dia seguinte. Foi uma experiência que não quero esquecer. Estive lá menos de vinte quatro horas mas todas as vinte e quatro horas de todos os dias muitas outras pessoas ali estão, sofrendo, algumas na ignorância do seu estado, outras muito conscientes e ainda mais sofredoras. Poderia falar da falta de espaço, da falta de privacidade, e tudo isso seria verdadeiro e crítico. Poderia falar dos cheiros, poderia falar dos gritos e dos choros, e tudo isso seria verdadeiro.
Mas prefiro centrar-me num outro aspecto: doentes com patologias do foro mental deveriam estar em salas diferentes. Estarem, maca a maca, com doentes 'normais', desestabiliza-os e os seus comportamentos desestabilizam os 'normais'. E claro que ponham aspas com fartura em torno dos normais porque, a bem verdade, ninguém ali está muito 'normal'. De tudo o que ali passei e de tudo o que assisti, o que mais me perturbou foi a jovem suicida. Deixou-me mesmo muito perturbada. Tive muita vontade de sair da minha maca e ir falar com ela. Mas ela estava rodeada de enfermeiros, não faria sentido ir eu para ali armada em expert. Que será feito dela? E que impressão me fez o ar 'normal' dela quando saíu, com alta. Como poderia parecer tão 'normal', tendo atentado contra a sua vida poucas horas antes, tendo hábitos suicidas há tanto tempo, segundo ela própria disse? Como disfarçava bem o que lhe ia na alma...
O jovem que falava compulsivamente, ameaçando médicos e enfermeiros, também me deixou incomodada. E a jovem mulher, aspecto bem comportado, muito compenetradinha, que apareceu pela mão do jovem marido que não a largava, ali onde não eram permitidas visitas ou acompanhantes, também me fez muita impressão. O rapaz não tirava os olhos dela, ar preocupado. E ela sorrindo, tentando parecer 'normal'. Ou a senhora que sofria maus tratos do filho, ar tão envergonhado, cabeça baixa enfiada entre os ombros subidos, mas, não tendo mais para onde ir, estava era preocupada por ele não atender o telefone, não aparecer a saber dela ou a buscá-la.
Tantas tragédias ali, lado a lado, partilhando choros e gritos, num espaço tão confinado, numa intimidade forçada com desconhecidos.
Passou um mês. Talvez daqui por algum tempo eu já esteja noutra e tudo isto me pareça coisa remota. Mas não quero esquecer-me. A área da Saúde tem que ser amparada. Não é apenas desgastante para quem lá trabalha: é também muito mau para quem se vê atirado para uma situação destas. Poderá dizer-se que conhecer esta realidade nos faz bem, nos dá a conhecer o lado mais frágil da nossa existência. Mas, independentemente de nos fazer bem ou mal, há a situação vulnerável de quando ali estamos -- e, por uma questão de dignidade e de direito ao respeito, deveríamos estar noutras circunstâncias, não naquelas.
O tempo passa assim, quase sem a gente dar por ele. Passou um mês. Estou aqui na minha sala e a esta hora, outros homens e mulheres estão lá, macas coladas umas às outras, ouvindo os choros e os gritos, partilhando sofrimento e medo.
Só desejo que não me veja de novo em tal situação. Tal como muito sinceramente desejo que nenhum dos que me são queridos nem nenhum de vocês aí desse lado se vejam um dia numa situação daquelas. É sempre melhor sentirmo-nos acompanhados, tranquilos, protegidos, seguros, a nossa privacidade respeitada e, não menos importante, podermos ter algum dos nossos por perto.
Mas, enfim, bola para a frente. Há estrada para andar...? Há ventos e mar? Então, bora lá, malta, vamos continuar.
Há coisas que sabemos que não estão bem. Por exemplo, uma pessoa ir no carro e, esquecida que aquilo é um habitáculo envidraçado, pôr-se a tirar macacos do nariz é do mais embaraçoso e censurável que há. Alguém dizer quaisqueres é muito mau. Dizer há-dem também. Dar puns num local público não é lá muito bem-educado. Comer ruidosas pipocas no cinema é igualmente mau. De cuspir para o chão, então, nem se fala. Roubar creme anti-rugas na farmácia ou chocolate no supermercado, uma vergonha. Entrar à cara podre numa fila de trânsito, muito reprovável. Estacionar em segunda fila, impedindo os outros carros de saírem, é um abuso. Um homem coçar as partes pudibundas em público ou levantar a perna de lado como se estivesse com os pelos púbicos presos no elástico das cuecas também é altamente desagradável, especialmente para quem assiste e tem que fingir que não está a ver.
Tudo coisas que, pensando bem, deveriam merecer não apenas veemente censura pública como é óbvio que os seus autores estão mesmo a pedir para ser expostos debaixo dos holofotes e à frente das câmaras da televisão para levarem um valente aperto da Agente Mortágua.
Tanta coisa a saber:
não pensou no que fazia, quando fez?
quando é que disse?
porque é que disse?
ao pé de quem é que disse?
quando fez?
onde fez?
não viu que não devia fazer?
desde quando faz?
nunca ninguém lhe disse para não fazer?
esqueceu-se? esqueceu-se como...?
Claro que haverá uma ou outra ujm, os desmancha-prazeres desta vida, que dirão que a Assembleia da República não é lugar para inquirir sobre aqueles temas -- mas é certo e sabido que logo saltarão para a arena os que acerrimamente dirão que ora essa, que é ali mesmo, que é bom que saibamos quem são os espertalhões, os relapsos, os trapalhões, os porcalhões, que assim, quando os virmos por aí, já saberemos do que são capazes.
Mas eu -- lamento dizê-lo -- não concordo.
Acho que à política o que é da política, à justiça o que é da justiça, à escola o que é da escola, à psicologia o que é da psicologia. E etc. Acho que quando aceitamos que haja uma entidade que se sinta acima de tudo e de todos e ultrapasse toda a separação de poderes e saberes para que, do alto da sua cátedra, julgue e condene tudo e todos, estamos a abrir a porta a poderes ditatoriais e, talvez sem nos darmos conta, a minar a democracia e, en passant, a estender a passadeira a todos os populismos.
E faço-o por uma razão muito simples: acredito que não basta a gente, segundo os nossos próprios princípios, achar que uma pessoa não agiu da forma mais correcta, seja em que vertente da sua vida for, para aceitarmos que uma qualquer pessoa, sem que nada a autorize a tal, se arme em justiceira, inquisidora, polícia de costumes, e, de forma castigadora, sujeite o outro a interrogatório público, a pressão, a humilhação.
Cada um deve responder pelos seus actos mas deve fazê-lo nos termos e nos locais em que a legislação o determine e não conforme nos passe pela cabeça.
Por exemplo. Um banco é uma instituição financeira, no caso uma empresa privada, que tem gestores. Os gestores respondem em última análise perante os accionistas. A gestão é auditada por entidades independentes. E há depois as entidades reguladoras.
No BES falharam algumas coisas, quiçá algumas bastante graves. Provavelmente falhou a política de crédito, provavelmente falhou a gestão de risco, provavelmente falhou a gestão de topo no seu todo. E falharam as empresas que auditaram as contas e a gestão. Falhou a CMVM e falhou sobretudo o Banco de Portugal. E falhou Cavaco que incentivou à participação popular no aumento de capital numa altura em que os sinais de alarme já tinham disparado. E falhou, de novo, o Banco de Portugal e falhou o Governo de Passos Coelho ao partir para uma suicidária resolução do banco que, mal feita e nunca antes testada, só poderia conduzir ao buraco que se viu.
Os gestores levarem uma empresa para a beira de um precipício não é inédito, acontece quase a toda a hora. Contudo, a quase totalidade das situações de crédito malparado, de incumprimentos, de insolvência, passa à margem da política -- e é natural que assim seja.
Passa para dentro da esfera política quando está em causa um dos grandes pilares financeiros do país e, sobretudo, quando todos os reguladores e poderes que poderiam e deveriam agir estavam entregues a nabos, a totós, a nódoas que nada fizeram e que, quando finalmente agiram, foi para fazer porcaria. E passa quando o poder político chama o zé-povo a tapar o buraco.
E, aí chegados, haveria que perceber o que falhou tão estrondosamente. Era a altura da política agarrar o assunto. Muitas questões sobre as quais reflectir e decidir. Muitas. Infelizmente, aos dias de hoje, grande parte ainda sem resposta.
- Como é que ninguém deu por nada, desde os auditores aos reguladores?
- Os mecanismos que usam são os mais adequados?
- E como é que um grupo de ignorantes encartados chefiados por um desqualificado láparo tem margem de manobra para, na maior leviandade, fazer a resolução de um banco daquela dimensão sem que o regulador os tenha obrigado a pensar duas vezes antes de atirarem tudo o que estava envolvido, e era muito, precipício abaixo?
- Que cenários foram estudados pelo Governo e pelo Banco de Portugal? Que estudos de impacto foram feitos? Mostrem-nos. Ou nem se lembraram de os fazer...? Ou fizeram-nos e estavam todos errados?
Isso, sim, deveria ter sido percebido pelos deputados. E não para causar um festival público mas para ver como impedir que um desastre destes pudesse ter acontecido sem que antes houvesse mecanismos de prevenção que tivessem actuado. Isso, sim, tem que ser percebido.
- Como são feitas as auditorias? Quem audita as auditorias?
- Para que serve o Banco de Portugal se não dá conta de nada? Quem vigia o que faz (ou não faz...) o Banco de Portugal?
- O que foi feito, desde então, para garantir que não volta a acontecer?
Isto é o que interessa. E interessa para que possamos estar descansados de que isto não volta a acontecer.
O resto é puro carnaval. É poeira. É circo pour épater les bourgeois.
Se o banco emprestou dinheiro sem exigir garantias suficientes, a culpa não é do cliente, seja quem for o cliente. Se o cliente deu como garantias bens que não eram sólidos, a responsabilidade é da gestão de crédito e da gestão de risco do banco e das auditorias e dos reguladores que não exerceram as suas funções. Não é um tema político.
(Nota: E caso se suspeite que os fanfarrões que por aí andam e andaram com a boca cheia de empreendedorismo, todos cagões a darem lições de liberalismo, não passam de uns chico-espertos então que a comunicação social faça o seu papel -- a comunicação social, não a Assembleia da República.
E se o cliente, seja ele quem for, faltou às suas obrigações de forma fraudulenta, então estamos perante um caso de polícia e aí a coisa deve passar para o patamar judicial -- não para o político!)
Os deputados estarem a chamar clientes de uma empresa privada é de uma estupidez sem precedentes. Está a entrar-se num registo pidesco. Digo-o com todas as letras: pidesco.
E isso é muito perigoso. E tanto mais perigoso quanto parte da população acha bem que isso aconteça.
Mas passo, então, à transcrição do comentário do MPDAguiar
Nos termos da lei 5/93 os inquéritos parlamentares têm por função vigiar pelo cumprimento da Constituição e das leis e apreciar os actos do Governo e da Administração.
Ora, se bem entendi o post da UMJ, ela insurge-se contra o facto de a deputada Mariana Mortágua parecer empenhada em apurar, por exemplo, quanto é que LFV (ou o NV) devia ao BES, e como conseguiu que lhe emprestassem dinheiro (BES sociedade de direito privado, e com accionistas privados, note-se), e que garantias deu, e para que serviu o dinheiro, e porque não pagou ( fazendo-o para mais com uma cara e uns modos de directora de escola primária dos anos 40 a tratar com alunos relapsos) em vez de se empenhar em saber porque razão é que o BES foi objecto de resolução em 2014 (Passos Coelho PM) antes da directiva DRRB.
Isso é que era! e já agora, também seria interessante que a senhora deputada procurasse saber porque razão o então PR se arvorou em garante do BES e da tutela do BP sobre o mesmo, e porque razão causaria alegadamente tanto dano ao sistema financeiro deixar o BES falir (afinal na Islândia faliram diversos bancos e a ilha não se afundou...), e já agora, porque não foi assegurado um mecanismo de controle público sobre determinadas decisões (prémios aos gestores, por o banco "conseguir" ter prejuízos, p.ex.), em contrapartida dos "empréstimos públicos" (Costa dixit).
O estilo Mortáguas/Martins é insofrível, e o único consolo é que de vez em quando levam um banho de humildade quando lhes cai em cima um caso Ricardo Robles, ou um caso Luís Monteiro. Mas não aprendem, pois aquelas cabeças acham que foram ungidas com todas as virtudes e são o reservatório moral, ético e jurídico da nação, sempre prontas a apontar a dedo aqueles que não correspondem a tão altos valores.
Conto-vos um segredo: estou aqui com uma vontadinha de escrever mais uma historinha da Serva-Mor e do seu pequeno servo... O pior é que a inspiração me está a querer levar para maus caminhos... A ver se consigo resistir
A bicharada que aqui está a assistir às Comissões de Inquérito é da autoria de Linda Bouderbala e o que lhes vale é a companhia de Jorge Palma, apesar dele estar Só
Os dias em que vamos buscar coisas ao apartamento parece que são os piores. Cansamo-nos, vimos carregados, eu quero aproveitar para trazer mais coisas, ele, como é ele que carrega tudo o que é pesado, aborrece-se, diz que eu abuso, eu digo que ele traga só o que quiser, ele diz que, se não trouxer tudo, eu fico chateada, eu digo que ele faça o que quer e não invente que eu o pressiono. E, neste bate-papo absurdo vamo-nos aborrecendo ainda mais. Andar a buscar coisas cansa, perde-se tempo, já não há motivação. A casa praticamente vazia, com despojos, restos do que caíu ou ficou para trás na mudança, tudo meio triste. E a nós já nos falta paciência para andar a garimpar. Por um lado dá vontade de deitar tudo fora e, por outro, parece irresponsável tomar essa decisão sem cuidar de saber o que se deita fora ou aproveita. Às tantas já estamos com fome, cansados, o carro a deitar por fora. E eu, outra vez, aflita da minha perna. Sinto que tenho para aqui um músculo em tensão, talvez quase rasgado, provavelmente inflamado. Ele não quer que eu pegue em coisas que pesem, eu custa-me vê-lo tão carregado e eu só a olhar e, depois, vou ajudar e, a seguir, já mal consigo dar passo e, depois, para além da dor incapacitante, tenho-a a ele a mandar vir comigo. Portanto, é sempre uma cena.
Mas a questão é que a roupa fomos nós que a trouxémos, em sacos. Eu trouxe blusas, blusinhas, tops, túnicas, saias, vestidos. Não tudo mas o que me pareceu necessário. Mas, por exemplo, esqueci-me dos soutiens. Quando tomei banho, pus a roupa para lavar e, no dia seguinte, quando me levantei... zero soutiens. Portanto, tenho andado com soutien dia sim, dia não. Ou seja, indispensável trazê-los. E queria também descobrir duas colchas brancas. A que eu usava habitualmente, aquela que a minha mãe, pela fotografia, diz que é uma toalha de mesa, ficou na cama que era nossa e que agora está num dos dois quartos das 'visitas'. Para nós, comprámos uma outra cama. Eu queria uma cama mais larga, menos clássica. As do ikea estavam esgotadas mas, numa loja de bairro, encontrámos uma equivalente. Levanta-se o estrado e é toda arrumação por dentro. Tem um metro e meio de largura. Pusemos quadros por cima e fica uma 'cabeceira' bem bonita. São dos pesados, com vidro, madeira pesada à volta. Foi o meu marido que os colocou e pôs uma bucha forte mas, pelo sim, pelo não, não encostou a cama à parede. Disse que, por via das dúvidas, era melhor deixar espaço para cairem no chão, caso se desprendam. Mas claro que não caem. Ora nesta cama coloquei uma colcha de tipo patchwork, em quadrados de cores diferentes, em veludos espessos, bonitos, em cor de tijolo, fogo, cores afins, com alguns brilhos. É pesada, bonita, confortável. Mas a minha filha, que não é dada a cores fogo mas, sim, a cores claras, pastel, branco, diz que acha que ficaria melhor com uma colcha de renda branca por cima desta que ali está.
E lá as descobri, num gavetão de um dos roupeiros do closet. Já amareladas. Já foram ambas lavadas, uma já está estendida. A outra ainda está na máquina porque, em especial quando molhadas, ficam a pesar toneladas e a minha perna já está mal de mais.
E vieram mais livros, nomeadamente os de culinária que ficaram num móvel que ainda não veio, e alguns candeeiros, e dois bancos metálicos, cinzentos, de uma cozinha que tivemos quando nos mudámos para aquela casa tão feliz para onde fomos viver quando a minha filha era bebé e onde nasceu o meu filho e onde vivemos até eles serem jovens adolescentes e os livros terem feito com que já lá não coubéssemos. Os bancos pesam horrores e, junto ao estofo, em cinza mais clarinho, já têm alguns pontos de ferrugem. O meu marido ia tendo uma fúria quando me viu a carregá-los: por um lado por eu estar a esforçar-me, estando no estado em que estou e, por outro, porque não quer trazer coisas que não estejam em boas condições. Aliás, estava irredutível, não queria trazê-los. Mas, para colocarmos junto à mesa que os anteriores donos cá deixaram e que veio da cave para o telheiro e que, justamente, é também cinza clarinho, vão dar jeito. Tenho duas cadeiras que eram deles, tenho cinco bancos de plástico e tenho quadro cadeiras com assento em verde que habitualmente estão em volta da mesa branco de ferro. Ora não chegam. Como não temos tempo para andarmos às compras, lá vieram os old bancos. E vieram toalhas de casa de banho e detergentes que havia lá com fartura e que é absurdo transportá-los para os deitar fora e depois ir ao supermercado comprar outros. Mas tudo pesa. Às tantas, tanta a discórdia, estamos a ponto de nos divorciarmos ali mesmo. Eu, pelo menos, estou. Ele está mais para mandar vir e mostrar má cara -- acho que não é tão dramático e extremado como eu. Queixa-se ainda de outra coisa: mal conseguimos arrumar minimamente a casa nova, vamos buscar novo carrego e lá fica a casa, outra vez, cheia de sacos e sacos e sacos por arrumar. Pois é. Também me chateia, isso. Mas fazer o quê? Só se não tivéssemos mudado de casa.
O que sei é que dali fomos para o supermercado. Às tantas, roídos de fome, lembrámo-nos de trazer de lá uma pizza pré-cozinhada, daquelas que devem engordar até dizer chega. Almoçámos já passava das quatro da tarde. Eu quase sem conseguir dar passo. Pouco consegui fazer. Mas estávamos a convergir numa coisa: dar uma saltada à praia. Nem nos lembrámos da minha perna nem da barafunda a sair de lá. Mal consegui andar. Mas ainda fui sentir a temperatura da água e deu para ficarmos a respirar o ar fresco do mar, para ficarmos a olhar a sua bravura. Apesar de tudo, soube-nos bem. Chegámos a casa depois das nove da noite tamanha a fila e a sua lentidão. Fiz ovas de bacalhau cozidas com batata, cenoura, feijão verde e ovo. Jantámos às dez e tal mas soube-nos maravilhosamente. E já nem nos lembrávamos da raiva mútua que sentimos a trazer coisas da outra casa.
O espaço onde tomamos as refeições é contíguo à cozinha. É muito agradável. Tinha pouca luz. Pomos agora também um candeeiro de pé muito simples com uma grande lâmpada amarela. Dá uma luz aconchegante.
Quanto à casa: tem a vantagem de ser maioritariamente térrea. Tem um sótão e uma cave, agradáveis, mas podemos fazer a vida toda ao nível do rés-do-chão. Ainda não atino bem com a orientação geográfica. Nos primeiros dias não percebia para onde davam as janelas. Tinha que ir espreitar. Mas, quando à noite estou para adormecer, tento perceber a posição das divisões e das respectivas janelas localizando-as na planta da casa e não percebo bem. Tem uma disposição interessante mas volta e meia, quando ando à procura das coisas -- e estou sempre à procura das chaves, do telemóvel, do x-acto para abrir as caixas, da tesoura, disto e daquilo -- fico com a sensação que faço círculos, que ando desorientada. É uma casa especial, cheia de recantos e espaços especiais, e com uns certos mistérios.
E, Amofinado, in heaven plantei ciprestes. Gosto muito desses seres esguios, muito dignos, vivos para sempre. Era uma terra bravia, apenas com pedras e mato. Fiz dessa terra um pequeno bosque onde as árvores, felizes, crescem jubilosamente. Aqui, não apenas o espaço é bem mais pequeno como o jardim já existe e eu não sei se quero mexer-lhe pois é lindo, tem árvores mesmo muito bonitas. Ainda não tive tempo para usar a minha máquina fotográfica. Deveria ter fotografado a casa vazia, depois a ir ganhando forma. Mas a canseira tem sido tanta que nem para tal me tem dado.Estou a escrever e a pensar que os vasos precisam de ser regados e que as zonas onde a rega não chega também. Já para não falar que todo o jardim precisa de ser varrido e limpo. Quando fiz anos o meu filho deu-me uma coisa que é meio ancinho e meio vassourão. Mas festejámos in heaven e deixei lá ficar isso e, quando lá fomos, foi tudo tão a acorrer que me esquecemos. E bastante falta está a fazer.
Este domingo espera-nos um dia cheio. Por isso, já tomei brufen e estou com gelo. Se amanhã continuar com tantas dores, terei que tomar mais.
E agora a ver se consigo levantar-me e ir a andar até ao quarto. Com as dores com que estou, ainda me deito aqui no sofá...Volta e meia, saio da casa de banho e vou em frente, entrando na salinha dos de língua portuguesa. Tenho que me recentrar, reorganizar geograficamente e virar para o ouro lado, para entrar no quarto propriamente dito. É isso e acordar, de manhã cedinho, com o som da rega debaixo da janela do quarto. Como é novidade ainda me acorda. Depois haverei de me habituar. É um som bom.
Tirando isso, hoje o YouTube tinha para me recomendar o Pedro Paixão. Deve ter sido por eu ter confessado aqui que lhe acho uma certa piada. Pois bem: acertou e estive a ver de gosto, até ao fim, encantada com tanta maluquice. Da primeira, a entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, coloco apenas a 1ª parte mas, para quem esteja interessado, estão disponíveis a 2ª e a 3ª partes. Como todos os seres doidos, bipolares e inteligentes, Pedro Paixão é, sem dúvida, polémico, insólito e interessante. Não deve ser fácil conviver com uma criatura assim. Nem para ele próprio deve ser fácil mas, para quem aprecie o género, é sempre um desafio.
Pois é. No primeiro dia que fomos ver a casa, fomos com o senhor da agência. Quando entrámos, o meu marido apontou para as espreguiçadeiras e disse: 'está gente em casa'. Havia roupa nas costas das cadeiras. O da agência fez um ar admirado e disse: 'Disseram-me que não'. Quando abriu a porta, ficámos parados à porta. Da porta via-se toda a sala, tudo amplo, o chão em madeira, as paredes brancas, as paredes em vidro -- e via-se uns sofás amplos, em cinza claro, com um portátil aberto na mesa, uns óculos de aros de tartaruga, uma camisa de linho ao lado. O da agência estacou: 'Mau... Não me sinto nada confortável com isto... Informei que vinha cá. Não percebo.'. O meu marido, que não é dado a grandes estados de alma, limitou-se a perguntar: 'Que é que fazemos? Entramos ou não entramos?'. O da agência, atrapalhado, sem saber mesmo o que fazer: 'Pois... não sei... dá ideia que está cá gente...'. O meu marido procurou a campainha. Não encontrou. Perguntou, alto: 'Está alguém?'. Eu bati palmas. O da agência pôs-se ao telefone, ar aborrecido. Ouvi-o a dizer: 'Pá, computador aberto, óculos, lá fora roupa nas espreguiçadeiras, pá, eu avisei, disseram que sim'. Perguntei: 'Mas a casa ainda está habitada? Tinha percebido que não...?'. O da agência, desconcertado, que não, desabitada. Entretanto, eu, cusca, fui avançando. O meu marido também. Todos de máscara, bem entendido. O meu marido, avisou-me: 'Não mexas em nada'. Isto do covid mexe com ele. Espreitei para uma divisão mais do que ampla, com recortes de vidro na parede. Uma cama muito larga. Se calhar, uns dois metros de largura. A roupa de cama, tudo em branco, toda revolta, uma peça de roupa, branca, caída ao lago da cama. O da agência, incomodado, ao ver a cama toda mexida, voltou a dizer: 'Mau'.
Mas a verdade é que fizemos a visita. Pé ante pé, a medo. Em especial quando espreitámos a casa de banho desse grande quarto, íamos um pouco atrapalhados. Convenci-me que podia estar a caminho de dar com alguém nu, no banho. Melhor: de pregar o susto da vida a alguém. Mas não, ninguém. Aliás ontem fiz confusão. A primeira vez que lá fomos foi assim. Na segunda vez é que fomos com o meu filho e família. Na primeira passou-se esta cena misteriosa.
Dias depois de lá termos ido, de novo, o meu filho, que estava maravilhado pela casa, voltou a passar por lá. Carros à porta, vozes e animação vindas do jardim. Perguntei ao da agência: 'Afinal o que se passa? Parece que está mesmo gente por lá...'. Ele confirmou: 'Já lá passei várias vezes e vejo sempre carros e ouço vozes, risos.'. Perguntei: 'Mas terão a casa alugada?'. Ele disse: 'Dizem-me que não, que apenas, às vezes, emprestam a casa a amigos.'. Mas a verdade é que deixaram de responder à proposta que voltámos a fazer para nos aproximarmos do que eles queriam. Insistimos. O da agência, constrangido: 'Pois, não sei o que vos diga. Dá ideia que perderam o interesse em vender, não respondem. E, é verdade, está sempre gente por lá.' Perguntei: 'Mas não serão eles? Os donos? Se calhar estão na sua própria casa'. Explicou que não. 'Não, não. Os donos vivem fora. Nós falamos é com o procurador deles.'.
Durante algum tempo ainda alimentámos a expectativa de que o mistério se resolvesse e que os donos dessem o ok que faltava para se avançar para a formalização. Mas, ao mesmo tempo, eu não estava a ver como aproveitar alguma coisa dos meus tarecos numa casa daquele género. O meu filho, então, desenhou, de cabeça, as plantas e alçados e etc da casa, estimou medidas e tentou demonstrar como a casa ficaria em harmonia com o seu projecto inicial mesmo que aproveitando alguns dos meu móveis.
Mas o meu sexto sentido dizia-me que se calhar não, que o meu caminho não se faria por ali.
Nas casas, como nos amores, a coisa tem que ser fuida, sem escolhos, sem mas-mas, sem pulguinha atrás da orelha, sem reserva, sem desconfiança. Não se ama verdadeiramente uma pessoa e, ao mesmo tempo que se quer que seja amor total, em segredo se pensa que o diabo é aquela voz de gaitinha, aquele perfume incomodativo, aquele hábito de fazer aquilo que, no fundo, não tem nada a ver connosco. Isso não é amor, isso é uma ficção. Amor que é amor vai com tudo, de cabeça: gosta-se de tudo, é tudo bom, a voz, o cheiro, a forma de beijar, a maneira de ser, a forma de dizer, a forma de andar, a forma de estar em grupo ou em privado connosco. Numa casa é a mesma coisa: casa que nos vai fazer felizes tem que ser assim, amor total, gostar-se de tudo. Mais: tem que se sentir que a retribuição é total. Tal como no amor, o investimento deve ser equivalente, sobretudo o investimento emocional. A entrega deve ser na mesma medida. A casa também. Temos que nos sentir virtuosamente acolhidos por ela. Não pode haver funfuns e gaitinhas, ai tanta janela, ai que quase nem tem paredes, ai onde é que vou pendurar os meus quadros?
Pensei: não tem que ser. E falei com o meu marido: vamos esquecer. Ele disse: 'Também acho.' Aliás, quando eu dizia que os outros não respondiam, que parecia que afinal já não queriam vender, ele dizia que devíamos era mandá-los a um certo sítio.
Portanto, embora percebendo o desgosto dos três manos e respectivos progenitores, fiz write off da casa de sonho. Já era. Bye bye. Quando se percebe que não tem que ser, que não tem a ver connosco, o melhor é dar as costas, mandar à fava, esquecer, não pensar mais nisso. E sou assim mesmo: quando desisto, vejo defeito que antes parece que não via, vejo mil razões para tirar daí o sentido. Fecho a porta. Não existiu.
E, portanto, no que à casa diz respeito, depois dessa expectativa gorada voltei à estaca zero.
No domingo, fizeram directos para mostrar um avião num aeroporto em Marselha. Depois fizeram directos para mostrar o avião a aterrar em Lisboa. Se isto tem interesse para alguém eu não sei. A mim só me faz pensar que está tudo maluco. Mesmo que o avião estivesse cheio de macacos aos saltos ou de freiras a espirrarem e a assoarem-se às saias umas das outras não era caso que justificasse filmar um avião num aeroporto antes de levantar voo ou a aterrar. Nem mesmo se as freiras saíssem do avião todas nuas e às cavalitas dos macacos era caso para fazer directos do Figo-Maduro ou do Ameixa-Amarela. Não há pachorra.
À hora de almoço, depois de longas conversas sobre os pobres portugueses que vieram da China e que, apesar de estarem sãos como pêros e os exames negativos, estão no isolamento, ouço um senhor com voz de chinês e que, afinal de contas, era mesmo chinês, a dizer que entre eles, comerciantes chineses, se tinham organizado e havia casas para quem viesse da China constipado. E eu, que volta e meia, me sinto não apenas beige como completamente burra, pensei cá para mim: mas espera lá, então andam a filmar aviões que trazem vinte portugueses saudáveis mais o corpo diplomático em peso e mais uma brigada de médicos e enfermeiros e caguam para os chineses que chegam da China? (E não, não disse cagam, disse caguam que, como é bom de ver, não é a mesma coisa). E, quem diz chineses, diz todo o resto da malta que chega, directa ou indirectamente, vinda da China? Para esses não há corpo diplomático ou isolamento? Pelos vistos, não. E a jornalista, que têm orgasmos sucessivos com o frisson das notícias sobre os não-infectados, não estabelece a liaison entre os cuidados intensivos com uns e os descuidados desintensivos com outros? Não, não estabelece.
E eu, face a isto e face à histeria desta gente que me parece mentecapta, desligo-me das notícias e sigo para a música. Abençoada música. Abençoada, abençoada.
De tarde, vinda do trabalho, no carro, ponho na TSF a ver que guerra é que se desencadeou enquanto eu estava a ter uma tarde agradável rodeada de juventude, ouço um comandante a explicar como é que um avião haveria de se portar para não se despenhar. Pensei: caraças, anda para aí um avião prestes a abrir um buraco no chão. Afinal não. A coisa já se tinha dado e nada tinha acontecido de mal. Mas isso não demoveu a TSF: não aconteceu mas podia ter acontecido. Caraças para este jornalismo que adora cadáveres, cheiro a decomposição, anúncios de tragédias. Nem imagino o festim que terá sido nas televisões.
Não suporto. Caraças, não suporto mesmo. Não há notícias boas? Nada acontece de bom neste mundo?
Agora chego aqui e vejo que morreu Steiner. E fico sem reacção. Pena em primeiro lugar. Mas, logo a seguir, intimamente penso que as pessoas que vivem das palavras, de escrever, de ler, de opinar, devem chegar a um ponto em que só lhes apetece o silêncio, a ausência de palavras. Como a Agustina. Se eu fosse como eles, haveria de chegar a um ponto em que haveria de me apetecer não me pronunciar ou ler ou escrever palavra que fosse. Só música, música com muitos silêncios dentro que é como deve ser a boa música, de preferência a dos pássaros quando estão lá muito em cima, distraídos da vida, e degustar chá quentinho, e olhar, e semicerrar os olhos devagar, e sentir o perfume das flores, e passar a mão pela macieza de uma capa de veludo, e sentar-me em frente a um muro branco e ver as sombras e a cor da luz a mudar ao longo do dia, de todos os dias do ano. Steiner devia ter, imagino eu, vontade de descansar a cabeça, dar-lhe tréguas da luta com as palavras. E, de resto, pode alguém ficar cá eternamente? Para quê prolongar a existência quando a qualidade de vida já é apenas uma triste sombra do que foi? Portanto, Steiner morreu, viva Steiner. A sua obra fica, independente dele.
E siga o andor.
E, tirando isso, o que posso dizer é que vinha no carro e vinha também a pensar que tempos houve em que a esta hora, aqui sossegada na sala, estava a bordar grandes carpetes de arraiolos, com desenhos que me punham a cabeça em água, desenhos miudinhos, réplicas de grandes tapetes do século dezasseis e dezassete que estão em museus. Gostava tanto. Os desenhos iam nascendo. Depois os desenhos iam aparecendo cheios de cor. Bordava horas a fio, a juta enchendo-se de lã colorida sobre as minhas pernas. Outras vezes estava a pintar, pintava até de madrugada, incapaz de parar, um frémito de emoção e liberdade a percorrer-me o corpo. Ou a ler, a ler pela noite adentro. Porque me dá agora para aqui estar em vez de estar a fazer qualquer dessas coisas? Não sei. Tenho vontade de pintar. Tenho a tela ali atrás, tenho ideia das cores que quero usar, tenho uma vaga ideia das formas. Recuso-me a pensar para não aprofundar a ideia pois gosto é de me deixar surpreender pelo que nasce na tela, independente da minha vontade. E tenho também ali atrás uma carpete incompleta e a vontade que, por vezes, tenho de me voltar pôr a bordar não sei explicar. As saudades, as saudades que tenho.
Saudades de não estar aqui a escrever.
E, no entanto, quando vinha a pensar nisto, ocorreu-me começar a escrever uma história e, logo ali, começou a forjar-se o que ela seria mas, quando me meto nisso, é tão absorvente, deixa-me tão pouco espaço para o resto, parece que a gente que ali nasce ganha vida própria e eu mal posso esperar todos os dias para aqui chegar e deixar que vivam como gente de verdade. Por isso, evito. Mas faço bem evitar? Ou é irrelevante? Acho que sim, acho que é irrelevante, na verdade o mundo está cheio de ruído e lixo e mais vale é que estejamos sossegados, que eu esteja sossegada: zero waste.
E agora vou mesmo sossegar. Hoje estou em dia de silêncio.
Tremem-me as mãos para ir fazer aquele tom de azul que não me sai da cabeça, um azul a meio tom, meio violeta, meio secreto, meio indefinido e, depois, matizá-lo com fios dourados. Tremem-me as mãos para deixar a mão voar na tela sem que eu saiba o que ela vai fazer. Depois, quando a mão tiver praticado a liberdade, deixá-la escrever sobre mistérios, enigmas, longos espaços abstractos e silenciosos, deixar que seres sem nome e sem rosto habitem esses perigosos lugares sem geografia. Mas não vou fazer nada disso.
Vou simplesmente suspender as palavras. Vou descansar. Vou deixar que o silêncio percorra o seu caminho dentro de mim.
Vou deixar que, na escuridão da noite, novos mundos me visitem na imensidão do deslumbre.
A vida continua. Bola para a frente. Tudo acaba por se recompor mesmo quando algumas peças se quebram. Disseram-me no outro dia: não há insubstituíveis mas há pessoas que não são substituíveis. Não me apeteceu analisar a correcção lógica da afirmação. Percebo a ideia. Talvez até concorde. E se a vida é cheia de contradições, equívocos, incoerências e omissões porque haveriam as frases de ser perfeitas?
Está um tempo frio, cinzento, molhado. Não faz mal. Também é bom. No domingo estava sol, um céu azul, um rio azul. As fotografias foram feitas com essa luz.
Depois de uma interrupção, dois dias em que a vontade se evadiu de mim, retomo as fotografias que fiz enquanto turistei pela zona da Ribeira, pelos Cais Sodré, Terreiro do Paço, Rua do Alecrim, Camões, Chiado, uma das zonas de Lisboa de que mais gosto.
Gosto e fotografo incansavelmente, como se aqueles lugares que já palmilhei milhares de vezes fossem virginalmente novos para mim.
Fotografei graffitis, alguns magistrais como os do Bordalo II e outros menos exuberantes mas também muito bons, mas o que agora, neste post, vos mostro não é bem isso. Aqui quero mesmo mostrar o efeito do tempo nas paredes, o que é efémero, um desenho ou uma folha colada a que, no momento seguinte, algum outro se pode sobrepôr, ocultando o que antes ali estava.
Frases, desenhos, provocações, desabafos, sonhos. In heaven, se me apetecer, eu pego num pincel e escrevo e pinto o que me ocorrer. Mas é coisa só para mim e, quanto muito, para os meus. E digo 'quanto muito' porque já estão tão habituados que já não ligam patavina. Bem podia pintar coisa mais apurada que o tecto da Capela Sistina que ninguém ali dava por ela. Mais pintura, menos pintura, mais poema, menos poema. E eu gosto que seja assim. Ainda me dá mais liberdade.
Mas numa cidade nunca escrevi nada. Quando vejo e fotografo as paredes fico sempre com alguma vontade de eu, um dia, me encher de coragem e escrever ou pintar alguma coisa.
Ou escrever uma coisa em casa e ir à rua, chegar a uma parede e colar o papel. Acho isso muito bonito, um gesto de partilha.
Sei que há quem fique chocado com o que aqui mostro; ou ache feio. Eu não. Eu gosto. Eu gosto de descaramento, de reinação, de provocação. Eu gosto da estética da decadência, eu gosto da beleza da erosão, eu gosto de defeito, eu gosto de mau comportamento, eu gosto do que é desigual, do que faz rir.
Eu gosto de palavras. Eu gosto da cor e da ausência de cor, eu gosto da luz e da sombra, eu gosto de flores no telhado, eu gosto do sopro suave das palavras que inspiram sorrisos, eu gosto do grito das gaivotas.
Eu gosto de passear em Lisboa e ver tudo o que ela tem de novidade. E tem tanto. Tanta coisa acabada de nascer, tanta coisa embelezada pelo efeito do tempo.
E tem tanto por descobrir, tanto, que eu tenho cada vez menos incentivo para me abalar a passeio daqui para fora. E tanto que eu, dantes, tinha necessidade de ir para fora mudar de ares. Agora não. É certo que tenho sempre receio de ir para longe com medo de que seja, justamente nessa altura, que os meus pais precisem de mim. Ou que, por algum motivo, mesmo que insignificante, desse jeito aos meus filhos que estivessemos por perto. Mas, para além disso, há esta atracção grande pela belezura do meu país. E este amor a Lisboa.
E tanta coisa que me encanta: as árvores, as esculturas, os passeios e as pessoas passeando, a gente que toca e canta para quem passa, as esplanadas, as mariolices, as tiradas poéticas, as gargalhadas.
Ainda tenho mais para mostrar: montras e um alfarrabista especial. Não sei se ainda será hoje ou se deixe para amanhã.
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Caso vos apeteça ver uma casa que acho muito bem decorada, queiram descer até ao post seguinte. Mas, caso queiram ver as imagens de Lisboa feitas no mesmo dia que esta, queiram saltar para a Lisboa romântica que daí podem saltar para outras Lisboas.
Andei a passear junto ao rio mesmo ao cair do dia. Andei a passear em estado de total encantamento. Andei a andar e a parar e a olhar e a fotografar. Andei, andei até ser noite.
E agora que aqui vinha mostrar a doçura de um anoitecer assim, o sol a mergulhar atrás da cidade lá ao fundo, o rio a escurecer, a escurecer, as luzes a acenderem-se, as gentes sentadas no chão a conversar, a petiscar e a beber, e a frescura a subir das águas, está a dar-me a preguiça de as passar para o computador, de as escolher.
Passa da meia noite e agora é que cheguei ao computador. O jantar já foi depois das dez, e depois havia coisas para fazer, arrumações. Depois ainda estive a retocar algumas coisas no quadro que é relativamente grande, 70x100 cm. E pintar de noite é traiçoeiro. Hoje, mal me levantei, fui vê-lo à luz do dia e algumas cores não estavam bem como as queria. Mas de manhã, que tinha tão boa luz para pintar, não deu, tenho obrigações profissionais que não são compagináveis com frescuras desse tipo. Por issso foi agora, outra vez com as luzes da sala, que tentei, com a memóra das cores da manhã, levar algumas partes ao tom que tenho em mente.
Claro está que, tivera eu aqui mais uma dúzia de telas, e era com elas que estava agora. Prazer maior. A ouvir música, a escolher ou a fazer cores, a pintar em plena liberdade. Mas ainda bem que as não tenho, as telas vazias estão in heaven, escondidas, Se me ponho a pintar, custa-me parar e depois já não sei onde as guardar. O meu filho, outro que tenta educar-me, diz que se eu levasse dez vezes mais tempo com cada um, se me apurasse mais, fazia dez vezes menos quadros. Pois, a matemática confirma o raciocínio. Mas isso é como no blog: podia andar o dia todo a magicar num tema, depois chegar aqui e ainda destilar mentalmente a ideia para que os supérfluos se arredassem, escrever então mas devagar, depois reler, corrigir, voltar a ler, apurar a escrita e, no fim, produzir três linhas perfeitas. Assim, não penso em nada, chego aqui e começo a escrever, e é pimba, pimba, pimba, e, mal acabo, lá vai disto: publico. Claro que, se no dia seguinte releio, até me cai o coração aos pés tantas as falta de letras, vírgulas completamente desastradas a pousarem onde não devem, e, por vezes, o oposto do que queria dizer porque falou uma palavrinha como 'não'. Enfim. São estilos. Ou maneiras de ser.
Também por falta de contenção ('também' porque faltam muitas outras coisas) é que não me dá para escrever poesia. Aquele apuro que eu acho que tem que haver na escrita poética, aquela perfeição matemática, é coisa que não está ao meu alcance. Sou imoderada por natureza e acho a perfeição uma seca.
Mas também vou já avisando: com o meu alto débito produtivo, se um dia me dá para poetar, em três tempos sai uma Odisseia dos tempos modernos, um Ulisses revisited. E quem diz Odisseia diz Ilíada. Ou, vá lá, já que em português me sairia ainda mais depressa, Os Lusíadas. Sempre a abrir.
Mas adiante que isto é matéria que pode ofender algum fundamentalista que por aí haja e eu quero é peace and love, não é cá guerras.
Além disso há outra coisa. Comecei a ver se faço dieta e agora estou aqui cheia de fome, parece que nem consigo concentrar-me. Queria escrever um post sobre escultura e não saio disto, desta conversa mole. capaz é de ir ao frigorífico e meter uma garrafa de kefir à boca. E, a seguir, comer tâmaras secas à mão cheia. E rematar com figos ou alperces. Poças, que fome, caraças. Mas vou resistir. Daqui a nada, ao deitar, contento-me com um copinho de leite magro e já é uma sorte. Mas isso é ao deitar. Agora tenho que penar.
Ontem à noite guisei frango do campo com ervilhas, feijão verde, cenourinhas bebés, tomate, batata doce, cebola, alho, folha de louro, azeite e uma mini. Ficou saboroso que só visto. Pois hoje o meu jantar limitou-se a um tomate e alface, depois meia perna de frango e legumes, excepto a batata doce. Ou seja, hidratos de carbono, praticamente zero. É certo que, a seguir, peguei na côdea de uma bolinha de pão saloio e apanhei o resto do molho mas foi tão pouco que não conta, Depois, uma (1!) ameixa amarela. Apetecia-me comer um cabaz delas e, feita elegante, fiquei-me por uma. Umazinha. Tristeza.
Resultado: estou aqui e, tal a fomeca, só me ocorre é ir assaltar a cozinha. E a escrita também por aqui anda, aguada, a ver se aparece algum osso à espera de ser roído ou um bocado de côdea seca. Tudo servia.
Pela música que escolhi, a partir do momento em que venci a preguiça e escolhi as fotografias, devia estar a pensar escrever um texto romântico mas agora, aqui chegada, e adormecendo de minuto a minuto, já não faço a mínima ideia do que era.
O que sei é que também tinha em mente falar daquele manuscrito secreto escrito numa língua misteriosa que ninguém conseguiu reconhecer, com ilustrações também não identificáveis e, com esta situação, a dormir e aqui à beira da inanição (e eu, se ainda conseguisse censura interna sobre mim, impedia-me de falar desta forma ligeira de um assunto que assola parte da população mas, assim, deixo que se plasmem no texto toda a espécie de parvoíces), já não consigo desenvolver qualquer raciocínio.
Por isso, para colmatar a falha, limitei-me a traduzir o título do post para uma língua curiosa, cheia de gatafunhos fofinhos e com flores no cabelo das palavras. Para dificultar a sua leitura, pensei em pôr cada palavra na sua língua mas isso era capaz de dar muito trabalho e eu, da maneira que estou, precisava era de ser teleguiada daqui até à cama.
E agora está ali em cima o Jorge Palma a cantar a Valsa de um homem carente, uma canção tão bonita, e afinal não apareceram palavras com o romantismo no regaço nem eu fui capaz de encontrar o rumo da prosa -- e isto nem é post que se apresente
que eu, se fosse dada ao culto da imagem, apagava era tudo o que para aqui estou a escrever não vá um texto destes, desconexo e despropositado, dar cabo da minha imagem.
Mas como não a cultivo -- já que, como é sabido, eu é mais bolos -- deixo estar. Paciência.
Olha e lá saíu outra coisa relacionada com comida. Bolos... ah, bolos... quem me dera. Uma tarte de limão merengada. Uiiii, quem me dera.
Pronto. Calo-me que já se viu que isto, daqui, hoje não se aproveita nada.
Vou pregar para outra freguesia mas não sem antes ir beber um copo de leitinho (magro, claro).
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Já não me lembro com exactidão de qual o título original antes de o ter traduzido para Myanmar mas era qualquer coisa como 'post escrito com sono sobre um passeio ao anoitecer'
Todas as fotografias foram feitas há bocado, quando a noite tombou docemente sobre o rio.
Tirando isso, acho que não é mesmo mais nada.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma terça-feira muito feliz.