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domingo, setembro 06, 2026

Polícias à porta de casa -- e uma situação insólita e inexplicável

 

Uma vez deu-me para descrever as coisas bizarras que se passavam na casa ao lado. Quando os meus filhos cá vinham, eu descrevia os acontecimentos inenarráveis a que assistia sem conseguir compreender nada da vida daquelas pessoas, esperando que eles acendessem uma luz que ajudasse a decifrar o mistério. Debalde. Os habitantes foram mudando ao longo dos poucos anos em que cá estamos, sempre tudo estranhíssimo, mas, ao mesmo tempo, sempre parecendo haver algumas coisas em comum. E assim continua. Os habitantes não mudaram desde então, pelo menos a esse nível parece haver agora alguma estabilidade, mas tudo continua a ser incompreensível, incluindo uma mulher que tanto fala como se fosse uma brasileira de gema, como uma portuguesa do mais 'nacional' que pode ser.

Publiquei na Amazon um livro ("Um ordenado paraíso") que descreve quase ipsis verbis aquilo que eu conseguia apreender. Os meus filhos estranhavam que, em tanto tempo, eu não tivesse nunca conseguido ouvir nenhuma conversa que desse para perceber alguma coisa. Mas não. Misteriosamente, o que chega até aqui são coisas desligadas e a partir das quais não consigo extrapolar nada. Mas diziam-me também que eu não tinha nada a ver com o que se passa na casa dos vizinhos e estranhavam a minha curiosidade. De facto, nunca, em toda a minha vida, tive ponta de vontade de saber o que quer que fosse da vida alheia. Morava num prédio e mal sabia quem lá morava de tão distraída e desinteressada da vida dos outros que sou. Mas aqui é outra coisa: é o insólito, o inexplicável. Nada bate certo.

Em contrapartida, na casa do outro lado, as coisas são mais lineares: um casal relativamente jovem e a respectiva descendência, uma criança com uns oito ou nove anos e outra talvez com quinze ou dezasseis que, quando os pais estão em casa, estão também com eles. Muitas vezes tratam do jardim em conjunto. De vez em quando há festas, e todos participam na preparação prévia. Parecem bastante unidos e pessoas bem dispostas. 

Mas hoje aconteceu uma coisa também bizarra.

Geralmente a casa deles está sempre muito iluminada e, como por aqui é habitual, à noite luzes acesas dentro de casa e estores levantados, ou seja, estamos na rua ou eu aqui em minha casa e vê-se tudo ou quase tudo o que se passa lá dentro. E têm também projectores na parede exterior que iluminam fortemente o jardim a toda a volta. Mesmo quando vão de férias, os projectores em volta da casa estão sempre acesos.

Há pouco, quando saímos para o nosso passeio nocturno, era esse o cenário. O normal.

Contudo, quando vínhamos a regressar, ao fundo da rua, o meu marido disse que estava um carro da polícia ao pé da nossa porta. Sem óculos, não pesco boi, vi um carro e pareceram-me vultos, mas sem distinguir nada. Quando nos aproximámos vimos que não exactamente à nossa porta, mas quase. Dois polícias falavam com o casal. Estavam ambos do lado de fora do portão, a falar com os polícias. Tive vontade de perguntar se tinha havido algum problema, mas contive-me, estavam tão focados na conversa que não quis ser intrusiva. Além disso o meu marido, é zero, ou menos que zero, cusco e, se eu os tenho inquirido, haveria de achar falta de educação da minha parte. Quando entrámos no nosso jardim, vimos que os polícias estavam a entrar com o casal para dentro do jardim deles, provavelmente para dentro de casa. Mas, quando cheguei à minha porta e olhei para o lado, breu absoluto. Tudo apagado, escuridão absoluta, dentro e fora. Fiquei estupefacta: entraram com os polícias e apagaram tudo? Podem acreditar: sem luzes acesas não se vê nada. Uma coisa é morar na cidade em que há sempre luzes exteriores que, de certa forma, iluminam minimanente o interior, e outra é aqui. Sem luz acesa não se vê um palmo à frente do nariz. Nada. Bola. Quando entrei em casa, intrigada com aquilo, fui à minha janela espreitar para ver se o carro da polícia ainda lá estava. Estava. Durante bem mais de meia hora, talvez uma hora, o carro da polícia esteve ali. E da casa ao lado nem um som nem uma luz. Nem os cães, sempre barulhentos, soltavam um pio. Há bocado fui ver e o carro da polícia já não está aqui mas a casa continua mergulhada no breu e no silêncio mais absolutos. Não sei qual a explicação para isto. O que terá levado a polícia a entrar e estar tanto tempo lá dentro? E porque apagaram todas, t-o-d-a-s, as luzes? O que terão estado a fazer às escuras?

Os meus filhos diriam: 'e o que é que tu tens a ver com isso?'. Pois, bem sei, não tenho. Mas não é isso. O que me faz confusão é não encontrar sentido nas coisas, não me ocorrer nenhuma explicação plausível para isto. 

Mas, pronto, vou dormir com esta dúvida. Não consigo sequer antever hipóteses palusíveis para encaixar estas peças. 

Estou com um sono daqueles em que não atino, estou só a adormecer (mas não estou a delirar, calma, o que contei está descrito com precisão). Ontem tivémos cá um jovem para a janta e para pernoita, a que se juntou hoje um irmão para almoço e para a tarde. Depois foram ambos com o avô para um jogo no qual o mais velho era o guarda-redes. E nada de mais, tudo tranquilo, quando são poucos é uma calmaria extraordinária, zero trabalho. Mas, vá lá saber-se porquê, talvez por me ter ido deitar um pouco mais cedo que o habitual e ainda sem estar perdida de sono, tive mais uma daquelas estúpidas insónias em que vejo o dia clarear, ouço o galo a cantar, depois ouço passos de alguém na rua, a fazer corrida -- e eu sem conseguir sentir pitada de sono. Dantes nem sabia o que isso era, adormecia instantaneamente e dormia de seguida, como uma pedra. Mas, de há uns anos a esta parte (e já aqui falei disto), creio que depois de ter covid (mas pode não haver relação - tenho que ter o cuidado de dizer isto), é isto: o meu sono tornou-se caprichoso. De vez em quando, quase passo uma noite em claro. Se de dia não tenho afazeres, durmo a sesta e reponho. Se não, fico tonta, esvaída de sono. Depois pode acontecer que durante uma ou duas semanas durma que me farte, como nos bons velhos tempos. Até ao próximo episódio. O médico encolhe os ombros, diz que pode ser sequela da covid, sim, e que pode ser que vá passando. Mas é uma chatice. Portanto, estou no ir.

Desejo-vos um belo dia de domingo. E se tiverem explicações para isto a que assisti e que aqui reportei, ficarei agradecida.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Croniqueta de um domingo normal, bom

 

No exterior somos muito apologistas de iluminação solar mas andávamos com dificuldade em acertar: ou não davam a luz suficiente ou estragavam-se à primeira oportunidade. Até que vimos uns projectores na Amazon que nos pareceram promissores. E comprovou-se: até ver, acendem mesmo quando o dia está miseravelmente sombrio, detectam sempre o movimento e iluminam a longa distância. 

Por isso, resolvemos adquirir mais. Isto apesar de, por dentro, sentir sempre uma ferroada: estupor do Bezos. E depois há isto, o meu lado de auto-desculpabilização: penso que não é por eu ceder uma vez, de vez em quando, que estou a contribuir para a felicidade do estupor. Por isso, perdida por cem, perdida por mil, encomendámos também um candeeiro para dentro de casa. O meu marido andava a protestar com a luz fraca na zona em que habitualmente fazemos as refeições. No tecto, mantivemos o plafond dos anteriores proprietários. É um candeeiro de cristal que já era dos pais da senhora. Ela não quis desmontá-lo pois temeu que se desmanchasse todo. Como o acho bonito e reconheço o seu valor, deixei-o ficar. Mas não ilumina muito. Para compensar, temos um candeeiro de pé alto que dá uma luz quente, acolhedora. Mas, reconheço, não ajuda extraordinariamente, em termos de intensidade luminosa. Então, pôs-se ele a tentar descobrir um que lhe parecesse adequado. E descobriu. Este que encomendámos hoje. A ver se não desilude. Depois logo digo. Ou mostro.

Para o almoço não sabíamos o que haveria de ser. Como íamos jantar fora, estávamos com preguiça em puxar pela cabeça. Então, lembrei-me de fazer uma coisa adequada à preguiça que sentia. Cozi uma batata doce daquelas cor de laranja, uma batata normal, duas cenouras pequenas, um punhado de feijões verdes e dois ovos. E, numa frigideira, caramelizei duas cebolas roxas (às rodelas finas, claro). Depois juntei-as ao conduto. Comemo-lo com sardinhas de lata. E podem crer que nos soube bem, e olhem que não estou aqui para enganar ninguém.

Saímos de casa relativamente cedo pois o meu filho, que marcou o restaurante, disse que, se não fossemos cedo, aquilo ficaria muito cheio. Mas às sete e picos já estava cheio. E, quando saímos, por volta das nove, ainda mais cheio estava. Quando chegámos já lá estavam eles e já tinham uma sugestão de pedido. Tudo para partilhar. Quando ouvi a lista pareceu-me comida para um exército. O meu marido nestas coisas acha sempre que não é demais, pensa sempre que aquele pessoal, em especial o pessoal miúdo, é de muito alimento. De resto, o pessoal miúdo também já não é tão miúdo assim. E tinha razão pois, afinal, foi tudo, não sobrou nada. As travessas chegam e quase instantaneamente ficam vazias. E eu própria comi demais. A comida era gulosa e com estas coisas de picar, petiscar, provar e tal e coisa uma pessoa parece que perde um bocado a noção dos limites. Ainda por cima tenho sempre bom apetite. Mas parece que já estou um bocado desabituada de comer muito ao jantar. Agora estou a beber um chá a ver se a digestão se faz mais facilmente pois sinto que comi demais. Quem me manda a mim ser tão lambona, caraças? Amanhã ponho-me a pão e água a ver se compenso o exagero de hoje, que não quero retroceder na forma. Hoje vesti um casaco cintado, de veludo bordeaux, de que gostava muito, mas que já tinha ficado arrumado, a modos que arquivado, no roupeiro das boas memórias. Sem grandes esperanças, antes de sair, lembrei-me de o experimentar -- e até quase me comovi quando constatei que já cabia outra vez nele e que até conseguia abotoá-lo todo, todinho. Portanto, com muita disciplina e muito sentido de abnegação, haverei de manter-me bem comportadinha, afastada dos quilinhos a mais, retomando as minhas roupinhas pré menopausa (que eu, cá para mim, o aumento de dimensões aconteceu nessa altura).

E é isto. Nada mais de declarar.

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Desejo-vos uma boa semana

Saúde, harmonia, paz e alegria

sexta-feira, março 28, 2025

Sobre lavagens, limpezas, podas. É isto uma etrusca...?

 

Nesta sala em que estou, chamada sala da televisão -- pois é aqui que está a televisão maior e em que geralmente nos juntamos para a ver --, tenho uma sofá muito grande (por acaso, sofá cama), que é de pele azul escura, e tenho um outro, também grande, em cor de pérola. Ora, nem eu queria aqui ver um sofá escuro, como o outro, que é de um tecido sensível e muito claro, ficaria rapidamente sujo se fosse usado tout court todos os dias. E já nem falo no que acontece quando se juntam a ver futeboladas, os rapazes com o entusiasmo põem-lhe os pés em cima ou, à revelia, levam comida e vão petiscando durante os jogos. Portanto, resolvi cobri-los com cobertas de algodão branco. Fica a sala clarinha e facilmente se lavam as cobertas. Só que, de facto, o algodão de que são feitas as cobertas é espesso e, não tendo eu máquina de secar, se as lavo em tempo de chuva, é um caso sério para as secar.

Portanto, com estes dias de solinho, tem sido um fartote de máquinas de roupa. Tinha, claro, o banal como a roupa de cama e as toalhas da casa de banho, tinha a toalha de mesa gigante usada no fim de semana, que é também espessa, e, depois, mais estas cobertas (só posso lavar uma coberta por máquina, tal a dimensão e espessura), e mais as toalhas que usamos no ginásio mais as calças e tshirts e demais roupa. E fiz outra só com tapetes, os da casa de banho e os de pano que tenho junto às portas da rua para que o cãobeludo, nestes dias de chuva, não patinhe a casa toda nem traga lama para dentro de casa. Assim, não é que saiba limpar os pés quando entra, mas, pelo menos, passa por eles e a maior fica neles. Portanto, fiz várias máquinas de roupa de seguida. Uma alegria ter a roupa cheirosa a secar ao sol. E secou tudo que foi uma beleza.a

E hoje estava para lavar as forras das almofadas e algumas das almofadas mas já não consegui pois não esteve calor nenhum e esteve meio nublado. E parece que para a semana volta o tempo incerto pelo que este meu ímpeto lavadeiro tem que abrandar. É que, a seguir, quero que vão as carpetes. É outra coisa que gosto imenso de fazer. Estendo-as em piso plano ou inclinado, molho-as com mangueira, coloco detergente, depois 'esfrego-as' com vassoura rija. O bom e o bonito é tirar-lhes, depois, todo o detergente, deitam espuma que se fartam. Com a mangueira e a vassoura vou lavando, lavando. Tenho que estar descalça, claro. Mas preciso de sol forte para depois as carpetes me secarem senão ficam a cheirar a lã molhada, malcheirosa. Secando rapidamente ficam não apenas limpinhas como cheirosas. 

Tenho dúvida quanto aos cortinados mais espessos que são forrados e 'enformados'. Temo lavá-los eu, e na lavandaria também disseram que não assumiam a responsabilidade. Por isso, têm sido apenas aspirados, sacudidos, postos ao sol. Mas qualquer dia tenho mesmo que levá-los ao banho. O que lavo regularmente são os brancos finos como o desta sala, outro que tenho a separar a despensa da cozinha, e os das duas janelas do meu quarto, um dos quais de renda belga. Estes lavam-se que é uma maravilha, nem precisam de se passar a ferro.

Também tenho duas colchas de renda para lavar mas essas têm que ser levadas à lavandaria pois são um peso bruto e mais ainda quando estão molhadas. Claro que aí há as secadoras mas não quero tratar já disso pois, quando chove e não quer que o limpemos com uma toalha, o nosso cão maluco corre e vai esfregar-se e rebolar em cima da cama do quarto do fundo ou no sofá do primeiro andar que tem uma colcha de renda a servir de coberta. Por isso, enquanto ainda estiver de aguaceiros, não vale a pena.

Também andei com o meu marido a podar as roseiras trepadeiras que estão em volta da árvore maior. Aquilo já estava para ali um arbusto farto. Quando está florido é uma beleza e um perfume do mais inocente e maravilhoso que há. Aquelas rosinhas cor de rosa clarinho têm um perfume que faz recordar a primeira-comunhão e a infância. Mas é a tal coisa de não haver bela sem senão: espinhos e mais espinhos. E, para se conseguir chegar à árvore, para a desbastar, havia que desbastar primeiro os pés de roseira pois não apenas tinham volume a mais como picam por todo o lado. Também desbastámos um pouco a buganvília. E andei a arrancar ervas grandes que nasceram e se desenvolveram à grande tal a profusão de água das chuvas. Depois o meu marido andou com a máquina a cortar a relva. E também ficou um cheirinho bom a relva cortada.

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Bem, hoje estou para temas domésticos. Não faz sentido estar para aqui a escrever isto, pois não...? O que é que isto interessa a alguém...?

Por isso, para sair deste registo (só me faltou dizer que amanhã quero dar banho ao cão, o que não é uma metáfora nem uma gracinha, é mesmo literal), vou antes transcrever um pequeno excerto de 'Etrusca', um livrinho pequeno, que, há muito, muito tempo, aqui escrevi em capítulos, como um folhetim, uma das histórias que muito me divertiu escrever. 

E devo dizer que gosto desta capa, acho que me saiu bem. Custou mas, à enésima versão, quando já desesperava, lá me agradou... Mas, claro, é discutível, haverá quem ache uma pepineira. E eu respeitarei.

Enfim.

Aparentemente ínvios são os caminhos da sedução. As etruscas sabiam bem disso. Eu também.

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(...)

Quando cheguei, já lá estava. Sisudo.

‘Sim, patrão’, apresentei-me ‘já cá estou.’

Não estava para sentidos de humor, foi direito ao assunto. ‘O que tens andado a fazer é estúpido, irracional, descabido. A que propósito andas tu a chapar na internet assuntos que são pessoais e que não te dizem respeito? O que ganhas tu com isso? E achas que percebes tudo o que vês ou que podes fazer juízos de valor baseando-te apenas em metade dos factos?’.

Tinha os punhos fechados em cima da mesa, furioso. E olhava-me nos olhos, como se, com o olhar, me quisesse punir, talvez até agredir.

Nestas ocasiões fico invulgarmente calma. Disse-lhe: ‘Respira fundo. Acalma-te. Olha para fora. Quando estiveres na plena posse das tuas capacidades, recomeça. Mas devagarinho que eu não gosto de ver gente stressada à minha frente.'

Não ligou nenhuma e continuou, desorientado: 'Aí andas, a fazer conjecturas, a falar com a minha mulher, com o amiguinho, até com a advogada, e depois vais para o computador e desatas a escrever tudo. Se te ligo, lá vejo no dia seguinte tudo escarrapachado na internet - e eu gostava de perceber que brincadeira é esta.'

'Oh senhores, mas eu não estou farta de dizer que é ficção? Tudo ficção. Qual daqueles protagonista és tu? Eu, ao olhar agora para ti, diria que és a bicha, uma bicha toda agitada, à beira de um chilique.', brinquei.

'Mau!', continuou ele no mesmo registo 'assim não vamos a lado nenhum!'.

'Não vamos a lado nenhum? Mas onde é que tu queres ir, que eu ainda não percebi...?', sorrindo eu.

'Achas que tenho um caso com a advogada, achas que não estou a dar a mão à minha mulher, achas que sou um neo liberal arrogante. Achas isso tudo, não é? Achas que me atirei à advogada, que ela não quis nada comigo, que eu fiquei em lágrimas. Achas isso tudo, não é?! E se fosse?', e quase espumava.

'Olha, baixa o tom de voz. Não é por mim, é por ti que não há quem não te conheça, já estão a olhar para nós.'.

Então levantou-se, pagou e, seco, disse-me, 'Vamos lá para fora'.

E eu refilando: 'Logo hoje? Há tanto tempo sem chover e logo hoje, que está de chuva, é que queres ir passear...?'

Saímos. Foi buscar o chapéu de chuva ao carro.

E, então, num anoitecer chuvoso, frio, passeámos à beira rio enquanto ele falou tudo o que quis que eu soubesse.

(...) 

in Etrusca, Vera Mulanver, Amazon 

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A todos uma bela sexta-feira

sexta-feira, março 21, 2025

Um segredo tão azul e Um ordenado paraíso

 

Quem me espreitou no Instagram terá visto o que nos aconteceu. Mal menor quando comparado com o que presenciámos nas redondezas e nas reportagens mas, ainda assim, um susto e um transtorno. 

De noite, um estrondo violento que não identificámos. Apenas de manhã vimos. Daquela árvore gigante que tem raízes aéreas, quebrou-se um tronco que, ao rachar e vergar, fez quebrar vários outros troncos abaixo. Agora não apenas nos parece desequilibrada e muito menos harmoniosa como, desde lá de cima da árvore até ao chão, há ramadas, folhagens. O caminho para o jardim ficou tapado.

O meu marido já esteve a serrar e esteve lá durante não sei quanto tempo e já desobstruiu o caminho mas não quer (não quer ele nem quero eu) ir lá acima, a não sei quantos metros de altura, para serrar melhor onde o tronco quebrou e para soltar os troncos que estão presos. Tem que vir cá alguém que tenha arnês e cordas e se calhar daquelas botas com picos para se fixar aos troncos. E depois há que levar todo aquele material que certamente encherá uma camioneta.

Os vasos também estavam caídos, mesmo os grandes, mas milagrosamente não se partiram.

De resto, as cadeiras e as almofadas que estavam, supostamente, abrigadas debaixo do telheiro voou tudo, foi tudo parar longe. Mas isso nem é tema.

O pobre cão, coitado, tem um medo que se pela destas intempéries, tremia, tremia, todo encostado às minhas pernas. 

Enfim, parece que o pior já lá vai. Só espero que no campo, in heaven, esteja tudo bem. Como o vizinho que mora no fim da rua não nos telefonou, presumimos que o Martinho não fez das dele por aquelas bandas.

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Ontem disse que hoje falaria um pouco dos meus livros. Aqui vai um pouco sobre dois deles. São dois romances nunca passaram pelo blog. São originais. 

Um Ordenado Paraíso tem uma grande componente verídica -- quase diria que uma certa componente autobiográfica -- e tem muito a ver com a incompreensível dinâmica da casa ao lado. Já passaram por ali vários ocupantes e nunca conseguimos compreender as relações, as ocupações, as vivências daquelas pessoas. Sempre foi tema que nos intrigou, muitas possibilidades nos ocorreram, mas nunca conseguimos chegar a qualquer conclusão. Ainda há dois dias vi uma das principais personagens e, de novo, constatei uma mutação que nem eu nem o meu marido compreendemos. E pensei que ela nem sonha que inspirou a Dona Amélia do meu livro.

Claro que, depois, a minha mente perversa me desencaminha e me leva para maus caminhos e aí a história ganha contornos algo picantes. 

Quando escrevo, parece que estou sempre à espera do momento em que posso portar-me mal. E, mal a oportunidade se desenha, eu salto e faço das minhas. E divirto-me imenso. Aliás tenho até que e conter para não me atirar completamente para fora de pé.

A capa é uma fotografia de uma flor aqui do jardim. O título foi extraído de um poema de Jorge Luis Borges.

Há em 3 versões e, claro, só pode ser adquirido via Amazon, nestes links: em capa normal (tapa blanda, em espanhol) e em capa dura e também em e-book

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O outro romance original é daquelas histórias de quem se pode quase dizer que é uma história digamos que maldita. Não o romance em si mas a história subjacente ao romance.

Já uma vez aqui falei do que aconteceu.

No Liceu tinha um colega um pouco incomum, inteligente mas vagamente esotérico. Interessava-se muito por descobertas, invenções, e por explorar fenómenos paranormais. Sempre achou que eu tinha dons telepáticos e usava-me muitas vezes para experiências. Com frequência eu adivinhava coisas segundo testes ou exercícios que ele fazia. Quer eu quer ele, sendo pessoas já na altura ligadas mais à Ciência e pouco a religiões, a nossa curiosidade era mais encontrar explicação para o que parecia inexplicável. Não seguimos o mesmo curso mas voltei a encontrá-lo como colega do meu marido. Quando nos encontrávamos as nossas conversas eram sempre estimulantes mas uma delas impressionou-me bastante pois, na verdade, relacionou-se com coisas estranhas e misteriosas que me tinham acontecido. Há algum tempo, quando trouxe cartas de casa dos meus pais, encontrei cartas dele, com uma caligrafia perfeita e ideias extraordinárias. 

No romance Um segredo tão azul relato essas coisas estranhas que me aconteceram e relato a conversa que tive com ele a propósito disso. E falo de um palacete muito real, que frequentei, e que aparece não apenas neste romance mas noutros livros. É um palacete ou solar, como se queira, no centro de uma das nossas mais belas vilas. Alguns dos personagens foram inspirados pelos donos desse palacete.

E a história da mãe da personagem feminina, a pintora, é também muito inspirada na mãe de um amigo meu que viveu uma vida incrível.

Ou seja, é um romance que tem componentes inspirados em vidas muito reais.

E acontece que fui escrevendo, escrevendo e, às tantas, o Fred, o personagem inspirado pelo meu amigo morre inesperadamente. Custou-me muito prosseguir com a escrita pois quase sentia que estava a matar uma pessoa real. Parei algumas vezes. Escrevia e até me encolhia por estar a acontecer aquilo, a falar da morte de um personagem que, na minha cabeça, era esse meu amigo. Mas lá me fui convencendo que era ficção e lá continuei. Claro que, lido assim, parece estúpido pois se estava a incomodar-me, alterava a história e não o punha morto. Mas não consegui. Na minha cabeça tudo aquilo só fazia sentido se ele tivesse morrido sem a personagem feminina saber, com o choque que ela sentia ao descobrir. 

Um dia estava a conversar com o meu marido e ele falou nele. Achei engraçado ele estar a lembrar-se de uma pessoa que tinha entrado na história que eu estava a escrever. Não sabíamos que era feito dele. Contei-lhe que o tinha googlado e que não o tinha descoberto mas que ele era uma pessoa meio secreta, não admirava que não deixasse rastos. Contei-lhe que curiosamente estava a usá-lo como personagem no livro que estava a escrever mas não fui capaz de confessar que o tinha liquidado. Tive vergonha ou receio, nem sei. Aliás sei: sei que ele ia achar péssima ideia, não ia gostar.

Entretanto, estando já na recta final do livro, já a história tinha evoluído num outro sentido, já havia amor e malandrice no ar, ligou-me uma amiga. Estivemos a conversar e, às tantas, ela falou-me num colega, digamos que Rosário. Até estremeci, estava, do nada, a falar-me dele. Disse-lhe que me lembrava bem dele, das nossas conversas telepáticas. E ela disse: 'Ah sim, mas eu estava a falar do António Rosário. Esse de que falas é o Nunes Rosário.' Os nomes não são estes mas para o caso tanto dá. E, então, diz ela: 'Mas o Nunes Rosário, não soubeste?, morreu...'. Fiquei gelada. Fiquei verdadeiramente impressionada. 

Contei ao meu marido. Ficou também deveras impressionado. 'Falámos nele há dias...'. Continuei a não ser capaz de lhe contar que, na minha história, ele também tinha morrido.

Nesse dia, equacionei verdadeiramente não acabar o romance. Estava assustada. Incomodada com tudo aquilo. 

Mas, uma vez mais, forcei-me a pensar: 'É ficção. Não tem nada a ver com a realidade. Foi apenas uma coincidência.'

Quando acabei o livro, como sempre, pedi ao meu marido que lesse.

Como se levanta sempre muito antes de mim, quando me levantei estava ele muito mal disposto, aborrecido. Disse que não queria acabar de ler o livro. Já tinha chegado ao ponto em que se sabia que ele tinha morrido. Perguntou-me: 'Mas quando escreveste isto já sabias?'

Claro que não. Já tinha escrito essa parte há semanas. Não tinha como saber. Contei-lhe que tinha ficado passada e indisposta quando tinha sabido não apenas pelo facto em si, sobretudo por isso, mas também por eu ter 'antevisto' isso ao escrever.  

Mas a verdade é que se recusou a ler o resto do livro, incomodado, incomodado com a coincidência.

Mas isto é a história por detrás da história. A história em si tem mistério mas não é esotérica ou sinistra. Não, nem pensar.

A capa é a tal que a minha filha acha pirosa. Mas eu queria mostrar uma pintora que procurava o azul perfeito. Talvez um dia arranje uma capa menos realista. 

Neste caso, ainda não criei a versão capa dura: apenas há em e-book e em capa normal

Este é o terceiro livro mais comprado e mais lido. Os dois primeiros são, sem surpresa, os dois livros de Contos Eróticos... )

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Depois logo falo de outros dos livros. 

Gosto de falar de livros, mesmo que sejam os meus. Só espero que, para vocês, não seja uma seca...

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Uma boa sexta-feira.