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terça-feira, outubro 17, 2023

Momentos de devoção em noite de ventania

 

Não me apetece falar do meu dia. Não que tenha sido mau e, à tarde, até tive uma experiência interessante sobre a qual aqui poderia falar e, em especial, fazer comparações com uma realidade antagónica que é que a que melhor conheço.

Mas não está a apetecer-me. 

Talvez esteja preguiçosa. Cheguei tarde a casa. Acabámos de jantar já passava um bom bocado das dez e meia da noite. Depois ainda estive a trocar uns dedos de prosa com alguns amigos. E ainda estive a fazer, aqui no google e chatgpt, algumas pesquisas. Por isso agora estou um pouco off. Não respondi ontem aos comentários e acho que hoje vou pelo mesmo caminho. Li-os, claro que sim, e agradeço-os mas acho que as minhas pilhas se vão extinguir no fim deste post. As minhas desculpas. Tentarei responder amanhã. 

Mas também acontece que está muito vento. E eu gosto de ouvir o vento, gosto mesmo. Apetece-me estar sem fazer nada, a cabeça encostada ao sofá, a ouvir o vento. Mais nada. Tenho o estore corrido mas a janela de vidro está a bascular. Gosto de sentir o ar fresco da noite. Por isso, ouço tão bem o vento. E quando há árvores por perto, como é aqui o meu caso, ouve-se como que uma espessa valsa, um sopro forte como se mil tigres soprassem ao mesmo tempo.

Mas isto é o lado poético do vento. Há o outro lado. Há sempre outro lado. Há pouco, começámos a ouvir barulhos não identificados. Depois percebemos que vinham do outro lado da casa. O meu marido foi ver lá fora. O estendal de pé tinha caído e um regador andava a rebolar pelo chão. 

Gosto de ouvir o vento mas sinto sempre algum temor perante os mais indefesos (sejam pessoas, animais ou árvores). Lembro-me de quando um pinheiro grande, in heaven, ajoelhou. E um cipreste caiu. E um cedro enorme tombou e, quando se quis endireitá-lo, as raízes desenterraram-se. Dias de susto para as minhas árvores.

Mas pior é para as pessoas que não têm boas casas em que possam estar abrigadas.

E, de tudo o que fui conseguindo ler, aos poucos, ao longo do dia, o que mais despertou a minha atenção foi o último post do Steve McCurry. Moments of Devotion

These are people who are capable of devotion, public devotion, to justice. 
They meant what they said and every day that passes, they mean it more.

– Wendell Berry


For the person who is religiously or spiritually inclined, 
work even becomes a vehicle for devotion, a way of utilizing one’s gifts and talents to serve others.

– Marsha Sinetar

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Quanto ao que homens loucos andam a fazer pelo mundo não consigo dizer nada. Pessoas em que não habita a bondade, a tolerância ou a compreensão são seres que me são estranhos. 

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Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz. Paz.

quinta-feira, setembro 29, 2022

Ligações, promoções, confraternizações. Sacos. Melgas. E etc.

 


Recebo convites para participar aqui e ali, para almoços e pequenos almoços executivos, para passeios de barco, para cocktails em rooftops ao pôr do sol com jazz como companhia. Agradeço a gentileza do convite e declino ou vejo se é possível encaminhar para colegas que estejam receptivos. Eu já não consigo. Nunca tive grande saco mas, desde há algum tempo, fechei mesmo para obras. Não dá.

Hoje, ao fim da tarde fomos caminhar à beira da praia. 

Num dos restaurantes havia uma festa. Um músico contribuía para o ambiente boa onda. As ondas do mar a pouca distância contribuíam com o resto do acompanhamento musical. Num dos topos, uma mesa posta com aqueles simpáticos amuse-bouche e petites pâtisseries que coloridamente abrem o caminho para a gourmandise e que dão gosto só de olhar. Para compor o ramalhete umas dezenas de pessoas com ar de executivos que se aperaltaram para a ocasião. Homens e mulheres mostravam-se glamourosos, elas bem maquilhadas, bem vestidas e bem penteados e eles idem. Todos de copo na mão, todos sorrindo, confraternizando, circulando. Alguns mais sérios, ar de quem carrega a pesada chave que abre o cofre das soluções do mundo, certamente falando do business

E eu, vendo-os, pensei numa coisa que sempre ouvi dizer a todos os meus colegas: que os bons negócios se fazem à mesa ou que é nestas ocasiões que se fazem contactos frutuosos. E se todos o dizem é porque para todos eles isso funciona.

Pois comigo nunca funcionou. Nunca, nunca. O meu mindset só se sintoniza no business quando estou a trabalhar, em horário laboral, em local de trabalho. Preciso de estar focada nas coisas, preciso de estar preparada, preciso de ser incisiva quando for preciso, preciso de perceber até onde posso ir. Nada disto é compatível com distração, música, copos, gente a interromper.

Pior que isso: quando estou (ou melhor, quando estava) em lugares assim, odiava -- e digo bem: odiava, o-di-a-va -- que viesse algum chato maçar-me com assuntos de trabalho. 

Nestes encontros, conferências, almoços, tretas, há sempre o intuito por parte de quem organiza de estreitar connections, de estabelecer contactos, de farejar intenções de investimento. E eu percebo isso, estão a gastar dineiro nos eventos com esse propósito. Só que sou a ave que voa fora do bando, sou a ovelha sempre pronta a tresmalhar-se. Se é para ser almoço, então vamos curtir a ementa e falar de coisas simpáticas ou de política ou de lugares bonitos do nosso país. De tudo menos de trabalho. 

Não aguento quando um palerma pergunta qual a nossa experiência com a empresa A ou B, com a metodologia C ou D, com a tecnologia E ou F, com os mercados G ou H ou com o caraças. Só apetece perguntar se não sabe que é falta de educação falar de trabalho à mesa. Só não o perguntava para não me arriscar a ouvir que, justamente, aquele era um almoço de trabalho.

É que a conjugação de um almoço ou evento profissional com um chato é do pior que pode acontecer. Sempre fugi de chatos mas há ocasiões em que não dá para fugir. É, então, a tortura total. 

No Grupo, todos os anos havia encontro do maralhal quase todo. Foi interrompido com a Covid e agora está a retomar-se a boa prática. Um hotel todo por nossa conta não chega. Uns ficam na guest house

Num ou noutro sítio, à noite fazem-se grupinhos e há sempre quem aproveite para trocar ideias sobre projectos em curso ou em perspectiva, sobre problemas, sobre planos de negócio. Mal vejo algum a aproximar-se logo eu salto fora. Não há pachorra. 

Eu a organizar coisas destas, imporia uma condição: proibido falar de trabalho. 

E agora vou fazer um paralelo que, na volta, não é de nenhum paralelismo. Mas ainda assim. Qual a lógica daquelas cenas de lançamento de livros? Ter outras pessoas a falar do livro do autor? Mas há alguma coisa a dizer? Quanto muito há a ler e cada leitor que interprete como quiser. Se eu um dia escrever um livro nem arrastada me apanham numa cegada dessas. Não teria nada a dizer. Um autor vai pôr-se a dizer o quê do livro que escreveu? O que havia a dizer, foi dito por escrito. Ou outra pessoa ao lado a dizer coisas sobre o autor ou sobre o livro? Que abuso. Não faz sentido. Um escritor é escritor enquanto escreve. Quando não está a escrever, deve ser deixado em paz. Nem imagino o suplício que deve ser para um escritor ter que andar a aturar chatos que andam à volta que nem melgas para falar dos personagens ou sabe-se lá do quê. Mas parece que as editoras querem os escritores a circular, a exporem-se em lançamentos, em feiras, em encontros, parece que isso ajuda a divulgar. Não vejo como. Nem percebo como é que os escritores conseguem ter paciência para falar do que escreveram. Se me imagino nisso, só penso que, mesmo que involuntariamente, ia dar comigo a dar respostas inconvenientes, a ser irónica, a abandalhar a conversa. Acredito que, ao fim de algum tempo, na editora haveriam de me implorar que não aparecesse em público. Melhor para mim, claro.

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E isto porque vi aquela gente num fim de tarde tão bonito, mesmo em cima do mar e, em vez de curtir o jazz ou vir para a rua olhar para o sol a mergulhar no horizonte, andavam ali a jogar conversa fora ou a perder tempo a falar de trabalho. Mas sei lá. Cada um é como cada qual. Se calhar, eles é que fazem bem.

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As fotografias RX de flores são da autoria de Aleks Reba e, uma vez mais Nina Simone faz-nos companhia com Mr. Bojangles

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Um dia bom

Saúde. Boa onda. Paz.

terça-feira, maio 31, 2022

Havia dois caminhos e eu escolhi o outro

 


Um título chamou-me a atenção. Fui ler e afinal não era bem o que estava à espera. The big idea: could the greatest works of literature be undiscovered? Only a fraction of the world’s stories have survived. What might we be missing?

Preferia que fosse sobre obras não entregues nas editoras ou obras entregues e rejeitadas. Ou obras perdidas. Obras esquecidas. Obras mal amadas por quem as gerou. Mas não noutros tempos. Agora, ainda. Todos os dias, algures, alguém a acabar uma obra, a sua obra, e depois, pelas voltas e desvoltas da vida, ninguém vir a saber de nada. E, no meio de tantas obras abandonadas pelos tempos, estarem obras primas. Para sempre esquecidas.

Ou músicas. Ou pinturas. Ou fotografias. 

Por vezes acontecem milagres e muito tempo depois, por um acaso que apenas um qualquer deus pode ter inspirado, essas obras perdidas aparecem, ressuscitam. Aconteceu isso com as fotografias de Vivian Maier. Mas é muito raro.

A vida é uma combinação infinita de acasos. O milagre é o que acontece e tudo o que acontece é um milagre. Tudo o resto fica por acontecer.

Bastava, por vezes, um gesto de apoio, bastava um passo dado numa outra direcção, bastava a pequena coisa que não aconteceu naquele momento.

É como os amores. O que aconteceria se, num certo dia, num certo instante, coexistissem no mesmo espaço aqueles que, se isso tivesse acontecido, teriam sido amantes para o resto da vida?

Jamais o saberemos. 

O que sabemos é que a cada fracção de segundo acontecem acasos, acasos, acasos.

Uma vez, há muitos anos, o responsável de uma área da empresa em que eu trabalhava, ia reformar-se. Nos meses anteriores eu tinha trabalhado com um outro que me tinha parecido muito responsável, muito conhecedor. Propus o seu nome e, embora na altura, a decisão não fosse minha, a minha opinião foi tida em atenção. Ocupou, efectivamente, o lugar deixado vago pela reforma do outro senhor, progrediu profissionalmente e foi bastante bem sucedido. Poucos anos depois, soube da vaga de um director daquelas áreas mas numa outra empresa do grupo. Perguntaram-me se recomendava alguém. Voltei a pensar nele. Seria um salto na sua carreira. Falei nisso. O administrador da altura achou bem. Privilegiava-se a rotação entre cargos. Seria dar uma oportunidade a alguém muito responsável. Além disso, ele tinha recebido um curriculum vitae de um jovem que poderia ocupar a vaga e vir a ser uma lufada de ar fresco. Com a luz verde do administrador, falei na oportunidade de um lugar de director àquele tal. Hesitou. Não era ambicioso, preferia viver na sua zona de conforto. Insisti. Não desperdiçasse a oportunidade: a água não passa duas vezes de baixo da mesma ponte, dizia-lhe eu. Ele reticente. Aliciaram-no, incrementaram as condições. Acabou por aceitar. Agradeceu-me muito por mais uma vez me ter lembrado dele. Para o ex-lugar dele foi o tal rapaz novo, vindo de fora, de uma outra realidade, desconhecido de todos. Este rapaz, agora homem feito, por mais uma sucessão de acasos, é agora o pai de alguns dos meus netos. 

Acasos, acasos, acasos. 

Ou as casas em que tenho vivido -- outros acasos. Nunca quis casas feitas de novo. Sempre preferimos casas existentes. Mas, com as nossas exigências, nunca descobríamos o que nos agradasse. Quando andávamos à procura de uma casa no campo, vimos dezenas, ao longo de anos. Ao fim de semana íamos à procura de casas ou quintinhas. Tenho ideia que ainda não havia as remax, era, century 21 e etc. O que estava à venda tinha uma tabuleta e a gente ia a passar, via o número de telefone e ligava. Até que num fim de semana de chuva, não fomos, estava mau tempo para andarmos à procura. Então, estava em casa a ver o Expresso e, às tantas, vi um anúncio. Não era nada do que pretendíamos nem era minimamente nos lugares onde até então tínhamos andado a ver. Zero. Mas bateu-me uma daquelas intuições que me chegam com carácter de urgência. Telefonei. Perguntei se podíamos ir ver nesse dia. Fomos. E imediatamente nos apaixonámos. Todos. Os miúdos numa alegria. Os papéis da casa e do terreno não estavam em ordem, uma confusão, nem certidões nem registos, a maior barafunda. Quase queriam convencer-nos a desistir. Mas não desistimos. É o nosso querido heaven. Se não tivesse estado mau tempo e eu não me tivesse posto a ver os anúncios, provavelmente a história tivesse sido outra.

E poderia continuar. E se dei exemplos meus foi apenas por facilidade. Qualquer pessoa terá os seus infinitos acasos. Mil caminhos, infinitos caminhos. E nós vamos por um. O que teria sido a nossa vida se tivéssemos escolhido qualquer outro nunca o saberemos. 

Devemos sentir-nos agradecidos pelo que temos. Mas devemos estar atentos, disponíveis. Nunca há apenas um caminho. 

[O que não sei é se somos nós que escolhemos o caminho ou se, de certa maneira, é o caminho que nos escolhe a nós -- mas isso já seriam outros quinhentos (como agora soe dizer-se).]


The Road Not Taken, by Robert Frost 



Fotografias de Vivian Maier na companhia de Nina Simone com Mr. Bojangles
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Desejo-vos um dia bom
Acasos felizes. Paz.

terça-feira, maio 03, 2022

É o fungagá da bicharada in heaven
... mas, por enquanto, ainda não apareceu nenhum jacaré para se refrescar com cerveja (coca-cola não temos)

 



Pela generosa mão de Leitor/a Anónimo/a chegou-me um artigo que me deixou toda sorrisos e vontade de largar as reuniões desta semana e correr para o campo, ver se descubro o esquilinho de domingo e, se calhar, vários outros. 

Não o farei, claro. Fui formatada para colocar os deveres antes dos prazeres e, por isso, vou ficar aqui a imaginar e a desejar que a realidade seja melhor ainda que a imaginação enquanto me consumo em reuniões e mais reuniões, todas imprescindíveis e inadiáveis. 

E, no entanto, não fosse eu como sou e logo iria atrás do que penso: que vale mais um esquilinho peludo no alto de um pinheiro do que vários gestores metidos a besta

Devia ter fotografado aquele chão todo atapetado de caruma e restos de pinhas. Dezenas de pinhas todas como nunca as vi, desbastadas, quase parecendo maçarocas sem grãos de milho. O que deu nas pinhas? - andava eu a interrogar-me. Terá ventado demais por aqui? Caíram e debulharam-se em pleno voo? -- intrigada, eu. E agora, ao ler o artigo, vejo que pode ser sido o bichinho e, se calhar, irmãos e primos. Pinhas roídas parece que é sinal de que há esquilos no pedaço.

Já não bastam aquelas pegadas fundas que continuam a aparecer por lá e que o João me disse que deve ser obra de javali. Ou os gatinhos que, de vez em quando, por lá andam. No sábado vi um pequenino, cor de leite e baunilha, coisa mais lindinha. Olhou-me e depois fugiu. Passarada, então, nem se fala. E lagartixas....? Xi... por todo o lado... tantas. De vez em quando, ao andar, ouço barulhos no chão, alguma coisa que foge. Não se vê nada, só se ouve. Mas, no outro dia, andava a atirar lá para baixo umas pernadas de pinheiro e de azinheira que tinha cortado quando ouvi: zzzzzz..... Estava numa ponta, ao pé de uma escada escavada na pedra. Depois vou lá abaixo, apanho as pernadas e ponho-as no poço de compostagem, aquele lugar misterioso sobre o qual a Guigui um dia perguntou se podia andar por perto em segurança, se não saíam de lá bichos perigosos, ursos ou assim. Mas, então, eu estava a atirar as pernadas e ouço a passar-me ao lado zzzzzzz...... Olho e quase me arrepiei por dentro: uma cobra enorme, serpenteando, se calhar saindo de onde estava em busca de abrigo mais seguro. De cobras confesso que tenho algum receio. Bichas traiçoeiras. Dantes também havia muitos coelhos. Agora nunca mais vi. Não sei se foram os caçadores ou se foi uma doença. E agora apareceu o mais inesperado e mais fofo dos bichos... o esquilinho

E pensar que, se a minha filha não o tivesse visto, não saberíamos da sua presença. Quantos mais serezinhos vivem entre nós sem que nem sequer nos apercebamos da sua existência...?

Curiosamente o nosso pequeno urso felpudo não presta grande atenção a toda a fauna que habita este nosso espaço. Segundo me disse aqui quem sabe, o José Duarte, ele não reconhece que sejam ameaças. Em contrapartida, se ouve uma mota ou um carro a passarem na estrada, sai a correr e a ladrar, possuído. Depois regressa a abanar o rabo, olha para nós, pede o nosso reconhecimento. Eu elogio: 'Lindo... Toma muito bem conta da casa... Muito bem...!'. E todo ele se derrete de alegria.

Agora, quando saímos de casa ou quando estamos lá para dentro, temos sempre o cuidado de fechar a porta. O episódio do ratinho que, há uns meses, se infiltrou, fazendo disparar os alarmes da casa (numa noite em que não estávamos lá) e obrigando-nos a ir para lá fazer uma caça ao intruso, serviu-nos de emenda. 

E felizmente temos a sorte de por lá não haver jacarés senão ainda corríamos o risco de, um dia, ao entrarmos em casa, depararmos com as garrafas de águas das pedras ou de cerveja todas bebidas e um crocodilo a arrotar como um magala em dia de folga da recruta.

E, a quem pense que estou a alucinar, informo que não. Aconteceu ao casal Karyn e Jamie Dobsonque, residentes na Florida, que, tendo aprovisionado várias latas de coca-cola (diet cokes, note-se) para a festa de anos do filho, ao ouvirem um barulho estranho, foram tentar perceber o que se passava. Ao chegarem à garagem nem queriam acreditar: latas abertas, coca-cola borbulhante... e um jacaré...

Diz que é coisa não rara, em especial na altura do acasalamento: parece que, em situação de carência, quase trepariam às paredes se as encontrassem. Ou seja, fazem qualquer coisinha a ver se arranjam com quem até irem por aí à procura de um date. Não sabem que podem inscrever-se no Casados à Primeira Vista. Os especialistas haveriam de arranjar uma histérica que fizesse match com um alligator assanhado ou um marialva de pacotilha para acasalar com uma crocodila 'com uma grande mochila' (como agora soe dizer-se).

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E é isto. 

As fotografias foram feitas in heaven, como é bom de ver. 

Claro que estou a fazer um esforço para não falar no programa de televisão russa em que um anormal mostrou como é de caras destruir Berlim, Paris ou Londres. Mas hoje não.

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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível

Serenidade. Saúde. Força. Esperança. Paz

quarta-feira, dezembro 08, 2021

Spell on you

 


Já não quero ter pois tenho de sobra para o que preciso. Mas ainda move a minha atenção. Spell on you. A sedução começa no nome. What's in a name

O nome é a chave de tudo. A minha filha não poderia ter outro nome senão o que tem. Cai-lhe bem seja qual for a declinação que se use. O meu filho não poderia ter outro nome senão o que tem. Aliás, se, no caso da minha filha, o nome estava definido desde sempre, o do meu filho começou por ser negado. Eu dizia: qualquer nome menos esse. Era o nome do meu marido, o do primo mais chegado, o do filho do primo, o do tio, o que tinha sido do avô. Tentámos todos os nomes e mais alguns e, em todos, achávamos defeitos. No último dia, rendemo-nos: não podia ser outro senão aquele nome e foi assim que foi registado. É agora também o nome do filho mais velho da minha filha e o do filho mais velho do meu filho. Nas nossas casas, chama-se por esse nome e há vários a responderem. Mas cai-lhes bem esse nome. Não poderia ser outro senão esse.

Quando me apaixonei pelo meu marido sem o conhecer foi sem surpresa que a amiga especial dele da altura me disse como é que ele se chamava. Foi como se obviamente tivesse que ser esse o nome. Como se isso comprovasse a razão de ser da minha paixão. Nunca tinha falado com ele nem nunca o tinha ouvido falar. E, no entanto, estava apaixonada por ele e, no meu íntimo, sabia que o seu nome não poderia ser outro senão esse. Quando ela me falou dele e me disse qual o seu nome, eu tive a certeza que ela estava a falar do desconhecido por quem me tinha apaixonado.

Já o meu primeiro namorado se chamava assim. Estávamos a entrar na adolescência, eu nada sabia da vida, e, no entanto, ele tinha tudo o que eu gostava ou haveria de gostar num homem. Não sabia, então, mas sei agora: tudo o que há a saber sobre uma pessoa está contido no seu nome.

O meu nome. Eu não seria eu se não me chamasse como me chamo. Sou chamada pelo menos em quatro declinações e em qualquer delas me revejo. A minha mãe tinha dúvidas, pôs a hipótese de me chamar Helena. Mas eu não teria tido a vida que tive, seguido as opções que segui, não seria a que sou hoje, não escreveria aqui o que escrevo se me chamasse Helena. Gosto muito do nome mas a mim não me assentaria tão naturalmente quanto o meu me assenta. Eu sou o que sou porque este é o meu nome e porque as pessoas com o meu nome são assim.

Nem todas as pessoas com o mesmo nome serão exactamente iguais. Claro que não. Aí entra a questão do signo. O nome mais o signo definem e calibram com precisão tudo o que há a saber sobre uma pessoa.

Aqui chegados, imagino que muitos dos que me lêem acham que nada disto faz sentido. Mas ainda estamos no início dos tempos. Tudo o que se sabe não é nada comparado com o que há para saber. Se não nos apressarmos a chegar ao fim dos tempos talvez, até lá, consigamos descobrir alguns dos mistérios que hoje nos parecem insondáveis.

Mas, dizia eu, que é o nome. Spell on you. Isso e a descrição, o nome das flores, os sentidos despertos para receberem odores de terras longínquas, as palavras que hipnotizam e seduzem. Transcrevo:

An ode to the iris pallida from Florence, its composition exalts the duality of a precious flower that symbolizes feminine seduction. The iris insinuates its violet notes into a radiant bouquet of rose and Sambac jasmine, then unfurls the force of its powdery notes within the honeyed accents of acacia flower. Evolving from carnal seduction and an intimate impression, Spell on You has a hypnotic, heady aura, like an unforgettable refrain...

Ou, numa perspectiva mais técnica, as notas

Top notes are Green Notes, Violet and Tuscan Iris; middle notes are Rose, Chinese Jasmine and Tuscan Iris; base notes are Peach, Acácia and White Musk.

E depois há a embalagem, a elegância do exterior. As proporções. Os pormenores. 

E há a forma como se apresenta. Se há sensualidade, intimidade, sedução, malícia, segredo, mistério, se há qualquer coisa de inexplícito, se há a possibilidade de ser outra coisa e não aquilo que parece... então eu identifico-me. E tenho vontade de me aproximar, de experimentar. 

Por isso, logo que possa, fá-lo-ei. É inevitável. What's in a name...? E, de resto, para quê mudar...?


Spell On You with Léa Seydoux ||| Louis Vuitton

[ao som de Nina Simone: « I put a spell on you »]


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Fotografias de David Sims na companhia de Fiona Apple que interpreta Why Try To Change Me Now 

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Sorte. Esperança. afecto.

sexta-feira, agosto 20, 2021

Ideias lebres


Ideas liebres son las ideas que corren, y, por consiguiente, las que nadie tiene

José Bergamín


Ontem, quando pensava que o meu marido se tinha ido deitar, apareceu-me aqui dizendo que tinha ido ao jardim ver o sistema de rega. Deve ter ido ver se estava a funcionar, não sei. Sei é que lhe disse que me podia ter dito que ia lá fora àquela hora. Pela configuração da casa, não se ouve o que se passa do outro lado e, por isso, nem tinha dado por nada. 

O sistema esteve sem funcionar alguns dias e a relva ressentiu-se. Pois bem, de madrugada, acordou-me para me dizer que ia lá fora pôr a funcionar. Virei-me para o outro lado, convencida que estava a levantar-se. Levanta-se sempre cedíssimo. Passado um bocado, voltou para a cama. Fiquei espantada. Que ideia era aquela? Perguntei que horas eram. Cinco. Fiquei passada. Porquê tão cedo e porque me tinha acordado? Explicou a razão de ser tão cedo e disse que me tinha informado pois, de noite, eu lhe tinha dito que me deveria ter avisado. Fiquei fula: nem três horas eu tinha dormido desde que me tinha deitado. Como sempre, disse-me que deixasse de protestar e que voltasse a adormecer. E eu, fula, disse-lhe que não funciono como um interruptor. Mas parece que não percebe isso.

Só voltei a adormecer quando ele saiu da cama mas, passado um bocado, tocou o telefone. Portanto, o meu défice de horas de sono, agudiza-se.

Como habitualmente, desejei amargamente poder dormir durante meia hora a seguir ao almoço. Mas, também como habitualmente, não consegui. 

Fomos almoçar já tarde, depois de uma caminhada à hora do calor. Aproveitei para lhe pedir que, a menos que haja urgência com a família ou que o céu esteja a cair aos bocados, jamais voltasse a acordar-me. Fingiu que estava a receber este pedido pela primeira vez. Mas isto dura há anos e anos. 

Quando os nossos filhos saíram de casa, para ver se conseguia dormir sem interferências, fui dormir para o quarto da minha filha. Geralmente a meio da noite, aparecia no quarto e ia enfiar-se na cama comigo: dizia que não dormia bem sozinho. Portanto, era pior a emenda que o soneto pois, sendo a cama mais estreita, ainda mais perturbação me causava. Acabei por desistir com a promessa que não me acordava de noite. Mas está bem, está. Acha que não está a acordar-me, que eu é que tenho o sono leve ou que embirro. Um chato.

De tarde, uma reunião que pensei que não duraria mais do que uma hora acabou por durar cerca de três. Do outro lado, uma pessoa ia de férias e queria deixar o trabalho em marcha e, sabendo que não tarda irei eu, ainda mais assuntos vieram para cima da mesa. Às tantas, recebi um mail do meu marido dizendo que me despachasse pois queria que fossemos escolher uma tinta para pintar o portão da horta para ver se o pintava ainda hoje.

Enfim. A gente bem tenta mas parece que há sempre um pequeno motivo que nos impede de conseguir algum tempo para nós. E assim vão passando os dias. Ou seja, passa o verão e não consigo apanhar sol no jardim ou tempo para pegar num livro.

Quando me despachei, estava também ele a despachar-se e lá fomos. Já à pressa, já atrasados.

Enfim. É o que é.

Tenho aqui dois livros que trouxe no outro dia da pequena e agradável livraria de bairro onde consegui ir, numa inesperada incursão. 

Fica longe e nada em caminho mas queria mesmo lá ir. Encomendar livros online não se compara com o contacto presencial com uma livraria de verdade onde existe uma Livreira de verdade e onde tudo é muito genuíno e onde os livros são livros e não meras embalagens de uma qualquer fancaria. Ir lá é um gosto, não apenas pelos livros mas, também, pela simpatia da Livreira. 

Achei graça que, quando lhe falei num certo livro, ela me tenha dito que não tinha lido nem recomendava pois embirra com o autor. Disse-lhe que também eu, e deu-me vontade de rir a reacção espontânea dela, e acrescentei que o livro me tinha surpreendido pela positiva. Rimo-nos com a coincidência de opiniões e ela contou-me o que lhe tinha lido nas redes sociais e que só provava que o tipo é um vaidoso e um convencido. Contei-lhe que é também essa a ideia que tenho dele. Estivemos à conversa, pois, e para concluir ela disse aquilo que eu também tendo a pensar: que mais vale a gente nem saber nada dos escritores, que há com cada estupor... e que, depois, ficamos com preconceitos contra a obra. 

Gosto de conhecer a vida de alguns escritores mas não para entender melhor a sua obra. Aliás, acho que nem me lembro de relacionar com a sua obra. Acho que gosto apenas porque, por vezes, são pessoas com vidas cheias de contradições, com uma maneira curiosa de ser. Gosto de os conhecer quase como se lesse sobre um personagem interessante. 

Há poucas pessoas com quem goste de falar sobre livros pois a maior parte das pessoas com quem falo sobre livros diz coisas que não me interessam ou interessam-se por livros que a mim não me interessam. Mas quando as pessoas têm coisas para me ensinar ou têm gostos compatíveis com os meus gosto muito de falar de livros. Aprendo. Gosto de aprender. Assim de repente sou capaz de pensar em duas ou três pessoas com quem a conversa sobre livros me abre portas e, ao mesmo tempo, me conforta. Pessoas raras.

Os dois livros que trouxe para mim foram 'Ideias lebres' de Ernesto Sampaio e 'Zonas de baixa pressão' de António Guerreiro. E estou desejando de os ler. Enquanto escrevo isto, olho-os: capas elegantes. Passo-lhes a mão pelo pelo: capas macias. Folheio-os: as palavras chamam por mim.

A ver se arranjo tempo para elas.


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Livraria Escriba



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Pinturas de Faith Ringgold na companhia de Nina Simone em I Wish I Knew (How It Would Feel To Be Free)

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira!

domingo, dezembro 20, 2020

Se tu soubesses

 



Separei presentes por agregado. Não há papéis a embrulhar. Venho desaderindo desse desperdício há algum tempo. Ficar com o chão cheio de pepéis e laços parece-me um nonsense de um tempo cheio de irracionalidades. Ultimamente já era na base do combate à ineficiência. Era abrir e logo alguém diligentemente colocava papéis num dos sacos maiores para se levar a seguir para o lixo. 

Este ano radicalizei, deixei-me disso em absoluto: não há papéis. Aliás, não se diz 'fazer figura de papel de embrulho'? Coisa a evitar, portanto. Pelo que me toca: nada. Mesmo os sacos onde as coisas estão a granel são reduzidos e tanta escassez também está a ser um bocado demais. Quando compro, trago os sacos mínimos indispensáveis e agora, a separar, faltam-me. Como não trouxe sacos da outra casa, agora foi uma dificuldade. Para resolver, maximizo a utilização dos sacos. Mas não é fácil acomodar presentes, por agregado, no mesmo saco. A minha filha, quando eu lhe disse que não há embrulhos, protestou, diz que faz parte, que é todo um conceito. Pois para mim não. Estou cada vez mais minimalista. E é em tudo.

Se já me incomodava gente que falava demais, a voz alta demais, as pessoas que se acham o máximo, se me incomodava o excesso,  agora, então, ainda mais.

Quando penso em como o excesso me incomoda, penso inevitavelmente naquela casa que visitei há algum tempo, uma grande moradia numa grande quinta. O piso térreo estava razoável, boas peças de mobiliário, confortáveis; mas, para meu gosto, o espaço estava um bocado preenchido demais. Agora a cave... A cave era, em espaço, tão grande quanto a casa: enorme. E cheia como um ovo. Difícil descrever, só vendo. Estava dividida em grandes espaços. Cada espaço tinha a sua função. Um era a adega. Esse era o mais normal. Outro espaço era para relógios. Certamente centenas: de parede, de mesa, de pé, de pulso, de bolso, de todos os géneros e de toda a espécie e feitio. Outra era a dos comboios: indescritível. Montes, vales, cidades, carruagens de todos os tipos, máquinas, coisas por montar, embalagens ainda intactas, tintas, materiais para fazer montes e vales. E, de divisão em divisão, uma pessoa ia ficando de queixo caído. Um mundo quase mágico tal a quantidade de raridades e tal a inesperada profusão de tudo. Grandes mesas para se montar coisas em cima, bancadas, estantes. Saí de lá esmagada. Até dormi mal. Dali poderia ser material para várias salas de museu. O meu lado prático só fazia com que eu me interrogasse: mas será possível limpar o pó a isto ou lavar o chão? Parecia-me impossível e, portanto, só pensava que haveria de chegar o dia em que não se conseguiria dar passo ou respirar. Aflorei o assunto mas ele sossegou-me, que, sem portas ou janelas para a rua, só com respiradouros, ali não entrava pó ou sujidade. Não sei. Só sei que quando vejo espaços tão cheios de tanta coisa sinto até algum medo. Por exemplo, se se perder o rasto a alguma coisa como voltar a encontrá-lo? Dá a sensação que as coisas acabarão por devorar as pessoas.

Portanto, voltando aqui às minhas coisas, não há embrulhos, não há desperdício. O pior é quando não há mesmo nada. Comprei um livro para uma pessoa a quem não posso passar-lhe simplesmente o livro para a mão. Felizmente a simpática livreira fez questão me me dar um envelope de papel. O pior é que agora não encontro fita-cola para fechar o envelope (não trouxe da outra casa e aqui ainda não precisei, não comprei) nem tenho nenhum saco onde meter o envelope aberto com o livro lá dentro. Fica mal e o pior é que não sei como resolver.

A minha filha disse que, se é assim, a granel, sem ar de presentes de natal, então que não me esqueça também de manter os preços como geralmente acontece, um clássico. (Esqueço-me de tirar as etiquetas). Fez bem em lembrar pois hoje fui ver, tive que tirar tudo dos sacos, e grande parte tinha mesmo o preço. Acho que já tirei tudo.

Este ano também não fiz as fotografias que ofereço desde sempre a toda a gente. Estão dispersas por três computadores, outras nem devem estar em nenhum (um computador avariou-se, tive que usar um outro e, mais tarde, ainda outro) e também não vou à Fnac para as fazer nem estou virada para as mandar fazer online. Talvez quando tiver mais tempo livre me ocupe disso. Mas é outra coisa: aquelas festas de anos ou momentos de ajuntamento em que nos juntávamos todos este ano não aconteceram. Enquanto uns e outros conversam e riem e brincam, eu cirando na maior transparência e, sem que ninguém dê por mim, vou fotografando. Mas tudo isso é coisa de um outro tempo. 

Tenho saudades. Ando com saudades.

Por exemplo, tenho saudades de passear. Gosto muito de estar em casa mas também gosto muito de passear. Gosto muito do meu país, gosto de andar a descobrir cidades, vilas, aldeias, rios, serras, hotéis, restaurantes, igrejas, jardins, livrarias, cafés. Espero bem que, daqui por um ano, já tenha conseguido fazer alguns passeios, juntar pessoas cá em casa, andarmos juntos a conversar e a rir, sem máscara, sem termos que nos distanciar uns dos outros, poder fotografar a alegria de estarmos juntos.

Ano tramado este. Nem me apetece olhar para as fotografias que tenho feito e que mostram o andar lento do tempo. Flores, árvores, pedras, sombras. E tantas ausências. E uma perda muito grande. E várias outras mais pequenas. Também ano de mudança, de viragem. 

No trabalho, dizem-me que nunca uma tal mudança tinha alguma vez sido levada a cabo. Antes do salto, apresentei e, ao contrário do que é costume (alguma leveza misturada com alguma distração), neste caso o oposto: tudo de olhos postos, tudo com ar estupefacto. No final muito receio pela dimensão da reviravolta. Um dizia: será que não vamos atirar-nos para fora de pé? Por dentro penso: será que um tsunami destes é gerível? Mas não conheço outra forma de fazer as coisas, só esta, a de começar de novo, pôr o passado para trás das costas, olhar para a frente, querer o melhor, avançar nesse sentido, peito dado às balas. Uma vontade de mudança na minha vida que está a levar a uma mudança gigante na vida de muita gente. Um diz de mim: leva tudo à frente. E concretiza: leva o mundo à frente. E eu ouço e, por dentro, desvalorizo. Penso que é um pequeno mundo, coisa à minha escala, mas que o mundo da gente, o nosso pequeno mundo, é o que temos de maior.

E é uma coisa curiosa, esta. Um exemplo de como a vida resulta da conjugação aleatória de acasos. Se num dado dia não tivesse acordado com uma vontade irreprimível de mudar de trabalho, de empresa, de casa, de tudo, a esta hora provavelmente toda a revolução que nesta empresa está em curso e que vai catapultar muitas pessoas -- e passar por cima de outras -- não teria acontecido. Não sei se é curioso, se é assustador. Mas é o que é.

Quando comecei o post não sabia sobre o que iria escrever. Estava apenas com aquela sensação de ter saudades sem saber bem de quê, nostalgia talvez. Saudades da vida que tinha, saudades de quem se foi, saudades em geral. Nem sei.  Então comecei por ir ao youtube ver se encontrava alguma canção que se chamasse miss mas miss, em si, é vago, dá para tudo. Então escrevi 'miss you' mas quis que soasse como me agradaria que soasse. A dos Rolling Stones não tem nada a ver. A Etta James também não. Encontrei a Nina Simone a interpretar: If you knew. Pareceu-me estar no tom. 

Almeida Júnior, Frederic Leighton, nas duas seguintes, e, por fim, Artemisia Gentileschi acompanham na pintura. Mulheres pensativas, melancólicas, nostálgicas, com a cabeça sabe-se lá onde.


E agora não sei que nome dar a este post pois não escrevi sobre o que me apetecia mas sim sobre o que ocupou esse espaço. Talvez 'saudades'. Ou, então, o título da canção. Não sei. Tanto faz, não é?

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Desejo-vos um belo dia de domingo

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Uma fenda minúscula

 



Um escritor inglês, Henry Blackwood, tinha uma teoria singular: ele dizia que sempre à meia noite se formava uma fenda minúscula entre o dia que acabava e o que começava, e que uma pessoa que conseguisse deslizar nessa frincha sairia do tempo e encontrar-se-ia num reino independente de todas as mudanças que nos acontecem; nesse lugar encontram-se todas as coisas que nós perdemos.


[Excerto de Sapatos de Corda - Agustina de Mónica Baldaque, ao som de Night Song por Nina Simone e na companhia de Night Blue de Mak Rothko]

terça-feira, outubro 20, 2020

Máscaras, nudez, nostalgias --- na companhia de uma certa Miss



E é isso. A nostalgia parece estar a tomar conta de mim. O dia esteve cinzento, chuviscoso, e isso não ajuda. A seguir ao almoço já estava a escurecer. Depois veio o vento, a chuva forte. 

Não consegui dar o meu passeio. Estive em reunião até tarde. A última era relevante e não correu como eu queria. Visões antagónicas. Do meu lado a urgência, do outro a procrastinação. Do meu lado o achar que o mundo pode acabar amanhã e que nada deve ficar por fazer. Do outro, o deixar andar. Em tempos ficaria doente de contrariedade. Agora não. Aceito. Contrariada mas não doente. No meu íntimo, ensaio retaliações, ameaças. Mas talvez, também eu, não faça nada. A ver no que dá. Não é a minha maneira de ser mas, com o tempo, vou aceitando que, por vezes, não há outra forma de viver. 

Ao fim da jornada, depois das reuniões, calcei umas meias quentinhas, fiquei logo mais confortável. O tempo vai passando, sim, e já que não o podemos deter, o melhor é que nos sintamos bem, aconchegados. 

À noite dei uma volta pelas janelas a ver se estavam bem fechadas. A Bárbara anda por aí a escoicear e a espumar e nunca se sabe o que poderá fazer se encontrar uma janela aberta.

Antes da hora de almoço, no intervalo entre reuniões, muito a correr, fiz uma sopa. Costumo usar, para base, abóbora ou cenoura e mais courgette, cebola, chuchu. Hoje usei cenoura. Como, no outro dia, não encontrei courgette, usei nabo. Usei dois. Por isso entre o doce da cenoura, da cebola e do chuchu e o intenso do nabo, ficou um agridoce agradável. De verdes usei feijão verde e umas quantas ervilhas. Ficou boa. Era para ir à horta buscar hortelã mas não quis molhar-me, não fui. A ver se amanhã consigo lá ir. A sopa fica mais airosamente perfumada com uma raminha de hortelã. 

Comi uma taça de sopa, um resto do arroz de tamboril de ontem, uma maçã 

A seguir ao almoço, fiz um estufado de cachaço de porco, cortados em pedaços, generosamente envolto em três grandes cebolas brancas, doces, dentes de alho, salsa, coentros, folhas de louro, orégãos, vinho tinto e azeite. Cerca de duas horas em lume brandíssimo. 

À noite, para o jantar, num outro tachinho, coloquei parte do molho da carne numa caneca que completei com água e uma outra só com água. Quando ferveu juntei feijão verde cortadinho, cenoura picadinha, um pouco de bacon também aos bocadinhos e deixei um pouco a cozinhar. Depois juntei uma caneca de arroz basmati e um pouco de sal. Quando ferveu, baixei. Passado um bocado juntei bocados de carne e misturei. Ficou um belo arroz de carne. 

No tacho original ficou ainda um bom bocado de carne que talvez amanhã ou depois acompanhe com uma esmagada de batata doce.

De tarde, enquanto estava a ter as reuniões, ia sentindo o cheirinho do estufado a apurar, ia vendo a chuva a cair, as folhas gotejando, o vento a soprar. É uma forma de vida algo bizarra. Poderia estar no escritório mas sou muito mais produtiva em casa. E estou próxima, tête a tête com os demais participantes. A tudo nos adaptamos.

Mas, de vez em quando, apetecia-me era pôr-me a ouvir uma música, deixar-me ficar a olhar o escuro a descer sobre o verde choroso que via da janela, deixar-me ficar entregue aos meus pensamentos. 

Enquanto estava a ter as ditas reuniões, todos distantes uns dos outros, todos de cara destapada, sem máscara, a vermos os semblantes uns dos outros, os olhares, pensei que antes não estava tão próxima, a observar tão de perto os meus interlocutores como estou agora. De tarde, numa reunião que, por sinal, correu bastante bem, eu em minha casa, mas apenas com parede e um quadro escondido atrás de mim, outro também em casa mas com um cenário surreal por detrás, o mais desadaptado possível, outro na sala, com os bibelots à vista, umas flores algo peculiares, outro também em casa com uma estante meio desarrumada atrás. E, no entanto, como a reunião foi participada, todos em articulação, todos com vontade de remar para o mesmo lado. 

Em contrapartida, com isto da covid, se a conversa é ao vivo, estamos forçosamente mascarados, apenas os olhos a descoberto -- mas os olhos a descoberto ficam desarmados, incompletos. A máscara é um estorvo para a alma. Quando nos mascaramos, há algo de nós que sabemos ser incompleto, perdemos a naturalidade. Apenas a nudez nos permite a entrega, mesmo que, no caso, seja a nudez do rosto. Por isso, parece que, agora, estamos mais próximos quando estamos mais distantes, sem necessidade de máscara. 


É como quando leio algumas coisas. Apesar de tão distante, sinto-me, por vezes, tão próxima. E, no entanto, não sei quem escreveu, desconheço. Tudo tão estranho, isto, não é? 

Se calhar é isso: sinto alguma nostalgia dos tempos em que as minhas coordenadas eram outras mas, estranhamente, não sei se esse tempo era melhor do que este agora. Estou um pouco perdida, confesso.

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Pinturas de Ian Lawrence ao som de Solitude por Nina Simone

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Chego ao fim destas palavras vagabundas e fico a pensar que quem lê deve chegar ao fim, se é que chega, e deve pensar: tempo perdido, tirando o que não é dela, nada se aproveita. Compreendo. E, por isso, para tentar compensar, permitam que partilhe o trailer de um filme que, cá para mim, vai dar que falar. Mais um filme do Rubem Alves: Miss. Mais um que gostaria de ver no escurinho do cinema.


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E uma boa terça-feira.

[Quid faciemus? Aprendemos a controlar o medo, aceitamos a nudez, a proximidade]

domingo, junho 07, 2020

Lift every voice and sing




Pouco evoluímos. É certo que estamos mais digitais e que isso é bom mas, na verdade, em concreto, não sei quantificar o aumento de felicidade que isso tem trazido à nossa vida. Ao longo de anos venho repetindo (em contexto profissional, claro) que o que não se pode medir é como se não existisse. Portanto, se não consigo quantificar o aumento de felicidade que a digitalização tem trazido às nossas vidas, mais vale nem dizer que é bom. Quanto muito, digo que é capaz de ser bom. No entanto, também não dizer bem dizer para quê. Ainda hoje ouvi umas pessoas sinistras dizerem, creio que na SIC, ufanas, que monitorizam por onde andamos e que conseguem prever tudo e mais alguma coisa. Tudo anonimizado, dizem. Deixámos, pois, de ser pessoas para sermos ID's, objectos que podem ser traceados -- rastreados, I mean --, meros dados que sustentam e validam algoritmos. Tão bom. Mas, enfim, há nisto da digitalização coisas mais poéticas. Por exemplo, estou a escrever e vejo que, neste preciso instante estão noventa e sete pessoas a ler o que por aqui vou escrevendo, setenta e sete das quais de Portugal. Mas também quatro da África do Sul, três dos Estados Unidos, dois do Brasil. Etc. Se não fosse isto da digitalização, estaria a escrever à mão, num caderno, e ninguém faria ideia do que eu estaria a garatujar. Mas em que é que ler o que eu escrevo traz felicidade a quem me lê? Eu gosto de ver que me lêem mas a verdade é que não sei quem são, não os conheço, não sei o que pensam do que escrevo. Algumas pessoas dizem que gostam e fico contente mas, também, de vez em quando, recebo comentários desagradáveis, gente que goza comigo, que me diz coisas ofensivas ou maldosas. Geralmente não publico essas coisas más. Não gosto de ser maltratada. Tento ignorar. Penso que se não gostam de aqui vir, porque vêm? Mas isto para dizer que, a bem dizer, também não posso concretizar de forma racional em que é que eu escrever aqui, à vista de toda a gente, é bom. É certo que há outros aspectos a reter nisto na digitalização: tudo desmaterializado, tudo circulando em cabos ou pelo ar, tudo ligado a tudo. É capaz de ser bom. Não sei é se, materialmente, isso tem contribuído para a nossa felicidade.


Também se tem evoluído na ciência. Mas um vírus da treta, uma variante de um corona que já por cá anda há que séculos, foi o suficiente para paralisar o mundo, para dar um coice em todo o sistema, para deixar toda a gente de máscara na cara e a ter medo de cada vez que alguém tosse perto do nosso cerco sanitário privativo. E uns dias isto cura-se com isto, outros com aquilo, e o brufen agudiza, o brufen cura, máscara não, máscara sim. Ninguém sabe. Um merdinhas de nada trocou as voltas à ciência toda, por junto. Até The Lancet, essa sumidade, meteu água e disse e desdisse que a hidroxicloroquina era e não era a solução ou parte dela. Portanto, ora abóbora.

E isto das supremacias, da religião disto e daquilo, crendices, seitas, grupos grupelhos -- tudo coisas que, por já terem provado ser atrasos de vida, burrices, crimes, já deveriam estar mortas e enterradas há séculos. Mas não, tudo vivinho da silva.


Um país como os Estados Unidos estar como está, nas mãos de um bronco que, por mais porcaria que faça, ainda continua a merecer o agrado de grande parte da população é coisa capaz de desmoralizar o mais optimista. Que tanta gente ainda seja tão alarvemente racista, tão alarvemente ignorante, tão alarvemente boçal, tão alarvemente abaixo de cão é coisa que me deixa doente. 

Não estamos a caminhar no bom sentido. Começo a achar que a democracia abriu demasiado as portas aos não democratas, que a liberdade abriu demasiado as portas aos seus inimigos, que os civilizados abriram demasiado as portas às cavalgaduras.


Não estamos a evoluir. Pelo menos não no bom sentido. Digo eu.... E, pior, não sei se ainda vamos a tempo de arrepiar caminho. O mal está muito espalhado.

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Por exemplo: há quanto tempo foi isto aqui em baixo gravado? Ontem?

Ou há décadas?

O que evoluímos desde então?



Por isso:

Lift every voice ando sing



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Fotografias de Robert Mapplethorpe ao som do piano de Nina Simone.

Excerto de "Ounce of Faith" de Darrell Grand Moultrie dançado por Khalia Campbell do Alvin Ailey American Dance Theater
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E é ir deslizando por aí abaixo. 
E um bom domingo.

domingo, março 08, 2020

Eros em visita




Estendeu na terra atapetada de erva a toalha de pano que comprou aos vendedores ambulantes em Lagos e deitou-se ao sol. Quando ele chegou perto dela, deu uma gargalhada e exclamou: 'Mas o que é isto? Passaste-te?'. Ela soergueu-se sobre um cotovelo, colocou a mão em concha sobre os olhos e perguntou: 'Porquê?'. Enquanto falava, segurava as folhas de couve. Riu também. Depois explicou: 'O sol está forte. Não tinha protector solar. Fui ver o que poderia usar e lembrei-me disto'.

Deitou-se de novo e ajeitou as duas folhas. Ele riu. Cada folha cobria um seio mas a meio de cada folha havia um orifício através do qual saía o mamilo. 'Um curioso modelo. Qual a ideia?', ironizou ele. Ela, maliciosa, explicou: 'Para te facilitar a vida.' Ele ajoelhou-se e, tendo a vida facilitada, fez o que tinha a fazer.


Num outro dia, quando chegou a casa, ela estava na sala a ler. A sala quase às escuras. Um foco de luz incidia no livro. Admirou-se: 'Vieste mais cedo.' Ela esclareceu: 'Estava doida para ler este livro'. Estava coberta por uma mantinha muito fina, branca, que parecia renda. Ele reparou nos seus ombros despidos: 'Estás nua?'. Ela respondeu: 'Não. Apenas despi o vestido para não o amarrotar. Liguei o ar condicionado para não ter frio'. Ele sorriu. Ela disse: 'Mas completei com um adereço.'. Ele olhou-a e percebeu que o sorriso dela era daquela malícia que tão bem conhecia: 'Ah sim? Ora deixa cá ver...'.

Destapou-a.

'Ah... ' Ela percebeu que ele tinha gostado do que tinha visto mas, sabendo-o distraído, não ficou com a certeza que ele tinha visto tudo. 'Viste a minha flor?'. Ele não percebeu, admitiu que fosse uma metáfora: 'A tua flor? '. Em voz baixa, ela esclareceu: 'Um malmequer. Para ver se tens sorte.  Desflora-me. Devagarinho. Mal-me-que, bem-me-quer. Anda, vem ver qual o veredicto. Aproxima-te.'


No dia oito, quando estavam a almoçar, ela descalçou o sapato e com a ponta do pé acariciou-lhe a perna por debaixo das calças. Ele começou por se admirar mas depois sorriu. Ela voltou a calçar o sapato e pediu que ele lhe desse o cheese naan à boca. Ele disse: 'Deixa-te de coisas'. Ela insistiu: É Dia da Mulher. Sê simpático'. Ele sorriu: 'O que é que ganho com isso?. Ela olhou-o nos olhos. 'Nem queiras saber'. Ele quis saber: 'Diz lá'. Ela disse: 'Estou a pensar numa coisa. Mas é surpresa.'.

Pegou no pé do copo, balouçou o vinho enquanto aspirava o seu odor, depois bebeu um pouco, devagar, sentindo o sabor. Disse: 'Frutado, umas notas de romã, umas notas de madeira. Bom.'

Depois, voltou a olhá-lo nos olhos: 'Vá, agora o cheese naan, bebé'. Ele separou um pequeno triângulo e deu-lho à boca. Ela saboreou o queijo derretido, quente, e percebia-se que estava agradecida. Então ele perguntou: 'E agora...?'. Ela sorriu mas muito ao de leve: 'Agora ganhaste o direito à sobremesa, baby...'


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A primeira e a última fotografias são de Helmut Newton, a segunda é de Marino Parisotto e a última de Richard Avedon. Segundo Nina Simone Wild is the wind.

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