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sábado, outubro 12, 2019

Um dia animado, uma noite animada




Logo à abertura, aí estava eu. Mas não fui lesta pois abasteci-me de tomate, alface e uvas e só depois fui tirar a senha para a carne. Cinco pessoas à minha frente. Uma pediu um  pedaço de carne e olhava para mim como que a justificar-se ou a querer a minha aprovação: devia dar um bom guisado, esta parte é a mais saborosa. Depois, quando o senhor pôs a peça ao alto (e estou obviamente a referir-me ao bocado de rabadilha), ela achou que se calhar a outra ao lado era melhor, ele que visse. E olhava para mim e justificava a escolha. Acontece que eu, na primeira hora da manhã e ainda apenas com um café, não consigo socializar. Depois que o senhor do talho a cortasse aos bocadinhos. Mas queria ver o tamanho dos quadradinhos. E eu pensava que ela devia dizer cubinhos. Entretanto, os outros empregados traziam peças para o balcão ou atendiam encomendas. Só um estava de serviço ao público. Nestes momentos começa a subir por mim acima uma impaciência que não se aplaca com facilidade. A seguir foi um senhor que também estava irritadiço pois disse, como se estivesse a dar uma chazada à outra que ainda estava, nas calmas, a arrumar o saco no carrinho, 'Para mim é rápido, é meia dúzia de peitos de frango e não é preciso escolher nem cortar'. Entusiasmei-me. Mas não. A seguir era uma senhora que trazia na mão duas embalagens, cada uma com seu pato. Com ar auto-justificativo de quem estava a dar um golpe mas um golpe legal, disse: 'Eu tenho senha. É só para cortar. Os patos são tão grandes, em asa não consigo' Enchi-me de tolerância. A senhora dava instruções precisas, depois punha-se de bicos de pés para espreitar, depois tinha dúvidas se havia de cortar um bocado mais e olhava para o senhor e para mim a dizer 'são tão grandes, tenho que mandar cortar'. E eu poker face. Sem paciência, a ver a vida a andar para trás. A seguir ao corte dos patos, como se pedisse um favor, a senhora pediu umas bifanas mas o senhor que escolhesse um bocado bom e as cortasse fininhas. O empregado, a paciência em forma de gente, alçou um e outro bocado até obter aprovação. A partir daí entreguei para deus. Que demorassem o que quisessem. Quando chegou a minha vez limitei-me a pedir o que queria e em dois minutos estava despachada. Depois foi ir ao leite, aos iogurtes, ao queijo, à massa, às amêndoas. Depois fui nas horas a casa, pôr as coisas no frigorífico.

À tarde, iríamos buscar três meninos à escola. Jantariam e dormiriam cá.


Não cheguei muito cedo ao escritório.

No meio de análises e auditorias e apresentações, ligou a minha filha. Se calhar havia uma alteração de planos. Podia eu ir buscar os meninos dela à escola e levá-los para casa e se calhar, se fosse preciso, ficar com eles? Sim, podia. Dividíamo-nos, eu ia buscar os dela, o meu marido os do irmão.

A seguir ligou o meu filho. Que nestas ocasiões é que parece que é tudo a ajudar: o bebé estava doente, até tinha ido com ele ao hospital de noite. Nada de mais, faringite, coisa vírica. Não tinha pregado olho, tosse de cão.

Avisei a minha filha que ela, quando sabe que há virose no pedaço, põe-se logo ao largo não vá ir de carreirinha, correndo todos. Então não, era melhor não correr o risco senão ainda apanham também a virose e, já agora, é melhor não. 

Pelo meio, houve muito trabalho e reunião e, claro, o arranca-rabo com o tal herói que ontem, na minha ausência, pintou a manta com quem não lhe podia fazer frente e que hoje estava de bolinha baixa, todo ele peace and love. Deixei que fizesse de conta que nada se tinha passado e, no fim, creio que com ar de poucos amigos, disse-lhe que fossemos ao que interessava. Encostou-se à parede e levou a tareia para a qual estava guardado. Desdisse-se, contradisse-se, apatetou-se. Mas não abrandei. 

Depois saí mais cedo e nem ai nem ui, bom fim-de-semana. Ficou especado, certamente pensando que estava baldar-me para lhe mostrar como é que era. Saí faltavam vinte minutos para as seis. 

Avisei o meu marido que estava a caminho e ele disse que também. Encontrámo-nos e depois fomos, num único carro, buscar os mais crescidos à escola e o bebé a casa da outra avó que tinha feito uma taça de arroz doce para os netos, em especial para o bebé que gosta muito e para o caso de não querer comer muito, disto come ele sempre. Na rua, o meu marido, quando viu o arroz doce, todo ele se sorriu, agradecido. Esclareci logo: 'Estás a agradecer...? Julgas que é para ti...? Não é. É para os teus netos...' Ficou meio atrapalhado pois, em frente da comadre, fez papel de lambão. Mas ela riu, satisfeita por constatar o sucesso do seu arroz doce. 

Já cá em casa, depois de tomarem banho e vestido os pijamas, a minha menina linda quis ajudar-me a fazer o jantar e depois o bebé também e depois já estavam desertos para jantar e depois de jantarem como os lobos, bebé incluído, já ela queria fazer o trabalho do Clube de Leitura e o bebé brincar com o telefone a fazer de conta que estava a encomendar pizas (duas pijas gandes com xiambe, queijo, jeitonas, dois minutos, vem na mota?) e o rapazinho do meio, que está alto e espigado, quase tão alto como a irmã, a ver futebol. 

E depois quiseram fazer uma vídeo-chamada para os pais e pegaram no meu telemóvel mas não encontravam o WhatsApp e ficaram muito admirados por eu não ter, como se tivessem chegado a uma casa sem electricidade: 'Como? Não estou a perceber... Não tens WhatsApp...? Como é que é possível? Como é que fazes vídeo-chamadas...?'.  Entretanto, a minha filha ia mandando fotografias dos meninos, grandes e lindos, que os primos queriam ver, todos curiosos.

Escuso de dizer que eu estava sem conseguir ir à casa de banho desde que tinha chegado a casa. Não dá para explicar. Mobilizam-me de uma tal forma que nem para ir à casa de banho tenho tempo.

Entretanto lavaram os dentes, foram para a cama e, como sempre, quiseram que eu contasse a história da princesa Margaret. 

Hoje foi sobre a ida da princesa Margaret e dos primos e respectivos pais a ver os golfinhos, visita perturbada pelo cão Kikas que, como sempre, se infiltrou e que, as usual, se tornou o focal point da história. Fiz e fiz render a história a ver se adormeciam, já eu mal conseguia articular palavra tal o sono, mas chegada ao fim e beijinhos, beijinhos, meus amores mais lindos, durmam bem, beijoquinhas, ela quis ir fazer chichi porque se tinha esquecido. Lá foi. A seguir chamou-me ele, o menino do meio, a dizer que achava que não ia dormir bem porque ouvia barulho, já tinha ouvido dois aviões. E o bebé quis ir para a cama da irmã. E depois da cama da irmã, quis já nem sei o quê e depois beber água até que acabei por chamar o meu marido: que fosse para o pé do bebé contar uma daquelas suas histórias que o fazem desatar a dormir. Quando lhe perguntei, no outro dia, como eram as histórias que punham o bebé KO disse que era dizer raças de cão. Fiquei zonza: 'Raças de cão? Mas como? Como é a história?'. E ele, 'Como o quê? Nada a saber. Pastor alemão, labrador, boxer, etc'. Desta vez esteve lá que séculos. Veio azul: 'Ganda baile que o puto me deu. Repetia tudo o que eu dizia como se não acreditasse'. E eu. 'Repetia como?'. 'Então, assim: era uma vez uma cadela preta. E ele: 'Uma cadela preta...?!' e eu 'Sim, uma cadela preta com patinhas brancas. E ele 'Com Patinhas brancas...?' e eu 'Sim, e tinha orelhas castanhas' e ele 'Orelhas castanhas...?!?'. Um baile.'


Agora dormem os três. Ou melhor: os quatro. Ou melhor ainda: os quatro e meia já que eu também já estou mais para lá do que para cá.

Agora mesmo o meu filho enviou uma mensagem a perguntar por eles. Febre ele não teve e tosse, sim, é tipo tosse de cão mas esporádica. Espero que a virose esteja a passar e que não tenha contagiado os irmãos. E espero que a noite corra bem. Amanhã a manhã vai ser cheiinha como um ovo, nem sei ainda como vai dar tempo para tudo. O meu marido perguntou: 'Já pensaste como é que vai ser amanhã?' e eu respondi 'Não faço ideia' e ele respondeu 'Ok, já vi tudo'. E eu devia ter feito como o bebé: 'Já viste tudo..?' mas não tive energia para tanto.

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E face a isto não tenho energia para falar do baile que o Costa deu à Catarina, deixando-a a chuchar no dedo, nem tenho apetência para falar do Nobel da Paz pois não sabia deste senhor da Etiópia nem dos da Literatura de que tenho ideia que nunca li nada ou, se li, não estou a ligar o nome à pessoa.


O que sei é que fui dar um little giro à hora de almoço a ver se ganhava pica para desancar o outro infeliz e, no meio do giro, incluí a Almedina que é lugar da minha simpatia. Estava lá um dos advogados mais mediáticos do país a contar uma história toda cheia de pormenores e ênfases. A livreira ria, estou em crer que, sobretudo, por simpatia, e ele, entusiasmado, caprichava nos pormenores. E eu, que ia só em que paravam as modas, descobri um daqueles livros que me palpita que me vai encher as medidas. Mas quando?

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A pintura é contemporânea e mexicana e a o Lullaby é de Brahms

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E eu desejo-vos um sábado dos bons

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Uma cerimónia de perdas





Tive que ir ao médico por um destes dias. Na sala de espera, de imediato procurei revistas. Infelizmente nada de útil, só revistas médicas e do expresso, ainda por cima antigas. Portanto, ia treslendo e, de soslaio, vendo quem estava, ouvindo conversas.

E uma conversa fez-me especial impressão. Uma senhora talvez com setentas e tais, ar de pessoa com posses, triste e abatida, contava que o marido tinha estado em observação numa clínica privada e que, dada a sua situação, de lá tinham chamado uma ambulância e passado uma guia de marcha para um hospital público. Contava ela, com voz aflita, que o marido estava muito mal. E que, apesar de estar tão mal, tinham-no deixado ficar umas horas na urgência. Com a voz embargada, contava que, ao fim de três horas sem saber o que se passava, conseguiu que a deixassem entrar e que foi dar com ele numa cadeira de rodas, no corredor. Dizia ela: 'Naquele estado e ali assim, sozinho, na cadeira de rodas'. E dizia que, como o hospital estava cheio, o tinham internado num piso intermédio por cima das urgências. E falava em voz baixa, assustada, com medo do que pudesse acontecer ao marido.

Percebo-a muito bem. Percebo a sensação de vulnerabilidade quando uma pessoa está doente, à mercê dos outros.


Felizmente a única vez em que me vi numa situação minimamente parecida foi coisa de nada. Tinha feito artroscopia aos joelhos (um disparate para o qual ainda hoje não encontro grande explicação) e uns dias depois tive o que creio ter sido uma reacção à epidural: uma enxaqueca como nunca antes tinha tido, insuportável. Não podia sequer ver luz. Calhou nesse dia ter consulta no hospital. De tal forma estava que me aconteceu o impensável: vomitei no carro. Não dava para parar e não consegui evitar. Cheguei à recepção do hospital e tive que ir à pressa (eu, que mal conseguia andar) à casa de banho para voltar a vomitar. Quando estava no consultório, mal conseguia falar, estava quase afónica. E, então, comecei a ver tudo branco, a sentir-me esquisita, a sair de mim mesma. Só percebi que o médico saíu apressadamente. Voltou com um copo de água com açúcar que me deu a beber e logo a seguir chegou uma enfermeira com uma cadeira de rodas. Sentaram-me lá e levaram-me a correr para o SO. E eu vi-me, indefesa, sem forças, sem voz, agoniada, cheia de dores de cabeça, a ser levada em cadeira de rodas pelo meio de uma recepção cheia de gente. Eu que sou discreta e que detesto dar nas vistas, vi-me incapaz de sequer opinar, quanto mais ir pelo meu pé para onde quer que fosse.


Mas se comigo foi esta coisa de nada, com o meu pai, infelizmente, já passei pela triste evidência de que, na doença, todos são iguais na vulnerabilidade e que, se calha o hospital estar cheio, todos para ali ficam, expostos, frágeis, indefesos, à mercê de tudo.

Não vale a pena a gente pensar que não é justo ou que poderíamos pagar cuidados diferentes porque, de facto, não vale a pena: quando se está mesmo doente e se é levado para um hospital, nada mais há a fazer senão esperar que alguém acuda, que alguém tenha tempo para se acercar. De cada vez que o meu pai esteve nesta situação, ando por ali, entre gente que tosse e grita e geme e chama, tentando abstrair-me da infelicidade que é estar naquelas desafortunadas circunstâncias. E vou à procura de um enfermeiro que vá aspirar o meu pai ou de um médico que me diga o que se passa e estão todos ocupados e o tempo passa e o meu pai e todos os outros doentes para ali estão, indefesos, certamente muito infelizes, à vista de todos. A vida é sábia: o que vale ao meu pai é que já não vê e já perdeu um pouco a noção exacta do que acontece quando é levado para fora do seu espaço habitual. Porque senão, orgulhoso como sempre foi, haveria de se sentir humilhado por estar estar exposto na sua fragilidade, ali, numa maca, ao pé de outras macas e de outras pessoas que por ali andam.


Claro que era bom que houvesse o dobro dos hospitais, o dobro dos médicos, o dobro dos enfermeiros e dos auxiliares. Mas, se tivéssemos serviços públicos a dobrar, pagaríamos impostos a dobrar e isso também ninguém quer.

A única coisa que desejo é que a vida seja generosa para comigo e para os meus e que situações destas sejam raras, pouco dolorosas -- porque sei que passar por isto é uma pouca sorte.

E se passar por estas situações é triste em qualquer idade, pior é para os mais velhos que, pelas vicissitudes da sua saúde, ou ausência dela, vão assistindo ao seu próprio declínio, impotentes, dependentes, sem nada poderem fazer. Que ao menos haja quem os acompanhe e apoie e, na medida do possível, os faça sentir queridos e protegidos.


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E lembrei-me de escrever isto ao ver o vídeo abaixo que mostra o poeta Donald Hall. O vídeo chama-se Old Age Is a Ceremony of Losses. 

Sei bem que o meu marido vai ficar aborrecido porque não gosta que eu escreva coisas deste género, um bocado a atirar para o pesado. Talvez receie que isso signifique que eu esteja com baixo astral. Mas não estou. Estou normal. Mas do meu estado normal também faz parte ser realista.

Temo, isso sim, que escrever coisas assim possa deixar um bocado em baixo quem me lê e eu isso também não gosto. Não sou de dramatizar. Não vale a pena. A vida é mesmo assim, cheia de coisas -- e nem todas muito boas. Mas, atenção, a vida é boa na mesma. Há que vivê-la o melhor possível (enquanto isso for possível)

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Já agora, se me permitem, um poema de Donald Hall lido por Tom O'Bedlam: Safe Sex


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No post abaixo tenho Marcelo loves Cristina e vale a pena ver os divertidos cartoons

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segunda-feira, julho 09, 2018

Não querer saber de pântanos.
Preferir o mar, as flores, a música, o sol.







Tenho cá para mim que a democracia ideal é a que se vive em paz e liberdade, em que a defesa de ideias diferentes se faz com tranquilidade, sem o estigma de que a procura de consenso é prática malsã, em que se aceita que é preciso saber esperar pelo tempo certo para que as ideias de uns se provem e a dos outros se exponham para que, no tempo certo, quem deve escolher o faça em consciência.

Depois de décadas de falta de liberdade, de atraso e de provincianismo, veio a reviravolta, veio a longa madrugada pela qual todos esperavam. E, a seguir, vieram os excessos, os ajustes de contas, e, aos poucos, o gradual caminho pelos novos caminhos da democracia e da liberdade. Leva tempo essa aprendizagem. A cada tropeço, vêm os receios de ressurgimento de erros passados, vem a tentação de provocar diferentos agudos, a apetência por crises, quase como se quem não quer roturas e dramas fosse inimigo do bem do país.

É um caminho que leva tempo.

Talvez daqui por mais anos saibamos concentrar a nossa energia não na questiúncula fútil, nos falsos problemas, nas invejas e tricas bairristas que apenas nos fazem marcar passo mas no que verdadeiramente interessa. 

Em vez de andarmos sistematicamente a fomentar clivagens, presos a falsas questões que nada acrescentam, empolando problemas e forçando resoluções precipitadas, melhor faríamos se olhássemos para o futuro e para o que de bom temos hoje.

Somos perecíveis mas, no entanto, agimos como se fossemos eternos e como se todos fossemos juízes e polícias, moralistas e evangelistas -- e imperecíveis.  

Se olhássemos para o muito que há para descobrir na ciência, na tecnologia, no conhecimento em geral, se nos deleitássemos com a beleza que nos rodeia, se soubéssemos ter os olhos abertos para a arte, se conseguíssemos ser generosos, tolerantes e curiosos, talvez não andássemos a toda a hora a inventar crises, a ver pântanos onde apenas há acalmia, a imaginar tempestades onde apenas há aragens.

Vociferamos contra tudo e contra nada como se fossemos os melhores de todos e não percebemos que, ao andarmos apenas presos às insignificâncias que nos põem à frente do nariz, andamos, na verdade, cegos. Põem-nos palas ou véus nos olhos - e aceitamos. Não queremos ver o que de bom existe no mundo porque parece que apenas nos comprazemos a olhar as nossas próprias limitações.

Não gosto disso. Não contem comigo para isso.

Podem a melancolia ou a nostalgia serem literariamente mais interessantes ou o criticismo militante e o tom militantemente censório serem mais politicamente apelativos. Estou-me nas tintas. Digo o que penso. Critico quando acho que alguma coisa é digna de registo, passo à frente do que me parece fútil. Também muitas vezes não comento o que é humanamente dramático porque acho que há temas que merecem recato ou grandeza de alma na forma como se expressam e temo não estar á altura.

Mas, de forma geral, prefiro mesmo olhar para o que é bom ou que abre caminho a uma vida melhor.

É que tento sempre lembrar-me de que a vida é breve. E irrepetível.


sábado, outubro 21, 2017

Evocações. Ficções.




Estou de volta a casa. A valise está desfeita, tudo devidamente arrumado. Também isto já está mais do que normalizado e faz-se e desfaz-se num minuto. Melhor: desfaz-se em menos de 1 minuto mas o fazer não é nada 1 minuto, é mais demorado pois várias toilettes são geralmente ensaiadas antes de emaladas. Isto, claro, depois de avaliar o clima nas paragens de destino e de equacionar se deve ir uma segunda alternativa para um just in case. Mas pronto, já fui, já vim, já não restam vestígios da minha ausência e já cá estou, de novo, no meu sofá de estimação. 

Num mail que recebi referia-se o autor à fastididiosa deslocação. Nada. Por vezes, são fastidiosas, mas não esta. Esta foi toda boa. Claro que há algum cansaço porque isto que andar de um lado para o outro não é a mesma coisa que estar de perna estendida. Mas não interessa. Foi bom. E o que me diverti e o que dancei soma ainda mais agrado à andança.

Além do mais, é um sossego estar longe de notícias. Rodeada de gente que se vê apenas quando o rei faz anos, toda a gente numa animação, a noite o que ontem já vos tinha contado, depois uma espertina, a seguir uma jornada e, agora, perdida e sono -- no news, portanto. Li que há dois ministros novos mas, quanto a isso, nada, não é tema. 

Ando com vontade de ir ao cinema mas não há nenhum filme que me pareça suficientemente aliciante. Não sei o que se passa para ser a indigência cinéfila que se vê. Que saudades de grandes filmes baseados em grandes obras, com grandes interpretações, grandes bandas sonoras. Que saudades de estar no escurinho do cinema a ver um grande filme, emocionada, deslumbrada. Que saudades.

Também ando com vontade de ir ver uma grande exposição e é a mesma coisa: nada. Estive a espreitar os sites de alguns museus e nada me atrai.

Por isso, sinto-me como se estivesse nas vésperas de ir fazer alguma coisa que me agrade mas com a frustração de não saber o quê.

Também já pensei: será que há por aí algum little passeio, bom a valer, e que me encha as medidas? Mas nada me ocorre. Ir visitar castelos, palácios, miradouros secretos, subterrâneos iluminados? Mas também nada de estimulante e novo se me chega à ideia. Lembro-me do lançamento do livro da Paula Rego e Antonio Tabucchi no Palácio Fronteira num belo fim de dia, a Paula Rego a olhar para mim muito atenta, a dizer-me uma coisa simpática. Uma coisa assim é que agora me apetecia. Um cocktail agradável, o jardim lindíssimo, lots of beuatiful people mas de tipo intelectual e artístico. Uma coisa deveras civilizada. Também me lembro da inauguração de uma exposição no Palácio Galveias, à noite, pinturas bonitas, as salas bonitas e tudo gente elegante. Uma coisa assim também me ia bem.

Ou aquele jantar gourmet, nova cozinha, ou melhor, cozinha de fusão, num palácio, servido e explicado pelo chef, tudo gente discreta como discretos são os verdadeiros burgueses. Depois a vir à noite, eu sozinha no carro, estradas estreitas entre intenso arvoredo. Podia calhar qualquer coisa assim mas, de preferência, desta vez com companhia.

Mas nada. Parece que me andam a rarear coisas assim.

No outro dia uma leitora escreveu num mail que não sabe se tudo o que escrevo é verdade. Não posso fazer nada quanto a isso. Percebo que surjam dúvidas.

Por exemplo, se eu agora escrever que me dói a cabeça vai soar credível, provavelmente ninguém duvidará -- e, no entanto, é totalmente mentira.

No entanto, este mail -- até aqui -- só tem verdades.

Mas se eu escrever assim: 'Vinha no comboio, a ler, quando adormeci. Ao acordar, tinha à minha frente um jovem que deveria ter pouco mais de metade da minha idade. Para meu espanto, lia o meu livro. Quando lhe pedi que mo devolvesse, insolentemente disse-me: se quer, venha buscá-lo. E quando eu lhe puxei o livro, ele agarrou-o com força e puxou-o na sua direcção, fazendo-me desequilibrar e quase cair para cima dele. Fiquei incomodada e com vontade de o esbofetear. Mas disse-lhe apenas: se não me dá a bem, faço-lhe cócegas até que o deixe cair. E, então, ele disse: se quiser pode fazer. Abri então a garrafinha de água, despejei-a na sua cabeça. Então ele perguntou: se tiver aí um pente, aproveitava para me pentear agora que tenho o cabelo molhado.', claro que é tudo inventado.

E agora que escrevi isto, ficou a apetecer-me ir por aí fora a inventar cenas. Podia inventar que esta sexta-feira almocei numa sala espectacular, um almoço espectacular, numa companhia se se lhe tirar o chapéu. Mas isso já seria verdade. Agora se disser: 'Às tantas o cavalheiro que estava ao meu lado, tirou uma flor do centro de mesa e ofereceu-ma e depois serviu-me um vinho que não era vinho nem licor e riu-se de eu não saber o que era', claro que talvez não seja nem uma coisa nem outra.

Enfim. Se não acontecerem para aí hecatombes ou manifestações de force majeure, talvez me dê para escrever uma coisa em que metade será meia verdade, outra metade será mais ou menos e outra metade toda inventada.
E como, nisto, até ver, metades só pode haver duas, cada um que escolha qual a que tem que ir borda fora.
Pronto. Estou para aqui a divagar em vez de ir dormir. Mas vou fazê-lo já antes que fiquem estupefactos, a olhar para isto tudo e a pensar: 'passou-se'.

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Fotografias de Olga Khokhlova* quitadas por Francesco Vezzoli

O pianista extraordinaire é Benjamin Grosvenor

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Bem, já agora, para que isto hoje tenha um mínimo de substância:

Quem é Olga Khokhlova...?





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Votos de um belo sábado a todos quantos por aqui me acompanham.

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terça-feira, agosto 08, 2017

Em noite de Império dos Sentidos, acabo a dançar no céu


de Ronald Wittek (no The Guardian)
4


Dois leõzinhos fizeram anos. Estão crescidos e felizes. Tão bons os abracinhos e beijinhos, tão bom ver a alegria deles.

E, portanto, mais uma festa de anos. Passa da meia noite e daqui a nada começo o dia com uma reunião e o dia que me espera não vai ser um tranquilo dia de Agosto mas um longo dia de trabalho. Meio mundo de férias e eu, que sinto a impaciência a instalar-se dentro de mim, a ter que andar nisto.

Resumindo: o cansaço que tenho em cima impede-me de me evadir como gostaria. Se estou fisicamente muito cansada também pode acontecer que durma mal. E, acordada, é isto: parece que não encontro espaço para sair de mim e escrever descansadamente.

in heaven

Gostava de falar de pessoas corajosas. Tenho uma grande admiração por pessoas corajosas. Física e pscicologicamente corajosas. Estive hoje com duas pessoas excepcionalmente corajosas. Mas não enfaticamente corajosas, com discursos auto-laudatórios. Não, nada disso, normalmente corajosas, verdadeiramente corajosas. Mas não estou com cabeça para conseguir o grau de abstração que me permitiria abordar o assunto de forma alusiva e, portanto, deixo para outra vez.

Também podia falar de pessoas que têm algum verdadeiro poder e que sabem relativizar isso a ponto de quem, não sabendo, jamais sequer desconfiar. Ou falar de pessoas que fazem a diferença, que fazem verdadeiramente a diferença, dando cartas em domínios onde apenas uma pequena elite pontua e que, por perceberem a precaridade de todas as descobertas, conseguem omitir todos os seus méritos como se pouca relevância tivessem.

in heaven

E, se isto fosse um 'meu querido diário', escreveria os seus nomes, colocaria as fotografias que há pouco lhes tirei, poderia falar abertamente da sua maneira de ser que eu admiro. Mas, como já uma vez aqui me lamentei, sendo isto uma escrita quase em streaming, eu a escrever, vocês aí a lerem, tenho que me conter. A menos que me dedique a sério à reportagem e às crónicas e pergunte directamente a cada um deles se me autoriza que eu fale aqui deles. Mas ia perder a graça. O que é bom é as pessoas serem genuínas, elas mesmas, sem encenação ou rodeios.

in heaven

Portanto, não estando eu em dia de tirar as derivadas às coisas para aqui apenas enunciar as funções resultantes e não as suas observações, passo à frente. A única coisa concreta que posso referir é que a tarte de beterraba e queijo feta estava óptima e tudo o resto também e que, porque a ocasião assim o determinava, rebentei completamente com a dieta.

Portanto, sigo outro rumo: tenho vontade de falar de vidas diferentes mas, dadas as minhas circunstâncias, de forma limitada.

Na RTP 2 o Império dos Sentidos, um filme intemporal, de uma sensualidade e de uma estética que transcendem a normalidade. Vi-o há muitos anos e, na altura. impressionou-me bastante. Acho que não vou suportar voltar a ver a carnificina que se anuncia desde os primeiros excessos. E o mais doloroso é que o filme se baseia numa história verídica. Lembro-me sempre do que um homem de alguma idade disse quando lhe perguntarem como se havia com a sua jovem mulher: bem; o que é bom pouco basta. Não sei se isso é ou não verdade ou se é uma verdade absoluta mas sei que, pelo contrário, as obsessões quando alimentadas tornam-se doentias, por vezes fatais.

Estou a ver o filme mas com a inquietação de quem sabe que não vai acabar bem. Não poderia acabar bem. Mas há uma beleza extrema naquelas imagens, na dolência da música que as acompanha, no vermelho sangue do quimono, dos lábios dela, no sangue que vai aflorando o ambiente, na elegância dos enquadramentos, no estertor que se adivinha subjacente aos grandes planos.

Enfim. Situações.

by Pollock

Sigo, então, até onde posso ir. Mostro-vos os livros que aqui partilham o sofá comigo. A eles deito a mão, por eles deixo os olhos e as mãos seguirem de quando em vez. Tinha pensado escolher uma passagem de cada um mas do d'As oito montanhas ainda não li nada, não poderia escolher. Do Acta Est Fabula também apenas espreitei, gulosa, petiscando aqui e ali, mas também teria dificuldade em escolher um trecho (ou melhor, não teria que é sempre bom de ler). O problema é que estou com preguiça. Talvez um outro dia.

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Sigo, então, para outros comprimetos de onda.

Dançar desafiando a força da gravidade, como se a dançar no céu se estivesse.

Sky Dancing: How One Dance Group Defies Gravity


Bandaloop, os bailarinos que voam



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma terça-feira muito feliz.

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terça-feira, agosto 01, 2017

A amante perfeita




Há mulheres que transportam em si o perfume do pecado. Será a forma como olham, como sorriem, como deslizam, como se negam sem se negarem, como se oferecem sem se oferecerem, será qualquer coisa de indizível mas que olhos atentos facilmente reconhecem.


Algumas acrescentam uma outra camada, mostrando que são detentoras de uma densidade pouco usual. Ao que se vê, acrescentam o que nelas se pressente. E o que se pressente é que há nelas, algures -- e não se sabe se é no coração, se na mente, se em todo o corpo -- a tentação pelo abismo, a capacidade da paixão transcendente, a inocência irresistível, a loucura que enleia, o riso que seduz, a irreprimível liberdade que prende de forma irreversível.

E, outras, raras, somam a isso ainda o dom do uso inteligente da palavra. É sabido que as palavras viciam e que, se nascidas de uma mulher bela e sedutora, podem ser verdadeiramente afrodisíacas.


O que dizem mulheres assim enquanto olham, enquanto o corpo se entrega a quem as olha, torna-as um permanente motivo de fascínio e atracção. Podem os anos passar, pode o corpo envelhecer que, nelas, a graça e o encanto permanecem. Intactos, requintados, cativantes.

Estou a lembrar-me de algumas. Poucas. Muitos quererão tê-la como amante. Apenas alguns terão a sorte de ser escolhidos.

Jeanne Moreau foi seguramente uma destas mulheres.
Disse um dia: "Oui, j’ai vécu comme un garçon”
Mas, mais tarde, viria a arrepender-se de o ter dito daquela forma. Confessou que preferia ter dito : "J’ai vécu comme une femme libre. Mais cela veut dire que j’ai eu des aventures, des amants, que je peux partir quand j’en ai envie..."


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Sobre imagens de Les Amants (1958), realizado por Louis Malle, o sexteto de cordas de Brahms com Pablo Casals e Isaac Stern


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Jeanne Moreau diz "Cet amour" de Jacques Prévert


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E, por favor, tenham em atenção que o post abaixo trata de gente pouco recomendável, embora muito divertida. Perigosamente divertida. Ou talvez, antes, divertidamente perigosos, nem sei.

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domingo, dezembro 11, 2016

Inacabado. (Im)perfeito.





Uma palavra por dizer. Um passo por dar. Um caminho por percorrer. O acaso por desafiar. Uma tarde a escurecer. O dia sem todos os seus momentos. Um hiato. Um buraco no peito. O peso de um silêncio em excesso. Uma distância não querida. Um livro a meio. Um sorriso sem retorno. Um beijo em suspenso. Um voo interrompido. Uma nuvem quebrada. Um rasto que se dissipa em azul. Uma estrela quase esboçada.


O inacabado. A perfeição antes do fim. O ser antes antes de acontecer. A respiração antes do seu alvorecer, a madrugada que se anuncia no calor da noite. Fragmentos. Breves instantes. Afinidades longínquas. Destinos que parecem cruzar-se. Lá longe. Lá longe. Silêncios. O lamento do violoncelo, o murmúrio do piano. Palavras adivinhadas. A infinita incerteza.
Como hoje, em que subitamente, sem desígnio celeste, nem interpretação moral, nos inscrevemos na hospedaria do desencontro, onde nada se acha do que nos sucede, mas só a poeira dos pequenos incidentes humanos que não tiveram história.
A intervenção do súbito no sentido das coisas que nos aplicamos a descobrir é a assinatura indecifrável que só a elas próprias compete. E do romance nada resta, excepto o idioma em que ele é escrito.

(In)significâncias. (Im)perfeições. O (in)finito contido no seio de cada pequeno instante. Cruzamentos.

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Em itálico, palavras de Agustina citadas por Silvina Rodrigues Lopes no prefácio de Elogio do Inacabado.

Fotografias feitas esta manhã.

Numa interpretação de Camille Thomas e Beatrice Berrut, de Brahms, a Sonata op.38 1st mvt 

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domingo, agosto 21, 2016

O elefante e a estaquinha.
- E o que é necessário para uma vida completa?








Uma vez chegou a um circo um novato assistente que ficou admirado ao ver um grande elefante preso somente a uma corda amarrada em uma estaca fincada ao chão. Obviamente o elefante teria força de sobra para se livrar daquilo, se quisesse; assustado, o rapaz perguntou aos mais experientes se eles não tinham medo do animal escapar. Depois de rirem da inocência do rapaz, um experiente domador explicou que isso seria impossível, pois o elefante “aprendeu” que não poderia fugir. Vendo a expressão de dúvida ainda no rosto do jovem, o domador contou que quando o elefante ainda é pequeno, eles o amarram à mesma corda e estaca. O pequeno elefante tenta se soltar com toda sua força, mas não consegue. Depois de grande, o elefante não tenta mais por ter “aprendido” que não consegue, transformando dessa forma, a corda e a estaca em uma prisão perpétua independentemente do seu tamanho.

Esta parábola do elefante é contada para nos falar de força e o quanto desconhecemos nossa capacidade. Porém, se pensarmos por outro ângulo, esta metáfora tem muito a nos ensinar sobre a aprendizagem.

Assim como o elefante da história, muitas vezes aprendemos coisas e não questionamos sobre elas, elas ficam no automático e simplesmente não refletimos sobre aquilo. Em nosso caso, a estaca e corda podem ser elementos mais enraizados e subjetivos, coisas que são ditas desde que somos pequenos e agem como um “adestramento”, decidindo inclusive sobre nossas necessidades e desejos. 


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Mas como saber o que é necessário para uma vida completa? Quais caminhos nos levam a experiências saudáveis e frutíferas? Talvez exista uma resposta. Um estudo chamado de Estudo de Desenvolvimento Humano, de Harvard (provavelmente o maior estudo em duração do mundo), analisou por 75 anos a vida de 724 pessoas para identificar o que faz a vida valer a pena. Ele observou escolhas e aplicou periódicos questionários, incluindo para as pessoas que conviviam com os participantes. Este estudo pioneiro ainda está em curso, conduzido pela quarta geração de pesquisadores e com apenas 60 das pessoas iniciais ainda vivas. Porém, hoje ele abrange também os mais de 2 mil filhos destes candidatos e prossegue gerando uma rica fonte de informação.

Neste estudo, dois grupos foram criados: um formado por pessoas da alta sociedade e outro com pessoas de famílias bastante desfavorecidas. A mensagem central das centenas de páginas que este estudo nos trouxe é somente uma (para ambos os grupos) e bastante simples: “Bons relacionamentos nos mantêm felizes e saudáveis”. Ponto-final. Não é o dinheiro, nem o sucesso na carreira, nem a fama que traz a felicidade, mas sim a valorização das pessoas ao seu redor. O estudo afirma que as conexões sociais são extremamente benéficas à saúde, já a solidão, mata – pessoas solitárias têm qualidade de vida inferior e uma degeneração biológica mais acelerada.

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As fotografias foram feitas este sábado in heaven - as 3 primeiras fora e as 2 últimas dentro de portas (o tempo que passa, a sombra, a luz).

Lá em cima é a Opéra National de Paris com Brahms-Schönberg Quartet numa coreografia de Balanchine e com fatos e decoração concebidos por Karl Lagerfeld.

O texto é um excerto de Aprender a desaprender de Ahas para a Obvious, que se apresenta dizendo que é escritor mas que se prostitui como redator.




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E desçam, por favor, para irem de visita a umas certas sereias que saíram da Odisseia directamente para a Expo. Coisas de Homero que teima em manter-se vivo.


sábado, maio 14, 2016

Bater no fundo




Se eu estivesse a escrever um livro, talvez desenvolvesse o assunto. Falaria sobre o período negro que se seguiu, as desconfianças, as suspeitas que desencadeavam brigas familiares, a vergonha, as tentativas de ocultar do exterior o que se passava, as acusações, a culpa, as aflições, as traições. Mas não estou a escrever um livro. Não.

Por isso, omito aquilo que a família pretende manter escondido, omito as consequências sobre centenas de outras vidas. Vou manter-me focada no Pedro e na Clara, essas duas pessoas que se conheciam dos meios virtuais e a quem as afinidades uniram e que, por circunstâncias acidentais, se aproximaram ainda mais depois do dia desafortunado em que se conheceram no mundo real.

Direi apenas que Pedro tinha razão ao preocupar-se. A sua família foi uma das que muito tocada foi pela crise financeira. Depois, por uma sucessão de gestos precipitados ou impensados, por vinganças absurdas e, finalmente, já com a situação fora de controlo, a família de Pedro perdeu praticamente tudo o que tinha. Nada de mais nem de diferente do que aconteceu a várias famílias que por cá, como em muitos outros países, fruto de uma excessiva alavancagem financeira, acumularam dívidas desalicerçadas que, uma vez em situação de desequilíbrio, deixaram a nu a vulnerabilidade do que se pensava ser uma sólida e eterna riqueza familiar. Umas coisas eram garantias de dívidas para adquirir outras que vinham também a ser garantias para outras dívidas. A queda de uma fez inevitavelmente cair tudo. Gravações, denúncias e rivalidades fizeram o resto. O assunto avançou para os tribunais. Entretanto, três dos membros da família -- e aqui leia-se família alargada pois a família, sendo grande, favorecia a família alargada (primos, tios, cunhados, sobrinhos) -- já puseram termo à vida. A vergonha e a impotência, a incapacidade de enfrentar uma vida para a qual não se tem preparação, tornam-se, por vezes, insuportáveis.

A ter que pagar a advogados, sem trabalho e vivendo agora num modesto apartamento, Pedro é uma sombra do que era há pouco tempo atrás.

Trava várias batalhas: a da recuperação de uma honorabilidade que deixou de lhe ser reconhecida, a da justiça, a da tentativa de não perder o respeito dos filhos que, industriados por uma mãe revoltada, o culpam das desgraças que se abateram sobre a família e, de forma muito emotiva, também a da tentativa de recuperação de parte da bela biblioteca da família.

Do que sobrou, depois das repartições (vividas sob um clima de ameaças e gritarias), Pedro ficou com algumas mercadorias que escaparam aos arrestos, alguns prédios velhos que não estavam hipotecados e que estão arrendados com rendas baixas, uns quantos terrenos de mato que estavam esquecidos. Alguns, poucos, funcionários ocupam-se ainda de vender o que sobrou. Pedro trabalha com eles. É disso que vive. Conseguiu salvar ferramentas da sua oficina de encadernação e também faz trabalhos para alguns antiquários e isso é também uma ajuda.


Clara tem-se mantido a seu lado. Apoia-o de todas as maneiras possíveis. Tenta segurá-lo quando sente que o seu ânimo se está a esboroar. Acompanha-o quando sente que ele precisa de alguma força para travar lutas mais complicadas ou antes de se ir encontrar com os filhos. Incentiva-o a arranjar-se, a fazer a barba, a recuperar a capacidade de sorrir.

Muitas vezes, quando está à espera dele, mal o reconhece: parece um velho abandonado. Clara repreende-o. Dá-lhe o braço, quer que ele perceba que é por bem que se zanga .

Uma vez ofereceu-lhe um blusão. Quando ele viu o que era, virou o rosto. Ela percebeu que ele chorava. Fingiu que não percebia. brincou, disse que era uma consumista, que já não tinha nada que comprar para ela própria, que tinha visto o blusão tão barato que, só mesmo para não o deixar lá ficar, o tinha trazido. Clara não quer que Pedro se sinta humilhado, vencido. Quer que ele recomece. Mas quem perdeu tanto como ele, sente-se amputado e não sabe se será capaz de voltar a andar. Uma vez disse: Mesmo que quisesse, é com esta idade que vou recomeçar? Como vou ter força para enfrentar recusas ou desinteresses? Vou fazer o quê? Pedir? Humilhar-me? A única coisa que sei fazer é gerir empresas. Mas, depois do que aconteceu e com esta idade, quem é que me vai contratar? 

Nessas alturas Clara receia que ele queira desistir de tudo, até de viver.

Para ver se o anima, Clara traz sempre um livro de poemas. Sentam-se num banco de jardim ou numa esplanada e Clara abre o livro e lê poemas. Outras vezes, pede que Pedro os leia. O tempo muda de feição quando estão assim, a ler poesia um para o outro. 

Geralmente, Pedro trata do assunto da recuperação da biblioteca com o advogado da família chinesa que lá vive agora. Mas um dia quis ir lá. Combinou com o advogado, o advogado organizou tudo. Clara acompanhou-o. Ia muito nervoso, pensou voltar para trás. Clara animou-o. Anda há tanto tempo com essa ideia. Não vai descansar enquanto não o fizer. Não adie, vá. Pedro não falava, tanta a ansiedade. Quando chegaram perto da porta, Clara lembrou-se do dia em que o tinha conhecido. Tinha batido à porta sem saber o que ia encontrar. Tanta coisa tinha, entretanto, desmoronado que isso parecia ter acontecido numa outra vida.

Foi ela que, também agora, bateu à porta. Quando a porta se abriu, ele estremeceu. Clara deu-lhe o braço. Sentiu que ele estava a tremer. Encostou-se ao de leve e sentiu tanta, tanta pena, teve tanta vontade de chorar. Pensou: Pobre, pobre Pedro. 

Depois apareceu uma empregada. Abraçou-se a Pedro. Chorava, chorava. Clara percebeu que ela dizia: Meu menino, meu menino... Pedro abraçou-a em silêncio. Clara viu que ele continha as lágrimas. Talvez por isso não disse uma palavra, apenas fez uma trémula festa no cabelo branco de Maria de Lurdes.

Clara sentiu que as lágrimas se soltavam mas secou-as rapidamente e disfarçou. Vamos lá, disse.

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  • Lá em cima, Leonidas Kavakos e Enrico Pace interpretam o Adagio da Sonata Nº 3 para violino de Brahms.
  • Já aqui acima Simon and Garfunkel interpretam Bridge Over Troubled Water
  • A primeira fotografia, feita no domingo passado, mostra o Jardim da Estrela
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Este capítulo vem no seguimento de 'Desabamento' (de onde poderão passar para os capítulos anteriores) e continua em 'A primeira noite de amor'. 

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Já abaixo encontrarão a reportagem de parte da minha sexta-feira, incluindo uma ida até à praia ao anoitecer.

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quarta-feira, janeiro 13, 2016

Viver no Céu -- Espelho meu, espelho meu [Quinto de seis postais ilustrados do Gerês]





Não há palavras que possam descrever a harmonia suave, as cores puras, a perfeição inocente que por aqui se pode contemplar. Quem, como eu, vive entre prédios modernos, edifícios energeticamente eficientes onde as janelas não se podem abrir, perdendo tempo parada no trânsito, junto de pessoas que falam uma linguagem onde não constam palavras como beleza, encantamento, magia, chega a estes lugares e fica em êxtase. Mas não é por acaso que os procuro: procuro-os porque, de vez em quando, o meu corpo e a minha mente têm necessidade de uma pausa, de uma descida à terra verdadeira, de uma subida aos montes onde o oxigénio é absoluto.


Quem sugeriu que para aqui viéssemos foi o meu marido. Eu estava sem saber bem qual o refúgio onde me apetecia abrigar-me. Mas, logo que ele falou, apesar de já cá termos estado outras vezes, de imediato me agradou. Este é um lugar quase mágico. Tinha eu quinze anos quando cá vim pela primeira vez. Cá fui pedida em namoro, pela primeira vez a sério, ele com o braço passado pelos meus ombros, eu com o coração num alvoroço.

Depois disso, vim outras vezes, com os meus filhos, com amigos, só nós. Tal como agora: só nós.


E, como sempre, fotografo, fotografo. Como se quisesse guardar o que a a memória acaba por esbater ou transformar. E agora também para vos mostrar os montes reflectidos nas águas dos rios, as casas, que, ao longe, parecem casinhas pintadas num desenho, reflectidas nas águas, os rios transformados em espelhos onde se debruçam as coisas da terra. 

Espero que consigam sentir, através destas minhas imagens, o que os meus olhos vêem quando, enlevados, contemplam estas paisagens.

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domingo, junho 15, 2014

Noite de S. João antes do tempo e pic-nic numa tarde que mais parecia tempo de férias. Dias felizes.


No post abaixo já vos mostrei um iate muito enigmático que ancorou no Tejo. Talvez as perguntas que aí faço tenham respostas muito simples mas eu, não sei bem porquê, palpita-me que nunca saberei quem é que ali está nem ao que vem (mas que não é qualquer insignificante cidadão, lá isso parece-me óbvio que não). 

Mas adiante que isso é mais abaixo.





Bem. Estou aqui ainda um bocado sem saber como vou orientar esta minha empreitada nocturna. Não faço outra coisa que não bocejar e ainda nem onze da noite são. A noite de sábado para domingo foi a verdadeira noite de S. João. Praticamente não me deixaram pregar olho. Dizia eu que ia ficar a dormir no sofá da sala para um just in case. Está bem, está. Nem dormi, nem consegui aguentar-me deitada no sofá e o just in case durou toda a noite. Uma tossia, coitadinha, toda a santa noite tossiu, outro tinha comichão, coçava-se que fazia impressão, tem manifestações de pele atópica, o calor faz-lhe comichão, remexia-se, coitado, incomodado, atravessavam-se na cama, mudaram de sítio, outro não se calava, às tantas até me dava vontade de rir - 'Tá... acho que isto já está tudo descontrolado, já não é o meu irmão que está ao meu lado...' - e tinham sede, e perguntavam pela mãe, e, sem querer, rebolavam para cima dos outros, acordando-se mutuamente. No meio disto, quem se portou como gente crescida foi o bebé. Dormiu a noite toda apesar de o terem atirado ao chão nem sei quantas vezes, e outras tantas ter ele rebolado para lá. E eu, meio às escuras, tentando resolver o problema de um, depois de outro de outro lado, repescando o bebé, pelo meio tropeçava nos copos de água que tinham ficado à 'cabeceira', o chão cheio de água. Os lençóis todos enrolados. Acabei por me deitar ao lado deles, sempre ficava mais perto do lugar da confusão. 

Depois, ainda mal o sol raiava, já o mais crescido perguntava se não seriam horas de acordar. E eu mandava-o calar e dormir, depois que não conseguia dormir, depois acordou a prima, que acordou a rir, e depois já estava tudo a pé, a caminho da cozinha e eu atrás, sem perceber que energia formidável é a destas crianças. E os quatro à mesa, tudo desalmado de fome e eu a aviar pequenos almoços. Por essa altura o meu marido, apesar de tudo mais fresco que eu já que ouviu à distância aquele reboliço, tinha ido fazer a sua caminhada matinal e os pais das crianças ainda dormiam ou tentavam dormir (a meio da noite fui mesmo entregar o ex-bebé à mãe porque fazia tal barulho que menos probabilidades os outros tinham de ferrar no sono).

Depois dos pequenos almoços e de fazer uma máquina com lençóis e toalhas foi a preparação para o pic-nic e à uma lá fomos, toalhas e cobertas para colocar no relvado, debaixo de uma bela sombra e com uma vista maravilhosa, carregados como sempre, caixas e caixinhas com os comes e os bebes, e mais os termo-acumuladores que pesam toneladas.

E as crianças felizes, a saltarem, a brincarem, frescas como se tivessem tido uma noite descansada.

Nós a querermos que se aguentassem à sombra, o sol abrasador, e eles só de um lado para o outro. Às tantas a minha filha ainda lhes improvisou umas coisas para a cabeça que os cobrisse, porque os chapéus caem ou eles os tiram, é uma coisa..., mas tudo serve é para se divertirem ainda mais.

Não dá para acreditar. Ninguém diria a noite de S. João que tinha sido.

Ficámos lá até ao lanche, após o que recolhemos os restos, dobrámos as toalhas e nos preparámos para o regresso. 

Mais uma máquina de roupa e mais roupa para estender e agora aqui estou, a bocejar, e o meu marido que estava à espera do jogo que começava às onze, já ali a dormir no sofá como se não dormisse há vinte anos.

Mas que importam as canseiras? A gente esquece-se logo disso. O que fica é outra coisa. A alegria das crianças, o estar assim junto da minha prole, ver como se dão tão bem uns com os outros, o ambiente de férias que parece que sempre vivemos quando estamos todos juntos, tudo isso vale por mil estafas. Isso é o que fica.

Entretanto, o meu marido, antes de cair ferrado no sono, já me perguntou se me ia deitar a horas normais para ver se descanso ou se me vou deixar ficar por aqui a a escrever como se não houvesse amanhã. Mas a verdade é que não sei. Ainda não sei sobre o que é que hoje hei-de escrever.

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A música é de Brahms, Lullaby, numa interpretação de Anne-Sophie Mutter.
(Se eu soubesse tocar violino, talvez tocando isto, a noite tivesse corrido melhor).

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Relembro: se alguém souber que iate misterioso, de que não se consegue divisar nem nome nem bandeira, ali no post abaixo que me diga. Não é por nada. Só curiosidade mesmo.