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quarta-feira, junho 17, 2026

Ser-se viúva

 

Toda a vida ouvi a minha avó materna dizer que era viúva. De cada vez que conhecia alguém, dizia que era viúva e há quantos anos o era. Durante muitos anos vestiu-se de preto. Para o meu casamento, quase impus que não se vestisse de preto. Fez-me a vontade. Detestava que ela parecesse achar normal resumir a sua condição à de viúva. Enamorou-se ainda menina, engravidou menina, casou menina. Toda a gente dizia, e ela sempre o afirmou, que tinha uma paixão enorme pelo meu avô. Ela não dizia assim, dizia que sempre tinha gostado muito dele, só dele, de mais ninguém senão dele. Quando ele morreu, num terrível acidente, ela deveria ter quarenta e um ou quarenta e dois anos. Ia morrendo de desgosto. E fez luto a sério, saudade profunda, durante muitos anos. Creio que só quando começaram a nascer-lhe os bisnetos é que recomeçou a viver uma vida normal. Não que tenha sido isso que a fez reacordar, não faço ideia se foi ou não, mas a ideia que tenho é que foi por essa altura.

Lembro-me também de uma amiga que era apaixonadíssima pelo marido. Andavam sempre juntos e não havia conversa em que ela não falasse dele. Não trabalhavam longe um do outro, e todos os dias ele levava-a e apanhava-a no trabalho. Ela não conduzia e, para irem para casa, que não era perto, ou apanhavam vários transportes ou iam de carro. E, portanto, iam de carro. Ele é que geria a casa, os pagamentos, o lado prático das coisas. Tinham uma casa de verão na costa vicentina que tinham reformado e redecorado. Com uma família ligada às artes, tinham obras de arte, artesanato de qualidade. Ele era muito cuidadoso, tratava da manutenção da casa e de todas as coisas. Escrevi que era casa de verão mas, claro, era de verão, de inverno, de fim de semana e de quando para lá fossem. Até que um dia, sem aviso prévio, ele teve um ataque cardíaco fulminante. E não foi só ele que morreu, foi, de facto, parte dela também. Aoa olhos de todos, era visível que era como se ela não tivesse existência própria, sem ele. E não eram só os aspectos práticos (embora tivessem um peso significativo pois, na verdade, de grande parte da vida do dia a dia ela não fizesse nem ideia do que era preciso fazer). E havia também a parte do carro: ela nunca tinha andado de transportes. Tinha carta mas não conduzia. Mas depois havia o ir para a casa da costa vicentina que já não lhe parecia fazer sentido, sozzinha. Ou ir a restaurantes, cinemas, passeios, exposições que antes tanto frequentava. Definhou. Ao fim de pouco tempo deixou de trabalhar, não era capaz de manter sozinha a casa e o trabalho. 

Perder um marido para a morte é pior do que perder para outra mulher.

Aqui onde vivo cruzávamo-nos quase todos os dias com um casal um pouco mais velho que nós. Iam dar um passeio e depois iam para a esplanada, juntar-se a outros casais. E tratavam do jardim. E viamo-los a chegar de carro, vinham das compras. Um casal normalíssimo. Um dia o senhor começou a andar mais lentamente, e passaram a andar de braço dado. Via-se que a senhora, de certa forma, o amparava. Nas últimas vezes, ele já ia mesmo devagar, parecia faltar-lhe algum equilíbrio ou energia. A senhora cumprimentava-nos com a alegria do costume mas ele parecia que já estava um pouco ausente. Ou talvez estivesse apenas concentrado na marcha e não reparasse em nós. O certo é que, desde há algum tempo, nunca mais os vimos. De vez em quando, vemos um homem novo a entrar lá em casa. O meu marido diz que acha que é o filho ou o genro. Não sabemos o que aconteceu, mas a senhora estava bem. Contudo, se calhar não quis ficar a viver sozinha numa casa grande de mais para uma só pessoa. Estou a escrever dela aqui e não sei se, de facto, está viúva. Mas estamos convencidos que, de uma forma ou de outra, o senhor se ausentou. E a senhora, tão alegre e que tratava do jardim e passeava e que se via que gostava a conviver com os amigos na esplanada, também desapareceu.

Siri Ustevedt é uma escritora conhecida, tem uma identidade própria, é uma mulher interessante. Contudo, muitas vezes era vista apenas como a 'mulher de Paul Auster'. No livro, ela conta como se apaixonou por ele e como viveram uma vida de enamoramento por quarenta e três anos. Uma vida inteira. Tiveram uma filha em comum e, ultimamente, um neto. Ele tinha um filho de um casamento anterior, no caso da também escritora Lydia Davis, e esse filho sempre foi problemático. E teve um fim muito trágico, demasiado trágico. Siri e Paul atravessaram esse drama juntos. Ou seja, unidos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Sendo ambos escritores, pisaram muitas vezes os mesmos palcos, as mesmas feiras e festas e palcos de palestras. Reviam os textos um do outro. Completavam-se. Claro que por vezes aconteceu acharem que ela usava ideias dele, quando era ao contrário. Mas reagiam solidariamente e Paul sempre se referiu a a ela como a intelectual da família. Eram felizes, na mesma medida em que os casais felizes são felizes, com altos e baixos, e muita ternura e compreensão. Até que Paul Auster adoeceu. E morreu. E Siri ficou viúva. E é sobre a sua vida em comum e sobre a perda, e sobre como tem sobrevivido a essa perda que Siri fala no livro Fantasmas. Paul Auster dizia que gostava de regressar como fantasma para ver se Siri estava bem. E ela, de vez em quando, sente o cheiro da cigarrilha de Paul. E gosta. Não é um livro melodramático, longe disso. É um livro muito factual, muito sincero, muito íntimo. Paul Auster, diz ela, morreu bem, soube morrer bem, com dignidade, ajudou a família a aceitar a sua morte. 

Depois de um período em que parecia vogar pela casa sem coordenadas, Siri voltou a ter vida própria. Esteve em Portugal agora, por exemplo. O seu livro é, também, um testemunho dos caminhos que uma viúva percorre até voltar a ser uma mulher inteira.

O livro pode parecer um bocado caótico pois a memória vai e vem em fragmentos. Mas isso é o normal. A vida não segue propriamente um guião.

Li-o de seguida, sem outros livros pelo meio, sem andar a arrastá-lo.

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Aqui Siri descreve o que também descreve no livro, uma sensação que lhe aconteceu logo após a morte do marido:

SIRI HUSTVEDT: 'Nunca me quis livrar daquele homem'

Uma conversa bonita e sincera sobre viver e amar a mesma pessoa durante 43 anos e a dor de a perder. (Para além do sexismo, da misoginia, de ter o seu trabalho creditado ao marido, o habitual!)


Desejo-vos um dia feliz

sábado, junho 06, 2026

Colheita Feira do Livro de Lisboa 2026

 

Cá estão eles, conforme ontem tinha dito. 

Mas, antes de transcrever uma página de cada, explico porque os comprei.

  • Comprei o livro da Carla Pais e o do Nuno Duarte pois foram vencedores de prémios Leya e tenho curiosidade em perceber que género de livros estão os jurados a valorizar. Em concursos alguns anteriores, li-os e fiquei intrigada pois não consegui levá-los até ao fim, mal acabava de ler já me tinha esquecido do que tinha lido (e até tenho boa memória), e, enquanto os lia, não via interesse nem na história nem no rasgo literário. Claro que pode ser um problema meu, ou pode acontecer que, nessas vezes, eu estivesse a passar por uma crise aguda de exigência. Por isso, vou fazer nova tentativa com os dois últimos.
  • Comprei o '1984' pois acho que já o li mas, ao vê-lo no stand, ocorreu-me a dúvida se o teria. Como estava a um bom preço, pensei que mais valia trazer não fosse já não o ter cá em casa.
  • Comprei o da Lídia Jorge pois acontece que também tenho alguma dificuldade em manter-me interessada quando tento os seus romances. Como fez um grande discurso o ano passado no 10 de Junho, em Lagos, e está incluído neste livro de crónicas e não a conheço enquanto cronista, resolvi trazer.
  • Comprei o da Siri Hustvedt porque tenho simpatia por ela e porque gosto de ler memórias e tenho curiosidade em acompanhar a sua vida, não apenas enquanto mulher e viúva de Paul Auster, mas também enquanto pessoa autónoma e escritora.
  • Comprei o de Leonardo Sciascia porque o Paulo Portas o recomendou e, até ver, quando seguimos as suas recomendações, não nos temos dado mal.
  • Comprei o de Laura Agustí porque gostei da capa e porque fala de flores.

E agora a transcrição de uma página de cada livro. Fotografei e pedi à IA para passar a imagem a palavras. 

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(...) possibilidades: ou a senhora Roscio e o seu primo tinham sido surpreendidos em flagrante crime de adultério, como se diz nos processos verbais da polícia; ou Roscio não tivera qualquer suspeita, mesmo fundamentada, da sua ligação. No primeiro caso, devia reconhecer-se um comportamento muito estranho: ver, declarar friamente ao amante da sua mulher a intenção de o esmagar ali; depois, organizando a vingança, manter com o homem odiado um relacionamento cordial. No segundo caso, ficava por explicar como Rosello tinha sabido o que Roscio tramava contra ele. Havia, é verdade, uma terceira hipótese: que a senhora Roscio, inocente, tivesse sido seduzida, enganada, pelo primo, perseguida pelas suas assiduidades, e tivesse avisado o marido, ou, ainda, que o marido se tivesse apercebido disso. Mas, nesta última hipótese, assegurado da fidelidade da mulher, Roscio ter-se-ia limitado a modificar ou a romper as suas relações com Rosello. A sua compreensão e a sua tolerância para com as paixões humanas, perante esta ofensa irreparável, mesmo que apenas projectada, não podiam ter evoluído até ao ponto de procurar uma vingança irreparável.

Poder-se-ia, todavia, considerar que ele não tinha ido encontrar-se com o deputado comunista a não ser para verificar se este estava disposto à denúncia; que ele não tinha ainda resolvido exercer a sua vingança, e havia, aliás, claramente declarado ao deputado que devia ainda decidir que lhe diria tudo ou nada, segundo... Segundo o quê? Segundo o quê, sob a ameaça, Rosello mudaria ou não de comportamento?

Por conseguinte, ao ameaçá-lo abertamente, Roscio tinha-lhe posto uma condição? Era necessário, neste caso, voltar à primeira hipótese: a uma maneira mais estranha de se comportar, no estilo floreado continental, ou de cinema, da parte de um marido enganado mas apaixonado pela sua mulher, decidido a conservá-la contra todos e contra tudo. E embora Laurana julgasse severamente toda a maneira de viver governada pelas paixões, particularmente pelas do amor-próprio e da honra, não podia fazer de outro modo que o de sentir, na sua hipótese, uma falta de respeito pela memória de Roscio: era por isso que fazia todos os esforços por a demolir, por a aniquilar. Mas seja qual for a maneira como se encare o assunto, este tinha algo de equívoco, de ambíguo: mesmo que não aparecessem ainda muito claramente as relações de causa e efeito, as relações dos protagonistas entre eles, dos elementos de que dispunha com o mecanismo do crime. E no equívoco, na ambiguidade, Laurana sentia-se moral e sensualmente implicado. (...)

in 'A cada um o seu' de Leonardo Sciascia

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Na primavera, o jardim da minha mãe torna-se um espetáculo de calêndulas e outras flores, que crescem com vigor, e ela envia-me sempre fotografias para que eu veja como evolui cada uma das plantas. O jardim, quadrangular e quase tão amplo quanto a casa, tem uma secção dedicada à horta, onde o Francesco, o seu companheiro, planta curgetes, pimentos, tomates, beringelas, alhos e cebolas. Todos os anos acaba por semear mais do que o necessário, e a colheita é tão generosa que a minha mãe costuma repartir as verduras entre as amigas, para que nada se perca. Apesar das suas tentativas de convencer o Francesco a plantar menos, ele entusiasma-se sempre com a horta, como tantos outros reformados que encontram na jardinagem uma forma de se manter ocupados e produtivos.

Quando construíram a casa, a horta era uma das ideias-chave do Francesco. Instalaram mesmo uma cisterna para recolher a água dos telhados e poder assim regar sem depender da rede pública, um recurso especialmente valioso numa província seca como Teruel. Agora estão a pensar em ampliar a cisterna, devido ao aumento de restrições ao consumo de água.

A calêndula, que cresce com abundância no jardim, é uma planta bastante resistente, que não exige muito da terra e tolera bem tanto as geadas como as secas. Além de ser decorativa, tem aplicações práticas: as pétalas podem substituir o açafrão-das-índias como corante, e as propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes fazem dela uma base ideal para a confeção de cremes caseiros. Todos os anos, a minha mãe aproveita a colheita de calêndulas para fazer o seu próprio creme, e eu guardo os boiões vazios do que gasto durante o ano para que ela possa enchê-los com a sua produção artesanal. (...)

in 'Furor Botânico' de Laura Agustí

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(...) corre que se desunha, rapaz, se queremos que aprendas a ler em condições devemos correr atrás dele, quando não, será tarde demais, dizia-lhe isto porque nunca voltava inteiro das ausências, ficava sempre mais qualquer coisa perdida naquele vácuo para onde desaparecia enquanto o Victor lhe enchia o cachimbo com tabaco e o calcava no fundo, era como uma parede a que iam sendo retirados tijolos, seria chegado o dia em que desabaria, e nesse dia não haveria nada mais a ensinar e nada mais a aprender. Não tem filhos?, perguntou-lhe o Victor, e o Ângelo respondeu, tenho três, mas têm mais o que fazer do que aturar um velho rabugento, moram longe, um está na Alemanha, outro no Canadá, o terceiro é professor universitário em Coimbra, vê lá tu, e o Victor disse, o meu irmão vai para a Universidade, não sei se para Coimbra, e o Ângelo respondeu, pois faz muito bem.

O Vicente deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse, anda lá, vá, disse-lhe aquilo e ele foi como foram todos, mas o que o apoquentava desde esse dia não era ter ido, era ter sido o último a ir como se algo dentro de si dissesse, fica, fica, fica, a coisa má dos Tirapicos, uma espécie de desejo mórbido de ser preso outra vez, uma vontade de se vingar do flato do pai, ter um filho ladrão e também subversivo, talvez até comunista, porque não?, o que não faltava em Alcântara eram reuniões clandestinas do Partido, se quisesse mesmo muito poderia aderir, fazer parte, mas nesse caso seria o comunista mais estúpido de sempre porque estaria a arriscar a prisão e a tortura apenas e só por despeito a um velho agonizante, e não por acreditar naquilo, sabia lá ele em que é que acreditava, tudo o que conseguia distinguir era aquilo em que não acreditava, sempre era melhor do que nada, e não acreditava nos cabrões dos americanos que diziam que a grua tinha sido verificada na semana anterior. Deu outra vez por si de punho (...)

in 'Pés de Barro' de Nuno Duarte

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(...) escala, sem sabermos como sair deste imbróglio. A questão não é de deformação por uma espécie de justiça essencial como a que movia Maria das Dores, ou pelos sentimentos contrários que tenham a ver com poder ou ressentimento. O problema é da ordem do embate entre o antropológico e o tecnológico em cuja encruzilhada nos encontramos perplexos. Li num artigo assinado pelo jornalista José Vegar que «a quantidade de informação transmitida por telecomunicações durante todo o ano de 1986 poderia ser transmitida em apenas dois milésimos de segundos em 1996».

Vinte e oito anos depois, a estrela irradiante que é a pulsão comunicacional como é descrita? Não tem descrição possível. Um mundo inimaginável de imagens, números e sinais crípticos expande-se pelo universo e leva-nos na enxurrada. O que entra nessa cadeia infinita não se retira mais, ainda que se apague. Esta é a eternidade que criámos. A responsabilidade por colocar mensagens que tenham a ver com a verdade nesta cadeia transfiguradora deveria por isso inserir-se na Ética e na Moral. Mas onde bater à porta de semelhante igreja?

5.

O ano de 2024 que agora entra, se acaso a História continua a ter parecenças com a lógica de uma narrativa, depois dos nós que se ataram, sobretudo desde há dois anos, estas guerras devem começar a ter suas peripécias definitivas e seus desenlaces, ao longo dos próximos meses. É possível (...)

in 'O céu cairá sobre nós' de Lídia Jorge

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(...) que a criança se perdesse no seio dos homens de barba feita e pés valentes, fizera-se ali um lugar para ele por ter aquele dom de falar com as pedras e por trazer àquelas almas uma certa curiosidade envolta de misticismo. Era preciso acolher aquele enviado, vigiar todos os sinais que o corpo transmitisse. Cada palavra, dita ou por dizer, podia significar uma profecia de oráculo que decifrasse a vontade de Alá. Davam-lhe livros sagrados a estudar, a decifrar, a ler em voz alta num refúgio da mesquita a que apenas os homens cultos tinham acesso. Uma espécie de quarto recôndito que se fizera para ouvir e refletir sobre as palavras do Profeta e assim preparar o sermão da sexta-feira para os fiéis. Mohamed fizera-se homem dentro daquele lugar. A cumprir o desejo do pai e a cava fé da mãe, orgulhosa que ficava a olhar para ele como um salvador tocado pela divindade e, por isso, aliviada das possíveis agruras que a vida lhe pudesse reservar. Bastava-lhe aquela ideia de que o filho mais novo trazia consigo as vontades cumpridas de um Deus. Trajado a preceito, com brio e esmero, a crescer sob uma bênção maior. Um saber inteiro que a escola não podia dar naqueles tempos de que só os escolhidos de Alá teriam o privilégio de desfrutar. Mohamed era, portanto, a voz materializada da crença e o menino que havia de estudar mais do que os outros. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, toda aquela doutrina lhe veio acentuar o silêncio e a mudez; foi-se calando ao longo dos anos, governando as vozes dentro de si, emudecendo-as com o passar do tempo, ora de mudos não se rege a religião, por isso, certo dia, o imã chamou o pai de Mohamed para lhe dizer que de nada lhe valia ter ali o filho, que ali só havia lugar para gente que adorasse as palavras e se vergasse às preces do Profeta, o que aparentemente não era o caso do miúdo. Isto, claro está, foi um grande desgosto para a mãe, que até ali via em (...)

de Carla Pais em 'A sombra das árvores no inverno'

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(...) que o que tinham antes. Estavam a dançar à porta do Michel. Ele vive pertinho da Bastilha e telefonou-nos por entre a barulheira toda. Acho que vou deixar a política pelo amor, não são coisas completamente separadas uma da outra, como é óbvio. Contei-te os horrores da minha doença para evocar a tua mais profunda e sincera compaixão pela tua pobre querida no Soho, atormentada por duas aflições: o coração e a cabeça. Espero que tenha resultado. Estás pronto para fugir comigo agora? Contento-me com um café. Que tal um café, sem beijos nem abraços. Pode ser um café perfeitamente espiritual para exibir a minha alma em toda a sua radiosa pureza. Se um café for demasiado íntimo, contento-me com fazer amor ao telefone. Como vai a vida? Esta palermice toda é só para te dizer que parece que passou uma eternidade e que tenho mais saudades tuas por não saber se e quando te verei. Acho que és o melhor do mundo e é muito triste perder o melhor.

Com amor,

Siri

Lembro-me da dor de cabeça. Passou depois de uma violenta explosão gastrointestinal na sanita que me deixou trôpega e zonza, mas sem dores. Diarreia-choque como cura milagrosa.

Demerol? Quando andava na faculdade, um médico receitou-me um medicamento para uma enxaqueca obstinada que continha Demerol, um opiáceo, nos ingredientes. Deu-me sete cápsulas roxas e vermelhas. A dor de cabeça durou mais de um ano e, depois, passou. Guardei aqueles comprimidos para tomar caso tivesse uma dor que me parecesse insuportável. Teria sobrado algum? Parece-me pouco provável. Não me lembro de arranjar uma receita para Demerol em Nova Iorque, mas talvez o tenha feito. (...)

De Siri Hustvedt, em 'Fantasmas, um livro de memórias'

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(...) meia-volta. Um rapaz com cabelo louro e cara de parvo chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o, sorridente, a sentar-se num lugar vago à sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, não podia continuar e ir para a mesa duma rapariga sozinha. Daria demasiado nas vistas. Sorrindo amavelmente, Winston sentou-se ao pé dele. O loiro Wilsher arvorava o seu sorriso parvo e radiante. Winston teve uma alucinação e imaginou-se a cravar-lhe uma picareta no meio da cara. Poucos minutos depois, a mesa da rapariga ficou inteiramente ocupada.

Mas ela devia tê-lo visto avançar na sua direcção, e talvez tivesse percebido a dica. No dia seguinte, Winston teve o cuidado de chegar mais cedo. E de facto ali estava ela, sentada mais ou menos no mesmo local e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homenzinho com movimentos rápidos de percevejo e uma cara achatada, com uns olhitos pequenos e desconfiados. Quando se afastou do balcão com o seu tabuleiro, Winston viu que o homenzinho avançava a direito para a mesa da rapariga. As suas esperanças desvaneceram-se de novo. Havia um lugar vago numa mesa mais à frente, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele apreciava suficientemente o conforto para escolher a menos ocupada. Com gelo no coração, Winston seguiu-o. Seria inútil se não conseguisse apanhar a rapariga sozinha. Nesse momento ouviu-se um grande estrondo. O homenzinho estava estatelado no chão, o seu tabuleiro voara pelos ares e havia dois jorros de sopa e café a escorrer à sua frente. Levantou-se e deitou a Winston um olhar feroz, parecendo suspeitar que este lhe passara uma rasteira. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração a ribombar no peito, Winston estava sentado à mesa da rapariga.

Não olhou para ela. Colocou na mesa o conteúdo da bandeja e começou de imediato a comer. Era importantíssimo falar de imediato, antes que chegasse alguém, mas entretanto apossara-se dele um medo terrível. Passara uma semana desde que ela o abordara. A jovem podia ter mudado de ideias, podia ter mudado de ideias! Era impossível que aquela aventura acabasse bem; essas coisas nunca aconteciam na vida real. Winston podia ter recuado completamente na intenção de lhe falar se nesse momento não tivesse avistado Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, a coxear pela sala com um tabuleiro nas mãos, à procura de um lugar

de George Orwell em 1984

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Desejo-vos um belo sábado

quarta-feira, setembro 13, 2017

Regresso ao trabalho.
Pedro, o menino que tinha um único amigo: um monstro.
E Paul Auster sobre Trump


Tenho a dizer que já estou, de novo e em força, na minha vidinha de sempre. Mas, vinda de umas não-férias, ligeiramente com falta de descanso e, sobretudo, estando cada vez mais ciente da perecibilidade de tudo, não estou para meias palavras, mas-mas-mas ou simpatias ingenuínas. Portanto, se sempre fui frontal, sinto que estou cada vez mais a tender para o politicamente muito incorrecto. Olham-me, reconheço, com algum assombro, como se eu estivesse a pôr à vista algumas verdades incómodas e isso fosse assustador porque enquanto não se fala é como se não existisse mas, uma vez as coisas ditas, já não é possível fazer de conta que não existem.

Não sei se, um destes dias, vou voltar a cobrir-me de paciência e fazer de conta que levo a sério o que só pode ser brincadeira. Mas, até lá, é mesmo: 'Só pode ser brincadeira..'. Ou: 'Não vou, não estou para perder tempo com macacadas'. Do outro lado, o olhar espantado. Paciência.

Nunca fiz fretes mas volta e meia fazia de conta que não era nada comigo ou que, coitados, deixá-los pensarem que são importantes. Agora não. 

Mas, regressada à vidinha, voltei também ao trânsito. Não saí muito tarde mas cheguei tarde a casa. Uma maçada, isto. De manhã, ao fim do dia. O tempo que perco nisto, um mar de carros. É certo que deu para os telefonemas, para ouvir música, para olhar a luz que se esvai já tão cedo. Depois, à chegada, ainda deu para uma mini-caminhada mas coisa ligeira. Mas, ainda assim, um desperdício.

Depois, enquanto o meu compagnon de route sofria a ver o volte-face do Sporting, vim aqui ao computador a ver se descobria quem era uma tal Juju que vinha a cantar o Cry me a river. Pelo menos era a legenda que me aparecia no monitor do carro. Pois bem. Não descobri. Uma voz de veludo, um sussurro colado à voz. Mas, pondo Juju, nada do que me aparece tem a ver com a voz que ouvi. Não é a Julie London. Pareceu-me uma voz jovem, acetinada. Em contrapartida, o YouTube dizia que recomendava para mim o vídeo que aqui mostro. Não morro de amores pelo Paul Auster mas tenho que dizer que gosto de ouvir o que ele aqui diz sobre a besta quadrada que os americanos fizeram o disparate de eleger (e não vou entrar na conversa dos milhões de diferença e dos métodos de apuramento, dos votos por estados, ou, sequer, pelas escandalosas tramóias de toda a espécie que Trump ou sua entourage levaram a cabo nas eleições. Votaram, foi eleito, está onde está). 


Mas eu estava numa de ouvir música, uma qualquer nostalgia que me deu. Procurei. Não é fácil procurar quando se quer procurar o que não se conhece. Mas descobri. Uma metáfora. Ninguém sabe. O dragão do Pedro. O menino que tinha como amigo um dragão. Há meninos que gostam de viver com monstros, mesmo que monstros interiores, e que dificilmente conseguem separar-se deles.

Que canção tão bonita. Tenho estado a ouvir e estranhamente a música envolve-me em melancolia. Ou serenidade, nem sei.

Talvez seja porque é interpretada pelos The Lumineers. Gosto deles.

Ou saudades de qualquer coisa. Talvez de estar in heaven, talvez de passear junto ao mar.


I was silent in love

And nobody really knows what i would do for you

Nobody really knows how much I love you

I had a vision of you

That carried me through

Mas vejam se também acham bonito. A internet tem isto de fantástico: dá-nos a conhecer o que de outra forma dificilmente conheceríamos.


Mas, primeiro, if you please, o Paul Auster. Unhappy rest.

Paul Auster is one of the USA’s most important contemporary writers. In this short video, he speaks his mind about the growing right-wing and Donald Trump: “I think he’s the most dangerous being that has ever existed in public office in the United States.” 
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Nobody knows (da banda sonora de Pete's Dragon) - The Lumineers



...

Até já.

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segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Um fim de semana simples, recheado de pequenos prazeres




Dias bons, quase tranquilos. Campo, família, descanso, concerto à noite, passeio, algumas obrigações, alguns tpc a contragosto ainda por fazer e, imagine-se, até o Expresso. Saber que tinha que ir no carro sem livro para ler deu-me vontade de transgredir. Na estação de serviço lá aconteceu. Pequei. 

Foi mais pelo Lobo Antunes. Mas, como seria expectável, nada de novo. Anda há mil anos a dar entrevistas e a dizer a mesma coisa. As vezes que eu já li que um esquizofrénico, lá no hospital, foi ter com ele e lhe disse que o mundo começou a ser feito por trás. E narcisista que só ele. Para além disso, continua numa de ciumeira do Saramago que já não faz qualquer sentido. Engraçado e novidade foi saber que há um outro, tão maluco como ele, um americano, que está a estudá-lo e que, para tal, passa os dias a olhar para ele. Não falam. Depois vão almoçar juntos. E lê as folhinhas maradas que ele escreve. Um filme. Também novidade (pelo menos para mim), mas esta desagradável, ele ter tido mais dois cancros nos pulmões nos últimos três anos. Ainda por cima, continua a fumar.


Depois, o campo. Húmido, quase a sentir-se o vapor a sair da terra. Musgos, folhagens, cogumelos. O alecrim florido, delicado, tão bonito. Algumas árvores a começarem a querer despontar. A natureza, fêmea fértil. Sempre uma pena não poder estar aqui, acolhida, junto às árvores e aos bichos. Estou tão pouco tempo aqui. Tanto tempo perdido no trânsito e noutras coisas em que nem vale a pena falar e tão pouco num lugar onde me sinto sempre tão bem. 

De resto, bom, bom mesmo foi ter estado a ler ao pé do calorzinho bom da salamandra. Tão bom aquele calor tão orgânico, aquela luz quente e perfumada da madeira. Chá quente, lúcia-lima. Podia ter pegado num dos livros de lá mas estava mesmo para ler a revista do Expresso. Estava curiosa de rever a opinião de algumas vacas sagradas. E também a opinião a propósito de uma vaca sagrada. Refiro-me ao Paul Auster. Livro novo, 870 páginas. '4321'.
Por vezes -- já para não dizer muitas vezes -- sinto-me desalinhada dos bem pensantes. Confirmo, nessas alturas que não tenho vocação para intelectual e, nessas alturas, interrogo-me sobre que componente da inteligência me faltará. Inteligência lógica e racional, acho que tenho qb, inteligência emocional, também acredito que chega. Mas falho, certamente, em alguma que é determinante. Reportando-me ao artigo 'Veja aQI se é mesmo inteligente' de Isabel Leiria, e vendo a quantidade de inteligências identificadas, estou capaz de apostar que falho na existencial.

Toda a gente gosta de Paul Auster. De cada vez que sai um livro, é uma festa. A Luciana Leiderfarb diz maravilhas (o link é para uma entrevista, não para a referida recensão). E, no entanto, eu não apenas não vou comprar o livro como não vou sentir falta. E isto de certeza absoluta. Se nunca achei grande graça aos outros e raros foram os que consegui acabar dos mais pequenos, imagine-se se ia massacrar-me com um pesadelo daqueles nas mãos. Acho uma escrita banal, parece que não acrescenta nada, parece que não tem sentido estético na escrita. Não sei. Há ali uma falta de elegância ou falta de originalidade. Não sei dizer, não sou crítica literária. Antes eu ainda me dava para tentar ler os produtos das vacas sagradas. Agora já não. Tudo o que me cheire a seca, fica de lado.


Em contrapartida, uma boa notícia: livro de Raduan Nassar. Não é novo na raiz: é novo cá. Menina a caminho. Gosto da escrita dele. Há ali o prazer das palavras, a inteligência de quem sabe confeccionar uma história com pouco condimento. Gosto.


No jornal principal ainda não peguei, não tive tempo nem curiosidade. No da economia muito menos. A ver se folheio não vá saltar de lá alguma coisa que valha a pena. 

Às vezes penso que se eu fizesse um jornal não era nada disto. nada, nada, nada. Mas se calhar penso assim porque sou de outro tempo e tenho falhas na inteligência. 
Ao almoço, no restaurante, o meu marido viu-me a espreitar o telemóvel. Não me censurou apenas por pudor. Interrogou-me. Expliquei-lhe que a diferença nisto é que eu sou uma millennial e ele um baby boomer. Não tenho culpa mas é o que é. Mas, vá lá, riu-se e acho que, agora que sabe a explicação, vai passar a perceber melhor os meus hábitos. 
Adiante. Também bom, à noite, antes de ir para o concerto, passar pela gelataria na avenida de Roma e comer um belo gelado de chocolate fondant. Que bom estes pequenos prazeres. Um gelado numa noite fria e molhada é do melhor que há.

Depois o concerto da União das Tribos (ver post já abaixo). Uma energia fantástica, uma força contagiante. No fim todos a cantarem de pé, banda e público. Muito bom. Os senadores (Tim, António Manuel Ribeiro, etc) apadrinharam, no palco, esta nova banda que arranca com uma empatia com o público que só pode ser um excelente augúrio.


Este domingo fomos às compras com dois dos meninos. O mais pequenino claro que ficou em casa com os pais, come e dorme e, de vez em quando, olha o que o rodeia com algum espanto. Anda de colo em colo como um bonequinho fofo.

(Sobre esta ida às compras talvez escreva post autónomo. Logo vejo.)

Ainda tenho alguns compromissos e trabalhos para fazer (por exemplo, tenho que, em casa dos meus pais, conferir com a minha mãe as facturas deles no e-factura, e, de volta a casa, tenho que fazer um relatório e ainda uma apresentação) e, ainda, sopa e um estufado, e pôr a roupa a lavar e etc. E está tudo bem e em paz. E, cá para mim, a vida não tem que ter muito mais que isto para uma pessoa se sentir bem. Mas, lá está, capaz de ser aquela tal falta de algumas componentes da inteligência.


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E um filme que me agrada.


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Fotografias feitas in heaven.

A música lá em cima mostra Alisa Weilerstein and Barnatan interpretando Rachmaninov - Sonata for Cello and Piano in G Minor

O vídeo já aqui acima é Temptations de Mohammed Elnabarawy

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sábado, maio 25, 2013

Lydia Davis, Man Booker International Prize 2013: o reconhecimento da diferença, do desconcertante, da não linearidade da escrita



Lydia Davis quando era mais jovem e tinha uns olhos claros muito invasivos


Lydia Davis nasceu nos Estados Unidos em 1947. Está quase a fazer 66 anos e vive em Nova Iorque. É tradutora, ensaista e, sobretudo, novelista. Isto de dizer que é sobretudo novelista deve-se a ter sido por esta sua faceta, pelos seus peculiares pequenos contos, que ganhou o Man Booker International Prize 2013.

Devo dizer que acho o que ela escreve muito desconcertante. Por vezes são pequenas histórias mas, a maioria, são apontamentos, aforismos, ou coisas meio poéticas, ou piadas, ou, simplesmente, doideiras. É a anti-erudita por excelência. Ou melhor, até pode ser que seja erudita mas disfarça muito bem. Não sei definir melhor. Acho que nem faz sentido tentar definir. Só estou aqui a puxar pela cabeça para escrever isto para tentar que, quem nunca tenha lido nada dela, possa ficar com uma ideia.

O livro que tenho aqui comigo e que tem mais de 600 páginas é daqueles livros que abro, leio umas páginas, salteio, aterro onde aterrar, leio um pouco mais. Fecho. Tempo depois repito. Tenho sempre curiosidade em perceber o que vai sair dali. Talvez seja esse o seu maior mérito: a imprevisibilidade. Escuso de dizer que gosto pois a mim atrai-me sempre o que é assim, diferente, inesperado - e bem escrito.

Na juventude, Lydia foi casada durante quatro anos com Paul Auster, de quem tem um filho. Não foi coisa que tivesse corrido bem. Passaram a dar-se melhor depois de terem acabado a relação. Ambos partiram para outra, vieram novos filhos, a vida seguiu e seguiu bem.

Paul Auster fala do conturbado breve período em que foram casados no seu livro de memórias, Diário de Inverno. Transcrevo um pouco. Não se espantem com a forma como Auster se exprime - como o Jorge Jesus ou o Ronaldo também se exprimem (hi.... a heresia que estou a escrever...), quando falando deles próprios, dizem 'tu foste' em vez de dizerem 'eu fui'. Enfim. Conhecessem eles este livro e já poderiam dizer, todos armados em eruditos, que, ao falarem, adoptam 'o estilo Paul Auster' - a ver se mais alguém gozava com eles...:).



Paul Auster quando era mais novo
(e quase gémeo separado à nascença do Cunhal em novo, especialmente nos olhos)


No dia 6 de Outubro de 1974, cerca de dois meses do teu regresso, casaste-te com a tua namorada. Uma pequena cerimónia realizada no teu apartamento, seguida de uma festa oferecida por um amigo que vivia perto de ti, um apartamento muito maior do que o teu. Considerando as frequentes mudanças de opinião que desde o início vos afligiram, as constantes vindas e idas, os casos com outras pessoas, os rompimentos e reatamentos que se sucediam com a regularidade das mudanças de estação, a ideia de que qualquer de vocês tenha admitido casar-se parece-te agora fruto de um capricho delirante. No mínimo estavam a correr um risco enorme, pondo em jogo a vossa amizade e as vossas ambições literárias, para transformar o casamento em algo diferente do que já tinham experimentado juntos, mas perderam a aposta, ambos a perderam porque estavam condenados a perdê-la, e por isso só conseguiram que durasse quatro anos, casando em outubro de 1974 e separando-se em novembro de 1978. Ambos tinham vinte e sete anos quando deram o nó, idade suficiente para saberem o que vos esperava, mas ao mesmo tempo nenhum de vocês era nada que se parecesse com um adulto, no fundo continuavam a ser dois adolescentes, e a verdade nua e crua era que não tinham a mínima hipóteses.



Pintura de Edward Hopper -
que retrata bem o ambiente descrito acima, no texto de Auster, e em alguns  textos de Lydia Davis


A palavra escrita, então, a Lydia Davis:

O Outro

Ela muda qualquer em casa para aborrecer o outro, e o outro aborrece-se e torna a mudá-la, e ela muda outra coisa da casa para aborrecer o outro, e o outro aborrece-se e torna a mudá-la, e então ela conta a outras pessoas o que se passa, e as outras pessoas acham graça, mas o outro também ouve e não acha graça nenhuma, mas nada pode fazer para o mudar.



Mulher olhando a rua pela janela - ainda a pintura de Edward Hopper


Um estranho impulso


Olhei da minha janela lá para baixo, para a rua. O sol brilhava e os lojistas tinham saído para apanhar sol e ficarem a ver as pessoas a passar. Mas porque é que os lojistas tapavam os ouvidos? E porque é que as pessoas lá na rua corriam como se fossem perseguidas por um terrível espectro? Logo tudo voltou ao normal: o incidente não fora mais do que um momento de loucura durante o qual as pessoas não conseguiam suportar a frustração das suas vidas e cederam a um impulso estranho.


E, agora, a palavra dita por Lydia Davis que, para além de escrever, é também professora de escrita criativa (e que é Membro da American Academy of Arts and Sciences e que, para além deste prémio, já recebeu inúmeros outros).




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Ambos os pequenos contos de Lydia Davis acima transcritos fazem parte do livro 'Contos Completos' da Relógio d'Água numa tradução de Miguel Serras Pereira e Manuel Resende.

Abaixo, no post a seguir a este, há um vídeo muito divertido e, não é para assustar, mas deve merecer alguma reflexão por parte de quem se prepara para dar uma facadinha no matrimónio, que o que aconteceu àquele pode acontecer a qualquer um. Imagine que a coisa se passa num 9º andar, por exemplo...


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E, por hoje, nada mais. tenham, meus Caros Leitores, um belo fim de semana!