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sábado, outubro 01, 2022

Olha, afinal se calhar foi da cabeçada...

 

O que está a passar-se com a Rússia ameaça a paz, ameaça os princípios mais básicos da civilização e da humanidade, ameaça o futuro de todos nós. E é tão grave, tão assustador que, para minha defesa, de vez em quando forço-me a desviar o pensamento de tamanha desgraça. Além do mais, não sei porquê, olho para o Putin e vejo uma alma penada, alguém que está de pé como se assim fosse estar para sempre, alguém a quem muitos milhões de pessoas por todo o mundo desejam que passe rapidamente à história, à história de sarjeta, que vá juntar-se à montureira onde se acumula a pior escória que o mundo produz.

Mas, para mim, hoje não é dia de dar palco a dead men walking, a zombies (corados como pêros saloios -- mas zombies), a assassinos bêbados do seu próprio veneno, a bandidos. 

Hoje não consigo, hoje preciso de abrir espaço para me rir.

E um dos que sempre me faz rir, e que gosto de ver com os meus netos, rio que me farto, sempre, é o Mr. Bean. Se calhar é porque, em parte, me revejo um bocado nas atrapalhações dele, nos stresses agudos que ele sente antes dos grandes momentos.

Chegada a casa depois de termos ficado com os meninos enquanto os pais foram a uma cena, fomos dar uma volta nocturna com o dog de guarda que tinha ficado em casa. É bom andar a passear de noite. Zero pessoas na rua, claro. Os cães, em várias moradias, completamente desestabilizados e o nosso, feliz da vida, nem aí, a andar a saltitar e a correr todo contente pelo inesperado passeio com os donos regressados. Como à noite já está mais frio, tinha levado calças e, claro, os meninos andaram encostados ou por cima de mim. E devem ter deixado o seu cheirinho bom pois, uma vez regressada e a passear, a fera cabeluda andou o tempo todo a cheirar-me as pernas e a dar-me beijinhos e a cheirar e a dar saltinhos e todo ele estava radiante com o cheiro que eu trazia nas calças.

Quando, aqui chegada à sala e francamente com algum sono, abri o youtube. Claro, bingo, Putin e a sua última e macabra filha-de-putice. Não dá para acreditar no pesadelo que o mundo está a viver. Parece uma ficção estuporada, daquelas tão parvas e excessivas que chegam a ser cómicas. 

Fechei. 

Pus-me a ver o Pantanal e, quando dei por mim, percebi que tinha estado a dormir. Voltei a abrir a arca dos mil tesouros e escrevi Mr. Bean. O algoritmo percebeu a mensagem: a minha onda hoje não está para bandidagem, está para gente inofensiva cuja única arma é o sentido de humor. 

O primeiro vídeo que me apareceu foi este fantástico que abaixo partilho convosco.

Mr Bean Goes to a Premiere


Um bom sábado
Saúde. Boa disposição. Paz.

domingo, setembro 18, 2022

Este imenso e insólito caleidoscópio*

 


A vida é uma coisa múltipla. Nela misturam-se passado, presente e expectivas para o futuro, misturam-se grandes crises mundiais com ínfimos problemas pessoais, misturam-se questões profissionais com questões pessoais, grandes alegrias e imensas tristezas, interesses e desinteresses, ficção e realidade, o bem e o mal, a aventura e o tédio, a intimidade e a indiferença, a morte e o nascimento, o amor e o ódio. E tudo o mais.

Enquanto Londres transborda com gente vinda de todos os lados para a ilusão de participar na despedida à Rainha e todos os Royals se desdobram numa cuidada e bem encenada coreografia e todas as forças de autoridade se multiplicam na execução de um exigente plano de segurança e enquanto a economia britânica se regozija com o inesperado afluxo de turistas e de consumo, dentro do caixão em torno do qual familiares e multidões circulam em passo lento o corpo de Sua Majestade segue o seu inexorável caminho rumo à inexistência. 

E enquanto uns se prostram em silêncio e outros festejam e outros choram e uns ameaçam e outros acusam e uns matam e outros cuidam de mortos e feridos... as nossas praias enchem-se de gente que aproveita o belo sol de um longo verão e as esplanadas vibram com gente que confraterniza e se diverte ou, simplesmente, desfruta a paz.

É assim mesmo. É normal e bom que assim seja. 

A vida alimenta-se dos impulsos entre polos de sinal contrário e se, por um lado, o The Guardian  mostra transactas fotografias da Rainha com outras celebridades como, por exemplo, Sua Majestade a não conseguir impedir-se de deixar cair o seu curioso olhar sobre os atrevidos seios de Jayne Mansfield, por outro mostra o terror levado a extremos de que a malavita russa é capaz como mais uma grande vala na qual centenas de corpos jazem demonstrando o horror a que foram sujeitos. 


E se a Monarquia é daquelas instituições que nada acrescenta e que pelo menos tem o mérito de ter um lado cinéfilo, ficcional, em que existem sempre imagens reais e afins nas quais há com o que entreter o pagode e estimular o consumo através da imprensa da moda, da decoração, da jardinagem, dos mexericos, dos amores e desamores já o mesmo não se pode dizer de regimes ditatoriais em que se cerceia a liberdade, em que se ignoram os direitos humanos, em que se desprezam todos os valores e princípios essenciais que devem reger o comportamento de sociedades que respeitem as pessoas.


Por isso, se podemos sorrir com alguma bonomia ou, mesmo, simpatia para as gaffes do novo Rei ou para a forma carinhosa como a sua Consorte de longa data o acompanha ou com admiração para os banhos de carinho que as multidões demonstram a tudo o que lhes cheire a realeza... estou em crer que ninguém com um mínimo de bons sentimentos consegue olhar para os corpos que estão a ser desenterrados em Izium sem sentir compaixão para os que sofrem as agressões e revolta contra quem as pratica. Nem se consegue imaginar o que estas pessoas sofreram antes de serem enterradas. Ao contrário daqueles de quem se diz que 'morreram tranquilamente' estes não tiveram certamente essa sorte. A sua vida foi-lhes ceifada prematuramente e, do que tem estado a descobrir-se, depois de terem sido torturados. Quantos não terão sido enterrados depois de humilhados, violentados, ou de assistirem à morte de outros ou, mesmo, enterrados ainda com vida?


E o que eu penso é que, por muito bom que esteja a ser o nosso dia, por muito quentinho ou dourado que esteja o sol, por muita alegria que sintamos com os nossos ou com o que quer que seja, devemos sempre guardar um bocadinho da nossa atenção para o que de mau se passa à nossa volta.

Claro que coisas más acontecem por todo o lado e, La Palice confirmá-lo-ia, não há coisas más que sejam boas. Mas, a par dos desastres naturais resultantes das alterações climáticas, não há na actualidade um drama de maior gravidade do que o a Ucrânia atravessa. A barbaridade do regime de Putin é miserável, inaceitável. Felizmente a contestação interna na Rússia começa a fazer o seu caminho e os seus potenciais aliados, Índia e China, começam a mostrar a Putin o beco sem saída em que se meteu, dizendo-lhe que a guerra tem que acabar.


Espero que o mundo ainda exista quando Putin passar à história como um medíocre agente do KGP que, depois de se alapar no Kremlin e distribuir riqueza pela família e por um punhado de oligarcas, virou um psicopata com aspirações imperialistas, congregando sobre si a repulsa generalizada do mundo civilizado pelos hediondos crimes de guerra que está a levar a cabo (sendo apenas apoiado, ainda que disfarçadamente, pelo PCP e por um punhado de palermas, alguns dos quais com presença na blogosfera portuguesa) e que, com o destamanho da barbárie de que mostrou ser capaz, sujou a Rússia de vergonha. 

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Entretanto:

Ex-CIA director predicts ‘terrible, painful retreat’ for Russia

Retired US Army general and former CIA Director David Petraeus tells CNN’s Jim Sciutto that he thinks Ukraine’s counteroffensive has placed Russia in a “disastrous situation.”

See Russians react to Ukraine's dramatic territory gains

As Kyiv pushes on with its counteroffensive, Russian troops are retreating from the occupied territory in Ukraine in one of the biggest defeats of the invasion. CNN's Matthew Chance reports on how Russians are reacting to the battlefield losses

Officials from 18 Russian districts call for Putin to resign

Deputies from 18 municipal districts in Moscow, St. Petersburg and Kolpino have called for Russian President Vladimir Putin’s resignation, according to a petition with a list of signatures posted on Twitter

Putin makes concession about Ukraine war in meeting with China

President Vladimir Putin addressed China's questions and concerns about the war in Ukraine during a regional summit. This is the first time Putin and Chinese President Xi Jinping have met since Russia's invasion over six months ago.
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* Caleidoscópio como o Arménio Pereira costuma dizer

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Desejo-vos um bom dia 
Saúde. Afecto. Paz (da verdadeira)

sexta-feira, setembro 09, 2022

Isabel gostava de chapéus e de se divertir

 


Não tinha proximidade de qualquer espécie nem tenho conhecimentos para falar. Apenas posso dizer que era uma presença que os meios de comunicação social nos tornavam próxima, uma mulher discreta e simpática que, ao longo de décadas tem ilustrado uma realidade carregada de símbolos, um misto de tradição e sonho, conto de príncipes e princesas, castelos, coroas, joias reais, sorrisos, banquetes, desfiles.

Neste caso com a graça adicional de encabeçar uma família fértil em escândalos, histórias de amores e desamores, traições, adultérios, mortes trágicas, amizades perigosas -- tudo nas capas dos jornais a alimentar a fantasia popular. E ela sempre ali, assistindo a tudo, conseguindo gerir com elegância e silêncios os dramas, as intrigas, as fugas de informação, as revoltas, a contestação.

Sou republicana. Zero de monarquias. Mas reconheço a simpatia tutelar que emanava de Elizabeth II.

E reconheço que achava muita graça às suas coloridas toilettes, aos seus alegres chapéus, à forma como mostrava o seu fino sentido de humor. E comovi-me quando a vi sozinha, na igreja, num luto carregado e triste, quando o marido morreu. Uma idosa que tinha perdido o amor da sua vida.

Escrever qualquer coisa aqui no dia em que morre a Rainha não é fácil. Não falar? Deixar passar o dia? Falar? Falar o quê? 

Prefiro, pois, limitar-me a partilhar imagens que a mostram bem disposta com os seus arrojados chapéus e uns vídeos no qual ela se ri, brinca, dança, mostra o seu sentido de humor. 


Queen Elizabeth II funny moments









E boa sorte a Carlos e a Camila, os senhores que se seguem. Um casal de bacanos.


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Um dia bom
Saúde. Alegria. Paz.

segunda-feira, junho 06, 2022

Cenas de um dia, com uma fera a pingar como um pinto, com os célebres casos notáveis da multiplicação e com uma Rainha como nunca ninguém a viu.

E, a despropósito, uma espécie de spa subterrâneo construído à mão em 100 dias.

 

Anima-me a perspectiva de que esta semana vai ser mais curta. Semanas de quatro dias é que devia ser sempre. Com organização, era na boa.

Anima-me ainda já não estar na escola, sujeita a testes. 

Volta e meia, embora já há algum tempo que não, ainda sonhava que descobria que ia ter teste e não tinha estudado nada, não sabia nada. E ainda me lembro do nervoso miudinho quando os professores distribuíam os 'pontos' ou, nos exames, o formalismo todo do enunciado do exame e das folhas que não me lembro se eram de 25 linhas. Ia sempre um bocado nervosa. Na intimidade do meu pensamento, pedia que me corresse bem. Mesmo que me sentisse conhecedora da matéria, ia nervosa com receio que saísse alguma coisa cujo alcance eu não atingisse ou que eu desconhecesse. Isso ficou um pouco em mim. Ficou também em mim uma outra coisa. Nunca gostei de estudar de mais. Nunca consegui decorar nada pois nunca consegui ter paciência para ficar a perder tempo a decorar. Mesmo em exames finais, não conseguia estudar tanto quanto devia. Ainda agora quando tenho reuniões que são decisivas, não consigo 'ensaiar' na íntegra ou saber a priori tudo o que vou dizer. E isso deixa-me, depois, no momento antes, com algum receio. Vejo colegas que imprimem as apresentações e que, antes de chegar a vez delas, estão a ver e rever cada slide. Nunca fiz isso. Mal vejo os slides, nunca os imprimo e vou para as reuniões a contar na minha capacidade de improviso e com o que me há-de ocorrer. Mas, no momento antes, vendo que toda a gente se preparou, bate o nervoso miudinho. Mas não o evito. Uma espécie de atracção pelo abismo.

A minha fera felpuda também mostrou tê-lo. Estávamos perto de uma piscina. Eu não que eu estava de roda dos casos notáveis relembrando outros tempos. Dois meninos a preparem-se para testes de matemática, um em cada poiso e eu a ajudar um deles. Às tantas um grande chinfrim e o alerta de que o urso cabeludo tinha caído à piscina. A minha filha, vestida, que estava a comer um gelado, atirou-se logo. Um dos meninos não sei se se atirou ou se lá estava. Eu e o meu marido claro que também corremos. Ainda vi o anfíbio peludo a nadar e depois a ser içado. Saiu a escorrer, com metade do volume, a correr, alvoroçado. A minha filha também saiu molhada, com o gelado na boca, também são e salvo.

Mas, dizia eu, que há coisas que me animam. 

E o saber que estou a entrar numa semana curta que antecede uma ainda mais curta anima-me ainda mais. E estamos a entrar no verão e isso também é bom.

E estar em vias de pôr em prática, na empresa, uma little revolution que acho necessária também me anima. Tenho dificuldade em acomodar-me a situações que acho um atraso de vida. Portanto, ou vai ou racha. Uns vão adorar, outros vão odiar. Mas isso não me preocupa. Gosto de cortar a direito.

Bem. Sobre o dia também tenho a dizer que não vi nada do jubileu. Deve ter sido um misto de Santos Populares, Carnaval e Live Aid. Ou seja, uma festa pop, boa para todos. Mas não vi, andei por outras bandas.

Quanto ao resto, segundo vi nos onlines agora à noite: por cá, acho que nada mexe, tudo na maior tranquilidade. No resto do mundo, o bicho ronda. Mas ainda espero um milagre. 

Por milagres. A minha mãe hoje dizia que gostava de ir a Fátima, que há muitos anos que não ia. Que eu me lembre, deve ter ido quando eu teria uns dezasseis anos e fomos conhecer as grutas. Se foi depois, desconheço. Às tantas quer ir fazer pedidos. Ou agradecer. 

O meu pai que sempre conheci agnóstico (isto para não dizer ateu), quando já estava acamado e, volta e meia, um pouco perdido das ideias, quando a minha mãe foi operada a um cancro, mostrava-se inquieto e dizia que rezava a Nossa Senhora de Fátima para ela se pôr boa. Nunca lhe dissemos o que ela tinha, nem pouco mais ou menos. Nem ele percebeu que ela esteve fora tanto tempo. Mas dizia isso. Quando contei à minha mãe, ela ficou admiradíssima: 'Essa é boa... Mas ele nunca acreditou em nada disso....'. Não ia a missas e acho que tinha embirração por padres e afins. Vá lá a gente perceber alguma coisa. Mas se calhar é isso que ela quer ir agradecer, ela ter atendido o pedido do meu pai. Mas não sei, não faço ideia, não me apeteceu perguntar-lhe.

Adiante. À falta de novidades, abri o youtube e vi um vídeo que achei o máximo. Já uma vez tinha visto um assim e depois quis revê-lo e não consegui. Agora, ao ver este foi como se tivesse reencontrado amigo de longa data. Acho o máximo. Acho de uma habilidade incrível, imaginação, força, determinação. Gostava de ser capaz de fazer coisas assim com as minhas próprias mãos. Até me fez lembrar aquela história que ilustra a motivação, aquela do homem que quando lhe perguntaram o que estava a fazer, disse que estava a construir uma catedral quando os outros, que faziam o mesmo, disseram que estavam a partir e a carregar pedra.

 100 Days Building A Modern Underground Hut With A Grass Roof And A Swimming Pool


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Para não se dizer que não ligo patavina ao jubileu resolvi enfeitar o texto com fotografias que mostram a Rainha segundo a lente digital e criativa de Hey Reilly

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria. Paz.

quinta-feira, setembro 05, 2019

E enquanto continua o desastre em vários actos no Parlamento britânico, Sua Majestade passeia em Balmoral e brinca com os turistas.
É a nova versão do Titanic a afundar-se enquanto os passageiros dançavam no convés?


Quando Cameron se meteu nesta linda palhaçada (e, ok Paulo, antes disso, já Blair se tinha portado mal, indispondo os ingleses), quando o comediante Farage alimentou a fogueira contra a Europa, quando Bannon apontou armas à Europa com a Cambridge Analytica a usar os dados pessoais do Facebook dos eleitores britânicos de modo a fazer um marketing personalizado, manipulando-os emocionalmente, e quando, sem saberem o que era o Brexit, a maioria votou favoravelmente à saída do Reino Unido da União Europeia, ninguém imaginaria que mais de 3 anos depois aquelas almas ainda andariam desnorteadas, galinhas sem cabeça, sem saber o que fazer. 

Pelo meio Cameron e Theresa May já saíram de cena, as demissões sucedem-se, as expulsões de gente idónea saem à cena, aparecem gestos perigosos como a suspensão do Parlamento -- e sobraram duas tristes figuras. Uma, Boris Johnson, um arruaceiro, um trauliteiro, um amigo de esbórnia e macacadas, outra, Corbyn, uma fraca figura, um totó que de carisma tem zero, capacidade de virar o jogo ou mostrar liderança igualmente zero, um daqueles espantalhos que tem especial queda para se pôr a jeito e ser alvo de chacota de estafermos como o Boris JohnsonTrump. 

Calculismos e totozices por um lado, populismos e palhaçadas por outro, manipulações all over da opinião pública, ataques à ética e à democracia a serem o novo normal, aristocracias a sobrevoar o mundo real como se não fosse nada com eles, resultam num cocktail perigoso, do qual este lindo espectáculo ainda é o menor dos males.

Dizem-me: a democracia britânica é das mais antigas, é sólida, sabem o que fazem. Concordo que é antiga, acho que até parecia sólida mas discordo de que saibam o que andam a fazer.
Faz-me lembrar aquela gente de famílias aristocratas que acha que é de famílias antigas, sólidas, que olham a plebe com condescendência e superioridade. E depois, quando são chamados à liça, revelam a mais dramática impreparação,  revelam que não sabem cuidar da vida. Frequentemente acabam na miséria, objecto de caridade e de olhares piedosos. 
O que se passa no Reino Unido, de negociação em negociação, a pedir mais prazos, sem se entenderem, a votarem e contra-votarem sem sairem do mesmo sítio, um desnorte como não há memória, é, de facto, uma barracada que envergonha qualquer democracia. Mas mais do que vergonha, o que há nisto tudo é um enorme risco para todos.

E se eu sempre soube que o papel da Rainha era quase figurativo, a verdade é que acreditava que, em situação de crise séria, se chegaria à frente. Nada. Continua na maior como se nada disto tivesse a ver com ela. Uma coisa inquietante.

O que o The Mirror relata pode ter graça para quem gosta de achar graça a gracinhas. Eu acho apenas que, afinal, aquela monarquia britânica é outra palhaçada: Queen's funny quip when hapless tourists failed to recognise her at Balmoral. Estava de lenço na cabeça e vestida discretamente e não com aquelas toilletes coloridas com que costuma aparecer nas cerimónias e os turistas americanos também não costumam ser gente bem informada pelo que não a reconheceram e a Rainha brincou com eles, não se identificando. Mas não ocorrerá à Rainha que até pode acontecer que a Escócia venha a sair do Reino Unido e que ela passe a ser estrangeira em Balmoral? Em vez de fazer de conta que o que se passa no seu Reino não é coisa que lhe assista, não seria melhor que mostrasse que manda alguma coisa e apontasse uma linha de rumo?

Bannon’s Populists, Once a ‘Movement,’ Keep Him at Arm’s Length
Claro que, com tudo isto, o Bannon e seus seguidores esfregam as mãos de contentes. Como não?

Um dos mais relevantes países da UE nesta pretensa debandada trapalhona, ameaçando fazer perigar a estabilidade a todos os níveis na Europa, não é mesmo o que ele anda a tramar? Claro que é. 

E não, meus Caros, read my lips, não é paranóia minha, não é teoria da conspiração, não: é verdade. É a preocupante verdade.


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MPs vote to reject early general election


Boris Johnson has suffered another defeat as the Commons rejected his motion calling for a general election. The PM responded by saying that Jeremy Corbyn has become 'the first leader of the opposition in the democratic history of our country to refuse the invitation to an election'. He added: 'I can only speculate as to the reasons behind his hesitation. The obvious conclusion, I’m afraid, is he does not think he will win.'

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E a ver se, depois disto, consigo retomar o meu espirito estival ou se a minha boa onda saíu comprometida com tudo isto.

Se conseguir recuperar a boa disposição, talvez cá volte com imagens e acontecimentos do dia


terça-feira, junho 18, 2019

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância






Ao longo do dia, andei de umas para outras sem que nada, durante todas aquelas vastas horas, me tivesse agradado especialmente. Muita reunião, muito roadmap, muito business plan e business case, muita mitigação, muita coisa nessa base e sumo que é bom e eu gosto, pouco e, o que há, fraquinho, fraquinho. Pior: no intervalo, nada. Um compacto de cenas desinspiradas.

Vão rareando as pessoas que me fazem rir ou com quem se consiga ter uma conversa variada sobre temas pouco sérios. Quanto mais pessoas conheço mais me convenço que as pessoas muito sisudas e que só sabem falar de trabalho, por muito que aparentem ser eficientes e ultra zelosas, são, na realidade, umas perfeitas nulidades, fazendo muito bem coisas que geralmente não servem para nada. Acresce que são chatas, muito chatas.

Tenho saudades dos longínquos tempos de grande irreverência, de muito mau comportamento. Tenho saudades de quando me diziam que o meu colega e grande amigo tinha saído do gabinete a apertar a portinhola, isto depois da secretária ter de lá saído segundos antes toda afogueada e sorridente. Tenho saudades dos relatos mirabolantes de um colega que contava histórias inverosímeis e que, quando eu o confrontava: 'Não acredito em nada disso, deve ser tudo mentira' me respondia com ar divertido e gaiato: 'Tudo não, que exagero. Tem um fundo de verdade'. Tenho saudades de quando a minha secretária me contava que tinha pressionado outro meu colega e amigo, dizendo-lhe: 'Se está à espera de ser velho para deixar a sua mulher e vir viver comigo, tire daí o sentido, ou é agora, enquanto somos novos, ou esqueça'.  Tenho saudades daqueles dias divertidos em que a arquitecta que ia comigo ver as obras, saia étnica até aos pés, me dizia: 'Viste como os gajos não tiravam os olhos das minhas pernas? É que a saia é transparente e eu ponho-me em contraluz para os gajos ficarem vesgos'. Tenho saudades daquele presidente, amicíssimo, um mestre, que contava que a vizinha da moradia contígua, no Estoril, era italiana, fogosa e andava nua no jardim... e que ele inventava desculpas para não ficar na casa da cidade, onde vivia com uma namorada vinte e cinco anos mais nova, para ir pernoitar ao Estoril e, mal lá chegado, saltar a cerca e pernoitar com a italiana, sexagenária como ele. Tenho saudades daquele outro colega que, quando chegava à ponta do corredor, dava um salto batendo os pés de lado como se a seguir fosse dançar como o Fred Astaire.
Um paradigma do homem sadio, criado para confiar totalmente nos seus próprios impulsos, graças a uma intensa e jubilosa vitalidade imune ao medo, à má consciência, à malícia e aos expedientes e muletas morais da lei e da ordem que os acompanham.
Eram todos assim, eu a única mulher no meio de um bando de doidos. Mas uns doidos inteligentes, competentes, arrojados, irreverentes, bem sucedidos no seu trabalho, na sua vida. Divertíamo-nos à brava. Só um é que se levava a sério e, portanto, ninguém tinha paciência para ele. Uma vez metemo-nos todos numa bravata que, como todas as bravatas, comportava riscos. Esse tal apertadinho teve medo, acobardou-se, saltou fora. Todos os outros mantiveram-se unidos até ao final, apesar das ameaças, apesar de sabermos que haveríamos de pagar pela nossa insolência (e coragem e coerência). E pagámos, de peito feito, alegres da vida.

O ambiente profissional que conheço, aqui e ali, hoje não tem disso. É tudo muito calculado, muito bem comportado,  muito politicamente correcto, ninguém ousa uma piada mais brejeira, ninguém ousa pisar o risco. Hoje ninguém tem tempo para maluqueiras, anda toda a gente muito ocupada a cumprir objectivos, a atingir os kpi's e a mostrar-se muito eficiente junto do chefe.

Até certa altura, não estava ainda tudo automatizado, não havia mails desde que despertamos até que nos deitamos, não havia telemóveis a levarem o trabalho até nós: e, no entanto, não havia qualquer necessidade de trabalhar até às quinhentas, e, durante o dia, nem sei como, havia tempo para falar de livros, para falar de cinema, para anedotas, para fofocas divertidas, para risotas boas.

Quando penso nisto parece ficção. Ou coisa que aconteceu num outro mundo, numa outra época.

E não sei como é que isto se perdeu. 

Aliás, sei. Houve uma época tenebrosa, dos yuppies, gente muito pseudo-eficiente, gente muito ao sabor de modas, gente que não sabia nada de nada a não ser papaguear jargões em consultês, gente que muito menos sabia da vida, e que apareceu a querer normalizar a diversidade.
Lembro-me de um que apareceu nem sei de onde. Tinha trinta e picos e portava-se como se fosse um grande magnata. Fumava charuto e um dos meus amigos, à socapa, gozava com ele, dizia que parecia aquele bebé, o Baby Herman, semblante autoritário, charuto na boca e... de fraldas. Vi-o depois naquilo dos empresários qualquer coisa de Portugal, que iam refundar Portugal, acho que se chamava Compromisso Portugal. O João Miguel Tavares é que, nessa altura, mesmo andando ainda de fraldas, devia ter aproveitado as causas. Aqueles lá tinham causas. Muito parvalhão acreditou nos el dorados que prometiam amanhãs que cantavam, muito parvalhão lhes deu palco, muitas entrevistas. Muito se assistiu à sua pesporrência fútil e bacoca. O Baby Herman por lá andou a fazer não se sabe bem o quê. Certamente alguém o fez Comendador. Deve ter falido a empresa mas isso não interessa, a memória da malta é curta. 

Mas, enfim, é assim. Os tempos mudam e nem sempre mudam para melhor. E somos todos nós, colectivamente, que deixamos que isso aconteça. Vamos deixando, vamos contemporizando. E, quando damos por ela, o mundo mudou, alagado em mediania... e, quando queremos mudar-nos daqui para um lugar melhor, percebemos que perdemos o pé.

Mas, na volta, sempre assim foi desde o princípio dos tempos: toda a gente sempre a achar que tudo isto não passa de um devir a caminho da nulidade.
Nenhum de nós alcançará a terra prometida: morreremos todos no deserto. O intelecto, como alguém já disse, é uma espécie de doença: incurável.

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Pinturas de Kim Heungsou na companhia de Yiruma com Maybe. Em itálico, excertos de O wagneriano perfeito de Bernard Shaw (incluindo o título)

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Já agora, a propósito de Bernard Shaw, o discurso em louvor de Einstein 
-- e que bom quando as pessoas gostam de rir, de se rir


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E, que nem de propósito, abaixo uma evocação de um mundo transacto, um mundo que já nada tem a ver com este nosso mundo -- um mundo de reis, rainhas, príncipes e princesas, duques e duquesas, caleches e penachos a enfeitar as belezas. Bem podem as ruas protestar e os noticiários falar de brexits, de autodeterminações, de crises políticas, ambientais, sociais que, numa outra dimensão, num tempo que parece pretérito, os soldadinhos vestidinhos com os seus fatinhos bonitinhos continuam a bater o pezinho e a subir as escadas quase aos saltinhos e as realezas continuam a desfilar cheias de capas e capelines. Uma real gracinha.


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E, no meio disto, tudo de bom para vocês: peace and love.

quinta-feira, junho 06, 2019

Parem tudo!!!!
Colbert entrevista Trump.
[E três momentos hilários de Trump em Londres]


Depois de três imprescindíveis conselhos extraídos do Manual de Etiqueta do Vilhena -- um sobre vermo-nos livres de gente chata que não pára de moer ao telefone, outro sobre boas maneiras à mesa e um terceiro sobre beijos na intimidade conjugal -- desloco-me agora para a actualidade internacional.

Começo por mostrar alguns momentos da visita de Trump a Londres e informo que há muitos mais:






Captain Colbert hopped aboard the Late Show submarine en route to the UK, 
where Piers Morgan was interviewing President Trump




E agora, muito a sério, um vídeo com uma resenha pro memoria da visita da família Trump a Londres


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E não se esqueçam de descer para ver se aprendem bons modos, ok?

segunda-feira, outubro 15, 2018

O que valeu à Lady Louise é que ia com cuecas da avó.
Imagine-se se aquele golpe de vento revelava um descarado fio dental...



Como não podia deixar de ser, o casamento de Eugenie de York teve alguns momentos fortes. Um casamento das realezas é sempre um acontecimento mediático. Mesmo os republicanos não viram a cara quando uma princesa sobe ao altar. Está certo que todas as noivas, no dia do seu casamento, são umas princesas mas aquelas em cujas veias corre um sanguezinho azul são outra coisa. Não me perguntem porquê porque a minha sabedoria não chega para muito mais nestas matérias.

O pior mesmo foi o vento que ia levando os chapéus, os cabelos, os vestidos e as composturas pelos ares. Os polícias bem tentaram impor algum respeito, ali todos apertadinhos a guardarem o desfile, mas aquela maltinha estava ali mesmo para dar ar à pluma e, com ventinho, a coisa ainda corre mais de feição.


A noiva, que é uma simpatia, ia linda e, para começar, o vestido teve um elemento de surpresa que deixou toda a gente enternecida. Aos doze anos, Eugenie foi operada a um desvio da coluna e o vestido foi desenhado para que a grande cicatriz fosse gloriosamente mostrada. 


Gestos destes fazem mais pela autoestima de quem se envergonha das suas marcas do que mil preleções. É um lugar comum dizer que a beleza de uma pessoa é a que vem de dentro -- e ou se tem ou azarinho, nada a fazer, não há maquilhagem que disfarce a feiura interior -- mas acho que é mesmo verdade. Uma pessoa que se sente bem consigo própria olha em frente, emana uma luz que transporta a beleza. Rugas, cicatrizes, flacidez, peso a mais ou a menos, nada importa quando as pessoas se sentem seguras e disponíveis para ser felizes. Mas, enfim, não são horas para altas filosofias.

Adiante, pois.

Outro momento alto foi a chegada da mãe da noiva que vinha acompanhada pela outra filha. 


Sarah é uma labareda e não me refiro apenas à cor do cabelo. Sarah é excessiva, heterodoxa. Desafiou a disciplina férrea da família, portou-se mal, muito mal, andou às cavalitas de um amante, deixou que ele lhe lambesse os pés. Os tablóides iam dando cabo do coração da sogra com a fogosidade da mulher daquele filho, ele próprio danado para a brincadeira. Mas consta que o ex-marido continua a ser amigo e cúmplice da mãe das suas filhas. Sarah chegou de verde, exuberante, curvilínea, correu a cumprimentar alguém, correu a recuperar o caminho. Apesar de marginalizada pelo inner circle, Sarah mantém-se igual a si própria. Não consegue passar despercebida, nem tenta. E faz ela muito bem.

Claro que o desfile de toilettes e chapéus foi outro acontecimento. Um espanto. Monarquia à mistura com top models e com um toque de Hollywood -- uma inspiração. Ponho-me a ver isto e fico sem vontade de ir comentar a remodelação governamental ou outros funfuns e gaitinhas. Há lá tema mais perfumado do que um royal wedding?
O ministro não sei quê ou a nova ministra que é e não esconde ou a outra que disse o que os outros não disseram ou sei lá que mais... Bahhh. Que discreto charme é que isso tem? Nada. Bola. Usam capelina, elas? Fraque ou casaca, eles? Não...? Então, esqueçam. Não quero saber. O Costa que arrume a casa à vontade que eu não tenho nada a dizer. Acho que faz bem. Também ando numa de remodelações como ontem já disse.

O chapéu de Naomi Campbell era um espectáculo. Aliás todo o outfit era um espectáculo. E ela, linda. Cada vez está mais bonita. Uma verdadeira cougar. Os anos passam por ela com o único propósito de a deixarem melhor. Uma pantera real.

Mas, de tudo, aquilo de que mais gostei foi do chapéu de Poppy Delevingne. Que maravilha. Toda ela estava elegante e divertida. Aquele vestido. Caneco. Lindo. Ousado e lindo. O que eu adoraria poder usar um dia um chapéu assim. Do vestido não digo o mesmo porque teria que ter meia dúzia de quilos a menos e, claro, no mínimo cem anos também a menos. Só tenho pena é de, quando me casei, não haver nada disto. Se fosse hoje, a ver se não ia a bombar numa toilette de deixar todos de olhos em bico.


Por contraste, a mana Cara. Não poderiam ir mais diferentes. A rebelde Cara, que já namorou várias beldades, apareceu com sugestiva toilette masculina e... igualmente divertida.

Mas o momento mesmo inesquecível não foi o da chegada das cunhadas Kate e Meghan e os seus reais e esvoaçantes maridos,




... não foi a graça das crianças que acompanhavam os noivos, príncipezinhos e princezinhas, louros e realmente bonitos (entre os quais, o pequeno George, o possível futuro rei lá do burgo e a mana Charlotte que já revela que herdou o olhar malicioso da sua avó e, tal como ela, também uma real apetência pelo exercício do flirt),


... não foi o da chegada nonagenária Rainha e do seu companheiro de uma vida, ainda ambos bem autónomos, sem bengalas, ainda com energia para aguentar estas cenas que, parecendo que não, cansam, olá se cansam,


... o momento alto foi a subida da escadaria quando Lady Louise Mountbatten-Windsor, que ia a acompanhar as crianças, mostrou mais do que seria suposto. Um desafio. O vento não lhe deu descanso. 


As fotografias e o vídeo (da Madame Figaro) que tenho são mínimos mas talvez dê para ver: umas cuequinhas sem gracinha nenhuma, completamente ao léu. Uma graça de tão desengraçados aqueles culotes. A nobre Lady Louise de cueca à mostra para o mundo inteiro ver. Tanta etiqueta, tanta aula de protocolo, tanta regra, tantas nove horas... e afinal Lady Louise é uma jovem mulher como qualquer outra, usa cuecas e tudo. 

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Bem. E agora que já cumpri com a minha função de serviço público, vou ver as fotografias e os filmes que fiz de manhã e a seguir ao almoço, a ver se se aproveita alguma coisa. Temo que não, estava uma ventania, a voz nem se deve ouvir. E as fotografias não sei. Só se algum flamingo salvar a coisa.

Ou isso ou, se nada prestar, a ver se me ocorre alguma coisa apropriada de que possa falar. E claro que não vou falar das análises do Cagalhoças nem das lições majestáticas do Ex-Vice nem da brutal armadura dos óculos da Judite. Nada disso hoje me assiste. Temos pena.

Só lamento é que não esteja a chover. Nada me inspira mais do que estar aqui e ouvir a chuva a bater na janela. Agora assim. Uma monotonia. Só me apetece mesmo é falar de casamentos reais ou de outras reais pepineiras.

quarta-feira, junho 20, 2018

Nem sei se são eles que são ousados ou se são elas que os usam de forma ousada





Para que saibam. estou a pé desde muito cedo. Noite, noite. Quando estava a sair, estava o sol, provocantemente encarnado, a erguer-se do seu leito de água, deixando no rio um reflexo luxuoso. Se eu fosse outra, levantar-me-ia todos os dias a esta hora para assistir a tão deslumbrante visão. Se não estivesse com os segundos contados, tê-lo-ia fotografado com a minha mini-mini-máquina. Assim, só tenho a minha palavra. 


Depois disso já fui e vim, uns seiscentos quilómetros a correrem sob os meus pés, mais reuniões e calor. E ainda tenho que ir ver um trabalho para uma reunião amanhã, depois de outra reunião que começa ao rebentar do dia. Portanto, o dia começa bem e assim irá até ao fim, tal como todos os abençoados dias desta semana magana.


Portanto, estou assim como talvez consigam imaginar. Sem vontade de ainda ir trabalhar a estas lindas horas, com preguiça e a inventar pretextos para aqui estar. Enquanto isso, estou a ouvir a Norah Jones, que, sinceramente, não suporto grande movimentação -- e, feita cabeça de vento, a deliciar-me com chapéus. Quem por aqui me acompanha sabe que I love, love, love chapéus e só tenho pena de não conseguir ocasiões para poder apresentar-me com altas produções como as que aqui vos mostro








Quando Portugal ainda não tinha sido tocado pela febre das grandes superfícies comerciais, se calhava ir a uma cidade mais 'avançada' (e antes ia com assaz frequência), não resistia a dar uma circulada no Printemps, nos grandes armazéns Lafayette, no Selfridge ou, mesmo, no El Corte Ingles. Queria trazer sempre coisas para os meus filhos e ali encontrava sempre. Tinham roupinhas lindas da Mothercare quando por cá não havia nada que se comparasse. Agora até estou a lembrar-me de uma vez que trouxe coisas fantásticas de Londres para a minha filha. Perdi a cabeça. Pois, conservadora como era e na idade em que as miúdas querem andar iguais umas às outras, para meu super desgosto e absoluta incompreensão, odiou aquilo tudo e acho que nunca vestiu nada. O meu filho não ligava patavina e vestia o que calhava. Mas, para rapaz, as coisas eram sempre mais normais.


Onde eu inevitavelmente encalhava, quando ia a esses grandes arnazéns, era nos chapéus. Caraças, que loucura. Adorava. Se o meu marido estava comigo, ficava desatinado, já queria que eu trouxesse um qualquer e saísse dali para fora. Mas eu não estava ali para comprar mas sim para me ver com eles. Experimentava os mais espampanantes, a grandes capelines, os discretos com púdica rede.

E, quando chega esta altura, não podendo estar em pessoa naquele sagrado lugar onde todas as ousadias são bem aceites, desloco-me até às fotografias dos mais espectaculares chapéus do mundo, os de Ascot.

E este ano, depois de muito escolher, optaria por este aqui abaixo. Mas, lá está, nem sei dizer se seria por achá-lo o mais lindo de todos ou, apenas, por achar que ficaria lindamente com uma expressão desafiadora como a desta lady que tão bem o sabe usar. Até porque, para quem o não saiba, uma expressão humilde atrofia qualquer chapéu.


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E agora vou trabalhar e a ver se ainda cá volto com um tema muito escaldante

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