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sexta-feira, agosto 03, 2018

Bibliotecas onde se sente a pátria portuguesa





Por algum motivo de que agora não me lembro bem -- mas que tenho ideia que tem a ver com a longa noite fascista -- a palavra pátria não tem conotações lá muito boas. Ou, então, isso é fruto da minha imaginação. Pode ser.

Mas eu gosto do conceito pátria. Gosta da minha pátria. Em especial, identifico-me com aquela coisa de a minha pátria ser a língua portuguesa. Essa ideia é daquelas bem paridas: ouvindo isso a gente quase sente vontade de jurar a pés juntos que, pela língua portuguesa, morrerria.

E depois há aqueloutro território: o dos livros. Podia fazer uma casa só com livros: as paredes feitas de livros, uma cama, um banco, uma mesa. Livros. Um caminho feito de livros. Podia viver no meio de livros.

Não sei se uma pessoa se revela através dos livros que possui. Admito que sim.


Já vos contei que, de vez em quando, não tendo especial má impressão de uma pessoa, quase fico a desprezá-la quando me conta, deliciada, a porcaria de livro que anda a ler? A sério. Disfarço, claro. Mas vem uma tal onda de rejeição cá de dentro...

Ou música. Por exemplo, não tinha muito má ideia de uma certa criatura. No outro dia fiz uma viagem com ele. Às tantas, resolve pôr a sua play list. Fogo... Lá uma ou outra que se aproveitava mas, a maioria, uma basbaquice, uma pimbice... E o tipo todo contente. E eu, por dentro, 'és cá um belo basbaque...'

Bem. Falava eu de livros.

A ver se nas férias de verão convenço o meu marido a ir ao Ikea comprar uma estante alta e a levar a estante pequena para o hall dos quartos. Ando nesta luta há séculos... e ele recusa-se. Quer o hall desatranvacado e não quer ir ao Ikea. Mas já não tenho onde pôr os livros. Por exemplo, agora tive cá, até há pouco, três meninos. Os pais foram comprar bicicletas e deixaram-nos cá. As crianças queriam sentar-se no cadeiraozinho pequeno e tiveram que estar a tirar-lhe os livros de cima. Felizmente não quiseram ir para um sofá para onde gostavam de ir e que agora está soterrado por livros. Acho que tantos os livros que nem perceberam que, por debaixo, estava o sofá que era de estimação.


Claro que, se vier a conquistar a estante nova, já sei que vou ter a mesma tentação de sempre: repovoar de novo toda a biblioteca. Enfim, repovoar mais ou menos. Tirar tudo, tudo, para fora e voltar a reordenar, redefinir critérios, arrumar direitinho, à larga, deixar ficar espaço livre para acomodar novos.

Uma coisa que, um dia que tenha tempo para mim, hei-de fazer é andar a conhecer bibliotecas, ver qual a organização, espiar os critérios, deleitar-me com obrasfantásticas, respirar o cheiro bom dos livros.

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Estas três que aqui partilho convosco são três das mais belas bibliotecas do mundo. Conheço as duas situadas em Portugal e confirmo que são especiais, belíssimas. Poderão ver outras em The world's most beautiful libraries – in pictures, artigo do The Guardian -- baseado em In a new Taschen book, the Italian photographer Massimo Listri travels around the world to some of the oldest libraries, revealing a treasure trove of unique and imaginative architecture

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E porque de palavras se fazem os livros e de livros as bibliotecas, aqui vos deixo algumas belas palavras ditas por quem as tão bem sabe dizer e escritas por quem as sabia arrancar da terra e de dentro do corpo


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A 1ª fotografia é da Biblioteca do Covento de Mafra

A 2ª fotografia é o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro

A 3ª é a Biblioteca Joanina de Coimbra

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Desejo-vos um belo dia

terça-feira, novembro 01, 2016

Clara e Isabel


Para quem a conhece de ginjeira, para quem não é dado a passeios ou embirre com temas que não há meio de acabarem, imagino que já não haja grande paciência para continuar a ouvir-me falar de Coimbra.

No entanto, se eu tenho facilidade em conhecer o País quem me garante que todos os meus Leitores o têm também? Quero acreditar que haverá aí desse lado Leitores que gostariam de poder passear e conhecer e, não o podendo, encontram algum prazer nestas minhas pobres reportagens.

Acresce que o meu dia não me deu temas para deles aqui falar: trabalhei de sol a sol, não ouvi notícias e um amigo meu, no final da semana passada, partiu desta vida sem se despedir, sem que nada o fizesse supor e, por motivos que aqui não vêm ao caso, apenas no dia de todos os santos será enterrado; e eu ainda não consigo assimilar o que aconteceu. Pode uma pessoa achar que está bem de saúde, feliz da vida, e, nuns estuporados minutos, deixar de ser uma pessoa e passar a ser um mero corpo

Isto entristeceu-me muito e trouxe-me inquietação. Mas não gosto muito de falar de coisas assim.

Por isso, vão desculpar-me mas continuo, antes, a mostrar alguns dos lugares que visitei no domingo.

Subindo da margem do rio, passando à porta do Portugal dos Marques Mendes e quejanditos, parando no Convento de S. Francisco e continuando até ao Mosteiro de Santa Clara (a nova) -- e fotografando. Aqui vou eu.

Em primeiro plano, construção do Portugal dos Pequenitos;
atrás o Convento de S. Francisco e, em fundo, o Convento de Sta Clara

Coimbra vista do despojado e elegante terraço do Convento de S. Francisco


Depois, já no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, ao percorrermos os Claustros, belíssimos, tranquilíssimos, uma música vinda dos céus.

Uma paz. Uma paz.

 


Claustros do Mosteiro de Sta Clara-a-Nova ou Convento da Rainha Sta Isabel

A Rainha Sta Isabel nos claustros

A estátua da Rainha Santa Isabel (na entrada do Mosteiro), 1950, da autoria de Álvaro de Brée

Quando entrei na Igreja não ia preparada para o que iria ver. Há quem prepare as visitas de modo a saber tudo antes de lá chegar. Eu sou o oposto. Quero ir em branco para ser surpreendida.

E se o fui...

O meu marido não costuma entrar nas igrejas, fica cá fora à minha espera. Desta vez convenci-o, que não era só a igreja, que havia também os claustros. Lá entrou. Entrou atrás de mim (claro). Quando transpus a pesda porta e vi aquela riqueza exuberante, soltou-se-me baixinho 'com um cacete...!'. Pois bem. Ele, que nunca põe os pés em qualquer igreja e que usa o vernáculo como se tivesse sido a sua língua mãe, como se eu tivesse dito grosso palavrão, admoestou-me 'então...!? schiiiu...! isso é coisa que se diga aqui?'. Vejam bem.

A  sumptuosa igreja do Mosteiro, uma riqueza dourada quase esmagadora

Há coisas que só vistas.
Uma pessoa nem sabe como fotografar pois faça o que fizer vai desvalorizar a grandiosidade do que se vê

E cá em baixo, junto a Santa Clara-a-Velha,  uma serralharia onde também se fazem milagres, a Serralharia do Convento.

E porque não?


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E como, sempre que posso, gosto de trazer uma lembrancinha, mostro-vos o que trouxe.

Imagens da Rainha Santa Isabel, uma em madeira, outra em azulejo.
Têm ímans por trás e são pequeninas.
Coloquei-as numa das paredes laterais do frigorífico, ao pé de dois Stos Antónios, uma Pietá,  uma pedrinha com reprodução de uma gravura de Foz Côa e mais não sei o quê.
A Rainha Santa Isabel ao vivo e a cores.
Trouxe uma igual para a minha mãe
(em termos de devoção não conseguirá destronar o Sto Padre Cruz que tanto a tem protegido mas sei que gosta de receber estas imagens - e esta é tão bonita, com as rosinhas)
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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segunda-feira, outubro 31, 2016

O que é que o Mondego tem?


Bem, talvez eu devesse ter restringido a pergunta: o que é que, em Coimbra, o Mondego tem? 

Ao contrário dos rios da minha vida -- o Sado em Setúbal e o Tejo em Lisboa, rios que ali são quase mar, todos eles pressa de se misturarem com o oceano -- o Mondego em Coimbra é um rio que gosta de ser rio, que se entrega à cidade.

Banhado pela luz protegida que já lhe chega coada pelo casario da cidade e pela ondulação dos montes, neste domingo quente de um outono veranil, o Mondego mostrava ser um rio suavíssimo.

Pelas suas margens andei porque, por voltas que dê, é sempre para junto das águas que o meu coração me leva.

As cores das árvores das margens tombam, pesadas de tanto ouro, os caminhos estão atapetados, e, no rio, as pessoas caminham sobre as águas ou deslizam em barquinhos que, vistos de mais longe, parecem de brincar. E os patos convivem com quem passa e um azul sereníssimo banha a paisagem.

Passei o rio pela ponte Pedro e Inês, uma ponte elegante, também tranquila.



Um apontamento. Estava eu na ponte, deliciada, a olhar em todos os sentidos, a fotografar os barquinhos através do colorido dos painéis, a espreitar as casas, as pessoas, o repuxo a meio do rio -- quando vejo, mais à frente, uma cena fantástica. Uma louríssima avultada -- para aí de meia idade e não muito alta, com uma cabeleira que mais parecia uma generosa cachoeira tombando pelas costas e descendo-lhe até à cintura, montada numa bicicleta mas com os pés no chão, calção noir de lycra, blusa talqualmente de lycra mas em pink-choque, encostada aos painéis da ponte, sorrindo -- fazia-se à fotografia. E, pasmada, vi que quem a fotografava era, nem mais nem menos que, imagine-se... o meu marido. Nem queria acreditar no que via. E o que ele demorou... e a loura a sorrir, em pose... Com o espanto nem me ocorreu logo captar o momento mas, ainda assim, ainda fui a tempo de tirar duas fotografias que comprovam o fenómeno.
Quando cheguei perto, estava ele a devolver-lhe o telemóvel. Perguntei-lhe se, quando estava a disparar, lhe tinha dito para ela dizer 'ba-ta-ta' ou 'cheeeeese' para ficar com um sorriso de boca aberta. Respondeu 'não sejas parva'. Perguntei-lhe se tinha sido ele a oferecer os seus serviços, tipo 'está tão gira, não quer que eu lhe tire uma fotografia?', e ele voltou a dizer para eu não ser parva, que tinha sido a loura platinadésima a pedir-lhe. Perguntei-lhe a que propósito é que, com tanta gente a passar na ponte, ela lhe tinha pedido justamente a ele, 'Sei lá. E o que é que querias que eu lhe dissesse?' e eu respondi que ele devia ter dito 'não posso, a minha mulher está ali'.
E isto, descrito desta maneira, até pode parecer uma crise de ciúmes. Mas é porque não esclareci que só vendo a cena... Só não ponho aqui uma das fotografias para não os identificar porque, juro, só vendo. De facto, eu ria à gargalhada e ele, que não é de gargalhar, também sorria. Contou que, de cada vez que queria disparar, aquilo lhe saía do sítio. Com um telemóvel desconhecido e a ver mal ao pé... Por isso, tinha demorado. Estou agora a ver as fotografias. Hilariante. Tudo aquilo é o oposto do 'género' dele, desde o estilo da ciclista até à situação em si.
Seja como for, sugeri que, quando ali voltasse, usasse um cartaz no peito e outro nas costas a dizer 'tiro selfies com gajas boas'. Não sei porquê mas acho que havia muita ciclista (e não só) que não se faria rogada.
Mas pronto, calo-me já e deixo-vos com as imagens da beleza do Mondego em Coimbra.






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E já cá volto para mostrar por onde andei depois. Mas, para já, digo que almoçámos no Alfredo, do lado de lá do rio. Mandámos vir uma feijoada e cabrido no forno que partilhámos. Excelentes. Um exagero de comida face ao que comemos habitualmente. Contudo, com o que andámos a seguir, acho que talvez as calorias tenham ido à vida.

Doce de tipo conventual delicioso.
Não me lembro se se chama Rosinhas de Rainha Sta Isabel.
(Ovo, amêndoa, laranja)
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Tenho que me levantar cedo e não quero maçar-vos para além da conta. 

Gostava  ainda de vos mostrar o Convento de Sta Clara e outras belezuras sacras e também a Quinta das Lágrimas, uma grávida com um barrigão estendida na relva e outras suaves calmarias mas nem sei se o faça ou me deixe disso e vá mas é pregar para outra freguesia. Já vejo.

Portanto, até já ou até amanhã.

E, entretanto, é ir passeando pelo blogue abaixo, como se fossem turistas acidentais à descoberta de Coimbra.

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O colorido de Coimbra by night


Gosto do entardecer e de andar na rua quando o entardecer se torna anoitecer. As luzes acendem-se, as cores vivas começam a diluir-se na escuridão, os rumores do dia dão lugar ao mistério dos vultos, o dia é devorado pela noite.

No sábado andámos pelas belas ruas de Coimbra até ser noite escura. Fui fotografando até não ser mais possível. As fotografias que aqui mostro acompanham o desaparecimento da luz enquanto íamos caminhando, as casas elegantes, as árvores, as pessoas que recebem a noite numa mesa ao ar livre. 

Depois cruzámo-nos com um grupo de estudantes com as suas guitarras, alguns ainda cantando. Outro com os estandartes. Mais atrás, sozinho, um último. Ia tocando, entoando baixinho. A noite ficou ainda mais romântica. Já não o consegui fotografar, a noite desfocou a imagem.











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E já cá volto com a reportagem deste domingo.

E a quem aqui chegou agora sem saber que há muito mais imagens de Coimbra por aí abaixo, aqui fica o convite: das ruelas à universidade, do rio até aos diplomas ao quilo para quem quer ser doutor sem queimar a pestana, há de tudo. É só irem deslizando.

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domingo, outubro 30, 2016

Onde Isabel ainda traz o regaço cheio de rosas
- e consegue a proeza de eu me mostrar aqui, numa selfie involuntária


Deixo para trás a minha oferta comercial destinada aos putativos senhores duplamente doutores formados em social-galdeirice e jota-trampolinice e, continuando o passeio por entre paredes faladeiras e as pessoas levitadeiras, vou revelar-vos o belo lugar por onde ando.

Isabel, a Rainha Santa, ainda por aqui anda e eu, ao mostrar-vos as rosas que traz no regaço, descobri-me por detrás dela. Pensei: não mostro esta fotografia. Mas depois, tomada por um súbito misticismo, achei que milagre que é milagre não dispensa uma selfie para o testemunhar.


Bem. Isabel está um pouco por todo o lado. Por vezes mais formosa, por vezes mais feiosa. Umas vezes com cinturinha de vespa, outras mais encorpada. Mas a coroa, as rosas e o ar generoso acompanham-na pela cidade.


Pelas ruas reina a animação. As cidades arranjaram-se, souberam descobrir os seus ex libris, e os habitantes e o turismo retribuiram o cuidado.


Património Mundial, a universidade e a cidade são preciosidades a céu aberto. O rio suavíssimo, romântico com a sua paisagem circundante, o casario, os fantásticos edifícios, as igrejas, os salões para os doutores de verdade formalizarem os seus rituais, a biblioteca. Tudo é encantador.

E, falando em biblioteca, a Biblioteca Joanina! 

Não se pode fotografar. Que desgosto não poder fotografar para vos mostrar. Linda, linda de morrer, linda. Aliás, linda não. Magnífica. E o cheiro! Tão bom. Andar por ali. O cheiro das madeiras, dos livros. As cores coadas por uma luz muito ténue. Devia poder lá ir à noite, apenas eu e os morcegos. Seria extraordinário. Não devia haver um único português que não conhecesse esta biblioteca. 


Natural, pois, que pelas ruas, para além da estudantina que enche o ar de música ou de jovial alegria, se ouçam brasileiros, espanhóis, franceses, muitos. Repito-me: entre paredes velhas, monumentos imponentes, torres históricas, uma animação. Não uma enchente como se vê em Lisboa mas muita gente, vozes alegres, línguas diferentes. Dá gosto.


Não vou pôr-me a falar de cada maravilha que porque são muitas, porque sei que, se me pusesse aqui a descrever cada sala, cada escadaria, a beleza da paisagem, a revitalização de espaços, a esplanada do museu pairando sobre a cidade, me tornaria ainda maçadora do que é costume.


O que vos digo é que, se ainda não conhecem, deverão tentar vir conhecer. É mesmo muito bonito.


No post abaixo já vos contei: fiz duzentas e tal fotografias. Agora nem sei o que escolher para tentar transmitir a ideia do que é a cidade ou para despertar em vós a vontade de aqui vir. Monumentos, estátuas. paisagens, ruas da cidade? 


Ou o rio? As pontes? A Sé? As omnipresentes escadas? As Faculdades?
Um aparte: admirada com o conhecimento de atalhos e de percursos que o meu marido demonstrava, já estava a ficar desconfiada. É certo que, durante um período, vinha frequentemente cá, a trabalho. Mas presume-se que uma pessoa que vem em visitas profissionais não sabe como chegar melhor ao largo das escolas ou de onde se tem uma grande vista. Perguntou-me, então, se eu já me tinha esquecido que ele tinha feito lá um semestre. É verdade, já nem me lembrava de tal coisa. Sem que consiga explicar bem qual o racional da coisa, veio fazer o 1º semestre do curso aqui. Ele e outro. Presumo que foi a ideia de virem para a borga. No entanto, nado e criado em Lisboa, acabou por achar que a terra era provinciana demais para os seus hábitos, que não era bem aquilo que procurava. Hoje seria certamente diferente mas lembremo-nos que isto de que falo foi na pré-história.
Foi num dessas alturas em que, estando ainda aqui a estudar aqui mas já a ver como se transferir, o vi um dia a entrar num pavilhão cheio de gente, olhando em volta e detendo um prolongado olhar em mim. Foi nesse momento que a coisa se deu. Nesse momento de puro acaso. 
Se não se tivesse desgostado desta cidade e ido em busca do regresso à capital, se não tivesse entrado ali naquele dia ou se o nosso olhar não se tivesse cruzado, a nossa vida teria sido outra. Ele diz, malícia na voz: 'já viste? podias ter ficado com os calmeirões angolanos que andavam atrás de ti e ser muito mais feliz...'. Típico. Tinha que sair parvoíce. Na altura, eu namorava outro mas ele faz de conta que já se esqueceu do facto e tenta ser jocoso. De facto, havia uns angolanos esculturais, negros, negros, que me achavam graça e a quem eu também achava graça. Mas, enfim, a graça que eu lhes achava talvez não fosse a mesma que eles achavam em mim. Mas não sei, nem isso interessa. Seja como for, rio-me (e, por prudência, não lhe dou troco).
Adiante.


A ver se num outro post, vos mostro algumas das casas da cidade, as ruas à noite, algumas montras. Mas, para já, deixo-vos com esta fotografia que me vi aflita para fazer pois orientasse eu a câmara como orientasse, alguma coisa ficava torta. A inclinação do piso e das ruas não facilitam uma perspectiva neutra. Mas acho esta parte da cidade tão fantástica que vos mostro mesmo assim com alguns prédios a parecerem que estão quase a cair -- mas não estão.


Subi por aquela rua estreita à direita e durante não sei quanto tempo mais continuei a subir.

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E claro que já toda a gente sabe a que cidade em que estou mas, para o confirmar, aqui fica a prova dos nove.




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Coimbra. Belíssima Coimbra.


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E queiram, Caros Leitores, continuar a descer porque a descer todos os santos ajudam. 

E, caso estejam a precisar de ser doutores, não deixem de ir bater à porta da UJM (Universidade Janadona e Marada) onde se servem canudos a pedido. 

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Paredes faladeiras


Ora, então, muito bem. Agora que já tive o meu momento publicitário, comerciando canudos à dúzia (títalos a preço de chuchu e garantindo uma escalada rápida e bem remunerada a putativos doutores, bacharéis ou eternos badamecos), volto ao turismo.

Caminho por ruas, vielas, escadas e escadinhas, espreito as casas, leio as paredes. E fotografo.

Bombardear pela Paz é como foder pela Virgindade


A obrigação de produzir
aliena a paixão de criar

De vez em quando passo por estas bandas, mas, sendo em trabalho, não me sobra tempo para curtições. Ou é coisa de ir e vir no mesmo dia e passeio a pé ou de carro a ver as vistas viste-lo (passe a redunância) ou, se mete pernoita, é chegar à cidade para entrar directinha no hotel, check in, ida ao quarto, telefonemas a correr, encontrar cá em baixo para ir jantar, voltar tarde, ir para o quarto, depois levantar cedo para nova implacável jornada, check out, carro, reuniões e ala para casa que se faz tarde.
E que não se pense que é porque gosto. Não, nada disso. Ia lá eu gostar de um tal regime? É apenas porque sou uma maria vai com os outros. Num grupo predominante ou exclusivamente masculino e achando os cavalheiros que é este regime que faz crescer a economia, não consigo ter voz activa para lhes mudar os hábitos. Claro que lhes digo que estão enganados, que a dita crescia melhor se a gente tivesse tempo para passear, se a gente se levantasse mais tarde, se as reuniões fossem mais curtas e feitas à beira rio, a olhar o reflexo das árvores nas águas ou se eles, de vez em quando, me agraciassem com um poema. Mas, ocupados com noplats, ebitdas, swots e outras frioleiras, nem me ouvem. Não sonham com o que perdem mas esperar o quê se é sabido que os homens só conseguem usar um neurónio de cada vez...?

Mas, portanto, dizia eu que não é que a cidade me seja desconhecida. Mas é quase como se fosse. 

O meu marido hoje teimava que já estínhamos estado ali, justamente naquele sítio. Olhei. Sim, de facto. Mas quando? 

Nenhum cor-de-rosa faz sentido

Lembrou-se, então. No casamento de um colega. Todos vestidos de branco, de boné, enfeites dourados, de espada e nem sei se até de luvas brancas. Cruzaram espadas e os noivos passaram por baixo. Fizeram umas saudações. Uma coisa com simbolismo. Não sei qual mas isso também não interessa para nada -- foi bonito. Eu jovenzinha, cabelo curtinho, quase rapadinho, vestidinho com bordados às cores. Era ele marinheiro de água doce e, quando todos juntos, eram bonitos demais para imporem respeito a algum inimigo. Devia ter eu vinte e três anos, já uma filha bebé, e ele, vá lá saber-se porquê, foi chamado para ir fazer a tropa. Nem percebíamos. A tropa? Se já ninguém ia para a tropa, que ideia. Foi ele e mais uns quantos. Para a Marinha. Foi dar aulas. Deviam estar com falta de professores. Mais de dois anos. Ao princípio assustei-me, ia perder o emprego -- e que coisa era essa de ir para a tropa? Depois gostei, aquilo era bom. Mas ele não. Não tem pingo de militarismo. Apesar de aquilo ser agradável e de ser bem tratado e estimado, estava deserto para se ver livre de fardas. Convidaram-no: um curso nos Estados Unidos, uma carreira. Não quis. Tive pena. O Clube Naval, a Messe de Oficiais e essas coisas, tudo era deliciosamente civilizado.

Adiante que iso agora não é para aqui chamado.

Pouco tempo depois de lá estar, na Marinha, um dos colegas de recruta e de não sei quê (não sei como se chama o período a seguir à recruta) casou-se e convidou-nos bem como a outros marujos. Uma diferença abissal dos casamentos das nossas bandas. Logo que chegámos já havia banquete em casa dos pais dele. Depois o casamento e as fotografias. Estava calor como este sábado e aquilo não acabava. A minha tensão baixíssima. Depois o copo de água. Nunca tinha visto uma coisa daquelas. Não sei onde era, um espaço enorme, várias mesas corridas, centenas de pessoas. Começou a vir comida e não acabava, toda a gente comia como se não houvesse amanhã. As mesas davam a volta àquele enorme salão e ao meio as crianças andavam a correr e a brincar. Depois houve baile ali ao meio enquanto nas mesas ainda se comia.  Eu não, não conseguia. Mas também já nem conseguia ver comida. Tanto que aquela gente comeu, senhores. Tanto, tanto. Por fim, já andava tudo alegre, camisas de fora das calças, cantavam e dançavam e riam e bebiam, uma algazarra indescritível. Saímos de lá já de noite e eu com a cabeça completamente feita em água. 

Não é normal ter medo de amar

E é verdade, foi aqui e passámos por onde hoje voltámos a passar. A passear.

Passear: das coisas boas da vida.

Andar a pé, a ver tudo, a ouvir as paredes. Fotografar. O meu marido diz: 'É isto. Os exageros'. Gosta de andar em frente, sem parar. E eu gosto de tudo, paro a ver, fotografo. Hoje mais de duzentas. Mas há bocado, enquanto fui tomar um duche, disse-me 'deixa lá ver as fotografias'. Aborrece-se quando ando a fotografar mas depois gosta de ver. Também me fotografou. Ao ver, disse 'ficaste bem' -- e eu a achar que tenho que perder uns três ou quatro quilos.

Mas, como ia dizendo, hoje o dia foi tranquilo. Comemos bem mas não tanto como quando eu era uma miúda toda orgulhosa por ser casada com um marinheiro tão garboso; e hoje não houve cantoria nem baile armado.

Andámos imenso a pé. Horas. Quando ando mais cansada só me apetece espanejar. Escalámos a cidade, visitámos e espreitámos, horas de sobe e desce, e sinto-me descansada e leve que dá gosto.


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E, aqui chegada, volto a perguntar: onde é que eu ando?

Já recebi um palpite mas com ponto de interrogação. Não vale. Portanto, façam-me um favor: quero certezas, não perguntas.

Dou uma ajudinha. Bem, nem é uma ajudinha, é quase dizer o nome da cidade. Ora vejam a fotografia abaixo. 

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Tenho que incluir banda sonora...?

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E, enquanto não volto para tirar a prova a limpo, desçam, por favor, para uma informação preciosa a propósito dos ditos títalos universitários e para verem, logo a seguir, gente levitadeira.

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