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domingo, junho 06, 2021

Do outro lado do espelho

[A vida da gente não sai nos jornais]





Se não estou em erro, ontem foi a segunda vez, desde que comecei o blog, que não publiquei nada; e foi pela mesma razão que na primeira.

Não gosto de falar de assuntos desta natureza estando ainda a viver as situações pelo que omito a razão de fundo e sigo o conselho que recebi do meu filho, por mensagem, perto da meia noite, que me disse para me focar no ângulo antropológico para depois relatar no blog. Mas não posso seguir integralmente pois é tudo muito recente e excessivo. Talvez apenas algumas pinceladas, um primeiro esboço do retrato.

Direi apenas que penso que, verdadeiramente, jamais se poderá ter a noção da dimensão frágil e precária da natureza humana sem se estar dentro de um cenário daqueles.

A mulher que, deitada de lado, falava baixo, como se estivesse a conversar com alguém, uma conversa infindável, com pouco nexo, em que falava de ter cuidado em descer escadas, pendurar roupa ao sol, pedir que a 'outra pessoa' lhe ajeitasse a almofada, saber como estavam outras pessoas, o não sei quantos que andava coxo, ah não sabes? sim, sim, e os filhos vão lá levar as coisas, sacos do supermercado, e a não sei quantas, habilidosa na costura, ah não sabias...?, sim, faz batas para a fábrica, ah não sabias...?, não me digas, há tanto tempo que ela faz as batas.... Horas de conversa em voz baixa, uma voz frágil e monocórdica. E, no meio, para meu espanto, esta: ele diz: queres pelo cu ou pela frente. Apurei o ouvido para tentar perceber o contexto mas só ouvi, olha o galão... E logo voltou a falar como se conversasse com uma vizinha sobre outras vizinhas. De vez em quando alguém, muito alto, 'Schiu!' e ela, 'temos que falar mais baixo', e continuava naquela lengalenga infinita.

Ou o senhor, esquelético, com feridas, que agradecia amavelmente a toda a gente, em voz baixa, e perguntava o nome a toda a gente, uma simpatia, mas que, quando a sua vizinha do lado gritava -- ora como uma ave ferida ou como um animal a ser abatido a sangue frio -- elevava e engrossava a voz e gritava: 'Cala-te!' e dizia um nome de mulher. Pensei que seria a sua mulher. Contudo, na mudança de turno, tudo dito à frente de toda a gente, ouvi um outro nome. Provavelmente, gritava-lhe como antes gritava com a mulher.

Ou o rapaz que durante horas falou ao telefone, não sei se com alguém de verdade, se com um amigo imaginário, e sempre num tom furioso, agressivo: 'Não me digas para me calar porque não me calo. F...! Estou farto disto. Se não saio imediatamente, mando um par de bofatadas naquela p... ali, não me escapa, posso ficar aqui mas deixo-a estendida. E não me mandes calar! Não tenho medo nenhum. Quero lá saber que chamem a polícia. Eu quero é que estas gajas vão todos para o c.....!' Às tantas mandavam-no calar, outras chamavam-lhe malcriado. E ele continuava ao telefone: 'Não me calo nada. Era o que faltava que eu desse ouvido a estas cabras que me estão a mandar calar. Umas velhas que para aqui estão, todas umas p... de m.... Quero lá saber. Não tenho medo nenhum!'. E, volta e meia, levantava-se, aos gritos, sempre ao telefone: 'Vou-lhes aos cornos! Vais ver se não! Então julgam que isto fica assim? Que é que eu estou aqui a fazer? Pr'ó c...!' 

Ou a senhora que chorava, chorava, soluçava virando a cara de lado, um papel tapando-lhe a boca, e vomitava devagarinho, envergonhada de vomitar. Na passagem de turno, ouvi que está viúva há um mês e que desde então está sempre doente, desidratada, sem força.

Ou a senhora muito frágil, encolhida, ar amedrontado e envergonhado, que ouvi que é vítima de violência doméstica por parte do filho, que até há uma providência cautelar para que o filho não se aproxime dela, mas que não tem para onde ir, que não sabe o que fazer. De vez em quando, ouvia-a perguntar: 'Conseguiram falar com o meu filho?'. Que não, que ainda não tinha atendido o telefone. E ela encolhida, triste, envergonhada.

Ou a jovem suicida que durante horas chorou, gritou, ameaçou, insultou. Queria ir-se embora, dizia que estava a passar-se, que a deixassem sair. Depois era amarrada e gritava, chorava, insultava, soltava palavrões misturados com gritos cheios de lágrimas. A seu lado, uma voz segura, tratava-a pelo nome e dizia: 'não insistas, não é negociável, não sais daqui' e ela furiosa, chorando. Do outro lado, a mulher que várias vezes me fez rir, gritava: 'deixem a criança em paz'. E logo alguém a mandava calar. Entre choro, a jovem insistia. 'a sério, meu, deixem-me sair, a sério que não me vou matar...' A voz dizia-lhe: 'descansa, dorme, tens que te acalmar, fica calada, tenta descansar, não vais sair daqui às três da manhã' e logo a outra gritava do outro lado ´Três da manhã? Mau! Mas não eram três da tarde? Vocês são é umas grandes mentirosas' E logo alguém a mandava calar. Ela protestava: 'Toda a gente grita e chora e só a mim é que mandam calar...'. A jovem continuava o seu pranto: 'Vocês não têm o direito de me manterem aqui presa, deixem-me sair, a sério, meu, eu não me quis matar' A voz dizia: 'Ah não? Já viste como tens os braços? O que foi isso?'. A jovem entre choro, em voz muito alta: 'Há muito tempo que me corto, só que às vezes corre mal, meu, que mal é que tem?'. A voz: 'E achas isso normal? Porque é que te cortas?' E logo a mulher do lado de lá 'Para chamar a atenção' e a voz, fora do sério, tratando-a pelo nome: 'Cale-se, deixe-me falar com ela'. E a mulher: 'Mas a perguntar isso para quê? Deixe a criança em paz'.  E logo um outro homem, um que gemia e uivava baixinho: 'calem-se, porra, não deixam ninguém descansar'.

Ou o senhor, que tossia, escarrava, engasgava-se, gemia, chamava, que quando alguém lhe perguntava como estava dizia: 'perguntem à minha mulher, ela é que sabe explicar bem o que é que eu tenho' e mesmo quando lhe diziam: 'não senhor, o senhor é que está aqui, o senhor é que tem que nos dizer', ele, lamurioso, infeliz: 'falem com ela, vão chamá-la, digam para ela ficar aqui ao pé de mim...'

Ou a senhora que dizia, infeliz, chorando: 'meninas, meninas, preciso de ajuda, estou toda mijada' e depois, baixinho, a chorar: 'toda mijada, até o cabelo está mijado...'

Um dia talvez volte a algumas destas pessoas. Será uma forma de não me esquecer ou de deixar ficar o registo de quem não tem voz. Talvez tente o relato que o meu filho sugeriu, o relato de situações anónimas, sem história, momentos que, quem os vive, prefere esquecer. 

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Visões de  Hieronymus Bosch ao som de Antony and the Johnsons a interpretar "Epilepsy Is Dancing"

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

sexta-feira, março 13, 2020

Os tempos da peste.
[Inclui o poderoso testemunho de uma enfermeira]





Por todo o lado por onde ando, sinto um certo atordoamento como se estivessemos sem saber bem o que fazer perante o que parece ser o início do fim dos tempos.

Lá pelas minhas bandas, a cada momento nos chegam novas informações que nos levam a rever os planos, a cada momento ficamos sem saber como agarrar as pontas que se soltam por todos os lados.

Tudo muda a toda a hora e toda a gente precisa de saber agora como vai ser e uma pessoa já nem sabe bem como decidir num sentido e depois noutro contrário, ficando sempre com a sensação que o ideal era parar este filme. Hoje várias vezes tive vontade de dizer pára tudo, vai toda a gente para casa. Mas não dá. Não pode haver debandada. Tem que se coordenar quem vai, quem fica, como se organizam os que ficam, como se articulam os que ficam com os que vão.

Hoje já fiz várias reuniões por via remota mas uma delas foi uma confusão. Éramos muitos e estávamos distribuídos por sete locais distintos. Uma canseira. Não estamos bem treinados. E depois fiz uma presencial e teve que ser presencial pois os olhos nos olhos são fundamentais em determinados assuntos. Mas e as outras que tencionava fazer durante toda a semana que vem? Desumanizo-as? Suspendo-as? Tenho assuntos em marcha, não posso suspender tudo. 

A economia vai a pique e antevejo um desastre para muita gente. Por muitos apoios que o Governo injecte, e em boa hora anunciou que vai mesmo injectar, há actividades que não vão aguentar, há muita gente que vai patinar ou afogar-se à força toda. E a seguir -- e não sei quando será este 'a seguir' -- as coisas não voltarão a ser como antes. Os hábitos vão mudar. Pode ser que mudem até para melhor mas o período de readaptação poderá ser doloroso.

Ou seja, claro que haveremos de nos reajustar, surgirá uma outra forma de viver -- será, pois, uma oportunidade para quem tenha olho para o negócio. Mas à custa de muitas falências, muito desemprego, muita desprotecção. E, claro, de muitos sustos, de muito medo... e provavelmente de algumas vidas.

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Claro que as medidas ditadas pelo Governo são mais do que acertadas e tomara que toda a gente as perceba e leve a sério. 

Vejo os jovens que trabalham nas empresas por onde circulo todos divertidos, em alegres animações, como se nada disto os assustasse e prontos para irem para a farra.

Mas é com novos e com velhos. Hoje tive uma insistente e demorada conversa com a minha mãe pois contou-me que ainda hoje recebeu a visita de uma amiga e que amanhã tencionava ir à cabeleireira. Perguntei-lhe que parte do que tem andado a ouvir é que ainda não percebeu. Ambos com oitentas e muitos, ela que teve um problema oncológico há não muito, o meu pai com dependências severas e múltiplas, estão no topo dos grupos de risco. Como é que ela ainda acha que não vai dizer à amiga ou à vizinha que agora não há visitas para não as melindrar ou que não vai deixar de arranjar o cabelo para a cabeleireira não ficar ofendida? Fico exausta com isto. Digo-lhe e redigo-lhe: Mãe, são tempos de distanciamento social. Perceba que tem que se proteger a si e proteger o pai. Bolas. Tem que ter cuidado. E ouço-a a suspirar como se eu estivesse a dar-lhe uma ganda seca.

O João, que bebe do fino e sabe do que fala, enviou este gráfico que mostra o efeito benéfico e quase instantâneo do distanciamento social na propagação do COVID-19. Thanks, João.

A queda e o abrandamento das curvas falam por si

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Hoje chegou até mim o desabafo de uma enfermeira. Não consegui obter a sua autorização mas quem me fez chegar disse-me que achava que este texto tinha sido escrito justamente para ser partilhado. Portanto, aqui o deixo. Mas, se chegar ao conhecimento da sua autora e não o quiser ter aqui, bastará que me informe que eu, de imediato, o retirarei.
1) Lavem as mãos. Não me interessa se as lavam com sabonete de leite de burra importada das estepes dos Himalaias. LAVEM-NAS! Como se a vossa vida dependesse disso. De facto ela depende!  
2) Respeitem a etiqueta respiratória. Pelo amor de Deus parem de limpar o nariz e a cara às mãos que depois vão esfregar em todo o lado. Sim, isto é baseado em factos reais acontecidos hoje. 
3) Resguardem-se! Parem de ir para a porcaria da praia de Carcavelos quando deviam estar em casa. Estudem, leiam, durmam, vejam netflix (matava para ser igual a vocês e poder fazê-lo nesta altura). 
4) Honestamente não li nada sobre isto, mas tomem banho quando chegarem a casa e mudem de roupa, principalmente se não vão voltar a sair. 
5) Mantenham a casa limpa. Em vez de andarem por aí histéricos a tentar fabricar os vossos próprios geis desinfectantes para queimarem os dedos e acabarem a entupir urgências, peguem na esfregona, no pano e nos produtos de limpeza e mantenham a vossa casa limpa. 
6) Afastem-se. Mantenham a distância das pessoas de quem gostam e que podem estar mais vulneráveis. É tremendamente perigoso para as avós, tias e amigos vulneráveis o contacto com pessoas de risco.. Que como já percebemos, neste momento, somos todos nós. 
7) Tenham vergonha. Quando andam por aí nos hospitais a roubar as nossas máscaras, luvas, material desinfectante que já é tão pouco e nos vai ser tão necessário, fiquem a saber que se estão a roubar a vocês próprios. Ao exporem-nos desta forma estão a contribuir para que sejamos um risco para vós no momento em que precisarem. Se eu estiver desprotegida num contacto de risco, contrair isto e continuar a trabalhar adivinhem o que é que posso fazer à vossa mãe, irmão, avó... 
8) Por falar em vergonha... Eu tenho dias em que trabalho das 8 da manhã às 11 da noite, há médicos que trabalham 24h e por aí adiante. Não temos muito tempo para participar na vossa histeria colectiva a rapinar papel higiénico e latas de atum. O corona não ataca prateleiras de supermercado, ataca pessoas. Parem com essa merda. Sirvam-se criteriosa e ordeiramente. Ainda ninguém veio dizer que se está a racionar comida.. Mas continuem a portar-se assim que.. Oh well. 
9) Por falar em comida.. Deixem os chineses em paz! Anteontem de manhã só tive vontade de chorar quando vi a Katy, que é a dona da frutaria da minha rua, de máscara, luvas e um aviso na porta a dizer que os está a usar porque não quer que as pessoas pensem que pode contaminar alguém. Partiu-me o coração. Nesta palhaçada temo que se contamine a ela e aos outros. E numa perspectiva egoísta eu preciso dos morangos da Katy para sobreviver a isto. Se ainda houver morangos depois de vocês comprarem caixas de 5kg para apodrecerem lá em casa.
10) Respeitem-nos. Sejam atentos, honestos, contem - nos exactamente o que estão a sentir e o que está a acontecer convosco. Não omitam informação que possa ser importante. Não venham ter connosco ao hospital a menos que seja absolutamente necessário. Não chamem médicos a casa, não apareçam na urgência, não façam fitas ridículas. Quem fica de quarentena para ir para o Amoreiras também tem dedinhos para ligar 808 24 24 24. Se não atenderem procurem outros meios, mas que a decisão de ir a um serviço de saúde seja tomada em sã consciência, com a noção de que se não precisarem realmente se podem estar a expor desnecessariamente. A linha está a ser reforçada e vamos esperar que seja possível chegar a todos. Se a situação em casa vos soar a perigo de vida liguem para o INEM. Entendam que perigo de vida não é 37.3 de temperatura depois de se terem andado a esfregar nas areias de Carcavelos. 
11) Suck it up. Estamos todos assustados com isto. Eu não tenho medo por mim, embora tenha noção que não estou isenta de poder adoecer e morrer disto (é o mesmo barco para todos nós). Não nos agridam, não nos cuspam, não nos tussam para cima (boa parte destas coisas já aconteceram com colegas meus nos últimos dias). Ao fazê - lo estão a fazê-lo sobre vocês próprios. Se formos para casa não haverá ninguém. 
Casa. O sítio onde quero regressar no fim disto. O sítio onde espero e vou abraçar o António intacto e incólume no fim disto. É por ele que tenho mais medo. Pelas minhas irmãs. Pelas minhas amigas. Pela nossa família. Cada vez que um de nós sai de casa em direção ao trabalho estamos a assinar um cheque em branco para tratar de vocês. Respeitem isso. Honrem isso. Ajudem-nos a ultrapassar isto. Colaborem. Cumpram. Sejam sensatos. Isto é algo como nunca vimos.
Precisamos muito de ser profundamente solidários e civilizados neste tempo. 
Porque eu já perdi qualquer esperança de ser apenas enfermeira dos meus doentes no meu mundo encantado. Isso acabou. Somos todos por um.
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COVID-19 vs Flu


Professor Robert Booy from the University of Sydney, Head of Clinical Research at the National Centre for Immunisation Research and Surveillance, answers the following questions about COVID-19: 
What are the symptoms of COVID-19? How long does it usually last? Who is most at risk? What are the chances of recovery? Can the flu injection prevent COVID-19? 


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Saúde, coragem e calma, minha gente.

domingo, maio 17, 2015

Noite dos Museus em Lisboa - Obras marcantes [2º de 5 posts]


Este é o papel singular da alegria 
a lei errante do país 
é o maior dos silêncios. 

Caminhei por entre rios pontos de água 
estações de novembro 
pequena razão dos ventos da manhã. 




Não trafiquei não porque seja forte 
mas porque falo da alegria do estar sobre vós 
nestes pontos de água 
na acidez da flor 
neste país frequentado 

algumas coisas nunca mudarão. O rigor 
da luz torna invulnerável o desejo de perder 
esta pressa de verão. 




Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã 
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta 
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello 
longínquos. 




(Profanamos a casa não o corpo 
esta forma desenhada ruga a ruga 
esta cor amarela sobre a praia.) 



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A primeira fotografia mostra, no Museu de Arte Antiga, os Painéis de S. Vicente de Fora de Nuno Gonçalves.

As duas seguintes mostram, no mesmo museu, partes de Tentações de Santo Antão do pintor holandês Hieronymus Bosch

O poema é Este é o Papel Singular da Alegria de João Miguel Fernandes Jorge

Lang Lang interpreta Serenade de Schubert

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segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Sobre a falta de sensibilidade como uma patologia. E, do Expresso deste sábado, a palavra a Miguel Sousa Tavares, Manuela Ferreira Leite, João Duque, Paul de Grawe: o estado da Nação. As 'figurinhas deprimentes' de Hieronymus Bosch acompanham-nos.


No filme Barbara  - que, em grande parte decorre num hospital (não para mostrar o desenrolar do seu dia a dia mas porque é o cenário no qual o relacionamento entre os dois personagens principais vai evoluindo) - há uma altura em que dá entrada um jovem que tinha tentado o suicídio, tendo sofrido um traumatismo craniano.

Os médicos hesitam relativamente à necessidade de operá-lo mas resolvem esperar para ver como evolui o seu estado. Quando o jovem desperta e recupera a consciência, descansam. Recuperou a memória, responde a perguntas, tem uma fala clara e lógica. No entanto, qualquer coisa nele preocupa Andre, o médico.

Na noite em que fica de serviço, Barbara apercebe-se, então, que o que se passa é que o jovem perdeu as emoções. Vai a correr à procura de Andre e decidem, então, operá-lo.

Nos seus livros, António Damásio descreve casos assim. Na sequência de lesões cerebrais acontece que o raciocínio fique intacto mas que os acidentados fiquem destituídos da capacidade de se emocionar.

Pergunto-me se isso não teria acontecido a Passos Coelho. Alguns podem achar que ele é normal. Eu tenho dúvidas.

Perante o descalabro absoluto que se constata no estado económico, financeiro e social do país, Passos Coelho reage impassivelmente: que isto é quase aquilo de que se estava à espera, que tem que ser, que de outra forma não se atingiria o reino dos céus, ou seja, não se ficaria nas boas graças dos novos-deuses, os mercados, mas que, se as coisas continuarem assim, se calhar vai ter que rever as previsões.

Fico perplexa com isto.

É a mesma coisa que uma pessoa embarcar numa viagem a quem o guia prometeu lagos, planícies, searas ondulando ao vento e, ao fim de pouco tempo, ver que se meteu em túneis assustadores, precipícios, desfiladeiros sem protecção, gente a despenhar-se por ali abaixo, gente a soçobrar sedenta, esfomeada, esfacelada, uma coisa tenebrosa - e, perante a aflição a que se assiste, o guia dizer, tranquilamente, que já estava a contar mais ou menos com isto e que, se calhar, vai mudar um pouco a descrição do percurso. Ou seja, o guia em vez de reconhecer que se enganou redondamente e arrepiar caminho, persiste em continuar por ali fora. E as pessoas, indefesas, percebem que estão nas mãos dum sujeito pouco inteligente, inexperiente mas, pior que isso, perigoso, insensível, frio.

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Sobre o estado do País, pego do Expresso deste sábado, dia 16 de Fevereiro de 2013, e transcrevo alguns parágrafos de alguns artigos.




Um pouco de história, para recuarmos ao momento antes do advento de Passos Coelho.

Escreve Miguel Sousa Tavares


O primeiro governo Sócrates foi o único, em muitos anos, que conseguiu reduzir o défice das contas públicas e com crescimento económico, embora anémico.

O que o derrotou, depois, foi o efeito avassalador da crise nascida nos Estados Unidos e ter seguido à risca as orientações iniciais de Bruxelas de que o momento era de gastar sem olhar a quanto gastar para evitar que a crise financeira degenerasse em crise económica - o que veio a acontecer quando Bruxelas mudou radicalmente a sua abordagem à crise e começou a exigir contas públicas equilibradas.

Aí, sim, Sócrates e Teixeira dos Santos entraram em deriva e cederam ao pânico instalado na Europa - de que a trágica decisão de acorrer ao BPP e ao BPN foi o passo decisivo para o cadafalso.





Escreve Manuela Ferreira Leite sobre o tão falado corte de 4 mil milhões de euros e repare-se no tom amargamente irónico


Efectivamente, não se conhece o fundamento do seu cálculo, nem os critérios que conduziram àquele valor.

(sobre o corte dos 4 mil milhões) É também olimpicamente indiferente aos seus efeitos sociais, porque já antes deste, muitos outros '4 mil milhões' avançaram e agora é apenas mais um, esquecendo a diferença entre a dor quando se ataca a carne ou se atinge o osso.

O pior que pode acontecer é não nascer ou emigrar, o que, nos tempos que correm, é um bom auspício.




Diz João Duque,  presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão e antes indefectível de PPC


A ser conduzida como está, a política monetária europeia condena-nos à morte sem esperança e em regime de trabalhos forçados.




Volto a Miguel Sousa Tavares


Por mais sacrifícios que se façam, se as nossas empresas não conseguem sobreviver é porque o Estado português, nos dias bons, consegue financiar-se a 5% e as nossas empresas a juro algum, enquanto o Estado federal e as empresas alemãs se financiam a 0,5%. Assim, é fácil dar lições de austeridade aos PIGS e dizer aos gregos que vendam as ilhas.




Diz Paul de Grawe, Professor da universidade Católica de Lovaina,


A maior ameaça para a zona euro hoje em dia não advém da instabilidade financeira mas da potencial instabilidade social e política resultante da depressão económica para a qual foram empurrados os países da Europa do Sul e da qual resultam níveis de desemprego nunca vistos desde o tempo da Grande Depressão. Em certos países do sul da zona euro a taxa de desemprego está hoje bem acima dos 20%. O desenvolvimento mais dramático é o aumento do desemprego juvenil que está na Grécia e Espanha acima dos 50% e em torno dos 30-40% em Itália e Portugal.

Se a situação não for depressa revertida, pode levar a uma agitação social e política em sociedades que se tornaram incapazes de dar um futuro aos seus cidadãos mais jovens.




Volto uma vez mais a Miguel Sousa Tavares,


Alguma coisa de muito grave vai acontecer se continuarmos por este caminho e com um primeiro-ministro que, confrontado com os números da sua estratégia governativa, apenas tem para dizer que está preocupado mas que os números estão 'razoavelmente em linha com as previsões do Governo'. 

O país não aguenta isto muito mais tempo: ai não aguenta, não!


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As imagens são excertos de quadros de  Hieronymus Bosch, pintor e gravador da Holanda dos séculos XV e XVI. O pecado, a tentação, as figuras inquietantes, o pesadelo, a insídia, aparecem representados nas suas pinturas e é delas que me lembro quando falo dos tempos que vivemos e, em particular, da governação aberrante de Passos Coelho.

(Claro que sei que há muita responsabilidade nisto tudo dos especuladores financeiros, da lógica alemã, dos burocratas europeus, etc, etc. - mas há muita, muita, muita responsabilidade que deve ser atribuída aos governantes incultos e ignorantes que passivamente aceitam que o país seja uma dormente coutada, desgraçando, pois, Portugal e os Portugueses)

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Este já é aqui hoje o meu terceiro post. O seguinte é dedicado à sensibilidade de Miguel Relvas que hoje me apareceu aqui em casa, esgargalado, pescoço gordo, a falar-me sobre o que lhe tira o sono (como se eu acreditasse nalguma coisa que ele diz) e o terceiro é dedicado aos que lembram aos governantes que o Povo é quem mais ordena. Por isso, especialmente a uma certa pessoa que nunca se lembra de espreitar para ver se há mais algum post, eu sugiro que deslize por aí abaixo.

Talvez porque me dispersei um bocado com isto, ainda não é hoje que consigo responder aos comentários. É tarde, preciso mesmo de descansar, tenho muito sono e, ainda por cima, amanhã tenho que me levantar cedo. A ver se amanhã, apesar de chegar a casa bem tarde como sei que vou chegar, consigo retomar o meu ritmo normal. A todos aqueles que escreveram comentários (e que li, claro!!!!) as minhas sinceras desculpas.

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Ainda antes de me ir: muito gostaria de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras abrem a janela para que um anjo trazido pelas palavras de Alice Vieira e com um incêndio no peito me venha visitar. A música está a cargo de um novo grande intérprete, desta vez, intérprete de violoncelo. A música é de Elger e o virtuoso intérprete é Yo-Yo Ma.

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E tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 

sexta-feira, setembro 14, 2012

Passos Coelho e Paulo Portas, um desagradável casamento de fachada? Ou não? Dos dois, qual é o menos confiável? Que credibilidade tem ainda este Governo? Passos Coelho em entrevista na RTP 1 mostra que não aprendeu nada, que não percebeu nada e mostra que vai prosseguir na mesma senda e, se achar que são precisos mais sacrifícios, infligi-los-á, ora pois (e 'Bardamerda e caladinhos!' *). Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo diz que 'todos os poderosos deste país que lá puseram Passos Coelho, já perceberam que é um incompetente e já o abandonaram à sua sorte'. Face ao fim de ciclo que já se sente no ar, o que se vai passar? ... Avanço com algumas hipóteses.


Vi e ouvi Passos Coelho na entrevista concedida à RTP 1, agastado com a confrontação, a boca num esgar, aqueles olhinhos em viés que não revelam qualquer clarividência, contradizendo-se a torto e a direito face ao que anunciara em tempos eleitorais ou início de governação, revelando o amadorismo e a ligeireza com que encara todas as medidas, mostrando que, tudo o que faz, o faz em cima do joelho, mostrando que não é inteligente (e não me refiro apenas à inteligência racional, refiro-me também à inteligência emocional).




Tudo isto seria irrelevante se ele fosse estafeta numa empresa do Ângelo Correia. Mas, sendo Primeiro Ministro no meu País, é muito preocupante.

Aposta numa economia de salários baixos, não percebe as relações de causa e feito entre o que decide e as consequências que daí derivam, nem sequer percebe que a receita fiscal também é da responsabilidade do Governo - e nem acrescento muitos mais aspectos para tudo isto não ficar demasiado deprimente e  fastidioso de ler. Mas constatar como funciona a cabeça daquele homem é preocupante, é aflitivo. 

E voltou a mostrar que não sabe o mínimo dos mínimos a nível de aritmética. Diz ele que, uma vez que Belmiro de Azevedo vai baixar em 5 e tal por cento os custos de pessoal (por via da redução na TSU das empresas), pode baixar os preços, compensando assim o corte de 7% nos ordenados dos trabalhadores. Ouço isto e fico a pensar:  Passos Coelho ou é um demagogo encartado ou devia voltar ao ensino básico.




Conforme já aqui o disse, os custos de pessoal são uma pequena parcela nos custos totais das empresas. Na grande distribuição deve ser uma parcela pequena já que a principal parcela deve corresponder aos custos dos produtos em si. E há ainda outros custos como os das instalações, dos transportes, do marketing, etc. Mas, por simplificação, vou supor que a parcela correspondente aos custos com pessoal será da ordem dos 20%. Como a taxa da TSU das empresas baixa cerca de 5 e tal por cento, teremos (multiplicando os dois factores) um abaixamento de custos totais de cerca de 1 e picos por cento. Mesmo que Belmiro de Azevedo resolva baixar os preços em 1%, onde é que isso compensa os 7% que as pessoas recebem a menos?! Onde, senhores?!

E agora vem ainda dizer que este corte vai ser modelado, poupando quem ganhe salário mínimo e sobrecarregando mais quem mais ganhar. Ou seja, se em média vai cortar 7% e uns não pagam ou pagam menos, significa isto que, quem ganhar mais (quanto? acima de 1.000 ou 1.500€/mês), sofrerá um corte de quê? 10%? 14%? Inenarrável. Escandaloso. Impossível. E só não digo aqui um palavrão 'à maneira' porque, enfim, não sou mulher do norte. Mas é o que este indivíduo está a pedir. 

Não me vou alongar mais sobre a entrevista (estiveram bem, os entrevistadores), apenas referir que, pelo meio, Passos Coelho ainda arranjou maneira de entalar Paulo Portas perante o seu eleitorado.




Diz ele que obviamente todas estas medidas têm sido discutidas e trabalhadas com Paulo Portas, como não podia deixar de ser. Também acho. Seria desleal e esquisito se cometesse todos estes desmandos sem conseguir a cumplicidade do seu Ministro de Estado. Mas isto faz de Paulo Portas um de dois: ou é um banana a mando do Massamá Man, um banana que entra a defender uma coisa e sai de fininho a fazer tudo o que o outro quer, ou é um mentiroso que promete uma coisa aos seus eleitores e aos seus deputados e, no conforto dos gabinetes do Governo, faz exactamente o contrário.  


Mas hoje foi também o dia em que António José Seguro, formal, institucional, apareceu nas televisões a dizer que vai votar contra o Orçamento. Não é que eu estivesse à espera de muito mais mas, caraças!, aquele homem não consegue elevar um pouco mais a voz, transmitir um pouco de paixão? Mostrar que vai conseguir um governante todo-o-terreno? 

Mas ele é assim, paciência. Vai votar contra e fará muito bem. E se apresentar uma moção de censura também fará bem. Estamos a falar de serviços mínimos mas, enfim, ao menos isso.

*


Durante algum tempo, em público, falavam as vozes de quem, falando, tinha alguma coisa a perder. Os destemidos ou os malucos.

No entanto, a pouca vergonha foi tanta, o despautério foi de tal forma levado ao extremo que, aos poucos, uma a uma, as vozes dos que já não têm nada a perder, se fazem ouvir alto e bom som.

E a seguir falarão os que antes se acobardavam ou os que só falam quando o coro vai alto ou os que gostam de cavalgar a onda.

Desde há algum tempo que se vinha percebendo que esta gente que nos governa não representa nenhuma elite, nem a elite do saber, nem a da inteligência, nem a da nobreza de carácter. Começou a ser claro que esta gente se representa apenas a si própria ou, talvez,também investidores chineses, angolanos, ou os amigos da Ongoing ou outras organizações do género, talvez os amigos do Relvas.




Vítor Gaspar falhava todas as metas mas, usando linguagem hermética ou vagarosa, uns por não perceberem, outros por não terem paciência para acompanhar conversas em câmara lenta, foi passando despercebido. Era apenas um boneco fácil de imitar.

O Álvaro, coitado, andava sempre ao lado, e foi sendo ultrapassado pelo Relvas, pelo ministro clandestino Borges, por quem quer que fosse, até que desapareceu e as pessoas esqueceram-se dele. Era apenas um boneco fácil de parodiar.

O Crato revelava uma hipocrisia e um desconhecimento propício à balbúrdia mas, pela voz doce e pelo sorriso afável, foi sendo desculpabilizado especialmente pelo sector feminino da classe. Era apenas uma decepção que as professoras lamentavam, num suspiro.

O Portas apostou em andar longe da piolheira, fazendo-se passar por caixeiro viajante, sorriso espertalhão, verbo fácil e lá fora, onde sempre está, indo dizendo que, lá fora, não fala sobre o que se passa cá dentro. Ladino. Era apenas alguém de quem se fala quando a suspeição dos submarinos volta à ribalta.

E isto foi acontecendo, durante algum tempo, com todos os ministros a irem mostrando a sua incompetência mas ainda gozando da boa vontade dos portugueses. Apesar do descalabro evidente, as sondagens mostravam que o descrédito ainda não era total e ainda havia alguns, para além do inefável Carlos Abreu Amorim, que o defendiam.

O desemprego aumentando, o roubo descarado por parte do Governo aumentando, a dívida aumentando, e todos os dias mais impostos, e menos subsídios, e todos a ficarem mais pobres.  Mas tudo sendo tolerado, os portugueses são assim, míopes, macios – até ao dia em que se sentem ofendidos. Foi o que aconteceu. 




Até ao dia em que este Governo passou da conta. Até ao dia em que se soube que Relvas tinha feito a licenciatura através de um expediente que lhe permitiu obter um diploma fazendo 4 cadeiras, as quais nem tão pouco parece ter frequentado. Até ao dia em que foi público que já ninguém o respeitava e que foi vaiado em público, quase sendo impedido de prosseguir o discurso, com as televisões a mostrarem-no, sorriso amarelo e humilhado.

Sobretudo, até ao dia em que Passos apareceu a dizer que iam roubar 7% aos trabalhadores para darem 5 e tal aos patrões, indo o resto para os cofres do estado. Até aparecer na net uma fotografia de Passos, saído da conferência em que fez este anúncio, num espectáculo musical, a rir e a cantar ao lado da mulher, igualmente galhofeira.




Até ao dia em que escreveu no facebook a desculpar-se, feito fedelho parvo. Até ao dia em que, a seguir, apareceu o Gaspar a dizer que isso e mais uma subida de IRS e mais um corte nas reformas e mais despedimentos e mais não sei o quê.

Até ao dia em que a net foi inundada por gente a tratar Passos Coelho por cobardolas, reles, ordinário, merdolas, gatuno e outras expressões que me abstenho de transcrever. 




E aí percebeu-se que, de repente, todo o respeito também por ele se tinha esgotado. E aí percebeu-se que os seus dias como Primeiro Ministro estão a chegar ao fim.

Antes de ontem de tarde foi João Galamba (e que bela figura ele tem...!) que, num discurso inflamado, quase agarrou Vítor Gaspar pelos colarinhos, chamando-lhe irresponsável. E as televisões mostraram um jovem aguerrido, peito feito, a defender o povo - e um ministro fraco, desligado da realidade, fora de jogo.

E, de noite, foi Manuela Ferreira Leite que desmontou, trucidou, pisou e cuspiu em cima de toda a política económico-financeira-social deste Governo. Depois de tudo o que ela disse, sendo ex-líder do PSD, ex-ministra das Finanças, amiga pessoal do Presidente da República, nunca mais ninguém deste Governo vai ser ouvido com respeito. 

De manhã foi também Rui Machete, também ex-líder do PSD, que disse na TSF que as medidas são desproporcionadas e que o Governo tem que arrepiar caminho. À hora de almoço ouvi José Eduardo Martins, ex-deputado, ex membro de um anterior governo,  dizer que se fosse deputado e o Governo prosseguisse nesta senda, resignaria e que votar este Orçamento é para os deputados do PSD uma questão de consciência.

E as televisões de repente encheram-se de gente que mostra o mais profundo desprezo por este elenco governativo. Veja-se, por exemplo Jorge Rebelo de Almeida, da Conferação de Turismo e presidente do Grupo Vila Galé, durante o programa de José Gomes Ferreira, "Negócios da Semana", na SIC Notícias. Por favor, queiram ver o vídeo aqui e perceberão o asterisco que aparece no título.

E hoje, ao ouvir os debates que se seguiram à entrevista de Passos Coelho, alguns já falavam no passado. Este Governo já era.

As pessoas perguntam-se: o que acontecerá a seguir?




Já aqui o tenho dito: não acredito que este governo se aguente muito tempo. Pela lei natural da vida, espécimes incapazes têm dificuldade em sobreviver. 

Agora... e como é que cai?

Cá para mim,

1. Ou Paulo Portas ganha vergonha e, em nome do respeito que deve aos seus eleitores,  rompe a coligação,

2. ou os próprios deputados do PSD ameaçam chumbar o orçamento e Passos Coelho reconhece que não tem qualquer condição para prosseguir com a destruição do País, e demite-se,

3. ou todas as forças políticas e sociais em conjunto com a opinião pública e com a rua mostram que o Governo não tem quem o apoie

e Cavaco não tem como manter-se feito esfinge e parte para a acção.




E, uma vez o Governo demitido, o que fará Cavaco a seguir?

É até lapaliciano dizer mas acho que das duas, uma. Ou convoca eleições antecipadas ou forma um governo de união nacional que tenha o apoio de uma maioria estável. Penso que ele, na cabeça dele, se inclina para esta segunda hipótese: escolher figuras de mérito e experiência incontestável que mereçam acordo generalizado.

A hipótese de marcar eleições parece-me a mim que não seria muito oportuna neste meio tempo. Além disso, com uma destas, a liderança do PSD vai automaticamente à vida, pelo que o PSD teria que ir, internamente, a votos. Por outro lado, é sabido que António José Seguro está longe de ser consensual dentro do PS. Quanto ao CDS, se Paulo Portas não sair do Governo pelo seu próprio pé, dificilmente se aguentará como líder do CDS.

Não me refiro ao PCP e ao BE pois, nos tempos que correm, não são partidos de poder. O BE, para além disso, também está a atravessar um período de mudança de liderança. 

Ou seja, penso que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, preferirão que alguém tome conta do pedaço até que tenham tempo para se reorganizarem e aparecerem com caras novas numas próximas eleições, talvez no fim do contrato com a troika.

Seja. Não é difícil governar melhor do que este Governo o faz.

Quem sabe se a mudança para outros tempos, melhores tempos, não está a chegar?


*

Quero ainda deixar uma palavra sobre a manifestação de dia 15. Trata-se de uma manifestação convocada sob o lema ‘Que se lixe a troika’. Ora parece-me um tiro ao lado. Não há, de momento, hipótese de viver sem apoio externo. O acordo deverá ser revisto, isso sim, e a troika não iria contra isso. Mas a troika também já deixou bem claro que as políticas para se atingirem as metas são da responsabilidade do Governo. O que está mal neste País é a governação a que temos estado sujeitos, uma governação má em tudo, até no facto de não ser capaz de negociar com a troika, coisa que é imprecindível fazer. Quem tem que ser corrido é este Governo, não a troika (pelo menos, não já).

Por isso, hesito na minha participação. É certo que provavelmente ninguém atenta bem ao lema e as pessoas irão manifestar-se contra o actual estado de coisas e não, em particular, contra a troika. Mas eu sou dada a rigores e custa-me alinhar numa manifestação cujas palavras de ordem talvez não mereçam o meu total acordo. No entanto, penso que seria importante que as ruas ficassem cheias para mostrar o desagrado geral. E é isso que me faz balançar. Tenho ainda que pensar bem no que farei.

*

As pinturas são excertos de quadros de Hieronymus Bosh, pintor holandês (1450-1516).

A fotografia (que circula na net e cuja autoria desconheço) mostra o Primeiro Ministro feliz da vida depois de anunciar o corte de 7% aos rendimentos de trabalho.

*

Para quem se interesse pelos destinos do País e ainda o não tenha lido, permito-me recomendar a leitura do texto de um Leitor de Um Jeito Manso, J., já aqui abaixo. É um texto deveras interessante.

*

E é isto, meus Caros. Desejo-vos uma sexta feira muito feliz.

terça-feira, agosto 07, 2012

Museu de Arte Antiga em Lisboa - um lugar privilegiado que merece ser visitado uma e outra e outra e outra e sempre mais uma outra vez


Música, por favor, para vos acompanhar


"Oh! Quand je dors", Liszt - Teresa Cardoso Menezes (soprano) and Andreia Marques (harpa) 



No Expresso do sábado passado, havia um apontamento sobre um passeio de Maria José Morgado por Lisboa que incluía uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Isso fez-me lembrar que, durante alguns anos, muitos e bons, trabalhei mesmo junto ao Tejo e que, à hora de almoço, um dos meus locais preferidos era o restaurante e o jardim do Museu de Arte Antiga, museu de que gosto particularmente.




Tentações de Sto Antão - de tudo o que se pode ver no MNAA esta é, de longe, a obra de que eu mais gosto
Jheronymus Bosch (Hertogenbosch, 1450/60-1516)
Assinado (canto inferior esquerdo do painel central)
c.1500
Óleo sobre madeira de carvalho


Como já muitas vezes aqui o referi, a arte de que mais gosto é a arte abstracta, quanto mais abstracta mais eu gosto. Acho que é (demasiado) fácil retratar. Difícil é abstrairmo-nos do que conhecemos, tal e qual vemos, e conseguir conceber imagens, figuras, objectos que não são meras representações da realidade. Por isso me emociono muito mais com as manchas cromáticas de Rothko do que com as representações quase fotográficas de tantos pintores. Por isso, de tudo o que de tão belo se pode ver no MNAA, é das Tentações de Sto. Antão que eu mais gosto. Há ali um fantástico rasgo, uma loucura visionária, um desprendimento da moral e costumes da época; e, portanto, pela intemporalidade, esta é uma obra que atravessará todos os tempos mantendo-se, sempre, uma obra moderna.

De resto, gosto muito do MNAA não tanto pelo tipo de arte exposta mas pelo museu em si, pela arquitectura do espaço (um espaço que é um lugar de contemplação e de meditação, um lugar de serenidade), pela distribuição das obras pelo espaço, pelas cores quentes, pela forma harmoniosa como as peças se integram no conjunto - e como nos convocam.



.                                                                                                                          .  


Gosto de me passear pelas salas e de olhar as obras, nomeadamente as pinturas, embora, como disse, não seja o tipo de arte que mais cativa a minha atenção. Olho e é como se olhasse com indiferença mas, sem que eu perceba, gosto de lá voltar uma e outra e outra vez. Deve ser o meu lado difícil, gosto que me seduzam persistentemente e gosto de me armar em esquisita até que, finalmente, caio rendida, perdida.



.                                                                                                                         . 


Não tem conta o número de vezes que já lá fui. Quando os meus filhos eram pequenos (até entrarem na adolescência, isto é, até à idade em que começaram a recusar-se a ir a este museu e a outros que tais), arrastávamo-los connosco e, assim, foram lá muitas vezes. Gostavam sobretudo de subir a escadaria e andar de sala em sala, mais na perspectiva de exploração do espaço do que de apreciar o exposto.

Na altura, achavam uma seca andar quase todos os fins de semana a visitar museus e exposições. Detestavam arte antiga, gozavam com a arte moderna. Tirando o Museu do Brinquedo e, no caso do meu filho, o da Marinha e o do Exército, e isto quando eram mesmo pequenos, tenho ideia que não iam de gosto a nenhum. Achavam também alguma graça ao Palácio de Queluz ou ao da Ajuda ou de ao de Sintra mas, como eram espaços grandes, ao fim de algum tempo já andavam completamente impacientes. À Gulbenkian também íamos quase todas as semanas pois, mesmo que fossemos primeiro a outros, era normal lá irmos almoçar e, claro, aproveitávamos para ver o que havia de novo.

No entanto, apesar de, na altura, protestarem consideravelmente, agora têm grande gosto por arte, visitam e apreciam bastante e têm uma mente aberta e um espírito crítico - e eu penso que, muito disso, se deve à desformatação mental a que foram sujeitos quando eram pequenos.

Mas, voltando ao MNAA, quando lá ia almoçar (e todas as semanas ia, pelo menos uma ou duas vezes), a maior parte das vezes não ia, obviamente, visitar o museu: ficava-me pelo restaurante, pela esplanada, pelo jardim.



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O jardim é um jardim romântico, maravilhoso, e de lá tem-se uma luminosa vista sobre o Tejo, sobre os cais, sobre a outra banda. Almoçar ou lanchar ou simplesmente estar naquele jardim é das boas experiências desta vida. É um jardim abrigado, fresco, onde, querendo, se apanham bons banhos de sol enquanto se lê um livro, se namora, se conversa, se olha sem preocupação de ver. (Estou a escrever isto e já cheia de saudades de lá voltar).

Também já lá estive em eventos fechados, ou seja, eventos organizados por empresas que contratam o espaço do restaurante para encontros e o jardim para almoços volantes ou cocktails. É sempre uma maravilha pois o espaço cria, automaticamente, um ambiente de excepção.


Mas a minha ligação a este museu vai um pouco para além do que referi. A irmã de uma grande amiga minha e com quem eu, na altura, também me relacionava é historiadora de arte, pessoa com ligação a museus (e com filhos ligados, de várias formas, às artes); e, em especial, tinha uma colaboração regular com o MNAA. Uma das coisas que também fazia (tenho ideia que, por vezes, com o apoio de algum dos filhos) era desenhar jóias a partir de motivos pertencentes a obras expostas. Podia ser um pendente para um fio que reproduzia o desenho de um bordado de uma figura que integrava um certo quadro, podia ser um pregador que tinha o desenho de um pormenor de uma peça em prata exposta, etc. Muitas vezes, quando fazia as provas, levava-as e eu via-as e ela gostava de saber a minha opinião. Tenho várias peças dela em prata, peças que eram, depois, vendidas na loja do museu. Durante esses anos, eu geralmente usava gargantilhas ou fios com pendentes em prata branca ou dourada ou pregadores feitos por ela. 

Com ela aprendi a reconhecer nas obras os motivos que a inspiravam, com ela aprendi a ver com uma atenção especial tudo o que estava exposto. 



Custódia de Belém
Gil Vicente (ourives com actividade conhecida entre 1503 e 1517)




Com ela aprendi a não me deixar impressionar apenas pelo conjunto mas a reparar também em cada pequeno pormenor.

Cada pessoa tem a sua forma particular de reagir à arte. Há quem tenha uma abordagem académica, racional, sistemática. 



Painéis de S. Vicente
Atribuído a Nuno Gonçalves (activo 1450-antes de 1491) 

E há os que, como eu, se regem pela reacção quase sensorial, uma reacção emocional às coisas.

Gosto e não sei porque é que gosto, nem me interessa saber, nem sei nem me interessa descrever o que vejo porque não sei nem me interessa decompor o todo nas suas partes. O que registo é o conjunto, a cor, o movimento, a luz, é o qualquer coisa de indefinido - e é esta abordagem holística que eu, aos poucos, vou aprendendo a domesticar, tentando pixelizar o todo e analisar cada pequeno fragmento.



Tapete do século XVII.
Este é um dos tapetes que fiz mas, neste caso em particular, e é o único caso em que isso acontece,
com cores diferentes destas


Foi também lá, no MNAA, que me deixei tentar pelos motivos originais dos Tapetes de Arraiolos e, por isso, com excepção dos que faço à mão livre com desenhos que se vão formando enquanto bordo, todos os outros são desenhos originais do século XVII, alguns deles expostos no MNAA.

Para quem não conheça o Museu e não tenha possibilidade de vir conhecer, aqui deixo a ligação para uma visita virtual. Clique aqui e depois vá escolhento com a setinha o que quer ver e, uma vez lá estando, (ex: escultura portuguesa), use as setas laterais para ir vendo à volta o espaço em que está.

Finalmente uma referência à Loja do Museu. Nesses tempos em que lá ia assiduamente, ao ir para o restaurante ou para o jardim, passava inevitavelmente pela loja. Era uma tentação. Adquiri lá uma série de peças mas aquela de que mais gosto é a que vos mostro aqui abaixo.



Peça de madeira maciça, de razoável dimensão, pesadíssima
(andei à procura do certificado porque agora tive uma branca e não me lembro
qual a figura representada mas também não o encontrei.
Quando me lembrar ou encontrar o certificado, venho aqui e rectifico a legenda).

[À esquerda uma peça pela qual tenho particular carinho, oferecida quando nos casámos]


Resumindo: agora que é (para muitos) altura de férias e de dolce fare niente, se não souberem onde hão-de ir de passeio, se vos apetecer uma tarde bem passada, se vos apetecer o contacto com uma beleza intemporal que se entranha, com um silêncio que suaviza as almas, com uma cor envolvente e íntima, e com uma emoção tranquila, se vos apetecer elevar (ou aligeirar?) o espírito no ambiente de um museu muito especial, então não deixem de vir ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Eu, de certezinha absoluta, lá irei, de novo, um dia destes. E sempre lá hei-de voltar uma e outra e outra e outra e outra e sempre ainda mais uma outra vez.

**

Amanhã é outra vez um dia de festa na minha família. Não tenho aqui referido todos os dias de celebração para não me tornar maçadora mas, como há tempos vos disse, por estes meses de Verão, é semana sim, semana sim e, pelo meio, por um ou outro motivo, os dias são quase sempre de festa e alegria também. 

E o que vos desejo a vós, meus Caros Leitores, é que tenham também um belo dia. Mesmo que sintam que não têm razões para festejar, por favor pensem que estar vivos é uma bênção. E, havendo saúde, a bênção é ainda maior. E se, em cima disso, houver trabalho ou o dinheiro da pensão ou do subsídio pago no fim do mês, melhor ainda. E se, em cima disso, houver família ou amigos (mesmo que apenas virtuais), melhor ainda. E, porque vivemos em paz, a bênção é ainda maior.

Cada dia merece ser vivido com agradecimento - é o que eu penso. E, por isso, muito sinceramente vos desejo, um dia bem vivido, sejam quais forem as vossas circunstâncias. Há que honrar a vida.